Mostrando postagens com marcador Soterópolis/soteropolitanos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Soterópolis/soteropolitanos. Mostrar todas as postagens

24 maio 2026

Lage, Nildão, Setúbal, Zé Vieira, Alexandre Dumas, cartuns.

Aqui neste afrotorrão chamado Bahia, Lage, Nildão e eu, por um bom tempo formamos um inseparável trio, tipo os três mosqueteiros do cartum, um time coeso, como permite entrever esta caricatura aí em cima. O quarto mosqueteiro, o D'Artagnan, era o indômito Zé Vieira com seu bigodinho que lhe dava o irretocável phisique du rôle. Sucede que Zé Vieira, um belo - ou seria triste? - dia deu uma solene banana ao universo cartunístico, botou na praça um tremendo escritório de arquitetura que logo encheu-se de afortunados clientes, graças ao talento arquitetoso do rapaz, e desta forma ele - merecidamente, diga-se - tornou-se um argentário dos mais abastados pois foi sempre o mais sabido de todos nós nestas questões com l'argentainda que não fosse um mercenário, longe, bem longe disso. O problema com Zé Vieira era que um ofídio dos mais peçonhentos costumava aninhar-se nos bolsos das suas calças e ele, a precaução em pessoa, ali não metia sua mãozinha com medo de levar uma mordida letal e vai daí que em bares, restaurantes e botecos que frequentávamos jamais víamos a cor do dinheirinho de tão precavido confrade. Diz a chamada sabedoria popular que dinheiro poupado é dinheiro ganho e que de tostão em tostão se faz um milhão. Se verdade houver em tais frases, Zé Vieira certamente acumulou alguns milhões só com o que economizou graças à sua justificada precaução contra mordeduras de ofídios, notadamente certas variedades de letais mambas negras que soem se aninhar em bolsos e bolsas de alguns incautos. Não sei se o hoje abastado Zé Vieira sente algum frêmito de saudade dos tempos em que cartunava e quadrinhava, ele que sempre foi um cara que criava verdadeiras maravilhas, tanto no texto quanto no desenho. E há que ser dito que, de quebra, Zé Vieira sempre foi um dos mais substanciais e agradáveis papos dessa Bahia com h. Ali pelos hoje um tanto distante anos 80s do século anterior, como que inspirado por Alexandre Dumas nosso grupo cartunístico sempre primou pelo conceito de amizade mesclada com lealdade. Poderíamos mesmo empunhar nossos lápis, à guisa de espadas mosqueteiras, erguê-los fazendo tocar no alto suas pontas e, parafraseando os personagens de Monsieur Dumas, bradar alto, a uma só voz: "Um por todos e todos por um, em defesa do Reino do Cartum".

17 maio 2026

Caetano Veloso, Wladimir Maiakóvski, Fernando Pessoa, Plutarco. Pequenos equívocos sobre grandes poetas.

Além da melodia envolvente contida no fado Os argonautas, também a bela e um tanto enigmática letra desta inebriante canção foi criada pelo compositor Caetano Veloso e não pelo bardo português Fernando Pessoa. Mas não faltam os que repitam por aí e até postem na internet, que a dita letra da música é uma poesia da autoria do bardo Pessoa musicada por Caetano. Quem se der ao trabalho de pesquisar atentamente os muitos poemas de Pessoa, escritos sob qualquer um dos seus muitos pseudônimos, não encontrará versos falando em “o automóvel brilhante, o trilho solto, o barulho do meu dente em sua veia” ou “noite no teu tão bonito sorriso solto, perdido”. As pessoas erram por uma questão de superficialidade, erram por que não se importam em errar, grandes porras, phoda-se. Fernando Pessoa deixa claríssimo na abertura de seu poema, que a frase “navegar é preciso, viver não é preciso”, cuja primeira parte usou para dar título ao belo poema, não é algo criado por ele, vindo ela da boca de antiquíssimas gentes do mar, coisas dos tempos do grande império romano que, segundo textos do impoluto Plutarco, teria sido dita em vez primeira pelo general Pompeu (106-48 a.C.), dirigindo-se a sua tripulação, aos seus soldados, os quais se mostravam excessivamente prudentes e cautelosos - para não dizer trêmulos e acovardados – diante de um mar nigérrimo e proceloso, instigando-os a embarcar.  Como único argumento, Pompeu proferiu a frase que se celebrizou, chegando aos ouvidos de Fernando Pessoa que, parafraseando-o, disse que “viver não  é  necessário , o que é necessário é criar”. Maravilhoso! Todo artista e todo criador deveriam tomar isso como inspiração. Caetano Veloso, usou como refrão de Os argonautas a frase que Pessoa não concebeu mas que tanto amou que dela se valeu para nominar um seu poema famoso e para filosofar sobre sua irrefreável necessidade de criação. A expressão “Navegar é preciso” bem que pode ter sido o lema que norteou todas as intrépidas conquistas portuguesas na Era das Grandes Navegações. A frase, segundo dizem, estaria escrita no pórtico da lendária Escola de Sagres, fundada pelo infante Dom Henrique, no século XV, mais precisamente em 1460, bem antes do nascimento de Pessoa, que nela teria achado inspiração para o poema que escreveu. Mas estamos falando da raça humana e seus enganos, e aí temos que lembrar que não faltam os que, convictos, afirmem que a Escola de Sagres nunca tenha existido de fato, senão na imaginação das pessoas, que tudo não passa de uma lenda. Quanto ao poema de Pessoa, segue abaixo uma reprodução para que não pairem dúvidas sobre o que nela diz o venerável vate luso. Embora já saibamos bem que isso não fará cessar novos e contínuos erros e enganos, pois, aparentemente, quando adotou a frase "errar é humano" o homem outorgou a si próprio o direito de errar quantas vezes queira. Sem se importar em seguir o que versa a frase original, atribuída a Sêneca, que em sua inteireza nos diz: "errare humanum est, perseverare autem diabolicum."
               Navegar é Preciso
               (Fernando Pessoa)
Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:    
"Navegar é preciso; viver não é preciso".                    
Quero para mim o espírito desta frase,           
transformada a forma para a casar como eu sou:          
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.         
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.    
Só quero torná-la grande,                                           
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.                                              
Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha. Cada vez mais assim penso.                                        
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue  o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade. É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

09 maio 2026

Béu Machado, Caetano Veloso, Goethe

Sempre relembro Béu Machado, sempre vale a pena que todos relembremos Béu. Amiúde me vem à mente seu jeito calmo de poeta, quase anônimo, fingindo-se igual aos viventes outros, malgrado o talento imensurável para versejar, criar frases. Contrariando Caê, que diz que só se pode filosofar na língua de Goethe, Béu filosofava em muito bom soteropolitanês. Seu humor, carregado de dendê e pimenta dedo-de-moça, algumas vezes era pura molecagem e outras ocultava, por trás de uma aparente despretensão, uma profundidade que a muitos certamente poderia escapar. O humor béumachadiano e sua filosofia podem ser percebidos a olho nu em frases como estas que aqui reproduzo para matar as saudades do poeta, do frasista, do vizinho na Boca do Rio e do amigo cortês e espirituoso.
***** O fato de marcianos virem periodicamente à Terra só prova uma coisa: não existe vida inteligente em Marte.
***** O açougueiro cortou a parte que eu mais precisava: meu crédito.
***** "Saúde de ferro!", disse o médico, desenganando o hipocondríaco.
*****De lascar é quando a bola bate no pau sem chocar na trave.
***** De nada adiantou eles ordenarem que eu me calasse. Heroicamente continuei gritando "Ai!"
***** Desisti de desafiar o Mike Tyson. Os motivos são de força menor.
***** Desta vez vai correr sangue: aumentaram os preços dos absorventes!
***** Ler Proust é uma perda de tempo.

Ah, que grande, que imensurável falta nos faz Béu Machado.!     (291114)

28 abril 2026

Raul Seixas, do Oiapoque à PQP.

Das bandas do Oiapoque ao Chuí, das bandas de rock à Marilena Chauí, neste Brasil varonil do másculo pra xuxu Gugu e do viril Clodovil, em uníssono eleva-se o brado retumbante de formidável contingente de pessoas: "Toca Raul!" 
Mesmo com todos os terríveis obstáculos jabaculísticos dos dias atuais, as rádios acabam tendo de atender aos veementes pedidos, pois a pressão popular é imensa, irrefreável. Quanto a mim, não preciso que em coro gritem: ''Pinta Raul!'' Na maior velô, vou logo me munindo de pincéis, tintas, lápis, pastel seco, pastel a óleo, carvão, sanguínea, papéis de gramaturas diversas, telas, Photoshop e...zás!, vou mandando ver em honra do nosso sempre amado, adorado e assaz idolatrado maluco beleza. É Raul Seixas na veia, nos ouvidos, nas retinas e na mente.Tá rebocado, meu compadre! Titirrane, Raulzito, titirrante!
(01052015)

12 fevereiro 2026

Apaches do Tororó, Buck Jones e todos blocos de índios do carnaval da Bahia

Nos anos 70s, quando ainda não era o abastado dono e editor deste blog, habitando eu na Selva de Pedra de Sampa, eis que resolvi me autorrepatriar para a Bahia depois de naquela algo remota época haver provado, embevecido, a magia incomparável do carnaval de rua desta Soteropéia Desvairada. Digo e redigo, há aqui nessa afrocity um povo cuja alegria ultrapassa todas as divisas comportamentais instituídas, que é festeiro, que adorar rir, dançar e amar como nenhum outro, sendo que o carnaval de rua sempre foi sua delirante apoteose. Ah, mister se faz ressalvar-se que tempos houve em que esse carnaval era verdadeiramente popular e não um produto que ávidos empresários atualmente vendem embalado em abadás que, a julgar pelo preço cobrado, devem ser confeccionados em fio do mais puro ouro. E muita coisa mudou desde que certo dia os políticos incubidos de administrarem esta afrourbe viram no carnaval e nas festas de largo a possibilidade de lucros fantásticos. Destarte, deram início a um processo de desarborizar bairros inteirinhos pra limpar as vias onde hoje soem trafegar sem impedimentos, os trios elétricos fazedores de formidáveis fortunas para uns, com suas bandas, seus saltitantes cortejos. Pari passu, trataram de estabelecer novas regras na organização do carnaval e das festas de largo, o que alterou profundamente as coisas. Barracas perderam todo o charme da vária e rica criatividade popular, foram oficialmente padronizadas, a diversidade foi sendo esvaziada e entrou em cena uma intragável exclusividade para o fabricante de cerveja que mais pagasse, usurpando dos foliões o democrático e, até então, inviolável direito de escolher a marca de cerva de sua preferência a ser ingerida durante a festividade.
Mister se faz dizer que naquela libertária década de 70 o hoje predominantemente noturno carnaval de rua da Bahia tinha seu início ainda pelas manhãs no mais das vezes ensolaradas, e o melhor da festa se concentrava na Praça Castro Alves com o sol rompendo ao meio-dia, como diz o caetanístico frevo Atrás do Trio Elétrico. Ali se misturavam gentes famosas e os anônimos, vendedores, foliões, héteros, gays, brancos, negros, mulatos e gringos, sob sol ou sob chuva, suor, cerveja e muita Maria Joana sob o olhar cúmplice do condoreiro Poeta da Abolição ali esculturado e era bem dali, da mão do poeta, que o sol se levantava e a lua se deitava na côncava praça. Esse carnaval baiano e essa Praça Castro Alves fizeram por onde merecer e foram eternizados, celebrizados, perpetuados em emblemática canção de Caetano Veloso em que, parafraseando o grande vate abolicionista, o mano de Beta Beta Bethânia retratou os costumes populares da época dizendo que "a praça é do povo como o céu é do avião". Ouvi e achando pertinente o dito, tratei de descolar espaço cativo na renomada ágora. 
E vai daí que, em um belíssimo dia desses anos 70s, lá estou eu na Praça Castro Alves onde, aboletado em elevado, disputado e privilegiado cantinho à guisa de camarote, espero a passagem de trios e blocos. Eis que alguém brada: "Évem os Apaches do Tororó!" Será que ouvi direito? Ouvi e fico sabendo que o Apaches é o primeiro bloco que surgiu no carnaval da Bahia com a nobre intenção de merecidamente homenagear o povo indígena. Frise-se que por um desses insondáveis mistérios dessa afrocity Soterópolis, os blocos índios nunca foram de homenagear Pataxós, Tupis, Bororós, Guaranis, Xavantes, Macuxis, Tapuias ou quaisquer outras tribos indígenas da Bahia ou da circunvizinhança e, sim, os índios norte-americanos tais como Apaches, Comanches e Sioux que aqui só davam as caras nas telas de cinema e das TVs. Ou seja, em matéria de cacique, sempre estiveram mais para Touro Sentado que para Juruna. Percebo, quando se aproximam, que portam os adereços indígenas que Hollywood nos mostra: mocassins, penas, elegantes cocares, indefectíveis machados, rostos com característica pintura. Com uma substancial diferença: os pele-vermelhas que vejo são em verdade todos de cor negra retinta, o que deixaria em pé a vasta e fulva cabeleira do genocida general Custer. Isto também deve explicar os cliques incessantes das máquinas fotográficas dos gringos à minha volta. Antes que algum solícito antropólogo me esclareça as ideias, um novo arauto anuncia: "Évem Buck Jones!" Pronto. Este eu conheço, é da mesma grei de antigos astros do faroeste hollywoodiano feito Tom Mix, Gene Autry, John Mac Brown, Tex Ritter, Monte Hale, Ken Maynard, Rocky Lane e Roy Rogers. É cowboy genuíno e certamente a porrada vai comer no centro com a indiada azeviche. Qual o quê! O Buck Jones em questão me explicam que é o nome do cantor da Banda Mel cujo trio se avizinha. Mas como nessa afrocity o inusitado é corriqueiro, fico na minha, imaginando que a qualquer momento alguém vai bradar: "Évem John Wayne!" E ao invés do Duke, quem de fato advirá no cenário da praça montado em empinante corcel não será nenhum tipo ariano de zoim azu, mas um macunaímico Grande Otelo ou um glauberrochistíco Mário Gusmão. E as hostilidades de praxe mostradas nas telas darão lugar a confraternizantes abraços entre Apaches, Comanches, Sioux, Pataxós, Gês, negros, brancos, mulatos, cafusos, mamelucos, teutos, sinos, lusos, anglo-saxões e quem mais vier, pois nesta terra, malgrado um desprezível magote de canalhas, é infindável nossa capacidade de amar e inexaurível é nossa alegria de viver.
(020210)

25 fevereiro 2025

Charles Chaplin/ O homem no parque/ Dentes: quatro ilustrações de Setúbal

O HOMEM NO PARQUE/ Versão 1. Desenho esboçado com grafite B, arte-finalizado com bico de pena e pincel Winsor & Newton número 2. Foi utilizado nanquim Talens e um trapo embebido no nanquim para dar efeito de reticulado. Clicando sobre esta e as demais ilustrações você as amplia.
 O HOMEM NO PARQUE/ Versão 2. Esboço feito com grafite 2B, arte-final com caneta nanquim descartável. Sombreado em cinza feito no Photoshop.
CARLITOS, CINEMA E PIPOCA, grafite B usado para esboçar, caneta nanquim descartável para a arte-finalização.
DENTES E DENTES. Ilustração esboçada com lápis 2B, arte-finalizada com caneta nanquim. Para o efeito de reticulado ao fundo, foi usado um trapinho embebido em nanquim.

16 abril 2023

O lendário escritor Jorge Amado, o Rio Vermelho e o jornalista GustavoTapioca.

Gustavo Tapioca é jornalista da melhor linhagem. De um tempo em que jornal que se prezasse tinha que comportar em suas fileiras jornalistas autênticos, o que significava ser um profissional com consciência social e política, brios, coragem, imparcialidade e, acima de tudo, saber escrever bem. Nada a ver com um magote de vaquinhas de presépio que se limitam a reproduzir os releases que recebem de fontes pouco fidedignas, nem com os descompreendidos, prenhes de mercenários intentos, que tomaram de assalto as redações dos jornalões de ricos patrões, abancaram-se nos jornais nacionais, globos news e similares para divulgar coisas que pouco ou nada têm a ver com a verdade dos fatos, servindo apenas para privilegiar os já mui privilegiados, para dizer o mínimo. E fazem tudo isso com uma naturalidade assombrosa, julgando-se acima do bem e do mal, convictos de que todos assimilam tudo de errado que eles articulam e veiculam. Bem, o pior é que têm motivos para terem convicções que tais vez que um enorme contingente de pessoas engole mesmo as informações - ou desinformações - que recebe numa boa. Mas nem todos, felizmente nem todos. Quanto ao domínio da escrita, é justamente por bem saber escrever que Gustavo Tapioca redigiu e lançou seu livro Meninos do Rio Vermelho, um memorial inspirado de quem foi, ainda infante, vizinho de Jorge Amado, personagem onipresente nas memórias tapiocanísticas grafadas nas páginas desse livro merecedor de sua atenção, leitor atilado que é, para conferir e se deliciar com uma Bahia solar, apaixonante e tão cheia de agradáveis surpresas como o texto de Gustavo, que aliás me brindou com o honroso convite para fazer as ilustrações, convocação que aceitei com júbilo adolescente. Ao sapecar meu traço, aproveitei para fazer, com lápis, pena, nanquim e miríades de hachuras, uma homenagem a Floriano Teixeira, fabuloso ilustrador e artista plástico, ídolo maior e meu amigo pessoal, também ele um tradicional morador do charmoso e emblemático bairro do Rio Vermelho. Estou certo de que o dia que este livro chegar em mãos certas, vira minissérie televisiva ou filme de sucesso. 
**** O e-mail de contato para o leitor que estiver interessado em adquirir um exemplar é: gustavo.tapioca@gmail.com 
(300709)

14 novembro 2022

Valtério Sales, escultor e cartunista dos bão, louvado em prosa e verso

Valtério Sales é um cartunista aqui da Bahia que já andou por um tempo lá pelas bandas do Rio. É um cara muito bom quando faz caricaturas em papel. E é um arraso nas esculturas em barro, invariavelmente feitas com toques de muito bom humor. Ele é meio avesso à computadores e muito por isso mesmo ainda não tem um site para que vocês possam apreciar os maravilhosos trabalhos que ele esculpe. 
Ôpa! Êpa! Parem as máquinas! Escrevi esse preâmbulo todo aí, mas eis que acaba de chegar na redação desse bloguito uma carta que nos eleva o espírito e preenche de júbilo nossas almas. A dita missiva nos dá conta de que, buscando correr atrás do tempo informático perdido, Valtério Sales retou-se e resolveu adentrar de vez o universo cibernético. O cultuado escultor já tem até um perfil no Facebook em que mostra sua fina estampa e a arte que executa com seu enorme talento. Tomara que, entusiasmado com essa sua infoexperiência, o artista providencie um site ou blog para tornar ainda mais visível o seu trabalho e maior o nosso deleite. Nunca é demais relembrar que Valtério, o grande escultor, cartunista e humorista, é nascido em Ruy Barbosa, Bahia, onde atendia pelo cognome de Vartim de Sinésio, só saindo um dia da pequena urbe para brilhar na Oropa, França e adjacências. Para celebrar seu benfazejo ingresso nas redes sociais, a equipe desse bloguito convocou Setubardo, o sempre mui inspirado poeta, nosso contumaz colaborador, e o vate nos enviou um poema que, radiantes, publicamos: 
Valtério no caminho das artes
Evém Valtério.
Quem o diz no climatério?
Mal não lhe causa
a andropausa.
Vem gaio e gala
com sua bengala.
Caminha seu caminho,
rebolandinho.
Torpes maliciam
seu rebolar 
quase sutil.
Não é frescura,
posto que viril.
É só da perna
leve atrofio.
(16/07/13)

18 outubro 2022

O cantor Gerônimo, a escritora Aninha Franco, eu e um dos milhões de gaiatos da Bahia


A cada passo um gaiato nato que nos atormenta o dia-a-dia e eis aqui a cidade da Bahia. Meu caro Boca do Inferno, se nações outras deste vasto mundo necessitassem desesperadamente de gaiatos e a Bahia tivesse permissão para exportar tipos que tais, daqui eles sairiam às toneladas acondicionados em infindáveis contêineres, e teríamos um PIB tão elevado que ricos seríamos todos neste afrobaiano torrão. Ser gaiato é qualidade inerente à grande maioria dos baianos. E um sujeito sério como eu não tem vida fácil nesta terra. Por exemplo, quando vou ao Pelô, gosto de almoçar no Restaurante Axêgo. E o sacripanta que é dono do local - cujo nome aqui não declinarei para não dar ousadia - ao me ver chegar me recebe invariavelmente de duas formas. Se estou com meus longos cabelos presos em rabo-de-cavalo, com um largo sorriso grita para mim lá detrás do balcão: "Gerônimo! Seja bem-vindo!", fingindo se equivocar. Depois complementa, com aquele sorrisinho sacana, que eu e o cantante de "Agradecer e abraçar" somos um o focinho do outro, esculpidos e encarnados ou cuspidos e escarrados, como preferirem. Menas verdade, diria nosso amado Presidente Lula. Tenho em casa um espelho que está comigo há muitos lustros - lustros na idade, no espelho nem tanto assim. Esse espelho é de minha inteira confiança, nunca falta com a verdade, por isto mesmo sempre enche minha bola e me afirma que estou a cada dia mais parecido com o Brad Pitt, com o Alain Delon de 30 anos atrás. Já Jerônimo, muito me pesa dizer que seu único e indiscutível atributo de beleza está na pena que costuma usar no alto do cocoruto a título de adereço. Então, prefiro dar um voto de confiança na sinceridade do meu espelho que tem relevantes serviços prestados a este vivente que vos escreve estas mal digitadas linhas. Ah, a segunda forma: se chego ao Axêgo com meus cabelos soltos, as melenas levemente onduladas livres ao vento qual um indômito silvícola alencariano de olhos garços, o tal proprietário me saúda gritando: "Aninha Franco! Que bom lhe ver!" Aninha se alguém ainda não sabe, é dramaturga e escritora entre outros pendores que ostenta. Admiro seu intelecto, mas ser sósia dela não é exatamente o que almejei para mim na vida. Entretanto uma coisa já constatei: quando - segundo o gaiato em questão - "estou" Jerônimo não consigo a façanha de ter mulheres me olhando com os zoim compridos cheios de quebranto, promessas e desejos inconfessáveis. No entanto quando "estou" Aninha Franco, costumo abiscoitar para meu harém algumas núbias curvilíneas e gringas com sardas, queimadinhas de sol e cheias de love to give, sendo que já recebi inúmeros torpedos de morenas frajolas nativas, que mulher baiana quando está a fim de alguém não é de muitos pudores, formalidades e etiquetas. Por via das dúvidas, agora ando sempre de cabelos soltos Pelô afora. E mesmo quando o supracitado sacripanta ao me ver passar sob seu balcão grita para mim: "Aninha Fraaaanco!", respiro fundo, sigo em frente o meu caminho com a tranquilidade de quem está numa boa e nem tchum pra ele. Mais importante é meu harém.
(060414)

16 outubro 2022

Fernando Pessoa, Caetano Veloso, a poesia, a necessidade de navegar

"Navigare necesse est, vivere non necesse", disse-o, embarcando em sua galera, sem demonstrar um mínimo temor diante de assaz proceloso mar, o intimorato general romano Pompeu, segundo escritos de Plutarco, que não era homem de articular falácias biográficas. "Navegar é preciso, viver não é preciso". Grande Pompeu! 
Tempos depois ninguém menos que o bardo Fernando Pessoa usaria a frase de Plutarco como título de um poema seu e, com propriedade, a citaria em seus fernandopessoanianos versos dando-lhe um charmosíssimo acento português, que é como a conhecemos no Brasil, tendo sido até perpetuada por Caetano Veloso em um belíssimo fado de inebriante melodia, sendo a canção ricamente embalada por plangentes guitarras portuguesas, tendo o divino e maravilhoso compositor brasileiro escrito para seu fado uma letra belíssima, instigante, que muitas cantoras portuguesas bem sabem interpretar. Certamente por desta forma a conhecermos, pletoras de gentes acreditam ser a autoria da frase fruto da mente do genial poeta lusitano. Em verdade, Fernando Pessoa apenas usou o dito de Pompeu para criar uma feliz paráfrase: "viver não é necessário, o que é necessário é criar". Quanto à necessidade de navegar, sou - qual Pompeu - um destemido e arrojado e nauta mas, copiosamente precavido, me limito a singrar mares menos procelosos - os virtuais - como se os de Netuno fossem pois, como dizem, o seguro morreu decano. Ou para melhor dizer, “insurance mortuus est veteranus”, já que qualquer citação fica mais credível se pronunciada em latim. Mesmo que em um latim apócrifo, canhestramente redigido por um escriba estulto consultando um providencial Google Translator.
****A cantora lusitana Gisela João cantando lindamente o fado "Os Argonautas", letra e melodia do compositor baiano Caetano Veloso.
(310512)

11 fevereiro 2022

Affonso Manta: um girassol entre os dentes do poeta.

Para o deleite de vocês, leitores de fino trato, vai aqui mais uma dose dos capitosos versos de Affonso Manta, poeta da Bahia, para que todos possam perceber que, além de Gregório de Mattos e Castro Alves, há uma poesia baiana luxuosamente inspirada porém ainda inédita para a maioria das gentes deste país tropical bonito por natureza que, ainda que os fatos insistam em nos contradizer, insistimos em alardear que é um patropi abençoá por Dê. 
O Louco
Enlouqueci, um girassol nasceu na minha boca.
Os pássaros já estão fazendo ninho
Atrás da minha orelha.
Enlouqueci, o azul explodiu em fevereiro.
Vou conhecer Londres no meu bergantim de pirata.
As ruas são-me passarela para bailar.
Não me conheceis, transeuntes?
Não me conheceis, moça de olhos calmos
Do último andar do edifício?
Sou o Louco.
Prometi as chuvas do mês passado.
Prometi as árvores.
Prometi os vinhos.
Prometi este intenso azul de fevereiro.
Faço promessas maravilhosas.
E vede que se cumprem.
Abram as portas.
Chamem vossos filhos.
Chamem vossas noivas.
Os garotos vão rir de mim.
Por acaso, não quereis que as vossas noivas se divirtam?
Não há quem não ache graça
Do meu aspecto excessivo de profeta.
Convidem todo mundo.
Trago uma flor no bolso de dentro do paletó
Para ofertar ao sorriso mais inocente da cidade.
Não tenham medo.
Não faço mal a ninguém.
Sou o Louco.
 

(150314))

01 janeiro 2022

Affonso Manta, poeta: masoquista light

Para o dulcíssimo deleite dos meus mais lirísticos leitores já postei aqui alguns dos versos pra lá de criativos e irreverentes do mui inspirado poeta baiano Affonso Manta para mostrar a vocês que a boa poesia baiana vai muito além do consagradíssimo vate Castro Alves. Navegando nas info-ondas da internet, pesquisando com acuro, achei estes outros versos de Manta, com sutil toque sadomasô, que são uma rara delícia para encantar os mais refinados paladares. Bon appétit.
Pisciana
Celeste é meio indócil, mas serena.
De gênio calmo. Mas de amor fogoso.
Ela me dá felicidade plena
E surra de cipó de fedegoso.
(161013)

04 maio 2021

Antonio Cedraz, um desenhista baiano e seus personagens amados em todo o Brasil

Você, leitor, sendo a pessoa atilada que o é, já deve ter lido as histórias em quadrinhos que mostram a simpática e divertida Turma do Xaxado, não é mesmo? Pois fique sabendo, se já não o sabe, que o criador é o afamado, aclamado e mui amado Antonio Cedraz, glória-mor de Jacobina, urbe localizada no sertão da Bahia, qual uma pedra preciosa incrustada em monárquica coroa, sendo ele um dos mais premiados desenhistas de toda esta Terra Brasilis, que um dia foi achada pelo intrépido lusitano Pedro Álvares Cabral. Cedraz, ainda por cima é um ser humano dos mais supimpas, um raro amigão, gente muito do bem, um cara de alma muitíssimo bonita, um gajo giro, como diz seu genro, que é tão português quanto o supracitado Cabral. Um certo dia recebi convite para visitar o Estúdio Cedraz e fazer as caricaturas dos integrantes da equipe. Topei de cara e mui contente e parti para lá, lépido e fagueiro. Fiz as caricas em preto e branco, depois, lesto e presto, peguei uma marinete e levei para colorir no estúdio que mantenho em Montmatre, logo ali em Paris, vizinho ao do meu confrade Juarez Machado. Para comprovar a veracidade do meu relato, taí o pai do Xaxado posando numa nice para mim. (29/11/13)                                             P.S.: Aproveito para lembrar a todos que no próximo sábado, dia 26 de maio de 2018, às 15h, na Galeria Pierre Verger, Biblioteca Central dos Barris, nesta cidade de Salvador, acontecerá a abertura da exposição comemorativa dos 20 anos de Xaxado, o mais afamado personagem de Cedraz. A mostra vai do dia 27 a 30 de maio, aberta ao público das 09:00h às 18:00h.

21 março 2021

João Ubaldo Ribeiro já previra o golpe de 2016 e quem haveria de mandar em uma ''democracia de conluios e negócios escusos".

O texto abaixo é do escritor, jornalista, roteirista, cronista e Mestre em Ciência Política, João Ubaldo Ribeiro, ganhador do Prêmio Camões, galardão máximo para escritores da Língua Portuguesa, um brasileiro extremamente inteligente, de elevada consciência política e social que disse isso tudo aí antes, bem antes de acontecer o nefando golpe jurídico-político-midiático que assola o Brasil, que findou por  colocar no poder uma escória. JUR não estava especulando. Disse o que disse por conhecer de sobejo o Brasil e suas gentes. 
João Ubaldo Ribeiro:
"Desde que me entendo, ouço falar em reformas e as únicas que lembro ter visto efetivamente realizadas são as ortográficas. Talvez eu esteja sendo injusto e tenha presenciado a realização e implantação de alguma reforma não ortográfica. Mas não aquelas que antigamente eram chamadas de “reformas de base” e consideradas essenciais para o desenvolvimento ou até a sobrevivência do País. Reforma agrária, reforma tributária, reforma judicial, reforma administrativa, reforma educacional e por aí se desfiam as benditas reformas, um longuíssimo rosário, impossível de recitar de cor. Ao mencionar-se sua necessidade ou urgência, todos assentem com ares graves – sim, sim, naturalmente, as reformas.
Contudo, passar da anuência à ação é aparentemente impossível. Reforma é uma coisa na qual se fala, mas não se faz. É excelente para comícios e entrevistas, mas não para agir. De vez em quando, um governante diz que fez uma reforma. Se não me engano, o ex-presidente Lula anunciou que fez uma ou duas reformas. Não lembro quais e provavelmente nem ele, são coisas do passado e ninguém viu reforma nenhuma mesmo.
Tenho uma teoria simples a respeito desse assunto. Todas as reformas, de todos os tipos, iriam prejudicar os que ganham com a manutenção do que está aí. Como o País, de cabo a rabo, em todos os níveis, em todas as classes e categorias, é essencialmente corrupto, a corrupção não deixa. Não existe setor da administração pública, novamente em todos os níveis e dimensões, que não seja território de uma ou diversas máfias, algumas das quais institucionalizadas e quase todas alimentadas por uma burocracia pervertida e feita para ensejar propinas, vender influência e fazer proliferar os despachantes e seus equivalentes mais graduados, os chamados consultores – entre estes últimos constando o hoje injustamente esquecido filho de d. Erenice. ( N.R - JUR refere-se a Israel Guerra, filho da ex-Ministra-Chefe da Casa Civil
). Diante da realidade de que há quadrilhas em ação em todos os poderes, tanto de fora para dentro quanto de dentro para fora, não se vai acreditar que os beneficiários de determinado estado de coisas abdicarão de suas vantagens pelos belos olhos de quem quer que seja. Ouso mesmo dizer que, em muitas das áreas mafiosas, quem for fundo demais na investigação e na reforma corre o risco de morrer. São muitas as histórias de assassinatos realizados a mando de algum esquema de corrupção, pelo Brasil afora. Não escapa área nenhuma, a começar, simbolicamente, pelas próprias polícias.
E não escapa, naturalmente, o Congresso Nacional,
onde, segundo as más línguas (observem meu uso copioso do adjetivo “alegado”, ou quem vai preso sou eu) há alegados ladrões, alegados estelionatários, alegados salafrários e outros alegados, em tamanha fartura que desafia a contagem. Agora o Congresso está entregue à tarefa de realizar a reforma política, todo mundo fingindo que acredita que algo que prejudique os interesses imediatos dos congressistas será aprovado. E que o nosso sistema eleitoral está sendo aperfeiçoado.
Aperfeiçoado para eles. O que eles pretendem chega a parecer brincadeira, mas, infelizmente, não é. Querem, como se sabe, instituir o que já chamam afetuosamente de “listão”. O eleitor não votará mais em um candidato, mas na lista elaborada pelo partido, na ordem estabelecida pelo partido. Atualmente, com a lista aberta, pelo menos o eleitor escolhe uma pessoa e essa pessoa, se bem votada, fatalmente se elege. Mas não vai haver mais esse direito. De agora em diante, com a lista fechada, o eleitor escolhe o partido com que se identifica e lhe entrega a escolha dos nomes que serão eleitos.
Só pode ser deboche. Que significa um partido político no Brasil, senão a conglomeração temporária de interesses que raramente são os da nação, mas de grupos, categorias ou indivíduos? Até os programas partidários não passam de florilégios de frases vagas e altissonantes, tais como o combate à desigualdade e a injustiça social, os projetos de inclusão, o desenvolvimento sustentável, a preservação do meio ambiente e outras generalidades, quem ouve um, ouve outro e, se o nome do partido fosse apagado, não haveria quem o distinguisse. Apareceu até um partido que se declara não ser de esquerda, nem de direita, nem de centro. Talvez seja o mais honesto deles todos, por mostrar que reconhece a realidade política brasileira. Aqui nenhum partido quer dizer nada mesmo e podiam usar todos a mesma sigla: PPPPP, Partido Pela Predação do Patrimônio Público, porque tudo o que seus membros aqui almejam é abocanhar a parte deles.
Agora vêm com essa novidade da lista fechada. Se já não nos é permitido dar palpite no uso do nosso dinheiro, daqui a pouco nos tirarão o direito de escolher nossos governantes. Ou seja, seremos mandados pelas organizações oligárquicas e caciquistas dos partidos. Seremos uma “democracia” governada por conluios e manobras escusas. Ou por 171, como queiram."

( Trechos de artigo de João Ubaldo Ribeiro, ''Se reformarem é para piorar.''
 (01 novembro 2011 )
http://academia.org.br/artigos/se-reformarem-e-para-piorar

22 janeiro 2021

Fauna baiana, Soterópolis, gringos


      Esta pintura é um painel de uns 2 metros de altura e de quase outros tantos de largura. Com pincéis e tinta acrílica levei um mês trabalhando diuturnamente nele e penso ter tido a felicidade de colocar uma boa mostra de considerável parcela da fauna humana da Bahia da qual sou integrante parte. Baianas preparando acarajé, gente dançando, namorando, mercando, papeando, rezando, olhando, nadando, sorrindo, indo, vindo, comendo, bebendo, dizendo, vivendo. Sob proteção de santos católicos e orixás. Um mês. E o resultado foi sentir um enorme prazer vendo o trabalho pronto. Ah, mas não se quedou muito tempo comigo, achou um dono melhor que eu que lhe deu uma parede assaz espaçosa com direito a spots em casa ampla, arejada, mui bem frequentada e se foi para bem distante da Bahia. Queria retê-lo por mais tempo para dar uma zoiadinha de quando em vez, lamber a cria, mas, qual um aracnídeo, vivo do que teço e sei que tal pretensão não posso ter. O que muitíssimo me faz lembrar de meu fraternal amigo Lima Limão, grande artista plástico e filósofo formado nos mais conceituados cabarés, bares, barracas, biroscas e visgueiras de Soterópolis. Respondendo a um abastado cliente que lhe indagara se em sua casa ele teria muitas pinturas de sua própria lavra, dá-se que Lima, humildemente, a sinceridade em pessoa, redarguiu ao argentário: "Quem sou eu, doutor, para ter um quadro meu? Isto é pro senhor, que pode!"
(171214)

19 janeiro 2021

O rumoroso caso de amor entre o jornalista Gonçalo Júnior e sua nona.

É com o precípuo escopo de tirar onda de gostoso e posar de intelectual versado em assuntos os mais diversos que passo uma razoável parte do meu tempo lendo o que bons autores escrevem. Não há qualquer intenção nobre nisto tudo, acreditem, pios leitores. Trata-se de meu rotundo e insaciável ego querendo alimentar-se de afagos e salamaleques, mesmo que através de mui imerecidos elogios. Já confidenciei a vocês mas, por garantia, mister se faz que eu volte a confidenciar, que ao assim proceder, lendo um razoável número de livros acabei desenvolvendo alguns traquejos e adquirindo certa prática para bem saber discernir entre os que em reduzido número são de fato bons autores e aqueloutros que em largos contingentes, cheios de pretensão e egolatrias vãs, de forma equivocada julgam que o são. Por exemplo, em matéria de competência, quando o papo são as Histórias em Quadrinhos, não vacilo, leio uma fera que domina o assunto de nome Gonçalo Júnior, respeitadíssimo na área. Gonçalo é jornalista atuante, dos mais conscientes da importância e dos verdadeiras propósitos de sua profissão, é fundador e editor da prolífica Editora Noir, em SP. Ele não se limita a ser uma autoridade na chamada nona arte, vai além, muito além disso, pois é também escritor com muitos importantes livros já publicados, argumentista de HQs, pesquisador incansável, é íntimo das palavras e, claro, do vasto universo dos quadrinhos. Tem uma ampla cultura geral o que lhe dá embasamento para tratar com propriedade de assuntos diversificados, conhece os terrenos em que pisa. Por seus conhecimentos vastos nos campos político e social, pela sua lucidez, sua clareza de pensamentos, seu compromisso para com o povo deste país tão vilipendiado e pelo respeito à profissão de jornalista que abraçou não lhe falta coragem para colocar o dedo na ferida quando necessário, não se limitando a ser um mero repassador de releases fornecidos por políticos ou editoras, hábito tão em voga nos tempos hodiernos. Se na História oficial há algo oculto nas entrelinhas, Gonçalo traz à luz, não acredita em determinadas verdades absolutas. Se há sujeiras sob o tapete, ele as revela a todos, intimorato que é, cônscio que é, ético que é. A participação de alguém da grandeza de Gonçalo só faz enobrecer a chamada nona arte, pela qual nutre imenso amor e evidente apreço. Seu olhar aguçado é guia confiável num mundo que por vezes é pródigo em indesculpáveis equívocos. Vale muito a pena dar uma busca na internet para se ter contato com os textos de tão brilhante autor ou, ainda melhor, ir a uma livraria de respeito e lá comprar os muito bons livros de sua autoria, entre eles, um dos mais lidos e emblemáticos, A guerra dos gibis. Textos escritos por Gonçalo são leitura imperdível, como se diz nos Cadernos Bês da vida.
(10/10/13)

19 outubro 2020

Brasil, bico de pena, artistas, escolas / Arte que se reparte

Comecei a fazer desenhos a bico de pena influenciado pelos trabalhos de alguns desenhistas magistrais, autênticos virtuoses no desempenho dessa técnica milenar. Artistas europeus, chineses, norte-americanos, sul-americanos já fizeram maravilhas valendo-se de uma prosaica pena embebida em nanquim e uma singela folha de papel. De tantos artistas, muita coisa que vi me encantou. Já citei várias vezes, volto a citar, que Percy Lau me deixava atônito com seus desenhos a bico de pena, desde que eu ainda era um niño de Jesus. Esse brasileiro, nascido em Arequipa, Peru, era o cão de calçolão. E chupando manga, quando acaba. Também o eram Poty, Carybé, Aldemir Martins. Tenho o orgulho de ter sido amigo de um dos maiores desenhistas deste planeta, Floriano Teixeira, principal ilustrador dos livros escritos por Jorge Amado. Para meu júbilo, Flori gostava de meu desenho, me recebia sempre em seu atelier e me presenteou com alguns tesouros que fez a nanquim. Com cada um desses artistas, aprendi um pouquinho. Ou muitinho, melhor dizendo. Dá-se que quando trabalhei como ilustrador e cartunista em jornais, em uma era pós-clichês e pré-computadores, eu me vali muito de bico de penas, mesmo não sendo penas de metal para desenhos no sentido exato da palavra, aquelas que substituíram as penas de ave usadas em tempos de antanho. A nomenclatura dada a elas, as tais peninhas, era bico de pato e mosquito, penas metálicas enfiadas em um cabinho de madeira. Também as usei muito, mas sempre preferi trabalhar mais com canetas com tinta nanquim, super práticas, as recarregáveis e as do tipo descartáveis, como a que usei para fazer o desenho acima. É a ilustração de uma crônica falando em escolas municipais, merendas e brasilidade, impressa há já algum tempo, em uma gazeta diária dessa cidade batizada de Soterópolis. Para fazer a aludida ilustração, li com a devida atenção o texto do autor, formulei a ideia que achei de acordo com o conteúdo dos escritos, esbocei com grafite B em papel usada em diagramação e finalizei com caneta nanquim descartável, caprichando nas hachuras que soem caracterizar um bico de pena. Te cuida, Percy!

23 setembro 2020

Nildão e Renatinho da Silveira e a Santa Inquisição nos dias atuais

-
1. São Rock 2. Nossa Senhora do HD 3. Aparição da Virgem 4. Santo Antônio 
Em uma bela e enluarada noite de quinta-feira, mais exatamente no dia 27 de janeiro do Anno Domini de 2011 (o teeempo passa, torcida brasileira!), o cidadão Nildão, inspirado poeta, intimorato artista gráfico e iconoclástico cartunista, estava lançando seu mais novo livro de então, sendo tal opúsculo prenhe de criatividades miles. Nildão é o cara! Sabe que o bom humor serve para questionar o estabelecido e os dogmas mais entranhados. Assim é que ele, trabalhando em dupla com seu inseparável comparsa, o maravilhoso Renato da Silveira, criou e lançou algum tempo atrás a série "São Será o Benedito e outros santos geneticamente modificados". Católicos ortodoxos não gostaram nadinha de mexerem com seus ícones. E um grupo um tantinho fundamentalista, lá de Sorocaba, SP, moveu um processo criminal que foi encampado pelo Ministério Público Federal de São Paulo. Qual seria o próximo passo? A excomunhão de Nildão e Renatinho da Silveira? A ressurreição de Torquemada para, com seus autos-de-fé e suas fogueiras, punir as heresias gráficas da dupla? Não sei responder, sou péssimo em opinar sobre coisas em que a sensatez e a racionalidade nos escapam, em que as escolhas de atitudes fogem ao bom-senso. E sabemos bem até onde isso pode nos levar, desde a devastadoras guerras santas, como a acusações de bruxaria e queima de inocentes nas fogueiras de Salem, por exemplo. Não, não sei. O que sei é que Nildão e Renatinho são fantásticos criadores gráficos, plenos de humor e sapiência, mentes mais iluminadas que qualquer grande fogueira da Inquisição, caras do bem, talentosos e profícuos, que a toda hora lançam alguma coisa nova, instigante, que nos faz rir, e que assim nos chega ao cérebro e nos faz parar para refletir um pouco mais sobre sentidos e valores atribuídos às coisas. Quem quiser conferir pode ir ao site do Nildão e dar uma olhadinha lá que vai sair fã da dupla. O link é http://www.nildao.com.br
(18010211)

21 setembro 2020

Nenhuma mulher me resiste / Frases de Béu Machado 13

 As mulheres não resistem à minha presença: dão no pé.
(Béu Machado, de seu livro Pensamentando)
260916

Dívida dura de engolir / Frases de Béu Machado 03

Uma senhora com um colar de pérolas
pode estar endividada até o pescoço.
(Frase de Béu Machado, de seu livro Pensamentando)
(220916)