16 outubro 2017

Lembrando Lage, cartunista tão brilhante quanto o Sol da Bahia

Quando perdemos Lage este país perdeu um dos seus mais brilhantes cartunistas. Hélio Lage era um profissional do Humor que tinha a capacidade rara de fazer um trabalho social e politicamente engajado, transparente, preciso, que atingia infalivelmente os alvos visados. Isto tudo sem perder a sua excepcional veia humorística, que Humor era com ele mesmo. Os amigos e os colegas das redações de jornais morriam de rir com suas frases espirituosas tiradas de improviso sobre qualquer situação e em qualquer local que ele se fizesse presente. Na charge, no cartum, nas HQs, nas suas tiras, Lage tinha a marca do ineditismo. Seu Humor era algo personalíssimo, original, com um timbre só dele, que eu nunca havia visto, que envolvia, apaixonava, encantava, capturava qualquer leitor inteligente, e tudo isso usando a mais risível, a mais autêntica, a mais louvável e deliciosa sacanagem baiana. Recordo-me claramente de cartuns e tiras feitos por ele há já vários lustros. E ainda rio muito com todos, sou capaz de citar de cor textos dos balões com as falas de seus personagens, da mesma forma que, em filmes norte-americanos, cinéfilos adolescentes citam longos diálogos entre protagonistas de seus filmes preferidos. Lage era universal e ao mesmo tempo, profundamente baiano, seu Humor escreve-se assim, com H maiúsculo. Ele fazia um Humor popular, Humor moleque, Humor intimorato que arrostava os poderosos de plantão. Nestes dias em que o Brasil vive dias sombrios, frutos de um governo ilegítimo guindado ao poder através de um golpe abjeto, Lage faz falta, muita falta, com sua lucidez, sua coragem, sua sagacidade, seus cartuns reveladores, capazes de traduzir toda a canalhice contida nos atos dos que estão destruindo sonhos, esperanças, vida cotidiana, tornando pó todos os direitos trabalhistas, dando privilégios aos já muito privilegiados, e entregando de bandeja aos gringos nossas riquezas pátrias, relegando o Brasil ao humilhante papel de mera colônia, em um inconcebível e inaceitável retrocesso.
Dona Benedita, mãe de Lage, Seu Anísio, seu pai, acertaram em cheio na escolha de seu prenome, Hélio. Como Hélio, o Sol, Lage brilhou intensamente nesta terra, nesta vida e nos iluminou a todos.
Para ver trabalhos do Lage, clique no link que leva ao Portal do IRDEB:  http://www.irdeb.ba.gov.br/imagens/media/view/528 e vá em Galeria de Imagens.
(18/03/14)

14 outubro 2017

Álex de la Iglesia, suas ótimas comédias e o melhor do cinema espanhol.

Sou dos que sentem um enorme prazer ao assistir um bom filme produzido pelo cinema espanhol. Um prazer já antigo, que sempre nos chegou, aqui no Brasil, através de cineastas como Luis Buñuel e seus filmes belos e questionadores, de Saura, e, em tempos mais recentes, de Fernando Trueba e Bigas Luna. Volta e meia, quando se faz necessário, o cinema da Espanha se recicla, ousando quando tudo parece ser acomodação e mesmice. Em 1991, um novo cineasta, Álex de la Iglesia, causou ótima impressão entre os espanhóis ao rodar um curta-metragem, Mirindas asesinas. Álex, valendo-se de curtos 12 minutos, brindou os cinéfilos com um humor contagiante, personagens hilários, um timing perfeito, mostrando quem ele era e a que veio. O público e a classe artística adoraram. Tão boa impressão ele causou que ninguém menos que o já consagrado cineasta Pedro Almodóvar decidiu financiar o primeiro longa-metragem de la Iglesia, através da vitoriosa produtora El Deseo, que Pedro divide com seu irmão, Agustín Almodóvar. Assim, com esse aval luxuoso e toda uma estrutura profissional à disposição, em 1993 foi rodada Acción mutante, uma divertida comédia, cheia de alternativas e inovações, bem escrita, interpretada e dirigida, que fugia aos filmes habituais, renovando a linguagem da comédia, propondo novos caminhos ao cinema da Espanha. Acción mutante, tendo sido um filme bem sucedido, propiciou a Álex a realização de novas e maravilhosas comédias, todas muito bem produzidas, as aberturas dos filmes graficamente bonitas, criativas e modernas sendo uma constante, efeitos especiais de primeira, um grande número de atores e figurantes sempre em cena, o que requer um diretor seguro e atento. Os argumentos, que fogem ao convencional, são sempre inteligentemente escritos por Iglesia, em grande parte assinados com o notável Jorge Guerricaechevarria, uma parceria de sucesso. Alicerçado por tanta excelência, o trabalho de direção de Álex de la Iglesia mostra ser feito com total competência e dinamismo, não permitindo ele que suas comédias tenham momentos de monotonia, nem resvalem para um humor barato, previsível. Álex sempre trabalha com excelentes comediantes, atores e atrizes versáteis, conseguindo que eles deem o melhor de si. Entre tantos notáveis estão Carmen Maura e Rossy de Palma, mundialmente consagradas pelas câmeras de Almodóvar, o superstar Javier Bardem, o sempre ótimo Santiago Segura, Álex Angulo, Sancho Gracia, Enrique Villén e a bela Carolina Bang, que tornou-se esposa do diretor. Uma comédia de Álex de la Iglesia é garantia de um humor de alto nível, gostosas risadas, muitas emoções e momentos de prazer. Aos espectadores, resta buscar em locadoras ou na internet, comédias como a cult El dia de la bestia (1995), Perdita Durango (1997), Balada triste de trompeta (2010), La chispa de la vida (2012), que é um misto de drama intenso e comédia, Las brujas de Zugarramurdi (2013) e Mi gran noche (2015). Os títulos em Português são traduções ao pé da letra. Essas películas citadas são todas deliciosas, mas há muitas outras mais, entre elas uma intitulada 800 balas (2002), que me agrada muitíssimo pela sua temática que mostra a luta pela sobrevivência de um grupo de ex-figurantes e dublês que se apresentam em uma cidade-fantasma, na verdade, um antigo set de filmagem de Almeria, na Espanha, local onde se rodaram, de fato, dezenas de filmes de faroeste, muitos estrelados por cultuados astros do cinema mundial, como Clint Eastwood. 
(15/01/17)

Ramona Fradon: uma mulher talentosa que provou que ser desenhista top de histórias em quadrinhos não é privilégio dos homens.

Quando falamos de histórias em quadrinhos e de seus grandes artistas em todos os tempos, a menção aos EUA é obrigatória, tão vastíssima é a produção norte-americana de tiras e HQs em todos os gêneros possíveis desde que essa forma de comunicação foi levada a leitores do mundo inteiro. Dentre esses leitores, os mais assíduos sabem citar de cor e salteado uma extensa lista com os desenhistas e argumentistas mais afamados e talentosos. No entanto, o talento nem sempre caminha pari passu com a fama e assim, há artistas maravilhosos, excelentes em seu ofícios que apesar de seus invejáveis talentos não têm o nome conhecido nem costumam ser citados pela grande legião dos fãs da Nona Arte. Quando se fala em profissionais, as histórias em quadrinhos são sempre associadas às figuras masculinas. Geralmente as pessoas ignoram que há ótimas profissionais escrevendo ou desenhando HQs. Uma dessas profissionais chama-se Ramona Fradon, uma desenhista espetacular com uma respeitável e diversificada produção de quadrinhos, notadamente na área de heróis ou superheróis como Aquaman, Batman, Robin, Mulher Maravilha, Superman, Supergirl, Superamigos, Lanterna Verde e uma interminável lista mais. Ramona é hoje uma bela senhora de bem vividos 90 anos de idade e iniciou a trabalhar como profissional em 1950, fazendo diversas funções, seja executando desenhos a lápis ou atuando como artefinalista, capista, criadora de personagens. Sempre requisitadíssima, produziu incontáveis trabalhos para a DC Comics e para a Marvel Comics, entre outros grupos notáveis. Ganhou prêmios importantes, sendo que em 1999 ingressou no Woman Cartoonists Hall of Fame, e em 2006 no Eisner Award Comic Book Hall of Fame. Por tudo isso, Ramona pode ser também considerada uma verdadeira Mulher Maravilha. 
Ilustro essa postagem com mais trabalhos de Ramona Fradon. Deliciem-se, amáveis e privilegiados leitores. De quebra, posto uma foto dessa wonder lady para vocês verem com seus próprios olhos que aos 90 anos ela se mantém uma gatinha. E o mais importante: em plena atividade profissional, segue nos brindando com seus desenhos magníficos.
(27/08/16)

J.Bosco, um caricaturista e seu livro de maravilhas

1. Lupicínio Rodrigues 2. Bertold Brecht 3. Martin Luther King
Fui agraciado esse ano com grandes e preciosos livros de assuntos, os mais diversificados: poesias, contos, crônicas, biografia, cartuns, caricaturas. E é justamente sobre um livro de caricaturas em especial que quero falar a vocês, diletos e amados leitores. Trata-se de uma edição primorosa, graficamente muito linda, contendo magnífica mostra da obra de J.Bosco, um artista do cartum, da charge, da caricatura e do grafismo, que veio ao longo dos muitos anos de profissão mostrando uma clara e incontestável evolução de seu trabalho - do traço à maneira de criar e definir seu desenho - até atingir o atual estágio em que se evidencia sua maturidade e os caminhos próprios que adotou para nos brindar a todos nós, seus leitores e fãs. O traço de J.Bosco tem, a meu ver, algo do consagrado caricaturista Loredano. Só há mérito nisso, influências são coisas naturais na trajetória de qualquer grande artista na busca pelo seu caminho pessoal e essa ascendência certamente ajudou Bosco a criar seu trabalho pessoal, maduro, personalíssimo, tão consagrado hoje em todo o Brasil. Seu traço é bonito, suas hachuras são limpas e precisas, sua interpretação lança um olhar novo sobre personalidades já tão amplamente retratadas por outros consagrados caricaturistas. No livro, outra coisa digna de elogios é a cuidadosa seleção das 80 personalidades retratadas. Nada de subcelebridades, só o que há de melhor na música, na literatura, no cinema.  Desfilam pelas páginas do livro nomes como Pedro Almodóvar, Pixinguinha, Penélope Cruz, Cantinflas, Mazzaropi, Tarantino, Jackson do Pandeiro, Glauber Rocha, Groucho Marx, Jean Reno, Sean Connery e outras maravilhas que brindaram a humanidade com seus talentos. Um deleite para os olhos dos admiradores da nobre arte da caricatura, uma fonte generosa de prazer para todos que admiram essa forma de expressão. Eu poderia aqui dizer que Bosco está no apogeu de sua criativa carreira de caricaturista, mas teria que completar dizendo que isso é só por enquanto, a notável evolução do trabalho de JB seguramente vai levá-lo a patamares mais altos e seu traço se tornará ainda mais bonito e preciso, não tenho a mínima dúvida. Para dar uma idéia da excelência do trabalho bosquiniano, ressalte-se que a cultuada revista Gráfica, capitaneada pelo venerado Miran, recentemente dedicou uma de suas disputadas edições ao trabalho desse artista paraense, mostrando que a caricatura brasileira torna-se muito mais rica e admirada com a arte de J. Bosco. 
(Publ. orig. 29/11/15)

13 outubro 2017

Caetano, Glauber, Jorge Amado em uma seleção de artistas e intelectuais do mundo inteiro

De cima para baixo e (sem nenhuma intenção de conotação política) da esquerda para a direita:
Sigmund é Freud/Salvador Dali da Catalunha/Jean Terrible Genet/Fernando Muitas Pessoas/Albert Little Tongue Einstein/Louis Cheeks-and-Arm-Strong/Villa-Índio-de-casaca-Lobos/Charlot Chaplin/Jorge Mui Amado/Caetanos Velosos/Glauber Deus-e-o-diabo Rocha/Marlon Nada Brando/Luciano Gogó Pavarotti/Woody Woodpecker Allen/Nelson Flu-e-Flag Rodrigues/Elvis The Pelvis/Andy Peacehol/Imagine Lennon
(28/03/2014)

José Cândido de Carvalho, escritor: visão ecológica lúcida bem antes do G8

Além de nos mimosear a todos com obras literárias de grande inspiração, José Cândido de Carvalho, cidadão atento, mente lúcida, de quebra nos alertava em 1970 para os crimes perpetrados contra a natureza em nome do progresso. Falar em defesa da ecologia e do ecossistema hoje é uma praxe de muitos neste planeta com tantos crimes ecológicos e superaquecimento, ainda que os culpados pelos graves problemas contra o planeta se sintam livres para continuar em suas práticas nefárias. José Cândido, inteligente, antenado, consciente, premonitório, antevendo que tudo redundaria nos graves problemas do mundo de hoje, já alertava contra o que estava por vir e assim escreveu e publicou isto 40 anos atrás :
" E agora, não tendo mais o que inventar, inventaram a tal da poluição, que é doença própria de máquinas e parafusos. Que mata os verdes da terra e e o azul do céu. Esse tempo não foi feito para mim. Um dia não vai haver mais azul, não vai haver mais pássaros e rosas. Vão trocar o sabiá pelo computador. Estou certo que esse monstro, feito de mil astúcias e mil ferrinhos, não leva em consideração o canto do galo nem o brotar das madrugadas. Um mundo assim, primo, não está mais por conta de Deus. Já está agindo por contra própria. "
(25/09/2014)

11 outubro 2017

Mulher de Libra no Horóscopo de Vinicius de Moraes

A mulher de Libra
Não tem muita fibra
Mas vibra
Quer ver uma libriana contente?
Dê-lhe um presente.
Quando o marido a trai
A mulher de Libra
balança mas não cai.
Se você a paparica
Ela fica.
Com librium ou sem librium
Salve, venusiana
Que guarda o equilíbrio
Na corda mais fina.
(121013)

Gordurinha e sua arte, Tio Sam, a Bahia e o bebop no nosso samba. / Uns caras que eu amo 9

Gordurinha, cantor, compositor, humorista e radialista baiano, foi nome de sucesso em todo o Brasil na chamada Época de Ouro do Rádio. Difícil, quase impossível, é alguém da atual geração - tão bem servida de imagens oriundas de TVs, das câmeras fotográficas digitais ou dos múltiplos artefatos eletrônicos que a qualquer momento do dia filmam, gravam, registram imagens, divulgando-as, compartilhando-as instantaneamente - acreditar que existiu um tempo em que eram os ouvidos, e não os olhos, os condutores da arte e de toda e qualquer informação. Acontece, caríssimos smartphonísticos mancebos e tabletísticas moçoilas, que as coisas já foram assim em uma era que já era, a Era do Rádio. Nela brilharam artistas fantásticos, entre eles o baiano Gordurinha, de tantos grandes hits populares, a exemplo de Baiano burro nasce morto, composição solo sua, cantada em todo esse mulato inzoneiro. Sua gravação de Mambo da Cantareira, de Barbosa e Eloíde, fez enorme sucesso, sendo regravado em tempos recentes pelo cantante Fagner. Uma composição sua, Oróra analfabeta, em parceria com Nascimento Gomes, é sucesso até hoje, descrevendo encantos e desencantos de Oróra, uma dona boa lá de Cascadura que é uma boa criatura, mas que escreve gato com J e escreve saudade com C e que, ainda por cima, afirma adorar uma feijoada compreta. De Gordurinha é também a bela e tocante Súplica cearense, feita em parceria com Nelinho, a divertida Caixa alta em Paris, a sensível Vendedor de caranguejo. Mas o maior êxito popular de Gordurinha, certamente é sua composição, Chiclete com banana. letra e música suas, ainda que oficialmente conste o nome de Almira, como sua parceira, o que de fato não aconteceu. O que aconteceu, de verdade, foi que a música foi eternizado pela voz de Jackson do Pandeiro, Senhor do ritmo, Mestre da ginga e dono de uma maneira gostosa e pessoal de interpretar canções. Uma sacada perfeita de Gordurinha para definir o universo da nossa massificação cultural via United States, que sempre nos assolou. Á época, o sucesso da música foi enorme e ela segue sendo uma referência até os dias atuais, no que muito ajudou sua regravação por Gilberto Gil em 1972 no disco Expresso 2222. O título da música foi usado para batizar a famosa banda de axé music e a revista em quadrinhos do cartunista Angeli. Sua letra é uma declaração de amor à música do Brasil, uma afirmação de carinho e apreço a tudo que temos de bom em nossa alma brasileira, de resistência cultural diante da imposição das coisas made in USA, notadamente o constante domínio exercido pelas gravadoras e ritmos norte-americanos sobre a nossa música, no caso, vinda de um ritmo chamado bebop. De forma clara e gostosamente bem-humorada, Gordurinha informa à industria musical ianque que antes, bem antes, de nos aculturarem, eles precisariam conhecer mais profundamente, entender, respeitar e mesmo assimilar a música do Brasil, mandando-lhes um ritmado e irreverente recado: "Eu só boto bebop no meu samba, quando o Tio Sam pegar no tamborim. Quando ele pegar no pandeiro e no zabumba e entender que o samba não é rumba"..."E, concluindo, desafiador: "Eu quero ver o Tio Sam de frigideira numa batucada brasileira."    
 (20/11/16)  

06 outubro 2017

Flagra em duas cantoras da MPB de sapatos extra large./ Sexo de graça

(11/01/12)

Affonso Manta, poeta: masoquista light

Para o dulcíssimo deleite dos leitores já postei aqui alguns dos versos irreverentes do poeta baiano Affonso Manta para mostrar a vocês que a boa poesia baiana vai muito além do consagradíssimo vate Castro Alves. Pesquisando, achei estes outros versos de Manta, com sutil toque sadomasô, que são uma rara delícia para encantar os mais refinados paladares. Bon appétit.
Pisciana
Celeste é meio indócil, mas serena.
De gênio calmo. Mas de amor fogoso.
Ela me dá felicidade plena
E surra de cipó de fedegoso.
(16/10/13)

Portal do IRDEB, cultura, exposição e grandes artistas.

A beleza negra e as diversas manifestações culturais da Bahia para internautas de bom gosto.
Neste mundo hodierno, as programações que nos oferecem as chamadas TVs abertas - valha-nos Deus! - é um monturo só. As emissoras de rádios não ficam para trás e são - com raríssimas exceções - outro enorme monturo. Mas há, felizmente, o IRDEB, que mantém verdadeiro oásis no éter, a Rádio Educadora, e nos permite acessar em nossos lares a TVE. Ambos costumam nos brindar com músicas e programas de nível elevado, do agrado de pessoas que exigem mais, bem mais que sucessos fugazes de ritmos da moda, muitos de gosto prá lá de duvidoso, digamos assim. Além do mais, tanto a Rádio Educadora quanto a TV Educativa fazem um belíssimo e necessário trabalho de divulgação e preservação da cultura baiana, nordestina e brasileira. No pretérito ano de 2009, o IRDEB criou e vem mantendo com total sucesso e expressivo número de visitas, um Portal que divulga o que há de bom no panorama cultural, em toda sua diversidade. Neste referido Portal, um espaço reservado para as artes pictóricas. E é com a alma lavada e enxaguada nos mares e rios da emotividade, da gratidão e do orgulho artístico, que tenho a honra de ver meu nome e meus trabalhos incluídos e em exibição neste nobilárquico espaço que abriga feras como o saudoso Lage, um gênio do cartum. Quem o Portal do IRDEB acessa, vai ser brindado com magníficas fotos, criativos e informativos vídeos, ver dança, canto, diversificados aspectos do folclore e da cultura. Ah, ainda pode ver, de quebra, as caretas bizarras de Robério Cordeiro e de Guache Marques no Acupe. Ôpa!, êpa! Eu quis dizer, as bizarras Caretas de Acupe e os mui belos trabalhos de Robério e de Guache, gentes boas e de incontestáveis talentos artísticos, além de serem duas figuras de finas estampas. Você, preclaro leitor, pode confirmar minhas palavras sobre os tesouros contidos no Portal, clicando no link abaixo. Acessando o Portal, vá ao tópico Galeria de Imagens para se deliciar com a arte dessa galera e de um grande número de formidáveis artistas gráficos, plásticos e fotógrafos. 
 http://www.irdeb.ba.gov.br/
(04/12/2009)

Nildão, artista gráfico, Elvis, Gilberto Gil e muito humor.

Designer gráfico, humorista e cartunista, Nildão já usou de toda sua rara criatividade e humor para nos mostrar aqui nesse bloguito que o cruzamento do popstar Michael Jackson com o maravilhoso cantor de ritmos nordestinos Jackson do Pandeiro, resulta num magnífico ser batizado de Michael Jackson do Pandeiro. Massa! Agora ele usa sua criativa cuca para nos mostrar qual o híbrido resultante de um cruzamento do rei do rock'n roll, Elvis, com o rei do futebol, Pelé. E ainda nos exibe umas graças para nos encantar e provocar frouxos de riso. Enjoy yourself, baby!
O link para o blog do Nildão é http://www.nildao.com.br
(Publicado originalmente em 23/09/15)

Sexo de graça / Flagra no Timbaleiro Carlinhos Brown

(07/01/2012)


03 outubro 2017

Portal Multimídia do IRDEB: Arte e artistas da Bahia.

Não é de hoje que o IRDEB, Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia, presta mui relevantes serviços à cultura da Bahia. Para aproveitar os elásticos poderes de comunicação da internet e dar maior visibilidade aos artistas, literatos, dramaturgos, fotógrafos, eventos sociais e políticos, festas populares e otras cositas buenas dessa afro-terra, há já algum tempo o Instituto criou o Portal do IRDEB em que os interessados, os que têm sede de cultura, encontram um mundo de coisas relativas ao expressivo caldeirão cultural da Bahia, toneladas de ótimos vídeos, projetos especiais, radionovelas, jornalismo, poesia, filmes e o escambau. Você, leitor fenomenal, de vasto cabedal cultural etcétera e tal, não pode passar batido. Acesse o link e dê uma boa e atenta olhada o quanto antes, agora mesmo, se possível. Vale dizer que ao entrar no Portal, uma das muitas opções a seu dispor é clicar em Galeria de Imagens. Lá você encontrará uma seleção de conhecidos artistas da Bahia, todos com trabalhos bem diversificados, incluindo fotografias, esculturas, artes gráficas e plásticas e um mundaréu de coisas mui belas. Entre esses artistas você encontrará o cartunista Lage e seus cartuns e desenhos maravilhosos, o sempre criativo Robério Cordeiro e o formidável Guache Marques, que é um mix de talentosíssimo artista plástico e irresistível galã de novelas mexicanas, sempre arrancando suspiros de lúbricas e concupiscentes moçoilas quando por qualquer vereda su fina estampa passea. Ah, antes que me esqueça, usando da maior falsa modéstia, quero lembrar que, nessa seleta lista de amados e venerados artistas, também está Paulo Setúbal, o popular eu mesmo, exibindo uma série de trabalhos de minha lavra como ilustrador, pintor, retratista e caricaturista. Tá pensando o quê?! Não sou fraco não, véio!
******O link para o Portal é http://www.irdeb.ba.gov.br 
(24/12/16)

Biratan Porto e Max Reis com suas deliciosas crônicas.

De Belém do Pará, onde tenho amigos do peito, recebo um presente digno de rei que um desses amigos fraternos generosamente me envia. Trata-se de algo assaz envolvente, mas não se trata de um disco de carimbó do Pinduca, nem um tecnopop da vibrante, esfuziante e contagiante Gabi Amarantos. É coisa saborosíssima, mas esclareço logo que não é uma tigela recheada de um delicioso açaí. Trata-se de um belo exemplar de Ora, mas tá!. Se você não captou, explico que esse é o título de um livro de crônicas escritas por Biratan Porto e Max Reis. Magistralmente escritas, devo acrescentar, na minha modesta avaliação de apaixonado leitor do gênero, vez que crítico literário não o sou. O livro em si, é bonito, tem belas soluções gráficas para a capa e para os textos internos. Quanto aos autores, caro leitor, como sua mente sagaz e atilada já percebeu, Biratan Porto é aquele cultuado cartunista, autor de belos cartuns premiados mundo afora, por conta de seus desenhos e ideias magníficas, muitas delas abordando temas ecológicos, denunciando desmatamentos e a poluição que atinge criminosamente metrópoles, lagoas, mares e rios. E por falar em mares e rios, Biratan não é nenhum peixe fora d’água quando assume o papel de escriba. Na seara das crônicas ele transita com a mesma desenvoltura com que traça seus magistrais cartuns, exibindo sua proverbial criatividade, uma sensibilidade tocante, reveladora de uma autêntica alma de cronista, que mergulha na sua rica memória afetiva para nos brindar com jogos e folguedos de sua infância saudável, plena de alegrias, ludicidade e descobertas vividas com intensa felicidade por quem foi um típico menino do interior do Pará, para quem as ruas, becos, praças e campos de Castanhal compunham um reino a ser explorado e ele, um rei em seu corcel, intrépido, arrojado, destemido vivenciando toda sorte de possíveis aventuras, momentos épicos e plenos de magia, tão mágicos que um dia viraram letras, palavras, substantivos, adjetivos, verbos e pousaram no papel das páginas que compuseram um dulcíssimo livro de crônicas que li com intenso prazer. Além, muito além dessas reminiscências vai Biratan, passeando também pela ficção com o mesmo olhar observador, atento aos mais discretos detalhes ocultos nos lugares mais recônditos. Mas reservarei isso para abordar em um próximo texto. Neste me cabe contar também sobre seu companheiro de empreitada literária, Max Reis, que vem a ser o outro cronista de Ora, mas tá!. Que formidável dupla formam Biratan e Max Reis! Max, também se vale de sua memória para buscar na infância - igualmente vivida de forma intensa - e na sua juventude as lembranças de amigos fiéis, lugares, folguedos, namoros, as paixões adolescentes e as maduras. Tudo costurado com a mesma linha da emoção, própria de quem sente um perceptível prazer em viver, sempre olhando as coisas de um ângulo bastante pessoal em que se acumulam o humor, o amor, o filosofar, a indagação, a contestação, o apego ao modo de vida próprio dos viventes do Pará, de detalhes simples à primeira vista, mas com uma riqueza e exuberância que Max sabe captar, apreender e revelar aos leitores de suas crônicas. Não se resume ele a fazer um memorial. Das coisas vividas e vistas ao longo da de sua vida, Max Reis - mostrando intimidade com as palavras – recupera detalhes que agora revela em minúcias, coisas que por vezes escapa aos olhares dos mais desatentos, daqueles muitos que passam pelas coisas olhando sem ver. 
*****Com entusiasmo, aconselho aos que são chegados a uma boa leitura, especialmente de crônicas, que encomendem seu exemplar desse livro de leitura tão convidativa e prazerosa. Para fazer a encomenda do livro basta enviar uma mensagem para http://biratan.cartoon@gmail.com . E é bom você não marcar touca, senão a edição se esgota e aí vai ficar se lamentando. E quem olhar você, no maior desconsolo por ter dado tal bobeira, há de dizer: “Ora, mas tá!”  

Montaigne, Chico Buarque e o Amor que não pede explicações.

O que faz nascer uma amizade imorredoura? O que move uma paixão desmedidamente extraordinária dentro de nossos humanos corações? O que nos leva a gostarmos tão intensamente de uma pessoa, por vezes tão diversa de nós? Ou a nos apaixonarmos perdidamente por alguém e mantermos com esse alguém um relacionamento que, no dizer do Poetinha, enquanto dura, infinito é. Amigos, parentes, conhecidos e desconhecidos, veem essa relação vivida com olhos de quem assiste a algo em que a lógica se volatiliza e se lhes escapa, algo improvável, indefinível, pleno de estranheza, difícil de ser decodificado, entendido, assimilado. Para desvendar esse mistério, buscando um satisfatório entendimento disso, Chico Buarque - compositor, cantor, dramaturgo e escritor - foi buscar a melhor definição nos ensaios de Michel de Montaigne, o célebre escritor, humanista e filósofo da França, sempre a França. Chico conta em um vídeo que, por ser insistentemente questionado sobre o porquê de sua mais que imensa e eterna amizade por outro humanista e filósofo francês, Étienne de La Boétie, cuja morte precoce levou Montaigne a escrever o ensaio “Da amizade”, em que dizia apenas que gostava dele, e ponto. Quinze anos mais tarde, revendo o que escrevera, o escritor acrescentou que gostava do grande amigo “porque era ele”. Foram precisos que se passassem outros quinze anos para o filósofo fazer um novo acréscimo à frase, completando-a definitivamente: “porque era ele, porque era eu”. Chico entendeu como simples porem perfeita a definição dada por Montaigne. Achando que perfeita ela também era para definir a paixão, o amor que sentimos por outro alguém, dela se valeu para compor uma música feita para a trilha sonora do filme brasileiro A máquina, do diretor João Falcão. A essência do que definiu Montaigne está no nome da música: “Porque era ela, porque era eu”. Maravilhoso, formidável Montaigne. Maravilhoso, formidável Chico Buarque.
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(04/09/16)

Biratan Porto, Belém do Pará, Setúbal, Flavio Colin e uma nova tradição

 
Coisa impensável entre católicos praticantes e juramentados é ir a Roma e não ver o Papa. Pois em verdade, em verdade vos digo, fiéis leitores, que um cartunista autêntico ou um genuíno desenhista de histórias em quadrinhos que preza seu ofício, em caso de visita a Belém do Pará, tem o sagrado dever de ir ao estúdio de Biratan Porto, que é também seu lar, pedir a benção ao piramidal cartunista. Se for contemplado com a indeclinável honraria de ser convidado para tal visitação, é claro. Benção pedida e concedida, a coisa não pára por aí, pois no larestúdio do Biratan estando, sem que nenhum protocolo ou norma de etiqueta assim o determine, o desenhista deve em determinado momento do papo, colocar-se ao lado de um pôster com um desenho do incomparável, inigualável e insuperável Flavio Colin, que Bira mantém em uma das paredes à guisa de decoração e homenagem ao Mestre dos Mestres. Foi exatamente o que fiz, preclaros leitores. Mal troquei algumas idéias com meu anfitrião e...catapimba! Lá fui eu, alegre e altaneiro, posicionar-me ao lado do belo pôster de Colin, para ter uma foto minha comprovando que vivi tão honroso momento. A pose não foi estudada, mas ao ver a foto pronta, nota-se que nela, enquanto aponto orgulhoso a assinatura de Colin, seu personagem, o detetive Castro, ameaçadoramente aponta sua arma automática para meu coração vagabundo que quer guardar o mundo em mim. Em contraponto, no alto, enquanto toca um telefone, uma delicada mãozinha feminina vem sensualmente acarinhar os meus cabelos. Papeando depois com meu piramidal amigo, fico sabendo que essa história de visitantes posarem ao lado do dito pôster é algo que jamais foi planejado, sendo coisa que foi acontecendo natural e espontaneamente, e que aos poucos parece que vai se transformando numa espécie de cultuada tradição entre os cartunistas que visitam o larestúdio. Com o carisma e a popularidade de Biratan, não será surpresa se um dia esse ritual visitativo tiver um público comparável ao tradicional Círio de Nazaré. Ao Bira envio, aqui da Bahia, meus mais amistosos amplexos e os mais fraternais ósculos. Aproveito o ensejo e ilustro esta postagem com a mencionada foto, que é para nenhum vivente, cartunista ou não, duvidar do meu marcante feito. Razão, muita razão, têm os meus amigos escritores Gonçalo Junior, Vitor Souza e Tom Figueiredo, quando propagam aos quatro ventos que eu não sou fraco, não! 
(14/12/2016) 

28 setembro 2017

Manezinho Araújo, o Rei da Embolada / Uns caras que eu amo 8

"Imbolá, vô imbolá, eu quero ver rebola bola, você diz que dá na bola, na bola você não dá." Tais palavras são de uma composição do grande e versátil Zeca Baleiro e você que gosta do trabalho do cara, certamente já o ouviu cantar essa melodia de ritmo e letra instigantes. Trata-se de uma embolada, gênero musical que se ouvia muito do final dos anos trintas até os anos cinquentas e que, em certa medida, é um ancestral do rap. Você, leitor dotado de seletíssimo ouvido e de acendrado gosto musical, sabe bem que Baleiro prima pela mistura de ritmos, pelas composições originais e ecléticas, que podem misturar batidas pop com diversas ritmos regionais do nordeste brasileiro, entre otras cositas. Mas não é o sempre magistral Zeca Baleiro o motivo maior dessa postagem, ele aqui é apenas o fio condutor para falar do Rei da Embolada, título que pertence, com totais méritos, ao genial Manezinho Araújo, compositor, cantor e pintor nascido em Pernambuco em 1910. Manezinho iniciou sua carreira profissional após um inusitado encontro com Carmen Miranda ocorrido em um navio, no tempo em que ele servia a Marinha do Brasil. Durante a viagem, estimulado pelos colegas marinheiros, Manezinho cantou suas emboladas para a Pequena Notável. Ela adorou, seu empresário e sua comitiva, idem, idem. Disso veio o convite para ir ao Rio de Janeiro buscar a sorte nas rádios para nelas cantar profissionalmente, o que acabou acontecendo e Manezinho foi muito bem sucedido, sendo contratado por uma boa gravadora que com ele gravou diversos discos. Na embolada estão amalgamados o lúdico, a alegria, a malícia, a sátira ferina, uma boa pitada de molecagem popular, muita criatividade e, sobretudo, doses maciças de humor e da mais pura brasilidade. Uma das coisas positivas da internet é que ela vem sendo usada como importante registro da História e um meio de preservação da memória popular. Nela podem ser encontradas gravações memoráveis, históricas, para o deleite de quem não se limita a ouvir ouvir apenas e tão somente a onda musical do momento. Quem gosta do que é bom, há de gostar de ouvir os sucessos de Manezinho Araújo, Pra onde vai, valente?, O carreté do Coroné, Coitadinho do Manezinho, A metraia dos navá, Cuma é o nome dele? Dezessete e setecentos, e outros mais. Todos deliciosos e bem brasileiros. Viva Manezinho Araújo! E que ninguém bula com Mané do Arraiá!
(16/11/16)

27 setembro 2017

O OutraBahia está na Internet com ótimos artigos. Nessa edição, desenhos de Setúbal.

A grande imprensa brasileira mergulhou fundo no proceloso mar do golpe de 2016, apoiando-o da forma mais abjeta possível, mentindo e distorcendo fatos, criando os chamados factóides, colocando-se totalmente do lado dos patrões e contra os interesses e conquistas de décadas da classe trabalhadora do Brasil, com inequívoca parcialidade,  deixando de lado os propósitos de atuar com isenção, cumprindo seu papel de bem informar, atuando de forma imparcial e honesta. Isso é que as pessoas esperam de órgãos de imprensa em países democráticos. Talvez achando - sabe-se lá o porquê - que das procelas golpistas nasceria sua redenção. Ledo engano, total engano, fatal engano. Tempos houve que a grande imprensa tinha total poder de publicar coisas sem que houvesse contestações e o que diziam viravam verdades absolutas  Mas nesse mundo hodierno surgiu a Internet que deu voz e vez para contestações e amostragem das mais variadas visões e opiniões, mostrando que a verdade não é propriedade de ricos empresários donos de jornais, emissoras de rádio e canais de TV. Se ao aderir ao golpe a grande imprensa pensava resgatar sua credibilidade, perdeu-a de vez ao intentar, sem o mínimo respeito à Democracia, sustentar com enormes e absurdas falácias e calúnias as mais diversas, um esquema que envolve o que há de pior nesse patropi, a escória em termos de políticos e privilegiados ocupantes de cargos em instituições. A credibilidade abalada perdeu-se de vez e não será possível para essa grande imprensa tão comprometida, resgatá-la agora diante da gravidade de seus erros. Nesse vácuo, cresceram os blogs e sites de jornalistas com fortes personalidades. cheios de brios, coragem e credibilidade, jornalistas de fato, que não fogem da briga, plenos da necessária competência jornalística e determinação, dispostos a mostrar que a confiança e a dita credibilidade são frutos de um trabalho honesto, sério em que a mentira não tem vez. Aqui na Bahia eis que surge um blog jornalístico novo, o OutraBahia. Conheço boa parte da galera que está à frente, já trabalhei com quase todos, sei da competência e determinação deles. São jornalistas sérios que amam profundamente o que fazem, são experimentados, tarimbados, competentes. Atendi convite dessa galera e a eles entreguei um material com trabalhos meus, de caricaturas, cartuns. Para que vocês, amáveis e idolatráveis leitores, conhecerem o Outra Bahia e também para ver um pouco mais dos muitos desenhos meus que lá se encontram, vai aqui o link para o Outra Bahia:
http://outrabahia.com.br/colunas/paulo-setubal/ 

Screamin Jay Hawkins, Jim Jarmusch, Rock'n roll e Cinema.

Sou sabedor do elevado nível de inteligência e de conhecimentos gerais de vocês, preclaros leitores desse bloguito. Ainda assim, intuo que ao indagar se algum de vocês conhece ou já ouviu falar de um cara chamado Jalacy, um sonoro “não” será unânime. Talvez ajude um pouco se eu disser que Jalacy Hawkins era um negro norte-americano nascido em 18 de julho de 1929 em Cleveland, Ohio, USA. Mas a coisa seguramente mudará de figura se eu disser que Jalacy era músico de talento e cantor, idem, idem, e que ele usava o nome artístico de Jay Hawkins. Jay marcou a cena musical ianque, notadamente o rock’n roll, sendo um dos construtores desse estilo de música que é muito mais antigo do que podem imaginar os roqueiros mais aficionados, tendo esse dito estilo musical surgido da cultura negra, mantendo grandes analogias com o blues e outros ritmos negros, em que pese o fato de – Chuck Berry à parte - que os maiores ídolos sempre foram brancos, como Elvis, Jerry Lee Lewis, Bill Halley, todos muito talentosos, e outros mais, que é que se pode esperar em uma sociedade de supremacia branca. Jay era incrivelmente bom e inovador, tendo criado um estilo personalíssimo que findou por influenciar grandes estrelas do rock contemporâneo que são amados por fãs adolescentes que nos quatro cantos do mundo se descabelam por esses seus ídolos. Quem conhece e admira o canto e as interpretações de Janis Joplin, certamente reconhecerá em seu estilo intenso e vibrante a influência enorme de Hawkins. Quando cantava, Jay sabia usar sua expressividade de ator, assim, uma das suas características marcantes era uma interpretação de grande intensidade em que ele emitia gritos e grunhidos para fazer chegar, sem desvios, aos que o viam e ouviam, a sua força interior. Tão marcante isso era que ele ganhou um sugestivo aditivo em seu nome, sendo conhecido como Screamin Jay Hawkins. Ele foi um ator com considerável filmografia, já que mandava muito bem diante das câmeras. Muito boa, lúdica e profundamente divertida, é a sua atuação em Mistery Train, de 1989, bela película dirigida pelo criativo Jim Jarmusch. O filme pode ser encontrado nos arquivos do Youtube, se as coisas não mudarem enquanto faço esta postagem. O áudio é original, vez que Jarmusch exige que os áudios originais de seus filmes sejam mantidos para exibições em qualquer país, descartando o uso de dublagens. A cópia que vi tinha legendas em Italiano, o que ajuda a compreender os diálogos, principalmente na parte em que um jovem casal de atores japoneses dizem suas falas usando o idioma pátrio. Uma das músicas de Screamin Jay tornou-se um clássico e pode ser ouvido na voz de grandes monstros da música, feito Nina Simone. Trata-se de I put a spell on you. Garimpem o filme no Youtube ou em outro sítio da web, e deliciem-se com esse vídeo, vendo e ouvindo o grande, o magnífico, o inigualável Screamin Jay Hawkins.

26 setembro 2017

Cinema: Mistery Train, de Jim Jarmusch, um tesouro disponível no YouTube.

Arte e deleite estão sempre muito bem combinados nos filmes de Jim Jarmusch, cineasta norte-americano que, entre outras cositas, optou conscientemente por abrir mão de ganhos milionários dos produtores de filmes de Hollywood, preferindo ser livre em suas criações, seguindo, com as próprias pernas e mente, a trilha do cinema dito independente, desatrelado aos ditames dos bigshots hollywodianos, o que o salvou de ser apenas mais um cineasta fazedor de parte dessas toneladas de  filmes previsíveis que há décadas seguem fórmulas manjadas que lhes garantem substanciais lucros nas bilheterias dos cinemas do mundo. Melhor para o público do chamado cinema de arte, que pode se deliciar vendo Jarmusch imprimir sua criatividade nos seus belos e instigantes filmes. Uma outra coisa, nascida das idiossincrasias de Jim, é que o cara não permite que filmes seus sejam exibidos dublados em país nenhum, exigindo que seja mantido o áudio original de cada um de seus trabalhos fílmicos. Não tenho notícia de outro cineasta e produtor que aja assim, principalmente sendo um ianque. Essa semana, procurando no Youtube algum vídeo mostrando o incrível músico e ator Screamin Jay Hawkins, terminei encontrando um filme no qual ele participa, atuando com brilho, justamente sob a batuta de Jim Jarmusch. Trata-se de Mistery Train, rodado em1989, que se apossa bem a propósito do nome da canção que um dia Elvis Presley gravou, e que integra a bela trilha sonora do filme. Um trem chegando e partindo conduz personagens, colocando-os e retirando-os de cena. Em seus passos pelas ruas de uma Memphis, cidade do Tennessee, urbe famosa por haver sido local de morada do Rei do Rock, esses personagens deparam-se com a realidade de uma cidade que viu ficar para trás seus faustosos dias de glória, em que abrigava grandes astros da música. A câmera de Jim mostra uma Memphis que agora exibe um melancólico aspecto desgastado, muitos prédios em ruínas, já bastante castigada pelo tempo e pelas mudanças nesse mundo, mundo, vasto mundo moderno. A meio uma trilha sonora recheada de rocks, baladas e blues, com direito a Blue Moon, Ray Parkins, Jerry Lee Lewis e Roy Orbison, Jarmusch nos conduz por quatro histórias que ao princípio parecem separadas, independentes, com cada personagem vivendo seus sonhos, frustrações, angústias e dramas pessoais. Mas Jarmusch é Jarmusch e nos prepara surpresas com sua câmera, ora parada, ora se deslocando lentamente, enfocando bares, lanchonetes e hotéis em tomadas que lembram quadros pintados por Edward Hopper, pintor ianque que em suas telas congela momentos insólitos, em cenas que exibem ambientes plenos de solidão e mistérios. Sempre se valendo de bons parceiros, nesse Mistery Train Jim conta, como em diversas outras películas suas, com a participação de notáveis, tais como Steve Buscemi e John Lurie. Dois atores japoneses estão muito bem como o jovem casal nipônico que vem a Memphis realizar o sonho de suas adolescências, que é vivenciar o mesmo ambiente que seus ídolos musicais dos anos sessenta, como Elvis, viveram boa parte de suas vidas, incluindo aí cenas do lado externo da lendária Graceland, hábitat em que vivia The Pelvis. Voltando a essa lenda do rock, Screamin Jay Hawkins, o músico e ator, com seu vistoso blazer e gravata vermelhos, está impagável como o recepcionista do Arcade Hotel, em que se passa a maioria das ações do filme, atuando ao lado de Cinqué Lee, irmão de Spike Lee. Fiquem sabendo vocês, leitores fiéis, essa jóia cinematográfica é encontrável gratuitamente no velho e bom Youtube que, entre tantas midiotices postadas por um magote de gente de cérebro, digamos, pouco brilhante, nos presenteia com tesouros como esse e outros filmes de Jim Jarmusch.

23 setembro 2017

As Histórias em Quadrinhos e os Professores Álvaro de Moya, Moacyr Cirne, Sonia Bibe Luyten, Luiz Cagnin, J. Marques de Melo e Waldomiro Vergueiro.

À medida que vou lendo o livro “Os Pioneiros no Estudo de Quadrinhos No Brasil” minha imaginação vai ficando tão livre, leve e solta que acaba por me fazer revisitar minha infância. Nela estou em um cantinho sossegado de minha antiga casa devorando com os olhos uma história em quadrinhos do Spirit. Toneladas de prazer emergindo do argumento e dos fantásticos desenhos de Will Esner. O mesmo valendo para os trabalhos de Flavio Colin, Cannif, Frank Robbins, Luiz Sá e tantos mais que eu lia avidamente. Fantástico. Piramidal. Constato só agora que fui um menino abençoado, contemplado com a grande fortuna de ter um pai esclarecido que, diferente de tantos, não se deixava levar pelas campanhas difamatórias movidas contra as histórias em quadrinhos por setores mais conservadores da sociedade incluindo-se, em extensa lista, políticos arrivistas, religiosos, professores, donas de casa e quantos enxergassem nos quadrinhos um caminho para a perversão em patamares elevados. Esclarecedor, o livro faz um registro de tais barbaridades culturais e serve também para alertar as pessoas de que nem tudo que se publica e se divulga através da mídia merece credibilidade. Jornais, revistas e TVs muita vez veiculam grandes mentiras como sendo expressões da mais autêntica verdade, o que de fato não são. No caso das HQs isso ficou indubitavelmente comprovado graças à atuação de pessoas com uma visão lúcida, despida de preconceitos destruidores, sintonizadas com o avanço do conhecimento. E grandes equívocos foram se desfazendo graças ao denodo dessas pessoas, entre eles notáveis professores. Eles lutaram para que os quadrinhos fossem sendo mais e melhor estudados, compreendidos e aceitos pela sociedade de maneira geral. A luta desses professores fez com que se fossem abrindo espaço nas áreas de produção e preservação do conhecimento, escolas, bibliotecas, universidades. Décadas depois do início dessa peleja contra ferrenhos opositores dos quadrinhos, o panorama tornou-se amplamente favorável para essa forma de expressão e incontáveis eventos vitoriosos aconteceram. Entre eles, a 1ª Jornada Internacional de Histórias em Quadrinhos, em 2011. Ela mostrou a contribuição daqueles que primeiro defenderam a histórias em quadrinhos no âmbito da universidade brasileira décadas atrás. Depoimentos importantes desses pioneiros foram prestados nessa Jornada Internacional. Os organizadores do evento, entendendo que a palavra falada é volátil, houveram por bem registrar tudo nesse livro. Nos créditos do livro ficamos sabendo que a organização de “Os Pioneiros no Estudo de Quadrinhos no Brasil” é dos professores universitários Waldomiro Vergueiro, Paulo Ramos e Nobu Chinen e que a edição é da Editora Criativo. Os depoimentos registrados para a posteridade são dos professores Álvaro de Moya, Antonio Luiz Cagnin, José Marques de Melo, Moacy Cirne, Sonia Bibe Luyten e Waldomiro Vergueiro. O visual gráfico é muito bonito, sendo que a direção de arte é de Yuri Botti. As ilustrações ficaram por cargo do notável Alexandre Jubran que se incubiu de retratar com fidelidade e maestria os autores dos valiosos depoimentos. A quem interessar possa, o adulto que hoje sou faz saber que não me transformei em um marginal, como reacionários opositores das HQs vaticinavam que sucederia às crianças e jovens que lessem quadrinhos. Na verdade, tornei-me um profissional da área e tento levar a adultos e crianças momentos tão sublimes quanto os que meus autores preferidos me proporcionaram em minha infância povoada por incontáveis personagens maravilhosos das HQs. A Moya, Cirne, Cagnin, Marques de Melo, Sonia Luyten, Vergueiro e outros aqui não nominados, a todos esses notáveis professores, meus mais sinceros agradecimentos.
(Publicado originalmente em 29/10/2015)

Meio ambiente, a Ilha do Fogo, Ivete Sangalo, Juazeiro, Petrolina


A praça é do povo como o céu é do condor, diz Castro Alves. Pois a Ilha do Fogo é do povo de Juazeiro e Petrolina, afirmam com inteira razão os moradores destas duas urbes. Na região sanfranciscana, ao longo do Velho Chico, que é vastíssimo, há locais de sobra, suficientes  para o Exército dispor para fazer seus necessários treinamentos. Mas uma cúpula militar entendeu de se apossar justamente de um querido quinhão de terra que fica a uns poucos metros de Juazeiro e de Petrolina, de fácil acesso aos moradores que a utilizam há décadas e cujo vínculo afetivo é imensurável. Na Ilha do Fogo há um cruzeiro que mostra a fé dos habitantes, há lendas, há mistérios, há toda uma história de vida passada e presente neste pedaço do Rio São Francisco. Até Ivete Sangalo já contou histórias de sua pré-adolescência por ali, quando nadava nas águas do Velho Chico com amiga, uma puxando a outra por um lençol em heroicas braçadas adolescentes até achar um porto seguro na Ilha do Fogo. Ivete não faz o gênero artista consciente-e-engajada, costuma se envolver apenas com as questões musicais e nunca polemiza em outras áreas, mas oxalá que neste caso decidisse ajudar com sua popularidade aos da sua terra natal dando ao fato uma visibilidade em todo o Brasil e até no exterior. Tanta terra, tanto rio, e o Exército encasquetou de se apossar da História do povo de duas cidades irmãs. E o pior é que um juiz, mostrando que não tem compromisso algum com as legítimas pretensões populares, atendeu às questionáveis pretensões dos militares. E os moradores - coisa mais linda - mobilizaram-se e deixaram claro o que pensam disto, entoando um cântico que diz que " a Ilha do Fogo é do Povo". Não vivemos mais os tempos da ditadura militar quando eles decidiam o que queiram e nos enfiavam goela a baixo. Mas há gente que parece viver ainda nesta época de desmandos e querem tomar do povo de Juazeiro e Petrolina um bem precioso que reflete a História de vida de tantos moradores. Oxalá também  o desejo popular do povo sanfranciscano possa repercutir fazendo o Exercito repensar melhor nos ganhos e perdas, entender que os tempos são outros e que o povo precisa ver o Exército como uma instituição pacificadora que não abusa do seu poder e que está ao seu lado merecendo o respeito do povo de Juazeiro, de Petrolina e de toda a nação. http://www.youtube.com/watch?v=MollgnNbBT4
(Publicado originalmente em 01/11/13)

Affonso Manta: um girassol entre os dentes do poeta.

Para o deleite de vocês, leitores de fino trato, vai aqui mais uma dose dos versos de Affonso Manta, poeta da Bahia, para que todos possam perceber que, além de Gregório de Mattos e Castro Alves, há uma poesia baiana luxuosamente inspirada porém ainda inédita para a maioria das gentes.
O Louco
Enlouqueci, um girassol nasceu na minha boca.
Os pássaros já estão fazendo ninho
Atrás da minha orelha.
Enlouqueci, o azul explodiu em fevereiro.
Vou conhecer Londres no meu bergantim de pirata.
As ruas são-me passarela para bailar.
Não me conheceis, transeuntes?
Não me conheceis, moça de olhos calmos
Do último andar do edifício?
Sou o Louco.
Prometi as chuvas do mês passado.
Prometi as árvores.
Prometi os vinhos.
Prometi este intenso azul de fevereiro.
Faço promessas maravilhosas.
E vede que se cumprem.
Abram as portas.
Chamem vossos filhos.
Chamem vossas noivas.
Os garotos vão rir de mim.
Por acaso, não quereis que as vossas noivas se divirtam?
Não há quem não ache graça
Do meu aspecto excessivo de profeta.
Convidem todo mundo.
Trago uma flor no bolso de dentro do paletó
Para ofertar ao sorriso mais inocente da cidade.
Não tenham medo.
Não faço mal a ninguém.
Sou o Louco.
 

(15/03/14)

Batman em luta titânica contra todos os fundamentalistas

 
Nos quadrinhos, na telona do cinema, na telinha da TV, Batman sempre agradou. Muitos são os fãs que preferem a versão que mostra o cara como um herói soturno, sombrio, misterioso e implacável, que sói vociferar com voz gutural terríveis ameaças aos vilões,  em filmes e HQs. Já eu, geminiano da gema, sempre curti de montão aquele Batman dos seriados plenos de humor e onomatopeias com Adam West e Burt Ward, que deixam de cabelos em pé tais fãs mais ortodoxos e, de quebra ainda, magotes de fundamentalistas que se assumiam como inimigos de qualquer herói de HQs, além das próprias HQs, claro é. Sim, eles já existiram e hoje, se não extintos, conservam-se silentes devido à imensa paixão que atualmente a maioria das pessoas professa ter pelas histórias em quadrinhos. Hoje dizer que os quadrinhos são arte do diabo, que desencaminham criancinhas desavisadas pega muito mal e ninguém faz sucesso com um discurso arcaico e equivocado desses. Mas um dia, pasmem, isso já aconteceu e de com força. Os tais fundamentalistas num passado não muito distante mostravam suas caras assustadores e eram tão malucos quanto qualquer fundamentalista. Muito devido a estes caras e a maneira como viam o Bat-seriado e muitas HQs, foi que surgiu a tal teoria contida no livro "Seduction of the innocent", de Frederic Wertham - o Diabo o conserve - que redundariam no Comics Code Authorithy, de triste memória, e no Código de Ética, versão brasileira desta insanidade criada para salvar nossas almas do inferno e que só fez foi dar mais um golpe no movimento pela nacionalização dos quadrinhos neste patropi abençoá por Dê, prejudicando em muito os desenhistas dessas plagas tupinanquins, digo, tupiniquins. Usei neste desenho uma bat-caneta nanquim 0.5, um bat-pincel seco, um bat-reticulado e um precioso bat-graminha de Photoshop. Santa informática, Batman!
(Publicado originalmente em 29/03/14)

Affonso Manta, um poeta maior da Bahia

A mais inquestionável das verdades, preclaro e perfulgente leitor, é que nascer  aqui, nesta afroterra chamada Bahia, é nascer poeta. Eu próprio - confesso prenhe de justificável orgulho - com notável frequência sinto em mim o borbulhar do gênio e aí, a torto e a direito, dou minhas cacetadas poéticas cujo refinado e sutil lirismo fariam babar o gauche Drummond, o criativo e multifacetado Fernando Pessoa, o esverdeante Lorca, o pasargástico e alcalóidico Bandeira e tantos inspirados vates mais. Se uso pseudônimo quando isto ocorre, não é por vergonha e sim  pelo mais subido e nobre sentimento de invejável modéstia. Então, gentes finas, quando lhe pedirem para citar nomes de vates baianos, não fiquem restritos ao magistral Castro Alves e seus condores abolicionistas ou a Gregório Boca do Inferno de Mattos e suas impudicas freirinhas. Mostre quão vasto é seu cabedal de conhecimentos, cite e declame esta deliciosa poesia que aqui posto em que Affonso Manta, talentoso bardo soteropolitano, se autodefine de irreverente maneira. O poeta Manta se foi deste mundo em 2003, mas sua poesia criativa, deliciosa e com um capitoso aroma de juventude permanece entre nós, viva, muito bem viva. Leia e comprove.

Lá vai Affonso Manta
Com estrelas na testa de rapaz,
Com uma sede enorme na garganta,
Lá vai, lá vai, lá vai Affonso Manta
Pela rua lilás.
Coroa de alumínio sobre o crânio,
Lapelas enfeitadas de gerânios
E flechas no carcás.
Manto florido de madapolão,
Bengala marchetada de latão,
Desfila o marechal,
O rei da extravagância, o sem maldade,
O campeão de originalidade,
O peregrino astral.
(02/03/14)

Um cara meio macho, meio não macho / Galeria cartuns


(Public. orig. 03/12/14)

19 setembro 2017

Gonçalo Júnior e as panelinhas, um mal dos Quadrinhos

Sou fã de Gonçalo Júnior, um cara sério, jornalista competente que entende tudo de Histórias em Quadrinhos e do seu universo, autor consagrado de diversos livros com tal temática. Li este texto escrito por ele e achei por bem reproduzir aqui neste bloguito, devidamente não autorizado, para que leitores conscientes das HQs, desenhistas e demais profissionais da área e todos os interessados no tema possam ler.
O tabu das panelinhas, um mal dos Quadrinhos.
Por Gonçalo Junior

 Você faz parte de alguma panelinha dos Quadrinhos? Ou melhor, acredita que existam panelinhas no meio de quem faz, publica ou estuda Quadrinhos no Brasil? Quando pensei em escrever sobre esse tema, imaginei a primeira reação da parte de quem pararia para ler estas linhas: isso não existe, é exagero, não é bem assim, etc. Na verdade, há panelinhas do bem e do mal, digamos assim. Quase sempre, são grupos de amigos que lutam por objetivos comuns.
Como em qualquer atividade profissional humana, porém, existem as panelinhas nefastas, aquelas que atropelam valores éticos e morais em nome do se dar bem a qualquer custo para seus acampados membros. Ou pelo simples prazer de destruir o próximo. Quem é jornalista sabe bem que muitas vezes o comando das redações é revezado por participantes de poderosas panelas que tomam conta de jornais e revistas. É a turma que está sempre por cima porque um ajuda o outro, acolhe o outro. Se não há vagas, demita-se alguém. Talento? Isso é um mero detalhe, cara-pálida. Em 15 anos de profissão, posso falar com tranqüilidade sobre onde as boas relações levam certos jornalistas. Mas interessa aqui o segmento de gibis. Nesse mercado, talvez o assunto venha embrulhado em desfaçatez, de boicote, de intrigas e fofocas. Canso de ouvir comentários destrutivos sobre alguém que não se deu bem em algum projeto. É como uma vitória pessoal do “Eu não disse? Eu não avisei?”.
A panelinha é uma instituição no mundo dos Quadrinhos Brasileiros e não nasceu ontem. Faz tempo. Num evento que fui recentemente, ouvi uma piada de um amigo que procurava justificar o deserto que havia na platéia: “Era possível juntar numa ante-sala de uma cafeteria de São Paulo os artistas que faziam Quadrinhos no país. Mas não se recomendava fazer o mesmo com os editores, pois eles se matariam e dificilmente um sairia de lá vivo”. Injustiça com os editores, claro. Entre artistas, comerciantes e colecionadores, não é diferente esse tipo de hostilidade que, muitas vezes, tem a ver com panelinhas. Quadrinhos no Brasil são como torcida de futebol. Se um caiu para a segunda divisão, os outros querem vê-lo na terceira. Ou mesmo extinto. Se bem que, entre amigos, os torcedores apenas tiram um saudável sarro. Com os Quadrinhos é diferente. Como diria Raul Seixas, é muita estrela para pouca constelação em alguns casos. É muito ego para pouco espaço. Não me refiro apenas a determinados editores. Falo do "pessoal" de Quadrinhos de modo geral. Quero dizer: como aves de rapina, alguns ficam sobre a cerca de arame na torcida para que o outro literalmente se dane.
Os boicotes são o que há de mais sintomático nisso. É preciso boicotar o evento do outro para que ele aprenda a lição e não faça mais isso. Não me esqueço do dia em que circulou a informação de que uma editora de um amigo havia acabado. Foi uma festa geral, como se todos os outros estivessem acima do bem e do mal. É lamentável notar que momentos ideais para encontros de confraternização e troca de contatos, de aproximação, fiquem sempre vazios. Costumo dividir a "humanidade" e, conseqüentemente, a turma dos Quadrinhos, em três categorias: os que fazem, os que não fazem e os que só fazem falar. O grupo intermediário é a galera do bem, os leitores, os consumidores de gibis, os fãs. Enfim, a ala que realmente me interessa e em quem sempre penso quando escrevo um livro. O terceiro reúne os chamados espíritos de porco, fofoqueiros, intrigueiros, paranóicos, psicóticos. São criaturas que agem pela internet, criam personagens fictícios para ofender, destratar, difamar. Muitas vezes, alguns me colocam em saia justa. Não é fácil trafegar em todos esses meios, uma vez que exige certo tato, certo zelo para não ferir vaidades.
Um problema causado pelas panelinhas é que seus participantes perdem o senso crítico. Em sua visão do mundo, não interessa o que é melhor, mas se foi feito por alguém que tem afinidade com o seu grupo. Ninguém me tira isso da cabeça. Só assim consigo compreender porque eleições como as do HQ Mix causem tanta polêmica, uma vez que confio na idoneidade de Jal e Gualberto, seus organizadores, quanto ao processo de seleção. A rede de amigos tem uma força decisiva nos resultados desse e de outros prêmios. O que não quer dizer que se trata sempre de panelinhas. Mas, dentre os votantes, um número razoável faz parte delas e fecham os olhos para quem está competindo. Não interessa o que os outros fazem. E ponto final. É óbvio, portanto, que o sistema de votação se torna frágil porque fica vulnerável à força de interesses mesquinhos, das torcidas uniformizadas da Panela Futebol Clube. Não se indica ou não se vota numa obra de um editor ou autor "inimigo". Não importa o seu valor, repito.
Não é fácil entrar numa panelinha. Você precisa provar lealdade, que é alguém realmente confiável, sincero, que traga a cabeça de um rival numa bandeja. Quer um exemplo pessoal? Lancei quatro livros num determinado lugar e não me lembro de ter tido o prazer de contar com a presença de um único editor "concorrente" – que foram amigavelmente convidados. A não ser Eloyr Pacheco e Wagner Augusto. Sem querer ofender, isso parece coisa de gangue de rua. Ninguém pinta no pedaço do outro. Patético. Aonde quero chegar? Nos malefícios que todo esse joguinho rasteiro do boicote traz para o mercado de Quadrinhos. Conheço pessoas que dizem de boca cheia: não compro os livros de tal editora. E daí, meu irmão? Não sabe o que está perdendo. O buraco é mais embaixo. Ao invés de arregimentar leitores detonando o concorrente ou a editora que compete com a panelinha que faz parte, acredito que o caminho seja discutir saídas a médio e longo-prazos, pois vejo uma bolha se formar no horizonte.
Essa mesquinharia vai matar o mercado. Não acredito que o número de compradores regulares de gibis tenha aumentado. Pelo contrário. Vejo um sacrifício imposto a um universo reduzido de consumidores, com alto poder aquisitivo, por editores que não competem de forma saudável. Por outro lado, falta a preocupação de que daqui a dez ou quinze anos esse público se renove. A molecada adolescente que lê gibis está sendo desprezada. E tenho dito: adulto não descobre os Quadrinhos, o gosto vem da infância e da adolescência. Ou discutimos esses temas e procuramos revitalizar o mercado, a começar pelo o fim dos boicotes – e mostramos força no setor – ou nos entrincheiramos dentro de uma panelinha, a olhar pela borda e a torcer para que o mundo lá fora se dane."
(Public. origin. 20/09/14)

Bacanal bem vibrante / Sexo de graça

(221012)

Heavy Metal no Paraíso / Humor de graça


Ah, nããããão!! / Sexo de graça


O Sr. Pinto e seu traje de gala / Sexo de graça



Sogra do Rei das Selvas / / Humor de graça