29 outubro 2016

Em Terras Americanas: quadrinhos baianos de alta qualidade em dose tripla.

"Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto, lutamos mal rompe a manhã." Lindo, não? Você, pessoinha de alma sensível e de elevada inteligência gostou muitíssimo, não é mesmo? E antes que os mais incautos comecem a achar que sou eu o autor de tal preciosidade, vou logo avisando que a surrupiei de uma poesia de Drummond. Se havia pedras no meio do caminho de sua poesia, o vate itabiranocarioca as retirava e seguia em frente, versejando, tal era sua vontade de exercer o seu ofício de poeta de versos livres. Esse preâmbulo todo é para mostrar que é possível vislumbrar uma analogia entre a luta para fazer poesia e a peleja que é fazer quadrinhos nessas plagas que um dia Cabral achou dando sopa nos trópicos. Fazer quadrinhos por aqui é dificultoso, sim, mas driblam-se os obstáculos e se faz. E é com grata satisfação, respeitável público leitor, que vos anuncio que já foram publicados e podem ser adquiridos três belíssimos volumes de histórias em quadrinhos intitulados Em Terras Americanas. O material publicado, modéstia às favas, é belíssimo, todo made in Bahia, e teve sua publicação viabilizada por haver sido selecionado pela Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, recebendo recursos do Fundo de Cultura da Bahia. O argumento e o roteiro, levam a assinatura de Tom S. Figueiredo, e são bastante originais, mostrando super-heróis vivendo uma vida em sociedade, misturados aos denominados cidadãos comuns, de uma maneira pouco habitual nas HQs. Escritor premiado, Tom tem ampla experiência no campo dos quadrinhos, adquirida em jornadas empíricas no famoso Estúdio Cedraz, onde labutou por mais de quinze anos. Os desenhos são de Paulo Setúbal, que é -entre outras nobres atividades- presidente, officeboy e moleque de recados deste bloguito, e as cores -belíssimas- são de Vitor Souza, sendo que ambos são profissionais com larga trajetória nos quadrinhos. Antonio Cedraz foi o editor, em um dos seus últimos trabalhos feito em sua vida devotada às histórias em quadrinhos. A Coordenação de Produção do Projeto é de Paulo Milha. Como foram publicadas com numerário advindo de verba oficial, as três revistas estão sendo vendidas por preço mais que acessível, sendo que a renda angariada será totalmente revertida em favor da ONG Centro Comunitário Batista Soteropolitano. Os mais descolados nerds e os amantes mais amorosos dos quadrinhos podem adquirir por preços beeeeeem módicos, todos os três exemplares de Em Terras Americanas ali na Katapow (Av. Octávio Mangabeira, Edifício Privilege, loja 7, Pituba) e na RV Cultura e Arte (Av. Cardeal da Silva, 158, Rio Vermelho), localizadas ambas aqui nessa cidade de Salvador, Bahia, espaços especializados na venda do que há de melhor no universo dos quadrinhos. Leitores que não moram nessa soteropolitana afrocity, ou mesmo os que não têm tempo de passar em uma das lojas citadas, podem encomendar seus exemplares pela Internet através de-mail para http://editora@estudiocedraz.com.br . Nesse caso, o preço vai acrescido do valor do frete. Em Terras Americanas foi feita com especial carinho por profissionais que amam os quadrinhos e é um marco histórico na arte sequencial produzida na Bahia. Fiz um mix com capa e páginas de desenhos da trilogia de Em Terras Americanas para ilustrar esta postagem, quadrinístico leitor, que é para fazer você ficar com água na boca e tratar de encomendar rapidinho os seus exemplares antes que esgotem, já que você não é a única pessoa de bom gosto aqui nessas terras americanas.
(180116)

27 outubro 2016

João Ubaldo Ribeiro no tempo em que era um jornalista, com carteira assinada e tudo.

Antes, bem antes de atingir os píncaros da glória literária e de ser recebido com encarnados tapetes em universidades e palácios primeiromundistas qual um semideus, sendo reverenciado efusivamente em toda parte aonde quer que vá, Oropa, França e adjacências, o cultuado escritor João Ubaldo Ribeiro foi um dia - com direito a somítico salário - redator-chefe do hoje quase extinto periódico Tribuna da Bahia onde eu e Lage atacávamos de rabiscadores. Este jornal, em seus tempos de glória, tinha em seus quadros jornalistas gabaritados, os mais bem humorados com quem eu já trabalhei. Ainda assim nenhum superava o bom humor de Ubaldo que tinha uma risada peculiar, franca, aberta e sonora - uma sonoridade de miríades de decibéis - que ecoava em toda a redação quando ele, atendendo o aviso de algum colega: "Rápido! Está passando o Alberto Roberto na TV!", deixava incontinenti sua pequena sala cercada de vidro batizada de aquário, e vinha lentamente atravessando os mais de 20 metros da sala com seu tonitroante riso, prelibando os momentos de humor que a verve de Chico Anísio lhe traria. Tal proceder valeu-lhe, entre os espirituosos jornalistas, o epíteto de Risadinha. Conhecíamos-lhe e admirávamos o talento invulgar para a escrita - ele já fazia sucesso com o livro Sargento Getúlio - mas ninguém daquela risonha redação poderia prever que nosso bem humorado redator-chefe, unindo seu humor ao raro dom literário, um dia seria capaz de realizar no campo literário façanha tamanha como a que de fato realizou tornando-se um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. De mero vivente, sujeito a frieiras, coqueluches, tosses-de-cachorro, defluxos, pruridos escrotais e afins, Risadinha sagrou-se um escritor de renome, consagrado em todo esse vasto mundo, com direito a vestir o garboso fardão da ABL, munido de espadim e tudo, convertendo-se, destarte, em um venerável imortal admirado e respeitado em todo este imenso orbe. Viva o povo brasileiro! E, é claro, viva também João Ubaldo Ribeiro, já que Risadinha, qual a Tribuna da Bahia, ficou por aí, em algum lugar do passado.
(10/10/12)

O dia triste em que comi Alcione, a marrom

 
Pindorama, além de ser o nome indígena desta Terra Brasilis, é também o nome de uma pequena e aprazível cidade da hinterlândia paulista. Era lá que, ainda um niño de Jesus, eu vivia uma vidinha pacata ao lado dos meus amáveis genitores e irmãos. Meu pai se afastara do emprego para um longo e necessário tratamento de sua debilitada saúde e passava os dias em casa procurando ocupar seu tempo com leituras e escritos. E volta e meia inventava uma nova ocupação. A mais recente era um pequeno galinheiro que ele houvera por bem colocar no fundo do nosso amplo quintal de casa interiorana. Passei a ajudá-lo no trato com as penosas que me atraíram desde a chegada. Trazia-lhes milho, água, ração, remédios. Tão apegado a elas fiquei que decidi dar-lhes nomes da forma com que se faz aos animais de estimação. Como elas cantassem bonito, batizei cada uma com nomes de cantoras de minha preferência, Wanderléa, Vanusa, Martinha, numa sincera homenagem nascida de minha mente sem malícias de inocente infante. Minha predileta entre as preferidas era uma bem mais rechonchuda que todas as outras e que tinha porte de rainha ao caminhar no terreiro. Por ter sua plumagem num lindo tom marrom e por seu canto poderoso, dei-lhe o nome de Alcione. Seu reino, poleiro e terreiro. Ali ela agitava suas asas marrons, tão brilhantes e cacarejava de afinadíssima forma. Uma belezura. Eis que um dia anunciou-se pelos corredores da casa a vinda de um irmão de meu pai, tio Dario, que morava em Bauru e vinha nos visitar aproveitando o feriadão gerado pelo carnaval que se aproximava. Na véspera da chegada de meu tio, mamãe anunciou que ia matar umas galinhas para um lauto almoço de boas-vindas ao ilustre visitante. Meu coração disparou. "A Alcione, não! A Alcione, não, mamãe!" . Todos riram da minha aflição. Mas o que eu temia aconteceu e minhas preferidas terminaram seus cacarejantes dias em grandes panelas a meio de uma infinidade de cebolas, alho, cebolinha picada e congêneres. Lacrimoso, inconsolável, jurei a mim mesmo não tocar nos pratos feitos com minhas amigas. Chegado o momento do ágape o aroma dos guisados e assados invadiu minhas narinas de petiz, enfeitiçando-me. Minha mãe tinha mãos divinas ao cozinhar. Em uma travessa percebi aquelas coxas maiores e mais atraentes que as outras. Eram de Alcione, eu sabia. Com gestos mecânicos puxei a travessa e servi-me generosamente do peito e das coxas. Quase em transe, dispensei os talheres e sem ligar para o preclaro visitante, enfiei meus dedos naquele peito macio e cheiroso e o levei à boca ansiosa. Ah!, prazer dos prazeres! Meus olhos então se fixaram nas coxas de Alcione. Coxas belas, roliças, de maravilhosa cor dourada e capitoso olor. Caí de boca de forma descontrolada. E novamente minha língua passeou naquelas carnes divinas. Simplesmente delirante. O apetite saciado me trouxe de volta à realidade. Caí em mim e incontinenti percebi a grave traição em que eu incorrera com aquela descontrolada e quase antropofágica conduta. Saí da mesa correndo para que não pudessem notar minhas copiosas lágrimas. Era emoção demais para meus verdes anos de vida. Em um só dia conheci os inesquecíveis prazeres da carne, vindos das coxas macias, do peito aveludado de Alcione, a marrom. Desolado descobri que sou um fraco nas minhas convicções e que oscarwildeanamente resisto a tudo, tudo. Menos a uma tentação.
(230514)

José Cândido de Carvalho e seu magnífico romance O Coronel e lobisomem

Sempre que posso releio "O coronel e o lobisomem", de José Cândido de Carvalho. Ou ao menos parágrafos que costumo marcar a lápis, quando gosto muito. E cada releitura, acreditem, é plena de renovada emoção, enlevo e contentamento. Tudo neste livro é maravilhoso e pra mostrar, reproduzo aqui um trechinho que dá uma boa mostra de como José Cândido constrói com rara maestria sua literatura feita de brasilidade, magia e encantamento: "Olhei em derredor. Um fogo de labareda, de cambulhada com um bater de patas, vinha do aceiro. Era o Diabo em seu trabalho nefasto. Pois ia ele saber quem era o neto de Simeão, coronel por valentia e senhor de pasto por direito de herança. Sem medo, peito estofado, cocei a garrucha e risquei, com a roseta, a barriga da mulinha de São Jorge. A danada, boca de seda, obedeceu a minha ordem. O luar caía a pino do alto do céu. Em pata de nuvem, mais por cima do arvoredo do que um passarinho, comecei a galopar. Embaixo da sela passavam os banhados, os currais, tudo que não tinha mais serventia pra quem ia travar luta mortal contra o pai de todas as maldades. Um clarão escorria de minha pessoa. Do lado do mar vinha vindo um canto de boniteza nunca ouvido. Devia ser o canto da madrugada que subia."
(10/10/2014)

26 outubro 2016

O japonês Noboru Yoshihara, o cartunista Biratan, o Boto Tucuxi

Rezam lendas indígenas do misterioso e exótico Pará que quando é noite de perfulgente plenilúnio, o cartunista parauara Biratan Porto sói converter-se no Boto Tucuxi e, assim travestido de Boto, sai por aí Botando geral, atendendo as súplicas de lúbricas moçoilas as quais, depois de devidamente Botadas, passam a ostentar perenemente em suas faces um esgar que denuncia uma intensa satisfação interior, sendo que - para desespero de pais conservadores - não há esculápio que retire de seus rostos tal expressão, como se pode ver nesta fotografia que comprova que este papo todo é mais que mera lenda papaxibé ou simples crendice popular. Esta belíssima foto aí, que estou usando para ilustrar esse post do blog, tomei emprestada do honorável nipônico Noboru Yoshihara. Para ver outras fotos tão incríveis e mais desenhos e caricaturas dele, vá ao seu blog: http://muyukobo.blogspot.com . 
Lembrando aos meus já bem ilustrados leitores que sempre vale a pena visitar o blog do Biratan Porto que, tirando esses incomodativos problemas de Botânica, é um cara super do bem, pra lá de porreta:  http://biratancartoon.blogspot.com . 
Para que eu não me me veja obrigado a me valer do meu proverbial domínio de capoeira em uso da mais legítima defesa, só espero que quando Bira vier aqui nesta Soterópolis, venha mansinho e respeitoso e não ouse Botar pra quebrar nessa afrocity, se engraçando com  meu harém composto de princesas núbias, de loiras oxigenadas e das morenas mais frajolas da Bahia. Sou da paz, mas não admito liberdades e ousadias com meu harém, com o qual mantenho a minha mais fiel fidelidade. E tenho dito.
(120813)

24 outubro 2016

Danusa se recusa e oclusa não se escusa / Postagem no Facebook number 4

I love Paris in springtime. E quer saber, Mr. Cole? Adoro também no summer, no fall e no winter. Vou lá quantas vezes me dá vontade de ir e cada vez gosto mais. Aquela famosa justificativa da Danusa Leão de não querer mais saber de ir a Paris temendo o dissabor de em parisienses logradouros dar de cara com o porteiro do seu prédio, me cheira mais à desculpa esfarrapada de quem está na pior, mal de finanças, lisa, sem plata, money, l’argent. Li que a ex-dondoca, que já teve seus dias de fausto, pompa e circunstância, hoje não tem grana nem para comprar a prestações um desses pacotes de agências de viagens ou para embarcar em um vôo charter mais lotado que qualquer buzu da periferia em horário de rush. Até que eu compreendo o drama da perua, nem todos têm minha profissão de cartunista e a polpuda conta bancária que os cartuns regiamente me trouxeram. Com a fortuna que amealhei, entre outros mimos, adquiri um confortável jatinho para mim. Quando me bate uma vontade de comer pão francês não vou à padaria da esquina, vou à França e lá me farto com o pão francês original, os mesmos que alimentam a Amélie Poulain, a Isabelle Adjani, a Catherine Deneuve. E quando minha libido exige um beijo francês de verdade, é também pra lá que vou encontrar uma certa mademoiselle que em Montmartre me foi apresentada pelo Juarez Machado, sendo ela do tipo mignon com um derrière très jolie de fazer inveja a qualquer mulata bem servida. E é bom parar o papo por aqui porque eis que ele já envereda por rumos periculosos e isso aqui é um perfil de respeito. Au revoir, mons enfants de La Patrie.

1. BOB MARLEY. Papel Opaline, 180 gramas, esboço com grafite B, caneta nanquim descartável, retículas, um quase nada de Photoshop.
2. CANTORA DE CABELO COR DE ROSA. Tinta acrílica sobre tela de 1,50 x 1,00m.
3. CANTORA E MÚSICOS COM CAMISAS VERMELHAS. Tinta acrílica sobre tela de 1,50 x 1,00m.
(11/02/2015)

23 outubro 2016

Deputado Ulysses Guimarães, em estilo punk / Arte que se reparte 4

Para muita gente todos os políticos brasileiros são desonestos, oportunistas, corruptos, venais e arrivistas. Motivos não faltam para que prevaleça essa certeza de tantos. Mas vale lembrar que no Brasil tempo houve em que a população levava a maior fé em determinados políticos e a eles entregava a missão e o sonho de construir um país melhor para todos os cidadãos. E eles não decepcionavam, atentos aos anseios do povo em nome da democracia empunhavam bandeiras populares urgentes e sem decepcionar, se empenhavam para fazer com que o país fosse de fato mais justo. Os brasileiros mostravam seu reconhecimento dando a esses políticos carinhosos epítetos. Teotônio Portela era chamado de "O menestrel das Alagoas". Já o inesquecível Ulysses Guimarães era chamado de "Senhor Diretas", por sua decidida participação na campanha das Diretas Já. Para homenageá-lo fiz essa caricatura dele, mostrando que seus quase 80 anos eram só um detalhe.
***A arte acima foi feita em papel Schöeller Hammer 4R, 250 gramas, grafite B para o esboço artefinalizado com nanquim e dois pincéis Kolinskys, sendo um número 2, novinho, e um velho número 4, desgastado, já bem, bem acabadinho. O novo foi utilizado nos traços do contorno, tendo o véinho sido usado com as cerdas abertas, levemente embebidas em pouco de nanquim numa antiquíssima técnica chamada pincel seco, que dá uma textura bonita e que é uma gostosura e faz qualquer artista trabalhar com um sorriso nos lábios.
(180215)

Bundamolismo e cabotinismo / Postagem no Facebook number 3

Nem bem se esvanece o rocio e este estóico cartunista já está em plena atividade no Central Park, na mui frígida atmosfera dessa Big Apple, malhando espartanamente. Mister se faz ter hercúleo físico para poder superar as cotidianas barreiras encontradas por um genuíno cartunista. Nós, os cartunistas autênticos, vivemos eternamente em pugna imensa contra as mazelas impingidas à raça humana, inerme e desprotegida, ainda que armada esteja. Tamanha dedicação não impede que tantos não nos reconheçam como seus legítimos e heroicos protetores e que nos dirijam injustas e indevidas ofensas. E se extremistas armados nos trucidam em mortais ataques, comemoram aos gritos de “bem feito, bem feito!!”. Miríades de brasileiros incorrem em tais abomináveis equívocos e em terras tupiniquins não faltam os que nos apodem de quixotescos e, de forma chula, nos chamem de bundas moles. Pensar nisso me faz intensificar a malhação dos meus bíceps, tríceps e principalmente dos meus glúteos para enrijecê-los de forma pétrea. Bunda mole é mãe!
***Neste post mais três trabalhos de ilustração, como me exigiu o cacique Biratan, que é minha participação em um projeto mostrando trabalhos de artistas gráficos exibidos no Facebook. Na sessão de hoje, numa homenagem ao assaz laureado cineasta Lima Barreto, nada de techinicolor, só sertão nordestino, cangaço e cangaceiros em P&B.
1. O HERÓI, história em quadrinhos com argumento e roteiro do graaaaande Gonçalo Júnior, ainda inédita. Arte feita em papel Opaline 180 gramas, grafite B e caneta nanquim descartável.
 2. ROSTO EM CLOSE DO CONSELHEIRO, ilustração para revista. Monotipia feita com tinta preta em bisnaga para paredes e papel ofício.
 3. CANGACEIRO E BANDO. Ilustração para livro, Fakexilo, uma simulação de xilogravura feita com guache branco em papel preto.
(11022015)

22 outubro 2016

Aninha Franco, Gerônimo, eu e um dos milhões de gaiatos da Bahia


A cada passo um gaiato nato que nos atormenta o dia-a-dia e eis aqui a cidade da Bahia. Meu caro Boca do Inferno, se outros países necessitassem desesperadamente de gaiatos e a Bahia tivesse permissão para exportar tipos que tais, daqui eles sairiam às toneladas acondicionados em infindáveis contêineres, e teríamos um PIB tão elevado que ricos seríamos todos neste afrobaiano torrão. Ser gaiato é qualidade inerente à grande maioria dos baianos. E um sujeito sério como eu não tem vida fácil nesta terra. Por exemplo, quando vou ao Pelô, gosto de almoçar no Restaurante Axêgo. E o sacripanta que é dono do local - cujo nome aqui não declinarei para não dar ousadia - ao me ver chegar me recebe invariavelmente de duas formas. Se estou com meus longos cabelos presos em rabo-de-cavalo, com um largo sorriso grita para mim lá detrás do balcão: "Gerônimo! Seja bem-vindo!", fingindo se equivocar. Depois complementa, com aquele sorrisinho sacana, que eu e o cantante de "Agradecer e abraçar" somos um o focinho do outro, esculpidos e encarnados ou cuspidos e escarrados, como preferirem. Menas verdade diria nosso amado Presidente Lula. Tenho em casa um espelho que está comigo há muitos lustros - lustros na idade, no espelho nem tanto assim. Esse espelho é de minha inteira confiança, nunca falta com a verdade, por isto mesmo sempre enche minha bola e me afirma que estou a cada dia mais parecido com o Brad Pitt, com o Alain Delon de 30 anos atrás. Já Jerônimo muito me pesa dizer que seu único e indiscutível atributo de beleza está na pena que usa no alto do cocoruto a título de adereço. Então, prefiro dar um voto de confiança na sinceridade do meu espelho que tem relevantes serviços prestados a este vivente que vos escreve estas mal digitadas linhas. Ah, a segunda forma: se chego ao Axêgo com meus cabelos soltos, as melenas levemente onduladas livres ao vento qual um indômito silvícola alencariano de olhos garços, o tal proprietário me saúda gritando: "Aninha Franco! Que bom lhe ver!" Aninha se alguém ainda não sabe, é teatróloga e escritora entre outros pendores que ostenta. Admiro seu intelecto, mas ser sósia dela não é exatamente o que almejei para mim na vida. Entretanto uma coisa já constatei: quando - segundo o gaiato em questão - "estou" Jerônimo não consigo a façanha de ter mulheres me olhando com os zoim compridos cheios de quebranto, promessas e desejos inconfessáveis. No entanto quando "estou" Aninha Franco, costumo abiscoitar para meu harém algumas núbias curvilíneas e gringas com sardas, queimadinhas de sol e cheias de love to give, sendo que já recebi inúmeros torpedos de morenas frajolas nativas, que mulher baiana quando está a fim de alguém não é de muitos pudores, formalidades e etiquetas. Por via das dúvidas, agora ando sempre de cabelos soltos Pelô afora. E mesmo quando o supracitado sacripanta ao me ver passar sob seu balcão grita para mim: "Aninha Fraaaanco!", respiro fundo, sigo em frente o meu caminho com a tranquilidade de quem está numa boa e nem tchum pra ele. Mais importante é meu harém.
(060414)

Branca de Neve e seu beijo gelado / Sexo de graça

(121012)

Vacas despeitadas / Humor de graça

(210413)

18 outubro 2016

Jayme Cortez: um blog para um grande Mestre


Um dia, ainda bem jovem, Jayme Cortez deixou seu querido Portugal e veio morar no Brasil. Sorte nossa! Jayme tornou-se uma figura fundamental para toda uma geração de desenhistas brasileiros. Vivíamos de copiar os desenhos feitos pelos artistas americanos, éramos desprovidos de personalidade própria, pouco criávamos de nosso. Cortez nos ensinou o caminho das pedras, o desenho feito a partir de modelos vivos, entre outros ensinamentos fundamentais, como reproduzirmos o que tínhamos em nosso âmago, o que nos caracterizava, nossa essência, nossa gente, coisas, crenças, costumes. Guardo em minha memória coisas maravilhosas como a quadrinização feita por ele de uma majestosa página do nosso cancioneiro popular - como diriam certos locutores - uma canção melodramática, com direito a coração que saltita e fala, envolvida em melodia e letra bonitas, tocantes, graves, fortes, contundentes, chamada Coração Materno, sucesso na estentórea voz de Vicente Celestino. O mestre Cortez enxergou a beleza plástica e cinematográfica ali escondida, que ninguém vislumbrava. Tão significativa é a canção que o cultuado Caetano Veloso a gravou em belíssima interpretação. Jayme foi - e ainda é - Mestre maior de pletoras de desenhistas que, seguindo seus ensinamentos, hoje são amados pelo público. Era versátil, culto, inovador, empreendedor. Se hoje desenhamos mais e melhor devemos muito a este alfacinha maravilhoso que, repetindo o que fizera Carmen Miranda, veio das terras lusitanas para se tornar um artista brasileiro fundamental, visceral, inesquecível.
***Para a imensurável alegria dos admiradores de Jayme Cortez, seu filho, Jayme Cortez Filho, uniu-se a Fabio Moraes e ambos criaram e mantém um belo e diversificado blog como uma justa homenagem a tão amado e admirado Mestre, blog em que se podem ver fotos e trabalhos do cultuado artista. Sendo eu um admirador incondicional de Cortez, envio a Fabio Moraes e a Jayme Cortez Filho os meus agradecimentos pela esplêndida iniciativa. Para acessar o blog, clique: http://www.jaymecortez.blogspot.com/
(31/05/14)

15 outubro 2016

Mulher de Áries no Horóscopo de Vinicius de Moraes

Branca, preta ou amarela
A ariana zela.
Tem caráter dominador
Mas pode ser convencida
E aí, então, fica uma flor:
Cordata...e nada convencida.
Porque o seu denominador
É o amor.
Eu cá por mim não tenho nenhum
preconceito racial
Mas sou ariano!
(201013)

12 outubro 2016

Setúbal e Valtério: quimioterapia e caricaturas no CICAN

Como cartunista sempre procurei fazer trabalhos para entidades diversas que lutam para dar aos brasileiros uma existência melhor, um país mais justo, mais ético, melhor de se viver. Notadamente para aquelas pessoas de maior carência que não encontram moleza nessa vida. É uma forma que muitos que pensam da mesma forma que eu, encontram de mostrar solidariedade e pensar no coletivo num mundo muita vez duro, onde as pessoas estão ficando cada vez mais competitivas no pior dos sentidos, muito mais individualistas, para ficar por aqui e não dizer mais. Well, well, há uns quinze dias meu amigo, o talentoso escritor fluminensoteropolitano Nivaldo Lariú, colocou-me em contato com a Dra. Eliana Lobão, que integra uma equipe de profissionais do CICAN - Centro Estadual de Oncologia, aqui na Bahia. Da doutora e de Lariú surgiu um convite para que caricaturistas da terra expusessem seus desenhos no corredores do Centro, como parte de um projeto, sendo que os que se julgassem disponíveis, fossem fazer caricaturas de pacientes que estão se tratando com quimioterapia no CICAN, lutando com todas as forças para curar-se de tão grave enfermidade, contando com a valiosa ajuda de médicos e de toda a dedicada equipe do Centro e, uma vez curados, poderem retomar a vida dita normal. Eu e Valtério Salles topamos de cara, combinamos e no dia 11 de Maio lá estávamos nós caricaturando uma notável galera que está sob tratamento, enfrentando com coragem a quimioterapia, todos a personificação da tal "brava gente brasileira", da letra do nosso Hino da Independência. De quebra caricaturizamos boa parte da equipe. O resultado foi maravilhoso, indo muito além das boas expectativa que tínhamos eu, Valtério e Vera - sua esposa sempre de alto astral, que nos acompanhou no seu nobre posto de fiel escudeira de Valtério sempre que mister se faz. Jornais e TVs por vezes mostram com fartura fatos desabonadores ligados ao seguimento médico, como a tal Máfia de Branco, que, para nossa tristeza, de fato existe. Mas há, felizmente, profissionais maravilhosos e dedicados atuando na área médica, que lutam com denôdo, consciência ética, como preconiza Hipócrates, e com notável amor ao próximo, como estes da equipe do CICAN a quem somos gratos pela oportunidade de vivenciar uma experiência humana única que muito nos comoveu e alegrou. Hoje, da Dra. Eliana Lobão, que articulou nossa ida e participação, recebi esta mensagem que repasso aqui para você, leitor. A ela e todos da equipe meu abraço mais afetuoso e minha admiração. 
"Bom dia, Setúbal.
Foi realmente mágico o que você e Valtério proporcionaram na Quimioterapia do CICAN. Simplesmente sensacional o que presenciamos: alegria, descontração, beleza e harmonia. Pacote completo e que não é tão comum naquele local. Obrigado, amigo. Contar com vocês foi o sucesso do nosso evento. Valeu! Bjs. Seguem fotos. Eliana Lobão."
(15/05/12)

"Jayme, um Leão na charge..." por Bira Dantas.

Jayme Leão sempre arrasou fazendo ilustrações maravilhosas que arrancavam das pessoas os mais rasgados elogios. Vi no Face esse texto de Bira Dantas postado em 12 de março de 2014, em que Bira presta uma mais que merecida homenagem a Jayme. Copiei o texto e devidamente não autorizado, em nome da amizade e da estima por ambos, reproduzo aqui neste bloguito para os leitores saberem um tantinho mais do trabalho de Jayme, um cara que arrasava ao ilustrar e que fazia isso com a maior simplicidade do mundo, sem ostentação, sem narcisismos ou egolatrias. Acompanhando o texto de Bira vai aí uma carica que ele próprio, eclético que é, fez de Jayme Leão, essa fera. 
"Conheci Jayme Leão através de suas capas no jornal Movimento nos idos de 1980, quando resolvi virar chargista. A sua arte-final perfeita reforçava o conteúdo de suas charges e ilustrações, carregadas com todas suas ideias socialistas, libertárias, solidárias.
Jayme era alguém que abraçava a causa dos oprimidos no primeiro momento, ou até antes disso, quando ninguém ainda pensava em fazê-lo.
Eu o conheci novamente nas reuniões da AQC em 1984. Um excelente e apaixonado orador, com seu sotaque mezzo nordestino, mezzo carioca. Antes de tudo, um defensor do Quadrinho nacional.
Quando colaborei com o jornal 
Retrato do Brasil, juntamente com o Luiz Carlos Fernandes, sob a batuta de Raimundo Pereira e Elifas Andreato, recebemos a sua visita, lembra Fernandes? E ele cobrou da gente: "Informação, posicionamento, combatividade e excelência gráfica!"
Comprei todos seus incríveis posteres de apoio a Nicarágua, El Salvador e Palestina.
Mudei pra Campinas em 1988 e perdi contato.
A capa da Circo editada pelo Toninho Mendes, me fez relembrar de sua técnica maravilhosa com o aerógrafo e as pinceladas. Alguém intimamente ligado as cores. Cores de luta!
Voltei a acompanhar seus trabalhos através de livros que amealhei aqui e acolá, assim como pelos "Arquivos Incríveis" do 
João Antonio Buhrer, um expert em artes gráficas.
Com a Pizzada dos Cartunistas organizada pelo 
Custódio Rosa em 1999 eu o reencontrei. Ele me contou de sua dificuldade com as editoras de livros. De como ele teve que pular do papel, aerógrafo, pincéis... para a arte digital, exigência editorial. Mas esse percalço ele resolveu com louvor, já que dominou também o photoshop. Ele me falou que queria mudar de Sampa, perguntou como era em Campinas... Pensou até em mudar pra cá. Na ocasião fiz a caricatura abaixo, onde o Mestre aparecia com outras dezenas de quadrinhistas.
Finalmente chegou o dia do 
Gualberto Costa entrevistá-lo no "Sábados das Artes Gráficas", saí de Campinas, mas só cheguei a tempo de lhe dar um abraço.
Foi um grande abraço!
A última notícia que recebi foi através do cartunista 
Edsondias Dias, que falou da dificuldade que o Jayme estava tendo, com os frilas e com a saúde.
Um artista deste quilate...
Deixa muita saudade."
Bira Dantas, cartunista, quadrinhista, ilustrador e amigo de Jayme Leão.

11 outubro 2016

Paulo Paiva, HQs, Maciota, Neymar e Copa do Mundo

 
Um dos personagens mais legais do sempre inspirado cartunista Paulo Paiva é o craque Maciota, que deve ter lá algum parentesco com o igualmente craque Coalhada, do Chico Anysio. Sempre me deliciei lendo as HQs com o Maciota saídas da cuca de Pepê. A revista com este personagem deixou de sair há tempos mas o personagem paivaniano ficou gravado na memória dos fãs. Para felicidade geral da nação, ouvi que o incansável editor Franco de Rosa anda preparando uma edição só com as tiras e HQs de Maciota para ser lançada brevemente. Bom, muito bom. Enquanto isso, malgrado o fiasco de descomunal proporção da seleção brasileira na recente Copa de 2014, por aqui o futebol segue sendo preferência nacional. Valendo-se dessa paixão desmedida pelo chamado esporte bretão e aproveitando uma bela maré criativa, Pepê retou-se, muniu-se de seus apetrechos cartunísticos e mandou este desenho com o sempre admirado Maciota, aqui travestido de Neymarciota para delírio dos milhares de fãs do personagem futebolástico, eu incluso. Sacudindo uma bandeira e aboletado na geral do estádio, aplaudo entusiasmado vendo este eterno craque Maciota desfilar seus fiascos futebolísticos, quer dizer, seu garbo e sua classe de craque de la pelota. Agora, craque, cracaço mesmo é o Paulo Paiva. No humor e no traço. Axé, Pepê!
(250514)

08 outubro 2016

J. Jorge Amado, o nume, o esparro

 
João Jorge e eu somos amigos há bem duas décadas. Sempre me cativou nele a forma com que me trata, com consideração e respeito raros, quer como amigo, quer como parceiro em empreitadas ilustrativo-literárias. Eis que um dia, um nume de amor (não é roubo, é só um temporário empréstimo, Augusto.) que certamente gostava de caricaturas, me regalou com a amizade pessoal de Jorge Amado e Zélia Gattai, gentes que - além do imensurável talento- tinham em si o melhor que a índole humana dispõe no cardápio. Fácil é perceber que João Jorge herdou dos amáveis genitores a sua forma cativante de ser, sempre afável, sincero, generoso, justo, cortês, cordato, lhano. E mais não digo porque ainda não instalaram um bom e  devidamente atualizado Dicionário Aurélio neste PC. Esta caricatura de João Jorge fiz para a orelha do seu livro "Lá ele - o esparro na Bahia" que tive o subido prazer de ilustrar recentemente. Ilustrava e ria dos esparros, que vêm a ser um aspecto da comunicação oral entre baianos, uma espécie de pegadinha, um jogo de palavras feito de duplo sentido e muita malícia, com o objetivo de ludibriar e tirar sarro da cara de um desavisado interlocutor. J. Jorge pesquisou e coletou farta quantidade de frases que exemplificam esse lado lúdico da oralidade baiana. Se quiser dar boas gargalhadas entre em contato com a editora que imprimiu o livro, a Publit Editora, e encomende o seu hilariante exemplar. Não tem esparro. Quer dizer, só tem esparro. Quer dizer...ah!, deixa prá lá. O link para a Publit é http://www.publit.com.br
051113

J. Jorge Amado e o esparro na Bahia

Uma das formas mais recorrentes de humor nesta terra achada por Cabral é o emprego de frases de duplo, às vezes triplo ou quádruplo sentido. Aqui no Nordeste, então, nem se fala, temos um arsenal delas que são largamente utilizadas em nosso afrobaiano cotidiano. Nessa coisa de frases de sentido duplo, muita vez o que parece ser uma indagação singela, inocente e despretensiosa camufla uma outra que é puro veneno, malícia, sacanagem. Revelado o logro verbalizado só resta rir junto sem chiar nem espernear. Senão invariavelmente alguém irá dizer que você está louco de raiva. Captou a dubiedade? Tais perguntas, anexins ou mero comentários são batizados aqui na Bahia de esparro e tem há séculos importante papel na nossa cultura oral, apesar de seu tom fescenino e de escracho total que não respeita regras ao utilizar-se do obsceno. Certamente por isto ninguém tivesse ousado até agora colocar o esparro em um livro como o fez o escritor João Jorge Amado em seu livro Lá ele! (o esparro na Bahia), pela Publit Soluções Editoriais. Nele João Jorge prestou um serviço sério aos bem-humorados deste país, coletando, selecionando, analisando e explicando o esparro. Doravante todos, incluindo você que não teve a imensa fortuna de nascer neste afrobaiano torrão, poderão dialogar com qualquer autêntico soteropolitano sem correr o risco de cair em quaisquer esparrísticas armadilhas verbais. Principalmente você, que chegou há pouco de fora. Captou? Captou?
Para conseguir seu exemplar do livro joãojorgeamadiano com ilustrações setubalescas, acesse o site da Publit: http://www.publit.com.br

05 outubro 2016

Florbela Espanca, a Mensageira das Violetas

Quando músicos talentosos decidem-se por fazer uma parceria com poetas maiores, o resultado costuma ser agradável ao extremo. Como quando o cantor e compositor Fagner musicou um lindo poema da maravilhosa Florbela Espanca. A bela melodia por ele criada amalgamou-se com a bela poesia d'a Mensageira das Violetas tornando-se canção popular que milhões cantam pelo Brasil e - espero - também em Portugal e alhures: "Minh'alma de sonhar-te anda perdida. Meus olhos andam cegos de te ver!" Uau! Florbela Espanca, alentejana, sempre me encantou pela sua poética delicada, ousada, forte, corajosa, inovadora, transgressora, rica, doce e fundamentalmente feminina. Estes predicados aê cabem todos na definição da própria Florbela que abria seu peito nu e libertava um vulcão de sensações e sentimentos que certamente caíam como uma bomba no conservadorismo lusitano do início do século passado. E Florbela, o lirismo e a coragem em pessoa, gritava a todos seu orgulho de ser mulher e de amar como tal. Da carne à alma. Dela, estes versos de deixar babando quem na alma traz a poesia:
O maior bem
Este querer-te bem sem me quereres,
Este sofrer por ti constantemente,
Andar atrás de ti sem tu me veres
Faria piedade a toda gente.
Mesmo a beijar-me a tua boca mente...
Quantos sangrentos beijos de mulheres
Pousa na minha a tua boca ardente,
E quanto engano nos seus vãos dizeres!...
Mas que me importa a mim que me não queiras,
Se esta pena, esta dor, estas canseiras,
Este mísero pungir, árduo e profundo
Do teu desamor, dos teus desdéns,
É, na vida, o mais alto dos meus bens?
É tudo quanto eu tenho neste mundo?
280114

Torquato Neto e os versos que cantam o fim


Torquato Neto é nome sempre lembrado como um dos co-participantes da construção da Tropicália no sempre rico cenário da música brasileira. Seus versos embelezaram canções e se perpetuaram na história da chamada MPB. Em dia de triste memória tirou a própria vida e nos deixou. O gesto extremo deste poeta do Piauí inspirou indagações existenciais de um outro versejador talentoso, Caetano Veloso, que numa canção memorável abordando o assunto, escreveu: “Existirmos a que será que se destina?” e ainda “... e se acaso a sina do menino infeliz não se nos ilumina, tampouco turva-se a lágrima nordestina, apenas a matéria viva era tão fina.” Para lembrar o poeta piauiense, usando uma caneta nanquim fiz este retrato que fala de um cara amado e da memorável época tropicalista. Aproveito para deixar os versos que ele criou para uma canção linda e tocante, falando de um derradeiro adeus.
Adeus
Adeus
Vou pra não voltar
E onde quer que eu vá
Sei que vou sozinho
Tão sozinho amor
Nem é bom pensar
Que eu não volto mais
Desse meu caminho
Ah, pena eu não saber
Como te contar
Que o amor foi tanto
E no entanto eu queria dizer
Vem
Eu só sei dizer
Vem
Nem que seja só
Pra dizer adeus
(20/11/14)

02 outubro 2016

Damion, Dunn, um caricaturista e ilustrador norte-americano e seu belo trabalho

E já que o trabalho do caricaturista e ilustrador Damion Dunn agradou em cheio aos leitores deste singelo bloguito, vou logo postando mais uns trabalhos do cara. Ali no alto, puxando a fila, o espanhol Javier Bardem, bastante admirado pelos cinéfilos brasileiros. Em seguida, o rapper e ator Curtis James Jackson III, mais conhecido pelo nome de 50 Cent. Ao centro, uma homenagem feita para relembrar o admirável Michael, criador do Moonwalker. E por último, last but not least, um trabalho bem criativo e original, mostrando a maravilhosa Monica Bellucci, ex-modelo internacional e uma ótima atriz de tantos filmes e, além de tudo, linda, retumbante, transbordando sensualidade, que o diga o grande ator Vincent Cassel, que se casou com a bonitinha, sendo ele um cara feio, como exige a tradição de grande parte dos galãs franceses, só para fazer raiva a bonitões como eu que ficam chupando dedo enquanto o feioso Cassel desfruta cada uma das delícias da bela.
020614

Deus e a grande queixa de Adão / Humor de graça

190813

Humor de graça / / Protetor solar no Oeste

020514

Humor de graça / Esta pena é de morte

Humor de graça / Bat-sinal acidental

101213


Humor de graça / Chuva, suor e sombrero

280313

Vampiro sangue frio / Humor de Graça


01 outubro 2016

Chiclete com Banana, Bell Marques e multidões.


No carnaval da Bahia, quando o Chiclete com Banana desponta nas praças, ruas e avenidas trazendo seu som potente e contagiante não há quem fique parado. É um sacolejo geral, amplo e irrestrito. Além de músico espetacular que agita a multidão e a faz dançar empolgada, Bell Marques, o cantor é um ser humano simples, um cara legal e tem enorme empatia com a massa de foliões e um imenso carisma pessoal. Euzinho, hedonista como todo brasileiro, sendo fã da boa música e da alegria, sempre fui empolgado Chicleteiro, um a mais na imensa multidão pulando, brincando, exorcizando os estresses. Há já um tempinho, Bell Marques, buscando trilhar caminhos próprios, saiu do Chiclete para tristeza dos fãs, mas a banda prometeu não deixar a peteca cair e continuar na estrada com o alto astral de sempre, promessa que vem sendo cumprida. Esta caricatura, com a qual ilustro essa chicleteana postagem, fiz em duas versões, ambas com a presença do graaaande Bell Marques. Na primeira, o grupo segura uma imensa banana, que é a fruta que nomina o grupo. Nesta aí, como você, atilado leitor, bem pode ver, eles estão segurando uma espiga de milho, vez que de há muito as festas juninas fazem parte do calendário da tchurma chicleteira. Mesmo que a canção do mano Caetano diga que atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu, já não me arrisco a enfrentar o sufoco das grandes multidões carnavalescas que seguem seus músicos preferidos através dos logradouros dessa soteropolitana afrocity. Não me aventuro mais a seguir o Chiclete com Banana ou outros trios quaisquer, mas sigo sendo um Chicleteiro, ressaltando que, tendo eu um gosto musical beeeem diversificado, sou também um inveterado e fiel Mutanteszeiro, Titãszeiro, um Mestreambrosiozeiro, Camisadevênuscommarcelonovazeiro, Naçãozumbizeiro, Sibaeafulorestazeiro, Chicobuarquezeiro, Caetanovelosozeiro, Raulseixaszeiro, um Genivallacerdazeiro, Jacksondopandeirozeiro e de quebra sou Zecabaleirozeiro. Viva a música brasileira, sua alegria e nosso santificado hedonismo!
(28/10/13)