30 dezembro 2016

Ano Novo, Brasil, trevas e claridade.

Onde anda Dona Esperança, alguém sabe, alguém viu? Eis que o ano de 2016 vai se encerrando e abrindo caminho para seu sucessor, 2017. A menos que um decreto ou mais uma das manobras espúrias do congresso nacional ou do senado altere a ordem natural das coisas, o que não é de se duvidar dado tantos e tantos descalabros que já vimos acontecer nesse ano tão aziago, tão infausto para nossa democracia e para nossas vidas pessoais, para o país, ano esse que ora vai terminando. Se permitirem, repito, se permitirem, pois podem decidir estender um pouco mais esses dias tão recheados de desmedidos absurdos e ignomínias inomináveis, justamente para que eles sigam acontecendo, enchendo de júbilo uma minoria para a qual a coisa é boa assim dessa maneira, não se importando se a grande maioria sofre duros revezes que vão enchendo os dias vindouros de temores, incertezas, maus presságios, que só os absolutamente alienados não conseguem vislumbrar. Um ano em que Dona Esperança levou um trompaço, caiu de mau jeito e está custando a se levantar. Amados e idolatrados leitores, já que esse negócio de começar um Ano Novo com sentimentos negativos, desesperança e falta de horizontes não é nem um pinguinho bom, nós próprios, com nossas atitudes e iniciativas, temos que nos ajudar e ajudar Dona Esperança a se reerguer e seguir caminhando ao nosso lado em 2017. Para essa tarefa contamos com o auxílio luxuoso dos versos e da melodia de Juízo Final, metafísica composição de Élcio Soares e Nelson Cavaquinho, ouro puro, verdadeiro tesouro em que reluz a frase "o amor será eterno novamente". Eterno...novamente?! Uau! Pois, para nosso gáudio, Clara Nunes, com toda sua intensa claridade, um dia gravou tal tesouro. Ao ouvir essa música, esse canto, não há Dona Esperança que não se recomponha. 

28 dezembro 2016

Ademar Gomes, jornalista e escritor: um Machado de Assis com muita pimenta

 Ser amigo de Ademar Gomes nem sempre era tarefa fácil. Suas alternâncias de humor, suas explosões de indignação e de raiva, seus esgares na face exangue, seus olhos faiscantes surgindo por trás da fumaça de seus puros requeriam paciência digna de monge budista. Em se tratando de inter-relações pessoais Ademar não era exatamente uma grata unanimidade. Professor Bandeira - seu apelido e alter ego - tinha curtíssimo pavio e não primava pelo uso de eufemismos e antífrases quando queria dizer aos outros o que deles pensava. Assim sendo, angariou ao longo da vida um considerável número de desafetos que, à socapa, apodavam-no picareta. Nada mais injusto. Bandeira era um bravo batalhador que sobrevivia com seus escritos. Dos anúncios de seu jornal, o JC, e dos seus livros, ganhava lícita e dignamente o croissant de cada dia e jamais se envolvia em cambalachos, maracutaias, fraudes ou falcatruas que pudessem prejudicar quem quer que fosse. Sua história pessoal daria um rico roteiro cinematográfico. Sendo de baixa extração, tornou-se - qual um Machado de Assis redivivo - um homem de invejável cultura. Boa parte a devia ao escritor Ariovaldo Matos, com quem muito conviveu, e ao respeitado cronista Sylvio "Resistir Quem Há-De" Lamenha, professor e intelectual, uma espécie de mentor de Ademar. Professor Bandeira - ou ainda Zé do Grilo, outro alter ego seu - tinha verve rara e quando as coisas para ele navegavam em mar de almirante, era agradavelmente gárrulo e todos em volta ficavam embevecidos com sua rara dialética e sua retórica entremeada de inspiradas boutades. Conhecia em detalhes a vida, a trajetória de cada político, de cada empresário, de cada figura desta terra. Sabia-lhes o lícito e o ilícito, os golpes perpetrados, as insídias, os adultérios, as tramoias. Um dia meu filho se aproxima de mim com um jornal aberto na página dos obituários, nela o nome do amigo tão fraterno. Abraçamo-nos em pranto convulso. Nutríamos por Ademar um imenso afeto que descobri maior quando ele se foi desta vida. Hoje, sua ausência traz uma constante e indefinível sensação de vazio, uma dor que lancina, análoga a que sinto pela perda precoce de irmãos meus em Sampa. E fica a certeza de que quando alguém que amamos se vai, uma parte da gente segue junto e nunca mais somos completos. Poderia dizer a este tão amado amigo "descanse em paz, Ademar". Mas esta não é a frase adequada para se usar com Professor Bandeira que, agorinha mesmo, Romeo Y Julieta no bico, inexoravelmente está promovendo formidáveis esporros entre as nuvens do céu, questionando São Pedro, enquadrando anjos, arcanjos e querubins, exigindo falar com o Criador em pessoa para reclamar da música, do serviço celestial, do desafinado coral de anjinhos. E o Paraíso nunca mais será o mesmo. Bote pra F, querido irmão!
(23/11/10)

23 dezembro 2016

Mortinha, o Queijinho de Minas, e a Velha Jovem Guarda


Vinda da terra do heróico Tiradentes, a cantante Mortinha era carinhosamente epitetada de O queijinho de Minas. Este cognome a um só tempo singelo e carinhoso, fazia menção às origens mineiras da guapa moçoila e rendeu uma grande polêmica, tudo porque sabido era que Mortinha, O queijinho de Minas, costumava pisar nos palcos para cantar usando generosas minissaias que, se não chegavam a deixar à mostra o triângulo mineiro dela, ao menos revelavam um mui bem torneado, invejável e cobiçável par de coxas, sendo que era dessa capitosa forma que ela se apresentava no programa "É uma brasa, mora!", do qual o Rei da Jovem Guarda, Roberto Calos, era o apresentador nas jovens tarde de domingo. E a alardeada polêmica teria surgido do fato de que RC nunca escondeu de ninguém - e até propagava aos quatro ventos - que adorava degustar com avidez todos os tipos de laticínios imagináveis oriundos de Minas Gerais, regalando-se com tais delícias e ainda lambendo os seus reais beiços cantantes.
(100512)

18 dezembro 2016

As Histórias em Quadrinhos, o diabo contra o Brasil

Tempos houve em que as Histórias em Quadrinhos aqui neste Patropi eram consideradas coisas do demo, do canhoto ou seja lá que nome dêem ao anjo dissidente das hordes celestiais. Você, amável e atilado leitor, que no conforto do seu sacrossanto lar gosta de ler bem editados álbuns de luxo de HQ que hoje circulam em toda parte com pompa e circustância, ficará um tanto cético diante de tal afirmação, mas ela é a pura expressão da verdade, por mais absurda que lhe possa parecer. Em meados de 1930 o empresário Adolfo Aizen, através do Suplemento Juvenil, lançou as HQs aqui no Brasil. Quer dizer, esta é a versão corrente, embora haja os que afirmem que antes dele já havia pubicações pioneiras de quadrinhos por aqui. O fato é que Aizen lançou com grande repercussão, em larga escala, de maneira maciça e por isso é considerado o grande marco dos quadrinhos no Brasil. Entre os leitores e os quadrinhos houve uma paixão instantânea e fulminante que se fortaleceu à medida em que o tempo foi passando. Mas gente que se crê dona da verdade e se autoentitula defensora legítima da moral e dos bons costumes não é uma sandice dos tempos atuais, sempre existiu. Infiltradas nos órgãos oficiais, nos gabinetes acabaram por desenvolver verdadeiras campanhas onde a tônica era o mais improcedente preconceito e buscaram fazer uma lavagem cerebral por atacado afirmando que as revistas de HQs, os conhecidos Gibis, eram um inimigo natural dos livros didáticos, um adversário maléfico, um feroz antagonista das consagradas obras dos bons escritores, que destarte eram um inimigo do próprio Brasil e do povo brasileiro e um monte de sandices congêneres. Difícil de acreditar em algo assim, não é? Pois coisas até piores que isso foram ditas, escritas, impressas e circularam entre nós. Afirmavam, em cartazes e por outros meios, que a criança que lia quadrinhos inexoravelmente haveria de se tornar um malfeitor que empunharia armas contra as pessoas ditas normais. Valei-me meu São Stanislaw! Esta autêntica Idade das Trevas das comunicações graças aos céus parece ter chegado ao fim e hoje os quadrinhos circulam nos mais salutares ambientes com as devidas alvíssaras e são comercializados em versões bem cuidadas, até luxuosas, em livrarias conceituadas, sendo largamente empregados em campanhas governamentais, seja na área de saúde ou outra qualquer, onde se faça necessária uma forma de comunicação rápida e de alcance de todas as camadas. E, glória das glórias, hoje são utilizados amiúde em parcerias com os livros didáticos que assim levam ao povo, com o auxílio luxuoso das HQs, o doce sabor do Saber. Os quadrinhistas brasileiros, comovidos, agradecem, não é mesmo Bira Dantas e Cedraz?
(publicado originalmente em 21 de março de 2014)

Sérgio Rês, o Moço do Coração de Pastel, e a Velha Jovem Guarda

Todos sabemos que hoje em dia Sérgio Rês é um consagrado cantor mas que é também um criador de gado e um dos mais abastados fazendeiros deste país. No entanto, no começo de sua carreira bovino-musical teve que comer o pastel que o diabo amassou. Ou melhor, teve que se virar vendendo pastel nas feiras livres para ganhar algum tutu. Até que Rês levava uma certa vantagem pois sendo muito alto sobressaía-se na multidão com seu tabuleiro na cabeça e isto auxiliava no sucesso da vendagem. O imaginativo cantante ainda por cima criou um jingle para seu produto que dizia "Se você pensa que meu coração é um pastel, não vá mordendo, pois não é!" Um cliente seu, que era dono de uma gravadora, gostou do que ouviu e contratou Sérgio Reis para seu cast. O resultado foi o que todos já sabemos: o sucesso chegou trazendo muito dinheiro, o cara virou dono de muito gado e político cheio da grana. Gosta muitíssimo da política e de seus rebanhos e tanto gosta que, como político, parece não enxergar muita diferença entre gado e gente. Atualmente Sérgio Reis ainda gosta de saborear um bom pastel. Desde, que fique bem claro, que o recheio esteja à altura de seu atual status, o que significa que o dito recheio tem que ser de lagosta, faisão ou caviar Beluga de ovas advindas das gélidas águas do Volga ou mesmo as do Esturjão Siberiano do Lago Baukar, trazidas do distante Tutuquistão do Norte.
(100512)

Quem é quem na Velha Jovem Guarda

Recordar é viver, já dizia Lázaro que, depois de ter estado morto, bem morto, duro, teso e esticadão voltou à vida, levantou e andou por artes e ordens expressas de um nazareno conhecido por JC, um cara quase tão famoso quanto os Beatles e que não brincava em serviço quando o papo era fazer milagres. Então recordemos, pois. Deixe que sua memória o leve de volta aos cultuados anos 60s, década em que surgiu um movimento musical e comportamental batizado de Jovem Guarda. Se você ainda não havia nascido naquela época, não tem problema. É só você recordar-se do que já viu em algum especial televisivo sobre aqueles tempos de tanto glamour em que jovens e talentosos cantores surgiram cheios de inovações para ocupar o lugar dos cantantes medalhões na cena brasileira. E nunca mais saíram dela, tornando-se os medalhões da vez e vai daí que também tiveram que ceder os holofotes aos novos talentos e sumiram dos palcos e TVs. Como estarão eles agora? - indagará sua atilada pessoa. Pois saiba que, aproveitando as ondas de revival, eles continuam muito bem tocando suas guitarras, cantando e rebolando. Quer dizer, rebolando nem tanto pois nem sempre as dores articulares características na idade atual permitem. Mister se faz este singelo e saudosístico preâmbulo para anunciar que as postagens porvindouras justificarão o título e mostrarão... Quem é quem na Velha Jovem Guarda.
(100512)

17 dezembro 2016

Humor de graça / Vigário e vigarista

(200212)

Paulo Paiva, Suely Furukawa, vida, mistérios e os mais sinceros votos de um Feliz Ano Novo!

Imenso e indecifrável é o mistério que cerca nossas humanas existências. Por culpa da Dona Cegonha e seu longo bico, ou pela existência do tal conceito de continuação da espécie ou, quem sabe, por sermos mera e simplesmente parte integrante do chamado reino animal, estando portanto sujeitos a atitudes em que a racionalidade é posta de lado e o instinto prevalece, ou quiçá seja mesmo por obra de um Grande Arquiteto, um Supremo Criador, sei lá, o fato é que a gente, sem saber como e nem porquê, é colocado nesse mundo grande e desprovido de porteira, sem panos a cobrir nossas vergonhas e aqui chegando somos recebidos com um doloroso tapa no bumbum dado por um sacripanta embuçado atrás de uma máscara branca. E neste planeta estando, vem a vida, o fado, le destin, the fate, a sina, o destino e a todo instante nos convida a dançar, seja uma lúdica cantiga de roda, um saltitante samba de breque, um instigante rock'n roll, um delirante axé, um sensualíssimo tango e mesmo a indesejável Marcha Fúnebre, valha-me Deus!, Alá nos proteja!, Maomé, Jeová, Buda, Jah, Olorum e Tupã olhem por nós e nos cubram com protetora égide! Não é preciso ser um Nietzsche, um Schopenhauer para tirar da existência tais ilações. À medida que vamos vivendo vamos recebendo nossos quinhões de pequenas ou grandes dores, perdas e frustrações e de inesperadas e inexplicáveis alegrias que nosso peito por vezes parece não saber comportar. Incontáveis vezes a vida nos dói, mas somos a velha raça humana e sendo assim e assim sendo, Esperança é nosso sobrenome. Escrevo essas prosaicas divagações movido pelo fato de que acabo de receber uma mensagem pelo Facebook que me pegou de surpresa, me alegrou e me trouxe intensa emoção. Quem a escreveu foi meu amigo de longa data, o cartunista Paulo Paiva, marido de Suely Hiromi Furukawa, editora, colorista, redatora, enfermeira, amiga, esposa, mãe, avó. Pelos mistérios que nossas existências encerram, Paulo Paiva sofreu há alguns anos um severo AVC. Mas mistérios outros determinaram que Paulo não morreria nos privando de sua agradável presença, de sua alegria, seu humor, de sua privilegiada criatividade. E o apoio da esposa, Suely, da filha Paulinha e agora também de Eric, seu amado neto, ainda um bebê, são fundamentais para Paiva driblar as dificuldades inerentes ao AVC. Confesso que fiquei com os olhos marejados ao ler e reler a mensagem que contém um desenho saído da cuca e das mãos do Paiva que mostra uma criança representando o Ano Novo a nos desejar com um largo sorriso, pleno do mais lídimo sentimento de esperança e de fé, um grande, um muito bom ano novo para todos. Foi fácil decidir que mais uma vez vou me valer do contagiante e elevadíssimo astral de Paulo Paiva e de Suely para estender e desejar a todos os que curtem e acompanham este meu bloguito um graaaaande, um redentor, um felicíssimo, um benfazejo e profícuo Ano Novo. Um 2017 bom demais para todos nós, galera!!
(Publicado originalmente no dia 30/12/14)

Um desenho de Paulo Paiva com direito a Happy New Year

Paulo Paiva, meu cartunista de estimação, como é do seu consuetudinário proceder, produz assaz criativos desenhos a todo vapor nos finais de ano. Guardo um deles com especial carinho, que é este aí em cima postado, que me enviou minha chapinha Suely Hiromi Furukawa em que ela própria aparece ao lado de PP e da amada filha deles, Paulinha, vestida com sua vistosa farda de moça-da-lei. Você vê na ilustração um dos gatos da família, mas não vê o Eric, filho de Paulinha, neto de Suely e Paulo Paiva, porque essa postagem é um remake de uma que aqui postei há alguns anos, quando Eric ainda não havia chegado para alegrar um pouco mais esse planeta azulzinho. Sucede que de tanto gostar desta mensagem enviado pela família Paiva-Furukawa, costumo repetir a postagem em natalinas épocas. Também pudera, o desenho de Pepê mostra sua família, que é uma família bem bonita e bem brasileira, que pretendo crer que há de bem simbolizar e adequadamente representar todas as outras deste patropi abençoá po Dê e boni po naturê, como diz e canta o velho e sempre bom Babulina. Paulo Paiva é um cara de astral elevadíssimo e a temática do desenho trata de sinceros votos de um Natal feliz e um Ano Novo massa, que é exatamente o que eu desejo aos amigos e aos meus fiéis e caríssimos leitores que leem este meu bloguito, e é justamente por isso que vou reincidentemente grilando, usurpando o desenho, me apossando mui semcerimoniosamente, remakando uma vez mais, pegando carona no ótimo astral dessa família de meu nobre amigo e editor e aqui postando para que todos que visitem este espaço possam ler e receber bons fluidos e se sentirem em estado de graça.
(Publicado originalmente em 20/12/13)

11 dezembro 2016

A verdadeira origem dos Doces Bárbaros

Corria o ano de 1976 e Santo Amaro da Purificação vivia dias de um regozijo sem precedentes em sua história. Tudo porque Dona Canô, líder natural da comunidade e quitueira de invulgares dotes e assaz justificado prestígio, decidira que seus mui deliciosos acepipes, dantes restritos às privilegiadas papilas gustativas de seus familiares e uns poucos agregados, iriam ser postos à venda para todo o povo santoamarense. Tudo movido pelo nobre objetivo de angariar fundos para viabilizar a festa anual ao santo padroeiro da simpática urbe. Sendo a venerável matriarca dos Vellosos, Dona Canô contou com a consuetudinária participação de todos da família. Mesmo os mais novos como o ainda glabro Caêzinho e sua mana Beta, Beta, Bethâninha, ambos de prendas canoras aclamadas nas tertúlias do clã. A dupla chamou seus amiguinhos Gilzinho e Galzinha que incontinentemente aceitaram o convite. Unindo talento artístico com tino comercial o quarteto criou - e apresentava na praça - um show de canto e dança de fazer Michael Jackson babar de inveja. Tudo para ajudar na vendagem feita por nobres motivos. E com tal fim bolaram um jingle em que preconizavam ainda mais as virtudes e a já reconhecida suprema qualidade dos doces canônianos, os quais batizaram de Doces Bárbaros, usando um neologismo da época. Sucesso total! Multidões acorriam à praça e as vendas aconteciam aos borbotões. Com a renda arrecadada a igreja fez a mais linda festa ao santo padroeiro que como reconhecimento retribuiu aos habitantes com mais que farta distribuição de graças. Uma delas foi fazer com que entre o público admirador dos meninos estivesse, de passagem por Santo Amaro, um influente empresário do ramo musical que viu logo que em futuro mui breve eles se tornariam grandes estrelas da MPB. E não pestanejou: contratou, célere, toda a trupe que levou para Sampa. Lá montou o show Doces Bárbaros, aquele mesmíssimo criado pelos precoces infantes para vender as canônianas delícias em modesta ágora santamarense. O sucesso foi estrondoso como previsto e hoje os Doces Bárbaros são conhecidos e reverenciados em todo o planeta graças, sobretudo, às habilidades culinárias e ao axé de Dona Canô, a mui amada matriarca.
(10/08/13)

05 dezembro 2016

Juazeiro, Petrolina e Ilha do Fogo: lá 1964 ainda não acabou

Redigo: a Ilha do Fogo é  um patrimônio legítimo e indissociável do povo, do amável e ordeiro povo brasileiro que habita as vizinhas cidades de Juazeiro, Bahia, e Petrolina, Pernambuco. Bem entre estas urbes, situa-se essa bucólica ínsula fluvial, dividindo ao meio naquele trecho, o histórico e lendário Rio São Francisco. Por quase meio século pescadores e habitantes da região transitaram por suas areias. Eis que então militares pernambucanos botaram enormes e cobiçosos olhos sobre a ilha e decidiram usurpá-las, arrancando das mãos dos pacíficos moradores sob o descabido pretexto de que ali é ponto estratégico, vital para a segurança desse país varonil de Gugu e Clodovil. Pois tais militares, conhecedores da questionável máxima que por aqui impera de que "decisão judicial não se discute, se cumpre", foram a um juiz simpático aos castrenses. Longe vai o tempo em que os brasileiros enxergavam um juiz como um monumento da idoneidade e da imparcialidade, um oceano da integridade moral. Os próprios juízes, fazendo o que muitos, de forma escancaradamente absurda, vêm fazendo, trataram de eliminar em nós outros quaisquer resquícios de crença e de confiabilidade. Sendo assim e assim sendo, procurado pelos militares, o tal juiz foi mostrando logo que sua toga era verde que te quero verde...oliva, foi tratando, célere, de dar parecer legal às pretensões dos militares e autorizando a posse e ocupação da Ilha do Fogo pelos fardados. Tudo feito sem uma prévia consulta popular, sem que as comunidades pudessem ter voz e vez para se manifestar democraticamente, bem ao estilo dos anos de chumbo. Nenhum plebiscito, nenhum referendo popular. Puro arbítrio travestido de legalidade. Um ato bem ao feitio dos negros tempos do nada saudoso regime militar que, iniciado em 1964, golpeou nossa gente por mais de 20 anos e que saudosistas do fascismo insistem em trazer de volta. Lamentável, lamentável. O Rio São Francisco é extenso. A caatinga é vasta. Nas terras do sem fim sanfranciscanas é de notório conhecimento que gentes inescrupulosas mantém plantações de  maconha que geram toneladas da erva-do-capeta que abastecem o mercado das drogas. Por ali, sim, seria de grande utilidade instalação de um batalhão de militares bem armados e preparados. Mas todos sabemos que além de traficantes, jagunços e pistoleiros armados, por ali há cobras, onças, mosquitos e sabe-se lá mais o quê. Ao contrário de todo este inferno, a Ilha do Fogo é lugar mais que aprazível, fica perto da casa dos militares, das suas amadas famílias, de shoppings, do aeroporto e dos bons restaurantes que servem a melhor carne de bode deste orbe. Por tudo isso, certamente a finada apresentadora Hebe Camargo diria que os militares pernambucanos envolvidos nesta questão são uma gracinha. Mas da Ilha do Fogo não arredam de jeito nenhum mesmo diante da justíssima pressão popular. Diante dela estão falando em conceder à população o acesso à Ilha do Fogo nos domingos e feriados, como uma reles espórtula. Quanto ao povo...ora, o povo que vá reclamar ao Papa. Menos mal que o atual Sumo Pontífice sempre mostrou não gostar de injustiças praticadas contra as camadas mais populares e, por providencial coincidência, ele também se chama Chico, um xará do Rio São Francisco, o Velho Chico.
(200913)

01 dezembro 2016

Gonzalo Cárcamo, um caricaturista mais que ingrato / Pintando o Set 2

Até onde vai a sordidez humana? A que níveis rasteiros e mesquinhos podemos descer? Quão baixo, torpe e vil pode chegar a ser o homem, senhoras e senhores? Vocês são testemunhas do meu proverbial esforço para neste blog louvar as pretensas virtudes do caricaturista e do homem Gonzalo Cárcamo. Cordato, ilustrei a postagem com uma caricatura assaz singela e melíflua do referido cidadão. Coisa que qualquer genitora haveria de guardar orgulhosa em seu mais íntimo relicário. E ele me pagou com igual moeda? Nada disso! Avaliem esta caricatura da minha magnânima e irreprochável pessoa em que o supracitado Cárcamo desrespeita minha condição de caricaturista espada e matador e zomba da minha proverbial virilidade. Só uma mente malévola poderia conceber semelhante opróbrio, algo tão repulsivamente ignóbil. É, caríssimos leitores, assim caminha a humanidade. Vejam, meus caros confrades Paulo Caruso, Biratan Porto, Loredano e JBosco, o que tenho de suportar de forma estóica para não pegar em armas. Ah!, bons tempos aqueles retaliativos em que vigoravam as ações do CCC (Comando dos Caricaturistas Caricaturados).
(10/05/2012)

Mulher de Sagitário no Horóscopo de Vinicius de Moraes

As mulheres sagitarianas
São abnegadas e bacanas
Mas não lhe venham com grossuras
Nem injustiças ou censuras
Porque ela custa mas se esquenta
E pode ser muito violenta.
Aí, o homem que se cuide...
-Também, quem gosta de censura!
(121114)

30 novembro 2016

Roberto Ferri, pintor italiano: um pouquinho mais de sua arte instigante.

Em postagem anterior brindei você, meu cordialíssimo e sapientíssimo leitor, com uns belíssimos trabalhos de um pintor italiano ainda jovem mas extremamente habilidoso no manejo dos pincéis e tintas que segue uma linha clássica de pintura. O nome do ragazzo é Roberto Ferri, um cara veramente meraviglioso. A galera que acompanha este troppo piccolo blog curtiu muito os instigantes trabalhos do itálico pintante. Adesso volto a carga com mais uma dose do talento do signore Ferri para degustação geral da nação. Links até o trabalho de Ferri: http://www.robertoferri.net/ e http://robertoferripittore.blogspot.com/ . Auguri.
(121214)

29 novembro 2016

Roberto Ferri, fabuloso artista plástico da Itália na atualidade.

Da Vinci, Michelangelo, Giotto, Rafael, Caravaggio, Veronese, Ticiano, Modigliani. A Itália sempre brindou o mundo com pintores magníficos e com deslumbrantes escolas de pintura ao longo da História da humanidade. Uma bela tradição que se mantém até os dias atuais, basta ver as pinturas feitas pelo talentosíssimo italiano Roberto Ferri, artista que maneja com maestria pincéis e tintas, mostrando ter a habilidade natural dos grandes, dos maravilhosos Mestres da pintura italiana. Sim, a Itália é pátria dos diversos gênios da pintura acima citados e pelo jeito esta história de DNA faz toda a diferença, pois fácil é concluirmos que Ferri traz no sangue um talento atávico vindo de um dos seus compatriotas, Mestres reverenciados em todo o planeta. Para você que gosta de arte feita com talento vale a pena visitar o site e o blog de Roberto: http://www.robertoferri.net/
e http://robertoferripittore.blogspot.com/  
(101014)

27 novembro 2016

O cartunista Simanca, Fidel Castro, Cuba e Bahia


 É do bravo comandante Fidel Castro o olhar nostálgico que perlustra o mar caribenho nesta tépida noite de estio em que intenso plenilúnio ilumina toda esta Baía dos Porcos. Doces reminiscências povoam a mente de El Comandante certamente evocando pelejas vitoriosas contra esbirros enviados pelos porcos imperialistas ianques em pretérito não muito distante aqui neste mesmo cenário. Aboletado sobre uma pedra, Castro abre uma caixa de madeira onde guarda um tesouro: seus puros cubanos. Retira um, acende e saboreia cada baforada demonstrando um inebriante prazer. Neste momento entra em cena um outro personagem, o jovem cartunista cubano Osmani Simanca, ainda um novel, que por ali vai passando. O dibujante saúda Fidel e solicita dele um dos charutos para poder desfrutar também daquele prazeiroso momento. Com chispas nos olhos e mão no gatilho o guerrilheiro vocifera: "Que puerra es esta, pendejo?! Querendo hacer socialismo moreno con mis puritos?! Sarta fuera, bundón!!" O jovem Simanca, assustado, balbucia em solilóquio: "Hay que adolescer, péro sin perder mi gostosura!" Aí, para preservar sua vida que ainda adolescia, tratou de ir saindo de fininho praguejando em voz baixa contra todos os socialistas insulares e seu barbudo líder. Temeroso de uma retaliación nel paredón, tratou de se picar da ilha embarcando em uma lancha que fazia a linha Havana - Isla de Itaparica. De lá pegou um ferry-boat para Soterópolis. Aqui chegando, tratou de invadir a redação do jornal A Tarde armado de lápis, pena e pincel, preconizando que chegara o momento de se fazer uma revolução gráfica. Passou-se já um bom tempo e ainda assim Simanca deixa evidente em suas charges feitas para o periódico baiano que não perdoou Castro até hoje hoje pelo episódio ocorrido entre ambos naquela noite na Baía dos Porcos. Não quer nem saber se Fidel, por ordens médicas, já não fuma mais seus puros e, já provecto, passou o poder em Cuba para o hermano, Raúl. Isso nada animou Simanca a retornar para a isla que é dele tanto quanto de Célia Cruz, Bola de Nieve, La Lupe, Perez Prado e do Buena Vista Social Club. Vivendo na Bahia todo este tempo, abaianou-se de tal forma que já não quer mais saber de beber mojito en La Bodeguita, prefere entornar umas caipirinhas no Mercado das Sete Portas. E já não dança salsas nem rumbas, só quer saber mesmo é de quebrar em sambões. Tornou-se mestre de capoeira, não perde um Ba-Vi e já está providenciando mudar seu nome para Osmani Caymmi Amado Rocha Ubaldo Veloso Gil Simanca.
  Para ver mais trabalhos de Simanca, clique no link: http://simancablog.blogspot.com/  
(24/10/13)

25 novembro 2016

Paulo Paiva, Mestre Shaolindo / Pintando o Set 6

Talento e competência são virtudes que nunca faltaram ao Paulo Paiva em sua longa trajetória no universo editorial dos quadrinhos e dos cartuns onde sempre foi respeitado qual um sábio Mestre Shaolin por todos nós, seus gafanhotíssimos discípulos. But nobody is perfect - como diria Bill Shakespeare - e Paiva não deixa de ter seu lote de pecadilhos. Por exemplo, morando há tanto tempo em Sampa insiste em não ser torcedor do glorioso e retumbante Corinthians, o Campeão dos Campeões eternamente dentro dos nossos corações. Imperdoável. Mas a coisa não para por aí, tem mais, tem mais: Pepê foi sempre um temido criador de abomináveis trocadilhos infames, um martírio para meus refinados pavilhões auriculares de scholar, pessoa com elevada sapiência e dotado de raro refinamento cultural. O mundo deu giros e giros, o tempo passou para todos e muitos que eram aloprados adolescentes amadureceram e hoje são circunspectos senhores. Paiva, no entanto, parece insistir em se perpetuar na adolescência vez que esse sujeito não honra suas cãs, insistindo em ser um cara muitíssimo abusado e forgado o que me deixa assaz indignado. Volta e meia esse sacripanta faz uns desenhos e contando com a cumplicidade de Suely Hiromi Furukawa - um mix de esposa, enfermeira e comparsa - me envia pela Net umas caricaturas da minha intocabilíssima pessoa, coisa que bastante incomoda meu justificadamente inflado ego e que muito me exaspera. Qualé, Pepê? Perdeu a noção do perigo, cara?! Você e Suely em um pretérito dia passaram a lua-de-mel aqui nessa afro-terra chamada Bahia e sua pessoa sabe bem que os legendários Mestres Bimba e Pastinha me ensinaram in persona as artes e as astúcias da capoeira, que sob minha aparência dócil e meu jeito humanitário e pacifista oculta-se um beligerante capoeirista cordão branco, inclemente para com desafetos e desavisados que atravessam meu nobilíssimo caminho. Se liga, meu rei!
PS: Fiéis e preclaros leitores, errar é o Mano (Menezes) e eu errei gravemente. Pepê pode ter todos os defeitos contidos no cardápio da raça humana, mas o imperdoável deslize de não ser corintiano, ele não tem. Pepê é, sim, e com todo orgulho, um fiel torcedor do Todo Poderoso Timão e, portanto, um Bi-Campeão do Mundo tanto quanto o sou. Contrito, peço perdão ao Pepê por tão grave crime de lesa-majestade-torcedor que cometi de forma infame e assaz abjeta devido à minha infalível memória que ultimamente anda falhando muitíssimo. Meus mais humildes pedidos de perdão ao nobre, ao magistral, ao perfulgente Mestre cartunístico e quadrinhístico.
(20/03/13)

22 novembro 2016

Riachão, o samba da Bahia na primeira pessoa do singular

O samba feito na Bahia tem cara, corpo, jeito, elegância, doce malícia, muita ginga e sabedoria ancestral. Tudo isto concentrado numa só figura, aliás, uma figuraça, um menino chamado Riachão, nascido em 14 de novembro de 1921, que completou há uma semana 95 aninhos de existência, bem vividos em rodas de samba nas noites da Bahia. Com muito samba, naturalmente, principalmente os de autoria do próprio Riachão, compositor considerado um inspirado cronista do cotidiano pelas suas letras que reproduzem a realidade com um viés bem popular. Esse seu estilo pessoal de compor mereceu gravações de personalidades como Jackson do Pandeiro, Caetano Veloso e Gilberto Gil e de muita gente boa mais. Um dia, a cantora Cássia Eller, encantada com o balanço, a ginga, a malemolência, a criatividade e a contagiante alegria de Riachão, gravou sua composição "Vai morar com o diabo", em que ele relata suas agruras por viver ao lado de uma mulher que não quer nada com o batente e ainda exige luxo. A exemplo do que acontecera com a gravação de Caetano de Cada macaco no seu galho, a deliciosa versão de Cássia Eller para a música de Riachão deu intensa visibilidade a um dos sucessos deste sambista baiano tão amado que sempre desfilou pela vida com seu charme singular, sua alegria retumbante, seu brilho intenso. Riachão, o samba na primeira pessoa, o próprio povo da Bahia com toalha e muitas contas coloridas no pescoço, chaveiro pendurado na calça, anéis nos longos dedos negros, boné na cabeça, bigodinho estiloso, e com um riso gostoso nos exibindo sua galhardia e seu passos harmoniosos de sambista maior pelas ladeiras da afrobaianidade nagô. Riachão, rei do samba na terra em que o samba nasceu, como atestava o carioquíssimo poeta e compositor Vinicius de Moraes. Axé, Riachão, meu rei!

18 novembro 2016

Norman Rockwell / Uns caras que eu amo 3

Na Internet temos todos acesso a um incalculável número de belíssimas ilustrações digitais. Artistas realmente habilidosos produzem-nas com inegável competência e é sempre bom ver muitas delas porque são realmente magníficas, deliciosas. Mas uma ideia me ocorre sempre: Norman Rockwell era um artista fantástico que fazia tudo isso que fazem os grandes ilustradores de agora, mas fazia sem utilizar computador algum. Não usava nada além de prosaicos pincéis, tintas e telas. Para ele isto bastava para atingir a fama incontestável de gênio que a faz jus. Com uma vantagem sobre os atuais ilustradores e pintores: ele não se limitava a fazer reproduções perfeitas como muitos o fazem, ele ia muito, muito mais além, tendo uma capacidade de transmitir em minúcias, cenas do sonho americano, o tal american way of life, os anseios, alegrias, emoções de pequenos instantes da vida comum dos cidadãos aos quais dava uma dimensão sem precedentes. A paixão, o preconceito, as descobertas de infância e adolescência, a solidão, os temores, o amor materno e todos os demais amores, a ansiedade, a angústia, a maledicência, a solidariedade, o preconceito mais indizível, a comoção, as certezas, as esperanças. Tudo isto e muito mais traduzindo como ninguém o sentimento do americano médio, do pobre, do rico e da raça humana como um todo. Mostrava ele um olhar atento ao seu tempo, à vida como um todo. Sem jamais esquecer apaixonantes pitadas de humor e a mais refinada ironia. Fazer belos trabalhos gráficos muitos fazem e o computador em muito ajuda nisto. Mas ter o olhar atento e aguçado e ser tão talentoso quanto Norman Rockwell, bem... aí é outra história.
(040513)

16 novembro 2016

Jorge Amado, Zélia Gattai, Gustavo Tapioca e o imaginário popular.

Este lance de imaginário popular é curioso. Aqui no Brasil, quando ouvimos falar em D. Pedro I, nos lembramos de um belo e sorridente jovem, com nigérrimas suiças, feições e corpo capazes de suscitar vívido interesse feminino. Mas se falamos de seu filho, D. Pedro II, o que nos vem na mente é um senhor austero de longas e alvinitentes barbas, parecendo ser ele o progenitor e não o filho nesta história toda. É que fomos alimentados com as imagens que os livros fartamente nos oferecem. Quando ilustrei para Gustavo Tapioca seu belo livro de memórias, Meninos do Rio Vermelho, tive acesso a uma série de fotos pouco divulgadas pela imprensa mostrando Jorge Amado e sua amada Zélia. Muitas dessas fotos aliás, clicadas por ela própria, fotógrafa habilidosa. Fiquei pensando que com Jorge Amado acontece um lance parecido com o dos Pedros, pai e filho. Falamos no escritor e imediatamente nos vem à mente um octogenário de bigodes alvos, farta e branca cabeleira tremulando ao vento, camisas estampadas e boné. Então entre as ilustrações que fiz para o livro de Tapioca, resolvi fazer estas aí, aproveitando fotos que mostram Jorge e Zélia em momentos plenos de jovialidade, um casal feliz cujo amor recém se iniciara mas que é mais que visível em seus rostos sem as marcas do tempo. Destarte as pessoas poderão ter a alternativa de ver assim, belos, apaixonados e jovens Jorge Amado e Zélia Gattai que tanta coisa boa nos transmitiram com suas vidas e seus escritos. O e-mail para os interessados no livro é gustavo.tapioca@gmail.com .
(14/08/13)

15 novembro 2016

Cau Gomez, mineirim e baianim / Pintando o Set 8

Algumas pessoas são de fato muito espaçosas no trato para com minha virtuosíssima pessoa. Deve ser esse meu jeito lhano, cordato, cheio de bonomia, blandícia e veraz beatitude, inerentes a quem nasceu na cidade das romarias populares, ex-votos e milagres, Candeias, Bahia, como esse filho de Seu Setúbal e de Dona Celina. Para provar que o que digo não são apenas e tão somente meras words, words, words, vou logo contando que o hoje cultuado cartunista Cau Gomez era ainda um recém-chegado aqui nessa Soterópolis, capital da Bahia, e, mesmo assim, sem pedir licença, agindo com a maior sem-cerimônia, foi logo tascando em meu peito de remador esta carica que ele fez de mim. Ô, mineirim forgado! Com cara e alma de eterno menino, ao dar os seus primeiros passos aqui nessa afrocity, Cau Gomez tinha um olhar meio de esguelha, de mineirinho, a fala doce de mineirinho, o cabelo curtinho como o de um típico mineirinho pacato. Hoje, passados tantos anos vivendo na Bahia, Cau adotou um estiloso visual afro-baiano que lhe cai muitíssimo bem. E pelas ruas, vielas e ladeiras dessa Soterópolis, lá vai ele, malemolente como um genuíno baiano. Mas eu bem sei que por dentro o cara ainda continua mineiríssimo, que só ele. Por fora, um belo acarajé. Por dentro, puro pãozim de queijo, sô.
(26/05/11)

11 novembro 2016

O maior dos poetas menores / Setubardo, frente e verso.

Quando, na antiga Grécia,
Peripatéticos mestres
Iniciavam seus pupilos na poesia,
Não podiam sequer desconfiar
Que num futuro solar,
Um belo dia,
Em Candeias, cidade da Bahia,
O Poeta dos Poetas surgiria.
Quando os parnasianos versejavam
Faziam versos exatos, passo a passo,
Utilizando esquadro e compasso,
Medindo com régua suas rimas
Sem saber o que no Olimpo, lá em cima,
Minerva, deusa da Sabedoria,
Ligada na internet já sabia
Que em Candeias, Bahia,
O poeta Setubardo adviria.
Já fui chegando de olho bem aberto
E um esculápio tirado a esperto
Me deu uma palmada, pura covardia,
Só para ver se eu choraria.
Vê-se que tal pulha não me conhecia,
Isto é certo
Pois pra espanto de quem estava perto,
Ao invés de chorar, declamei uma poesia.
A primeira mamadeira a gente nunca esquece
E quando ela veio
Com indesejável recheio,
Bradei à minha genitora frase ferina:
"Qualé, Dona Celina?! 
Eu só quero papa fina:
Na minha mamadeira, 
Quero Drummond, Pessoa e Bandeira,
Dispensa essa vitamina de banana,
Me traga Baudelaire e Quintana."
Assim foi que eu cresci,
Muitos versos digeri.
Mastiguei e degluti
Do desjejum ao jantar
E na merenda escolar.
O meu almoço, seu moço,
Era todo dia
A mais concreta poesia.
Em Candeias, me iluminei
Em Santo Amaro da Purificação, me purifiquei
Em Salvador, me salvei.
Hoje eu sou Setubovski,
Sou Quintanúbal,
Sou Setusto dos Anjos.
Minha lira eu tanjo
E nessa vida maluca
Refresco minha cuca
Fazendo versos na raça
Que recito na praça
De qualquer cidade.
Contra a mediocridade
Dessa gente de mente vazia,
Poesia, poesia, poesia e poesia!
(010108)

10 novembro 2016

Da Suécia, Odd Nerdrum e sua pintura de mistérios

A beleza pode ter diversas formas. Depois de postar os belos trabalhos do caricaturista israelense Hanoch Piven, de elevadíssimo astral, publico estes do ótimo Odd Nerdrum, um mais que talentoso artista plástico nascido na Suécia, mesma terra do futebolista Zlatan Ibrahimovic, uma fera dos gramados. Nerdrum, também é uma fera, mas no campo das artes e ele nos brinda com uma pintura belíssima, ainda que extremamente soturna, plena de indecifráveis mistérios, deixando entrever, através de sua intensa força pictórica, um mar de sensualidade e um clima de evidente melancolia. Uma rara e invulgar beleza encerram seus trabalhos de pintura, não há como negá-lo. E o que é belo, vale a pena mostrar. Ah, en passant, é curioso dizer que, há um tempo, Odd Nerdrum foi condenado à cadeia, onde por dois anos vê ou viu ou verá o sol nascer quadrado, mesmo que na Suécia dias ensolarados não sejam lá coisas tão comuns assim. Sua condenação foi decorrente do fato do artista não pagar impostos sobre vendas de seus quadros no período de 1998 a 2000, cuja soma, em tão curto período, perfaz algo em torno da bagatela de...2 milhões de euros! Uau, o cara não é fraco, não! E eu, que só sei que nada sei, nem sequer havia ouvido falar no sujeito até descobri-lo na Internet. Santo apedeuta alienado, Batman!
(09/11/13)

J. Jorge Amado e o grande esparro d' umbu


"Nunca vi umbu ser tão grande!"
Esparro frutífero encontrável no livro de João Jorge Amado, Lá ele ( o esparro na Bahia ), do qual já falei aqui neste blog em publicação anterior. Trata-se de uma trabalho dedicado de pesquisa da cultura oral do povo da Bahia. Isso resultou em uma coletânea de esparros. Um esparro é uma espécie de pegadinha oral, feita com frases espirituosas, todas ocultando em si o mais malicioso duplo sentido, fartamente encontrado na boca do povão baiano que adora rir das próprias brincadeiras que faz, como um esparro bem sacana. O livro é um grande saque de J. Jorge Amado, verdadeiro ovo de Colombo, e eu me diverti de montão ao fazer as ilustrações. Se você ainda não leu, já está mais do que na hora. Para ser o feliz possuidor de um exemplar clique no link e contate o pessoal da Editora Publit Soluções Editoriais: http://www.publit.com.br
(30/08/13)

Voto e devoto / Humor de Graça

(10/09/12)

09 novembro 2016

Ronald Searle, cartunista: esse cara só sabia desenhar.

Ronald Searle sempre foi admirado, cultuado pelo seu talento raro. Tinha um traço pessoal, limpo, expressivo. E um humor refinadíssimo. Aos 91 anos foi-se deste mundo deixando órfãos um monte de fãs do cartum e de cartunistas talentosos de quem, aliás,  sempre foi ídolo. Devemos agradecer aos deuses das artes que ele, sempre profícuo em seu fazer artístico, pudesse ter tido o privilégio de viver uma vida tão extensa podendo produzir miríades de trabalhos maravilhosos para a delícia de nós, viventes. Vale a pena dar uma clicadinha neste link da Revista Piauí e conferir uma matéria sobre Searle que um dia, falando de si mesmo, disse que só sabia desenhar. Só isso. Assim como Pelé só sabia jogar bola.  http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-65/despedida-ronald-searle-1920-2011/eu-so-sei-desenhar
( 16/02/12 )

08 novembro 2016

Mestre Paulo Paiva recebendo o Troféu Angelo Agostini

O mês de janeiro de 2014 foi um mês inesquecível para os amantes das histórias em quadrinhos nesse Brasil brasileiro, mulato inzoneiro. Eis que, entre os premiados do HQMIX no citado ano, estava Paulo Paiva, o Pepê, um cara muitíssimo amado pelos profissionais da área, por tudo que ele fez pelos quadrinhos brasileiros, bem como pelos muitos desenhistas, argumentistas e por todos que militam nessa campo de tantos obstáculos, de tantas pedras, monólitos e pedregulhos pelo caminho. Pepê, além de ser um cartunista talentoso, sempre exerceu um fantástico trabalho como editor da área de cartuns e quadrinhos e faz jus ao título de Mestre que recebeu junto com seu troféu. Postei, no referido janeiro, as fotos e o texto abaixo celebrando esse notável acontecimento. Como se trata do Mestre Paulo Paiva, posto agora de novo, para relembrarmos juntos o que não é para ser esquecido, atilado leitor.
Paulo Paiva, mais lindão que nunca, cheio de fidalguia e elegância, com um boné estiloso, recebendo seu cobiçado Troféu Angelo Agostini hoje à tarde no Memorial da América Latina, em uma evento onde imperou o melhor dos climas, como se vê nesses registros fotográficos. Na foto de baixo, o casal Pepê e Suely posa para a posteridade com a amiga, Dra. Paula Annunciato, neurocirurgiã integrante da equipe do magnífico Dr. Wilson Luiz Sanvito, que operou e salvaguardou a vida de nosso estimado Pepê. Um acontecimento para ficar gravado na memória. Coladinha, toda feliz e orgulhosa, Suely Furukawa, competente editora e redatora, além de ser um mix de esposa, enfermeira, terapeuta e dedicado anjo-da-guarda desse que é o mais novo Mestre do Quadrinho Nacional, Paulo Paiva. Parabéns duplamente ao casal. Um dia chego lá, Pepê!
(o1/02/14)

Biratan Porto, um caricaturista letrado.

Antes de ser amigo do cartunista paraense Biratan Porto, sou um seu admirador entusiasmado e confesso. Bira mata a pau no cartum, na charge, nos quadrinhos e nas caricaturas. E ainda se renova sempre. O livro com sua série de caricaturas feitas com as iniciais dos caricaturados famosos, é de deixar qualquer um de queixo caído. Olha só o "F", de Fidel, servindo de chapéu e perfil. O "C" é a barba hirsuta e já grisalha de el comandante. Este do Chê Guevara , então, está um primor de criatividade. Aquela tal simplicidade dos gênios, de que tanto falam. Sorvam estes aperitivos aê e depois vão lá no blog do Bira pra ver o que é um trabalho bem feito e ver se ainda dão sorte de poder comprar o livro, se ele já não esgotou. Olha o link, galera: http://biratancartoon.blogspot.com/
(071113)

Jim Hopkins e o fabuloso destino d'Amelie, de Jennifer Aniston e Salma Hayek.

 
1. Salma Hayek  2. Jennifer Aniston 3. Audrey Tautou
Curto muito o belíssimo trabalho de caricaturas e ilustrações do norte-americano Jim Hopkins, um cara talentoso, mas que ainda não é muito conhecido aqui no Brasil. Por enquanto, por enquanto. Jim tem trabalhos maravilhosos e diversificados, é um verdadeiro homem-dos-sete-instrumentos, um factotum das artes, e eu já postei vários desenhos dele aqui neste bloguito. Para esta postagem, estimado leitor, escolhi uns trabalhos em que ele usou como modelos um trio de belas garotas, sendo todas elas atrizes mui famosas, que Jim Hopkins caricaturou com sua habitual competência. Entre elas, a uvinha mexicana chamada Salma Hayek. Também fez a darling dos ianques, Jennifer Aniston, além da francesa Andrey Tautou que, entre outras coisas, fez a cativante e deliciosa Amélie Poulon, em Le fabuleux destin d'Amelie Poulon, inesquecível. Você gostará, estou certo, e aí poderá ver e curtir muito mais acessando um blog do Jim, através do link http://mugitup.blogspot.com/
(110914)

06 novembro 2016

João Ubaldo Ribeiro, a quem dei sábios pitacos que o tornaram escritor consagrado no mundo.

João Ubaldo Ribeiro, consagradíssimo escritor, cronista admirado e seguido por uma legião de fãs que devoram seus escritos cheios de lucidez, consciência política e social e prenhes do mais inteligente e refinado humor. Seu domínio do idioma e da linguagem escrita são evidentes. E dizer que li tantos textos deles no original, recém tirados de sua máquina de escrever (era um treco cheio de ferrinhos que existia antes de inventarem o computador, caros adolescentes) nos idos dos anos 70. Não que ele me entregasse em mãos para um necessária e criteriosa avaliação. Eu lia os textos sem pedir licença, bem ali na mesa do diagramador da Tribuna da Bahia, em cuja redação trabalhávamos eu e o Ubaldo, lá apodado de Risadinha graças à sua indefectível e estentórea gargalhada que volta e meia fazia ecoar pela barulhenta redação. Aí, como quem não quer nada, eu dava meus pitacos pro Ubaldo, que por sinal já escrevia que era uma maravilha mas precisava de umas correções de rumo que euzinho, com minha proverbial benevolência com novéis, sempre me dispunha a prestar e não me pejo de dizer que o fazia de bom grado. Ele ouvia, silente, meneava a cabeça, pegava as laudas, entocava-se na sua sala e tratava de fazer os devidos reparos por mim sugeridos. Nunca, em tempo algum, a mim dirigiu qualquer palavra que pudesse, ainda que remotamente, deixar transparecer um agradecimento, coisa que a bem da verdade jamais pretendi receber, nem naqueles pretéritos tempos e muito menos em dias atuais. Do assaz astronômico numerário que cotidianamente adentra sua polpuda conta bancária, vintém não quero nenhum. Sou a generosidade em pessoa, a mim me basta vê-lo evoluir a passos largos no seu ofício, tornar-se um escritor maior que galga a passos largos os degraus da fama e tornar-se um dos maiores escritores entre tantos e tão talentosos escritores desse nosso país garboso e varonil. Creiam-me, basta isso para eu quedar-me com o peito inflado do mais lídimo orgulho. A João Ubaldo, meu derradeiro conselho é que não abuse da bebida que servem na ABL. Refiro-me ao tradicional chá que os imortais escribas bebem, paramentados de fardão e espadim. Matar, não mata, vez que todos são imortais. Mas pode dar uma gastrite daquelas, meu caro Risadinha.
(Salvador, Bahia, janeiro de 2012)

O orgasmo que até Deus aplaudiu / Setubardo fescenino

Ah, que orgasmo divino!
Que coisa mais delirante!
Fui à lua neste instante
Peço perdão pela ausência
Volto ao leito com urgência
Pra te amar com loucura
E pra deixar na fissura
Todos os casais do mundo
Ah, que orgasmo invocado!
Que coisa mais excitante!
Fui à Marte, doce amante
Fui à Vênus, lá no Monte
Sorvendo naquela fonte
O néctar do seu prazer
Volto aos seus braços em febre
Pra que seu corpo celebre
Um rito de ensandecer
Ah, que orgasmo irado!
Que coisa estonteante!
Foi radical, foi chocante
Centenas de maremotos
Milhares de terremotos
Um cataclismo dos bons
Equivalente ao tesão
De mil homens e mil mulheres
Mais de um milhão de amperes
Clareando esta Nação
Ah, que orgasmo retado!
Que coisa mais retumbante!
De repente, num rompante
Soaram suas trombetas
Pletoras de querubins
Rufaram suas baquetas
Um bilhão de serafins
Pois deste orgasmo bendito
Foi tal a repercussão
Que Deus, o onipotente,
Veio do céu pessoalmente
Apertar a minha mão:
"Que orgasmo, hein, meu irmão?!!"
(01/06/2011)

04 novembro 2016

Os afegãos em burca do Sexo perdido / U Sexu nu mundo 8


A vida sexual dos afegãos sempre foi um marasmo, ficando muito, muito agitada e atribulada em tempos recentes devido à presença ostensiva das tropas americanas em seu país, armadas até os dentes e xeretando tudo e mais um pouco. O marido afegão, mesmo não tendo barba, quando estava fazendo sexo oral na sua esposa muitas vezes era confundido pelos ianques com o Osama Bin Laden, se é que vocês me entendem. Aí era tanto tiro para cima dele que o pobre afegão não conseguia mais manter sua torre gêmea em pé.
(011010)

03 novembro 2016

Cangaceiro, pássaro, Floriano Teixeira

Cangaceiro é um tema recorrente na minha faina pictórica. Floriano Teixeira, maravilhoso ilustrador e pintor, fez diversos trabalhos assim mostrando um momento em que o homem do sertão tem sua dureza quebrada pela interação com o pássaro entre seus dedos acostumados a puxar mortais gatilhos. Eu, que sempre fui admirador incondicional do Flori - meu amigo pessoal, para minha fortuna - volta e meia faço uns desenhos e pinturas mostrando este duo sertanejo. Aqui usei acrílica sobre tela e depois dei umas cacetadas com Photoshop para complementar.
(171214)