Por sempre me faltar l'argent jamais tive uma garçoniére ou mesmo um pied-à-terre. Nunca fui habituée de rendez-vous - no sentido usado no Brasil, bien sûr - em compensação frequentei muuuito o boudoir de uma madame altamente distinta. Enquanto eu, eterno cafona, envergava na cintura uma pochette, ela - très chic - ia de nécessaire blanc, evocação ao Aldir, e um manteau estilão pied-de-poule, do Dior. Para meu gáudio, essa femme fatale nunca usava soutien, ficando très jolie de lingerie, e assaz coquette em uma négligée preta e em um peignoir transparentemente revelador que era de matar le diable. Mas o que ela curtia mesmo era ficar au naturel para um tête-à-tête amoroso à luz difusa do abat-jour lilás. Ulalá! A frase que dela mais eu escutava era "Voulez-vous coucher avec moi ce soir?" Eu sempre dizia "oui, oui, oui" sem falar uma palavra, de um modo que nem Marcel Marceau faria melhor. Ela, um azougue, sempre organizava uns soirées na base do petit-comité, onde eu era o piéce de résistance, que não sou fraco, não. E a danadinha sempre convidava uma certa mademoiselle muito cheia de predicados, une belle salope que fazia miché e - noblesse oblige - com um belíssimo derrriére de se comer rezando, sendo que a talzinha era uma mistura de uma jovem Catherine Les parapluies de Cherbourg Deneuve com a Isabelle Adjani, e dona de um menu sexual ricamente sortido, sendo ela apetrechada de libidinagens que du coup me transformavam em um Marquês de Sade afro-baiano e vai daí nas partouzes mais vertiginosas baiser e jouir era comigo mesmo. Sacré bleu!, mas que pas de deux, que nada!, a gente se enroscava num ménage à trois alucinante - que eu não sou de ficar só nessa de voyeur - e lá vinham elas com miríades de bouquettes e eu com um verdadeiro pot-pourri de safadezas para atender a ambas, a todo instante solicitando meus proverbiais faire minettes. Franchement, se alguma coisa tenho nesta vida é savoir - faire em sacanagens de alcova e variadas cochonneries e aí tome-lhe entrée e reentrée, entrée e reentrée, entrée e reentrée, a meio seus gritos e sussurros, e eu naquele doce déjà vu só vendo la vie en rose. Vive la différence! Insaciáveis elas vinham prá cima de moi, e eu, sendo o crème de la crème, não deixava barato e fazia minha parte comme il faut. E bota comme il faut nisto. Et alors, mes enfants, c'est fini. Ao som de La Marseillaise em ritmo de samba de roda da Bahia, maintenant eu digo au revoir, mon roi!
(030214)