20 agosto 2017

Flavio Colin, o Mestre dos Mestres das HQs, comentando os desenhos de Setúbal (euzinho, mesmo).

Indômito e estoico, o coração do explorador o leva a penetrar destemidamente na imperscrutável selva que no emaranhado de seu interior oculta mortais armadilhas. Na jângal de nigérrima escuridão e insondáveis mistérios, penetra ele, sem hesitações. Esse explorador sou eu, leitores. Essa selva, o espaço desorganizado de um quarto de meu larestúdio, em que se amontoam livros, revistas, discos de vinil, papéis com bosquejos, debuxos, rafes, layouts, rabiscos e estudos, lápis, canetas nanquim, pincéis, tintas a óleo e acrílicas, um poster do Odair José, uma figurinha carimbada do Flávio Minuano com a camisa do Corinthians e incontáveis recuerdos de Ypacaraí. Toda sorte de objetos de formas, tipos e procedências se acumulam nessa selva em que os intrépidos irmãos Villas-Bôas não ousariam adentrar, temerosos. Tais atitudes inconsequentes de minha parte por vezes são altamente compensadoras. Muita vez meu peito experimenta a alegria de um velho arqueólogo que, após décadas de intensa procura, finalmente descobre milenares tesouros de um faraó. Isso se dá quando encontro algo que, estando perdido no meu caos doméstico, ressurge em minha frente, materializa-se em minhas mãos. Como essa carta que um dia, no anno Domini 1998, enviou-me o inimitável, o inigualável, o incomparável Flavio Colin, meu ídolo desde que, ainda um guri, comecei a ler histórias em quadrinhos. Não conheci Colin pessoalmente, só grahambellmente, em longas conversas, principalmente sobre quadrinhos. Enviei a ele livros e revistas com desenhos meus e de amigos aqui da Bahia. Nos papos, Colin mostrava-se um homem culto e politizado. Sendo cortês, não deixou de escrever-me e o fez de forma alongada, falando de coisas que denotavam seu pensamento de profissional e, indo além, de forma espontânea teceu comentários sobre meus desenhos. Nada de teclados, notebooks, e-mails, o que Colin escreveu sobre meu trabalho foi escrito pelo mesmo punho que desenhava aquelas maravilhas todas que fizeram feliz minha existência de voraz devorador de gibis, álbuns, revistas de quadrinhos. Suas palavras foram e são para mim uma grande motivação. Considero que meus desenhos são meras garatujas diante da arte maior de Colin, mas ele, vendo meus desenhos, gostou e se motivou a me escrever, inflando meu peito do mais lídimo e justificável orgulho. Determinam as regras do mais elevado e ético comportamento humano que uma pessoa assim laureada, porte-se com modéstia, de forma contida, reservada, sem ostentação. Pois faço saber que nesse caso mando uma banana para a modéstia e outra para sua irmã caçula, a discrição. Uma honra dessas não se acha por aí, aos montes, dando sopa pelas ruas, becos, ladeiras, vielas, veredas, ágoras, alamedas e bulevares, e não serei eu quem irá encobrir com os tecidos da falsa modéstia o irrefreável orgulho que sinto pelas palavras do Mestre Flavio Colin:
"Caro Setúbal:...
...Gostei e admirei especialmente "ABC da Guerra do Absurdo". Sem bajulações e sem salamaleques, considero suas ilustrações belíssimas. Um trabalho realmente primoroso. Vou guardá-lo com todo o carinho. Espero que você alcance êxito, não só profissional e financeiramente, para que possa expor todo o seu potencial artístico e viver do seu talento com a segurança e a dignidade que bem merece. aguardo novos trabalhos seus. Abração do Flavio Colin."

19 agosto 2017

Woody Allen, Mia Farrow e um retrato em branco e preto a maltratar o coração.

 Por toda esta semana, enquanto desenho uma HQ tenho me deliciado ouvindo a voz macia de Leila Pinheiro, interpretando maravilhosamente canções da dupla Aldir Blanc-Guinga, compositores da pesadíssima. Uma dessas canções, "Catavento e girassol", fala das diferenças abissais existentes na relação de um casal que se ama, apesar dos muitos pesares, uma incompatibilidade quase que total, o que, no entanto, não impede o amor entre ambos. Um dos trechos da letra diz: "eu tenho um jeito arredio e você é expansiva - o inseto e a flor. Um torce pra Mia Farrow, o outro é Woody Allen..." Uau!, Aldir Blanc é incomparável. Falando em Woody Allen, de há muito o magrelo é um dos meus grandes ídolos. Esta ilustração aí em cima foi publicada em jornal num artigo que falava sobre esse criativo cineasta, ator, comediante e escritor. Deixei as cores de lado, fiz a ilustração em branco e preto, como o retrato na letra daquela linda canção do Chico e do Tom. Para tal, usei lápis, caneta-nanquim e pincel com tinta-da-china, e aviso que isso não tem nada a ver com a amada de Woody, Soon-Yi, que aliás não é mesmo chinesa, é coreana de nascimento. E já que essa pendenga Farrow-Allen andou sendo revivida pela mídia recentemente, aproveito para dizer que eu também torço mesmo é para o Woody Allen, igualzinho ao personagem da maravilhosa letra do maravilhoso Aldir Blanc.
(05/07/15)

16 agosto 2017

Pastor Vitor Souza, Literatura, Psicanálise e Cinema.

Entre as coisas que muito amo nesse mundo, mundo, vasto mundo, estão as Artes. Entre essas Artes, mágico, retumbante e altaneiro, está o Cinema, bem na primeira fila das minhas preferências. Desde Celia Cruz, quando eu era un niño de Jesus, que a incrível magia do cinema me pegou e ver um bom filme sempre me fez rir, chorar, vibrar, viajar, me apaixonar, indagar, refletir. Filmes que assistimos podem ser tão apaixonantes que muitos deles findam por se abancarem em nossas memórias de forma perene. Da criação inicial até o produto finalizado, tornar um filme uma obra de Arte é como tornar real um sonho. Isso só é possível de se realizar graças à qualidade dos competentes e criativos profissionais selecionados e reunidos em bom número em torno de uma paixão comum, algo que vai além de uma mera profissão. Essa paixão vira combustível que se alia à técnica, ao preparo profissional adequado, à experiência nesse campo artístico e ainda a outros elementos, estando entre esses a Psicanálise, utilizada na criação, do argumento aos personagens. Através do livro escrito por Vitor Souza, intitulado “Sonhos que vimos juntos – A aproximação entre Psicanálise e Cinema”, me foi possível aprender mais sobre a influência das consagradas teorias psicanalíticas desenvolvidas por ninguém menos que Sigmund Freud, que em 1895 publicou seu hoje cultuado livro “A interpretação dos sonhos”. Tais interpretações relatadas no livro do dito Pai da Psicanálise foram de enorme importância para a compreensão da mente humana. No mesmo ano de 1895 mais dois fatos significativos marcaram positivamente a História, sendo um deles carregado de total ineditismo, a primeira exibição pública de um filme, “A chegada do trem na Estação Ciotat”, façanha possível graças ao Cinematógrafo, pioneira invenção dos irmãos Auguste e Louis Lumière. Apesar da sua maravilhosíssima invenção, a dupla de irmãos franceses não era ungida por maiores pendores artísticos, nem pela criatividade e a fantasia, sendo que ambos queriam apenas usar o Cinematógrafo para fazer prosaicos registros formais de cenas do cotidiano. Aí entra o segundo e altamente importante fato do memorável ano de 1895: na pequena  plateia que teve o privilégio de assistir ao filme projetado pelos Lumière, estava uma figura a quem todos os cinéfilos e cinemaníacos em geral devem incansavelmente reverenciar de forma fervorosa, o ilusionista Georges Méliès. Diferentemente dos pioneiros irmãos franceses, Méliès felizmente era dotado de uma visão além do alcance e percebeu de cara as infinitas possibilidades que existiriam ao se mesclar as imagens em movimento com o mundo dos sonhos e da fantasia unidos a altas doses de criatividade. Georges Méliès, inventivo e até mesmo um visionário, foi o grande diferencial que possibilitou o desenvolvimento dessa rica forma de expressão que é o Cinema como conhecemos nesse mundo hodierno.Tal é sua força comunicativa, tão imenso sempre foi seu poder de penetração entre as pessoas que logo transformou-se em uma formidável indústria de entretenimento. Vale repetir a importância da Psicanálise no Cinema, enfoque do bem escrito livro de Vitor Souza, que evidencia como personagens e argumentos são arquitetados com mais propriedade por quem sabe dispor dos elementos contidos nas teorias psicanalíticas. Curioso lembrar que nem Freud nem os irmãos Lumière cogitaram tal funcionalidade para suas criações, o que mostra a grande bobagem que é essa fábula discriminadora em que a laboriosa formiga é mostrada como sendo superior à cantadora formiguinha multimídia. Também é formidável ver que após servir de apoio ao Cinema, a própria Psicanálise aprendeu a se valer dele como importante auxiliar no tratamento terapêutico. O livro de Vitor Souza nos fala de todas essas peculiaridades que unem Cinema e Psicanálise e cita, entre outras, películas como “Um corpo que cai” e “Psicose”, de Alfred Hitchcock, e “Um estranho no ninho”, de Milos Forman, que ajudaram a difundir de forma significativa conceitos freudianos. Sobre a criação artística, Freud dizia que ela representa a expressão dos primeiros prazeres da infância que os adultos acabam por perder de vista ou mesmo inibir, mas que o artista permanece conectado a essa essência, por isso a desenvolve e a compartilha através de sua obra. Entre essa obras, é fácil perceber o papel mais que importante da hoje chamada Sétima Arte, também nascida naquele mesmo benfazejo ano de 1895 em que veio ao mundo o famoso livro de Freud, o que praticamente torna Cinema e Psicanálise dois irmãos gêmeos cheios de formidáveis identificações.
(23/08/16)

Paris e as mulheres francesas estão em chamas / U Sexu nu mundo 7

Os franceses sempre deram mostras de possuírem imensos poderes de inventividade, e provaram isso inventando a guilhotina, o crêpe Suzette, o Cancan, a caneta Bic e a Dominique-nique-nique. No entanto, das suas grandes invenções, as mais conhecidas são mesmo o vinho francês, o pão francês e a saída à francesa. A essa última nós, brasileiros, devemos muito do nosso desenvolvimento econômico e social. A História registra que em 1807, na iminência de ter o reino português invadido pelas tropas de Napoleão Bonaparte, o príncipe regente D. João deu uma passativa no beligerante francês se picando com toda sua corte para o Brasil, o que foi bom para nosso progresso pátrio. Resumo da ópera: o regente D. João, autêntico português, saiu à francesa. E como os franceses não tiveram o cuidado de patentear essa sua notável invenção, os lusitanos jamais lhes pagaram um escudo, um franco, nem um euro de royalties por ela. Quanto ao quesito sexual, os compatriotas de Sade não ficam atrás. Quer dizer, ficam atrás, ficam na frente, ficam de ladinho, ficam em todas as posições imagináveis e inimagináveis, essas, com maior frequência. É fato notório que foram os franceses que inventaram o soutien, feito para ser desvestido beeem devagarinho pelas mulheres, deixando qualquer sujeito, francês ou não, mais doidão e piradão que Napoleão. Inventaram também o beijo sur le cou -que não é o que você está pensando- e ainda o rendez-vous, o faire minette, o ménage à trois e, é claro, o famoso e popular beijo francês. Esse amplo e invejável curriculum vitae confere aos franceses uma grande importância e prestígio, sexualmente falando. Mas é preciso levar em conta algumas particularidades. Caso esteja pensando em ir para a cama com algum ou alguma compatriota de Asterix e Obelix e você é uma pessoa ortodoxa no quesito higiene pessoal, é bom ir com um certo cuidado. É que, procedente ou não, rola por aí um enorme buxixo afirmando que o único banho diário praticado pelos inventivos franceses, é o banho de língua. 
(291210)

Os argentinos, sexualmente falando / U Sexu nu mundo 4

Os argentinos vivem alardeando que seu compatriota Messi é o melhor jogador de futebol do mundo, que eles são os reis do tango e que a Argentina tem a maior fartura de carnes que se pode imaginar, todas de sabor deliciosamente insuperável, despertando incontrolável apetite carnal, sendo que essa coisa de veganos por lá não se admite, e eles tratam do assunto na base da faca. Da faca e do espeto, em uma boa churrascaria, diga-se. Bueno, bueno, depois daquele humilhante sapecaiaiá de 7x1 que levamos da Alemanha na Copa de 2014, é fato que nosso moral futebolístico andou baixíssimo até a chegada de São Tite. E temos que reconhecer que, salvo Neymar, Messi coloca mesmo no bolso todos boleiros profissionais dos maiores times em atividade no Brasil e, de lambuja, os que jogam no exterior. Mas, sin embargo, se os argentinos são os reis do tango, as garotas brasileiras são, disparadamente, as rainhas da tanga. E do fio dental. E do biquini asa delta. Nenhuma compatriota de Gardel & Le Pera há de negar isso, ficando los hermanos de queixo caído ao verem uma brasileira caminhando dentro de uma sumaríssima tanga, exibindo toda sua exuberância e abundância numa praia, ou nos dominicais programas de auditório das mais deseducativas TVs desse patropi. Feministas ortodoxas hão de se exaltar, abominar, se indignar, mas, data venia, no quesito farturas carnais, as mui guapas argentinas perdem de goleada para as sempre bem servidas brasileiras, seja em maminha, chuleta, dianteiro ou traseiro. Uma curiosa curiosidade dos curiosos argentinos é que quando estão com uma mulher na cama para um embate sexual,  os homens só pensam numa coisa: "O Maradona faz isto muito melhor do que o Pelé!". Então la chica percebe logo que linguiça que é bom não vai rolar para ela cair de Boca Juniors. Aí só lhe resta tocar...um tango argentino!
(01/12/10)

Valtério Sales, escultor e cartunista dos bão, louvado em prosa e verso

Valtério Sales é um cartunista aqui da Bahia que já andou lá pelas bandas do Rio. É um cara bom quando faz caricaturas em papel. E é um arraso nas esculturas em barro, invariavelmente feitas com toques de muito bom humor. Ele é meio avesso à computadores e muito por isso mesmo ainda não tem um site para que vocês possam apreciar os maravilhosos trabalhos que ele esculpe. 
Ôpa! Êpa! Parem as máquinas! Escrevi esse preâmbulo todo aí, mas eis que acaba de chegar na redação desse bloguito uma carta que nos eleva o espírito e preenche de júbilo nossas almas. A dita missiva nos dá conta de que, buscando correr atrás do tempo informático perdido, Valtério Sales retou-se e resolveu adentrar de vez o universo cibernético. O cultuado escultor já tem até um perfil no Facebook em que mostra sua fina estampa e a arte que executa com seu enorme talento. Tomara que, entusiasmado com essa sua infoexperiência, o artista providencie um site ou blog para tornar ainda mais visível o seu trabalho e maior o nosso deleite. Nunca é demais relembrar que Valtério, o grande escultor, cartunista e humorista, é nascido em Ruy Barbosa, Bahia, onde atendia pelo cognome de Vartim de Sinésio, só saindo um dia da pequena urbe para brilhar na Oropa, França e adjacências. Para celebrar seu benfazejo ingresso nas redes sociais, a equipe desse bloguito convocou Setubardo, o sempre mui inspirado poeta e nosso contumaz colaborador, e o vate nos enviou um poema que, radiantes, publicamos: 
Valtério no caminho das artes 
Evém Valtério.
Quem o diz no climatério?
Mal não lhe causa
A andropausa.
Vem gaio e gala
Com sua bengala.
Caminha seu caminho,
Rebolandinho.
Torpes maliciam
Seu rebolar
Quase sutil.
Não é frescura,
Posto que viril.
É só da perna
Leve atrofio.
(16/07/13)

15 agosto 2017

Roberto Corinthians Rivelino, o magnífico.

O imenso bigode nietschiniano indica que esse cara aí foi um grande e respeitado pensador. Não há como contestar isto, gentis leitores. Embora seus melhores trabalhos legados à humanidade não constem em nenhum dos compêndios da literatura universal, esse rapaz era um grande, um formidável pensador. Ostentando o número 10 nas costas de sua camisa do S.C. Corinthians Brasileiro, sagrado manto, ele pensava, pensava, racionalizava, arquitetava, construía, tecia o jogo do meu glorioso, salve, salve, Coringão do Parque São Jorge. Lá ele chegara ainda imberbe e ali seu bigodinho foi crescendo, crescendo até virar um frondoso e imponente moustache. E seu futebol também cresceu, cresceu, cresceu ainda muito mais, virou craque diferenciado aqui e no vasto universo do esporte bretão. Nós, torcedores mais atilados, já víamos isso nas partidas preliminares, ele arrasando no time corintiano de aspirantes, passagem de muitos para a consagração junto à Fiel. E a galera antenada chegava cedo aos estádios para ver o espetáculo dos aspirantes do Corinthians. Ah, meu Deus!, tantas e tantas alegrias nos deu Riva com sua técnica apurada, sua garra, sua vibração contagiante, tudo tão corintiano demais em sua essência. Sua canhotinha abençoada nos inebriava os olhos, com seus dribles desconcertantes, como o elástico que ele aprendera com Sérgio - o amigo nissei, ponta dos mesmos aspirantes - que Riva lançou ao mundo dando o devido crédito ao amigo. Sou eternamente grato a Riva como corintiano e como brasileiro já que ele, ao lado de Pelé, Tostão, Jairzinho e Cia, deu-nos a todos nós, o título mais incontestável que temos de Campeões Mundiais de Futebol que foi o de 1970. E ainda assim, pasmem, foi injustiçado por culpa de um decisão carregada de burrice do presidente Mateus, talvez pela ainda mais burra indução de obtusos cronistas de futebol da época que. em sórdida e difamatória campanha, tiraram de Riva a camisa 10 do Corinthians e quem saiu perdendo com isso foi a Nação Alvinegra, para alegria do Fluminense do Rio que soube dar a Rivelino o devido valor e carinho e ele soube retribuir dentro dos gramados. Negaram-lhe no Corinthians a glória do título de campeão paulista que já estava maduro após 20 anos de espera e aconteceria três anos depois da saída forçada de Rivelino. Quem ficou no prejuízo, nunca é demais repetir, fomos nós, apaixonados torcedores corintianos, que pagamos pela sordidez e a burrice alheias que permeiam o mundo do futebol com insistência. Mediocridades assim deviam ensinar coisas melhores a dirigentes, torcedores, a certos jornalistas e cronistas de futebol, mas sei lá porque não ensinam e seguem sendo o que são, sendo que alguns ganham fortunas para dizerem com convicção suas asneiras e suas "verdades" distorcidas, contribuindo com cartolas espertalhões e suas políticas nefastas, contribuindo assim para afundar o futebol brasileiro. Apesar dos pesares, ainda bem para nós que há o lado bom e nobre do chamado esporte mais popular do mundo: os autênticos craques do futebol. Nesse mais que seleto panteão passeia uma formidável legião de maravilhosos e inolvidáveis cracaços de bola, entre eles, com seu moustache niestzchiniano,o inigualável pensador Roberto Rivelino a quem os deuses do futebol legaram seus dribles mágicos, suas fintas desconcertantes, seus lançamentos precisos, seus chutes potentes e indefensáveis, sua genialidade enchendo de alegria meu coração torcedor corintiano da adolescência aos dias atuais. A Riva, eterno Garoto do Parque São Jorge - Ogun-yê, meu pai! - a minha eterna, inefável e imensurável gratidão.
(Public. orig). 30/05/10)

09 agosto 2017

Família Batman / Humor de graça

(201016)

O poeta Béu Machado e suas frases afiadas


Com imenso talento nato para criar fantásticas poesias, letras de músicas e frases definitivas, Béu tinha tudo para ser hoje, no universo das Artes, um nome consagrado, conhecido, admirado e citado, do Oiapoque à PQP. Mas só algum tempo depois de sua lamentavelmente prematura morte é que foi lançado um livro com uma seleção de parte do seu trabalho. Uma edição que só foi possível graças ao amor e a admiração que ele semeou em vida. Um grupo de amigos mais próximos - entre os quais, o também poeta José Carlos Capinan, jornalistas e artistas gráficos - editou com o merecido carinho o divertidíssimo "Pensamentando", produzido pelo citado grupo com toneladas de carinho, amizade, fraternidade, charme. O livro traz em suas páginas uma seleção das mais formidáveis  e hilariantes frases, para o leitor se deliciar a valer com as peraltices verbais de Béu, tão querido poeta, letrista, jornalista, colunista e frasista. A mim, tocou-me a honrosa incumbência de fazer as ilustrações. Vão aqui algumas frases para você ver do que a cuca de Béu Machado era capaz. Algumas delas podem ser encontradas em outros espaços aqui neste bloguito. ilustradas com os desenhos que fiz para cada uma, especialmente para o livro. Dentre as frases béumachadianas selecionadas para o livro, selecionei essas:
*Inteiramente a favor das conquistas femininas. Principalmente se eu for uma delas.
*Improvável como João Gilberto no encontro de trios.

*Para alguns ladrões, nenhuma clemência. Outros são chamados até de Vossa Excelência.
*Controle-se quando for ofendido, senão você pode errar a pontaria.
*Saúde de ferro, disse o médico desenganando o hipocondríaco.
*Na Rússia a coisa mais comum é Sergei.
*Oh, ser humano! Entender-te, quem? O travesti é frustrado porque tem.
*Não me deixei paralisar pelo medo. Fui a mil para debaixo da cama.
*Outra coisa: ralé, rapé. Gente fina, cocaína.
*Para que autodomínio se eu sou casado com minha mulher?
*O álcool eu controlo. Verifico sempre se o garçom está servindo as doses conforme exigi.
(19/11/13)

James Joyce, quem diria, também morou na Bahia

 
James Joyce, apesar de ter nascido na fria Irlanda, ficou conhecido mundialmente por haver escrito Ulysses, biografia do brasileiríssimo deputado Ulysses Diretas Já Guimarães, democrático político deste país tropical abençoado por Zeus e tão amado por todos nosotros, quase sempre follados e mal pagos. Enquanto escrevia sua obra-prima, Joyce fixou residência no Brasil, mais exatamente em Salvador, na Bahia, escolhendo o bairro do Bonfim, cuja famosa colina de forma significativa lembrava a ele a topografia irlandesa. De família abastada e fervorosamente católica, o escritor sentia falta das tradições de sua terra natal, notadamente a popular lavagem das escadarias de Dublin. Para suprir tal falta, amealhou um batalhão de baianas devidamente paramentadas de brancas vestes, colares e indefectíveis balangandãs e, estando todas munidas de vassouras e quartinhas com água, com elas lavou as escadas da igreja de seu bairro soteropolitano. Os baianos, sempre hedonistas e chegados numa boa muvuca, gostaram do que viram e se juntaram incontinenti à patuscada com seus instrumentos musicais. Pronto. A lavagem das escadas de Dublin davam destarte origem à hoje tradicionalíssima Lavagem das Escadarias do Bonfim, festa que nestes tempos hodiernos arrasta multidões de fiéis e infiéis do mundo inteiro para esta afrocity Soterópolis incrustada nesta afro-terra de dendês e morenas frajolas e gentes bonitas de todas as etnias, chamada Bahia. Thanksthanks so much, Jojó!
(10/10/13)

Dedo-duro convicto / Humor de graça

(221013)

05 agosto 2017

Pedro Almodóvar, Liberdade, Sexualidade, Democracia e o Avanço da direita no mundo.

Pedro Almodóvar, no traço cinematográfico do cartunista e também ator J. Bosco.
O reacionarismo, o racismo, a homofobia têm macróbia existência no Brasil. Às vezes ficam embuçados nas sombras, ali bem escondidinhos, esperando a hora de mostrar suas caratonhas. Outras vezes saem à luz, falam de forma estentórea. Quando se sentem fortes, engrossam ainda mais as vozes, gritam alto, hostilizam, agridem e fazem tudo para subjugar os que deles discordam. Não somos só carnaval, futebol, mulatas malemolentes, gingado e samba no pé. Ideias e atitudes retrógradas foram sempre uma constante entre nós, brasileiros, coisa que muitos não soem imaginar e por isso costumamos desfrutar perante o mundo do conceito de sermos um povo de constante alma solar, cordato, aberto ao diálogo e receptivo à ideias progressistas. Péro las cosas não são bem assim, há uma abissal distância entre essa boa conceituação da qual desfrutamos, e o que de fato mostramos ser na prática cotidiana. No entanto, não temos exclusividade no que se refere a lamentáveis comportamentos reacionários. Não só o Brasil vem sendo atingido por uma crescente onda de retrocessos, de reacionarismos, fascismo, nazismo, totalitarismo, de políticas excludentes que privilegiam apenas e tao somente os já muito privilegiados, de graves ameaças vindas dos extremistas de direita. O cineasta espanhol Pedro Almodóvar, que em seus filmes recheados de ideias libertárias sempre defendeu a mais ampla liberdade de expressão artística e popular, bem como liberdade sexual e a Democracia como sendo ainda o melhor dos caminhos, mostra uma enorme preocupação com esse crescimento da direita no mundo. No recente Festival de Cannes ele deu entrevista falando sobre o assunto. Aqui, alguns trechos da entrevista:

Repórter: Como o Sr. vê o crescimento dos partidos de direita na Europa?
Almodóvar: Estou aterrorizado com o avanço da direita. Não tenho filhos, mas, se tivesse, ficaria preocupado com o destino deles, por temer um destino atroz para o mundo.
Repórter: Nos Estados Unidos, o magnata Donald Trump conquistou um espaço inesperado na campanha presidencial.
Almodóvar: Não quero sequer pensar na possibilidade de Donald Trump chegar à Casa Branca, pelo retrocesso que ele representa. A situação é preocupante no mundo todo. Nunca imaginei que manifestações contra o casamento gay e contra o aborto pudessem arrastar tanta gente na França. Para nós, espanhóis, a decepção com a França é ainda maior.
Repórter: Por quê?
Almodóvar: Os franceses têm um problema gravíssimo para resolver. Na Espanha, não temos um índice de crescimento tão significativo da direita. E digo direita civilizada. Não a extrema-direita da França, onde a Frente Nacional (FN), de Marine Le Pen, promete representar um perigo real na eleição presidencial de 2017. O país sempre foi um modelo de sociedade laica, além de ter sacudido os valores antigos com a revolta de maio de 1968. É uma pena constatar que a França não é o país que eu pensava. Tenho a sorte por ter crescido rodeado de mulheres que me inspiraram com sua força e me ensinaram a não ter preconceitos.
Repórter: Seus filmes refletem o momento político pelo qual a Espanha passava. Se "A lei do desejo" e "Mulheres à beira de um ataque de nervos" retratavam a extravagância do país recém-saído da ditadura militar, o que "Julieta" diz da Espanha atual?
Almodóvar: O filme representa um país triste, solitário e carregado de dor. Jamais poderia ter filmado "Julieta" nos anos 1980 ou 1990. Os tempos mudaram e eu também mudei. Enquanto minhas primeiras personagens saíam para a rua, para aproveitar a vida, Julieta é reclusa, passando quase todo o tempo em casa. Comparado aos anos de euforia, hoje sou mais introspectivo. Conforme o tempo passa, ele também se encarrega de trazer a nossa cota de dor, da qual ninguém escapa. 
Pergunta: "Julieta" é o seu filme mais econômico no que diz respeito às emoções? Isso também é resultado da experiência adquirida? 
Almodóvar: Para chegar a esse nível de contenção, é preciso experiência. Não só experiência de vida, mas profissional. Por ser meu vigésimo filme, eu me sinto maduro como diretor. Reduzir os elementos é muito mais difícil do que parece. Precisei usar planos simples, em que os atores faziam poucos movimentos, apostando tudo o que tinha em uma cartada só. O cuidado foi muito mais minucioso, para garantir que a cena tivesse força dramática, ainda que ninguém pudesse chorar.
Repórter: Incomoda o fato de a crítica ter se surpreendido com a abordagem contida de "Julieta", como se ela soubesse mais que o Sr. como deve ser uma obra de Almodóvar?
Almodóvar: O peso de ser quem sou só existe quando termino o filme e não durante a roteirização ou filmagem. Tomo as decisões com liberdade, sem considerar o mercado ou o espectador. Os fantasmas só aparecem na sala de edição. É nessa fase que começo a ter medo. Há sempre uma comoção no lançamento de meus filmes, o que não é bom, por aumentar as expectativas. Preferiria que o público assistisse a meus filmes mais relaxadamente, para poder avaliá-lo apenas pelo que ele é. 
Repórter: O Sr. diria que compreende melhor a vida por fazer cinema?
Almodóvar: Entendo melhor a mim mesmo. Obviamente, os meus personagens vão muito além de mim, embora eu esteja em todos eles. Muitas vezes os meus filmes representam espécies de premonição, antecipando situações com as quais vou me deparar algum tempo depois. 
Repórter: Pode dar um exemplo?
Almodóvar: Antes de "Mulheres" eu não havia jogado um telefone na parede(risos). A culpa que Julieta carrega, por ter fracassado como mãe, também ecoou em mim. Achei que já tivesse superado a culpa pela criação católica que recebi, mas não cheguei lá ainda. Por mais que eu tenha uma abordagem laica, sem pensar em céu ou inferno, passei a pensar no que fiz de errado, com quem fiz e como poderia assumir a responsabilidade e remediar.
(130916)

As espanholas e seu furor sexual / U sexu nu mundo 2


No imaginário popular, todas as mulheres da Espanha trazem em suas veias o mais puro sangre caliente e por isso mesmo são consideradas verdadeiros furacões sexuais e só piensam naquilo. Puro exagero, as espanholas também gostam muito de Artes e dos artistas maiores. Um desses, é o graaaande Picasso que sempre andou de boca em boca entre as mulheres. Se você acha que a seleção de futebol da pátria de Cervantes faz jus ao epíteto de "Fúria Espanhola", não imagina que este título pertence mesmo é às mujeres da Espanha que com seu furor uterino jamais concediam um segundo de descanso ao afamado pintor catalão, enquanto vivo ele foi. Agarravam o Picasso em qualquer lugar, de todo jeito e de com força e não queriam mais largar. E o Picasso tinha que ser muito, muito duro para conseguir dar suas famosas e milionárias pinceladas que qualquer uma disputaria - e bota disputaria nisto - já que levavam à loucura as guapas espanholas que noite e dia assediavam o bravo Picasso que, aliás, apesar de ser um artista de vanguarda, adorava uma boa retaguarda, e ficava logo todo excitadão quando via um belo Cubismo à sua frente. Segundo outro famoso espanhol, Pedro Almodóvar, diante de Picasso ficavam as Mujeres al borde de un ataque de nervios. Muitas delas, com a Carne Trémula, em um estonteante Laberinto de Pasiones. Descontroladas, mostrando La Mala Educación e escancarando sua Julieta, para ele gritavam Entre Tinieblas: "Mira acá La flor de mi secreto!" e, lúbricas, insinuantes e concupiscentes imploravam: "Hable con ella!".  Usando Tacones Lejanos, fêmeas sadomasoquistas histericamente lhe imploravam: "Átame!!", sem demonstrar o mínimo respeito à La Ley del Deseo. Desse modo, como era de se esperar, o pintante catalão foi definhando e acabou morrendo na couve-flor da idade. Muita gente hoje em dia critica Pablo Picasso por ele ter sido um incondicional adepto das corridas de toros, prática que vem sendo banida da vida dos espanhóis nestes atuais tempos politicamente corretos. Mas em verdade as plazas de toros eram para ele apenas um porto seguro, um providencial refúgio salvador para onde ele corria na tentativa de encontrar um necessário repouso, já que ali era o único lugar em que as mulheres deixavam o Picasso em paz, pois na arena só tinham olhos para admirar a famosa espada do graaaande Dominguin. Apesar da proibição atual, a verdade é que os bravos espanhóis estão muito acostumados com touros e touradas e por isto mesmo acham este lance de chifres uma coisa muito normal. E é aí, señoras y señores, que entra em cena El Ricardon que, sem vacilar, vai adentrando a arena e otras cositas más, passando a mão nas castanholas de la chica que se contorce toda. E evocando o sempre pranteado e eternamente graaaande Picasso, ela entonces suspira fundo, revira os olhinhos, e entusiasmada grita "Olé!!"
(12/01/10)

Falando um Português impecável, sem ajuda de le Professeur Antonio Sacconi

Sou um liberal avant la lettre. Quer dizer, lassez faire, lassez aller, lassez passer, mas com um olho aberto, por via das dúvidas. Sou do time da liberté, égalité et fraternité. Já fui um enfant terrible, mas jamais um enfant gâté. Nem um franc-maçon. Sempre busquei encarar a vida como um bon vivant e tudo comigo é às claras, ali no vis-à-vis, no tête-à-tête. Nunca morei em chateau, só em modestas maisons. Fui sempre um gourmand mas nem sempre -ai de mim - um bon gourmet. Adoro cassoulet, bouef bourguignon, filet au poivre, e lambo os dedos saboreando um foie gras, mas não dispenso um bom soufflé e um caprichado ratatouille. Esse negócio de novelle cuisine não combina muito com meu estilo de sujeito de baixa extração. Já gostei muito de cognac (à la santé, mon ami Paulo Carrusô!) e de champagne. Mas nunca, mon Dieu, tive o prazer de saborear um Grand Cru, como o Romanée-Conti. Ou um Le Montrachet. Mas quem sabe, um dia chego lá. Enquanto isto vou sorvendo um Capelinha, que prefiro chamar de Petite Chapelle o que engana os mais desatentos. Curto Vaudeville e adoraria ir no Moulin Rouge assistir um Can-can. Aprecio filmes noirNovelle VagueArt Naif, Art Noveau e as delícias da Belle Époque. Já Décor e Art Déco nem tanto, talvez por eu não ser um nouveau riche. Gosto de trabalhar com papier marché e com papier glacé. Tento desenhar e pintar e já para tal uso muito o papier couché, cada vez mais difícil de encontrar nesta Soterópolis. Primeiro faço debuxos e croquis depois uso Caran d'Ache. Adoro todas as cores mas não me falem em Les Bleus muito menos em Zidane. Sem falsa modéstia, sou coqueluche nas altas rodas de Montmatre e outros sítios menos votados. E nas minhas vernissages, sorvendo taças de um bom bordeaux, saboreio croissant,  croquete, petit-pois, crème brûlée e um bom petit gâteau au chocolat. Mon Dieu, mon Dieu! Alors, no balanço do Olodum, o meu au revoir para vocês, mons enfants de la patrie.
(040214)

02 agosto 2017

Bola de Nieve, um artista maior de Cuba / Uns caras que eu amo 7

Ignacio Jacinto Villa Fernández. Se você sair por aí perguntando quem conhece esse grande pianista, cantor e compositor cubano, certamente ouvirá sonoras negativas. Mas se a pergunta for “você conhece Bola de Nieve?”, sempre haverá os mais atentos que dirão conhecer. Bola de Nieve era o apodo dado a Ignacio Jacinto. Com ele acabou virando uma lenda de uma música de alta qualidade produzida em Cuba, que findou por apaixonar gente de todo esse planeta azulzinho. Caetano Veloso gravou canções desse grande artista cubano que sua mãe, Dona Canô, cantava para ele em sua infância, e volta e meia se refere a ele elogiosamente. Pedro Almodóvar, cujos filmes primam também pelas belíssimas trilhas sonoras, incluiu a voz única de Bola de Nieve em pelo menos duas de suas películas de sucesso, La ley del deseo (Déjame recordar) e La flor de mi secreto (Ay amor), sendo que nesse último uma frase da linda composição de Bola de Nieve integra-se ao roteiro ao ser citada por um dos personagens da trama. Tempos houve em que as canções cubanas reinavam soberanas entre os amantes da música mundo afora. Orquestras, bandas, cantores, cantoras, percussionistas, pianistas e instrumentistas diversos interpretavam mambos, rumbas, salsas, chachachás, boleros e outras maravilhas sonoras. Bola de Nieve tornou-se um mito cantando divinamente e, além do Espanhol, cantava em Português, Francês, Inglês, Italiano e até em Catalão. Seus dotes eram muitos e com eles encantava plateias mundo afora. Cantava bonito e interpretava com alma as suas canções nesses idiomas diversos, tocava piano de forma linda e bem pessoal, conversava com o púbico com empatia. E compunha canções que adentraram a História da música popular cubana e se perpetuaram. Mister se faz dizer que Bola de Nieve teve que lutar duramente contra obstáculos difíceis em sua trajetória artística, como o racismo e a homofobia. Mas sua genialidade visível na sua maneira pessoal, apaixonada e única e até teatral, de tocar o piano e interpretar canções, acabou por prevalecer e músicas que compôs ou que interpretou se perpetuaram gritando bem alto o seu talento difícil de ser igualado. No seu repertório há uma vasta quantidade de tesouros, entre tantos, para nosso orgulho pátrio, está a canção Faixa de Cetim, do carioquíssimo mineiro Ary Barroso. Dos inúmeros sucessos de Bola de Nieve vale citar canções como La Flor de la canela, Ay amor, Drume negrita, No me comprendes, Ne me quitte pas, La vie en Rose, Dejame recordar, Vete de mi, Ay Mama Inés. Fácil, muito fácil amar a Arte maior de Bola de Nieve.
(020916)

Fernando Pessoa, Caetano Veloso, Plutarco, Pompeu e a necessidade de navegar

"Navigare necesse est, vivere non necesse", disse-o, embarcando em sua galera, sem demonstrar um mínimo temor diante de assaz proceloso mar, o intimorato general romano Pompeu, segundo escritos de Plutarco, que não era homem de articular falácias biográficas. "Navegar é preciso, viver não é preciso". Grande Pompeu! Tempos depois ninguém menos que o bardo Fernando Pessoa usaria a frase de Plutarco como título de um poema seu e, com propriedade, a citaria em seus fernandopessoanianos versos dando-lhe um charmosíssimo acento português que é como a conhecemos no Brasil, tendo sido até embalada numa canção por mui bela melodia de Caetano Veloso. Certamente por desta forma a conhecermos, pletoras de gentes por aqui acreditam ser a autoria da frase fruto da mente do genial poeta lusitano. Em verdade ele apenas usou o dito de Pompeu para criar uma feliz paráfrase: "viver não é necessário, o que é necessário é criar". Quanto à necessidade de navegar, sou - qual Pompeu - um destemido, arrojado e intimorato nauta, mas copiosamente precavido, me limito a singrar mares menos procelosos - os virtuais - como se os de Netuno fossem pois, como dizem, o seguro morreu decano. Ou para melhor dizer, “insurance mortuus est veteranus”, já que qualquer citação fica mais credível se pronunciada em latim. Mesmo que em um latim apócrifo, canhestramente redigido por um escriba estulto consultando um providencial Google Translator.
(31/05/2013)

29 julho 2017

Machadiano graças a Machado de Assis e a Béu Machado

Sempre relembro Béu Machado, sempre vale a pena que todos relembremos Béu. Amiúde me vem à mente seu jeito calmo de poeta, quase anônimo, fingindo-se igual aos viventes outros, malgrado o talento imensurável para versejar, criar frases. Contrariando Caê, que diz que só se pode filosofar na língua de Goethe, Béu filosofava em muito bom soteropolitanês. Seu humor carregado de dendê algumas vezes era pura molecagem e outras ocultava por trás de uma aparente despretensão uma profundidade que a muitos pode escapar. O humor béumachadiano e sua filosofia podem ser percebidos a olho nu em frases como estas que aqui reproduzo para matar as saudades do poeta, do frasista, do vizinho na Boca do Rio e do amigo cortês e espirituoso.
*O fato de marcianos virem periodicamente à Terra só prova uma coisa: não existe vida inteligente em Marte.
*O açougueiro cortou a parte que eu mais precisava: meu crédito.
*"Saúde de ferro!", disse o médico, desenganando o hipocondríaco.
*De lascar é quando a bola bate no pau sem chocar na trave.
*De nada adiantou eles ordenarem que eu me calasse.Heroicamente continuei gritando "Ai!"
*Desisti de desafiar o Mike Tyson. Os motivos são de força menor.
*Desta vez vai correr sangue: aumentaram os preços dos absorventes!
* Ler Proust é uma perda de tempo.

Que grande, grande falta nos faz Béu Machado.
(29/11/2014)

Diana Panton interpretando Samba de Verão em Inglês. Lindo, lindo.

                                                                  
Em postagem anterior mostrei a vocês, caros, preclaros e fiéis leitores desse bloguito, o show de beleza que é a cantante canadense Diana Panton cantando em Francês a mundialmente consagrada canção, Manhã de Carnaval, de Luiz Bonfá e Antônio Maria. Como o talento da moça é vasto, ela também domina o Inglês e é nessa língua que aqui e agora ela interpreta deliciosamente So Nice, dos brothers Marcos e Paulo Sérgio Valle. Nada mais, nada menos que Samba de Verão, canção também consagradíssima em todo o planeta com mais de 400 gravações por grandes feras da canção mundial e com diversas inclusões em trilhas sonoras de filmes. E a interpretação de Diana é mesmo so nice.  
(12/12/2014)

Maluco beleza: Raul Seixas, cantado pela cantora japonesa Tsubasa Imamura

Enquanto você se esforçava pra ser um sujeito normal e fazer tudo igual, Raul Seixas procurava aprender a ser louco, um maluco total, na loucura geral, almejando ficar, com certeza, um Maluco Beleza. Para gáudio e deleite de nossas almas musicais, ele conseguiu. Tanto conseguiu que sua fantástica arte viajou pelo mundo e cruzou fronteiras chegando até à suave e deliciosa voz da cantora japonesa Tsubasa Imamura que gravou a música de Raulzito, uma canção comprovadamente bela, que na Terra do Sol Nascente fará de um contingente de nipônicos uma imensa e feliz multidão de Malucos Belezas de belos olhinhos  puxados.
(09/11/2014)

Hilda Hilst, fescenina e deliciosa

Pensei em Hilda Hilst, grande e iluminada poeta, e me bateu vontade de ler algo bem fescenino dela. Achei esta poesia com sua marca inconfundível. Se você gosta da boa poesia, certamente gosta de Hilda. Na primeira foto ela com o magistral Zeca Baleiro, seu parceiro em belas composições. Na outra ela com aquela carinha singela de avó pacata e toda convencional. E qualquer um há de pensar como ela pode escrever versos tão iconoclastas com esta carinha meiga aê. Delicie-se agora com a poesia, entonces.
Araras versáteis
Araras versáteis. Prato de anêmonas.
O efebo passou entre as meninas trêfegas.
O rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.
Ela abriu as coxas de esmalte, louça e umedecida laca
E vergastou a cona com minúsculo açoite.
O moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios
E uma língua de agulha, de fogo, de molusco
Empapou-se de mel nos refolhos robustos.
Ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios
Quando no instante alguém
Numa manobra ágil de jovem marinheiro
Arrancou do efebo as luzidias calças
Suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiii...
E gozaram os três entre os pios dos pássaros
Das araras versáteis e das meninas trêfegas.
               (28/11/13)

25 julho 2017

Submarinos soviéticos podem invadir o Brasil via Rio São Francisco

Não sei se faz parte das comemorações pelos 50 anos do golpe militar no Brasil, mas a verdade é que os militares pernambucanos estão tirando dos moradores de Juazeiro, BA, e de Petrolina, PE, o sagrado, democrático e constitucional direito de ir e vir. Com o questionável aval de um juiz que não ouviu como deveria o povo destas cidades, essas gentes com seus coturnos, suas gandolas e seus fuzis estão proibindo os moradores da região de circularem nesta fluvial ilha que se situa no meio do Rio São Francisco entre ambas as citadas urbes. Da ilha se assenhoraram os militares respaldados por decisão do supracitado juiz que, sem nenhum vontade de dar testa a militares, atendeu o argumento castrense de que a Ilha do Fogo é ponto axial para a segurança de nossa patriamadasalvesalve. Tenho a deplorável mania de tentar entender as coisas racionalmente, pensar com meus botões e tirar minhas próprias conclusões. Inigualáveis pérolas têm surgido dessas elucubrações, como as que se seguem. Ciente de que os militares, são sempre zelosos e atentos às marxistas artimanhas e manobras, deduzi de pronto que os fardados, movidos por compreensível e salutar paranoia, devem considerar e temer uma invasão de nosso auriverde torrão por insidiosos submarinos soviéticos. Mas se são disto temerosos e crédulos é certamente porque não foram devidamente informados por quem deveria, de que a Guerra Fria de há muito acabou e que a URSS já não mais existe, nem exército ou espiões soviéticos a não ser em antigos filmes do velho James Bond, aquele que precisava de uma licença para matar, coisa anacrônica já que hoje, aqui e em toda parte, se mata a torto direito, sem que para isso seja necessário se valer de licença alguma. Além do mais, nestes hodiernos tempos os russos é que foram invadidos pelos capitalistas americanos sendo que agora bebem americaníssimas coca-colas e arrotam Mcsandubas para tristeza do velho Marx que devido isso se revira em seu hoje pouco visitado túmulo. Quem sabe, ao serem colocados a par destas novidades que ora vigoram, os militares que estão impedindo os moradores de Juazeiro e Petrolina e demais civis de pisarem as areias da Ilha do Fogo possam ficar mais tranquilos e para nosso gáudio revogar a proibição e devolver a aprazível ilha aos seus legítimos donos.
(09/11/2014)

Praias da Bahia, queijo coalho, cerveja e uma meninada que já batalha

Por mandos e desmandos de uma gente mui canalha, aqui nessa afro-baiana metrópole denominada Soterópolis, o desemprego é uma constante e os soteropolitanos das camadas econômicas mais desapetrechadas do metal vil, que ninguém do povão mais viu, viram-se e reviram-se como podem. Sendo assim e assim sendo, enquanto em dias solares, muitos viventes mais privilegiados quedam-se mirando o ir e vir do Atlântico enquanto bebericam gélidas cervejotas e com um escopo evidentemente narcisístico buscam adquirir um êneo tom epidérmico expondo-se ao sol, magotes de meninos da periferia caminham entre as barracas das praias mercando queijo coalho, que é derretido na hora, à vista do cliente. Para tanto levam em uma mão uma bandeja com o dito queijo ainda cru, e na outra uma lata cheia de carvão dotada de uma alça de arame que eles balançam no ar para avivar a brasa, qual um turíbulo que sacristãos, oblatos ou coroinhas agitam em missas ou em procissões. Com o calor daí advindo, os guris conseguem - para gáudio do cliente - preparar com sucesso a iguaria queijocoalhística. Se a brasa não cair em cima de sua impoluta pessoa, já meio tostada pelo sol, e se você não tomar uma latada nas fuças, deve louvar grandemente o fato de ser um vivente de sorte e aproveitar, pois o queijinho coalho é acepipe dos melhores, gente boa! 
******A guisa de ilustração, vai aí essa pintura que fiz com a sempre fiel e prestativa tinta acrílica, sobre uma tela nas dimensões 30cm x 30cm, mostrando dois meninos com papéis beeeem diferenciados nessa nossa mui desigual sociedade, a baiana e a brasileira.
(24/07/2011)

Deus é Fiel porque o Corinthians é Divino! / Timão ê ô

(21/11/2015)

Pirata da cara de pau / Humor de Graça

(05/12/13)

Biratan Porto, Setúbal e a foto da discórdia em Belém do Pará

Belém do Pará, dia 31 de maio do corrente ano. Esta foto registra o instante em que eu, no larestúdio do cartunista Biratan Porto, sopro um virtual bolo de aniversário, de um dos lados da imagem, enquanto a carica de minha augusta pessoa feita pelo Bira ajuda soprando do outro. Isso foi algo que eu e Bira criamos na hora e ele clicou para a posteridade. Essas ideias inusitadas surgem do nada da cuca de quem trabalha com humor, uma gente - não por coincidência – mui bem humorada e que leva a vida buscando criar para si e para os que os cercam, momentos felizes, plenos de riso. Só um deslize cometeu o Bira, e não estou falando do físico de bebedor de cerveja que ostento no desenho que ele assaz sordidamente fez. Refiro-me, sim, ao fato dele haver colocado na imagem a ideia de que estou colhendo 66 primaveras no jardim de minha existência, quando em verdade, tenho pouco mais que a metade disso, acreditem querendo, pios leitores. Somos humanos e, portanto, sujeitos a ser tentados pelo coisa ruim a cometer atos malafaios como o que, em momento de fraqueza, foi praticado por esse meu amigo de fé, irmão, camarada. Todos sabem muito bem sabido que Bira habitualmente é um perfeito gentleman, um cavalheiro, um pró-homem, sempre lhano, cordato,  pleno de bonomia e eu, alma nobre que sou, já o perdoei do fundo do meu coração corintiano. 
(25/11/2015)

Expressionismo à italiana

Laura Tedeschi é uma talentosa artista italiana que mora na Áustria onde leva a vida a pintar com suas cores expressionistas. Vale a pena conferir o talento da ragazza em seu blog e em seu site no caso de vocês não terem tempo para pegar um avião e dar uma chegadinha em plagas austríacas para admirar de pertinho seu belo trabalho ao vivo e a cores, muitas cores. http://lauratedeschiarte.blogspot.com e www.lauratedeschi.com
(07/07/10)

21 julho 2017

O rumoroso caso de amor entre o jornalista Gonçalo Júnior e sua Nona

É com o precípuo escopo de tirar onda de gostoso e posar de intelectual versado em assuntos os mais diversos que passo uma razoável parte do meu tempo lendo o que bons autores escrevem. Não há qualquer intenção nobre nisto tudo, acreditem, pios leitores, trata-se de meu rotundo e insaciável ego querendo alimentar-se de afagos e salamaleques, mesmo que através de mui imerecidos elogios. Já confidenciei a vocês mas, por garantia, mister se faz que eu volte a confidenciar, que ao assim proceder, lendo um razoável número de livros acabei desenvolvendo alguns traquejos e adquirindo certa prática para bem saber discernir entre os que são de fato bons autores e aqueles que equivocadamente julgam que o são. Por exemplo, em matéria de competência, quando o papo são as Histórias em Quadrinhos, não vacilo, leio uma fera que domina o assunto de nome Gonçalo Júnior, respeitadíssimo na área. Gonçalo é jornalista, escritor com muitos livros já publicados, argumentista de HQs, pesquisador incansável e é íntimo das palavras e do vasto universo dos quadrinhos. Tem uma ampla cultura geral o que lhe dá embasamento para tratar com propriedade de assuntos diversificados, conhece os terrenos em que pisa. E não lhe falta coragem para colocar o dedo na ferida quando necessário, não se limitando a ser um mero repassador de releases fornecidos por políticos ou editoras, hábito tão em voga nos tempos hodiernos. Se na História oficial há algo oculto nas entrelinhas, Gonçalo traz à luz, não acredita em determinadas verdades absolutas. Se há sujeiras sob o tapete, ele as revela a todos, intimorato que é, cônscio que é, ético que é. A participação de alguém como Gonçalo só faz enobrecer a chamada Nona Arte, pela qual nutre imenso amor e evidente apreço. Seu olhar aguçado é guia confiável num mundo que por vezes é pródigo em indesculpáveis equívocos. Vale muito a pena dar uma busca na Internet para se ter contato com os textos de tão brilhante autor ou, ainda melhor, ir a uma livraria de respeito e lá comprar os muito bons livros de sua autoria, entre eles, um dos mais lidos e emblemáticos, A guerra dos gibis. Textos escritos por Gonçalo são leitura imperdível, como se diz nos Cadernos Bês da vida.
(Publicado originalmente em 10/10/2013)

Montaigne, Chico Buarque e o Amor que não pede explicações.

O que faz nascer uma amizade imorredoura? O que move uma paixão desmedidamente extraordinária dentro de nossos humanos corações? O que nos leva a gostarmos tão intensamente de uma pessoa, por vezes tão diversa de nós? Ou a nos apaixonarmos perdidamente por alguém e mantermos com esse alguém um relacionamento que, no dizer do Poetinha, enquanto dura, infinito é. Amigos, parentes, conhecidos e desconhecidos, veem essa relação vivida com olhos de quem assiste a algo em que a lógica se volatiliza e se lhes escapa, algo improvável, indefinível, pleno de estranheza, difícil de ser decodificado, entendido, assimilado. Para desvendar esse mistério, buscando um satisfatório entendimento disso, Chico Buarque - compositor, cantor, dramaturgo e escritor - foi buscar a melhor definição nos ensaios de Michel de Montaigne, o célebre escritor, humanista e filósofo da França, sempre a França. Chico conta em um vídeo que, por ser insistentemente questionado sobre o porquê de sua mais que imensa e eterna amizade por outro humanista e filósofo francês, Étienne de La Boétie, cuja morte precoce levou Montaigne a escrever o ensaio “Da amizade”, em que dizia apenas que gostava dele, e ponto. Quinze anos mais tarde, revendo o que escrevera, o escritor acrescentou que gostava do grande amigo “porque era ele”. Foram precisos que se passassem outros quinze anos para o filósofo fazer um novo acréscimo à frase, completando-a definitivamente: “porque era ele, porque era eu”. Chico entendeu como simples porem perfeita a definição dada por Montaigne. Achando que perfeita ela também era para definir a paixão, o amor que sentimos por outro alguém, dela se valeu para compor uma música feita para a trilha sonora do filme brasileiro A máquina, do diretor João Falcão. A essência do que definiu Montaigne está no nome da música: “Porque era ela, porque era eu”. Maravilhoso, formidável Montaigne. Maravilhoso, formidável Chico Buarque.
)
(04/09/16)

Jacques Tati, Monsieur Hulot, a França, o Humor maior / Uns caras que eu amo 6

François Truffaut, Jean-Luc Godard, Allain Resnais, Luc Besson, Louis Malle, Claude Lelouch, Jacques Tati. Mon Dieu!, mon Dieu!, são tantos e tão fantásticos os cineastas que a França já produziu! Reunidos aos mais formidáveis atores franceses, esses cineastas nos brindaram com magníficas obras que engrandecem essa arte maior que é o Cinema, produzindo ricos trabalhos nos mais diversos estilos e gêneros, estando entre eles as mais hilárias comédias. Um bom cinemaníaco que teve a fortuna de ver na grande tela do cinema uma comédia francesa feita por diretor e comediantes de elevada qualidade, jamais haverá de esquecer o que viu. Digo isso e penso logo no sempre surpreendente Jacques Tati, diretor, argumentista, roteirista e ator de formidáveis performances humorísticas que brindou o universo do cinema com inolvidáveis filmes que qualquer candidato a cinéfilo juramentado deve urgentemente assistir. Jacques Tati pode ser chamado de genial que não haverá nenhum exagero nessa assertiva, tão maravilhosamente criativos são seus trabalhos cinematográficos. Seu humor, cuidadosamente estudado, arquitetado, pesado, medido, contém mensagens sutis que revelam o olhar crítico do autor, sendo brilhantemente raro, fugindo dos maneirismos e dos lugares comuns, do humor fácil e rasteiro de certos autores que, equivocadamente, intentam seduzir o público valendo-se de recursos óbvios e criativamente paupérrimos. O humor de Tati é único e caminha por vias próprias, permanecendo no patamar mais elevado da criatividade, diferenciado, pleno de ineditismos, sofisticado, meticuloso, surpreendente. Valendo-se muitas vezes de Monsieur Hulot, seu alter ego, Jacques Tati produziu verdadeiros tesouros do Humor de da Arte. Difícil escolher qual o melhor de seus trabalhos. Pessoalmente adoro “As férias do Monsieur Hulot”, rodado em P&B, uma película para se assistir prazeirosamente um bilhão de vezes, com atenção aos seus pormenores, intentando deslindar cada detalhe mais recôndito concebido pela genial mente de Tati, valendo-se do impensável, de personagens cativantes e gags engraçadíssimas, da música e dos efeitos sonoros, com os quais uma porta pode adquirir status de personagem. Tudo isso vale também para “Playtime” e “Meu tio”. Para quem é fã desse cineasta francês, uma grande alegria foi saber que em 2010 foi produzido uma maravilhosa animação franco-britânica chamada “L’illusionniste”, no Brasil foi batizado de "O mágico". Esse belíssimo trabalho de animação que ganhou, entre outros notáveis prêmios, o César de animação em 2011, foi feito com argumento de Sylvain Chomet, a partir de uma obra inédita de Tati, sempre brilhante e atual. Uma homenagem à altura do fantástico cineasta, ator e ser humano, Jacques Monsieur Hulot Tati.
(25/08/16)

19 julho 2017

Yuri Lima, artista plástico que mantém viva a bela arte do entalhe

A arte da gravura sempre teve uma forte presença na Bahia. Notadamente a xilogravura onde despontaram grandes nomes, habilidosos gravuristas, notáveis entalhadores. Entalhar é arte que requer do artista grande habilidade no manejo da goiva, que não admite erros ao escavar a delicada madeira. H. Lima, foi um dos maiores entalhadores aqui desse afrotorrão, sendo tão bom quanto artistas consagrados que adotaram tão notável arte como forma de expressão, como por exemplo Calazans Neto e Edízio Coelho que nela fizeram fama. Em sua maioria, os artistas plásticos baianos atuais parecem ter colocado de lado a xilogravura e o entalhe, talvez pelo fato de entalhar ser uma arte que requer um considerável esforço maior ou talvez por optarem por novas formas de expressão. Qual não foi minha surpresa ao saber que o artista Yuri Lima estava mostrando seus trabalhos entalhados em madeira e pintados com tinta acrílica. Surpresa em dobro e agradabilíssima, já que Yuri é filho de H. Lima e seguidor de sua arte de bem manejar a goiva e os pincéis. Fui ver de perto a mostra de Yuri que rolou no Centro Cultural que fica bem ao lado da Prefeitura de Salvador e pude comprovar que ele herdou o talento paterno e seguramente há de trilhar uma carreira tão brilhante quanto à de H.Lima. Aproveitei para posar com os meninos ao lado do artista, próximo a um dos seus trabalhos que certamente cumprem bem a missão de manter viva a bela arte do entalhe na madeira. Axé, Yuri!
(26/09/13)

Yuri Lima e seus entalhes que mostram a Bahia

Nesta informatizada era, grandes contingentes de artistas andam buscando novas formas de expressão em meio a bites, bytes, kilobytes, megabytes, gigabytes. Mas há os que seguem valendo-se de um singelo lápis para passear sua arte pelos caminhos da criatividade. Ou de um trabalhoso bico-de-pena. Ou de pincéis e tintas. Ou de goivas afiadas esculpindo a madeira, como é o caso do meu amigo Yuri Lima, gravador dos bons, como já o fora H. Lima, seu criativo pai, um grande ser humano e talentoso artista que enriqueceu com seus entalhes maravilhosos o panorama artístico desta afrocity chamada Soterópolis. Yuri mostra que traz em seu sangue os genes da boa arte, herdados de H. Lima, seu zeloso genitor. E esses providenciais genes garantem a boa qualidade dos 20 trabalhos de entalhe que Yuri vai expor a partir da próxima segunda-feira, 09 de setembro deste 2013, às 18 hs, no Centro de Cultura da Prefeitura de Salvador, na Praça Municipal ao lado do Elevador Lacerda. Quem gosta de arte entalhada em preto e branco ou em cores deve dar uma passadinha no Centro de Cultura e dar uma conferida no trabalho de Yuri Lima, um seguidor à altura de H. Lima, o cultuado Lima Limão, meu fraterno amigo, um grande entalhador baiano.
(05/09/13)

Gutemberg Cruz e história em quadrinhos: É um pássaro? É um avião? Não, é o Super-Guto!

Desde guri o jornalista Gutemberg Cruz nutre uma imensa paixão pela Nona Arte, popularmente conhecida como histórias em quadrinhos. Ele cresceu e essa paixão cresceu junto. Em épocas de adolescência os amigos da mesma idade se divertiam jogando bola, soltando arraias e pipas, tentando descolar as primeiras namoradas. Enquanto isso, na Sala da Justiça, Gutemberg editava caprichados fanzines sobre HQs que eram sucesso entre os aficionados de todo o Brasil. Santa precocidade, Batman! Para nós, desenhistas, Guto sempre foi um anjo-da-guarda, um grande incentivador, um valioso e incondicional aliado. Organizou diversas exposições com nossos desenhos e com eles editou e publicou jornais, revistas e livros e ainda por cima sempre fez um belíssimo trabalho voluntário como nosso assessor de imprensa, empreitadas árduas até para o homem que veio de Krypton. E nunca recebeu um centavo por isso tudo. Até porque histórias em quadrinhos nunca deram dinheiro a ninguém neste país. Com exceção do pai da Mônica e da Magali, é claro, por méritos seus, trabalhando com afinco até alcançar o Nirvana. Vai aqui um link para você curtir o blog do Guto: http://blogdogutemberg.blogspot.com/ . Guto, véio,  
 receba meu mais fraterno abraço, meu reconhecimento e minha gratidão. Sniff!Burp!Zing!Bang!Crash!Zoom! e Smac! pra você, brode!
(19/07/13)

La polla en verso, Espanha, erotismo e Hilda Hilst fescenina


Da Espanha, a belíssima Espanha, de Pedro Almodóvar e de tanta gente boa, descubro o blog http://lapollaenverso.blogspot.com/ de una chica que se assina apenas d.b e que no perfil se define como uma "periodista, con total autonomia e independencia de los regímenes literarios". De lá extraio estes almodovarianamente singelos e cândidos versinhos que a notável poeta Hilda Hilst, em um dos seus deliciosos momentos fesceninos, certamente assinaria prenhe do mais lídimo orgulho:
Religiosamente tuya
Méteme un dedo por el culo
átame a la silla fuertemente
cómeme la boca y rompe aguas sobre ella
porque hoy es el dia del Corpus Christi
y tú eres el cáliz con el que me alimento.
(10/12/13)

13 julho 2017

Fauna baiana, Soterópolis, gringos


Esta pintura é um painel de uns 2 metros de altura e de quase outro tanto de largura. Com pincéis e tinta acrílica levei um mês trabalhando nele e penso ter tido a felicidade de colocar uma boa mostra de considerável parcela da fauna humana da Bahia da qual sou integrante parte. Baianas preparando acarajé, gente dançando, namorando, mercando, rezando, olhando, nadando, sorrindo, indo, vindo, comendo, bebendo, dizendo, vivendo. Sob proteção de santos católicos e orixás. Um mês. E o resultado foi sentir um enorme prazer vendo o trabalho pronto. Mas não se quedou muito tempo comigo, achou um dono melhor que eu. E se foi para bem distante da Bahia. Queria retê-lo por mais tempo para dar uma zoiadinha de quando em vez, lamber a cria, mas sei que tal pretensão não posso ter. Como disse uma vez o grande artista plástico e meu querido amigo, Lima Limão, para um cliente seu que lhe indagara se tinha muitas pinturas de sua própria lavra dentro de casa: "Quem sou eu, doutor, para ter um quadro meu? Isto é pro senhor que pode".
(17/12/14)