14 julho 2020

Aprenda o maravilhoso idioma do Futebol.

Mais recente Copa do Mundo, o torneio da FIFA, ocorrido na Rússia no ano de 2018, pode ter sido a última copa mundial para muitos torcedores, notadamente os do grupo dos mais provectos matusaléns entre os amantes do esporte das multidões. A pandemia que ora assola o planeta está dando pinta de que gostou tanto de seu infeccioso trabalho que pretende esticar sua permanência por aqui, o que impossibilita prever se a próxima Copa, programada para 2022, irá mesmo acontecer ou terá que ser adiada ad infinitum. Quanto ao autoproclamado "país do futebol", ainda que depois daquela humilhante derrota de 7x1 para os germânicos nosso entusiasmo com a seleção brasileira de futebol não seja o mesmo de gloriosos tempos pretéritos, seguimos amantes de um esporte que já nos trouxe tantas alegrias e glórias, e não se pode deixar passar batido um papo sobre o esporte bretão e suas particularidades. Pois bem, senhoras e senhores, mocetinhas, mocetonas e varões deste patropi, saibam que o mundo do futebol utiliza em sua comunicação um palavreado próprio que os não iniciados soem desconhecer completamente. Com esta postagem, leitor, vocês ficará completamente por dentro da jogada.

 1. Cruzamentos                                           
 Quando estão afinzonas de um jogador, as assaz determinadas Marias-Chuteiras costumam usar e abusar dos cruzamentos para que seu alvo - e não estou falando de tom de pele - perceba que está sendo convidado para adentrar o gramado lá delas, que por sinal está sempre em excelentes condições para a prática de um match de muito mais que 90 minutos, com direito a intermináveis prorrogações.

2.Invadindo a pequena área
 Em tempos d'antanho, que longe vão, as donzelas militantes e juramentadas, mesmo subindo pelas paredes e morrendo de vontade de dar, por questões da moral vigente não podiam deixar que a rapaziada do Bráz - ou de qualquer parte -  invadisse suas grandes áreas. Suas pequenas áreas, então, nem pensar. Hoje, com a revolução sexual, está valendo tudo e se o jogador não vai à linha de fundo da parceira um monte de vezes fica mal falado porque atualmente no campo do sexo está valendo tudo e mais um pouco.

 3. Gol de bico
  Recurso muito utilizado no futebol feminino, embora aparente ser um tanto dolorido.

4. Impedimento
  Em certos dias do mês a namorada do jogador costuma exibir um cartão vermelho-sangue para ele, uma coisa verdadeiramente menstruosa, digo, monstruosa. Assim, impedido de penetrar a zona do agrião da sua amada e desejada, o craque sai de campo de cabeças baixas.

5.Entrando com bola e tudo
Maria-Chuteira que se preza adora quando o craque malhadão mostra seu gingado e parte com tudo pra cima dela com toda sua maledurência, indo fundo e adentrando a meta com bolas e tudo. Aí é aquele delírio, galera!

6. Elemento surpresa vindo de trás
Nunca é demais dizer que o elemento surpresa é decisivo e muitas vezes é preciso uma virada de jogo para satisfazer as gatinhas que estão cada dia mais fogosas, mais exigentes e mais sem barreiras. 

7. Triangulação
 Tem mulher de jogador que acha que um pouco, dois é bom e três é bom pra caraca, que é do cacete. E bote cacete nisto! Toda véspera de jogo o marido boleiro vai para a concentração por ordem do técnico linha-dura do time e lá fica com um monte de barbudos, deixando em casa a excelentíssima. E bote excelentíssima nisto! Já ela, sempre fogosa e insaciável, aproveita para se concentrar em sua alcova com o sempre prestativo Ricardão Fenômeno que chega cheio de amor pra dar, faz um prévio aquecimento secando rapidinho todo o scotch do ausente marido atleta, e depois de  mostrar seu invejável alongamento que sempre deixa a moçoila babando, vai adentrando no maior pique o gramado da ansiosa beldade e dando aquele show de bolas para o êxtase da gata.

8. Tabelinha
 Jogadores de futebol juram o tempo todo que têm o maior respeito e amor pela camisa do seu time. Já pela famosa e popular camisinha costumam deixar claro que não sentem o mínimo respeito nem amor algum, demonstrando total desprezo pelos preservativos. De sua parte a Maria-Chuteira diz que não usa pílula porque não se dá bem com químicas e prefere adotar o método da tabelinha, mais natural e saudável. Aí, num retumbante dia, a tabelinha falha e a sarada barriguinha da moça, moldada em academias, começa a crescer, crescer, crescer. O resto é aquela velha história: depois de nove meses um advogado com a cara do Sérgio Mallandro - ié, ié! - aparece na porta da luxuosa-porém-kitsch mansão do jogador com um risinho irônico nos lábios, exibindo um teste de DNA numa das  mãos e trazendo na outra uma ordem judicial  mostrando que o boleiro vai ter, pelo resto de sua vida, de morrer todo mês com uma milionária pensão a ser paga à Maria-Chuteira.
(13/05/14)

08 julho 2020

Camelôs da fé e suas igrejas que lhes dão fortunas e poder

Usando o nome de Deus como irresistível publicidade e o de Jesus Cristo como infalível garoto-propaganda, valendo-se de suas inegáveis capacidades de comunicação de massa e de persuasão, de seus poderes de oratória, vendem a fé como camelôs vendem produtos suspeitos numa esquina. Usando o forte poder da mídia televisiva e radiofônica, determinados sacripantas, ditos líderes espirituais, terrivelmente canalhas e anti-cristãos, cheios de uma enorme lábia e de um arsenal de más intenções, valendo-se de discursos inflamados, cheio de conceitos anacrônicos, equivocados, distorcidos, carregados de preconceitos que mal dissimulam um inconsequente e perigoso ódio aos que não caem nas insidiosas armadilhas que suas línguas bifurcadas armam para os incautos, conseguem encher as burras com fábulas de dinheiro que vêm, em sua maior parte, das classes mais pobres, carentes em todos os sentidos, da classe média e até de atletas, dos remediados aos milionários. Todos entregam de mão beijada a grana que dá a boa parte desses tais "líderes espirituais" o privilégio de morar em suntuosos palácios que em nada lembram os lares da maioria dos seus seguidores e bem diferente do que pregava o santo rabi. Eis o crime perfeito. Tão perfeito que nem considerado crime o é. E ai de quem tentar dizer o contrário aos fanatizados cordeiros que lhes entregam o que têm e o que não têm. Hoje, como bem se vê na internet, os próprios canastrões midiáticos oferecem farto material que evidenciam suas mutretas espantosas. Usando em tudo e por tudo o nome de Deus, sem cerimônias nem medo de punição. Há os que induzem os incautos a darem dinheiro que porventura ainda tenham, até mesmo estando desempregados. Outros choram copiosas lágrimas de crocodilo como que implorando doações aos ingênuos que se comovem. E por aí vai. É tudo explicitamente explícito pois eles se sentem intocáveis, inatingíveis. Há os que, sorrindo cinicamente, desafiam a quem queira desmascará-los e fazem ameaças acintosas dizendo ter um exército de advogados a sua disposição para processar os que se atreverem. Muitos deles estão ligados com o mais execrável lixo político e forte é a suspeita de que lavem dinheiro vindo de falcatruas dessas máfias políticas. Associados com o que há de pior na política,  tramam impor uma teocracia em que possam manipular toda a população, impor-nos seus torpes fundamentalismos.  E quando algum desses ditos líderes é apanhado em alguma de suas armações, há aqueles que dizem que o fiel não deve cumprir o seu papel de cidadão decente denunciando o inegável crime e o ladrão, que deve apenas mudar de igreja e não denunciar nada, tornando-se cúmplice do salafrário. Vivemos um mundo de disputas brutais em que os métodos utilizados por muitos são abomináveis. Pessoas buscam nas igrejas a esperança, a fé, razão para viver. Conheço líderes espirituais autênticos, seríssimos, gente que honra e dignifica o que fazem. Sou amigo pessoal de um pastor evangélico, pessoa consciente, que ajuda enormemente sua comunidade. Muitas pessoas, os chamados fiéis,  veem nas igrejas uma uma boia de salvação e se agarram fortemente a ela. É aí que entram em cena os aproveitadores usando o santificado nome de Deus para conseguir o que querem para si. Os muito crédulos, carentes e desinformados acreditam e depositam nesse bando, nessa súcia todas as suas esperanças e, é claro, seu escasso dinheirinho ganho tão duramente. Agarram-se a eles e a seus ditames buscando experimentar a sensação de que não estão sós nesses tempos de grandes e nefastos individualismos, torpeza e sordidez sem limites. Entre eles, iludidos,  os ditos fiéis sentem-se protegidos de todos as tormentas da vida. Querendo evitar o mal, seguem justamente para ele, sem desconfiar que estão voluntariamente se imolando no altar onde, disfarçado de bem, está o mal que dizem intentar evitar. Mas lembremos que muitos não embarcam nessa canoa enganados, iludidos. Por detrás dessas aparentemente puras intenções há também motivos não tão puros assim. Acumular riquezas sem repartir, ostentar, comprar carros, casas, enriquecer às custas dos semelhantes, por exemplo, é meta de muitos dos tais fiéis, para os quais o céu pode esperar, importando bem mais os bens materiais que possam vir a acumular graças ao que eles alegam ser a vontade divina. Que Deus ilumine e dê proteção a essa infausta gente crédula. E que nos livre a todos nós desses camelôs da fé. 
(071215)

02 julho 2020

Professor Pasquale fez forfait no ensino de Português, mon Dieu!

Por sempre me faltar l'argent jamais tive uma garçoniére. Nunca fui habituée de rendez-vous, em compensação frequentei muuuito o boudoir de uma madame altamente distinta. Enquanto eu, muito cafona, envergava na cintura uma pochette, ela - muito chic - ia de nécessaire e manteau. E, para meu gáudio, essa femme fatale nunca usava soutien, ficando très jolie de lingerie, e assaz coquette em uma négligée preta e em um peignoir transparentemente revelador que era de matar le diable. Mas o que ela curtia mesmo era ficar au naturel para um tête-à-tête amoroso à luz difusa do abat-jour lilás. Ulalá! A frase que eu mais ouvia dela era "Voulez-vous coucher avec moi ce soit?" Eu sempre dizia "oui" sem falar uma palavra, de um modo que nem Marcel Marceau faria melhor. Ela sempre organizava uns soirées na base do petit-comité, onde eu era o piéce de résistance, que não sou fraco, não. E a danadinha sempre convidava uma certa mademoiselle muito cheia de predicados que fazia miché e - noblesse oblige - com um belíssimo derrriére de se comer rezando, sendo que a talzinha era uma mistura de uma jovem Catherine Deneuve com a Isabelle Adjani, e dona de um menu sexual ricamente sortido, sendo ela apetrechada de habilidades que me transformavam em um Marquês de Sade afro-baiano. Sacré bleu!, mas que pas de deux, que nada!, a gente se enroscava num ménage à trois alucinante - que eu não sou de ficar só nessa de voyeur - e lá vinham elas com miríades de bouquettes e eu com um verdadeiro pot-pourri de safadezas para atender a ambas, a todo instante solicitando meus proverbiais faire minettes. Bem, se alguma coisa eu tenho nesta vida é savoir - faire em sacanagens de alcova e aí tome-lhe entrée e reentrée, entrée e reentrée, entrée e  reentrée, a meio seus gritos e sussurros, e eu naquele déjà vu só vendo la vie en rose. Vive la différence! Insaciáveis elas vinham prá cima de moi, e eu, sendo o crème de la crème, não deixava barato e fazia minha parte comme il faut. E bota comme il faut nisto. Et alors, c'est fini. Ao som de La Marseillaise em ritmo de samba, mes chers amis, maintenant eu lhes digo au revoir.
(030214)

29 junho 2020

Jegues diplomados / Frases do Barão de Itararé 1

Diplomas não encurtam orelhas de ninguém.
(Já dizia Aparício Torelly, Barão de Itararé)
(29/10/16)

Penosa é a vida / Frases do Barão de Itararé 2

Quando o pobre come frango, um dos dois está doente.
(Já dizia Aparício Torelly, o Barão de Itararé. Esta fez tanto sucesso, foi tão repetida de boca em boca, que acabou virando um ditado popular.)
(20/10/16)

Decerto é deserto / Frases do Barão de Itararé 3

Não é triste mudar de ideia. Triste é não ter ideias para mudar.
(Já dizia Aparício Torelly, o Barão de Itararé)
(201016)

10 junho 2020

.Jorge Amado, Floriano Teixeira, Setúbal.

Em postagens anteriores falei do Floriano Teixeira, artista maravilhoso e ser humano iluminado, cara do bem, divertido, bom papo, de caráter sem jaça. Bateu uma fortecíssima saudade e fui ao meu baú cheio de recuerdos de Ypacaraí com o precípuo escopo de fuçar no intuito de conseguir alguma foto que eu tivesse tirado ao lado de Floriano. No meio da grande bagunça que é esse meu larestúdio, em um cantinho ermo do relicário imenso deste amor achei estas fotografias aí em cima, ambas tiradas quando Floriano Teixeira e Jorge Amado vieram me abraçar durante uma exposição de caricaturas que fiz no Shopping Iguatemi, nesta Soterópolis. Glória das glórias! Dois gigantes das Artes brasileiras que, apesar do endeusamento geral mundo afora, mantinham-se sempre como pessoas de notável simplicidade, companheirismo, sinceridade e solidariedade a toda prova, diferente, bem diferente de um magote de cabotinos desapetrechados de lídimo talento que pululam em toda parte e com os quais topamos a todo instante, contrariando em muito nossas vontades. E nem é bom citar o imenso tsunami de mediocridades gerais e malevolências patológicas com as quais turbas doentias insistem em atormentar nossos presentes dias.  
Saudades de Jorge, saudades de Flori, seres humanos extraordinários, a bonomia, a excelência de conduta e a beleza d'alma personificadas, que fazem uma imensurável falta a mim, a todo o povo baiano, ao planeta e à espécie humana. Sorte nossa que, ultrapassando o mero aspecto físico, de forma perene, através de seus trabalhos fantásticos e imorredouros eles permanecem entre nós, iluminados que sempre foram e que seguirão sendo pela eternidade.
(180303)

 

06 junho 2020

Sylvio Lamenha, amado cronista que tanta falta nos faz, em texto do escritor Ademar Gomes.

Prometi postar neste bloguito alguns textos do jornalista e escritor Ademar Gomes falando de gente de sua estima, seus companheiros mais próximos e estimados, grandes e inesquecíveis amigos. Um deles, um dos caras mais cultos que a Bahia já pode desfrutar da honraria de ter como um dos filhos amados, é o maravilhoso Sylvio Lamenha, uma espécie de tutor intelectual de Ademar, que só chamava Sylvio de Tia Dalva, pelo fato de Lamenha ser amigo pessoal da maravilhosa cantora Dalva de Oliveira, sabendo imitar seu belíssimo canto à perfeição. Pelo tom pesaroso identificável no texto de Ademar, nos apercebemos de sua grande tristeza, da dor pungente, advinda da perda de Sylvio que se foi desta vida deixando seus amigos e admiradores em imenso desconsolo, como bem se pode ver nas palavras de Ademar em homenagem ao cronista e amigo querido.
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"E agora, Tia Dalva, quem me socorrerá nas derrapagens semânticas? Quem me libertará das armadilhas da crase, evitando que eu fique à deriva em meus audaciosos mergulhos nos mares da literatura? Quem - sem chute, sem porretismo - me ensinará a história ( e estórias ) da música popular brasileira? Quem, com simplicidade, sem complicações, me fará viajar no mundo da semiótica? Quem, com sua genialidade, para trocar figurinhas sobre passagens dos chamados clássicos do cinema? E agora, Tia Dalva, quem - cheio de remorsos - me acordará de madrugada para um mea culpa patético sobre eventuais grosserias à Bia, sua devotada mãe, a demonstrar a simbiose entre o gênio e a criança? Quem garantirá agora às inúmeras toupeiras que aspiram chegar à universidade a certeza da aprovação no vestibular, com seus infalíveis ensinamentos? Quem, wildeanamente, terá a audácia de agitar o modorrento dia-a-dia da cidade de muros baixos, onde as igrejinhas - embora reconhecendo-lhe o talento - tanto o reprimiram? Quem, après toi, será capaz de desfilar com bengala renascentista, anéis, colares e pulseiras incrustadas de esmeralda em tributo aos olhos verdes de Maureen O'Hara, sua deusa irlandesa? Quem, depois de sua morte, alegrará os almoços dos amigos com suas boutades, suas estórias irreverentes sobre guerras de espada e perfumarias? Quem espargirá cultura sobre a cabeça dos ignorantes, mas sem a chatice dos que se querem excessivamente brilhantes? Quem guiará meus passos nos sebos da vida? Quem me decodificará a linguagem das artes plásticas, poupando-me do constrangimento de confundir primitivismo, impressionismo, cubismo e outros ismos? Quem, com tanto saber, me explicará Diana, Artemis, Júpiter, me libertando da ignorância mitológica? Quem me enfiará na renitente cabeça que mutatis mutandis nada tem a ver com mulato malandro?
Quem evitará que eu confunda vocativo com ablativo ou nominativo com dativo? Quem, com sua cultura, terá coragem e talento para imitar os falsetes da Dalva de Oliveira, tornando gay e festivo os ambientes formais? E agora, Tia Dalva, sem poesia  e sem irisadas opalas gráficas, resistir, quem há-de?"
(281213)

04 junho 2020

Baianos são bons de futebol e na Bahia o baba na praia é sagrado

Ah, Bahia, Bahia, gentilíssima mater de filhos negros de todas as cores e nuanças, em minha língua suavemente desliza teu dulcíssimo nome quando o pronuncio com sempiterna emoção que se vai renovando infinitamente. Em seus mares de águas translúcidas, Yemanjá - eterna rainha - fez sua morada. Diáfanas nuvens ornamentam seus céus que se tingem com os mais delicados matizes nesta rododáctila aurora que nem o próprio Homero jamais contemplou similar. Ah, Homero, Homero, pobre Homero, sempre às voltas com Odisseias e Ilíadas, nunca dispondo de tempo para si próprio, na Bahia jamais aportou, seja em gozo de férias ou de merecidas licenças remuneradas, não tendo destarte a fortuna de descobrir o quão deslumbrante é este afro-baiano torrão. Para você, odisseico vate, e para quem interessar possa, mostro aqui um pouquinho dos tipos, usos e costumes das gentes baianas, das quais faço jubilosa parte. Para tal fiz e posto, aqui e agora, ao vivo e a cores, esta tomada geral de um baba, que é assim mesmo, no masculino: jogar um baba, pegar o baba . É o modo como nós baianos chamamos aquela recreação futebolística que no restante do país chamam de pelada, esclarecendo que pelada, para nós, é outra coisa bem diferente, sendo também muitíssimo apreciada e consumida com notável gula pelos viventes dessa afrourbe nominada Soterópolis. Para pintar, utilizei tinta acrílica sobre tela, vez que nem tudo é PC, HD ou sei lá mais o quê.
(24/04/14)

01 junho 2020

Batatinha, Maria Bethânia e o circo proibido para tantos e tantos.

Só um compositor de talento muitíssimo vasto, dotado de imensa, de rara criatividade, poderia falar de desigualdades sociais sem resvalar no panfletário, sem patinar no pieguismo gratuito. Pois o sambista BATATINHA, batucando em sua caixinha de fósforo sempre muito bem afinada, sem se deixar enredar por raivas ou rancores, sem incorrer em qualquer espécie de alegado vitimismo, de uma forma serena, com a simplicidade dos que sabem das coisas, entre as muitas maravilhosas que fez como compositor, compôs esta canção de bela melodia e letra concisa e exata. Canção que, sem perder a poesia, fala de exclusão social, desigualdade, dos que vivem à margem da vida, escanteados, obrigados a apenas assistirem os mais privilegiados, apenas eles, desfrutarem das coisas boas da existência, enquanto a um mundaréu de gente vê-se obrigado a se resignar à mera condição de espectadores, colocados à margem, mantidos do lado de fora do grande circo que é a vida, apenas "escutando a gargalhada" dos que nadam de braçada em mares de privilégios. Essa canção inegavelmente cabe em qualquer lista das grandes canções feitas neste nosso país visceralmente musical, de tantos compositores, músicos e cantores maravilhosos. Por conta dela e do talento de Batatinha, aqui posto esta carica do grande compositor popular que fiz para uma gazeta usando bico de pena, trapo embebido em nanquim e uns respingos de guache branco. De quebra, adiciono um vídeo em que ninguém menos que a cultuadíssima filha de Dona Canô, Maria Bethânia Vianna Telles Veloso, empresta sua voz tamanha à bela, sugestiva e cativante composição do saudoso pai do meu amigo Lucas Batatinha.

01 maio 2020

Raul Seixas, Marcelo Nova, muito rock na veia e porrada na cara!


Hoje é dia de rock na Concha Acústica do Teatro Castro Alves neste verão de 88. Tá rebocado, meu compadre, tem rock do bom na veia e é em dose dupla: Raul Seixas e Marcelo Nova. Não sou roqueiro de carteirinha mas sei o que é bom. Ao show, seguramente maravilhoso, que Gal fará no palco principal do TCA logo mais, prefiro o rock que rolará na Concha. E vou a caráter, blusão de couro, jeans e brilhantina no cabelo que é para entrar no clima. Raul está com a saúde abalada pelos excessos cometidos, teme-se o pior. Marceleza surge em cena qual um anjo de blue jeans, organiza shows com o amigo, viagens e até um disco, A Panela do Diabo. Motiva o Maluco Beleza que se revigora. Agora ambos estão se revezando no palco, desfilando suas canções que todos os roqueiros sabem de cor e cantam juntos com os ídolos. Empolgado com o entusiasmo da plateia, Raul emenda uma música após a outra e o concerto se prolonga para deleite do público apaixonado. De repente, atrás de Raul percebo uma coreografia que não faz evidentemente parte do show. Marcelo Nova, enfurecido, está descendo o braço com vontade na cara de um cabeludo. Quando parte do público percebe, começa um coro de "bota pra fudê!" que é a senha pro eterno líder do Camisa de Vênus encher com renovadas muquetas a fuça do sujeito. Um último gancho de direita o arremessa ao poscênio de onde, nocauteado, não retorna. Nova vem para o lado de Raul, empunha o microfone e brada: "Este aqui ao meu lado é o maior artista de rock deste país! Nenhum canalha irá desrespeitá-lo em minha presença. Ele é o maior de todos, ele é Raul!" A platéia enlouquece e renova, ainda mais alto, o grito de "bota pra fudê!" Fico sabendo depois que o cabeludo surrado seria um produtor musical que queria encerrar na marra o show dos roqueiros alegando razões de pauta, horário, conflito de entrada e saída com o público do show de Gal e sei lá mais o quê. Aprendeu da forma mais dura a lição do Professor Marceleza: o respeito aos ídolos autênticos está acima de razões mais comezinhas. Poucos meses depois, o coração debilitado do homem da Sociedade Alternativa cantou e dançou seu derradeiro rock neste mundo. Sabendo que tem tanta estrela por aí, pra alguma delas lá se foi Raul numa carona com o moço do disco voador. Mas naquela noite de verão, ali na Concha Acústica, as duas maiores estrelas do rock nacional brilharam tanto e tão intensamente que os afortunados que lá foram por todas suas vidas jamais poderão delir de suas mentes e de seus corações essas lembranças. Marcelo Nova jogou duro, botou pra fudê como manda o figurino roqueiro. E Raul... bem, Raul foi Raul. E não era preciso nada além disso. Titirrane, Raulzito. Titirrane!
(101012)

16 abril 2020

Jogador de futebol, um adorado semideus / Arte que se reparte 3

Adoro desenhar e principalmente pintar jogadores de futebol com suais plasticidades características resultantes dos movimentos que executam durante o esporte que praticam. Esta minha predileção origina-se em parte pela minha paixão antiga pelo esporte das multidões, assim denominado por ser a modalidade esportiva que mais apaixonados admiradores costuma aglutinar em praças esportivas de todo este planeta índigo blue chamado Terra que é, significantemente, redondinho como uma bola de futebol. Isto considerando-se que você não seja um desses ensandecidos terraplanistas que andam infestando o Brasil que, frise-se, só foi descoberto porque o intimorato nauta lusitano Cabral comungava das mesmas teorias do seu colega, o destemido nauta genovês Cristovão Colombo a respeito do formato esférico do planeta que habitamos, tendo Colombo provado na prática e não com lero-lero, de maneira irrefutável, que os terraplanistas de sua época eram - como os de agora -  uns descomunais imbecilóides galopantes, uns asininos mui chucros.
Feito este preâmbulo político-esportivo, um quase desabafo diante das asnices diárias com as quais buscam turvar nossas luzes, já posso dizer que a pintura que ilustra esta postagem é uma tela tamanho 1m x 0,80cm que hoje faz parte da pinacotéquia do Seu Creysson, do Cassetia i Planetia ou, melhor dizendo, uma tela que atualmente integra a pinacoteca particular do humorista Claudio Manoel, do grupo criador do programa Casseta e Planeta, famoso humorístico da Rede Gloooooobo, segundo me informou o respeitável dono da galeria de Arte em que esse quadro foi vendido. 
Para você, pictórico leitor, que almeja ser um dia um renomado artista plástico ou simplesmente gosta de ficar bem a par de detalhes, pormenores e filigranas, saiba que para pintar essa futebólica tela fiz o esboço com lápis B, sendo que para criar uma textura usei massa acrílica aplicada com espátulas. Na bola fiz uma colagem com um tecido para dar um relevo e um toque dadaísta, seja lá o que isso for. Já na pintura propriamente dita, usei um pequeno arsenal de pincéis de variados tamanhos e formas e uns tubos e potes da sempre boa tinta acrílica. E eis que na mesma tela concentrei duas das minhas paixões: o futebol e a pintura que são, aliás, paixões de muita gente espalhada neste planeta Terra, tão redondinho quanto el balón, la pelota, il ballonethe ball, a esférica, a gorduchinha. 
(180215)

04 abril 2020

João Ubaldo Ribeiro, a quem dei sábios pitacos que o tornaram escritor consagrado no mundo.

João Ubaldo Ribeiro, glória literária da Bahia e do Brasil,  posto que é ele consagradíssimo escritor, cronista admirado e seguido por uma legião de fãs que devoram seus escritos cheios de lucidez, consciência política e social e prenhes do mais inteligente e refinado humor. Seu domínio do idioma e da linguagem escrita são evidentes. Ah! e dizer que li tantos textos deles no original, recém tirados de sua máquina de escrever (era um treco cheio de ferrinhos que existia antes de inventarem o computador, caros adolescentes) lá pelos idos dos emblemáticos anos setentas. Não que ele me entregasse em mãos para um necessária e criteriosa avaliação. Eu lia os textos sem pedir licença, bem ali na mesa do diagramador da Tribuna da Bahia, em cuja redação trabalhávamos eu e o Ubaldo, lá apodado de Risadinha graças à sua indefectível e estentórea gargalhada que volta e meia fazia tonitruar muitos decibéis acima do alarido ensurdecedor emitido pela barulhenta redação. Aí, como quem não quer nada, eu dava meus pitacos pro Ubaldo, que por sinal já escrevia que era uma maravilha mas precisava de umas correções de rumo que euzinho, com minha proverbial benevolência com novéis, sempre me dispunha a prestar e não me pejo de dizer que o fazia de bom grado. Ele ouvia, silente, meneava a cabeça, pegava as laudas, entocava-se na sua sala e tratava de fazer os devidos reparos por mim sugeridos. Nunca, em tempo algum, a mim dirigiu qualquer palavra que pudesse, ainda que remotamente, deixar transparecer um agradecimento, coisa que a bem da verdade jamais pretendi receber, nem naqueles pretéritos tempos e muito menos em dias atuais. Do assaz astronômico numerário que cotidianamente adentra sua polpuda conta bancária, vintém não quero nenhum. Sou a generosidade em pessoa, a mim me basta vê-lo evoluir a passos largos no seu ofício, tornar-se um escritor maior que galga a passos largos os degraus da fama e tornar-se um dos maiores literatos entre tantos e tão talentosos escritores desse nosso país garboso e varonil. Creiam-me, basta isso para eu quedar-me com o peito inflado do mais lídimo orgulho. A João Ubaldo, meu derradeiro conselho é que não abuse da bebida que servem na ABL. Refiro-me ao tradicional chá que os imortais escribas bebem, paramentados de fardão e espadim. Matar, não mata, vez que todos são imortais. Mas pode dar uma gastrite daquelas, meu caro Risadinha.
(Salvador, Bahia, janeiro de 2012)

03 abril 2020

Casal nordestino passeando na Big City.

Em plena megolópole paulistana um casal, tendo sobre suas cabeças signos nordestinos, em momento que sugere ser de merecido relaxamento depois de uma longa e estafante semana de árdua faina, de duríssimo trabalho - posto que nào é nada fácil a vida de imigrantes do nordeste na chamada supercap. E em um dia qualquer de domingo ou feriado lá vão eles caminhando sobre a grama do que deve ser uma grande e arborizada ágora paulistana, embora aí só se avistem concretos, prédios, fumaça. Abraçam-se, rádio na AM, tendo ao fundo o seu conquistado veículo de duas rodas, sorriem e se mostram lépidos e amorosos, enquanto passeiam suas alegrias de viventes felizes, ainda que tenham sido obrigados a deixar a terra natal. São caminhantes gaios e trigueiros, trazem em si o samba, o xote, o baião, a sanfona, o triângulo, a zabumba, o pandeiro, vêm com seus jubilosos trajos domingueiros, esfuziantes qual uma festiva alegoria carnavalesca. 
Esta pintura, fidelíssimos leitores,  não é recente, eu a fiz fiz lá pelo ano 2000, em que fica a tal estação final do percurso vida na terra-mãe concebida, como canta Gilberto Gil, não por coincidência um artista da Bahia, do nordeste. Trata-se de um painel de 1.80 x 1.50m e para fazê-la - além de meu vasto talento pictórico, tão vasto quanto minha proverbial modéstia - lancei mão do velho e sempre prazeiroso método de usar tinta acrílica sobre tela. De quebra, utilizei massa acrílica e também cola e pedaços de tecido para fazer umas colagens com ares dadaístas e assim poder posar de erudito, angariar a admiração geral e captar as atenções e os favores de assaz intelectuais e mui concupiscentes musas.  Depois que acabei de pintar fotografei com minha Rolleiflax e revelou-se minha enorme aptidão para realizar invulgares coisas pictóricas. Na sequência eu então escaneei e dei uma tecladas ao Photoshop pra animar ainda mais este motivo burlesco e brejeiro, assaz criativo, mui inventivo, que tem umas pitadas de minha vivência pessoal de nordestino que um dia deixou para trás sua querência e foi morar por longo tempo em Sampa onde alguma coisa acontecia em meu coração que só quando eu cruzava a Ipiranga e a Avenida São Joào. Também pudera, ainda não havia para mim Rita Lee, a sua mais completa tradução.
(100210)

25 março 2020

Futebol, Seleção Brasileira, Timão, muita paixão e muitas pedras no caminho.

 
Futebol é uma das minhas paixões, brasileirinho que sou, et pour cause é também uma das minhas temáticas preferidas nas pinturas que faço. Há uma grande beleza plástica nos movimentos dos corpos dos jogadores, seja correndo, chutando, cabeceando, driblando. E se esses jogadores vestem a camisa amarela, os calções azuis e as meias brancas, cores usadas no  uniforme da seleção brasileira, a coisa vai ainda melhor, tamanha é a empatia mundial em torno de uma elástica admiração, uma aura mágica construída por gerações de craques brasileiros que mostraram ao mundo que um esporte pode se converter em pura arte, uma arte maior que vem influenciando futebolistas dos quatro cantos do mundo, supondo-se que a terra seja mesmo da forma que terraplanistas a descrevem. Eu disse isso tudo e me toquei agora que, embora sendo um corintiano juramentado, não me lembro de haver pintado um único quadro com jogadores paramentados com a sagrada camisa do bicampeão mundial interclubes, a mundialmente famosa e cobiçada segunda pele do alvinegro do Parque São Jorge - Ogun Ye, meu pai! 
Pois é, pois é, em contrapartida, amando pintar coisas do apaixonante esporte das multidões, há tempos venho pintando - e vendendo com relativa frequência - craques dentro de campo vestidos com a camisa da seleção canarinho porque, apesar dos pesares, a seleção é ainda grande paixão brasileira, malgrado a camisa auriverde do selecionado brazuca haver servido de uniforme para patos, patinhos e patinhas teleguiados da Fiesp, e apesar da humilhante e vexatória derrota que os germânicos nos sapecaram sem dó dentro de nossa própria casa por 7x1, sendo que podiam ter feito 10, 20, 50 gols, mas resolveram aliviar e puxaram o freio de mão, talvez em consideração à mencionada aura mágica, ao futebol glorioso que já fomos em distantes dias. Ainda assim, para grande parte dos brasileiros, esse vexame suplanta em muito a tristeza da derrota para o Uruguai na final da Copa de 1950. Como a paixão não costuma andar de mãos dadas com a lógica, seguimos amando muito nosso futebol, apesar dos males trazidos pelo antigo e nefasto monopólio exercido pela Rede Globo que sempre ditou as regras da maneira que quis, insaciável, ávida, em busca dos bilhões que o futebol abriga, reduzindo o futebol a um mero ítem comercial que manipulam da forma que querem e que se lixem os torcedores brasileiros. Apesar também do interminável batalhão de sórdidos formado por Havelanges, Ricardos Teixeiras, Josés Marias Marins, Del Neros, gangsters provectos, alguns já de cujus, dos empresários venais, dos maus dirigentes de clubes, dos lamentáveis cronistas esportivos que os sustentam, dos Dungas, Bebetos, Galvões Buenos e aberrações quejandas as quais somos obrigados a enfiar goela abaixo. A seco, quando acaba.
Ah!, antes que me esqueça, essa tela na foto aí acima é de tamanho 50x40 cm, foi pintada com tinta acrílica e hoje está, para meu orgulho, numa parede da residência de uma grande figura em New York city, um ex-jogador profissional de futebol e atual treinador, cara muito sério, que se tornou um competente coachconstruindo sua bela carreira que já é vitoriosa pois trabalha com dedicação, seriedade e amor ao esporte, coisa que no nosso futebol, infelizmente, anda em tempos de grandes carências. Resta-nos rezar fervorosamente para que São Tite, ora técnico da seleção canarinha, nos socorra com algum improvável milagre onde nos faltam competência, seriedade, planejamento e honestidade.
(171214)

07 março 2020

Nem Portugal, nem Brasil: nossa verdadeira pátria é a língua portuguesa,

  O que quer, o que pode esta língua? Ah, pode nos encantar a todos e a todos seduzir, esta língua portuguesa, tão sonoramente gostosa, tão vária e tão bela, que encerra um “assombro vocálico em que os sons são cores ideais”, como definiu Bernardo Soares. Aliás, este escritor português, em meados do século passado, escreveu um texto que até hoje reverbera grandemente entre nós, habitantes dos países que têm o Português como língua materna. Decidido, com segurança, destemor e ousadia, no referido texto Bernardo nos diz que a ele pouco importava, que nada se lhe dava se um dia Portugal fosse invadido, se o solo lusitano fosse tomado por quem quer que fosse, porque sua única pátria era outra: a língua portuguesa. A esta não admitia, sob nenhuma hipótese, que tratassem com apedeutismo, insciência, incúria. Literal e literariamente assim nos asseveravou Bernardo Soares: “Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente.”    
Tanto tempo se passou e até hoje a mencionada frase é motivo de grandes burburinhos, discordâncias e de controvertidas análises, tanto mais por sabermos que Bernardo Soares é outro dos muitos heterônimos utilizados pelo escritor Fernando Pessoa, dos quais se valia para dizer o que lhe ia na sua rica alma de poeta, escritor e intelectual. 
Grandes escritores e poetas portugueses ensinaram a nós, do Brasil, a amar o idioma que um dia nos chegou a bordo de caravelas lusitanas. Através dele, talentosos escritores, cantores, compositores. cineastas e atores brasileiros se expressam, se manifestam por palcos, telas, recantos do mundo todo, encantando plateias de idiomas diversos e ampliando enormemente a força e a glória que esta língua encerra.   
Passados mais de 500 anos, no Brasil a língua portuguesa foi criando uma forma própria de ser, aqui se permitindo todas as influências e mudanças possíveis. Hoje, nosso idioma comporta galicismos, anglicanismos, neologismos e influências as mais diversas, temos diferenças na forma de falar de acordo com cada região deste país tão extenso, erros acolhidos e incorporados, gírias inumeráveis que sempre se renovam. Nesses tempos de globalização, a cultura brasileira, por sua criatividade e força comunicativa, se faz conhecida em diversos países do mundo. Em parte, isso se deve à internet e ao veículo TV, notadamente às novelas feitas por aqui, uma febre em muitos países há dezenas de anos. Em Portugal, Angola, Moçambique e em países outros, os habitantes locais tomam conhecimento e terminam mesmo adotando as gírias, o gestual, o vocabulário, este modo de falar exuberante, pontuado pela irreverência do povo brasileiro, um modo bem pouco restrito a normas e dogmas idiomáticos. Assim nos expressamos nós, nativos desta terra que um dia Cabral encontrou dando sopa, dando mole, dando a maior bobeira aqui pelos trópicos. Desta nossa maneira de falar o Português, melhor não pensar o que poderiam dizer Luís de Camões, Eça de Queiroz e o Padre António Vieira. Muito menos o que pensariam e diriam Bernardo Soares, autor da tão polêmica frase, e Fernando Pessoa. Estes dois, aliás, ainda que em alguns pontos pudessem divergir entre si, certamente teriam opiniões semelhantes e bem pouco lisonjeiras sobre este modo que muitas vezes nós, brasileiros, usamos para falar e escrever esta tão amada língua portuguesa.

05 março 2020

Travecos tipo exportação made in Brazil

 
O traveco é uma instituição das mais sólidas neste torrão auriverde, um patrimônio nacional de valor inestimável e um dos mais cobiçados produtos de exportação deste patropi abençoá por Dê. Os franceses, por exemplo, se curvam - e bote se curvam nisto - ante les brésilienes travequês delapatri, que podem ser encontrados às centenas no Bois de Bologne caprichando no biquinho e falando no idioma de Mollière e de Zola lindas palavras como ménage à trois e voulez-vous une boquettê, missiê? Já na terra de Dante Alighieri, nossos estóicos traveconni agitam a massa, coisa que Rubinho Barrichello, mesmo tendo sobrenome itálico, nunca conseguiu fazer quando estava na Ferrari. Aqui nesta Soterópolis, urbe afamada por produzir em larga escala autênticas Vênus Calipígias estilo Carlas Peres e miríades de popozudíssimas loiras, mulatas, sararás e morenas do Tchan, os travecos locais sofrem uma desleal concorrência e têm de rebolar muito para ganhar o pau, digo, o pão de cada dia. Por sorte, contam em sua defesa com o CATSO (Centro de Amparo aos Travecos Soteropolitanos Oprimidos), que é um órgão vibrante que está aí para provar que as bibas baianas não são de fugir do pau não, senhor. Ora, que despautério!
(210312)

25 fevereiro 2020

Cartola e as rosas tagarelas

As rosas não falam?! Ô, Seu Angenor, elas falam, falam, sim, ora, se falam! Algumas são incrivelmente loquazes, outras chegam até a serem beeeem tagarelas e é um custo fazer com que calem suas róseas boquitas. Às vezes puxam um assunto qualquer e logo desandam a falar - de forma muitíssimo bem articulada, por sinal -  sobre o tema que pauta para si. Por exemplo, por exemplo, o samba, um mais que valioso tesouro da nossa música popular. E é claro que se elas falam sobre samba falam de sua notabilíssima pessoa, Seu Angenor de Oliveira, o senhor que é um dos mais valiosos tesouros culturais deste patropi abençoá por Dê, um grande Mestre do samba, da vida, eternizado no universo musical pelo seu cognome de Cartola, o Mestre Cartola, conhecido como sendo o compositor mais identificado com a Escola de Samba da Mangueira. Mas nós, brasileiros, sabemos bem que Seu Angenor, o marido de Dona Zica, foi bem além disto, sendo gravado pelos mais consagrados cantores da nossa rica MPB. Preconizam as mui falantes florzinhas que o compositor Cartola legou à música brasileira autênticas e finíssimas pérolas musicais, tesouros de altíssimo valor, versos que denotam um criador de alma culta, ainda que o autor fosse uma pessoa de origem humilde, de poucos estudos formais, morador do Morro da Mangueira, no Rio, reduto de gente simples e dita comum, mesmo sendo ele um artista incomum. 
Esta carica acima eu fiz um tempo atrás como presente pro meu nobre e especial amigo Biratan Porto, gente da minha consideração e apreço, que todos sabem bem que é um cartunista e caricaturista piramidal, de alto gabarito e que, de quebra, é ainda um músico habilidoso, um virtuose do bandolim, coisa que tive a fortuna de comprovar ao vivo e a cores em Belém do Pará. E não fosse isso o bastante, Bira é também um cartolamaníaco inveterado, contumaz e renitente, no que lhe dou inteira razão, convicto de que ele merece ouvir das rosas umas loas tão enaltecedoras quanto as que elas dirigem ao Mestre Cartola.
(281114)

Sketchbook 03 / estudo de homem com camisa listrada

Trabalhar com computador é sempre gratificante. Mas são tantas as formas prazerosas de fazer um bom desenho que é bom experimentar um pouco de cada um de tais prazeres, notadamente as técnicas mais tradicionais já utilizadas por tantos e tantos artistas deste mundo, mundo, vasto mundo. Aquarela é sempre uma delícia das mais deliciosamente deliciosas. Ainda mais assim, manchadona, feita meio que com uma estudada falta de acuro. O lado bom de quem ama desenhar e escolheu como profissão justamente o trabalho com desenho, é que este se torna ao mesmo tempo fonte de sobrevivência e um enorme e perene prazer.
(171110)

21 fevereiro 2020

Carnaval de rua na Bahia, tinta acrílica, beldades e um temerário ser chamado Caó.


Já é carnaval, cidade, acorda pra ver! Curtir a folia, brincar o carnaval nas ruas da Bahia é puro delírio. A festa é um painel colorido, belo e efervescente, cheio de personagens maravilhosos. A velha raça humana se esquece dos problemas e vai à praça gritar a alegria que segue cultivando em seu peito malgrado as ações dos nefastos, integrando-se ao melhor dos hedonismos, com direito àqueles beijos nada colombinos, desejos luxuriosos mais que legítimos e novos amores eternos que durarão até a quarta-feira de cinzas. Ou quinta-feira. Ou sexta, já que o carnaval aqui nunca sabemos dizer com precisão quando termina, considerando-se a remotíssima hipótese de que ele termina. Bom, ninguém aqui nesse bloguito é tão alienado que não saiba que na elaboração da festa há enormes manipulações oficiais e interesses empresariais que atropelam a honestidade, a tranquilidade e o conforto de moradores de bairros ocupados pela folia oficial e até mesmo o direito de ir e vir desses e de outros moradores, e ainda as tradições mais populares e o bom senso na busca do lucro fácil e farto. Mas fiquemos, por ora, no aspecto lúdico, na alegria e na loucura a que todos se permitem, pois é por motivos tais que o carnaval da Bahia é mesmo uma bela temática para se pintar, caprichando no colorido de cores vivas, cores quentes, cores redondas ou seja lá que outro nome lhes deem, como aliás busquei fazer nesta pintura concebida com massa acrílica e tinta acrílica sobre tela de 1.00 x 0.80 m. Ditas tais quase profundas e filosóficas palavras, eu agora vou correndo pro Pelô, senão um fulano que conheço num piscar de olhos é bem capaz de comer todas as mulheres que estiverem por lá e não sobra nada pra ninguém, sendo que isto inclui talqualmente minha pessoa. O tal fulano é phoda, quando vê murundum não considera amigo nenhum! Axé, galera!! Sem perda de tempo, lá vou eu. Fuiiii!
(250217)

Samba e turismo sexual no País do Carnaval

 Você, sapientíssimo leitor, já deve ter notado que Carmen Miranda é uma figura recorrente em minhas pinturas. Isto se explica pela formidável admiração que ela exerce sobre mim e também em miríades de gentes deste planeta azulzinho. Na ilustração deste post está uma versão da Pequena Notável executada com tinta acrílica sobre tela, sendo ela parte integrante de uma extensa série de pinturas que fiz buscando falar sobre um amontoado de erros com os quais convivemos, por vezes indiferentes, nesta Terra Brasilis, pátria amada nem sempre tão gentil que, ainda assim, intenso amor nos inspira, apesar dos tantos e tantos pesares. Por aqui, hedonistas que somos, amamos o samba, que é nosso e que é tão bom, entre tantos ritmos brasileiros que celebram nossa admirável alegria interior. Mas não podemos perder de vista o fato de que neste país amado, entre outros malefícios, perdura um forte turismo sexual e a pedofilia, frutos da desigualdade, praticados por gentes inescrupulosas, que trazem suas moedas fortes com as quais logram corromper nosso caráter por vezes tão macunaímico. E tudo tende a piorar quando um presidente do Brasil diz o que já disse acerca de estrangeiros e turismo sexual.  Há ainda a terrível e abominável situação da infância que foi abandonada - e não é de hoje - pelos governantes mas pela sociedade também. Estamos em tempo de carnaval. Dancemos e celebremos nas ruas e praças a vida movidos por nossa inesgotável, elogiável, invejável alegria interior. Mas nada de guardar nossa consciência num pano de guardar confetes. Evoé!
(150213)

14 fevereiro 2020

Riachão, 99 anos de samba, luta e alegria.

Quem quiser saber tudo de samba e de Bahia tem de beber no sagrado manancial chamado Riachão. Há que se sorver sofregamente a arte do samba de Riachão. Caetano bebeu em generosos haustos. Gilberto Gil bebeu a se fartar. Cassia Eller, maravilhosamente, idem, idem. Riachão é a Bahia em forma de gente subindo a ladeira do Pelô ao encontro da roda de samba com seu terno branco com cravo na lapela, seu boné, seus óculos, anéis, correntes, toalha no pescoço, jeito de malandro, sua ginga, sua alegria contagiante, dentes escancarados num largo sorriso só encontrável em soteropolitanos tipos. Riachão, em verdade, é o próprio Samba da Bahia, com RG e tudo. Puro e da melhor qualidade, sim, o Samba baiano é este maravilhoso senhor Clementino Rodrigues, o Riachão, que completará 99 anos no próximo novembro, e lançando o disco Se Deus quiser vou chegar aos 100, louvado seja Nosso Senhor do Bonfim! 
Xô, chuá, cada macaco no seu galho, a nega lá em casa não quer trabalhar, quer comer engordurado e nào quer cozinhar. Chega na roda o quase centenário Riachão, Mestre do Samba, e dele transborda a mais carismática baianidade, seu talento de sambista nato é líquido e certo, oferecendo-se generosamente para que nele sorvamos os necessários e substanciais haustos. Com as graças de Oxalá. Epa Babá! Viva Riachão! 
(310514)

Guache Marques, um artista plástico da Bahia e seus múltiplos talentos.

Ainda que a arte da Bahia com maior visibilidade no Brasil e no mundo seja a música, outras artes baianas são igualmente efervescentes e têm seus grandes artífices. Literatura, cinema, fotografia, teatro e também as artes plásticas. Volta e meia, caminho pelas ruas de Salvador em um périplo destinado a rever painéis e esculturas do genial Carybé que estão abrigadas em hotéis, bancos, edifícios residenciais. Puro deleite. Frequento galerias e folheio mil vezes alguns catálogos que guardo, buscando sempre o prazer de ver e rever trabalhos do estupendo Floriano Teixeira, a excelência de seu desenho feito com os traços mais refinados que meus olhos já viram, e sua pintura feita de delicadeza, magia, surpresas. Não se pode dizer que a pintura baiana seja uma única. Há linhas e linhas de trabalhos. Nessas linhas há sempre aqueles que se sobressaem mais por acreditarem nos seus talentos, nas suas artes, e buscam trabalhar com dedicação e amor. Falo isso lembrando-me do trabalho do artista plástico Antonio Gomes Marques, mais conhecido como Guache Marques, nascido em Feira de Santana, BA, formado em Artes Plásticas pela UFBA. Sua arte tem mil aspectos, Guache segue inúmeras vertentes para se expressar, sendo ele múltiplo no seu ofício artístico, oferecendo aos que amam as artes plásticas um vasto leque de caminhos e possibilidades. Em cada um deles, Guache se comunica com total domínio, competência, talento. Habilidoso ao desenhar, na feitura de seus desenhos expressa-se através de diversos materiais, faz bico-de-pena, ilustrações para textos, pinturas em tela, gravuras, artes digitais e fotos-desenhos. Não bastasse isso, é também programador visual. 
O trabalho de Guache Marques não se encerra na grande beleza plástica que trazem em si, limite para muitos artistas que daí não passam, por aí mesmo estacionam, satisfeitos. Nesses tempos em que tantos demonstram grande alienação - incluindo-se nisso, um mundaréu  de gente do mundo das artes plásticas - há que se dizer que Guache é um artista, com alta consciência social, politizado - sem incorrer na panfletagem - e com fortíssimas ligações com a Bahia, sua gente, lutas, aspirações, costumes, História. Através dos seus desenhos, gravuras e pinturas, de tudo que faz, o espectador é contemplado com sua visão das coisas, um enfoque social que, vale repetir,  não é panfletário, falando do homem, suas crenças, sonhos, pelejas, anseios, religiosidade, raízes, signos afro-brasileiros. Guache Marques é profícuo em seu ofício e tem incontáveis exposições, individuais e coletivas, inúmeros painéis, fez instalações, participou de dezenas de Salões de Artes Plásticas, recebendo um expressivo número de premiações. Ser um artista plástico completo e talentosos como Guache Marques é para poucos. Exemplos de sua arte madura e bela podem ser vistos e apreciados na internet através de um bom buscador, como o Google. Alguns trabalhos e dados do artista são encontráveis através do link:

13 fevereiro 2020

J. Jorge Amado e o Jacaré no esparro

Jacaré no seco anda?
Antes de responder esta singela e inocente indagação, saiba você que ela não é assim tããão singela nem inocente. Em verdade, traz implícita em si muita malícia e sacanagem,  tratando-se de um significativo exemplo do que são os esparros, frases utilizados no coloquial do povo da Bahia cheias de duplo sentido e de malícia, recheadas de um humor pra lá de sacana. Tais frases são encontradiças em pitorescos diálogos populares de todo nordeste e de maneira constante na boca do povão baiano que tem como característica marcante ser irreverente, como se pode comprovar nesta particularidade de sua cultura oral que serviu de temática para o escritor João Jorge Amado.  Sempre atento, como é de seu feitio, J. Jorge pesquisou, garimpou, coletou e selecionou com um mais que acurado empenho e publicou esparros à mancheia em seu ótimo livro, "Lá ele ! O esparro na Bahiapor mim ilustrado entre uma gargalhada e outra. Você que é dado a boas leituras pode tentar conseguir um exemplar fazendo contato com a Publit Soluções Editoriais, através do seu site 
http://www.publit.com.br/
(140213)

11 fevereiro 2020

Para o gajo Fernando Pessoa uma acrílica que canta em cores.

"Qualquer música. Ah, qualquer, logo que me tire da alma esta incerteza que quer qualquer impossível calma." Lindos esses versos de Fernando Pessoa, gajo fixe, giro, poeta mais que inspirado que no início do século passado escrevia essas coisas, versos e ideias que até nos dias atuais seguimos lendo pra lá, muito pra lá de embevecidos. Há de ter sido inspirado pelos versos do prolífico e iluminado bardo lusitano que pintei essa tela usando tinta acrílica. Cantando como cantaria, com seu vozeirão, o inefável Professor Cauby: ''Pintei, pintei, jamais pintei tão lindo assiiiiiiim''. Bem, bem, exagero, não chega a tanto, mas quando desenhei e pincelei as tintas nesta tela, luminiscente leitor, fique certo que eu ouvia alguma música mais que divinal e que em minh'alma não vagava incerteza alguma.
(220414)

06 fevereiro 2020

Bill Watterson, Calvin and Hobbes / Uns cara que eu amo 5

 
Entre meus quadrinhos preferidos está Calvin and Hobbes, aqui no Brasil conhecidos como Calvin e Haroldo. Bill Watterson não é apenas um estupendo desenhista, é um argumentista de raro talento que criou um universo mais que maravilhoso onde um menino, Calvin, e seu companheiro constante, Haroldo, um tigre de pelúcia que ganha vida quando ambos estão a sós sem a inconveniente interferência de adultos. Estes, por sua vez, transformam-se, na prolífica imaginação de Calvin, em dinossauros ou em monstros estranhos de outros universos, sempre prontos a atrapalhar a vida do inteligente menino. E inteligência é o que mais se vê nas tiras de Watterson, presentes nos diálogos mais criativos das HQs desde que foram inventadas. As situações que ambos vivem, mesclando realidade e fantasia para discutir problemas do homem atual, ultrapassam os limites da mesmice, das fórmulas fáceis, das mensagens convencionais com tipos estereotipados que os americanos tanto adoram. Tão fora do convencional é Bill Watterson que um dia, gozando de notável popularidade e do mais irrestrito respeito, para surpresa geral deixou de produzir desenhos com o menino e seu tigre. Talvez tenha se cansado, talvez fazer as tiras não lhe trouxesse mais alegrias, talvez - quem sabe - achando que poderia repetir-se, tenha resolvido parar depois de 10 anos onde chegou a produzir mais de 3100 tiras da dupla de personagens. Retirou-se do cenário artístico e não pensou como qualquer criador, americano ou não, de explorar comercialmente seus personagens, o que o tornaria um multimilionário, fazendo lembrar o genial desenhista do underground Robert Crumb que se lixava para o mercado de licenciamento para o qual dava sonoras negativas e explícitas bananas. Caramba!, gente assim sempre me causa uma profunda admiração e um enorme e insopitável sentimento de inveja pela firmeza de caráter, pela forte personalidade com que mostram que estão acima da mesmice geral, pela maneira independente de pensar e de recusar-se a ser apenas mais um na manada, mais um na interminável multidão dos medíocres que povoam uma grande extensão neste vasto orbe.
(101113)

27 janeiro 2020

Wilhelm Reich, o nazismo, o fascismo, os EUA, o Brasil, o sistema que busca aniquilar os divergentes.

WILHELM REICH, PRISÃO E MORTE NOS EUA. 
Sobre o psicanalista e cientista natural antifa Wilhelm Reich, dizia o analista de Bagé, criação do escritor Luís Fernando Veríssimo: "Reich? Reich para mim é véspera do escarro!". Ainda que provoque sonoras gargalhadas, tal frase pode soar rude aos ouvidos mais refinados. Mas ela tem lá sua poesia, fazendo lembrar os versos de Augusto dos Anjos que dizem que se faz imperioso retribuir um beijo com um escarro. Sendo o analista de Bagé, "um freudiano de carregar bandeira, mais ortodoxo do que rótulo de Maizena e pijama listrado", não era de se espantar tal opinião emitida. Comecei o texto citando o personagem de LFV, buscando amenizar um pouquinho as coisas, vez que a vida de Wilhelm Reich, nascido em 1897 em Dobzau - hoje norte da Ucrânia, à época território do Império Austro-Húngaro - não foi exatamente um mar de rosas, do nascimento até sua morte. Reich foi um pensador de idéias fortes, que jamais abriu mão de suas idéias, muitas expressas através de livros que escreveu, tais como A revolução sexual e O combate sexual da juventude, A psicologia de massa do fascismo e Análise do caráter. Ele foi um dia colaborador de Sigmund Freud, mas rompeu com o "pai da psicanálise" por contestar conceitos dele dos quais discordava frontalmente. Tinha idéias próprias, por exemplo, sobre a função do orgasmo, idéias para os quais a psicanálise freudiana parecia não estar preparada, originando a dissidência. Reich preferiu prosseguir na elaboração de suas teorias e conceitos próprios, sempre dotados de um olhar novo, revolucionário. 
Como homem político, Reich não deixou por menos. Com a força de suas idéias combateu o nazismo e o fascismo, sendo perseguido com ferocidade. Para um homem dotado de extrema inteligência, uma visão clara e acurada como a dele, ficava fácil perceber o atroz e nefasto engano da população alemã e de países outros que acreditaram nas pregações do nazismo e do fascismo, enxergando neles a redenção para suas pátrias e povos. Tal clarividência é sempre um fardo pesado, doloroso de carregar e ele sofreu por enxergar tão claramente a cegueira popular e a que tragédias essa cegueira conduziria. Reich, no Brasil atual, sofreria em dobro tais dissabores vendo as enormes multidões de cegos caminhando com um sorriso nos lábios e a passos largos para um precipício de profundezas abissais, convictos que seguem a senda correta e que estão salvando a nação brasileira e a si próprios. Sofrendo a perseguição que sofreu, Wilhelm acabou sendo expulso pelos nazi-fascistas. Acabou indo morar naquela que se denomina "a pátria da liberdade", os EUA. E é aqui que tudo se converte em tragicamente irônico, dolorosamente irônico. Por suas idéias revolucionárias lá nos States ele também foi contestado e perseguido pelo chamado sistema que, sabemos bem, é inflexível com cidadãos considerados um estorvo, uma pedra no sapato, um obstáculo ao seus interesses pessoais mas que dizem interesse público. Para comprovar isto nem é preciso ir longe, basta olhar os fatos incrustrados na História deste auriverde torrão dito varonil, a passada e a recente. 
Falei em ironia e em tragedia porque dá-se que o psicanalista e cientista Wilhelm Reich, tido como um mais que inconveniente estorvo por tiranos dos governos nazistas e fascistas, terminou sendo preso, julgado e condenado pelas leis dos EUA. E se os psicopatas nazistas e fascistas, inimigos das democracias, não o mataram, os norte-americanos, que alardeiam serem os EUA a Pátria da Democracia, a terra da Liberdade, se incubiram de desempenhar esta abominável ignomínia. Reich foi encarcerado pelas leis ianques findando por morrer em uma cela na Penitenciária Federal de Lewisburg, na Pensilvânia. Por determinação das autoridades dos EUA, seus livros e instrumentos de pesquisa foram destruídos, no melhor e mais irretocável dos estilos tirânicos e totalitaristas. Suas idéias, no entanto, seguem vivas através de seus livros e de suas frases lapidares como esta: "A própria existência de um movimento fascista constitui uma expressão social indubitável do imperialismo nacionalista. Mas é o movimento de massas da classe média que possibilita a transformação desse movimento fascista num movimento de massas e a sua subida ao poder que vem cumprir a sua função imperialista. Somente levando em consideração estas oposições e contradições, cada uma de per si, é que se pode compreender o fenômeno do fascismo." Ler isto chega a dar arrepios, pois Reich parece estar descrevendo em minúncias o momento tormentoso que atravessa o povo de um certo país localizado abaixo da Linha do Equador.
Este retrato de Reich que ilustra a postagem foi feito por mim para o caderno cultural de um matutino. Intrepidamente, esbocei-o com lápis 2B sobre papel Canson 120 g. A arte-final foi feita com caneta nanquim e uma mais que prazerosa tinta aquarela.
(151218)

José Luiz Torrente: um fascista contra homossexuais e a serviço dos cidadãos de bem da Espanha e do Mundo.

Quem quiser saber quem é e do que é capaz José Luiz Torrente Galván, ex-agente policial, um fascista, franquista, xenófobico, misógino, homofóbico e racista, entre outros lamentáveis pendores, basta ver esse vídeo assaz significativo postado abaixo. Nele, Torrente dá mostra de como ser uma pessoa assustadoramente grosseira, inconveniente, agindo com total falta de princípios morais, bom-senso, ética e etiqueta. Como isso fosse pouco, Torrente, esse fantástico anti-herói - magistralmente interpretado no cinema pelo notável ator espanhol Santiago Segura - dá uma demonstração definitiva de como não se deve portar um agente de segurança a bordo de um avião cheio de passageiros e também de tudo que não deve ser feito quando populares estão em situação de gravíssimo perigo. Perto do poder de destruição de Torrente, Átila, o Huno, era um escoteiro inofensivo, tímido e mui bem comportadinho. Quem gosta de boas comédias e ainda não conhece o personagem e muito menos já assistiu um dos seus cinco filmes dirigidas por Segura, que trate de procurar em locadoras - se é que ainda existem - ou na sempre mui providencial internet. Humor inteligente, riso farto, gargalhadas gerais, diversão garantida.

(040317)