16 novembro 2017

Cafezinho na Bahia: a pausa que aquece ainda mais nossos calorosos corações.

 
Quem pensa que pelo fato de vivermos numa ensolarada urbe nós, soteropolitanos, não somos chegados a uma rubiácea quentinha, em muito se engana. Apreciamos, apreciamos e muito, seja dia, seja noite, brasileiros somos. Só que ao invés de sorvermos o cafezinho nosso de cada dia em balcões de bares ou padarias apinhadas de gentes, como sói acontecer em São Paulo e no Rio de Janeiro, preferimos fazê-lo ao ar livre aproveitando uma boa brisa vinda do mar do Atlântico que fica logo ali na esquina. Nós não vamos ao cafezinho - que aqui chamamos carinhosamente de menorzinho, sendo que o sem leite é singelamente batizado de pretinho. Aonde quer que estivermos, ele é que chega até nós em simpaticíssimos carrinhos de café, coisa da criatividade do proletariado soteropolitano que bolou e que fabrica os tais carrinhos. E lá se vão pelas ruas, ladeiras, altos, baixos, alamedas, vielas e becos de Soterópolis os carrinhos empurrados pelos seus orgulhosos donos, e é aquele desfile de matar de inveja os imponentes carros alegóricos das escolas de samba de Sampa e do Rio, sendo cada carrinho de café personalizado pelo orgulhoso proprietário, cada carrinho com suas características próprias segundo o gosto estético do envaidecido dono que o vai enfeitando dia a dia e aí fica um mais bonito que o outro - alguns até são dotados de som em altura moderada - e neles se vendem ainda cigarros para os incorrigíveis e assaz inveterados tabagistas e também se mercam os tradicionais queimados, que é como nós baianos simpáticos e cheios de malemolência, batizamos o que no sul chamam de balas. Balas para nós são só aquelas que malfeitores, sicários e policiais, fartamente e a qualquer hora,  despejam pelos espaços urbanos, cada um do seu lado e nós, cidadãos comuns, no meio tentando se esconder e apelando a um dos muitos santos que nomeados para prestar serviços entre nós. Mas enquanto essa galera do mal não vem nos apoquentar, ficamos ali na boa, olhando o mar, curtindo uma brisa que nos mitiga a alma e o melhor dos cafezinhos. Para melhor dar uma ideia do que dito foi, não perdi tempo e fotografei esta cena genuinamente soteropolitana com minha Rolleyflex de tinta acrílica, depois usei um tostão de Photoshop
(25/04/14)

01 novembro 2017

Leonardo Da Vinci non era boneconne, era espadonne.

 Línguas recheadas da mais nefária cicuta lançam aos quatro ventos que o proverbial sorriso que Mona Lisa Gioconda exibia era resultado das habilidades libidinais do pintor Leonardo Da Vinci, que aproveitaria a ausência do giocondíssimo marido para comer a tentadora maçã que a sua sensual e bem fornida modelo, radiante lhe ofertava. E para que não se diga que fofoca é coisa da patuleia brasileira, àquela época já circulavam entre os filhos do Lácio fortes buchichos insinuando que o homem vindo da cidadezinha de Vinci não era muito chegado a cheirar, alisar, lamber, mordiscar e muito menos ainda comer a referida fruta. E que em verdade a preferência frugal de Leo era bem outra, constando que ele apreciava mesmo era cair de boca em olorosos bagos de apetitosos efebos cultivados na Grécia. Dizem, mas não há registro fotográfico, cinematográfico nem televisivo algum que ateste tal ignomínia. Tampouco não há nenhum vídeo circulando pelo YouTube que comprove o que tais línguas viperinas insidiosamente afirmam. Além de pintor, desenhista, engenheiro, músico, anatomista, cientista, inventor e o escambau - enfim, um autêntico multimídia avant la lettre - Leonardo era caricaturista, o que o torna um meu colega e em nome do bom, velho e salutar corporativismo, vou logo dizendo que esta queimação é produto de torpe invídia. A munheca do toscano, que firme empunhava sua paleta, jamais titubeou e ele não era pintor de sair por aí segurando indevidamente em pincéis alheios. Vilezas e calúnias quejandas não podem prosperar entre os dignos. Forza Leo! Forza Italia! Forza Azurra! 
(29/08/13)

Mulher de Escorpião no Horóscopo de Vinicius de Moraes

Mulher de Escorpião
Comigo não! 
É a Abelha Mestra 
É a Viúva Negra 
Só sai de vedete
Nunca de extra
Cria o chamado conflito de personalidades
É mãe tirana
Mulher tirana
Irmã tirana
Filha tirana
Neta tirana.
Agora de cama diz que é boa paca.
(o3/03/14)

Pedro Almodóvar, Liberdade, Sexualidade, Democracia e o Avanço da direita no mundo.

Pedro Almodóvar, no traço cinematográfico do cartunista e também ator J. Bosco.
O reacionarismo, o racismo, a homofobia têm macróbia existência no Brasil. Às vezes ficam embuçados nas sombras, ali bem escondidinhos, esperando a hora de mostrar suas caratonhas. Outras vezes saem à luz, falam de forma estentórea. Quando se sentem fortes, engrossam ainda mais as vozes, gritam alto, hostilizam, agridem e fazem tudo para subjugar os que deles discordam. Não somos só carnaval, futebol, mulatas malemolentes, gingado e samba no pé. Ideias e atitudes retrógradas foram sempre uma constante entre nós, brasileiros, coisa que muitos não soem imaginar e por isso costumamos desfrutar perante o mundo do conceito de sermos um povo de constante alma solar, cordato, aberto ao diálogo e receptivo à ideias progressistas. Péro las cosas não são bem assim, há uma abissal distância entre essa boa conceituação da qual desfrutamos, e o que de fato mostramos ser na prática cotidiana. No entanto, não temos exclusividade no que se refere a lamentáveis comportamentos reacionários. Não só o Brasil vem sendo atingido por uma crescente onda de retrocessos, de reacionarismos, fascismo, nazismo, totalitarismo, de políticas excludentes que privilegiam apenas e tao somente os já muito privilegiados, de graves ameaças vindas dos extremistas de direita. O cineasta espanhol Pedro Almodóvar, que em seus filmes recheados de ideias libertárias sempre defendeu a mais ampla liberdade de expressão artística e popular, bem como liberdade sexual e a Democracia como sendo ainda o melhor dos caminhos, mostra uma enorme preocupação com esse crescimento da direita no mundo. No recente Festival de Cannes ele deu entrevista falando sobre o assunto. Aqui, alguns trechos da entrevista:

Repórter: Como o Sr. vê o crescimento dos partidos de direita na Europa?
Almodóvar: Estou aterrorizado com o avanço da direita. Não tenho filhos, mas, se tivesse, ficaria preocupado com o destino deles, por temer um destino atroz para o mundo.
Repórter: Nos Estados Unidos, o magnata Donald Trump conquistou um espaço inesperado na campanha presidencial.
Almodóvar: Não quero sequer pensar na possibilidade de Donald Trump chegar à Casa Branca, pelo retrocesso que ele representa. A situação é preocupante no mundo todo. Nunca imaginei que manifestações contra o casamento gay e contra o aborto pudessem arrastar tanta gente na França. Para nós, espanhóis, a decepção com a França é ainda maior.
Repórter: Por quê?
Almodóvar: Os franceses têm um problema gravíssimo para resolver. Na Espanha, não temos um índice de crescimento tão significativo da direita. E digo direita civilizada. Não a extrema-direita da França, onde a Frente Nacional (FN), de Marine Le Pen, promete representar um perigo real na eleição presidencial de 2017. O país sempre foi um modelo de sociedade laica, além de ter sacudido os valores antigos com a revolta de maio de 1968. É uma pena constatar que a França não é o país que eu pensava. Tenho a sorte por ter crescido rodeado de mulheres que me inspiraram com sua força e me ensinaram a não ter preconceitos.
Repórter: Seus filmes refletem o momento político pelo qual a Espanha passava. Se "A lei do desejo" e "Mulheres à beira de um ataque de nervos" retratavam a extravagância do país recém-saído da ditadura militar, o que "Julieta" diz da Espanha atual?
Almodóvar: O filme representa um país triste, solitário e carregado de dor. Jamais poderia ter filmado "Julieta" nos anos 1980 ou 1990. Os tempos mudaram e eu também mudei. Enquanto minhas primeiras personagens saíam para a rua, para aproveitar a vida, Julieta é reclusa, passando quase todo o tempo em casa. Comparado aos anos de euforia, hoje sou mais introspectivo. Conforme o tempo passa, ele também se encarrega de trazer a nossa cota de dor, da qual ninguém escapa. 
Pergunta: "Julieta" é o seu filme mais econômico no que diz respeito às emoções? Isso também é resultado da experiência adquirida? 
Almodóvar: Para chegar a esse nível de contenção, é preciso experiência. Não só experiência de vida, mas profissional. Por ser meu vigésimo filme, eu me sinto maduro como diretor. Reduzir os elementos é muito mais difícil do que parece. Precisei usar planos simples, em que os atores faziam poucos movimentos, apostando tudo o que tinha em uma cartada só. O cuidado foi muito mais minucioso, para garantir que a cena tivesse força dramática, ainda que ninguém pudesse chorar.
Repórter: Incomoda o fato de a crítica ter se surpreendido com a abordagem contida de "Julieta", como se ela soubesse mais que o Sr. como deve ser uma obra de Almodóvar?
Almodóvar: O peso de ser quem sou só existe quando termino o filme e não durante a roteirização ou filmagem. Tomo as decisões com liberdade, sem considerar o mercado ou o espectador. Os fantasmas só aparecem na sala de edição. É nessa fase que começo a ter medo. Há sempre uma comoção no lançamento de meus filmes, o que não é bom, por aumentar as expectativas. Preferiria que o público assistisse a meus filmes mais relaxadamente, para poder avaliá-lo apenas pelo que ele é. 
Repórter: O Sr. diria que compreende melhor a vida por fazer cinema?
Almodóvar: Entendo melhor a mim mesmo. Obviamente, os meus personagens vão muito além de mim, embora eu esteja em todos eles. Muitas vezes os meus filmes representam espécies de premonição, antecipando situações com as quais vou me deparar algum tempo depois. 
Repórter: Pode dar um exemplo?
Almodóvar: Antes de "Mulheres" eu não havia jogado um telefone na parede(risos). A culpa que Julieta carrega, por ter fracassado como mãe, também ecoou em mim. Achei que já tivesse superado a culpa pela criação católica que recebi, mas não cheguei lá ainda. Por mais que eu tenha uma abordagem laica, sem pensar em céu ou inferno, passei a pensar no que fiz de errado, com quem fiz e como poderia assumir a responsabilidade e remediar.
(13/09/16)

Bola de Nieve, um artista maior de Cuba / Uns caras que eu amo 7

Ignacio Jacinto Villa Fernández. Se você sair por aí perguntando quem conhece esse grande pianista, cantor e compositor cubano, certamente ouvirá sonoras negativas. Mas se a pergunta for “você conhece Bola de Nieve?”, sempre haverá os mais atentos que dirão conhecer. Bola de Nieve era o apodo dado a Ignacio Jacinto. Com ele acabou virando uma lenda de uma música de alta qualidade produzida em Cuba, que findou por apaixonar gente de todo esse planeta azulzinho. Caetano Veloso gravou canções desse grande artista cubano que sua mãe, Dona Canô, cantava para ele em sua infância, e volta e meia se refere a ele elogiosamente. Pedro Almodóvar, cujos filmes primam também pelas belíssimas trilhas sonoras, incluiu a voz única de Bola de Nieve em pelo menos duas de suas películas de sucesso, La ley del deseo (Déjame recordar) e La flor de mi secreto (Ay amor), sendo que nesse último uma frase da linda composição de Bola de Nieve integra-se ao roteiro ao ser citada por um dos personagens da trama. Tempos houve em que as canções cubanas reinavam soberanas entre os amantes da música mundo afora. Orquestras, bandas, cantores, cantoras, percussionistas, pianistas e instrumentistas diversos interpretavam mambos, rumbas, salsas, chachachás, boleros e outras maravilhas sonoras. Bola de Nieve tornou-se um mito cantando divinamente e, além do Espanhol, cantava em Português, Francês, Inglês, Italiano e até em Catalão. Seus dotes eram muitos e com eles encantava plateias mundo afora. Cantava bonito e interpretava com alma as suas canções nesses idiomas diversos, tocava piano de forma linda e bem pessoal, conversava com o púbico com empatia. E compunha canções que adentraram a História da música popular cubana e se perpetuaram. Mister se faz dizer que Bola de Nieve teve que lutar duramente contra obstáculos difíceis em sua trajetória artística, como o racismo e a homofobia. Mas sua genialidade visível na sua maneira pessoal, apaixonada e única e até teatral, de tocar o piano e interpretar canções, acabou por prevalecer e músicas que compôs ou que interpretou se perpetuaram gritando bem alto o seu talento difícil de ser igualado. No seu repertório há uma vasta quantidade de tesouros, entre tantos, para nosso orgulho pátrio, está a canção Faixa de Cetim, do carioquíssimo mineiro Ary Barroso. Dos inúmeros sucessos de Bola de Nieve vale citar canções como La Flor de la canela, Ay amor, Drume negrita, No me comprendes, Ne me quitte pas, La vie en Rose, Dejame recordar, Vete de mi, Ay Mama Inés. Fácil, muito fácil amar a Arte maior de Bola de Nieve.
(02/09/16)

O Corinthians e o cracaço Rivelino, orgulho e raça da Fiel Torcida.

O imenso bigode nietschiniano indica que esse cara aí foi um grande e respeitado pensador. Não há como contestar isto, gentis leitores. Embora seus melhores trabalhos legados à humanidade não constem em nenhum dos compêndios da literatura universal, esse rapaz era um grande, um formidável pensador. Ostentando o número 10 nas costas de sua camisa do S.C. Corinthians Brasileiro, sagrado manto, ele pensava, pensava, racionalizava, arquitetava, construía, tecia o jogo do meu glorioso, salve, salve, Coringão do Parque São Jorge. Lá ele chegara ainda imberbe e ali seu bigodinho foi crescendo, crescendo até virar um frondoso e imponente moustache. E seu futebol também cresceu, cresceu, cresceu ainda muito mais, virou craque diferenciado aqui e no vasto universo do esporte bretão. Nós, torcedores mais atilados, já víamos isso nas partidas preliminares, ele arrasando no time corintiano de aspirantes, passagem de muitos para a consagração junto à Fiel. E a galera antenada chegava cedo aos estádios para ver o espetáculo dos aspirantes do Corinthians. Ah, meu Deus!, tantas e tantas alegrias nos deu Riva com sua técnica apurada, sua garra, sua vibração contagiante, tudo tão corintiano demais em sua essência. Sua canhotinha abençoada nos inebriava os olhos, com seus dribles desconcertantes, como o elástico que ele aprendera com Sérgio - o amigo nissei, ponta dos mesmos aspirantes - que Riva lançou ao mundo dando o devido crédito ao amigo. Sou eternamente grato a Riva como corintiano e como brasileiro já que ele, ao lado de Pelé, Tostão, Jairzinho e Cia, deu-nos a todos nós, o título mais incontestável que temos de Campeões Mundiais de Futebol que foi o de 1970. E ainda assim, pasmem, foi injustiçado por culpa de um decisão carregada de burrice do presidente Mateus, talvez pela ainda mais burra indução de obtusos cronistas de futebol da época que. em sórdida e difamatória campanha, tiraram de Riva a camisa 10 do Corinthians e quem saiu perdendo com isso foi a Nação Alvinegra, para alegria do Fluminense do Rio que soube dar a Rivelino o devido valor e carinho e ele soube retribuir dentro dos gramados. Negaram-lhe no Corinthians a glória do título de campeão paulista que já estava maduro após 20 anos de espera e aconteceria três anos depois da saída forçada de Rivelino. Quem ficou no prejuízo, nunca é demais repetir, fomos nós, apaixonados torcedores corintianos, que pagamos pela sordidez e a burrice alheias que permeiam o mundo do futebol com insistência. Mediocridades assim deviam ensinar coisas melhores a dirigentes, torcedores, a certos jornalistas e cronistas de futebol, mas sei lá porque não ensinam e seguem sendo o que são, sendo que alguns ganham fortunas para dizerem com convicção suas asneiras e suas "verdades" distorcidas, contribuindo com cartolas espertalhões e suas políticas nefastas, contribuindo assim para afundar o futebol brasileiro. Apesar dos pesares, ainda bem para nós que há o lado bom e nobre do chamado esporte mais popular do mundo: os autênticos craques do futebol. Nesse mais que seleto panteão passeia uma formidável legião de maravilhosos e inolvidáveis cracaços de bola, entre eles, com seu moustache niestzchiniano,o inigualável pensador Roberto Rivelino a quem os deuses do futebol legaram seus dribles mágicos, suas fintas desconcertantes, seus lançamentos precisos, seus chutes potentes e indefensáveis, sua genialidade enchendo de alegria meu coração torcedor corintiano da adolescência aos dias atuais. A Riva, eterno Garoto do Parque São Jorge - Ogun-yê, meu pai! - a minha eterna, inefável e imensurável gratidão.
(Public. orig). 30/05/10)

29 outubro 2017

Robério Cordeiro e sua arte de HQs, cartuns e ilustrações

Robério Cordeiro é um cara que transita no desenho há décadas. Primeiro conheci seu trabalho de quadrinista e criador de personagens quando ele surgiu acompanhando Cedraz, este já um desenhista admirado, a quem Robério, jovem recém chegado lá das bandas de Jacobina, interior baiano, insistentemente chamava de senhor. Era um tal de "Seu Cedraz" prá lá e "Seu Cedraz" prá cá, coisa de se admirar, o respeitoso tratamento. O tempo passou, torcida brasileira, e como por aqui na Bahia não há muito espaço onde se publicar desenhos de quadrinhos, tiras e cartuns, Robério, ao invés de ficar chorando, sentado à beira do caminho, optou por colocar seu traço a serviço do IRDEB/BA, fazendo por lá toda sorte de trabalhos, desde ilustração para livros de teor didático, capas de CD, encartes e uma montanha de coisas onde cabe seu traço fino, sendo ele próprio um rapaz de finos traços e, qual um Wilson Gray, aquele ator brasileiro de ortodoxo visual, Robério Cordeiro atravessa a vida com a mesma cara de menino, o mesmo corpitio que tinha em adolescentes dias. Com o advento da informatização, Robério - hoje artisticamente maduro - ampliou seu universo, acrescentando ao seu cabedal o domínio do Photoshop e uma cacetada de programas outros que só fizeram aumentar a qualidade do trabalho desse artista gráfico baiano, que pode ser conferido nestes links aqui: http://www.roberiocordeiro.blogger.com.br
http://www.flickr.com/photos/roberiocordeiro
Ah, sim, há também o link para o Portal do IRDEB/BA. Você clica aqui neste http://www.irdeb.ba.gov.br/ e lá acessa a Galeria de Imagens para ver algumas das mui belas criações do Robério Cordeiro.
(03/11/13)

28 outubro 2017

Cleomar Brandi: uma festa com muita alegria em seu velório e sepultamento.

"Notícia não é  folha de outono; não cai no colo." Essa frase, dizia-a Cleomar Brandi, jornalista baiano nascido na cidade de Ipiaú, que acometido de câncer, faleceu em julho de 2011 em Sergipe, onde morava. Fica evidente que, além de periodista, o cara era também escritor e poeta. Não o conheci pessoalmente, mas tivemos amigos em comum, e trabalhei muito tempo no jornal A Tarde com seu irmão, o também jornalista Chico Ribeiro Neto. Por um amigo do IRDEB, Robério, fiquei sabendo que Cleomar, que viveu a vida intensamente, amava sua profissão com todas as forças da alma assim como amava os amigos e a própria vida, era um cara querido e especial. Tão especial que, sabendo que sua morte era iminente, reuniu as forças e escreveu uma carta de despedida reafirmando suas escolhas, seu amor à vida, os bons momentos vividos,  o apreço aos verdadeiros amigos. Edith Piaf em sua canção maior, Rien de rien, dizia que não, não se arrependia de nada e desfilava segurança e ausência de mágoas pelos acontecimentos de sua conturbada existência, desconsiderando cizânias acontecidas, minimizando possíveis frustrações ocasionais na longa jornada do viver. Cleomar foi além, deixou determinado e bem claro a todos os amigos que eles deveriam fazer do seu velório não um acontecimento encharcado por copiosas lágrimas, pungentes lamentações que perdas costumam trazer, instantes para tristes e lancinantes lembranças do amigo que partira, mas, sim, uma alegre festa de celebração da vida, da felicidade de viver entre seres amados desfrutando da amizade verdadeira, momentos onde não coubesse nenhum pingo de deprimente tristeza, tudo muito de acordo com a filosofia que ele seguira à risca vida afora. E foi ainda mais longe: sabendo que os amigos, fiéis, iriam em peso ao seu sepultamento, conclamou que todos, depois de saírem do cemitério deveriam ir ao Bar do Camilo, onde ele, previamente, deixara paga a conta para uma mais que alegre bebemoração com seus queridos confrades, ainda que ele ali não pudesse estar presente em seu corpo físico. Quem lá esteve, disse que no momento em que bebiam em seu louvor, surgiu no céu um inefável arco-íris duplo, indicativo de que Cleomar não ia perder essa e se juntava aos amigos nessa sua retumbante festa de despedida deste mundo. O clima alegre que marcou o encontro pode ser visto nestas fotografias que mostram a festa alusiva ao evento pós-sepultamento. Na última delas, uma foto recente do amado Cleomar, um ser humano que soube viver a vida, um anjo radiante em sua derradeira despedida, em sua última saideira. 
(09/08/11)

22 outubro 2017

Deus e o Diabo na tela do sol

 O cinema norte-americano sempre foi uma arma de aculturamento em nossas cabecinhas tupiniquins. Quando ainda um niño de Jesus eu ia ao cinema em Candeias e na telona, linda, panorâmica, vasta e apaixonante, a magia do cinema me pegou para todo o sempre. E vai daí eu, embevecido, via filmes de cowboys metendo incontáveis e imerecidas balas em indígenas que eles, é claro, mostravam como sendo seres sórdidos, cruéis, insidiosos e nada hospitaleiros com o bom e sempre bem intencionados homens brancos ianques, com suas famílias e suas inflexíveis intenções de se instalar em terras consideradas sem dono, já que os indígenas não tinham escrituras lavradas em cartório. A bem da verdade, os autóctones não tinham nem cartório e sequer sabiam nada sobre a funcionalidade deles. Um dia, nesse Brasil brasileiro, mulato inzoneiro, surgiu em cena um cineasta chamado Lima Barreto e eis que ele abocanhou a Palma de Ouro em Cannes mostrando um brasileiríssimo cangaceiro em suas andanças pelo inóspito sertão. Tempos depois veio Glauber Rocha e seu genial Antonio das Mortes que deixou siderados cinéfilos e grandes diretores do planeta, e de quebra nos mostrou Deus e o Diabo se arrostando na Terra do Sol. E eu ali, sempre firme, apaixonado pela temática cangaceiro-e-sertão-do-nordeste. Sempre que faço uma HQ ou um cartum aproveito o tema. E quando pinto, o resultado são coisas como esta pintura aí, um painel de quase 1 metro e meio de largura por 2 metros de altura. Paixão pela temática de sertões e cangaceiros é issaí!
(19/10/14)

Norman Rockwell / Uns caras que eu amo 3



No vasto mar da Internet todos nós, intrépidos internautas, podemos desfrutar do prazer de olhar belíssimas ilustrações que ali foram postadas justamente para que possamos conhecer os trabalhos feitos por habilidosos profissionais. Esses artistas, valendo-se das mais variadas técnicas, produziram desenhos, gravuras e pinturas magníficos. Hoje, graças a sofisticados programas de computadores, qualquer ilustrador tem à sua disposição uma grande gama de possibilidades de produzir belíssimas ilustrações. A informática, sempre providencial, lhe dá múltiplas ferramentas para tornar isso possível, o que nos leva a pensar. Em passado bem remoto, ou nem tanto assim, havia artistas que produziam uma arte deslumbrante e eles não precisaram de computadores para serem os estupendos artistas que foram. Um cara como o ilustrador norte-americano Norman Rockwell, por exemplo, usava os materiais que o século XX lhe permitia usar, ou seja, prosaicos lápis, carvões, nanquim, aquarelas e tintas a óleo, desses materiais que perduram até os dias atuais, acessíveis a qualquer vivente. Isso foi mais que suficiente para ele alcançar a fama incontestável de gênio a que merecidamente faz jus. O grande diferencial estava em seu raro talento em pensar e executar seu ofício, o que o tornou um cara cultuado até essa era digital de tantas possibilidades maravilhosas de hoje. Norman tinha a habilidade para retratar pessoas e cenários de uma forma admirável. Sendo o grande artista que era não se limitava a fazer reproduções perfeitas, coisa que muitos bons artistas o fazem, ele ia além, bem além. Sabia como ninguém transmitir em minúcias a alma das pessoas e o clima de seu país. Seus pincéis mostravam de forma sútil mas evidente o sonho americano, anseios, alegrias, diferenças, incertezas, emoções de pequenos instantes da vida comum dos seus contemporâneos, em uma dimensão sem precedentes. Norman, sem ser panfletário nem estereotipar, fazia uma deliciosa crônica do american way of life. A paixão, as descobertas da infância e da adolescência, a solidão, os temores, as maledicências, o amor materno e todos os demais amores, a ansiedade, a angústia, a solidariedade, o preconceito mais indizível, a comoção, as certezas, as crenças, as esperanças. Tudo isso e muito mais, traduzindo como ninguém jamais o fizera, os sentimentos do americano médio, do pobre, do rico e mesmo os da raça humana como um todo, mostrando um olhar atento ao seu tempo, à vida como um todo. Sem jamais esquecer apaixonantes pitadas de humor e a mais refinada ironia. Fazer belas ilustrações muitos fazem e para fazer belos trabalhos gráficos o computador em muito ajuda os profissionais. Mas criar tendo o olhar atento e aguçado, a sagacidade, o humor e talento de Norman Rockwell, bem...aí é outra história.      

20 outubro 2017

Woody Allen na Sagrada Colina do Bonfim, na Bahia.

Sempre estóico e diligente, jamais sorumbático ou macambúzio, constantemente lépido, fagueiro, viril e altaneiro, dirijo-me no rumo da sagrada colina do Bonfim trajando brancas vestes como pede a última sexta-feira do mês aqui na Bahia. Envergando inconsútil túnica, lá vou eu para a igreja agradecer graças alcançadas a Nosso Senhor do Bonfim, Oxalá, nosso pai maior. Mal começo a subida, ouço às minhas costas alguém gritar meu nome: "Paulôôôôu!" Meu apurado ouvido de globetrotter e cidadão do Mundo experimentado reconhece o sotaque de Manhattan. Mas não reconheço a figura que me apela envergando caro e classudo chapéu panamá, uma medida do Bonfim no pulso esquerdo. Aproximo-me. Aquela tez alva, aquelas sardas no rosto, aquele cabelo ralo, os óculos fundo-de-garrafa não deixam margens a qualquer engano: é Woody Allen. Meses atrás eu estivera em NY e lá estando fui ao Café Carlyle, no Lower East Side, ver uma apresentação de Woody Allen and his New Orleans Jazz Band. No final, um produtor musical, amigo em comum, nos apresentou. A empatia foi mútua, conversamos e rimos muito. Ele então me disse que planejava visitar a Bahia quando arrumasse tempo para tal. Este dia chegou mais rápido do que eu pensava e agora lá está ele em carne (pouca) e osso (muito) ao lado de sua bela amada coreana, Soon-Yi, que vem a ser uma enteada de Mia Farrow - ex-Sinatra e André Previn - ficando a sino-girl famosa por ter sido um dos vértices do amplamente divulgado triângulo amoroso Woody-Soon-Yi-Mia Farrow. Mia, a despeito de ser uma celebridade, atriz afamada, reconhecida por ser pessoa de atitudes humanitárias autênticas e uma mulher vivida, ao fuçar qual uma noiva neurótica e nervosa, os intocáveis guardados do seu sagrado marido, acabou por descobrir que fora passada para trás. Aí armou um barraco sem precedentes, de deixar as maiores barraqueiras do subúrbio baiano de queixo caído. Minhas amigas me odiarão por isto mas, constatando de perto, estou mais que certo que o dito tímido Woody saiu ganhando amplamente ao trocar a barracante branquela por esta sílfide de tez levemente amarelada e oloroso hálito. Conversar com um intelectual brilhante como Woody Allen exige do interlocutor uma inteligência acima da média, que não tenho, conhecer filósofos e autores diversos. O homem é cineasta aclamado, ator, escritor e intelectual respeitado. Quanto a mim, tudo que sei sobre Proust é que ele vivia chegando atrasado aos compromissos, sempre correndo atrás do tempo perdido. De Goethe, que ele teve a luz cortada por falta de pagamento no fim da vida. E se ao meu lado alguém pronuncia Nietzsche, digo logo: "Saúde!" Ainda bem que como soteropolitano tenho lá minhas manhas e quando Soon-Yi vira-se para olhar uns balangandãs, uns panos-da-costa e um negão do Olodum, com um ar vitorioso e com um incontível orgulho lanço não uma, mas duas indagações assaz pertinentes to my pal: "Woody, buddy, aqui entre nós... é mesmo verdade que as mulheres asiáticas, em pé estando, têm a perereca na horizontal?". "Em assim sendo, é fato que ao descerem nuas por um corrimão a sino-perereca emite ruídos tais como tchup!tchup!tchup!tchup!?" Ahá! Aposto que ele não esperava que eu enveredasse por assuntos tão relevantes e de tais grandezas e profundidades. Posso não ser um elevado intelectual mas sei que a humanidade tem dúvidas eternas que desde os primórdios a atormenta, tais como "Quem somos?" "De onde viemos?" "Para onde vamos?", além dessas duas questões que tasquei em cima do meu bom amigo judaico. Ele principia a articular resposta quando uma buzina o interrompe. É a limousine que vem apanhá-lo. De dentro desce um chouffeur a caráter que abre a porta do veículo de onde salta um alucinado agente que, dizendo "We are late!", empurra o casal para o interior da limo. De lá, a bela Soon-Yi e o nada belo Woody me acenam um "So long", um pouco constrangidos pela repentina saída . O luxuoso veículo dá a partida e segue voando. E eu, ao pé da colina sagrada, me quedo sem ter mais uma vez as respostas que deslindariam para mim dois dos mais antigos e intrigantes mistérios da Humanidade.
(04/02/13)

Aquarela, sketchbook, família e Clarice Lispector.

Alguns artistas não abrem mão de levarem consigo, onde quer que forem, um providencial caderninho, com o fito de fazerem anotações diversas, sendo um valioso auxiliar. Ali soem anotar ideias que lhes surgem sem hora marcada nem prévio aviso. Se não anotam...puff! Essas ideias se vão e se perdem por aí, sabe lá Deus para onde vão. Desenhistas e pintores também costumam utilizar frequentemente seus caderninhos, atualmente rebatizados com um termo da língua inglesa, sketchbook, o que lhes garantem uma importância maior nesse país de infindáveis aculturamentos. Nos meus há um monte de desenhos que jamais publiquei. São só estudos, divagações gráficas que podem servir de base para novos trabalhos de desenho ou pintura. Entre tais estudos, está este aí em cima, feito em aquarela bem manchada. Manchas à mancheia, como diria o vate. A temática surgiu inspirada em uma velha foto no meu álbum de família. Sempre que revejo, me vem à mente Clarice Lispector e eu acabo sentindo uma imensa ''saudade de mim''.
(04/07/14)

16 outubro 2017

Lembrando Lage, cartunista tão brilhante quanto o Sol da Bahia

Quando perdemos Lage este país perdeu um dos seus mais brilhantes cartunistas. Hélio Lage era um profissional do Humor que tinha a capacidade rara de fazer um trabalho social e politicamente engajado, transparente, preciso, que atingia infalivelmente os alvos visados. Isto tudo sem perder a sua excepcional veia humorística, que Humor era com ele mesmo. Os amigos e os colegas das redações de jornais morriam de rir com suas frases espirituosas tiradas de improviso sobre qualquer situação e em qualquer local que ele se fizesse presente. Na charge, no cartum, nas HQs, nas suas tiras, Lage tinha a marca do ineditismo. Seu Humor era algo personalíssimo, original, com um timbre só dele, que eu nunca havia visto, que envolvia, apaixonava, encantava, capturava qualquer leitor inteligente, e tudo isso usando a mais risível, a mais autêntica, a mais louvável e deliciosa sacanagem baiana. Recordo-me claramente de cartuns e tiras feitos por ele há já vários lustros. E ainda rio muito com todos, sou capaz de citar de cor textos dos balões com as falas de seus personagens, da mesma forma que, em filmes norte-americanos, cinéfilos adolescentes citam longos diálogos entre protagonistas de seus filmes preferidos. Lage era universal e ao mesmo tempo, profundamente baiano, seu Humor escreve-se assim, com H maiúsculo. Ele fazia um Humor popular, Humor moleque, Humor intimorato que arrostava os poderosos de plantão. Nestes dias em que o Brasil vive dias sombrios, frutos de um governo ilegítimo guindado ao poder através de um golpe abjeto, Lage faz falta, muita falta, com sua lucidez, sua coragem, sua sagacidade, seus cartuns reveladores, capazes de traduzir toda a canalhice contida nos atos dos que estão destruindo sonhos, esperanças, vida cotidiana, tornando pó todos os direitos trabalhistas, dando privilégios aos já muito privilegiados, e entregando de bandeja aos gringos nossas riquezas pátrias, relegando o Brasil ao humilhante papel de mera colônia, em um inconcebível e inaceitável retrocesso.
Dona Benedita, mãe de Lage, Seu Anísio, seu pai, acertaram em cheio na escolha de seu prenome, Hélio. Como Hélio, o Sol, Lage brilhou intensamente nesta terra, nesta vida e nos iluminou a todos.
Para ver trabalhos do Lage, clique no link que leva ao Portal do IRDEB:  http://www.irdeb.ba.gov.br/imagens/media/view/528 e vá em Galeria de Imagens.
(18/03/14)

14 outubro 2017

Álex de la Iglesia, suas ótimas comédias e o melhor do cinema espanhol.

Sou dos que sentem um enorme prazer ao assistir um bom filme produzido pelo cinema espanhol. Um prazer já antigo, que sempre nos chegou, aqui no Brasil, através de cineastas como Luis Buñuel e seus filmes belos e questionadores, de Saura, e, em tempos mais recentes, de Fernando Trueba e Bigas Luna. Volta e meia, quando se faz necessário, o cinema da Espanha se recicla, ousando quando tudo parece ser acomodação e mesmice. Em 1991, um novo cineasta, Álex de la Iglesia, causou ótima impressão entre os espanhóis ao rodar um curta-metragem, Mirindas asesinas. Álex, valendo-se de curtos 12 minutos, brindou os cinéfilos com um humor contagiante, personagens hilários, um timing perfeito, mostrando quem ele era e a que veio. O público e a classe artística adoraram. Tão boa impressão ele causou que ninguém menos que o já consagrado cineasta Pedro Almodóvar decidiu financiar o primeiro longa-metragem de la Iglesia, através da vitoriosa produtora El Deseo, que Pedro divide com seu irmão, Agustín Almodóvar. Assim, com esse aval luxuoso e toda uma estrutura profissional à disposição, em 1993 foi rodada Acción mutante, uma divertida comédia, cheia de alternativas e inovações, bem escrita, interpretada e dirigida, que fugia aos filmes habituais, renovando a linguagem da comédia, propondo novos caminhos ao cinema da Espanha. Acción mutante, tendo sido um filme bem sucedido, propiciou a Álex a realização de novas e maravilhosas comédias, todas muito bem produzidas, as aberturas dos filmes graficamente bonitas, criativas e modernas sendo uma constante, efeitos especiais de primeira, um grande número de atores e figurantes sempre em cena, o que requer um diretor seguro e atento. Os argumentos, que fogem ao convencional, são sempre inteligentemente escritos por Iglesia, em grande parte assinados com o notável Jorge Guerricaechevarria, uma parceria de sucesso. Alicerçado por tanta excelência, o trabalho de direção de Álex de la Iglesia mostra ser feito com total competência e dinamismo, não permitindo ele que suas comédias tenham momentos de monotonia, nem resvalem para um humor barato, previsível. Álex sempre trabalha com excelentes comediantes, atores e atrizes versáteis, conseguindo que eles deem o melhor de si. Entre tantos notáveis estão Carmen Maura e Rossy de Palma, mundialmente consagradas pelas câmeras de Almodóvar, o superstar Javier Bardem, o sempre ótimo Santiago Segura, Álex Angulo, Sancho Gracia, Enrique Villén e a bela Carolina Bang, que tornou-se esposa do diretor. Uma comédia de Álex de la Iglesia é garantia de um humor de alto nível, gostosas risadas, muitas emoções e momentos de prazer. Aos espectadores, resta buscar em locadoras ou na internet, comédias como a cult El dia de la bestia (1995), Perdita Durango (1997), Balada triste de trompeta (2010), La chispa de la vida (2012), que é um misto de drama intenso e comédia, Las brujas de Zugarramurdi (2013) e Mi gran noche (2015). Os títulos em Português são traduções ao pé da letra. Essas películas citadas são todas deliciosas, mas há muitas outras mais, entre elas uma intitulada 800 balas (2002), que me agrada muitíssimo pela sua temática que mostra a luta pela sobrevivência de um grupo de ex-figurantes e dublês que se apresentam em uma cidade-fantasma, na verdade, um antigo set de filmagem de Almeria, na Espanha, local onde se rodaram, de fato, dezenas de filmes de faroeste, muitos estrelados por cultuados astros do cinema mundial, como Clint Eastwood. 
(15/01/17)

Ramona Fradon: uma mulher talentosa que provou que ser desenhista top de histórias em quadrinhos não é privilégio dos homens.

Quando falamos de histórias em quadrinhos e de seus grandes artistas em todos os tempos, a menção aos EUA é obrigatória, tão vastíssima é a produção norte-americana de tiras e HQs em todos os gêneros possíveis desde que essa forma de comunicação foi levada a leitores do mundo inteiro. Dentre esses leitores, os mais assíduos sabem citar de cor e salteado uma extensa lista com os desenhistas e argumentistas mais afamados e talentosos. No entanto, o talento nem sempre caminha pari passu com a fama e assim, há artistas maravilhosos, excelentes em seu ofícios que apesar de seus invejáveis talentos não têm o nome conhecido nem costumam ser citados pela grande legião dos fãs da Nona Arte. Quando se fala em profissionais, as histórias em quadrinhos são sempre associadas às figuras masculinas. Geralmente as pessoas ignoram que há ótimas profissionais escrevendo ou desenhando HQs. Uma dessas profissionais chama-se Ramona Fradon, uma desenhista espetacular com uma respeitável e diversificada produção de quadrinhos, notadamente na área de heróis ou superheróis como Aquaman, Batman, Robin, Mulher Maravilha, Superman, Supergirl, Superamigos, Lanterna Verde e uma interminável lista mais. Ramona é hoje uma bela senhora de bem vividos 90 anos de idade e iniciou a trabalhar como profissional em 1950, fazendo diversas funções, seja executando desenhos a lápis ou atuando como artefinalista, capista, criadora de personagens. Sempre requisitadíssima, produziu incontáveis trabalhos para a DC Comics e para a Marvel Comics, entre outros grupos notáveis. Ganhou prêmios importantes, sendo que em 1999 ingressou no Woman Cartoonists Hall of Fame, e em 2006 no Eisner Award Comic Book Hall of Fame. Por tudo isso, Ramona pode ser também considerada uma verdadeira Mulher Maravilha. 
Ilustro essa postagem com mais trabalhos de Ramona Fradon. Deliciem-se, amáveis e privilegiados leitores. De quebra, posto uma foto dessa wonder lady para vocês verem com seus próprios olhos que aos 90 anos ela se mantém uma gatinha. E o mais importante: em plena atividade profissional, segue nos brindando com seus desenhos magníficos.
(27/08/16)

J.Bosco, um caricaturista e seu livro de maravilhas

1. Lupicínio Rodrigues 2. Bertold Brecht 3. Martin Luther King
Fui agraciado esse ano com grandes e preciosos livros de assuntos, os mais diversificados: poesias, contos, crônicas, biografia, cartuns, caricaturas. E é justamente sobre um livro de caricaturas em especial que quero falar a vocês, diletos e amados leitores. Trata-se de uma edição primorosa, graficamente muito linda, contendo magnífica mostra da obra de J.Bosco, um artista do cartum, da charge, da caricatura e do grafismo, que veio ao longo dos muitos anos de profissão mostrando uma clara e incontestável evolução de seu trabalho - do traço à maneira de criar e definir seu desenho - até atingir o atual estágio em que se evidencia sua maturidade e os caminhos próprios que adotou para nos brindar a todos nós, seus leitores e fãs. O traço de J.Bosco tem, a meu ver, algo do consagrado caricaturista Loredano. Só há mérito nisso, influências são coisas naturais na trajetória de qualquer grande artista na busca pelo seu caminho pessoal e essa ascendência certamente ajudou Bosco a criar seu trabalho pessoal, maduro, personalíssimo, tão consagrado hoje em todo o Brasil. Seu traço é bonito, suas hachuras são limpas e precisas, sua interpretação lança um olhar novo sobre personalidades já tão amplamente retratadas por outros consagrados caricaturistas. No livro, outra coisa digna de elogios é a cuidadosa seleção das 80 personalidades retratadas. Nada de subcelebridades, só o que há de melhor na música, na literatura, no cinema.  Desfilam pelas páginas do livro nomes como Pedro Almodóvar, Pixinguinha, Penélope Cruz, Cantinflas, Mazzaropi, Tarantino, Jackson do Pandeiro, Glauber Rocha, Groucho Marx, Jean Reno, Sean Connery e outras maravilhas que brindaram a humanidade com seus talentos. Um deleite para os olhos dos admiradores da nobre arte da caricatura, uma fonte generosa de prazer para todos que admiram essa forma de expressão. Eu poderia aqui dizer que Bosco está no apogeu de sua criativa carreira de caricaturista, mas teria que completar dizendo que isso é só por enquanto, a notável evolução do trabalho de JB seguramente vai levá-lo a patamares mais altos e seu traço se tornará ainda mais bonito e preciso, não tenho a mínima dúvida. Para dar uma idéia da excelência do trabalho bosquiniano, ressalte-se que a cultuada revista Gráfica, capitaneada pelo venerado Miran, recentemente dedicou uma de suas disputadas edições ao trabalho desse artista paraense, mostrando que a caricatura brasileira torna-se muito mais rica e admirada com a arte de J. Bosco. 
(Publ. orig. 29/11/15)

13 outubro 2017

Caetano, Glauber, Jorge Amado em uma seleção de artistas e intelectuais do mundo inteiro

De cima para baixo e (sem nenhuma intenção de conotação política) da esquerda para a direita:
Sigmund é Freud/Salvador Dali da Catalunha/Jean Terrible Genet/Fernando Muitas Pessoas/Albert Little Tongue Einstein/Louis Cheeks-and-Arm-Strong/Villa-Índio-de-casaca-Lobos/Charlot Chaplin/Jorge Mui Amado/Caetanos Velosos/Glauber Deus-e-o-diabo Rocha/Marlon Nada Brando/Luciano Gogó Pavarotti/Woody Woodpecker Allen/Nelson Flu-e-Flag Rodrigues/Elvis The Pelvis/Andy Peacehol/Imagine Lennon
(28/03/2014)

José Cândido de Carvalho, escritor: visão ecológica lúcida bem antes do G8

Além de nos mimosear a todos com obras literárias de grande inspiração, José Cândido de Carvalho, cidadão atento, mente lúcida, de quebra nos alertava em 1970 para os crimes perpetrados contra a natureza em nome do progresso. Falar em defesa da ecologia e do ecossistema hoje é uma praxe de muitos neste planeta com tantos crimes ecológicos e superaquecimento, ainda que os culpados pelos graves problemas contra o planeta se sintam livres para continuar em suas práticas nefárias. José Cândido, inteligente, antenado, consciente, premonitório, antevendo que tudo redundaria nos graves problemas do mundo de hoje, já alertava contra o que estava por vir e assim escreveu e publicou isto 40 anos atrás :
" E agora, não tendo mais o que inventar, inventaram a tal da poluição, que é doença própria de máquinas e parafusos. Que mata os verdes da terra e e o azul do céu. Esse tempo não foi feito para mim. Um dia não vai haver mais azul, não vai haver mais pássaros e rosas. Vão trocar o sabiá pelo computador. Estou certo que esse monstro, feito de mil astúcias e mil ferrinhos, não leva em consideração o canto do galo nem o brotar das madrugadas. Um mundo assim, primo, não está mais por conta de Deus. Já está agindo por contra própria. "
(25/09/2014)

11 outubro 2017

Mulher de Libra no Horóscopo de Vinicius de Moraes

A mulher de Libra
Não tem muita fibra
Mas vibra
Quer ver uma libriana contente?
Dê-lhe um presente.
Quando o marido a trai
A mulher de Libra
balança mas não cai.
Se você a paparica
Ela fica.
Com librium ou sem librium
Salve, venusiana
Que guarda o equilíbrio
Na corda mais fina.
(121013)

Gordurinha e sua arte, Tio Sam, a Bahia e o bebop no nosso samba. / Uns caras que eu amo 9

Gordurinha, cantor, compositor, humorista e radialista baiano, foi nome de sucesso em todo o Brasil na chamada Época de Ouro do Rádio. Difícil, quase impossível, é alguém da atual geração - tão bem servida de imagens oriundas de TVs, das câmeras fotográficas digitais ou dos múltiplos artefatos eletrônicos que a qualquer momento do dia filmam, gravam, registram imagens, divulgando-as, compartilhando-as instantaneamente - acreditar que existiu um tempo em que eram os ouvidos, e não os olhos, os condutores da arte e de toda e qualquer informação. Acontece, caros smartphonísticos mancebos e tabletísticas moçoilas, que as coisas já foram assim em uma era que já era, a Era do Rádio. Nela brilharam artistas fantásticos, entre eles o baiano Gordurinha, de tantos grandes hits populares, a exemplo de Baiano burro nasce morto, composição solo sua, cantada em todo esse mulato inzoneiro. Sua gravação de Mambo da Cantareira, de Barbosa e Eloíde, fez enorme sucesso, sendo regravado em tempos recentes pelo cantante Fagner. Uma composição sua, Oróra analfabeta, em parceria com Nascimento Gomes, é sucesso até hoje, descrevendo encantos e desencantos de Oróra, uma dona boa lá de Cascadura que é uma boa criatura, mas que escreve gato com J e escreve saudade com C e que, ainda por cima, afirma adorar uma feijoada compreta. De Gordurinha é também a bela e tocante Súplica cearense, feita em parceria com Nelinho, a divertida Caixa alta em Paris, a sensível Vendedor de caranguejo. Mas o maior êxito popular de Gordurinha, certamente é sua composição, Chiclete com banana. letra e música suas, ainda que oficialmente conste o nome de Almira Castilho, esposa e partner de Jackson do Pandeiro, como sua parceira na composição, o que -  segundo consta - de fato não teria acontecido. O que sucedeu, de verdade, foi que a composição agradou em cheio, adentrando com estilo a História da MPB, eternizada que foi pela gravação dele, o venerado Jackson do Pandeiro, senhor do ritmo, mestre da ginga e dono de uma maneira gostosa, única e inigualável de interpretar canções. Chiclete com banana é uma sacada perfeita de Gordurinha para definir o universo da nossa massificação cultural via United States, coisa que sempre nos assolou em diversas áreas de nossas artes.  Se na época o sucesso da música foi enorme, o tempo que passou nos diz que ela segue sendo uma rica referência até os dias atuais, no que muito ajudou sua regravação por Gilberto Gil no disco Expresso 2222. O título da música foi usado para batizar a famosa banda de axé-music e a revista em quadrinhos do cartunista Angeli. Sua letra é uma declaração de amor à música do Brasil, uma afirmação de carinho e apreço a tudo que temos de bom em nossa alma brasileira, um brado de resistência cultural diante da imposição das coisas made in USA, notadamente o constante domínio exercido pelas gravadoras e ritmos norte-americanos sobre a nossa música, no caso, vinda de um ritmo chamado bebop. De forma clara e gostosamente bem-humorada, Gordurinha informa à industria musical ianque que antes, bem antes, de nos aculturarem, eles precisariam conhecer mais profundamente, entender, respeitar e mesmo assimilar a música do Brasil, mandando-lhes um ritmado e irreverente recado: "Eu só boto bebop no meu samba, quando o Tio Sam pegar no tamborim. Quando ele pegar no pandeiro e no zabumba e entender que o samba não é rumba"... E, concluindo, desafiador: "Eu quero ver o Tio Sam de frigideira numa batucada brasileira."    
 (20/11/16)  

06 outubro 2017

Flagra em duas cantoras da MPB de sapatos extra large./ Sexo de graça

(11/01/12)

Affonso Manta, poeta: masoquista light

Para o dulcíssimo deleite dos leitores já postei aqui alguns dos versos irreverentes do poeta baiano Affonso Manta para mostrar a vocês que a boa poesia baiana vai muito além do consagradíssimo vate Castro Alves. Pesquisando, achei estes outros versos de Manta, com sutil toque sadomasô, que são uma rara delícia para encantar os mais refinados paladares. Bon appétit.
Pisciana
Celeste é meio indócil, mas serena.
De gênio calmo. Mas de amor fogoso.
Ela me dá felicidade plena
E surra de cipó de fedegoso.
(16/10/13)

Portal do IRDEB, cultura, exposição e grandes artistas.

A beleza negra e as diversas manifestações culturais da Bahia para internautas de bom gosto.
Neste mundo hodierno, as programações que nos oferecem as chamadas TVs abertas - valha-nos Deus! - é um monturo só. As emissoras de rádios não ficam para trás e são - com raríssimas exceções - outro enorme monturo. Mas há, felizmente, o IRDEB, que mantém verdadeiro oásis no éter, a Rádio Educadora, e nos permite acessar em nossos lares a TVE. Ambos costumam nos brindar com músicas e programas de nível elevado, do agrado de pessoas que exigem mais, bem mais que sucessos fugazes de ritmos da moda, muitos de gosto prá lá de duvidoso, digamos assim. Além do mais, tanto a Rádio Educadora quanto a TV Educativa fazem um belíssimo e necessário trabalho de divulgação e preservação da cultura baiana, nordestina e brasileira. No pretérito ano de 2009, o IRDEB criou e vem mantendo com total sucesso e expressivo número de visitas, um Portal que divulga o que há de bom no panorama cultural, em toda sua diversidade. Neste referido Portal, um espaço reservado para as artes pictóricas. E é com a alma lavada e enxaguada nos mares e rios da emotividade, da gratidão e do orgulho artístico, que tenho a honra de ver meu nome e meus trabalhos incluídos e em exibição neste nobilárquico espaço que abriga feras como o saudoso Lage, um gênio do cartum. Quem o Portal do IRDEB acessa, vai ser brindado com magníficas fotos, criativos e informativos vídeos, ver dança, canto, diversificados aspectos do folclore e da cultura. Ah, ainda pode ver, de quebra, as caretas bizarras de Robério Cordeiro e de Guache Marques no Acupe. Ôpa!, êpa! Eu quis dizer, as bizarras Caretas de Acupe e os mui belos trabalhos de Robério e de Guache, gentes boas e de incontestáveis talentos artísticos, além de serem duas figuras de finas estampas. Você, preclaro leitor, pode confirmar minhas palavras sobre os tesouros contidos no Portal, clicando no link abaixo. Acessando o Portal, vá ao tópico Galeria de Imagens para se deliciar com a arte dessa galera e de um grande número de formidáveis artistas gráficos, plásticos e fotógrafos. 
 http://www.irdeb.ba.gov.br/
(04/12/2009)

Nildão, artista gráfico, Elvis, Gilberto Gil e muito humor.

Designer gráfico, humorista e cartunista, Nildão já usou de toda sua rara criatividade e humor para nos mostrar aqui nesse bloguito que o cruzamento do popstar Michael Jackson com o maravilhoso cantor de ritmos nordestinos Jackson do Pandeiro, resulta num magnífico ser batizado de Michael Jackson do Pandeiro. Massa! Agora ele usa sua criativa cuca para nos mostrar qual o híbrido resultante de um cruzamento do rei do rock'n roll, Elvis, com o rei do futebol, Pelé. E ainda nos exibe umas graças para nos encantar e provocar frouxos de riso. Enjoy yourself, baby!
O link para o blog do Nildão é http://www.nildao.com.br
(Publicado originalmente em 23/09/15)

Sexo de graça / Flagra no Timbaleiro Carlinhos Brown

(07/01/2012)


03 outubro 2017

Portal Multimídia do IRDEB: Arte e artistas da Bahia.

Não é de hoje que o IRDEB, Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia, presta mui relevantes serviços à cultura da Bahia. Para aproveitar os elásticos poderes de comunicação da internet e dar maior visibilidade aos artistas, literatos, dramaturgos, fotógrafos, eventos sociais e políticos, festas populares e otras cositas buenas dessa afro-terra, há já algum tempo o Instituto criou o Portal do IRDEB em que os interessados, os que têm sede de cultura, encontram um mundo de coisas relativas ao expressivo caldeirão cultural da Bahia, toneladas de ótimos vídeos, projetos especiais, radionovelas, jornalismo, poesia, filmes e o escambau. Você, leitor fenomenal, de vasto cabedal cultural etcétera e tal, não pode passar batido. Acesse o link e dê uma boa e atenta olhada o quanto antes, agora mesmo, se possível. Vale dizer que ao entrar no Portal, uma das muitas opções a seu dispor é clicar em Galeria de Imagens. Lá você encontrará uma seleção de conhecidos artistas da Bahia, todos com trabalhos bem diversificados, incluindo fotografias, esculturas, artes gráficas e plásticas e um mundaréu de coisas mui belas. Entre esses artistas você encontrará o cartunista Lage e seus cartuns e desenhos maravilhosos, o sempre criativo Robério Cordeiro e o formidável Guache Marques, que é um mix de talentosíssimo artista plástico e irresistível galã de novelas mexicanas, sempre arrancando suspiros de lúbricas e concupiscentes moçoilas quando por qualquer vereda su fina estampa passea. Ah, antes que me esqueça, usando da maior falsa modéstia, quero lembrar que, nessa seleta lista de amados e venerados artistas, também está Paulo Setúbal, o popular eu mesmo, exibindo uma série de trabalhos de minha lavra como ilustrador, pintor, retratista e caricaturista. Tá pensando o quê?! Não sou fraco não, véio!
******O link para o Portal é http://www.irdeb.ba.gov.br 
(24/12/16)

Biratan Porto e Max Reis com suas deliciosas crônicas.

De Belém do Pará, onde tenho amigos do peito, recebo um presente digno de rei que um desses amigos fraternos generosamente me envia. Trata-se de algo assaz envolvente, mas não se trata de um disco de carimbó do Pinduca, nem um tecnopop da vibrante, esfuziante e contagiante Gabi Amarantos. É coisa saborosíssima, mas esclareço logo que não é uma tigela recheada de um delicioso açaí. Trata-se de um belo exemplar de Ora, mas tá!. Se você não captou, explico que esse é o título de um livro de crônicas escritas por Biratan Porto e Max Reis. Magistralmente escritas, devo acrescentar, na minha modesta avaliação de apaixonado leitor do gênero, vez que crítico literário não o sou. O livro em si, é bonito, tem belas soluções gráficas para a capa e para os textos internos. Quanto aos autores, caro leitor, como sua mente sagaz e atilada já percebeu, Biratan Porto é aquele cultuado cartunista, autor de belos cartuns premiados mundo afora, por conta de seus desenhos e ideias magníficas, muitas delas abordando temas ecológicos, denunciando desmatamentos e a poluição que atinge criminosamente metrópoles, lagoas, mares e rios. E por falar em mares e rios, Biratan não é nenhum peixe fora d’água quando assume o papel de escriba. Na seara das crônicas ele transita com a mesma desenvoltura com que traça seus magistrais cartuns, exibindo sua proverbial criatividade, uma sensibilidade tocante, reveladora de uma autêntica alma de cronista, que mergulha na sua rica memória afetiva para nos brindar com jogos e folguedos de sua infância saudável, plena de alegrias, ludicidade e descobertas vividas com intensa felicidade por quem foi um típico menino do interior do Pará, para quem as ruas, becos, praças e campos de Castanhal compunham um reino a ser explorado e ele, um rei em seu corcel, intrépido, arrojado, destemido vivenciando toda sorte de possíveis aventuras, momentos épicos e plenos de magia, tão mágicos que um dia viraram letras, palavras, substantivos, adjetivos, verbos e pousaram no papel das páginas que compuseram um dulcíssimo livro de crônicas que li com intenso prazer. Além, muito além dessas reminiscências vai Biratan, passeando também pela ficção com o mesmo olhar observador, atento aos mais discretos detalhes ocultos nos lugares mais recônditos. Mas reservarei isso para abordar em um próximo texto. Neste me cabe contar também sobre seu companheiro de empreitada literária, Max Reis, que vem a ser o outro cronista de Ora, mas tá!. Que formidável dupla formam Biratan e Max Reis! Max, também se vale de sua memória para buscar na infância - igualmente vivida de forma intensa - e na sua juventude as lembranças de amigos fiéis, lugares, folguedos, namoros, as paixões adolescentes e as maduras. Tudo costurado com a mesma linha da emoção, própria de quem sente um perceptível prazer em viver, sempre olhando as coisas de um ângulo bastante pessoal em que se acumulam o humor, o amor, o filosofar, a indagação, a contestação, o apego ao modo de vida próprio dos viventes do Pará, de detalhes simples à primeira vista, mas com uma riqueza e exuberância que Max sabe captar, apreender e revelar aos leitores de suas crônicas. Não se resume ele a fazer um memorial. Das coisas vividas e vistas ao longo da de sua vida, Max Reis - mostrando intimidade com as palavras – recupera detalhes que agora revela em minúcias, coisas que por vezes escapa aos olhares dos mais desatentos, daqueles muitos que passam pelas coisas olhando sem ver. 
*****Com entusiasmo, aconselho aos que são chegados a uma boa leitura, especialmente de crônicas, que encomendem seu exemplar desse livro de leitura tão convidativa e prazerosa. Para fazer a encomenda do livro basta enviar uma mensagem para http://biratan.cartoon@gmail.com . E é bom você não marcar touca, senão a edição se esgota e aí vai ficar se lamentando. E quem olhar você, no maior desconsolo por ter dado tal bobeira, há de dizer: “Ora, mas tá!”  

Montaigne, Chico Buarque e o Amor que não pede explicações.

O que faz nascer uma amizade imorredoura? O que move uma paixão desmedidamente extraordinária dentro de nossos humanos corações? O que nos leva a gostarmos tão intensamente de uma pessoa, por vezes tão diversa de nós? Ou a nos apaixonarmos perdidamente por alguém e mantermos com esse alguém um relacionamento que, no dizer do Poetinha, enquanto dura, infinito é. Amigos, parentes, conhecidos e desconhecidos, veem essa relação vivida com olhos de quem assiste a algo em que a lógica se volatiliza e se lhes escapa, algo improvável, indefinível, pleno de estranheza, difícil de ser decodificado, entendido, assimilado. Para desvendar esse mistério, buscando um satisfatório entendimento disso, Chico Buarque - compositor, cantor, dramaturgo e escritor - foi buscar a melhor definição nos ensaios de Michel de Montaigne, o célebre escritor, humanista e filósofo da França, sempre a França. Chico conta em um vídeo que, por ser insistentemente questionado sobre o porquê de sua mais que imensa e eterna amizade por outro humanista e filósofo francês, Étienne de La Boétie, cuja morte precoce levou Montaigne a escrever o ensaio “Da amizade”, em que dizia apenas que gostava dele, e ponto. Quinze anos mais tarde, revendo o que escrevera, o escritor acrescentou que gostava do grande amigo “porque era ele”. Foram precisos que se passassem outros quinze anos para o filósofo fazer um novo acréscimo à frase, completando-a definitivamente: “porque era ele, porque era eu”. Chico entendeu como simples porem perfeita a definição dada por Montaigne. Achando que perfeita ela também era para definir a paixão, o amor que sentimos por outro alguém, dela se valeu para compor uma música feita para a trilha sonora do filme brasileiro A máquina, do diretor João Falcão. A essência do que definiu Montaigne está no nome da música: “Porque era ela, porque era eu”. Maravilhoso, formidável Montaigne. Maravilhoso, formidável Chico Buarque.
)
(04/09/16)

Biratan Porto, Belém do Pará, Setúbal, Flavio Colin e uma nova tradição

 
Coisa impensável entre católicos praticantes e juramentados é ir a Roma e não ver o Papa. Pois em verdade, em verdade vos digo, fiéis leitores, que um cartunista autêntico ou um genuíno desenhista de histórias em quadrinhos que preza seu ofício, em caso de visita a Belém do Pará, tem o sagrado dever de ir ao estúdio de Biratan Porto, que é também seu lar, pedir a benção ao piramidal cartunista. Se for contemplado com a indeclinável honraria de ser convidado para tal visitação, é claro. Benção pedida e concedida, a coisa não pára por aí, pois no larestúdio do Biratan estando, sem que nenhum protocolo ou norma de etiqueta assim o determine, o desenhista deve em determinado momento do papo, colocar-se ao lado de um pôster com um desenho do incomparável, inigualável e insuperável Flavio Colin, que Bira mantém em uma das paredes à guisa de decoração e homenagem ao Mestre dos Mestres. Foi exatamente o que fiz, preclaros leitores. Mal troquei algumas idéias com meu anfitrião e...catapimba! Lá fui eu, alegre e altaneiro, posicionar-me ao lado do belo pôster de Colin, para ter uma foto minha comprovando que vivi tão honroso momento. A pose não foi estudada, mas ao ver a foto pronta, nota-se que nela, enquanto aponto orgulhoso a assinatura de Colin, seu personagem, o detetive Castro, ameaçadoramente aponta sua arma automática para meu coração vagabundo que quer guardar o mundo em mim. Em contraponto, no alto, enquanto toca um telefone, uma delicada mãozinha feminina vem sensualmente acarinhar os meus cabelos. Papeando depois com meu piramidal amigo, fico sabendo que essa história de visitantes posarem ao lado do dito pôster é algo que jamais foi planejado, sendo coisa que foi acontecendo natural e espontaneamente, e que aos poucos parece que vai se transformando numa espécie de cultuada tradição entre os cartunistas que visitam o larestúdio. Com o carisma e a popularidade de Biratan, não será surpresa se um dia esse ritual visitativo tiver um público comparável ao tradicional Círio de Nazaré. Ao Bira envio, aqui da Bahia, meus mais amistosos amplexos e os mais fraternais ósculos. Aproveito o ensejo e ilustro esta postagem com a mencionada foto, que é para nenhum vivente, cartunista ou não, duvidar do meu marcante feito. Razão, muita razão, têm os meus amigos escritores Gonçalo Junior, Vitor Souza e Tom Figueiredo, quando propagam aos quatro ventos que eu não sou fraco, não! 
(14/12/2016)