16 dezembro 2017

O cartunista Biratan, o escultor Valtério e Setúbal na Ilha do Fogo .

Quando morei em Juazeiro, na Bahia, muito frequentei a Ilha do Fogo, fluvial ínsula situada bem no meio do largo Rio São Francisco, sobre a qual foi construído a quilométrica ponte Presidente Dutra. Lugar mais que aprazível, lá ia eu tentar meus tímidos mergulhos, tomar cerveja, comer surubim e ficar jiboiando nas areias claras sob o sol. Ali ciceroneei diversos amigos que lá iam me visitar e conhecer a cidade onde nasceram João Gilberto e Ivete Sangalo. Por diversas vezes recebi uma admirável dupla, o premiadíssimo cartunista paraense Biratan Porto, com seu bigode à la Nietzsche, e o perfulgente escultor baiano Valtério Sales, dileto filho de Ruy Barbosa -  refiro-me, é claro, à cidade, não ao famoso Águia de Haia em pessoa. Na Ilha do Fogo, em meio aos frequentadores habituais, gente do povo,  nos abancávamos os três em uma barraca improvisada e assim protegidos do causticante sol da região bebíamos alguns magotes de gélidas cervejotas e deitávamos falação sobre tudo e tantos. Ali, naquele espaço popular,  plenos da mais certíssima certeza, discutíamos os rumos desta nação auriverde, execrávamos seus corruptos, articulávamos maneiras de com nossas artes salvar de trágicos destinos o explorado e sacrificado povo brasileiro. Para nossa sempre renovada surpresa, sem prévio aviso, Valtério Sales livrava-se de sua bermuda jeans e, trajando uma sunguinha rosa-shocking de lycra, vistosa e despudoradamente sumária - porém preservando e mesmo esbanjando a mais viril das virilidades - nos mostrava ser um autêntico Johnny Weismuller redivivo.  Com vigorosas braçadas, ele cruzava a todo instante as fortíssimas correntezas do São Francisco com elegância e raro destemor. Intimorato e radiante, Valtério mergulhava na Ilha do Fogo e ia dar lá em Petrolina. Sem descansar, célere mergulhava em Petrolina e vinha dar novamente na Ilha do Fogo. Num átimo mergulhava de uma pedra qualquer da Ilha e ia dar lá em Juazeiro. Isto se repetia até o raiar do sol, ele mergulhando em um lugar para ir dar em outro, fazendo com seus mergulhos a alegria da garotada do lugar. O nobre Biratan Porto é testemunha de que o infatigável Valtério hoje morre de tristeza por saber que militares pernambucanos, talvez em comemoração aos 50 anos do golpe militar de 64, resolveram de forma reprochável proibir o acesso de moradores e civis em geral à Ilha do Fogo e destarte nosso amado escultor e cartunista, absurdamente, está impedido de exibir seu físico de Adonis, sua sunguinha rosa-shocking de lycra, sua arte aquática e sua invejável forma física na Ilha do Fogo. Lamentável, lamentável.
(Publicado originalmente em 06/04/14)

15 dezembro 2017

Jô Oliveira, artista gráfico cercado de grana alta / Pintando o Set


Dos desenhadores e grafistas brasileiros, meu amigo Jô Oliveira é quem mais viveu a vida cercado de grana, mas muita grana mesmo, e bote grana nisso. Botou? Bote mais, bote mais. É que um dia Jô pegou seu matulão e deixou seu amado Pernambuco buscando dias melhores em Brasília, vindo a tornar-se um confiável funcionário da Casa da Moeda. Quer dizer, confiável mas ainda assim sujeito a rigorosas revistas diárias na entrada e na saída da dita Casa, que lá todo cuidado é pouco e não dão mole nem a um sujeito idôneo como o Jô.  Lá é criado e impresso - se minha amnésica memória não falha - toooodo o dinheiro deste país dito emergente. Milhões, bilhões, trilhões, caralhaisquilhões. Jô é - ao menos era - um daqueles caras responsáveis por fazer os belos desenhos, arabescos e filigranas cheias de cores e suas nuanças que estampam as cédulas às quais por vezes o povão  costumava lhes emprestar o nome de acordo com o valor ou cor característica. "Quanto custa isto?" "Um barão" ,"Um Cabral", "Uma abobrinha". E quando perdiam o tal valor, que tristeza, que depressivo. É  como canta o bardo cearense Falcão em um de seus clássicos: "Eu sinto na pele o desgosto / De Anísio Teixeira / Cunhado feito um abestado / Em uma cédula de mil...". E voltando ao Jô Oliveira, um dia, em Recife, com seu traço bonito fez esta minha régia fina estampa que usei para ilustrar esta postagem ditada pela saudade de tão nobre amigo. Nobilárquico Jô, nem todo o dinheiro que já o cercou aí na Casa da Moeda serviria para pagar tudo que seu talento artístico já produziu. Abração procê, cabra bão!
(22/04/14)

Alejandro Iñárritu, Amores perros e um Cinema feito por quem sabe fazer Cinema.

Há toneladas de filmes na história do cinema que nada de importante dizem ou propõem, feitos por diretores que nada têm a dizer ou a propor. São meros produtos comerciais feitos com o objetivo de gerar lucros econômicos, fabricados para atender a uma grande faixa de público não muito exigente, que acorre às salas de projeção buscando um filme feito para proporcionar momentos de relax, construídos com uma narrativa nem um pouquinho complicada, repleta de lugares comuns, cheias de momentos déjà vu, de moral e desfecho previsíveis, atores bonitos e carismáticos, alguns efeitos especiais para enfeitar o bolo e ainda por cima dublado, que esse negócio de ler legendas e olhar imagens é coisa intolerável. Quem achar que são uma boa pedida que os assista e sejam felizes. Quanto a esse filho de meu pai, essa semana procurei na internet, achei e revi Amores perros (no Brasil, Amores brutos), com o áudio original, um filme do qual gosto muito, pois, felizmente, há diretores e filmes que não compactuam com a mediocridade geral que assola o grande écran, diretores como o criativo e inovador cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu. Amores perros é, surpreendentemente, sua estreia em longa-metragens. E que estreia! O.  filme é um soco no estômago que tira o fôlego do espectador, tão emocionante é, tão bem escrito é, tão bem dirigido, interpretado e montado é. Um elenco afinadíssimo que dá um show de garra e talento, em que se sobressai a figura de Gael Garcia Bernal que, com a visibilidade adquirida a partir dessa película, foi guindado à condição de astro internacional, filmando com Pedro Almodóvar e com nosso Walter Moreira Salles, entre outros. Ousado, emocionante, iconoclasta, criativo, surpreendente, Amores perros é feito de narrações e sub-narrações, histórias e personagens de mundos diferentes que acabam se cruzando pelo imponderável da vida. Fortes emoções são reservados ao espectador que não consegue adivinhar como será a próxima cena nem as soluções dos conflitos expostos, em meio ao amor, à paixão, à violência urbana, tudo alinhavado por Iñárritu de uma forma em que os perros do título são fatores determinantes na deflagração de conflitos em que imperam emoções incomuns que tomam conta do espectador. Para os que apostam em filmes comerciais medíocres para angariar lucros, é bom dizer que Amores perros é uma das grandes bilheterias do cinema, o quinto em toda a história do cine mexicano. E o filme não precisou se valer da mediocridade, do lugar-comum e de velhas fórmulas para seu êxito comercial.
(06/12/16)

Will Esner e The Spirit / Uns cara que eu amo 2

Dos meus alumbramentos na minha tenra infância ressoa forte uma HQ carregada do mais negro nanquim mostrando uma casa em região de inóspita floresta. Um ventilador de teto. Um homem com um jornal na mão que mata as moscas que insistem em pousar em sua mesa, em sua roupa e pele. Sua epiderme transpira por todos os poros enquanto o homem fuma seu cachimbo em cena vista de cima. Puro cinema, esta HQ. Tais imagens, instigantes, colaram-se nas minhas retinas, na minha memória. Cresci e só mais tarde descobri seu autor: Will Esner. O grande, o magistral, uma fonte inesgotável de criatividade, tanto no texto quanto nas ideias sempre renovadas. Will Esner. No Brasil ele se sentia muito à vontade por comprovar que aqui possuía uma legião incontável de incondicionais fãs de seu cinematográfico estilo. Entre eles, ói eu, embevecido, torcendo pelo Spirit, com sua máscara e um sorriso no canto da boca, sempre rodeado de belíssimas vilãs como a nada angelical Satã.
(30/10/2013)

06 dezembro 2017

O Brasil no traço do maravilhoso Percy Lau


Aqui neste bloguito já postei um texto-exaltação em que me alonguei tecendo loas ao estupendo desenhista Percy Lau, uma das minhas maiores paixões pictóricas. Os desenhos acima mostram o porquê. Nascido no ano de 1903 em Arequipa, no Peru, Percy mudou-se para o Brasil em 1921, ou seja, ao 18 anos, certamente com a alma transbordante de sonhos, que em nosso país ele soube tornar realidade.  Aqui ele se naturalizou e com seu talento raro transformou-se um dos maiores brasileiros que esta terra encontrada por Cabral já teve a honra de conhecer. Sua obra marcou profunda e positivamente minha infância. E certamente marcou também a de milhões de brazucas que tiveram a felicidade de ver os deslumbrantes bicos-de-pena que Percy fazia para o IBGE e eram reproduzidos nos didáticos livros de Geografia adotados pelas escolas da Pátria. Bicos-de-pena de deixar qualquer um boquiaberto, feitos com o apoio de um belíssimo e preciso trabalho fotográfico, mostram aos brasileiros como era - e em muitos aspectos ainda é - o nosso Brasil do Oiapoque ao Chuí. Quem leu tais livros para aprender coisas sobre nossa Pátria, foi além disso pois viu a cara exata de nosso Brasil, um Brasil mostrado por inteiro por um artista de alma verdeamarelaazulebranca a quem devemos reverenciar eternamente, Percy Lau.
(Publicado originalmente em 06/12/14)

Percy Lau, o Brasil, o Peru, o IBGE


Meu primeiro alumbramento não foi nenhuma manuelbandeiriana moça nua banhando-se em inocente despudor. Foram o cinema e os desenhos. Mal largara a mamadeira, eu já era fã ardoroso dos geniais Flavio Colin e Will Esner. Mas havia um cara cujos desenhos eu ficava horas olhando, embevecido. Um desenhista que nunca vi ser citado por qualquer dos grandes artista do traço. Seu nome, Percy Lau. E a quem se disponha a perguntar que personagem ele fazia, em que revista desenhava, vou avisando que os desenhos de Percy ,que tanto me encantavam, eram publicados em didáticos livros de Geografia adotados oficialmente nas escolas. Eram bicos-de-penas fantásticos que mostravam cenas, cotidiano, folclore e tipos do Brasil e desnudavam aos meus olhos infantes essa pátria, esse povo brasileiro. Vaqueiro do Marajó, Aguadeiro do São Francisco, As cachoeiras de Paulo Afonso, O gaúcho, Seringueiros, A caatinga, A floresta atlântica brasileira. Tudo feito com maestria e um evidente, incontestável e desmesurado amor por este país, que me causava espécie. Ainda mais quando descobri que Percy não era baiano, carioca, paulista, potiguar nem capixaba. Ou era tudo isso, vez que nascera em nuestro hermano Peru e adotara o Brasil como sua pátria onde era funcionário contratado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, sob incumbência do qual traçava com suas abençoadas mãos o retrato mais que perfeito deste povo, desta terra. Seguramente ele ia além do que lhe era exigido. Em cada hachura sua, em cada pontilhado mostrava e despertava amor pelo Brasil. Esse mesmo Brasil, do qual sempre se diz ser um país injusto e sem memória, tem uma dívida enorme para com Percy Lau. É mais que hora do IBGE valorizar o tesouro que tem e a própria excelência da Instituição, que teve a competência de produzir um trabalho, um registro importante assim, chamando pessoas tão gabaritadas quanto Lau para executá-lo. É oportuno editar um livro que mostre a grandeza de Percy , parte fundamental deste projeto. Não falo de um livro como o que comprei em um sebo, Tipos e aspectos do Brasil, do próprio IBGE, com um pequeno parágrafo falando desse brasileiro nascido na urbe de Arequipa, e sim um que enfoque Lau e que mostre, além dos seus maravilhosos trabalhos, quem era o homem, além do funcionário dedicado, um grande artista brasileiro, nascido casualmente em terras distantes, como tantos. Um álbum à altura do fantástico Percy Lau. E uma exposição significativa com seus magníficos desenhos, que seja itinerante e que possa mostrar às pessoas desse país sua Arte fantástica. Há pouco se deu o centenário de nascimento dele, é oportuno. E se no IBGE não tiver gente consciente e de competência para tal, que a Embaixada do Peru acorde e tome a si a responsabilidade, numa iniciativa que mostre que os peruanos produzem tesouros com admirável talento artístico. Ou qualquer boa editora, historiadores dedicados ou amantes da boa arte em geral. O importante é dar visibilidade ao talento de um soberbo artista e à sua produção tão intrinsecamente ligada às raízes populares brasileiras, feita com amor, paixão, zelo e carinho por este país verde, amarelo, azul e branco. Um homem iluminado, um anjo com uma pena na mão e um Brasil nos olhos, na cabeça, no sangue, na alma. Um artista fantástico que nos ensinou a todos a enxergar, a conhecer, a entender e a amar mais e melhor esse auriverde país.
(Publicado originalmente em 10/10/12)

05 dezembro 2017

J.L.Torrente, racista, misógino e fascista, é meu grande ídolo. .

Ter um fascista como ídolo não é de bom alvitre nem algo que se possa assumir de público com a mesma naturalidade com que alguém se assume torcedor desse ou daquele time de futebol. Fascismo e nazismo são molas propulsoras de dolorosas e inaceitáveis injustiças sociais, ódios esmagadores os mais diversos, discriminações e perseguições as mais desumanas, racismo, graves e irreparáveis violências ao próximo. Mas aqui abro meu corazón de melón, de melón, melón, melón, corazón, para mencionar algo que pode chocar a você, caroável e humanista leitor que não compactua com tais abjeções que tanto degradam a raça humana. Acontece que assumidamente tenho como ídolo um fascista dos piores. Um cara desprezível, sem um pingo de moral ou sentimento de lealdade dentro de sua alma suja, um verme racista, um aproveitador e chantagista, um ser abjeto recheado de egoísmo que para atingir seus propósitos mais mesquinhos é capaz de explorar da forma mais infame o próprio pai que padece com as graves sequelas de um derrame. Um homofóbico, um porco machista de extrema direita que usa as mulheres como meros objetos sem lhes dar o devido respeito e valor. Um anti-comunista ferrenho, um admirador confesso do Generalíssimo Franco, um mentiroso sórdido e contumaz que só pensa em tirar vantagens das pessoas desavisadas que com ele se iludem, capaz de roubar quem quer que seja, se tiver oportunidade para isso. Sua história de vida é recheada de fatos e atitudes escabrosos. Era policial e usava seu cargo para oprimir e achacar pessoas a quem devia proteger, sendo por isso expulso da corporação. Seus erros e crimes foram tantos que acabou indo parar atrás das grades, o que só serviu para piorar o que já não era bom nesse fascista de meu agrado. Gordo, careca, bigodinho, um constante riso de escárnio na boca de onde pende um palito que usou em recente refeição filada de alguém. Uma camisa amarfanhada sob o paletó seboso, nele é puro charme e elegância. Refiro-me a José Luiz Torrente Gálvan, ou simplesmente Torrente – El brazo tonto de la Ley, um guarda-costas ocasional e falso agente policial, personagem de cinco deliciosas comédias do cinema espanhol. Seu criador é Santiago Segura, um ator de grande versatilidade que engordou 20 quilos para viver o personagem, como um dia já o fizera Robert De Niro. Além de ser o grande ator que é, com uma rica e extensa filmografia, Segura cria hilários personagens e escreve seus criativos argumentos. Como diretor sempre soube escolher muito bem os atores para trabalhar em suas películas, artistas de grande talento como os célebres almodovarianos Chus Lampreave e Javier Cámera, entre outros notáveis. Há riquíssimas participações de personalidades admiradas em seus filmes, o que demonstra seu carisma e o bom conceito de que desfruta. Santiago Segura também é produtor de filmes, é compositor, já apresentou programas de TV, trabalhou como dublador, já criou argumentos para histórias em quadrinhos, editou fanzines, cursou Belas Artes e também é desenhista habilidoso além de criador de admiráveis personagens. Dentre esses personagens que cria para o mundo das grandes comédias cinematográficas feitas com um humor de primeira linha, em lugar de relevo e de grande importância está José Luis Torrente, seja ele um crápula incorrigível ou quem sabe um mero produto do meio e das circunstâncias que o tornaram o fascista grotesco que é. Para horror dos que se pretendem mais sensatos, a vida costuma imitar a arte e infelizmente é crescente o número de pessoas do mundo real que estão exibindo um comportamento que em tudo se assemelha ao personagem da ficção e isso não tem um pingo de graça, pra dizer o mínimo. José Luís Torrente Gálvan é o único fascista a contar com minha admiração. Quem não conhece os filmes com o personagem não sabe o que está perdendo. Viva a Espanha! Vivam Torrente e Santiago Segura!
(050916)

Um Puto fascista em Portugal a serviço do Capitão Falcão e de Salazar.

Capitão Falcão é um militar treinado marcialmente para salvaguardar a ditadura em Portugal e, por extensão, proteger o ditador Antonio de Oliveira Salazar, criador do Estado Novo. Falcão ama tanto o despótico Salazar que, em dado momento, o oficial toma nos braços o déspota e com sofreguidão beija-lhe longamente a boca fascista em um ardoroso ósculo que denota a desmesurada paixão vigente entre ambos. A cena é de uma comédia do cinema português, em filme de 2015 dirigido em pelo cineasta luso João Leitão, que também é responsável pelo argumento e pelo roteiro, sendo esse em parceria com Núria Leon Bernardo. Falcão, com sua máscara preta, faz uma linha de herói que muito tem a ver com o Batman e ainda mais com o Capitão América, patriótico e ufanista combatente ianque que devasta os inimigos de seu país. A ideia inicial era fazer de Capitão Falcão uma série para a TV de Portugal. O projeto não avançou. O argumento foi reescrito e adaptado para o cinema, virou filme, alcançou bom público nas salas de exibições lusitanas, e acabou conseguindo ser exibido no formato minissérie nas telinhas pela RTP. Já li reportagens de alguns cineastas espanhóis reclamando da vida, da dureza que se tornou fazer cinema na Espanha. Não falariam isso à toa, mas a verdade é que, em termos de produção, o cinema espanhol tem dado um show nas películas que produz, o que não acontece com Capitão Falcão, de produção bem modesta, comparada às hispânicas e tantas mais. Ainda assim, o filme de Leitão surpreende positivamente com o elenco dando bem o seu recado. Capitão Falcão, o herói fascista, inimigo ferrenho de comunistas, esquerdistas de correntes as mais diversas e liberais em geral, é interpretado por Gonçalo Waddington enquanto José Pinto interpreta o ditador Salazar. O argumento e o clima do filme em alguns momentos fazem lembrar, ainda que de forma distante, o clima do humorístico brasileiro feito pelo grupo Casseta & Planeta e a TV Pirata. Com menos escracho, bem mais contido, mas com gags e detalhes de muita hilaridade. Curiosamente, Falcão batizou seu fiel ajudante de Puto Perdiz, o que para nós, do Brasil, soa hilário por si só, pelas diferenças no uso do Português, nossa língua comum, nem sempre tão comum assim. Aqui a palavra puto é pouco usada em sua forma masculina, e com sentido diverso do uso comum em Portugal. Na terra de Fernando Pessoa, os meninos ainda bem pequeninos são chamados de miúdos, enquanto os meninos maiorzinhos, já adentrando a adolescência, são chamados de putos, a exemplo da Itália, em que é comum chamar-se os meninos de puttos, designação oriunda do batismo daquelas esculturas ornamentais de anjinhos alados de capelas e igrejas, os puttos, putti, puttinos. No Brasil sabemos que impera um autêntico monopólio na exibição de filmes oriundos do cinema made in USA, e por aqui um filme português como Capitão Falcão praticamente não tem chances de ser exibido nos cinemas regulares. Cônscios disso, cinéfilos brasileiros juramentados não se cansam de tecer loas à internet por proporcionar o milagre de podermos assistir via online a filmes não encontradiços nas nossas salas de projeções, como essa comédia que mostra que os portugueses, além de serem bons de fado e de literatura, são também bons de humor e de cinema, o que se percebe através das imagens que mostram um Portugal dominado pelo Estado Novo e sob atenta vigília do Capitão Falcão e de seu amado Puto.
(22/11/16)

01 dezembro 2017

Guache Marques, um artista plástico da Bahia e seus múltiplos talentos.

Ainda que a arte da Bahia com maior visibilidade no Brasil e no mundo seja a música, outras artes baianas são igualmente efervescentes e têm seus grandes artífices. Literatura, cinema, fotografia, teatro e também as artes plásticas. Volta e meia, caminho pelas ruas de Salvador em um périplo destinado a rever painéis e esculturas do genial Carybé que estão abrigadas em hotéis, bancos, edifícios residenciais. Puro deleite. Frequento galerias e folheio mil vezes alguns catálogos que guardo, buscando sempre o prazer de ver e rever trabalhos do estupendo Floriano Teixeira, a excelência de seu desenho feito com os traços mais refinados que meus olhos já viram, e sua pintura feita de delicadeza, magia, surpresas. Não se pode dizer que a pintura baiana seja uma única. Há linhas e linhas de trabalhos. Nessas linhas há sempre aqueles que se sobressaem mais por acreditar no seu talento, na sua arte, e busca trabalhar com dedicação e amor. Falo isso lembrando-me do trabalho do artista plástico Antonio Gomes Marques, mais conhecido como Guache Marques, nascido em Feira de Santana, BA, formado em Artes Plásticas pela UFBA. Sua arte tem mil aspectos, Guache segue inúmeras vertentes para se expressar, sendo ele múltiplo no seu ofício artístico, oferecendo aos que amam as artes plásticas um vasto leque de caminhos e possibilidades. Em cada um deles, Guache se comunica com total domínio, competência, talento. Habilidoso ao desenhar, na feitura de seus desenhos expressa-se através de diversos materiais, faz bico-de-pena, ilustrações para textos, pinturas em tela, gravuras, artes digitais e fotos-desenhos. Não bastasse isso, é também programador visual. 
O trabalho de Guache Marques não se encerra na grande beleza plástica que trazem em si, limite para muitos artistas que daí não passam, por aí mesmo estacionam, satisfeitos. Nesses tempos em que tantos demonstram grande alienação, há que se dizer que Guache é um artista politizado, com alta consciência social e com fortíssimas ligações com a Bahia, sua terra natal, e com sua gente. Através dos seus desenhos, gravuras e pinturas, de tudo que faz, o espectador é contemplado com sua visão das coisas, um enfoque social que não é panfletário, falando do homem, suas crenças, sonhos, lutas, anseios, religiosidade, raízes, signos afro-brasileiros. Guache Marques é profícuo em seu ofício e tem incontáveis exposições, individuais e coletivas, inúmeros painéis, fez instalações, participou de dezenas de Salões de Artes Plásticas, recebendo um expressivo número de premiações. Ser um artista plástico completo e talentosos como Guache é para poucos. Exemplos de sua arte madura e bela podem ser vistos e apreciados na internet através de um bom buscador, como o Google. Alguns trabalhos e dados do artista são encontráveis através do link:
http://www.expoart.com.br/guachemarques/ 
Você, atilado leitor, pode também acessar o Portal do Irdeb. Para tal, basta clicar no link a seguir. Lá chegando, você vai em Galeria de Imagens em que verá uma significativa mostra dos trabalhos de diversos artistas da Bahia, entre eles as belíssimas artes de Guache Marques.  http://www.irdeb.ba.gov.br/ 

30 novembro 2017

Salve o Corinthians, incontestável campeão brasileiro de 2017.

  
Minh’alma canta, vejo o Rio de Janeiro, estou morrendo de saudades... quero dizer, minh’alma canta mesmo é porque o que vejo é o Corinthians recebendo a taça de legítimo campeão brasileiro de 2017, com ampla vantagem sobre todos os competidores. Campeão pela sétima vez, desde o título, até então inédito, conquistado em 1990. Depois disso, campeão por diversas vezes, e agora, com todos os méritos, fica com a taça do Brasileirão pela sétima vez. Salve, salve o Campeão dos Campeões, eternamente dentro dos nossos corações! Salve Jorge!, salve Jorge! Ogunhê, meu pai! Salve, salve São Jorge!, competente e profícuo santo protetor do time mais maravilhoso desse patropi, campeão da Libertadores e por duas vezes - sim, senhor! - Campeão Mundial de Clubes pela FIFA, entidade máxima do futebol mundial, que nada tem a ver com aqueles arranjos de televisões e jornais que apregoavam que um único jogo disputado entre apenas dois representantes de apenas dois continentes, que acontecia apenas no Japão, valia por todo um torneio, um grande  campeonato mundial, e quem ganhasse esse único jogo, um joguinho só, seria o campeão mundial. É claro que a FIFA jamais avalizou isso, nem poderá avalizar, em nome da Geografia e do bom-senso. O Corinthians, idolatrado em todo esse planeta, é um dos poucos times do mundo ao qual as pessoas não são indiferentes, sendo que milhões e milhões de torcedores declaram, convictos, seu extremado amor por ele, enquanto que outros tantos torcedores também amam o Corinthians com fervor, porém sem saber que o amam. São aqueles que dizem odiá-lo, que lançam toda sorte de vitupérios à simples menção do nome Corinthians, que dizem que o Timão é favorecido por complôs e esquemas milionários que obrigam árbitros de futebol do mundo inteiro a roubarem a favor do time alvinegro do Parque São Jorge. Isso é amor, embora pareça ódio. É bom lembrar que quando uma pessoa não ama mais alguém que um dia de fato amou muito, com todas as forças da sua alma, tal pessoa só pode estar seguro que deixou de amar esse alguém através de sua reação ao ouvir o nome de sua antiga paixão. Se a pessoa reage com gélida e autêntica indiferença, é porque esse alguém que tanto caro já foi, já nada importa, já passou, nada representa mais na vida da dita pessoa. Mas, se ao contrário, a pessoa reage com altas cargas de emotividade, lágrimas, indignação e uma incontrolável raiva que se faz acompanhar de toda sorte de palavrões e pragas e maldições e sortilégios... baubau! Isso é prova cabal que, sim, a pessoa ainda segue amando aquela pessoa, só que, por uma questão de orgulho dos mais bestas, busca embuçar seu desmedido amor, sua grande admiração, sensação de perda e uma enorme frustração por detrás de uma capa feita de alegado ódio e pretenso rancor. Assim se dá com os que se dizem anticorintianos. Eles não dedicam o tempo que têm para vibrar, declarar paixão, nem para enaltecer o time que afirmam torcer. Preferem praguejar e dizer coisas que intentam desmerecer, tirar os méritos do Corinthians que, no fundo, no fundo, eles amam como nunca amaram os times que alegam amar. Por fora, xingam, mas por dentro vibram forte e comemoram as incontáveis vitórias do Timão. Eu, que não preciso escamotear o meu grande amor pelo Coringão, sendo, com grande orgulho, mais um no bando de loucos, de peito aberto grito salves e vivas ao meu Corinthians, de tradições e glórias mil, o orgulho dos desportistas do Brasil! É nós, manôôôô!

29 novembro 2017

Furio Lonza e um povo impopular.

Graças a um golpe ignominioso contra uma mandatária eleita legitimamente pelo povo brasileiro através das urnas, adonou-se do poder em nosso país um magote de seres caquéticos, desalmados, retrógrados, sem escrúpulos, um intragável bando de escrotos que portam, assumidamente ou não, os mais abjetos preconceitos raciais, étnicos, sociais e sexuais, valha-nos Deus, acuda-nos Jeová, socorra-nos Buda, Maomé, Tupã e São Longuinho, com seus três pulinhos. Triste, tudo isso é triste. Mas a maior tristeza está no fato de constatarmos que essa malta maligna só conseguiu concretizar suas abomináveis pretensões antidemocráticas, graças ao apoio de uma grande parte do povo brasileiro. E que povinho é esse que, em grande parte, se posta explicitamente ao lado de tais algozes e avaliza seus desmandos e decisões indignas? Lembremos que essa maneira de ser não começou com esse golpe. Vem de longe. E de longe vem o questionamento, a vontade de encontrar uma resposta racional a tais irracionalidades. Reproduzo aqui trechos de um texto do final dos anos oitentas, de autoria do grande Furio Lonza, em que o escritor ítalo-brasileiro tece considerações sobre essa parcela do vulgo. 
"Falta povo neste país. Até um tempo atrás, a opinião corrente era de que "todo povo tem o governo que merece". Mentira! Qualquer governo, por mais safado que seja, ainda é muito para esse povo sem brios, sem vergonha na cara, esse povo burro e ridiculamente humilde, vaquinha de presépio que engole tudo até o talo, até a última gota, todos os sapos, todos os calangos, esse povo cativo, covarde, sempre com o rabo entre as pernas, esse povo que marchou com Deus, pela família, esse povo que deu seu ouro para o bem do Brasil, esse povo que vive coçando a virilha, que bebe cerveja sem colarinho, lê horóscopo e coluna social, esse povo que encoxa mulher no ônibus, que cheira cola, que puxa o saco do gerente, alcaguete de polícia, esse povo que, em dia de greve de ônibus, pega táxi para ir para o escritório, que pega avião para assistir Chitãozinho e Xororó em Las Vegas, esse povo besta que deixa a Xuxa fazer a cabeça de seus filhos, esse povo cujo ancestral índio acolheu o português de braços abertos em 1500, que rezou a primeira missa bem comportado junto aos jesuítas, esse povo que recebeu a Independência do Imperador da colônia, esse povo que proclamou a República e botou um militar no lugar do rei, esse povo que paga uma fortuna por uma TV a cabo e só assiste bosta, esse povo que come merda, respira merda, só pensa merda, esse povo que faz na entrada, na saída, no meio e ainda deixa um pouco atrás da porta pra ser encontrado no dia seguinte, um povinho que acredita no Jornal Nacional."

Mais atual, impossível. Se o grande Furio Lonza resolvesse atualizar o texto, sabemos bem que teria um farto material que haveria de incluir aqueles seres sem-noção fazendo aquela ridícula coreografia pró-golpe, todos os parvos teleguiados pela Rede Globo e por toda a grande mídia, vestidos com camisa da CBF, marchando nas ruas ao lado dos mais asquerosos corruptos, repetindo seus mais demagógicos bordões, clamando pelo fim de um governo eleito legitimamente, reivindicando a volta dos militares ao poder, a tortura, a repressão e toda sorte de suplícios e malefícios que causariam inveja aos mais fustigados masoquistas da História. Figuraria, enfim, toda a inconcebível participação desse povinho em apoio a um golpe que extermina direitos populares tão arduamente conquistados, que aniquila sonhos e esperanças, que destrói o país em que ele próprio nasceu e onde vive, inviabilizando o presente e o futuro para si mesmo, seu filhos, famílias e netos. Ai do Brasil. Ai de seu povo. Ai de nós, São Longuinho!

27 novembro 2017

Camelôs da fé e suas igrejas que lhes dão fortunas e poder

Usando o nome de Deus como irresistível publicidade e o de Jesus Cristo como infalível garoto-propaganda, valendo-se de suas inegáveis capacidades de comunicação de massa e de persuasão, de seus poderes de oratória, vendem a fé como camelôs vendem produtos suspeitos numa esquina. Usando o forte poder da mídia televisiva e radiofônica, determinados sacripantas, ditos líderes espirituais, terrivelmente canalhas e anti-cristãos, cheios de uma enorme lábia e de um arsenal de más intenções, valendo-se de discursos inflamados, cheio de conceitos anacrônicos, equivocados, distorcidos, carregados de preconceitos que mal dissimulam um inconsequente e perigoso ódio aos que não caem nas insidiosas armadilhas que suas línguas bifurcadas armam para os incautos, conseguem encher as burras com fábulas de dinheiro que vêm, em sua maior parte, das classes mais pobres, carentes em todos os sentidos, da classe média e até de atletas, dos remediados aos milionários. Todos entregam de mão beijada a grana que dá a boa parte desses tais "líderes espirituais" o privilégio de morar em suntuosos palácios que em nada lembram os lares da maioria dos seus seguidores e bem diferente do que pregava o santo rabi. Eis o crime perfeito. Tão perfeito que nem considerado crime o é. E ai de quem tentar dizer o contrário aos fanatizados cordeiros que lhes entregam o que têm e o que não têm. Hoje, como bem se vê na internet, os próprios canastrões midiáticos oferecem farto material que evidenciam suas mutretas espantosas. Usando em tudo e por tudo o nome de Deus, sem cerimônias nem medo de punição. Há os que induzem os incautos a darem dinheiro que porventura ainda tenham, até mesmo estando desempregados. Outros choram copiosas lágrimas de crocodilo como que implorando doações aos ingênuos que se comovem. E por aí vai. É tudo explicitamente explícito pois eles se sentem intocáveis, inatingíveis. Há os que, sorrindo cinicamente, desafiam a quem queira desmascará-los e fazem ameaças acintosas dizendo ter um exército de advogados a sua disposição para processar os que se atreverem. Muitos deles estão ligados com o mais execrável lixo político e forte é a suspeita de que lavem dinheiro vindo de falcatruas dessas máfias políticas. Associados com o que há de pior na política,  tramam impor uma teocracia em que possam manipular toda a população, impor-nos seus torpes fundamentalismos.  E quando algum desses ditos líderes é apanhado em alguma de suas armações, há aqueles que dizem que o fiel não deve cumprir o seu papel de cidadão decente denunciando o inegável crime e o ladrão, que deve apenas mudar de igreja e não denunciar nada, tornando-se cúmplice do salafrário. Vivemos um mundo de disputas brutais em que os métodos utilizados por muitos são abomináveis. Pessoas buscam nas igrejas a esperança, a fé, razão para viver. Conheço líderes espirituais autênticos, seríssimos, gente que honra e dignifica o que fazem. Sou amigo pessoal de um pastor evangélico, pessoa consciente, que ajuda enormemente sua comunidade. Muitas pessoas, os chamados fiéis,  veem nas igrejas uma uma boia de salvação e se agarram fortemente a ela. É aí que entram em cena os aproveitadores usando o santificado nome de Deus para conseguir o que querem para si. Os muito crédulos, carentes e desinformados acreditam e depositam nesse bando, nessa súcia todas as suas esperanças e, é claro, seu escasso dinheirinho ganho tão duramente. Agarram-se a eles e a seus ditames buscando experimentar a sensação de que não estão sós nesses tempos de grandes e nefastos individualismos, torpeza e sordidez sem limites. Entre eles, iludidos,  os ditos fiéis sentem-se protegidos de todos as tormentas da vida. Querendo evitar o mal, seguem justamente para ele, sem desconfiar que estão voluntariamente se imolando no altar onde, disfarçado de bem, está o mal que dizem intentar evitar. Mas lembremos que muitos não embarcam nessa canoa enganados, iludidos. Por detrás dessas aparentemente puras intenções há também motivos não tão puros assim. Acumular riquezas sem repartir, ostentar, comprar carros, casas, enriquecer às custas dos semelhantes, por exemplo, é meta de muitos dos tais fiéis, para os quais o céu pode esperar, importando bem mais os bens materiais que possam vir a acumular graças ao que eles alegam ser a vontade divina. Que Deus ilumine e dê proteção a essa infausta gente crédula. E que nos livre a todos nós desses camelôs da fé. 
(07/12/2015)

26 novembro 2017

Ernest Hemingway, Cuba , literatura, mojitos e daiquiris

Ainda adolescente e estudante da EPA, em Sampa, recebi incumbência de fazer um trabalho sobre o livro "O velho e o mar", de Ernest Hemingway. Dirigi-me à Biblioteca Municipal com intenção de ler apenas trechos do livro para ter idéia do que fazer. Abanquei-me em uma cadeira e iniciei a leitura da saga do velho Santiago, pescador cubano tomado pela má sorte, e à medida que lia fui sendo envolvido pela instigante narrativa de Hemingway e me interessando a cada página para saber o destino que Santiago e seu enorme peixe de cinco metros teriam. Mesmo com os olhos já rubificados eu não conseguia parar a leitura que me puxava para o interior do livro e me colocava no barco junto ao desditado insular em meio a tubarões e procelas. Meus outros compromissos do dia se quedaram esquecidos e li o livro inteiro, de um só fôlego. Aprendi muito com a parábola do homem em luta titânica na busca pela sobrevivência ainda que em condições desiguais. E me tornei grande admirador de Hemingway. Tendo eu um daiquiri na mão direita e um mojito na esquerda, ergo dois brindes ao velho Papa Hemingway, mesmo estando distante de sua La Bodeguita e do seu La Floridita, tão assiduamente frequentados pelo escritor de quem, para ilustrar uma matéria em um periódico, com lápis dermatográfico branco sobre papel fabriano preto, fiz esse retrato do notável escritor que bem sabia por quem os sinos dobram. 

24 novembro 2017

Raul Seixas e Marcelo Nova: rock na veia e porrada na cara!


Hoje é dia de rock na Concha Acústica do Teatro Castro Alves neste verão de 88. Tá rebocado, meu compadre, tem rock do bom na veia e é em dose dupla: Raul Seixas e Marcelo Nova. Não sou roqueiro de carteirinha mas sei o que é bom. Ao show, seguramente maravilhoso, que Gal fará no palco principal do TCA logo mais, prefiro o rock que rolará na Concha. E vou a caráter, blusão de couro, jeans e brilhantina no cabelo que é para entrar no clima. Raul está com a saúde abalada pelos excessos cometidos, teme-se o pior. Marceleza surge em cena qual um anjo de blue jeans, organiza shows com o amigo, viagens e até um disco, A Panela do Diabo. Motiva o Maluco Beleza que se revigora. Agora ambos estão se revezando no palco, desfilando suas canções que todos os roqueiros sabem de cor e cantam juntos com os ídolos. Empolgado com o entusiasmo da plateia, Raul emenda uma música após a outra e o concerto se prolonga para deleite do público apaixonado. De repente, atrás de Raul percebo uma coreografia que não faz evidentemente parte do show. Marcelo Nova, enfurecido, está descendo o braço com vontade na cara de um cabeludo. Quando parte do público percebe, começa um coro de "bota pra fudê!" que é a senha pro eterno líder do Camisa de Vênus encher com renovadas muquetas a fuça do sujeito. Um último gancho de direita o arremessa ao poscênio de onde, nocauteado, não retorna. Nova vem para o lado de Raul, empunha o microfone e brada: "Este aqui ao meu lado é o maior artista de rock deste país! Nenhum canalha irá desrespeitá-lo em minha presença. Ele é o maior de todos, ele é Raul!" A platéia enlouquece e renova, ainda mais alto, o grito de "bota pra fudê!" Fico sabendo depois que o cabeludo surrado seria um produtor musical que queria encerrar na marra o show dos roqueiros alegando razões de pauta, horário, conflito de entrada e saída com o público do show de Gal e sei lá mais o quê. Aprendeu da forma mais dura a lição do Professor Marceleza: o respeito aos ídolos autênticos está acima de razões mais comezinhas. Poucos meses depois, o coração debilitado do homem da Sociedade Alternativa cantou e dançou seu derradeiro rock neste mundo. Sabendo que tem tanta estrela por aí, pra alguma delas lá se foi Raul numa carona com o moço do disco voador. Mas naquela noite de verão, ali na Concha Acústica, as duas maiores estrelas do rock nacional brilharam tanto e tão intensamente que os afortunados que lá foram jamais poderão delir de suas mentes e de seus corações essas lembranças. Marcelo Nova jogou duro, botou pra fudê como manda o figurino roqueiro. E Raul... bem, Raul foi Raul. E não era preciso nada além disso. Titirrane, Raulzito. Titirrane!
(10/10/12)

Ary Barroso, Bahia, praias, povão, celebração da vida.

"Bahiiiia, terra da felicidaaaaaaaade...". Quem mora aqui neste afro-baiano torrão, para se mostrar grato com o que a natureza generosamente nos lega, cotidianamente deveria acordar cantando a plenos pulmões os versos do baianíssimo mineiro Ary Barroso. Principalmente pelas praias, o mar azulzinho e o céu de irisadas nuvens que temos por aqui e que sabemos tão bem aproveitar, não perdendo nenhuma oportunidade de nessas praias comparecermos para curtir os raios de sol, bronzeando-nos ainda mais do que a natureza já nos bronzeou, batendo um papo, bebendo umas cervejotas geladísfsimas, água de coco tirado de algum coqueiro que dá coco, onde amarramos nossas redes nas noites claras de luar e em solares jornadas, também sorvendo capitosas caipiroskas de siriguela, kiwi, umbu-cajá ou qualquer boa fruta da estação, comendo afrodisíacas lambretas, que inspiram qualquer vivente a fazer ousadia, idem e ibidem saboreando caranguejos e peixes assados, acarajés, abarás e o que mais vier, mergulhando e admirando o mais matizado pôr do sol. Existem sujeitos e sujeitas de outros estados brasileiros mui equivocados, curtos de ideias, superficiais e assaz preconceituosos, que interpretam o habitual carpem diem baiano como sinal de ojeriza ao trabalho, quando em verdade é uma questão de sabedoria de quem também, como qualquer brasileiro, enfrenta sua árdua faina diária pela sobrevivência, mas que nos momentos propícios - e aí não importa o dia da semana, até mesmo na tão famigerada segunda-feira - sabe desfrutar do que a Mother Nature nos regala a nós outros com desprendida generosidade. Ilustro esta postagem com uma pintura que fiz em tamanho 20x22 cm, mostrando uma singela cena familiar à beira-mar, que é pra rimar e inveja causar a quem é de outro lugar e porventura a olhar. Uma cena comum de nossas praias que fotografei com minha Rolleiflex modelo acrílica sobre tela.
(25/04/14)

Frank Menezes: bofetada com luva de pelica


Quando exponho no Soho, NY, recebo um soberbo tratamento VIP, sendo reverenciado qual autêntico semideus pelo fervilhante e glamuroso universo artístico da Big Apple. Os mais consagrados popstars acorrem para oscular-me as santificadas mãos que pintam e caricaturam como guiadas por anjos - segundo words, words, words publicadas pelo New York Times. Até celebridades como o velho Al Hirschfeld - já falecido - comparecem para me prestigiar. E um providencial tapete vermelho sói antecipar meus passos. Mas - proh pudor!, proh pudor! - quando retorno a esta afro-baiana terra movido por indestrutíveis grilhões sentimentalísticos sou tratado como um reles mortal sujeito a pegar buzus apinhados de viventes com os mais hediondos odores e encarar uma sinuosa e interminável fila no Bradesco da Pituba. Em nela estando, anônimo qual apenas mais um do vulgo, perpasso meus gázeos olhos pelos desconhecidos companheiros de enfileirado infortúnio. Eis que avisto Frank Menezes, o maravilhoso ator, a quem vi a primeira vez atuando em A Bofetada, dirigida pelo meu chegado, Fernando, o Guerreiro, e depois em mini-séries globais, no filme Tieta e em peças outras. Fiquei fã incondicional. Frank, um tremendo artista que ali na fila nada mais era que um cidadão comum pagando suas contas. Luto contra um inesperado impulso tietagenístico que me empurra em sua direção. Ao vê-lo conversando descontraído, solícito e simpático com pessoas na fila crio coragem, aproximo-me, coloco no rosto meu melhor sorriso e declaro: "Sou um seu grande admirador e acompanho todos os seus trabalhos, Jefferson." Valei-me, meu São Freud! Minha mente levemente sequelada por algumas cannabis sativas fumadas no fulgor de minha juventude em anos de flower and power me prega peças até hoje e não me custa nada trocar um nome de provável origem anglo-saxônica por outro e lá vou eu pagando símio por aí. Meu alarme antigafe dispara e tento corrigir a mancada rápido qual um Usain Bolt: "Opa, Jefferson, não... Franklin. Mil perdões, Franklin!" Ele, fleumático e condescendente me diz: "Legal...mas não sou Jefferson nem Franklin. Meu nome é Frank." Isto tudo sorrindo, sem demonstrar indignação ou rancor. Mais uma para meu vasto cabedal de gafes. Vexado, volto lesto e presto ao meu lugar na fila onde permaneço hirto e silente. E resolvo que está mais do que hora de euzinho passar uma nova temporada na Grande Maçã entre meus very crazy fãs norte-americanos até que a vergonha se esvaneça. E tomo uma decisão: continuarei assistindo as peças deste grande ator que tanto admiro. Mas só irei aos teatros de óculos escuros, envergando chapéu de aba larga e uma capa com a gola levantada qual um Humprhey Bogart . E sem nenhuma Ingrid Bergman ao lado para não testemunhar minhas paquidérmicas gafes e dizer "Say it again, Set." 
(101012)

Humor de graça / Socorro, me afoGAY!!


Aluguel de imóvel em tempos de inflação troglodita / Humor de graça

(02/03/13)

José Cândido de Carvalho, Coronel Ponciano, altercações e contendas

"Ponciano de Azeredo Furtado, coronel de patente, de que tenho orgulho e faço alarde". Esta é a auto-apresentação de um dos mais apaixonantes personagens da literatura que tive o imenso prazer de conhecer. Saído da mente iluminada de José Cândido de Carvalho para as páginas de seu magistral romance "O coronel e o lobisomem", este maravilhoso Coronel Ponciano cativa, envolve, diverte, elucida, deslumbra e nunca mais se evade da memória de quem teve a ventura de ler o livro do brilhante escritor. Tão maravilhado sou pelo personagem que de quando em vez rabisco o papel tentando captar em um desenho - perdão, Poty, perdão! - o dito Ponciano na esperança, quem sabe, de que ele ganhe vida e que eu possa vê-lo in persona entrar em luta renhida contra onças gigantescas e vorazes, cobras de alta peçonha e de desmedida metragem, lobisomens sequiosos de carne humana e até contra o próprio diabo, o cão, o satanás, o coisa ruim. Sou mais o coronel!
(17/10/2014)

21 novembro 2017

Quentin Tarantino e oito pessoas com motivos de sobra para serem odiadas.

Por algumas décadas, ali pelos anos quarentas aos sessentas, filmes de farwest eram vistos por milhões de pessoas em todo esse planeta azulzinho. Imensa era a legião de apaixonados por tais películas com seus elencos sempre formados por grandes astros, feito John Wayne e Randolph Scott, e por clássicos como Shane, No tempo das diligências, Rio Vermelho, Matar ou morrer. Os tempos foram mudando, as pessoas, idem, os gostos e interesses mudaram junto. E vieram os filmes sobre o velho oeste feitos na Europa, notadamente na Itália. Mostravam um novo jeito de se fazer westerns, com closes e big closes, protagonizados por sujeitos com barba por fazer, cabelos despenteados, roupas empoeiradas, habitualmente uns anti-heróis de caráter dúbio, para dizer o mínimo. Viraram uma febre mundial. Essa nova onda durou um bom número de anos, mas acabou passando também e hoje o filão já não domina o cardápio do público consumidor, mas filmes de farwest ainda são uma paixão de muitos e, ainda que sem ter a mesma aceitação popular de antes, o gênero não morreu. Volta e meia um bom cineasta resolve revisitar o tema. Dois desses moviemakers são Jim Jarmusch, com Dead Man, estrelado por Johnny Depp, e ainda o diretor Quentin Tarantino, com The hateful eight (Os oito odiados), de 2015, que traz um grande elenco, onde se sobressaem Samuel L. Jackson, Kurt Russel, Michael Madsen, Tim Roth, Jennifer Jason Leigh. Quentin Tarantino, em verdade, não é um estreante nos westerns, já havia feito Django Livre, de 2013. Em ambos ele se vale de personagens negros, trazendo à tona as questões raciais, coisa não encontradiça nos westerns tradicionais, um ingrediente extra nas suas tramas intricadas, cheias de mistérios e segredos, onde as pessoas nem sempre são o que parecem ser. Em Os oito odiados, a exemplo dos spaghetti westerns, Quentin lança mão de toda sorte de anti-heróis, caçadores de recompensas, quadrilheiros, assassinos frios. A mentira, violência e o sangue jorram fartamente em em meio a um cenário em que toneladas de neve e uma incessante nevasca tornam-se parte importante da trama. Para a trilha sonora, Tarantino chamou ninguém menos do que o consagrado compositor Ennio Morricone, de enorme talento e uma vasta e irretocável contribuição para o cinema, tendo na sua rica bagagem uma expressiva participação nas mais belas trilhas sonoras de westerns made in Italy, como a de Il bello, Il brutto, Il cattivo, que consagrou de vez Clint Eastwood como ator, seguramente a mais bela e conhecida trilha musical já feita para filmes sobre o velho oeste. Essa semana me deliciei revendo o filme de Quentin, uma autêntica jóia da sétima arte. Para você que sabe o que é bom, esse filme é encontrável no Youtube, com direito a áudio original, legendas em espanhol, e imagem em HD. Não importa o gênero que resolva filmar, Tarantino sempre nos brinda com filmes que fazem o deleite dos que amam a grande arte do Cinema.

Agressões e gestos obscenos de jogadores do Flamengo, o monopólio da Rede Globo, o declínio do futebol brasileiro.

Torcida brasileira, muito da derrocada do futebol brasileiro como força mundial se deve à ganância e falta de escrúpulos de grupos de empresários do ramo das comunicações, no caso, a Rede Globo de Televisão e seu nefando monopólio. Graças aos seus obscuros conluios com crapulosos dirigentes da CBF e seus sórdidos interesses financeiros, a dita Rede tornou-se a proprietária do esporte, relegou-o à reles condição de mercadoria, um mero produto a mais na sua grade de programas. Aqui nessa terra brasilis, o futebol não se tornou uma superpotência da bola de uma hora para outra. A esse invejável patamar chegamos com méritos através dos irrefutáveis talentos de grandes craques, verdadeiros deuses dos gramados. Craques como os geniais Pelé e Garrincha, ao lado de outros jogadores maravilhosos, encantaram o mundo inteiro e tornaram a camisa amarelinha a principal referência mundial quando o assunto é o chamado esportes das multidões. Pois a Rede Globo de Televisão, enxergando nesse esporte a possibilidade de ganhos ilimitados, tratou de apossar-se desse filão ultra-super-trilionário. Muito dinheiro correu, muita mutreta rolou, muita gente de moral duvidosa embolsou dinheiros para que, enfim a Rede Globo se tornasse, como de fato se tornou, a proprietária, a dona, a senhora, toda poderosa que manda e desmanda ao que chamamos nosso futebol, que já não é nada nosso, é dos riquíssimos proprietários da Rede Globo. Aquele vergonhoso 7x1 fora-o-baile que levamos da seleção alemã dentro de nossa própria casa não é causa, é consequência desse estado de coisas. Com sua enorme influência, a Globo dita regras, interfere em tabelas, horários de jogos, quem vai ou não para a seleção, quem lá será mantido como craque sem sofrer o açoite dos comentários depreciativos, tão destruidores, dos galvõesbuenos da vida. Usando da força de sua elevada audiência, a Globo sempre impôs seus interesses que muita vez sufocam os interesses dos torcedores e do nosso futebol. Isso se estende da seleção ao futebol de maneira geral, vez que as federações de futebol e os clubes de futebol tornaram-se dela dependentes, e assim ela se nos impõe suas regras e nos faz assistir o que ela quer e quando ela quer que assistamos, privando-nos de acompanhar os times e os jogos que de fato queremos ver, dando prioridade aos programas de sua grade televisiva. Para que a audiência da novela não seja prejudicada, somos forçados a comparecer em estádios ou assistir em casa jogos em horários noturnos proibitivos, criando grandes problemas de transporte e segurança para as prefeituras e cidadãos. Isso se estende aos demais países da América Latina que participam de torneios com clubes brasileiros. Enquanto as coisas seguirem dessa maneira, jogadores de times apadrinhados pela Globo farão o que querem, se estapearão à vontade, e farão seus gestos obscenos no palco que quiserem, sem serem punidos de acordo com o teor de seus atos indignos. E nunca é demais dizer que nós, torcedores brasileiros, o futebol seguirá descendo os degraus do túnel que conduz a um futebol sem brilhantismo nem grandezas, tornando-se um rebotalho, uma sombra apagada do futebol maravilhoso e vencedor que já fomos um dia, e que tanto encantou as plateias de todo esse planeta.

20 novembro 2017

Coffee and cigarrettes, Jim Jarmusch: café, claquete e muita fumaça.

Humanos prazeres são por vezes de difícil entendimento e aceitação para os que deles não desfrutam. Mas não há como negar o intenso e inebriante deleite que se adivinha por trás das expressões oriundas das faces daqueles viventes que fazem do hábito de desfrutar um cigarro depois de um café – e de um café antes do cigarro – um ritual sagrado, inadiável, inigualável, único para essa galera. Um turbilhão de prazeres nascendo de momento que aparenta ser de total banalidade, um vício saudável, diriam tais rubiaceaófanos e tabagísticos viventes. Jim Jarmusch, um dos meus cineastas norte-americanos de estimação, aborda, no mais colorido dos pretos e brancos, essa temática em seu Coffee and cigarrettes, filme lançado nos EUA em 2003. Nele, Jim vale-se de sua câmera e de uns poucos planos, de diálogos inteligentes, aparentemente despretensiosos, sempre oscilando entre o prosaico e o nonsense, ditos com propriedade pelas bocas de atores expressivos, que dominam o seu ofício de atuar. Mesmo os que como eu não fumam, nem bebem café com a sofreguidão dos personagens, certamente se regozijarão com as interpretações de astros como Roberto Benigni, Iggy Pop, Tom Waits, Bill Murray e tantos mais. Jarmusch capta o momento íntimo e aparentemente banal, em que personagens dividem seus cafés e cigarros sobre mesas cobertas com indefectíveis toalhas quadriculadas, e aí ele mistura ficção com realidade, vez que os atores entram em cena assumindo serem-se as pessoas que de fato são na dita vida real, atores mais que consagrados e, no entanto, seguindo o script escrito por Jarmusch, dizem coisas e vivem situações nas quais mostram um incômodo arsenal de defeitos de caráter, comportamentos desabilitados de figurar em manuais de boa conduta, em que pitadas de prepotência, arrogância, maledicência e desdém entram em cena, ao lado de ingenuidade, de simplicidade, da boa-fé, de sentimentos edificantes. Uau! O resultado é que isso evidencia um humor sutil, raro, pouco encontrável nas telinhas e telonas do mundo, os diálogos são divertidos, especialmente os protagonizados por Murray, Iggy e Waits. Molina e Coogan. La donna è móbile e a internet é ainda bem mais, então quem quiser assistir, encontrará, ao menos por ora, o filme no Youtube, com áudio em Inglês e legendas em espanhol. Eu, que um dia haverei de ser um poliglota, tiro de letra e assisto de boas, que dirá você, meu scholar leitor.

Flamengo, troca de sopapos em campo, Rede Globo e o futebol que virou suco.

Nessa rodada de numero 36 do Brasileirão de 2017, o Flamengo enfrentou o Corinthians, já sagrado, com todos os méritos, o lídimo campeão brasileiro desse corrente ano. Nesse jogo vimos coisas de estarrecer, que nada têm a ver com o dito esporte bretão: dois jogadores do Flamengo, mostrando total despreparo e nenhum pingo de fairplay, se estapearam, se esmurraram, se cuspiram, se arrostaram, trocaram cabeçadas, com direito a gestos obscenos claros para qualquer espectador ver no conforto de seu sacrossanto lar ou de um boteco na esquina, esse mais adequado para assistir tais belicosos e malcriados eventos. Tudo bem debaixo das fuças do árbitro da partida e o sujeitinho fez que nada viu, fez a egípcia, fez cara de paisagem, fez que não era com ele, não. Bom, ocorre que os protagonistas dos lamentáveis acontecimentos são jogadores do Flamengo, time do Rio de Janeiro, apadrinhado pela poderosa Rede Globo de Televisão. A Globo sempre busca preservar coisas e entidades que são dos seus particulares interesses, indiferente aos erros e culpas que possam ter. E quando algum jogador de um time qualquer que não esteja na lista de seus clubes intocáveis, comete uma ação censurável, como uma entrada entendida como muito violenta, a Globo a exibe diuturnamente, com censuras e ares de redentora da moralidade. Alguns acontecimentos deixam atuais deixam isso claro, mas vou me valer de um ocorrido há já algum tempo, mas que achei emblemático, envolvendo um ex-jogador do Timão, o meio campista Rincón que, em jogo com o Fla, disputava a bola com seus adversários e, a todo o momento, valendo-se de seu físico robusto, os desarmava por diversas vezes na partida, anulando-os. Os comentaristas da Globo, sempre parciais, como soem ser os comentaristas em sua larga maioria, fizeram um escândalo, sob alegação de que Rincón era desleal, violento. Um lance em que ele ia na bola e terminava por atingir com o cotovelo o jogador flamenguista foi mostrado em diversos momentos, dias e dias a fio, ganhando uma visibilidade enorme, monstruosa, contundente, não se falava em outra coisa. A mesma propalada preocupação e cuidados não existiram quando os comentaristas globais avalizaram a convocação e titularidade do desajustado Felipe Melo para a seleção canarinho de Dunga na Copa da Espanha. O resultado, sabemos, foi desastroso, vez que o citado elemento, mostrando desequilíbrio e uma índole violenta, foi expulso por agredir o jogador Robben, da Holanda, na Copa do Mundo da África do Sul, manchando o bom nome do nosso futebol. No caso de Rincón, tanto fizeram que os árbitros passaram a marcar de perto o corintiano em todos os jogos, punindo-o com diversos cartões e advertências, com um rigor nada usual. O que ontem, na Ilha do Urubu, os jogadores do Flamengo protagonizaram em campo foi algo vergonhoso que deveria ser punido exemplarmente pelo bem do nosso futebol. Justiça se faça, a Globo noticiou o lamentável episódio, mas o fez em tom ameno, quase de gracejo, como se tudo não passasse de uma lúdica traquinagem dos marmanjos envolvidos. Ninguém da emissora platinada bradou pelas expulsões, nem disse que "a regra é clara!", embora clara, e muito clara, seja. E dese já, podemos antecipar e dizer que não serão punidos de acordo com a gravidade de seus atos. Isso, se punidos forem. Havendo punição (e aqui cabem aspas), será um arranjo, uma passagem de mão pela cabeça, tudo virará algo desculpável, compreensível, aceitável, mesmo que seja tudo escabroso, digno de ser punido exemplarmente. Uma vez mais, os interesses de alguns ditam as normas, o lixo será de novo varrido para debaixo do tapete e nosso futebol, malgrado nosso infindável e já pouco justificável sentimento de eterna superioridade, seguirá cada vez mais sendo uma sombra apagada do que já fomos um dia. 

19 novembro 2017

José Luis Torrente, um símbolo incontestável da masculinidade contra o homossexualismo.

Dentre os infindáveis estereótipos que estamos habituados a ver em cenas de filmes norte-americanos está aquele em que dois policiais com a missão de patrulhar as ruas da cidade estão no interior de sua viatura, curtindo aquela calmaria que costuma anteceder os grandes conflitos, conversando amenidades e saboreando com volúpia enormes e deliciosos donuts, que são uma espécie de rosquinha ianque com variados recheios e coberturas transbordantes de caldas com muito açúcar. Na ótima série de comédias do cinema espanhol em que o ator Santiago Segura interpreta o anti-herói José Luis Torrente, um agente policial franquista, racista, machista e fascista, xenofóbico e homofóbico, essa famosa cena é um tanto diferente. Enquanto está com um outro policial dentro de um carro, apatrullando la ciudad ou montando campana em alguma investigação, sob o pretexto de relaxar das tensões da vigília e passar o tempo que monotonamente se arrasta, Torrente propõe ao colega que ambos se masturbem de forma mútua. Os já iniciados nessa práxis topam na hora e partem logo para a punhetística parceria, certamente por acharem isso muito mais interessante que ficar se lambuzando com os tais donuts. Já os policiais novéis nessa prática de onanismo em dupla, relutam diante da proposta, alegando que isso não é coisa que fique bem entre dois sujeitos héteros, mas acabam cedendo diante de um argumento definitivo de Torrente que afirma que tudo é feito observando o respeito às mais ortodoxas normas do machismo. Enquanto cada um manipula freneticamente la polla alheia, ou seja, o membro, a piroca, a verga do outro, percebendo que seu parceiro deixa escapar longo e sonoro gemido de prazer, Torrente, resfolegante, em bom espanhol o adverte: ”Sin mariconadas! Sin mariconadas!”.

Filins inmái rarte: cantores norte-americanos made in Brasil

Numa de suas belas composições, Caetano Veloso – sempre um sábio - asseverou que só se é possível filosofar em alemão. Para grande parte dos brasileiros parece que só se é permitido cantar e gravar canções se elas forem feitas em Inglês. Basta ver o repertório apresentado por calouros em atuais programas das nossas TVs. E olha que isto já foi beeeeem pior, acreditem vocês. Nos anos setentas, em quase toda sua totalidade, cantores brasileiros foram sumariamente varridos das paradas de sucesso, programa de rádios, das TVs, da mídia em geral deste patropi abençoá por Dê e boni por naturê, maquibelê! Só se tocavam, só se escutavam, só eram divulgadas nas nossas mídias as músicas norte-americanas e inglesas. E como o ditado versa que quando você não pode com um inimigo, deve unir-se a ele, houve à época um acontecimento que vale a pena que nos recordemos sempre, dado o inaudito e o irônico do fato. Um novo contingente de gringos, nomes não ouvidos até então, foi invadindo rádios e TVs tupiniquins, sem esbarrar nas mesmas resistências às canções e aos cantantes brasileiros, tocando, fazendo enorme sucesso, integrando trilhas musicais de novelas, vendendo toneladas de discos, ficando meses em paradas de sucesso. Estes gringos na verdade eram "gringos", assim, com aspas, sendo tão americanos e ingleses quanto você e eu. Ou sejam, eram cantantes made in Brazil que acharam um jeitinho de fazer chegar a hora desta gente bronzeada mostrar seu valor. "Norte-americanos" e "ingleses" nascidos por aqui mesmo, já que eram cantores e compositores brasileiros que, para burlar a barreira erguida pelo aculturamento, passaram a compor músicas no idioma de Bill Shakespeare e adotando como pseudônimos uma lista de nomes de origem anglo-saxônica para dar mais credibilidade, lembrando um recurso que cineastas e atores italianos empregavam, à época, ao produzirem seus spaghetti westerns. Para completar, as capas de tais discos feitas de forma a parecer que eram originalmente produzidos no exterior, e assim os nossos criativos “gringos” iam conseguindo seu lugar at the sun. Ou seja, foi imprescindível essa transgressão para que muitos artistas brazucas conseguissem fazer sucesso. E que sucesso, que sucesso! Nomes como Morris Albert, Terry Winter, Mark Davis, Tony Stevens, Steve Maclean e Michael Sullivan, entre outros, que embalavam as festinhas adolescentes, adentravam os lares, vendiam pilhas e pilhas de discos, ficavam meses nas paradas de sucesso. E depois de conseguirem esta façanha, partiram para uma maior, e começaram a figurar por largos tempos nas paradas de sucesso de diversos países e a serem gravados e regravados por gringos, estes, sim, autênticos. Morris Albert, por exemplo, teve sua composição "Feelings" gravado por cantantes do mundo inteiro, incluindo o consagrado Frank Sinatra e Elvis Presley. Outros grandes astros e estrelas da música norte-americana, como Nina Simone, também a gravaram, a lista de celebridades a gravá-la é enorme, incluindo o supracitado Caetano Veloso. No roteiro do filme "Susie e os Baker Boys" a canção é o pomo da discórdia entre os personagens da lindinha Michelle Pfeiffer e os brothers Jeff e Beau Bridges. Morris vendeu mais de 160 milhões de discos pelo planeta! Uau! Ontem, ao rever "Entre Tenieblas", de Almodóvar, percebi que uma das músicas utilizadas era "Dime", grande sucesso na Espanha. Nada mais que uma versão em língua espanhola para "Feelings", de Morris Albert. Um dia, um juiz da corte norte-americana afirmou em sentença que ao compor a música, Morris teria plagiado uma antiga canção de nome "Pour toi", composta em 1956 pelo francês Loulou Gasté, canção essa gravada por Dario Moreno, que fazia parte da trilha sonora do filme Les Feux aux podres. Muita gente que opina concorda que há semelhanças, notadamente nos acordes iniciais da canção, mas que elas não chegam a se constituir em um plágio, discordando frontalmente do juiz, cuja sentença foi amplamente favorável ao compositor francês já que, no entendimento do magistrado, Morris deve ser considerado apenas o autor da letra em Inglês, um absurdo que configura um autêntico assalto jurídico, e nós, brasileiros, sabemos sobejamente o que é isso. Polêmicas à parte, ''Feelings" tornou-se um dos imortais clássicos mundiais da canção graças ao talento de Maurício Alberto, nome verdadeiro de Morris, sendo Maurício um cidadão brasileiro, um paulista que, nesse país por vezes tão surrealista, por força das circunstâncias, tornou-se certo dia um cantor e compositor “gringo”.
(12/05/2013)

Siliconadas exageradas / Cartuns Popôlares

(18/09/13)

16 novembro 2017

Paulo Coelho: depois do duro Caminho de Santiago, finalmente La vie en rose


Deambulava eu pelas ruas de Paris em álacre matinada quando eis que me deparo com meu confrade Paulo Coelho. O leporídeo escriba atravessa a rua em minha direção, aproxima-se e me estreita num fraternal e brasileiríssimo amplexo. Pede-me notícias do greenyellowblueandwhite torrão. Digo ao meu caro amigo que aqui na terra estão jogando futebol, tem muito samba, muito choro e rock' n roll, mas que depois de tanto tempo de verde-oliva y otras cositas más,  a coisa aqui está preta, e é muita pirueta pra cavar o ganha-pão. O mago, afável como de habitude, despede-se de mim, volta seus tacões para Montmatre e retoma seu caminho (de Santiago) em inabalável tranquilidade. E eu descubro que não há nada mais maravilhoso que ser brasileiro. Desde, é claro, que você more no lugar certo. Numa requintada mansão no sul da França ou num deslumbrante palacete na Suiça, por exemplo, e não numa mansarda na invasão da Baixa da Égua ou do Vale da Muriçoca. Desde, também, que sua conta bancária esteja abarrotada com miríades e miríades de Euros que lhe permitam fazer matinais gargarejos diários com Romanée-Conti - santo remédio! - pelo simples fato de você ter mais de 100 milhões de livros vendidos no planeta, cifra que faria o finado afinado e refinado Michael Jackson ficar preto de inveja. Santé, xará!
(Public. orig. 27/08/13)