29 novembro 2014

Riachão é o Samba da Bahia e a própria Bahia.

Quem quiser saber tudo de samba e de Bahia tem de beber no sagrado manancial chamado Riachão. Sofregamente. Caetano bebeu generosos goles. Gilberto Gil bebeu a se fartar. Cassia Eller, maravilhosamente idem, idem. Riachão é a Bahia em forma de gente subindo a ladeira do Pelô ao encontro da roda de samba com seu terno branco, seu boné, seus óculos, anéis, correntes, toalha no pescoço, ginga, alegria contagiante, dentes escancarados num largo sorriso só encontrável em soteropolitanos tipos. Riachão, em verdade, é o próprio Samba da Bahia, com RG e tudo. Puro e da melhor qualidade, sim, o Samba baiano é esse maravilhoso Riachão, nos seus mais de 95 anos, louvado seja Nosso Senhor do Bonfim! De Riachão transborda a mais carismática baianidade, seu talento de sambista nato é líquido e certo, oferecendo-se generosamente para que nele sorvamos os necessários e substanciais haustos. Com as graças de Oxalá. Epa Babá! Viva Riachão! 

Codinome Beija-Flor, cantada lindamente pela japonesa Tsubasa Imamura

Brasileiros são apaixonados por mangás e animés que, vindos do distante e - para nós - exótico Japão, fazem enorme sucesso popular entre nós. Japoneses amam a música brasileira e sabem tocar e cantar de maneira magistral qualquer composição feita por aqui, da Bossa Nova à mais nova MPB. A linda e afinadíssima cantora Tsubasa Imamura, uma espécie de Nara Leão nipônica, nos dá uma mostra disso com sua magistral interpretação da música de Cazuza.

Flores, dos Titãs: a japonesinha Tsubasa Imamura arrasa cantando essa música

A música é algo comprovadamente entranhada nos corações de toda humanidade. Enquanto alguns aspectos culturais encontram a barreira do preconceito, a música parece ter o mágico condão de abrir as janelas da alma de qualquer vivente, de qualquer parte do planeta. Desde pequenos tentamos, da nossa maneira, cantar em variadas línguas as músicas que nos emocionam positivamente. E cantamos em Italiano, em Inglês, em Francês e por aí vai. Não nos importamos se entendemos ou não as palavras, se as cantamos corretamente. O fato é que entendemos perfeitamente a emoção e a felicidade que essa música nos faz sentir. Muito mais do que isso fazem os japoneses que tocam e cantam a música brasileira de uma forma maravilhosa que nos emociona e nos deixa cheios de orgulhos. Com vocês, Tsubasa Imamura e sua interpretação magistral de As Flores, dos Titãs.  

28 novembro 2014

Eros uma vez uma moça e um amor

Com minha inadvertida aquiescência essa moça um dia adentra meu viver trazendo consigo generosas braçadas de olentes flores que deposita em cada cômodo de minha quase misantrópica ânima  tornando fúlgida e álacre cada jornada e mais felizes e iluminados meus passos pelo mundo.
Um dia essa mesmíssima moça, com gestos impacientes e determinados, arrebata de mim seus ramalhetes, suas corbelhas, seus buquês e os leva para perfumar almas outras. Não vai discreta como veio, antes dá uma aula de como deletar alguém da vida afetiva, toma dos meus pincéis e rabisca palavras de ordem e frases beligerantes na parede dantes imaculada de meu quarto, rasga em tiras meus lençóis de pura seda, despedaça meus cristais da Bavária, quebra toda minha porcelana chinesa, retalha em pedaços miúdos meus mais amados álbuns de HQs, bate a porta atrás de si e desaparece pelas esquinas e quebradas do mundo.
De tempos em tempos, sabe-se lá por quais insondáveis razões, como se nada houvesse acontecido, volta à cena enviando-me um inesperado e indecifrável e-mail, consegue com suas artes o meu telefone e com sua voz suave me diz coisas das quais inutilmente tento traduzir as intenções.  A meio uma tempestade de emoções, um vendaval de sentimentos conflitantes, intento fugir mas é inútil  já que ela tem incrível capacidade de prever meus passos, me cercar os caminhos.  Até que um dia, sem esperar que eu concorde, minhas mãos saltam insidiosas pelo teclado e escrevem os segredos mais guardados, os desejos mais ocultos, as carências mais inconfessáveis e sem minha devida permissão enviam para ela. Como jamais lhe adivinho as ações não posso dizer que fico pasmo diante de sua atitude quando essa moça nada responde. E não retruca, não discorda, não concorda, não aplaude, não tripudia, não contesta, não esboça um esgar em sua face enquanto me mostra jocosamente a língua, não sai pelas ladeiras do Pelô em gritos ensandecidos demonstrando alegria ou raiva. Mas seu silêncio é um brado eloquente que diuturno reverbera em todo meu ser.

05 novembro 2014

H. Lima, o Lima Limão, um raro artista da Bahia.

Horiosvaldo. Este é o nome que ele recebera em pia batismal de algum cura que fizera vistas grossas a tão incomum prenome . Horiosvaldo, sim senhor. Asim, com H e tudo. Horiosvaldo Moura Lima, a quem todos chamavam apenas de Lima. Às vezes, jocosamente, de Lima Limão. Artista plástico, gravador de rara habilidade no manejo da goiva que em sua mão penetrava a madeira sem a ela causar dores. Dali iam surgindo casarios com amplas janelas, céus, mares que ele ao final pintava com sua sensibilidade de artista raro. Cursara a Faculdade de Belas Artes sem no entanto concluir o curso, seja por dificuldades econômicas ou por entender que o chamado ensino superior não lhe traria o que a prática generosamente lhe dava. Mal eu chegara de Sampa para morar na Bahia, conheci Lima e ele de pronto me adotou como irmão mais novo. Me acolheu em sua casa, integrou-me em sua família como se um irmão de fato eu fosse. Sua estratégia de vida consistia em pegar os poucos caraminguás que tinha no bolso, conseguir uns dois compensados pequenos, umas poucas bisnagas de tinta acrílica. Assim munido, criava duas belas obras de arte e com elas sob os braços lá ia ele - e eu, fazendo as vezes de fiel escudeiro - pelos edifícios do Comércio visitando profissionais liberais e pequenos empresários aos quais ele mostrava suas criações até que alguém as adquirisse. Então, cheque no bolso, deixávamos a Cidade Baixa pelo Plano Inclinado, atravessávamos o Terreiro de Jesus e íamos direto ao Brega. Enquanto descíamos as ladeiras do meretrício, onde a vida imitava os livros de Jorge Amado, das janelas vinham motejos de femininas vozes dirigidos ao meu amigo: "Macarrão 38!" "Lima Limão!" . E ele devolvia, sorrindo: " "Jussara, magrela!", "Marilda, roçona!". E seguíamos sem nos deter, pois no Brega não estávamos para desfrutar das gentis senhoritas que ali viviam de mercar seus corpos, mas para trocar o tal cheque recebido com algum coligado, dono de bar, que mediante um ágio, colocava dinheiro vivo na mão de Lima que já sabia o que fazer com ele. Parte seria destinada à manutenção do lar, entregue à Maria, sua fiel companheira de todas as horas, mãe de seus 3 rebentos, que assim compraria munição de boca para os próximos dias. Esta era a preocupação mor de meu amigo que, enquanto vivo foi, portou-se como um pai exemplarmente zeloso que amava com  extremado carinho sua prole. Uma segunda parte da verba auferida seria para compra de novo lote de material - madeira e tinta - para fazer os próximos quadros, o que garantia este ciclo. E uma terceira parte era destinada a pagar uma série de velhas contas em pequenos botecos e cacetes-armados onde Lima costumava beber sua caninha Saborosa e pendurar as contas. Nem sempre era possível pagar a todos, era preciso fazer uma seleção criteriosa. E muitos ficavam de fora da partilha. Estes ele evitava mudando de calçada e de ruas. E me dizia enquanto caminhávamos: "Seu Paulo, vamos desviar por aqui. Ali naquela rua tem um cara que me deve um bocado. E eu não quero receber de jeito nenhum!" .Saudade. Muita saudade, Lima Limão.