18 maio 2019

Reinhard Lackinger, escritor, taverneiro do Bistrô PortoSol: meio século de baianidade austro-nagô.

Algumas efemérides em nossas existências são de extrema grandeza e imensurável importância para nós outros. Esquecer qualquer uma delas é incorrer em imperdoáveis heresias. A cada ano nos empenhamos em comemorar com crescente alegria certas datas que temos na conta de muito, muito especiais. Você tem as suas, eu tenho as minhas, fulanos, beltranos e sicranos têm as deles. Por exemplo, por exemplo, neste mês de maio de 2019 meu estimado e mais que idolatrado amigo Reinhard Lackinger, um baiano da gema oriundo das terras de Romy Shchneider, ou dizendo melhor, de Sissi, a Imperatriz, está completando 50 anos de vivência cotidiana neste país varonil chamado Brasil-sil-sil. Não, você não leu errado, atilado leitor, não é preciso correr para um oftalmologista. Meio século faz que este cara sorridente, muito boa-praça, aportou por aqui apaixonando-se à primeira vista por esta balbúrdia e por sua cônjuge, eu disse cônjuge, a amável Maria Alice, e aqui se quedou para a felicidade geral de seus amigos brasileiros, notadamente os desta Soterópolis, capital da Bahia. Entre tais amigos me incluo com o mais lídimo orgulho. Para quem não o sabe, é de Reinhard o cantinho mais aconchegante de nossa afrourbe, o Bistrô PortoSol, local onde é possível saborearmos as mais capitosas delícias da cozinha austro-húngara, e de quebra desfrutarmos do melhor chopp do mundo. Ainda que isto possa soar aos seus pavilhões auditivos como uma publicidade radiofônica, trata-se da mais verdadeira das verdades, leitor amigo. Saiba você que quando faço o inventário da minha fortuna pessoal constato que pouquíssimo, um quase nada, possuo de bens materiais. Em contrapartida tenho como inestimável tesouro a amizade de alguns dos seres mais maravilhosos que já pisaram no solo deste orbe índigo blue. Tá rebocado e piripicado, que Reinhard está neste seleto rol de amigos, sendo ele um cara de grande inteligência, vasta cultura, de aguçada visão social e política, um humanista da melhor estirpe, um progressista que não aceita retrocessos de nenhuma ordem ou espécie, um cara generoso, desprendido, solidário. A lista é bem mais extensa e eu, por receio de ser acometido de uma LER, abdico de ficar teclando outros adjetivos qualificativos e encerro por aqui dizendo que Reinhard, taverneiro hábil e inspirado escritor, é um dos melhores papos desta Bahia de tantos papos bons, coisa que podemos constatar em qualquer momento, em qualquer cenário agradável, notadamente entre um gole e outro de um chopp mui bem tirado, em uma das mesas que ficam sob o aconchego do seu, do nosso Bistrô PortoSol, no Porto da Barra. Para dizer ao nobre taverneiro, escritor e amigo Reinhard o quanto o considero um cara porreta, fiz esta caricatura dele numa técnica com gauche sob papel preto, uma espécie de xilogravura apócrifa que ele já disse muito apreciar. Parabéns por este meio século já cumprido e que venha mais um século inteiro de convivência. Um abraço deste seu amigo de longa data, um sujeito que o tem em altíssima conta, nobilárquico Reinhard. É isto aí, meu Rei!

07 maio 2019

Ademar Gomes: o escritor, nos revela as normas sagradas que um dedicado Puxa-Saco deve seguir.

NÃO IMPORTA O QUE VOCÊ ESTEJA FAZENDO, NEM COM QUEM. UM CHAMADO DO CHEFE É COISA SAGRADA E UM PUXA-SACO CONSCIENTE TEM QUE LARGAR TUDO PARA ATENDER SEU IDOLATRADO SUPERIOR.
No hilário e revelador MANUAL DO PUXA-SACO, livro escrito por Ademar Gomes, vislumbramos que seu olhar de jornalista atento, presente em cada um dos seus textos, é um agradável apanágio que se nos apresenta amalgamado a um outro, seu humor feito de refinadas ironias. Através deles nos conscientizamos de que - digam o que queiram dizer os maledicentes de plantão - a vida de um Puxa-saco nem sempre é um mar de rosas, um lago de perfumadas gardênias, uma fonte de delicadas orquídeas, um oceano de alvissareiros lírios-da-paz A felicidade pessoal é algo que deve ser preservado, mas acima dela - e bem acima de tudo o mais - está a vontade do amado chefe. O chefe é uma sacrossanta instituição que garante as refeições diárias e o padrão de vida almejado por um Puxa-saco de valor e suas vontades devem ser atendidas incontinente, sem indevidos questionamentos, injustificáveis alegações e inaceitáveis excusas.
**********Quando recebi o texto original de MANUAL DO PUXA-SACO, esta basilar obra de Ademar "Professor Bandeira" Gomes, não pude me conter e li-o de um só fôlego, tão deliciosos eram os escritos de Ademar. Aí então, lesto e presto, esbocei todas as ilustrações usando grafite 2B sobre papel Opaline 180 g. Incontinente, arte-finalizei todos os desenhos com uma dócil canetinha de ponta porosa e indiquei o meio-tom em papel vegetal. Curti à beça o texto hilariante de Ademar e, qual um Narciso soteropolitano, curti também as ilustrações que fiz para ele.
(311218)

Como a questão religiosa é determinante para um Puxa-Saco cheio de brios.

A RELIGIÃO DE UM PUXA-SACO RESPEITÁVEL É A MESMÍSSIMA RELIGIÃO DO SEU VIRTUOSO CHEFE.
Nos textos do MANUAL DO PUXA-SACO, livro de Ademar Gomes, ficamos inteirados de que um competente Puxa-saco tem que ser dedicado aos seu superior nos mínimos detalhes. Deve adotar para si preferências clubísticas e religiosas do chefe. Nada de inaceitáveis heresias, impensáveis apostasias. Um comportamento apóstata não se coaduna com uma conduta de incondicional cumplicidade que deve ser estabelecida e preservada por um Puxa-saco que se respeite. A exemplo de certas figuras que se arvoram a serem influentes líderes religiosos cristãos, o Puxa-saco deve bradar bem alto que o seu amado chefe está no cargo que ocupa por inquestionável e sacrossanta escolha de ninguém  menos que Deus, que é Onipotente e Onisciente, apesar de não ser lá tão Onipresente assim. Isso vale para qualquer que seja a fé, muçulmana, budista, católica. E muito principalmente para os que habitam esta afro-capital baiana pois isto vale também para as religiões de matriz africana como o candomblé. Não, um Puxa-saco não pode vacilar um só instante: deve, sem indecisão, abraçar a fé afro-brasileira de seu pio chefe. Quando preciso, dançar ao som do toque dos atabaques, e até mesmo fumar charuto e beber marafa no gargalo, se o momento assim determinar, ainda que isto possa resultar em recriminações nada ecumênicas por parte dos preconceituosos e teocráticos setores pentecostais e similares contra as pessoas que professam fé nas religiões afros.
**********Quando recebi o texto original de MANUAL DO PUXA-SACO, esta basilar obra de Ademar "Professor Bandeira" Gomes, não pude me conter e li-o de um só fôlego, tão deliciosos eram os escritos de Ademar. Aí então, lesto e presto, esbocei todas as ilustrações usando grafite 2B sobre papel Opaline 180 g. Incontinente, arte-finalizei todos os desenhos com uma dócil canetinha de ponta porosa e indiquei o meio-tom em papel vegetal. Curti à beça o texto hilariante de Ademar e, qual um Narciso soteropolitano, curti também as ilustrações que fiz para ele.
(311218)

Os requisitos fundamentais para quem quer ser um competente Puxa-saco, segundo o escritor Ademar Gomes.

UM PUXA-SACO TEM QUE SER IMAGINATIVO E ENGRANDECER A PLANGENTE PERFORMANCE SEXUAL DE SEU SAGRADO CHEFE.
O criativo e hilariante texto contido no livro MANUAL DO PUXA-SACO, do escritor e jornalista Ademar Gomes, é de imprescindível leitura para os que nestes tempos bicudos almejam sofregamente assomar o pedestal da dignidade puxa-saquística e se regalar com os proventos daí advindos. Só mesmo um escritor com a sagacidade de Ademar para vislumbrar e nos explicar de forma clara e definitiva os imperscrutáveis meandros contidos no puxassaquismo pátrio. Um deles reza que o Puxa-saco digno tem que possuir o dom de engrandecer os feitos do amado chefe, por mais liliputianos que sejam o chefe e seus atos.
**********Quando recebi o texto original de MANUAL DO PUXA-SACO, esta basilar obra de Ademar "Professor Bandeira" Gomes, não pude me conter e li-o de um só fôlego, tão deliciosos eram os escritos de Ademar. Aí então, lesto e presto, esbocei todas as ilustrações usando grafite 2B sobre papel Opaline 180 g. Incontinente, arte-finalizei todos os desenhos com uma dócil canetinha de ponta porosa e indiquei o meio-tom em papel vegetal. Curti à beça o texto hilariante de Ademar e, qual um Narciso soteropolitano, curti também as ilustrações que fiz para ele.

(311218)

Pincel seco e falsa xilogravura em quatro ilustrações feitas por Setúbal.

UMA HISTÓRIA EM QUADRINHOS. Ilustração para um caderno cultural esboçada com grafite 2B, arte-finalizada com um pincel Winsor & Newton number 2 e nanquim Talens, procurando fazer um jogo visual com o branco do papel. Também usei um pincel já velhinho que, igual a um trabalhador brasileiro, não tem direito à aposentadoria. Nele, umas poucas gotas de nanquim para dar esse efeito de pincel seco, técnica que muito aprecio. Clicando sobre cada uma das ilustrações, proeminente leitor, você as verá ampliadas.
CONSULTANDO O AURÉLIO. Arte feita em fakexilo ou fêiquexilo, que é uma falsa xilogravura das mais legítimas. Embora o resultado final lembre de fato uma xilogravura, aquelas que são feitas em madeira esculpidas exaustivamente com goivas, a fakexilo - neologismo que uso para nominar essa técnica antiga - é um desenho feito em um papel de cor preta, preta, pretinha, sendo trabalhado comodamente com guache branco sobre um esboço a lápis. Os tons cinza foram colocados ao final no Photoshop apenas para fazer sobressair a figura que está em primeiro plano.
CAHIERS DU CINÉMA. Esboço feito com grafite B, arte-final com caneta nanquim, pincel 02 e nanquim Talens.
ADEMAR GOMES, UM SÁBIO. Uma das muitas caricaturas que fiz do escritor, jornalista e editor Ademar Gomes, aqui visto no centro da ilustração cercado por duas tabagísticas figuras da política baiana. Desenho feito com grafite B, arte-finalizado com caneta nanquim. Um pouco de Photoshop foi usado para fazer o fundo cinza na intenção de deixar mais soltos os intrépidos personagens.

05 maio 2019

Ah, nããããão!! / Sexo de graça

19/09/17

O malpassado da vaca / Humor de graça

(05/12/15)

No momento da atração sexual o perigo abunda / Sexo de graça 3


Vacas despeitadas / Humor de graça

(210413)

Elis Regina, insuperável. / Umas minas que eu amo 4

Somos um país musical. Essencialmente, fundamentalmente, visceralmente, extraordinariamente musical. Entre nossos tesouros pátrios, temos cantoras maravilhosas que arrasam ao cantar e interpretar qualquer tipo de música. Que maravilha, que musical deleite é ouvir o canto de Gal Costa, de Rita Lee, de Clara Nunes, de Cássia Eller, de Daúde, de Adriana Calcanhotto, de Marisa Monte, de Clementina de Jesus, de Astrud Gilberto, de Flora Purim, de Bidu Sayão, de Dona Ivone Lara, de Carmen Miranda, de Elba Ramalho, de Marinês, de Nara Leão, de Dalva de Oliveira, de Ângela Maria, de...ah, são tantas e tantas e tantas! Para mim, entre elas, brilha a estrela mais cintilante: Elis Regina. Elis, a Pimentinha. Inesquecível, incomparável e, em diversos aspectos, insuperável. Elis tinha uma voz e uma força interpretativa que supera os limites do que já é muito, muito bom. Tudo quanto ela cantou ou gravou, segue tendo uma força maior e dói saber que se foi dessa vida e não se ouvirá suas possíveis interpretações para canções que amamos, gravadas por outras notáveis cantoras. Ouço uma delas interpretando uma música, gosto do resultado, mas sempre me pego em solilóquio, dizendo que extraordinário seria escutar Elis Regina interpretando aquela canção, de uma forma que só ela saberia interpretar com toda a força que lhe ia na alma de quem nasceu para cantar, com o coração pulsando forte, saindo do peito, extraindo da canção tudo que ela continha em seus mais recônditos dizeres, de um modo que ninguém jamais a igualou, deslizando por sua garganta abençoada, chegando a nós, preciosa e exata, através de sua voz, de sua força interior. Dói muito tal sentimento de perda. Elis tinha um timing que foge ao comum, mergulhava na canção, ia ao seu âmago, dali arrebatava tudo que essa canção tinha para dar em termos de emoção, fosse a mais profunda dor, melancolia, alegria, esperança, amor não correspondido, amor vitorioso, redentor. O músico César Camargo Mariano, que acompanhava Elis, diz que ela não era só uma cantora e grande intérprete - o que não é pouco - que ela ia muito além disso. César a tinha na conta de um músico, em pé de igualdade com os que a acompanhavam e isso gerava uma total empatia e cumplicidade que facilitava as coisas, era fundamental nos ensaios, nas gravações e apresentações. Elis correu o mundo, esteve em várias cidades do planeta e causou admiração por todos os recantos que passou, graças à sua grandeza musical. Mas não quis fincar raízes na Europa ou nos Estados Unidos. Afirmava ser uma cantora genuinamente brasileira, com largos e indissociáveis vínculos com nossa cultura. Aqui se quedou, em ambiente muita vez adverso para ela e  para o Brasil que ela desejava, lutou com seu talento, sua índole e sua bravura pessoal, e seguiu carreira renovando-se a cada dia, agigantando-se, chegando a um patamar em que poucas no mundo da música chegarão. Tinha a sabedoria de adivinhar o formidável, o magistral em compositores ainda neófitos, novatos em que ela vislumbrava talento em potencial, e lançou ao estrelato vários deles em gravações antológicas. Dava às canções uma força que fazia boquiabertos os próprios autores das composições, fossem eles os ainda iniciantes Gilberto Gil, Zé Rodrix, Belchior ou mesmo Aldir Blanc e João Bosco ou, certamente, o Maestro Soberano, Tom Jobim, com quem Elis fez um dia um antológico dueto, interpretando Águas de Março. Elis se foi, e é uma imensurável perda para o mundo da música. Consola-nos, ao menos, o fato de poder ver e ouvir em vídeos postados na internet, sua voz de interpretações que não encontram similares, uma voz maravilhosa, clara, forte e poderosa que encantou não só o Brasil, foi além, bem mais além, e conquistou o mundo.
(07/07/2016)

28 abril 2019

O idioma franco-português que falamos na terra do Prof. Pasquale.

Sou um liberal avant la lettre. Nos costumes, que fique claro, economicamente, nem pensar. Esse negócio de lassez faire, lassez aller, lassez passer, só é bom mesmo para um grupinho e há que se ter um olho bem aberto. Ou melhor, os dois. Sou do time da liberté, égalité et fraternité. Mas não na base de la guillotine, Sacré bleu! Já fui um enfant terrible, mas jamais um enfant gâté. Nem um franc-maçon, coisa que, aliás, vejo com muitas reservas. Sempre busquei encarar a vida como um bon vivant e tudo comigo é às claras, ali no vis-à-vis, no tête-à-tête. Nunca morei em chateau, só em modestas maisons. Fui sempre um gourmand mas nem sempre -ai de mim - um bon gourmet. Adoro cassoulet, bouef bourguignon, filet au poivre, e lambo os dedos saboreando um foie gras, mas não dispenso um bom soufflé e um caprichado ratatouille. Na sequência, crêpes Suzette flambées ao melhor estilo da Le Cordon Bleu, até minha barriga estufar, já que esse negócio de novelle cuisine não combina muito com meu estilo de sujeito de baixa extração. Já gostei muito de cognac (à la santé, mon ami Paulo Carrusô!) e de champagne. Mas nunca, mon Dieu, tive o prazer de saborear um Grand Cru, como o Romanée-Conti. Ou um Le Montrachet. Mas quem sabe, um dia chego lá. Enquanto isto vou sorvendo umas garrafas de Capelinha, que prefiro chamar de Petite Chapelle, o que engana os mais desatentos. No amor, me envolvi com cocottes e também sofri, com alegria, nas garras de femmes fatales. Curto Vaudeville e adoraria ir no Moulin Rouge assistir um Can-can. Aprecio filmes noirNovelle VagueArt Naif, Art Noveau e as delícias da Belle Époque. Já Décor e Art Déco nem tanto, talvez por eu não ser um nouveau riche. Gosto de trabalhar com papier marché e com papier glacé. Tento desenhar e pintar e, para tal, uso muito o papier couché, cada vez mais difícil de encontrar nesta Soterópolis. Primeiro faço debuxos e croquis depois uso Caran d'Ache. Adoro todas as cores, mas depois daquela Copa da França, não me falem em Les Bleus, muito menos em Zidane. Sem falsa modéstia, sou coqueluche nas altas rodas de Montmatre e outros sítios menos votados. E nas minhas vernissages, sorvendo taças de um bom bordeaux, saboreio croissant, croquete, petit-pois, crème brûlée e um bom petit gâteau au chocolat. Mon Dieu, mon Dieu! Alors, no balanço do Olodum, o meu au revoir para vocês, mons enfants de la patrie.
(040214)

Professor Pasquale fez forfait no ensino de Português, mon Dieu!

Por sempre me faltar l'argent jamais tive uma garçoniére. Nunca fui habituée de rendez-vous, em compensação frequentei muuuito o boudoir de uma madame altamente distinta. Enquanto eu, muito cafona, envergava uma pochette, ela - muito chic - ia de nécessaire e manteau. E, para meu gáudio, essa femme fatale nunca usava soutien, ficando très jolie de lingerie, e assaz coquette em uma négligée preta e em um peignoir transparentemente revelador que era de matar le diable. Mas o que ela curtia mesmo era ficar au naturel para um tête-à-tête amoroso à luz difusa do abat-jour lilás. Ulalá! A frase que eu mais ouvia dela era "Voulez-vous coucher avec moi ce soit?" Eu sempre dizia "oui" sem falar uma palavra, de um modo que nem Marcel Marceau faria melhor. Ela sempre organizava uns soirées na base do petit-comité, onde eu era o piéce de résistance, que não sou fraco, não. E a danadinha sempre convidava uma certa mademoiselle muito cheia de predicados que fazia miché e - noblesse oblige - com um belíssimo derrriére de se comer rezando, sendo que a talzinha era uma mistura de uma jovem Catherine Deneuve com a Isabelle Adjani, e dona de um menu sexual ricamente sortido, sendo ela apetrechada de habilidades que me transformavam em um Marquês de Sade afro-baiano. Sacré bleu!, mas que pas de deux, que nada!, a gente se enroscava num ménage à trois alucinante - que eu não sou de ficar só nessa de voyeur - e lá vinham elas com miríades de bouquettes e eu com um verdadeiro pot-pourri de safadezas para atender a ambas, a todo instante solicitando meus proverbiais faire minettes. Bem, se alguma coisa eu tenho nesta vida é savoir - faire em sacanagens de alcova e aí tome-lhe entrée e reentrée, entrée e reentrée, entrée e  reentrée, a meio seus gritos e sussurros, e eu naquele déjà vu só vendo la vie en rose. Vive la différence! Insaciáveis elas vinham prá cima de moi, e eu, sendo o crème de la crème, não deixava barato e fazia minha parte comme il faut. E bota comme il faut nisto. Et alors, c'est fini. Ao som de La Marseillaise em ritmo de samba, mes chers amis, maintenant eu lhes digo au revoir.
(030214)

Não é preciso Pasquale, Sacconi ou Sérgio Nogueira para se falar bem o Português

 
Não sou nenhum mulato inzoneiro mas sou pleno de malemolência. Sou um cara do balacobaco,  cheio de borogodó e de ziriguidum. Sou vacinado contra tudo que é ziquizira. Nunca fui de encarar nenhuma tribufu e comigo não tem ingresia, não tem trelelê, nem  forrobodó. Na hora do bafafá faço a maior quizumba, não sou de dar piriri, nem piripaque e muito menos caruara. Comigo, distinto, não tem trelelê nem trololó. Chego enfiando sapecaiaiá, distribuindo catiripapo e o fuzuê vira um quiproquó de fazer gosto e tudo acaba no maior bundalelê.
(04022014)

Minha Pátria é minha língua. E de Fernando Pessoa, de Pasquale, de Adoniran.

 
Moro longe, pra lá da Conchichina. Tenhor pavor de pastor alemão e de gripe espanhola. Tenho mania de comer pão francês com molho inglês . Nunca dirijo um Toyota, um Mitshubishi ou veículos da Asia Motors quando em mão inglesa. Democracia? Plebiscito? Tertius? Pra mim vocês estão falando grego. Loja de artigos de R$1,99: eis o verdadeiro negócio da China. Pra consertar guitarra baiana, uso chave inglesa. Tive um canário belga que cantava Brasileirinho. Você costuma comer americano? Eu prefiro traçar o bacalhau da bela portuguesa, quer dizer, um belo bacalhau à portuguesa. Empresas judias jamais adotam semana inglesa. Em Milão todo bife é à milanesa. Na Ásia toda febre é amarela. Na Rússia toda salada é russa. Na França todo beijo é francês. Na Turquia todo banho é turco. Aliás, nesse calorão, banho turco grátis é presente de grego. Só falsos amigos nos servem uísque paraguaio. Quem tem boca vai à Roma e come pizza alla napolitana. No Japão faça como os japoneses e nunca peça bife à cavalo, mesmo porque você pode acabar comendo basashi, que é um sashimi feito com carne de equino e aí sua indigestão pode ser cavalar. E a proposito, estando na China jamais peça um cachorro-quente. Você pode ter uma surpresa pouco agradável quando lhe trouxerem o prato. Meu parco francês é só pra inglês ver e quando a coisa está ficando russa eu saio à francesa.
(040214)

23 abril 2019

Mulher de Touro no Horóscopo de Vinicius de Moraes


O que é que brilha sem ser ouro?
- A mulher de Touro!
É a companheira perfeita
Quando levanta ou quando deita.
Mas é mulher exclusivista
Se não tem tudo, faz a pista.
Depois, que dona-de-casa...
E à noite ainda manda brasa.
Sua virtude: a paciência
Seu dia bom: a sexta - feira
Sua cor propícia: o verde
As flores dos seus pendores:
Rosa, flor de macieira.
(09/05/15)

Jô Oliveira, artista gráfico cercado de grana alta / Pintando o Set


Dos desenhadores e grafistas brasileiros, meu amigo Jô Oliveira é quem mais viveu a vida cercado de grana, mas muita, muita grana mesmo, e bote grana nisso. Botou? Bote mais, bote mais! É que um dia Jô pegou seu matulão e deixou seu amado Pernambuco buscando dias melhores em Brasília, vindo a tornar-se um confiável funcionário da Casa da Moeda. Quer dizer, confiável mas ainda assim sujeito a rigorosas revistas diárias na entrada e na saída da dita Casa, vez que por que lá eles entendem que todo cuidado é pouco e vai daí que não dão mole nem a um sujeito idôneo como o Jô. Nessa tal Casa da Moeda é criado e impresso - se minha amnésica memória não falha - toooodo o dinheiro deste país dito emergente. Milhões, bilhões, trilhões, caralhaisquilhões. Jô é - ao menos era - um daqueles caras responsáveis por fazer os belos desenhos, arabescos e filigranas cheias de cores e suas nuanças que estampam as cédulas às quais por vezes o povão  costumava lhes emprestar o nome de acordo com o valor ou cor característica. "Quanto custa isto?" "Um barão" ,"Um Cabral", "Uma abobrinha". E quando perdiam o tal valor, que tristeza, que depressivo. É  como canta o bardo cearense Falcão em um de seus clássicos: "Eu sinto na pele o desgosto / De Anísio Teixeira / Cunhado feito um abestado / Em uma cédula de mil...". E voltando ao Jô Oliveira, um dia, em Recife, com seu traço bonito fez esta minha régia fina estampa que usei para ilustrar esta postagem ditada pela saudade de tão nobre amigo. Nobilárquico Jô, nem todo o dinheiro que já o cercou aí na Casa da Moeda serviria para pagar tudo que seu talento artístico já produziu. Abração procê, cabra bão!
(22/04/14)

Sérgio Rês, o Moço do Coração de Pastel, e a Velha Jovem Guarda

Todos sabemos que hoje em dia Sérgio Rês é um consagrado cantor mas que é também um criador de gado e um dos mais abastados fazendeiros deste país. No entanto, no começo de sua carreira bovino-musical teve que comer o pastel que o diabo amassou. Ou melhor, teve que se virar vendendo pastel nas feiras livres para ganhar algum tutu. Até que Rês levava uma certa vantagem pois sendo muito alto sobressaía-se na multidão com seu tabuleiro na cabeça e isto auxiliava no sucesso da vendagem. O imaginativo cantante ainda por cima criou um jingle para seu produto que dizia "Se você pensa que meu coração é um pastel, não vá mordendo, pois não é!" Um cliente seu, que era dono de uma gravadora, gostou do que ouviu e contratou Sérgio Reis para seu cast. O resultado foi o que todos já sabemos: o sucesso chegou trazendo muito dinheiro, o cara virou dono de muito gado e político cheio da grana. Gosta muitíssimo da política e de seus rebanhos e tanto gosta que, como político, parece não enxergar muita diferença entre gado e gente. Atualmente Sérgio Reis ainda gosta de saborear um bom pastel. Desde, que fique bem claro, que o recheio esteja à altura de seu atual status, o que significa que o dito recheio tem que ser de lagosta, faisão ou caviar Beluga de ovas advindas das gélidas águas do Volga ou mesmo as do Esturjão Siberiano do Lago Baukar, trazidas do distante Tutuquistão do Norte.
(100512)

Flagra em duas cantoras da MPB de sapatos extra large./ Sexo de graça

(11/01/12)

Sexo de graça / Flagra no Timbaleiro Carlinhos Brown

(07/01/2012)


Varal de metrópole / Humor de graça

(141112)

13 abril 2019

Paulo Coelho: depois do duro Caminho de Santiago, finalmente La vie en rose


Deambulava eu pelas ruas de Paris em álacre matinada quando eis que me deparo com meu confrade Paulo Coelho. O leporídeo escriba atravessa a rua em minha direção, aproxima-se e me estreita num fraternal e brasileiríssimo amplexo. Pede-me notícias do greenyellowblueandwhite torrão. Digo ao meu caro amigo que aqui na terra estão jogando futebol, tem muito samba, muito choro e rock' n roll, mas que depois de tanto verde-oliva y otras cositas más,  a coisa aqui está preta, e é muita pirueta pra cavar o ganha-pão. O mago, afável como de habitude, despede-se de mim, volta seus tacões para Montmatre e retoma seu caminho (de Santiago) em inabalável tranquilidade. E eu descubro que não há nada mais maravilhoso que ser brasileiro. Desde, é claro, que você more no lugar certo. Numa requintada mansão no sul da França ou num deslumbrante palacete na Suiça, por exemplo, e não numa mansarda na invasão da Baixa da Égua ou do Vale da Muriçoca. Desde, também, que sua conta bancária esteja abarrotada com miríades e miríades de Euros que lhe permitam fazer matinais gargarejos diários com Romanée-Conti - santo remédio! - pelo simples fato de você ter mais de 100 milhões de livros vendidos no planeta, cifra que faria o finado afinado e refinado Michael Jackson ficar preto de inveja. Santé, xará!
(Public. orig. 27/08/13)

Woody Allen, o cartunista Laerte, o artista plástico Flávio de Carvalho e o mundo dos crossdressers.

Estilistas, costureiros, bordadeiras, correi. É chegada a hora de tesourar, costurar e alinhavar para uma nova vertente que surgiu forte no mundo da moda: o crossdresser. Não que isso seja de fato coisa nova, na verdade a coisa vem de longe. No cinema, entre outras películas, o tema foi abordado pelo cineasta Woody Allen ainda nos anos 70 em um filme intitulado "Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo e não tinha coragem de perguntar". Nele, um sisudo pai de família tem o incontrolável impulso de vestir-se às escondidas com as roupas da esposa, passando, assim trajado, horas a fio admirando-se no espelho. Aqui no Brasil, há já algum tempo, graças ao cartunista Laerte, o tema voltou à baila, já que este artista reivindicou para si - e conseguiu, com muita personalidade - o direito de se trajar em público com vestimentas até então consideradas de uso restrito ao mundo feminino. Curiosamente, vale lembrar que mulheres lutaram e ainda lutam muito para conseguir direitos que sempre lhes foram negados. Voto, cargos políticos, empregos, um mundo de coisa. Mas ao mesmo tempo sempre lhes foram franqueadas coisas que aos homens eram negadas, sempre puderam elas desfilar por ruas e ambientes com cabelos cor-de-rosa ou azuis ou verdes sem reações hostis dos varonis. Também nunca sofreram maiores constrangimentos ao usarem indumentárias tidas como sendo de uso exclusivo dos barbados, como calça comprida. Esta até que deu um pouco de trabalho para elas no início mas hoje é mais que normal. Comum é ver-se por aí belas evas envergando chapéus e ternos masculinos, com gravata e tudo. Mulheres acendendo puros em bares e até jogando sinuca sem jamais aparecer uma nega maluca dizendo que aquilo é uma aberração. Quanto aos homens, pobres homens. Tirando os escoceses e povos da Índia, homem com saia não tem vida fácil. Basta lembrar o grande alvoroço que causou o artista plástico Flávio de Carvalho em 1956 ao desfilar pelo Viaduto do Chá, em Sampa, seu Traje Tropical composto de saiote e mangas curtas, deixando estarrecida e indignada a patuleia da pauliceia. Uma multidão seguia atrás do performático artista, gritando agressivamente em seus ouvidos algo assim como: "Viaduto!" "Viaduto!" Sem colher de Chá. No fim das contas, pelo que eu li sobre personalidades brasileiras, quem estava certa mesmo era uma senhorita chamada Luz del Fuego, que não usava roupa masculina nem feminina, preferindo - a título de indumentária - usar sobre seu corpo desnudo apenas uma prosaica e confortável serpente viva. Uma autêntica snakedresser.
(15/03/13)

Deus e o tamanho do pingolim de Adão / Humor de graça

(04/03/2014)

11 abril 2019

Desenhos de Setúbal para trilogia de quadrinhos Em Terras Americanas

 
Antonio Cedraz, o aclamado Mestre baiano dos quadrinhos, emérito criador do personagem Xaxado, em uma dessas segundas-feiras de céu cinzento me telefonou e disse que o a Editora Cedraz tinha um projeto para fazer três histórias em quadrinhos aguardando o resultado de uma licitação da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. Falou que se o projeto fosse escolhido O Estúdio receberia recursos do Fundo de Cultura do Estado, que as chances de escolha eram grandes e, melhor ainda, que eu seria um dos participantes na feitura das HQs. Diante de tão alvissareira notícia o tom cinza do céu desvaneceu-se imediatamente para mim. Contou-me Cedraz que ele e Tom Figueiredo, escritor, argumentista e seu braço direito no Estúdio, haviam me escolhido para desenhar a trilogia batizada de Em Terras Americanas que seria realizada em uma linha diferente daquela dirigida para o público infantil habitualmente adotada pelo Estúdio Cedraz e que o tornou um desenhista admirado em todo o Brasil. O estilo a ser empregado seria aquele que costumeiramente se vê nas revistas de super-heróis em que os desenhistas mostram conhecimentos de anatomia e domínio de sombras e iluminação, movimentos, indumentárias, expressões fisionômicas. Passou-se um tempo e o melhor acabou acontecendo: o projeto do Estúdio Cedraz foi realmente selecionado. Agora restava apenas aguardar a chegada da verba oficial para podermos tocar o trabalho. Enquanto isso não acontecia tratei de intensificar meus treinos de desenho de anatomia, mergulhando em livros que tenho sobre o assunto, rabiscando em toneladas de papéis e procurando ver o que estava se publicando de novidade nos quadrinhos na linha pretendida, os conceitos mais em voga, os novos grafismos utilizados. Todo esforço e treino para aprender a desenhar corretamente a anatomia é pouco. Há que se empenhar muito, copiar dos livros adequados mãos, pés, pernas, olhos, narizes, bocas, fazer, refazer, treinar compulsivamente dias e dias buscando aprender tudo sobre cada músculo do corpo humano, movimentos, expressões fisionômicas. E há ainda as sombras, ângulos, enquadramentos diversos, entre otras cositas, detalhes que exigem uma dedicação e uma perseverança que existem somente nos que gostam muito de desenhar e pretendem melhorar o próprio desempenho. Por fim, Tom Figueiredo anunciou que havia chegado a hora de iniciarmos o trabalho que foi feito em uma equipe composta pelo próprio Tom, na qualidade de autor do argumento, do roteiro e até mesmo dos providenciais rafes, aqueles desenhos rápidos feitos para orientar os desenhistas de quadrinhos. De posse do material passado por Tom tratei de iniciar o trabalho de desenhar as mais de sessenta páginas que continham as três histórias de Em Terras Americanas e de suas respectivas capas, todas feitas em pranchas de papel em formato A3, como manda o figurino tradicional. Desenhar histórias em quadrinhos pode ser algo divertido e compensador, mas como já disse antes e repito agora, é também um trabalho árduo que exige uma boa dose de rigor, disciplina e uma dedicação exclusiva ou quase isso. Umas bronquinhas do Tom, também contam muito para a celeridade do processo. Vale dizer que o sempre presente trabalho da coordenação de produção foi fundamental também para que eu pudesse trabalhar com a necessária segurança e tranquilidade. Não sei dizer aqui o quanto demorei desenhando e artefefinalizando com nanquim a primeira das revistas, mas tão logo terminei passei incontinente para Vitor Souza, o colorista encarregado de enriquecer com suas cores as HQs, para que ele desse início à sua própria maratona colorindo sozinho as mais de sessenta páginas, uma equipe de um homem só. Enquanto Vitor coloria a primeira das revistas passei a desenhar e artefinalizar a segunda. E assim a coisa caminhou até que finalmente concluímos as três HQs para a alegria da equipe e para a felicidade geral desse povo varonil que com justificável júbilo oscula o auriverde pendão da minha terra que a brisa do Brasil beija e balança. Bom é saber que por terem sido publicadas com numerário advindo de verba oficial, as três revistas estão sendo vendidas por preço mais que acessível, sendo que a renda angariada será totalmente revertida em favor da ONG Centro Comunitário Batista Soteropolitano . Os amantes dos quadrinhos interessados podem adquirir por módicos R$12,00, todos os três exemplares de Em Terras Americanas ali na KATAPOW (Av. Octávio Mangabeira, Edifício Privilege, loja 7, Pituba) e na RV CULTURA E ARTE (Av. Cardeal da Silva, 158, Rio Vermelho), localizadas ambas nessa cidade de Salvador, Bahia, espaços especializados na venda do que há de melhor no universo dos quadrinhos (Um rápido e necessário PS: a loja KATAPOW já deixou de existir, mas a RV continua firme, para alegria dos quadrimaníacos). Os leitores que não moram em Salvador ou mesmo os que não têm tempo de passar em uma das lojas citadas, podem encomendar seus exemplares pela Internet enviando o pedido em e-mail para editora@estudiocedraz.com.br. Nesse caso o preço é R$18,00, com o frete incluso. Enquanto você não adquire seus exemplares, usando de minha proverbial generosidade, postei acima uma capa e duas páginas das HQs para permitir que você, leitor amado, possa aqui e agora prelibar alguns momentos de Em Terras Americanas. 

Affonso Manta, um poeta maior da Bahia

A mais inquestionável das verdades, preclaro e perfulgente leitor, é que nascer  aqui, nesta afroterra chamada Bahia, é nascer poeta. Eu próprio - confesso prenhe de justificável orgulho - com notável frequência sinto em mim o borbulhar do gênio e aí, a torto e a direito, dou minhas cacetadas poéticas cujo refinado e sutil lirismo fariam babar o gauche Drummond, o criativo e multifacetado Fernando Pessoa, o esverdeante Lorca, o pasargástico e alcalóidico Bandeira e tantos inspirados vates mais. Se uso pseudônimo quando isto ocorre, não é por vergonha e sim  pelo mais subido e nobre sentimento de invejável modéstia. Então, gentes finas, quando lhe pedirem para citar nomes de vates baianos, não fiquem restritos ao magistral Castro Alves e seus condores abolicionistas ou a Gregório Boca do Inferno de Mattos e suas impudicas freirinhas. Mostre quão vasto é seu cabedal de conhecimentos, cite e declame esta deliciosa poesia que aqui posto em que Affonso Manta, talentoso bardo soteropolitano, se autodefine de irreverente maneira. O poeta Manta se foi deste mundo em 2003, mas sua poesia criativa, deliciosa e com um capitoso aroma de juventude permanece entre nós, viva, muito bem viva. Leia e comprove.

Lá vai Affonso Manta
Com estrelas na testa de rapaz,
Com uma sede enorme na garganta,
Lá vai, lá vai, lá vai Affonso Manta
Pela rua lilás.
Coroa de alumínio sobre o crânio,
Lapelas enfeitadas de gerânios
E flechas no carcás.
Manto florido de madapolão,
Bengala marchetada de latão,
Desfila o marechal,
O rei da extravagância, o sem maldade,
O campeão de originalidade,
O peregrino astral.
(02/03/14)

Humor de graça / A fé remove montanhas


Pirata da cara de pau / Humor de Graça

(05/12/13)

Falha na comunicação / Humor de Graça


07 abril 2019

João Ubaldo Ribeiro já previra o golpe de 2016 e quem haveria de mandar em uma ''democracia de conluios e negócios escusos".

O texto abaixo é do escritor, jornalista, roteirista, cronista e Mestre em Ciência Política, João Ubaldo Ribeiro, ganhador do Prêmio Camões, galardão máximo para escritores da Língua Portuguesa, um brasileiro extremamente inteligente, de elevada consciência política e social que disse isso tudo aí antes, bem antes de acontecer o nefando golpe jurídico-político-midiático que assola o Brasil, que findou por  colocar no poder uma escória. JUR não estava especulando. Disse o que disse por conhecer de sobejo o Brasil e suas gentes. 
João Ubaldo Ribeiro:
"Desde que me entendo, ouço falar em reformas e as únicas que lembro ter visto efetivamente realizadas são as ortográficas. Talvez eu esteja sendo injusto e tenha presenciado a realização e implantação de alguma reforma não ortográfica. Mas não aquelas que antigamente eram chamadas de “reformas de base” e consideradas essenciais para o desenvolvimento ou até a sobrevivência do País. Reforma agrária, reforma tributária, reforma judicial, reforma administrativa, reforma educacional e por aí se desfiam as benditas reformas, um longuíssimo rosário, impossível de recitar de cor. Ao mencionar-se sua necessidade ou urgência, todos assentem com ares graves – sim, sim, naturalmente, as reformas.
Contudo, passar da anuência à ação é aparentemente impossível. Reforma é uma coisa na qual se fala, mas não se faz. É excelente para comícios e entrevistas, mas não para agir. De vez em quando, um governante diz que fez uma reforma. Se não me engano, o ex-presidente Lula anunciou que fez uma ou duas reformas. Não lembro quais e provavelmente nem ele, são coisas do passado e ninguém viu reforma nenhuma mesmo.
Tenho uma teoria simples a respeito desse assunto. Todas as reformas, de todos os tipos, iriam prejudicar os que ganham com a manutenção do que está aí. Como o País, de cabo a rabo, em todos os níveis, em todas as classes e categorias, é essencialmente corrupto, a corrupção não deixa. Não existe setor da administração pública, novamente em todos os níveis e dimensões, que não seja território de uma ou diversas máfias, algumas das quais institucionalizadas e quase todas alimentadas por uma burocracia pervertida e feita para ensejar propinas, vender influência e fazer proliferar os despachantes e seus equivalentes mais graduados, os chamados consultores – entre estes últimos constando o hoje injustamente esquecido filho de d. Erenice. ( N.R - JUR refere-se a Israel Guerra, filho da ex-Ministra-Chefe da Casa Civil
). Diante da realidade de que há quadrilhas em ação em todos os poderes, tanto de fora para dentro quanto de dentro para fora, não se vai acreditar que os beneficiários de determinado estado de coisas abdicarão de suas vantagens pelos belos olhos de quem quer que seja. Ouso mesmo dizer que, em muitas das áreas mafiosas, quem for fundo demais na investigação e na reforma corre o risco de morrer. São muitas as histórias de assassinatos realizados a mando de algum esquema de corrupção, pelo Brasil afora. Não escapa área nenhuma, a começar, simbolicamente, pelas próprias polícias.
E não escapa, naturalmente, o Congresso Nacional,
onde, segundo as más línguas (observem meu uso copioso do adjetivo “alegado”, ou quem vai preso sou eu) há alegados ladrões, alegados estelionatários, alegados salafrários e outros alegados, em tamanha fartura que desafia a contagem. Agora o Congresso está entregue à tarefa de realizar a reforma política, todo mundo fingindo que acredita que algo que prejudique os interesses imediatos dos congressistas será aprovado. E que o nosso sistema eleitoral está sendo aperfeiçoado.
Aperfeiçoado para eles. O que eles pretendem chega a parecer brincadeira, mas, infelizmente, não é. Querem, como se sabe, instituir o que já chamam afetuosamente de “listão”. O eleitor não votará mais em um candidato, mas na lista elaborada pelo partido, na ordem estabelecida pelo partido. Atualmente, com a lista aberta, pelo menos o eleitor escolhe uma pessoa e essa pessoa, se bem votada, fatalmente se elege. Mas não vai haver mais esse direito. De agora em diante, com a lista fechada, o eleitor escolhe o partido com que se identifica e lhe entrega a escolha dos nomes que serão eleitos.
Só pode ser deboche. Que significa um partido político no Brasil, senão a conglomeração temporária de interesses que raramente são os da nação, mas de grupos, categorias ou indivíduos? Até os programas partidários não passam de florilégios de frases vagas e altissonantes, tais como o combate à desigualdade e a injustiça social, os projetos de inclusão, o desenvolvimento sustentável, a preservação do meio ambiente e outras generalidades, quem ouve um, ouve outro e, se o nome do partido fosse apagado, não haveria quem o distinguisse. Apareceu até um partido que se declara não ser de esquerda, nem de direita, nem de centro. Talvez seja o mais honesto deles todos, por mostrar que reconhece a realidade política brasileira. Aqui nenhum partido quer dizer nada mesmo e podiam usar todos a mesma sigla: PPPPP, Partido Pela Predação do Patrimônio Público, porque tudo o que seus membros aqui almejam é abocanhar a parte deles.
Agora vêm com essa novidade da lista fechada. Se já não nos é permitido dar palpite no uso do nosso dinheiro, daqui a pouco nos tirarão o direito de escolher nossos governantes. Ou seja, seremos mandados pelas organizações oligárquicas e caciquistas dos partidos. Seremos uma “democracia” governada por conluios e manobras escusas. Ou por 171, como queiram."

( Trechos de artigo de João Ubaldo Ribeiro, ''Se reformarem é para piorar.''
 (01 novembro 2011 )
http://academia.org.br/artigos/se-reformarem-e-para-piorar

05 abril 2019

Lage, cartunista e caricaturista maior, tinha lá seus pecadilhos / Pintando o Set 5

O cidadão soteropolitano Hélio Roberto Lage era um formidável arquiteto, merecidamente graduado e de muita competência. Poderia levar uma vida digna com essa sua edificante profissão. Ao invés disso, preferiu seguir os conselhos de algum anjo torto, desses que vivem na sombra, e foi ser cartunista na vida. Um cartunista maior. Munido de seu talento gráfico, elevada consciência política, presença de espírito e invejável sagacidade, lá ia Lage para a redação do jornal em que trabalhava e traçava charges impactantes, cartuns demolidores, caricaturas que desnudavam os políticos mais infames. Podia parar por aí, bem que podia. Mas quem disse que ele parava? Pois é chegada a hora da verdade e a verdade tem que ser dita: Lage não conduzia a nova profissão com a devida seriedade e sempre foi um cartunista metido a engraçadinho. Ao invés de se portar de forma séria, como sói acontecer aos profissionais que têm consciência do dever de ofício, tinha ele o reprochável hábito de viver fazendo piadinhas em seu ambiente de trabalho e mesmo fora dele. E ainda as desenhava, como agravante. É abalado e profundamente traumatizado que aqui deponho que, de forma recorrente e impiedosa, fui vítima dessas suas gracinhas sem graça das quais todos achavam a maior graça, menos eu, a inerme vítima desses motejos gráficos. Desde 1981, ano em que muitos dos leitores desse bloguito sequer haviam nascido, guardo comigo, cheio de mágoa e ressentimento, essa caricatura que ora posto, da lavra de um sujeito que se dizia meu amigo mas que retratava-me de maneira injustificavelmente sórdida, impiedosamente abjeta. Desconfio que ele era movido pela mais infame das invejas, pois sabendo-me um cara de físico apolíneo, um Adônis, um invariável escopo da concupiscência feminina, Lage traçou de mim esta caricatura em que ele subverte tudo, colocando meu avantajado peito de remador no lugar da minha barriga tanquinho, delineada em incansáveis e espartanas malhações. Ó, deuses do Olimpo cartunístico, daí do vosso sacrossanto empíreo enviai-me forças para seguir em frente e suportar tantos e tão desmesurados infortúnios movidos pela mais abjetas zelotipias e as mais hediondas invídias.
(14/07/12)

Pedro Almodóvar, Liberdade, Sexualidade, Democracia e o Avanço da direita no mundo.

Pedro Almodóvar, no traço cinematográfico do cartunista e também ator J. Bosco.
O reacionarismo, o racismo, a homofobia têm macróbia existência no Brasil. Às vezes ficam embuçados nas sombras, ali bem escondidinhos, esperando a hora de mostrar suas caratonhas. Outras vezes saem à luz, falam de forma estentórea. Quando se sentem fortes, engrossam ainda mais as vozes, gritam alto, hostilizam, agridem e fazem tudo para subjugar os que deles discordam. Não somos só carnaval, futebol, mulatas malemolentes, gingado e samba no pé. Ideias e atitudes retrógradas foram sempre uma constante entre nós, brasileiros, coisa que muitos não soem imaginar e por isso costumamos desfrutar perante o mundo do conceito de sermos um povo de constante alma solar, cordato, aberto ao diálogo e receptivo à ideias progressistas. Péro las cosas não são bem assim, há uma abissal distância entre essa boa conceituação da qual desfrutamos, e o que de fato mostramos ser na prática cotidiana. No entanto, não temos exclusividade no que se refere a lamentáveis comportamentos reacionários. Não só o Brasil vem sendo atingido por uma crescente onda de retrocessos, de reacionarismos, fascismo, nazismo, totalitarismo, de políticas excludentes que privilegiam apenas e tao somente os já muito privilegiados, de graves ameaças vindas dos extremistas de direita. O cineasta espanhol Pedro Almodóvar, que em seus filmes recheados de ideias libertárias sempre defendeu a mais ampla liberdade de expressão artística e popular, bem como liberdade sexual e a Democracia como sendo ainda o melhor dos caminhos, mostra uma enorme preocupação com esse crescimento da direita no mundo. No recente Festival de Cannes ele deu entrevista falando sobre o assunto. Aqui, alguns trechos da entrevista:

Repórter: Como o Sr. vê o crescimento dos partidos de direita na Europa?
Almodóvar: Estou aterrorizado com o avanço da direita. Não tenho filhos, mas, se tivesse, ficaria preocupado com o destino deles, por temer um destino atroz para o mundo.
Repórter: Nos Estados Unidos, o magnata Donald Trump conquistou um espaço inesperado na campanha presidencial.
Almodóvar: Não quero sequer pensar na possibilidade de Donald Trump chegar à Casa Branca, pelo retrocesso que ele representa. A situação é preocupante no mundo todo. Nunca imaginei que manifestações contra o casamento gay e contra o aborto pudessem arrastar tanta gente na França. Para nós, espanhóis, a decepção com a França é ainda maior.
Repórter: Por quê?
Almodóvar: Os franceses têm um problema gravíssimo para resolver. Na Espanha, não temos um índice de crescimento tão significativo da direita. E digo direita civilizada. Não a extrema-direita da França, onde a Frente Nacional (FN), de Marine Le Pen, promete representar um perigo real na eleição presidencial de 2017. O país sempre foi um modelo de sociedade laica, além de ter sacudido os valores antigos com a revolta de maio de 1968. É uma pena constatar que a França não é o país que eu pensava. Tenho a sorte por ter crescido rodeado de mulheres que me inspiraram com sua força e me ensinaram a não ter preconceitos.
Repórter: Seus filmes refletem o momento político pelo qual a Espanha passava. Se "A lei do desejo" e "Mulheres à beira de um ataque de nervos" retratavam a extravagância do país recém-saído da ditadura militar, o que "Julieta" diz da Espanha atual?
Almodóvar: O filme representa um país triste, solitário e carregado de dor. Jamais poderia ter filmado "Julieta" nos anos 1980 ou 1990. Os tempos mudaram e eu também mudei. Enquanto minhas primeiras personagens saíam para a rua, para aproveitar a vida, Julieta é reclusa, passando quase todo o tempo em casa. Comparado aos anos de euforia, hoje sou mais introspectivo. Conforme o tempo passa, ele também se encarrega de trazer a nossa cota de dor, da qual ninguém escapa. 
Pergunta: "Julieta" é o seu filme mais econômico no que diz respeito às emoções? Isso também é resultado da experiência adquirida? 
Almodóvar: Para chegar a esse nível de contenção, é preciso experiência. Não só experiência de vida, mas profissional. Por ser meu vigésimo filme, eu me sinto maduro como diretor. Reduzir os elementos é muito mais difícil do que parece. Precisei usar planos simples, em que os atores faziam poucos movimentos, apostando tudo o que tinha em uma cartada só. O cuidado foi muito mais minucioso, para garantir que a cena tivesse força dramática, ainda que ninguém pudesse chorar.
Repórter: Incomoda o fato de a crítica ter se surpreendido com a abordagem contida de "Julieta", como se ela soubesse mais que o Sr. como deve ser uma obra de Almodóvar?
Almodóvar: O peso de ser quem sou só existe quando termino o filme e não durante a roteirização ou filmagem. Tomo as decisões com liberdade, sem considerar o mercado ou o espectador. Os fantasmas só aparecem na sala de edição. É nessa fase que começo a ter medo. Há sempre uma comoção no lançamento de meus filmes, o que não é bom, por aumentar as expectativas. Preferiria que o público assistisse a meus filmes mais relaxadamente, para poder avaliá-lo apenas pelo que ele é. 
Repórter: O Sr. diria que compreende melhor a vida por fazer cinema?
Almodóvar: Entendo melhor a mim mesmo. Obviamente, os meus personagens vão muito além de mim, embora eu esteja em todos eles. Muitas vezes os meus filmes representam espécies de premonição, antecipando situações com as quais vou me deparar algum tempo depois. 
Repórter: Pode dar um exemplo?
Almodóvar: Antes de "Mulheres" eu não havia jogado um telefone na parede(risos). A culpa que Julieta carrega, por ter fracassado como mãe, também ecoou em mim. Achei que já tivesse superado a culpa pela criação católica que recebi, mas não cheguei lá ainda. Por mais que eu tenha uma abordagem laica, sem pensar em céu ou inferno, passei a pensar no que fiz de errado, com quem fiz e como poderia assumir a responsabilidade e remediar.
(13/09/16)

Álex de la Iglesia, suas ótimas comédias e o melhor do cinema espanhol.

Sou dos que sentem um enorme prazer ao assistir um bom filme produzido pelo cinema espanhol. Um prazer já antigo, que sempre nos chegou, aqui no Brasil, através de cineastas como Luis Buñuel e seus filmes belos e questionadores, de Saura, e, em tempos mais recentes, de Fernando Trueba e Bigas Luna. Volta e meia, quando se faz necessário, o cinema da Espanha se recicla, ousando quando tudo parece ser acomodação e mesmice. Em 1991, um novo cineasta, Álex de la Iglesia, causou ótima impressão entre os espanhóis ao rodar um curta-metragem, Mirindas asesinas. Álex, valendo-se de curtos 12 minutos, brindou os cinéfilos com um humor contagiante, personagens hilários, um timing perfeito, mostrando quem ele era e a que veio. O público e a classe artística adoraram. Tão boa impressão ele causou que ninguém menos que o já consagrado cineasta Pedro Almodóvar decidiu financiar o primeiro longa-metragem de la Iglesia, através da vitoriosa produtora El Deseo, que Pedro divide com seu irmão, Agustín Almodóvar. Assim, com esse aval luxuoso e toda uma estrutura profissional à disposição, em 1993 foi rodada Acción mutante, uma divertida comédia, cheia de alternativas e inovações, bem escrita, interpretada e dirigida, que fugia aos filmes habituais, renovando a linguagem da comédia, propondo novos caminhos ao cinema da Espanha. Acción mutante, tendo sido um filme bem sucedido, propiciou a Álex a realização de novas e maravilhosas comédias, todas muito bem produzidas, as aberturas dos filmes graficamente bonitas, criativas e modernas sendo uma constante, efeitos especiais de primeira, um grande número de atores e figurantes sempre em cena, o que requer um diretor seguro e atento. Os argumentos, que fogem ao convencional, são sempre inteligentemente escritos por Iglesia, em grande parte assinados com o notável Jorge Guerricaechevarria, uma parceria de sucesso. Alicerçado por tanta excelência, o trabalho de direção de Álex de la Iglesia mostra ser feito com total competência e dinamismo, não permitindo ele que suas comédias tenham momentos de monotonia, nem resvalem para um humor barato, previsível. Álex sempre trabalha com excelentes comediantes, atores e atrizes versáteis, conseguindo que eles deem o melhor de si. Entre tantos notáveis estão Carmen Maura e Rossy de Palma, mundialmente consagradas pelas câmeras de Almodóvar, o superstar Javier Bardem, o sempre ótimo Santiago Segura, Álex Angulo, Sancho Gracia, Enrique Villén e a bela Carolina Bang, que tornou-se esposa do diretor. Uma comédia de Álex de la Iglesia é garantia de um humor de alto nível, gostosas risadas, muitas emoções e momentos de prazer. Aos espectadores, resta buscar em locadoras ou na internet, comédias como a cult El dia de la bestia (1995), Perdita Durango (1997), Balada triste de trompeta (2010), La chispa de la vida (2012), que é um misto de drama intenso e comédia, Las brujas de Zugarramurdi (2013) e Mi gran noche (2015). Os títulos em Português são traduções ao pé da letra. Essas películas citadas são todas deliciosas, mas há muitas outras mais, entre elas uma intitulada 800 balas (2002), que me agrada muitíssimo pela sua temática que mostra a luta pela sobrevivência de um grupo de ex-figurantes e dublês que se apresentam em uma cidade-fantasma, na verdade, um antigo set de filmagem de Almeria, na Espanha, local onde se rodaram, de fato, dezenas de filmes de faroeste, muitos estrelados por cultuados astros do cinema mundial, como Clint Eastwood. 
(15/01/17)

01 abril 2019

Literarte, uma livraria baiana muito bem humorada.

Amáveis e idolatráveis leitores, nem todo cartunista de colete é o Ziraldo. Este aí, no centro da foto, por exemplo, não o é, o que confirma a verdade contida na assertiva inicial. Para melhor informá-los, ele sou eu. Quer dizer, o cara de colete aí nesta foto é este mesmo que aqui, sentado diante de um prestimoso PC, vos mimoseia com estas mal digitadas linhas. O evento é o lançamento de um livro do cartunista e artista gráfico Nildão, na livraria Literarte, no ano de 1979. Nildão é o de barba, sentado à esquerda na foto, segurando uma caneta com a qual teceu dezenas de dedicatórias aos que adquiriram um dos seus formidáveis livros. O outro barbudinho, de perfil, com uma vistosa calças jeans, é o Lage, fera maior dos cartuns. Os demais são figuras insignes da cena cultural e social da Bahia naqueles dias que eram de anos dourados, ainda que pesasse uma atmosfera cor de chumbo sobre a Pátria-mãe que dormia, tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações. A foto retrata um dos grandes e divertidos eventos culturais ocorridos na Literarte, sendo a livraria justamente o mote precípuo desta postagem, vez que Nildão e Getúlio Soares, que foram os idealizadores e proprietários da Literarte em finais dos anos 70s, começo dos anos 80s, me transmitiram uma maravilha de notícia que agora reparto com vocês: ambos estão preparando um livro contando as maravilhas que a Literarte gerou e propiciou aos que são baianos, por nascimento ou vocação. Em verdade, a Literarte foi mais, muito mais que uma livraria, não se limitando a ser uma mera revendedora de livros e revistas para a comunidade. Para seus frequentadores sua existência foi fundamental, ela funcionava como um espaço de afirmação da vocação democrática de um povo sufocado por um regime ditatorial, um grito de liberdade, uma fonte de ideias e de propostas criativas, um reduto onde o mais elevado astral se instalou e a todos acolhia, artistas, intelectuais, estudantes, professores, profissionais liberais, cidadãos conscientes, de boa índole, interessados em cultura e informação. E fugindo dos spoilers, meninos e meninas, fiquemos por aqui, já que o livro está em fase de preparação, sendo pensado e feito com o maior dos carinhos por Nildão, Getúlio e gente que conhece tudo do mundo editorial,.que brindarão com agradabilíssimas surpresas aos que, assim como eu, têm saudade da Literarte e querem recordar momentos significativos e saber de todos os pormenores com riquezas de detalhes.  
(20/06/18)