18 julho 2018

Béu Machado, um poeta e pensador que encantou a Bahia

Jornalista e colunista competente, poeta e compositor de versos cheios de originalidade, frasista criador de frases memoráveis. Béu Machado era um mistura de tudo isso concentrado em uma só criatura. Uma pessoa gentil, de coração enorme, de excelente índole, simples, cordato, pacato. Um atento observador de tipos populares, dos fatos cotidianos das gentes mais simples, dali vinham seus poemas mais inspirados, suas letras de músicas. Ao ler e ouvir frases e poemas de Béu, inevitavelmente converti-me em seu admirador. Convivendo com ele nas redações de jornais, de colegas nos tornamos amigos, com direito a longos e divertidos papos nos mais recomendáveis frege-moscas, em barracas, biroscas, visgueiras e cacetes-armados da Boca do Rio, bairro em que éramos vizinhos, sendo os diálogos regados com talagadas de capitosas fôias pôdi. Como colega de redação, testemunhei o quanto Béu era admirado e querido por todos, sendo enorme o seu prestígio junto à classe artística e aos demais jornalistas. Em sua coluna de Artes, democraticamente promoveu centenas de artistas, deu-lhes visibilidade e importância. Muitos desses artistas o tempo se encarregou de consagrar.  Mas Béu não era homem dado a autopromoções. Tinha um enorme talento, sim, gostava de escrever, de criar, mas não se importava com a glória pessoal, com os holofotes da fama. Talvez isso explique o pouco material sobre ele encontrado na Internet, seus poemas e frases. No ano em que Béu Machado faleceu, amigos mais próximos se reuniram e, capitaneados pelo artista gráfico e plástico Washington Falcão, editaram um livro com as antológicas frases de Béu. A mim coube a missão de fazer as ilustrações, o que fiz com enorme carinho. Selecionei algumas das frases de Béu, por mim ilustradas, e vou postar neste espaço amarelinho algumas delas para que vocêzinhos, poética leitora, fiel leitor, possam desfrutar, saborear e se regalar com o talento desse grande e inesquecível poeta, que um dia se autorrebatizou como Béu Machado de Xangô, e que, entre as poucas coisas que escreveu sobre si próprio, cravou essa maravilha: “Amo, apesar da amargura. Sorrio, apesar do dente podre.”
**************** Retrato de Béu esboçado com grafite HB, arte-finalizado com caneta nanquim descartável, colorido com Ecoline / Arte que se reparte
(21/09/2016)

Damion, Dunnm, caricaturista e ilustrador norte-americano, e seu belo trabalho

Recentemente postei neste impoluto bloguito diversos trabalhos do caricaturista e ilustrador norte-americano Damion Dunn e não deu outra: eles agradaram em cheio aos leitores. Vai daí que é inevitável que eu poste mais uns trabalhos do cara. Ali no alto, puxando a fila - nem é preciso que eu diga, mas assim mesmo eu digo - o hispânico Javier Bardem, de memoráveis filmes espanhóis e dos EUA, um ator bastante admirado pelos cinéfilos brasileiros, entre os quais me faço presente. Em seguida, o rapper, diretor, roteirista e ator Curtis James Jackson III, mais conhecido pelo nome de 50 Cent. Vendo que um nome pessoal tão longo e pomposo foi transformado em um curto e prosaico apelido, por aí os mais atilados já percebem que o humor do cara é dos bons. Ao centro, uma homenagem feita para relembrar o admirável e memorável cantante e dançante Michael Jackson, aquele do Moonwalker. E por último, last but not least, um trabalho bem criativo e original, mostrando a maravilhosa Monica Bellucci, ex-modelo internacional, uma ótima atriz de tantos filmes e, além de tudo, uma mocetona linda, retumbante, transbordante de sensualidade, que o diga o consagrado ator Vincent Cassel, que se casou com a bonitinha, lindinha, maravilhosinha, sendo ele um cara beeem feio, como exige a tradição de grande parte dos galãs franceses, só para fazer raiva a bonitões assim como eu que ficam chupando o dedo enquanto o feioso Cassel desfruta cada uma das muitíssimas delícias da bela.
(02/06/14)

Literarte, uma livraria baiana muito bem humorada.


Amáveis e idolatráveis leitores, nem todo cartunista de colete é o Ziraldo. Este aí, no centro da foto, por exemplo, não o é, o que confirma a verdade contida na assertiva inicial. Para melhor informá-los, ele sou eu. Quer dizer, o cara de colete aí nesta foto é este mesmo que aqui, sentado diante de um prestimoso PC, vos mimoseia com estas mal digitadas linhas. O evento, é o lançamento de um livro do cartunista e artista gráfico Nildão, na livraria Literarte, no ano de 1979. Nildão é o de barba, sentado à esquerda na foto, segurando uma caneta com a qual teceu dezenas de dedicatórias aos que adquiriram um dos seus formidáveis livros. O outro barbudinho, de perfil, com uma vistosa calças jeans, é o Lage, fera maior dos cartuns. Os demais são figuras insignes da cena cultural e social da Bahia naqueles dias que eram de anos dourados, ainda que pesasse uma atmosfera cor de chumbo sobre a Pátria-mãe que dormia, tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações. A foto retrata um dos grandes e divertidos eventos culturais ocorridos na Literarte, sendo a livraria justamente o mote precípuo desta postagem, vez que Nildão e Getúlio Soares, que foram os idealizadores e proprietários da Literarte em finais dos anos 70s, começo dos anos 80s, me transmitiram uma maravilha de notícia que agora reparto com vocês: ambos estão preparando um livro contando as maravilhas que a Literarte gerou e propiciou aos que são baianos, por nascimento ou vocação. Em verdade, a Literarte foi mais, muito mais que uma livraria, não se limitando a ser uma mera vendedora de livros e revistas para a comunidade. Para seus frequentadores sua existência foi fundamental, ela funcionava como um espaço de afirmação da vocação democrática de um povo sufocado por um regime ditatorial, um grito de liberdade, uma fonte de ideias e de propostas criativas, um reduto onde o mais elevado astral se instalou e a todos acolhia, artistas, intelectuais, estudantes, professores, profissionais liberais, cidadãos de bem interessados em cultura e informação. E fugindo dos spoilers, meninos e meninas, fiquemos por aqui, já que o livro está em fase de preparação, sendo pensado e feito com o maior dos carinhos por Nildão e Getúlio que brindarão com agradabilíssimas surpresas aos que, assim como eu, têm saudade da Literarte e querem recordar momentos significativos e saber de todos os pormenores com riquezas de detalhes.  
(20/06/18)

14 julho 2018

Os japoneses em seus mínimos detalhes sexuais / U sexu nu mundo 5

O Japão é um país de pequenas dimensões, sabido é. Devido a isto, e à consequente falta de espaço, tudo lá é pequeno em tamanho, menos os lutadores de Sumô. Os apartamentos são todos verdadeiras quitinetes, os rádios são pequenos, as telas dos aparelhos de TVs são minúsculas, os celulares, idem, os carrões de lá são do tamanho daquele do Mr. Bean. Até o biótipo japonês parece acompanhar esta tendência pois os pés das graciosas japonesas são bem pequenininhos. Menores que eles só mesmo as bimbinhas dos homens japoneses, fato que não os deixa nem um pinguinho complexados como ocorre com os brasileiros mal dotados. Se você assistir um filme de sexo explícito feito no Japão, vai logo perceber que os atores pornôs japoneses não tem o mínimo grilo com relação ao diminuto tamanho do seu, digamos, instrumento de trabalho. Entram em cena sem nenhum constrangimento, como se fossem uns autênticos pés-de-mesa. Antes de partir para cima da atriz pornô, o nipônico olha com orgulho para a própria varinha e grita: "Tora! Tora! Tora!". Pensar grande é isto aí. Já no plano familiar, sabe-se que quando vai comer sua venerável esposa, o marido japonês costuma usar dois pauzinhos. Um, é o dele mesmo. O outro é o pauzinho do Ricardón San que está sempre disposto a colaborar porque adora comer primeiro o sashimi e depois o tofu da mulher do seu amigo.
(04/12/10)

Gordurinha e sua arte, Tio Sam, a Bahia e o bebop no nosso samba. / Uns caras que eu amo 9

Gordurinha, cantor, compositor, humorista e radialista baiano, foi nome de sucesso em todo o Brasil na chamada Época de Ouro do Rádio. Difícil, quase impossível, é alguém da atual geração - tão bem servida de imagens oriundas de TVs, das câmeras fotográficas digitais ou dos múltiplos artefatos eletrônicos que a qualquer momento do dia filmam, gravam, registram imagens, divulgando-as, compartilhando-as instantaneamente - acreditar que existiu um tempo em que eram os ouvidos, e não os olhos, os condutores da arte e de toda e qualquer informação. Acontece, caros smartphonísticos mancebos e tabletísticas moçoilas, que as coisas já foram assim em uma era que já era, a Era do Rádio. Nela brilharam artistas fantásticos, entre eles o baiano Gordurinha, de tantos grandes hits populares, a exemplo de Baiano burro nasce morto, composição solo sua, cantada em todo esse mulato inzoneiro. Sua gravação de Mambo da Cantareira, de Barbosa e Eloíde, fez enorme sucesso, sendo regravado em tempos recentes pelo cantante Fagner. Uma composição sua, Oróra analfabeta, em parceria com Nascimento Gomes, é sucesso até hoje, descrevendo encantos e desencantos de Oróra, uma dona boa lá de Cascadura que é uma boa criatura, mas que escreve gato com J e escreve saudade com C e que, ainda por cima, afirma adorar uma feijoada compreta. De Gordurinha é também a bela e tocante Súplica cearense, feita em parceria com Nelinho, a divertida Caixa alta em Paris, a sensível Vendedor de caranguejo. Mas o maior êxito popular de Gordurinha, certamente é sua composição, Chiclete com banana. letra e música suas, ainda que oficialmente conste o nome de Almira Castilho, esposa e partner de Jackson do Pandeiro, como sua parceira na composição, o que -  segundo consta - de fato não teria acontecido. O que sucedeu, de verdade, foi que a composição agradou em cheio, adentrando com estilo a História da MPB, eternizada que foi pela gravação dele, o venerado Jackson do Pandeiro, senhor do ritmo, mestre da ginga e dono de uma maneira gostosa, única e inigualável de interpretar canções. Chiclete com banana é uma sacada perfeita de Gordurinha para definir o universo da nossa massificação cultural via United States, coisa que sempre nos assolou em diversas áreas de nossas artes.  Se na época o sucesso da música foi enorme, o tempo que passou nos diz que ela segue sendo uma rica referência até os dias atuais, no que muito ajudou sua regravação por Gilberto Gil no disco Expresso 2222. O título da música foi usado para batizar a famosa banda de axé-music e a revista em quadrinhos do cartunista Angeli. Sua letra é uma declaração de amor à música do Brasil, uma afirmação de carinho e apreço a tudo que temos de bom em nossa alma brasileira, um brado de resistência cultural diante da imposição das coisas made in USA, notadamente o constante domínio exercido pelas gravadoras e ritmos norte-americanos sobre a nossa música, no caso, vinda de um ritmo chamado bebop. De forma clara e gostosamente bem-humorada, Gordurinha informa à industria musical ianque que antes, bem antes, de nos aculturarem, eles precisariam conhecer mais profundamente, entender, respeitar e mesmo assimilar a música do Brasil, mandando-lhes um ritmado e irreverente recado: "Eu só boto bebop no meu samba, quando o Tio Sam pegar no tamborim. Quando ele pegar no pandeiro e no zabumba e entender que o samba não é rumba"... E, concluindo, desafiador: "Eu quero ver o Tio Sam de frigideira numa batucada brasileira."    
 (20/11/16)  

13 julho 2018

Bill Watterson, Calvin and Hobbes / Uns cara que eu amo 5

 
Entre meus quadrinhos preferidos está Calvin and Hobbes, aqui no Brasil conhecidos como Calvin e Haroldo. Bill Watterson não é apenas um estupendo desenhista, é um argumentista de raro talento que criou um universo mais que maravilhoso onde um menino, Calvin, e seu companheiro constante, Haroldo, um tigre de pelúcia que ganha vida quando ambos estão a sós sem a inconveniente interferência de adultos. Estes, por sua vez, transformam-se, na prolífica imaginação de Calvin, em dinossauros ou em monstros estranhos de outros universos, sempre prontos a atrapalhar a vida do inteligente menino. E inteligência é o que mais se vê nas tiras de Watterson, presentes nos diálogos mais criativos das HQs desde que foram inventadas. As situações que ambos vivem, mesclando realidade e fantasia para discutir problemas do homem atual, ultrapassam os limites da mesmice, das fórmulas fáceis, das mensagens convencionais com tipos estereotipados que os americanos tanto adoram. Tão fora do convencional é Bill Watterson que um dia, gozando de notável popularidade e do mais irrestrito respeito, para surpresa geral deixou de produzir desenhos com o menino e seu tigre. Talvez tenha se cansado, talvez fazer as tiras não lhe trouxesse mais alegrias, talvez - quem sabe - achando que poderia repetir-se, tenha resolvido parar depois de 10 anos onde chegou a produzir mais de 3100 tiras da dupla de personagens. Retirou-se do cenário artístico e não pensou como qualquer criador, americano ou não, de explorar comercialmente seus personagens, o que o tornaria um multimilionário, fazendo lembrar o genial desenhista do underground Robert Crumb que se lixava para o mercado de licenciamento para o qual dava sonoras negativas e explícitas bananas. Caramba!, gente assim sempre me causa uma profunda admiração e um enorme e insopitável sentimento de inveja pela firmeza de caráter, pela forte personalidade com que mostram que estão acima da mesmice geral, pela maneira independente de pensar e de recusar-se a ser apenas mais um na manada, mais um na interminável multidão dos medíocres que povoam uma grande extensão neste vasto orbe.
(Publ.orig.10/11/13)

12 julho 2018

Carmen Miranda, the Lady with the Tutti-Frutti Hat / Umas minas que eu amo 1


 Nunca houve uma mulher como Gilda, dizem. Concordo que Gilda não era fraca, não, mas digo que nunca houve mesmo é uma mulher como Carmen Miranda. E quem a viu cantando, dançando, atuando jamais poderá delir da memória Carmen, a brazilian bombshell. Sua imagem que atraía todos os olhares qual um irresistível imã, foi mostrada em todo planeta pelo cinema dos states. Os americanos renderam-se aos seus irresistíveis encantos que tantos eram e quem a conhece jamais a esquece, seja na América do Norte, na Europa, em todo orbe. Mais de meio século já se passou desde suas deslumbrantes aparições nos tais filmes made in USA e volta e meia ela é citada em fitas atuais, sua música, sua imagem. Como em filmes de Woody Allen, que parece adorá-la, até mesmo em desenhos animados como de Tom e Jerry, Patolino, Pantera Cor-de-Rosa, Popeye, Bob Esponja e uma lista interminável de cartoons. É bem verdade que os filmes hollywoodianos com Carmen tendiam para o estereótipo, morenas lânguidas dormitando ao sol, toneladas de banana e brasileiritos com sombreros e maracas, ainda assim vale a pena ver a Pequena Notável em ação muito à vontade dividindo a cena com monstros lendários das telinhas e telonas americanas como Grouxo Marx e Jimmy Durante que deixavam transparecer o prazer de estar atuando ao lado dela. Jerry Lewis vestiu-se como ela em uma cena de um de seus filmes, cantou e dançou, imitando-a. Carmen, aliás, era imitada por diversas estrelas americanas contemporâneas suas e isso vale como homenagem pois todas sabiam que Carmen era única e inimitável. Seu sucesso jamais encontrou similares pelo ineditismo, pelo raro poder criativo, pela força de sua presença em cena. Cantora e atriz que a todos hipnotizava quando no palco ou nas telas, como não se curvar diante de sua voz, sua interpretação, sua brejeirice, sua ginga, seu enorme talento natural para o burlesco, sua graça, seus gestos expressivos, seus figurinos que ela própria criava, seu domínio do palco e das plateias? Tudo em Carmen Miranda sempre foi original, inefável e inaudito. Com seus turbantes e balangandãs, quando The Lady of the Tutti-Frutti Hat pisava no set, não tinha pra mais ninguém, roubava a cena de qualquer grande estrela que com ela contracenasse. Tudo isso não se trata de forma nenhum de mero saudosismo, mas de justo e necessário reconhecimento. Enquanto na memória americana e europeia Carmen segue vivendo, aqui no Brasil, sua terra, tratam de esquecê-la depois de tentarem sepultá-la em vida como artista sob alegação de que teria incorrido no grave delito de voltar americanizada da terra de Tio Sam. Fácil é perceber-se que nestes tempos hodiernos a insaciável indústria musical e a mídia enriquecem seus patrões fabricando em série as maiores bandas de todos os tempos da última semana e uma pletora de astros que serão descartados para dar lugar a outros produtos similares, todos com seus sucessos estrondosos por um ano, um verão ou mesmo uma só música, todos feitos para serem consumidos por pessoas que se satisfazem com bem pouco. Acima, muito acima destes produtos descartáveis estão os verdadeiros astros e estrelas. E entre estas, a maior de todos os tempos, a única e verdadeiramente inesquecível, a estrela mais fulgurante de todas, Carmen Miranda.
(10/10/13)

Raul Seixas, do Oiapoque à PQP.

Do Oiapoque ao Chuí, dos grupos de rock à Marilena Chauí, neste Brasil varonil do Gugu e do Clodovil, todos gritam em uníssono: "Toca Raul!" 
Mesmo com todos os terríveis obstáculos jabaculísticos dos dias atuais, as rádios acabam tendo de atender aos pedidos pois a pressão popular é grande. Quanto a mim, não preciso que em coro gritem:" Pinta Raul"!! Na maior velô, vou logo me munindo de pincéis, tintas, lápis, carvão seco, carvão a óleo, telas, Photoshop e mandando ver em honra do nosso sempre amado maluco beleza. É Raul Seixas na veia, nos ouvidos, na mente.Tá rebocado, meu compadre! Titirrane, Raulzito, titirrante!
(Pul. orig. 01/05/2015)

10 julho 2018

Caetano Veloso e Gilberto Gil, doces e bárbaros meninos.

Gilberto Gil, grande, grande, grande Gil. Quantas canções suas me fizeram ver o mundo com melhores cores. Setentão, o cara aê! Mais exatamente, 76 primaveras, outonos, invernos e verões. Mas, como é possível?!, é quase um garotinho! Breve, o mano Caetano completará também os 76. Perplexo, encantado, indagarei de novo: como é possível, como?! Ambos são amigos há mais de meio século, amam-se, respeitam-se, admiram-se. São grandes, fantásticos artistas, com incontáveis legiões de fãs por todo este vastíssimo orbe de tantas culturas, todas nutrindo por eles incondicional admiração e vasto respeito às suas artes, seus talentos. Conquistaram isso com seus talentos, com seus empenhos e seus carismas. Maravilhosos artistas, grandes seres humanos, suas vidas são espelhos para tantos. Pelos seus quase 80, transitam serenos, criativos, atuantes, maduros, porque dão todos seus passos com fé, com muita fé. Que todos os santos da Bahia e todos seus orixás os protejam em suas caminhadas, meninos!
********Em homenagem a estes dois virtuoses da música e a estas duas fantásticas divas da canção, fiz esta caricatura aí com grafite B, caneta nanquim, ecoline, lápis Caran d'Ache e tinta acrílica. Ou talvez deva dizer acriĺírica ou colírica, parafraseando aquela canção do Caê.

(Publ. Orig. 29/05/12)

Parlim, João Gilberto, Ivete Sangalo, Velho Chico


Juazeiro, cidade baiana situada à beira do abençoado Rio São Francisco. Do outro lado do célebre rio fica a pernambucana Petrolina que, em dia pretérito, sequer percebeu a flecha preta lançada pelo ciúme que atingiu em cheio o peito do filho mais ilustre de Dona Canô. Juazeiro - que não é a do Norte, aquela que fica no Ceará - é terra natal de ninguém menos que João Bossanova Gilberto e de Ivete Sangalo, de Luís Galvão, criativo vate dos Novos Baianos. Também é terra natal de Miécio Café, cartunista, caricaturista e promotor de saraus culturais com participação da nata da música brasileira, em sua época. Juazeiro é ainda berço dos craques dos gramados Nunes, que jogou ao lado de Zico no Flamengo, Luís Chevrolet Pereira e de Daniel Alves, sendo que Nunes foi um grande ídolo da torcida flamenguista e os dois últimos escreveram de forma brilhante seus nomes no futebol da Europa. Mas Juazeiro, a querida Juazeiro, é, sobretudo, terra de um grande cara chamado Parlim, um criativo, simpático e profícuo desenhista, quadrinhista, artista gráfico, professor respeitado e de quebra um produtor cultural. No tempo que ali morei, frequentava o estúdio dele e ficava encantado ao ver seu amor à arte transformar-se em concorridas apresentações de mamulengos, títeres, bonifrates, manés-gostosos, franca-tripas, fantoches ou que nome mais tenham, animadas oficinas de desenho para guris, e também em bloco infantil de carnaval, em álbuns de quadrinhos que versam sobre fatos e crendices da região são-franciscana, e da própria história local que envolve sua querida Juazeiro, como o seu "A guerra de Canudos em Quadrinhos". Parlim é retadim. Um grande cara, um caráter maravilhoso, um sertanejo sem máculas, um coração enorme, uma alma de criança cheia de amor pelas artes, pelos amigos e por Juazeiro que, ao lado de sua família, compõem suas maiores querências. Desde que retornei a Salvador nunca mais voltei à Juazeiro. Mas não é por falta de saudades, que estas são muitas. Saudades do Velho Chico, de suas águas, suas ilhas, de caminhar com a namorada pela orla da cidade sentindo a aragem vinda do rio, de beber uma cerveja nos barzinhos à beira do São Francisco, jogando conversa fora, de comer surubim e carne de bode com pirão, de passear na vizinha Petrolina, saudades imensas de alguns ótimos amigos juazeirenses que lá fiz. Entre eles, o amável Parlim, ser humano excepcional, um artista dos bão, um autêntico João Gilberto das artes gráficas.
(02/08/2011)
Ao Parlim, in memoriam.

07 julho 2018

O dia triste em que comi Alcione, a marrom

 
Pindorama, além de ser o nome indígena desta Terra Brasilis, é também o nome de uma pequena e aprazível cidade da hinterlândia paulista. Era lá que, ainda um niño de Jesus, eu vivia uma vidinha pacata ao lado dos meus amáveis genitores e irmãos. Meu pai se afastara do emprego para um longo e necessário tratamento de sua debilitada saúde e passava os dias em casa procurando ocupar seu tempo com leituras e escritos. E volta e meia inventava uma nova ocupação. A mais recente era um pequeno galinheiro que ele houvera por bem colocar no fundo do nosso amplo quintal de casa interiorana. Passei a ajudá-lo no trato com as penosas que me atraíram desde a chegada. Trazia-lhes milho, água, ração, remédios. Tão apegado a elas fiquei que decidi dar-lhes nomes da forma com que se faz aos animais de estimação. Como elas cantassem bonito, batizei cada uma com nomes de cantoras de minha preferência, Wanderléa, Vanusa, Martinha, numa sincera homenagem nascida de minha mente sem malícias de inocente infante. Minha predileta entre as preferidas era uma bem mais rechonchuda que todas as outras e que tinha porte de rainha ao caminhar no terreiro. Por ter sua plumagem num lindo tom marrom e por seu canto poderoso, dei-lhe o nome de Alcione. Seu reino, poleiro e terreiro. Ali ela agitava suas asas marrons, tão brilhantes e cacarejava de afinadíssima forma. Uma belezura. Eis que um dia anunciou-se pelos corredores da casa a vinda de um irmão de meu pai, tio Dario, que morava em Bauru e vinha nos visitar aproveitando o feriadão gerado pelo carnaval que se aproximava. Na véspera da chegada de meu tio, mamãe anunciou que ia matar umas galinhas para um lauto almoço de boas-vindas ao ilustre visitante. Meu coração disparou. "A Alcione, não! A Alcione, não, mamãe!" . Todos riram da minha aflição. Mas o que eu temia aconteceu e minhas preferidas terminaram seus cacarejantes dias em grandes panelas a meio de uma infinidade de cebolas, alho, cebolinha picada e congêneres. Lacrimoso, inconsolável, jurei a mim mesmo não tocar nos pratos feitos com minhas amigas. Chegado o momento do ágape o aroma dos guisados e assados invadiu minhas narinas de petiz, enfeitiçando-me. Minha mãe tinha mãos divinas ao cozinhar. Em uma travessa percebi aquelas coxas maiores e mais atraentes que as outras. Eram de Alcione, eu sabia. Com gestos mecânicos puxei a travessa e servi-me generosamente do peito e das coxas. Quase em transe, dispensei os talheres e sem ligar para o preclaro visitante, enfiei meus dedos naquele peito macio e cheiroso e o levei à boca ansiosa. Ah!, prazer dos prazeres! Meus olhos então se fixaram nas coxas de Alcione. Coxas belas, roliças, de maravilhosa cor dourada e capitoso olor. Caí de boca de forma descontrolada. E novamente minha língua passeou naquelas carnes divinas. Simplesmente delirante. O apetite saciado me trouxe de volta à realidade. Caí em mim e incontinenti percebi a grave traição em que eu incorrera com aquela descontrolada e quase antropofágica conduta. Saí da mesa correndo para que não pudessem notar minhas copiosas lágrimas. Era emoção demais para meus verdes anos de vida. Em um só dia conheci os inesquecíveis prazeres da carne, vindos das coxas macias, do peito aveludado de Alcione, a marrom. Desolado descobri que sou um fraco nas minhas convicções e que oscarwildeanamente resisto a tudo, tudo. Menos a uma tentação.
(230514)

Baianos são bons de futebol e na Bahia o baba na praia é sagrado

Ah, Bahia, Bahia, gentilíssima mater de filhos negros de todas as cores e nuanças, em minha língua suavemente desliza teu dulcíssimo nome quando o pronuncio com sempiterna emoção que se vai renovando infinitamente. Em seus mares de águas translúcidas, Yemanjá, eterna rainha, fez sua morada. Diáfanas nuvens ornamentam seus céus que se tingem com os mais delicados matizes nesta rododáctila aurora que nem o próprio Homero jamais contemplou similar. Ah, Homero, Homero, pobre Homero, sempre às voltas com Odisseias e Ilíadas, nunca dispondo de tempo para si próprio, aqui jamais aportou seja em gozo de férias ou de merecidas licenças não tendo destarte a fortuna de descobrir o quão deslumbrante é este afro-baiano torrão. Para você, odisseico vate, e para quem interessar possa, mostro aqui um pouquinho dos tipos, usos e costumes das gentes baianas, das quais faço parte. Para tal, fiz e posto aqui e agora, ao vivo e a cores, esta tomada geral de um baba, que é - assim mesmo, no masculino, jogar um baba, pegar o baba - como nós baianos chamamos o que no restante do país chamam de jogar uma pelada, esclarecendo que pelada, para nós, é outra coisa bem diferente, sendo também muitíssimo apreciada e consumida com notável gula pelos viventes dessa afro-urbe nominada Soterópolis. Para pintar, utilizei tinta acrílica sobre tela, vez que nem tudo é PC, HD ou sei lá mais o quê.
(24/04/14)

Retratando Antonio Conselheiro.

Há desenhistas que arrancam as próprias melenas, às vezes até bem raras, em busca de um estilo pessoal que seja passível de reconhecimento como se dá com sua escrita, cujo modo de delinear as letras as pessoas identificam de pronto. Não foi este o caminho que busquei na minha senda de ilustrador, vez que adoro mudar sempre que possível e o mais que puder, tentar novos rumos, novas linguagens, novas técnicas, buscando fugir da mesmice, dos maneirimos, do que é rotineiro. Fazer a mesma coisa em nome de um estilo pode para mim se tornar algo previsível e mesmo cansativo, desestimulante. Sinto-me mais estimulado mudando sempre que possível - geminiano sou - em eterno desafio, tentando surpreender positivamente o público leitor e até mesmo a mim próprio. Nestes retratos de Antonio Conselheiro intentei buscar duas alternativas, dois enfoques diversos. Em uma almejei criar um impacto mostrando em close as marcantes feições de um sertanejo atingido por graves e injustas perseguições que findaram por tirar-lhe a vida. Para tal, utilizei sobre papel ofício uma experimental bisnaga de tinta negra, destas para pintar paredes. Foi uma meleira completa, mas o resultado final me agradou. Na outra, mais clean, usando tinta acrílica fui em busca de um clima semelhante mas agora almejando situar o personagem no seu hábitat recortado por um céu digno de um glauberrochístico filme. Um pincel na mão e uma ideia na cabeça.
(15/11/14)

José Cândido de Carvalho e seu magnífico romance O Coronel e lobisomem

Sempre que posso, releio "O coronel e o lobisomem", de José Cândido de Carvalho. Ou ao menos parágrafos que costumo marcar a lápis, quando gosto muito. E cada releitura, acreditem, é plena de renovada emoção, enlevo e contentamento. Tudo neste livro é maravilhoso e pra mostrar, reproduzo aqui um trechinho que dá uma boa mostra de como José Cândido constrói com rara maestria sua literatura feita de brasilidade, magia e encantamento: "Olhei em derredor. Um fogo de labareda, de cambulhada com um bater de patas, vinha do aceiro. Era o Diabo em seu trabalho nefasto. Pois ia ele saber quem era o neto de Simeão, coronel por valentia e senhor de pasto por direito de herança. Sem medo, peito estofado, cocei a garrucha e risquei, com a roseta, a barriga da mulinha de São Jorge. A danada, boca de seda, obedeceu a minha ordem. O luar caía a pino do alto do céu. Em pata de nuvem, mais por cima do arvoredo do que um passarinho, comecei a galopar. Embaixo da sela passavam os banhados, os currais, tudo que não tinha mais serventia pra quem ia travar luta mortal contra o pai de todas as maldades. Um clarão escorria de minha pessoa. Do lado do mar vinha vindo um canto de boniteza nunca ouvido. Devia ser o canto da madrugada que subia."
************Ilustração feita no Photoshop com o mouse do PC / Arte que se reparte
(10/10/14)

04 julho 2018

Paulo Coelho: depois do duro Caminho de Santiago, finalmente La vie en rose


Deambulava eu pelas ruas de Paris em álacre matinada quando eis que me deparo com meu confrade Paulo Coelho. O leporídeo escriba atravessa a rua em minha direção, aproxima-se e me estreita num fraternal e brasileiríssimo amplexo. Pede-me notícias do greenyellowblueandwhite torrão. Digo ao meu caro amigo que aqui na terra estão jogando futebol, tem muito samba, muito choro e rock' n roll, mas que depois de tanto tempo de verde-oliva y otras cositas más,  a coisa aqui está preta, e é muita pirueta pra cavar o ganha-pão. O mago, afável como de habitude, despede-se de mim, volta seus tacões para Montmatre e retoma seu caminho (de Santiago) em inabalável tranquilidade. E eu descubro que não há nada mais maravilhoso que ser brasileiro. Desde, é claro, que você more no lugar certo. Numa requintada mansão no sul da França ou num deslumbrante palacete na Suiça, por exemplo, e não numa mansarda na invasão da Baixa da Égua ou do Vale da Muriçoca. Desde, também, que sua conta bancária esteja abarrotada com miríades e miríades de Euros que lhe permitam fazer matinais gargarejos diários com Romanée-Conti - santo remédio! - pelo simples fato de você ter mais de 100 milhões de livros vendidos no planeta, cifra que faria o finado afinado e refinado Michael Jackson ficar preto de inveja. Santé, xará!
(Public. orig. 27/08/13)

03 julho 2018

Paulo Paiva, HQs, Maciota, Neymar e Copa do Mundo

 
Um dos personagens mais legais do sempre inspirado cartunista Paulo Paiva é o craque Maciota, que deve ter lá algum parentesco com o igualmente craque Coalhada, do Chico Anysio. Sempre me deliciei lendo as HQs com o Maciota saídas da cuca de Pepê. A revista com este personagem deixou de sair há tempos mas o personagem paivaniano ficou gravado na memória dos fãs. Para felicidade geral da nação, ouvi que o incansável editor Franco de Rosa lançou no mercado há pouco tempo uma edição só com as tiras e HQs de Maciota. Bom, muito bom. Enquanto isso, malgrado o fiasco de descomunal proporção da seleção brasileira na recente Copa de 2014, por aqui o futebol segue sendo preferência nacional. Valendo-se dessa paixão desmedida pelo chamado esporte bretão e aproveitando uma bela maré criativa, Pepê retou-se, muniu-se de seus apetrechos cartunísticos e mandou este desenho com o sempre admirado Maciota, aqui travestido de Neymarciota para delírio dos milhares de fãs do personagem futebolástico, eu incluso. Aproveitando este momento em que o Brasil está disputando a Copa da Rússia, sacudindo uma bandeira e aboletado na geral do estádio, aplaudo entusiasmado vendo este eterno craque Maciota desfilar seus fiascos futebolísticos, quer dizer, seu garbo e sua classe de craque de la pelota. Agora, craque, cracaço mesmo é o Paulo Paiva. No humor e no traço. Axé, Pepê!
(25/05/14)

Roberto Ferri, fabuloso artista plástico da Itália na atualidade.

Da Vinci, Michelangelo, Giotto, Rafael, Caravaggio, Veronese, Ticiano, Modigliani. A Itália sempre brindou o mundo com pintores magníficos e com deslumbrantes escolas de pintura ao longo da História da humanidade. Uma bela tradição que se mantém até os dias atuais, basta ver as pinturas feitas pelo talentosíssimo italiano Roberto Ferri, artista que maneja com maestria pincéis e tintas, mostrando ter a habilidade natural dos grandes, dos maravilhosos Mestres da pintura italiana. Sim, a Itália é pátria dos diversos gênios da pintura acima citados e pelo jeito esta história de DNA faz toda a diferença, pois fácil é concluirmos que Ferri traz no sangue um talento atávico vindo de um dos seus compatriotas, Mestres reverenciados em todo o planeta. Para você que gosta de arte feita com talento vale a pena visitar o site e o blog de Roberto: http://www.robertoferri.net/
e http://robertoferripittore.blogspot.com/  
(101014)

02 julho 2018

Woody Allen, o cartunista Laerte, o artista plástico Flávio de Carvalho e o mundo dos crossdressers.

Estilistas, costureiros, bordadeiras, correi. É chegada a hora de tesourar, costurar e alinhavar para uma nova vertente que surgiu forte no mundo da moda: o crossdresser. Não que isso seja de fato coisa nova, na verdade a coisa vem de longe. No cinema, entre outras películas, o tema foi abordado pelo cineasta Woody Allen ainda nos anos 70 em um filme intitulado "Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo e não tinha coragem de perguntar". Nele, um sisudo pai de família tem o incontrolável impulso de vestir-se às escondidas com as roupas da esposa, passando, assim trajado, horas a fio admirando-se no espelho. Aqui no Brasil, há já algum tempo, graças ao cartunista Laerte, o tema voltou à baila, já que este artista reivindicou para si o direito de se trajar em público com vestimentas até então consideradas de uso restrito ao mundo feminino. Curiosamente, vale lembrar que mulheres lutaram e ainda lutam muito para conseguir direitos que sempre lhes foram negados. Voto, cargos políticos, empregos, um mundo de coisa. Mas ao mesmo tempo sempre lhes foram franqueadas coisas que aos homens eram negadas, sempre puderam elas desfilar por ruas e ambientes com cabelos cor-de-rosa ou azuis ou verdes sem reações hostis dos varonis. Também nunca sofreram maiores constrangimentos ao usarem indumentárias tidas como sendo de uso exclusivo dos barbados, como calça comprida. Esta até que deu um pouco de trabalho para elas no início mas hoje é mais que normal. Comum é ver-se por aí belas evas envergando chapéus e ternos masculinos, com gravata e tudo. Mulheres acendendo puros em bares e até jogando sinuca sem jamais aparecer uma nega maluca dizendo que aquilo é uma aberração. Quanto aos homens, pobres homens. Tirando os escoceses e povos da Índia, homem com saia não tem vida fácil. Basta lembrar o grande alvoroço que causou o artista plástico Flávio de Carvalho em 1956 ao desfilar pelo Viaduto do Chá, em Sampa, seu Traje Tropical composto de saiote e mangas curtas, deixando estarrecida e indignada a patuleia da pauliceia. Uma multidão seguia atrás do performático artista, gritando agressivamente em seus ouvidos algo assim como: "Viaduto!" "Viaduto!" Sem colher de Chá. No fim das contas, pelo que eu li sobre personalidades brasileiras, quem estava certa mesmo era uma senhorita chamada Luz del Fuego, que não usava roupa masculina nem feminina, preferindo - a título de indumentária - usar sobre seu corpo desnudo apenas uma prosaica e confortável serpente viva. Uma autêntica snakedresser.
(15/03/13)

29 junho 2018

Aquarela, sketchbook, família e Clarice Lispector.

Alguns artistas não abrem mão de levarem consigo, onde quer que forem, um providencial caderninho, com o fito de fazerem anotações diversas, sendo um valioso auxiliar. É ali que, por exemplo, compositores, escritores e redatores soem anotar ideias que lhes surgem sem hora marcada nem prévio aviso. Se não anotam...puff! Essas ideias se vão e se perdem por aí, sabe lá Deus para onde vão. Desenhistas e pintores também costumam utilizar frequentemente seus caderninhos, atualmente rebatizados com um termo da língua inglesa, sketchbook, o que lhes garante uma importância maior nesse país de infindáveis aculturamentos. Nos meus diversos caderninhos há um monte de desenhos que jamais publiquei. São só estudos, divagações gráficas que podem servir de base para novos trabalhos de desenho ou pintura. Entre tais estudos, está este aí em cima, feito em aquarela bem manchada. Manchas à mancheia, como diria o vate. A temática surgiu inspirada em uma velha foto no meu álbum de família. Sempre que revejo, me vem à mente Clarice Lispector e eu acabo sentindo, qual ela, uma imensa saudade de mim.
(04/07/14)

28 junho 2018

Sting: eis que um deus visita o cacique Raoni, distribui carinho e fala de Sir Elton John

 
Quando acontecem noites dos mais radiantes plenilúnios, os nativos do Xingu se reunem em torno de aconchegante lume para ouvir dos lábios dos seus macróbios e sapientes pajés miríades de misteriosas lendas e histórias plenas de magia e encantamento. Uma das mais belas versa que, em ensolarada manhã, um deus da música vindo de muito, muito longe, visitou um dia a tribo. Trazia ele em seu alforje um instrumento musical dantes nunca visto. O nome dessa deidade era Sting. Esse ser superior, de alvinitente tez, trouxe consigo para o Cacique Raoni e toda sua tribo uma canastra repleta de espelhos, colares, contas e miçangas que ele, com semblante sereno e feliz, passou a ofertar aos radiantes silvícolas. Em dado momento, ao abaixar-se para pegar mais bugigangas, o popstar e nume supremo deixou escapar sonoro flato. Sonoro, porém inodoro, como sói ser o flato de um correto súdito britânico. O indefectível ruído não passou despercebido aos atentos ouvidos de um guerreiro espadaúdo, alto e assaz musculoso que aproximou-se e olhando fixamente com seus amendoados e coruscantes zoinhos, sussurrou a Sting: "Índio não quer colar. Índio quer apito!" Inabalável, como bom súdito da Rainha, o camaleônico roqueiro, incontestavelmente espada e matador, redarguiu: "Mister Indian, este negócio de dar apito é com outro inglês, Mr. Elton John, que está vindo logo aí atrás em outra expedição!"
(20/05/14)

Mulher de Câncer no Horóscopo de Vinicius de Moraes

Você nunca avance
Em mulher de Câncer.
Seu planeta é a Lua
E a lua, é sabido,
Só vive na sua.
É muito apegada
E quando pegada
Pega da pesada.
É mulher que ama
Com muito saber
No tocante à cama
Não sei lhe dizer...

Frank Menezes: bofetada com luva de pelica


Quando exponho no Soho, NY, recebo um soberbo tratamento VIP, sendo reverenciado qual autêntico semideus pelo fervilhante e glamuroso universo artístico da Big Apple. Os mais consagrados popstars acorrem para oscular-me as santificadas mãos que pintam e caricaturam como guiadas por anjos - segundo words, words, words publicadas pelo New York Times. Até celebridades como o velho Al Hirschfeld - já falecido - comparecem para me prestigiar. E um providencial tapete vermelho sói antecipar meus passos. Mas - proh pudor!, proh pudor! - quando retorno a esta afro-baiana terra movido por indestrutíveis grilhões sentimentalísticos sou tratado como um reles mortal sujeito a pegar buzus apinhados de viventes com os mais hediondos odores e encarar uma sinuosa e interminável fila no Bradesco da Pituba. Em nela estando, anônimo qual apenas mais um do vulgo, perpasso meus gázeos olhos pelos desconhecidos companheiros de enfileirado infortúnio. Eis que avisto Frank Menezes, o maravilhoso ator, a quem vi a primeira vez atuando em A Bofetada, dirigida pelo meu chegado, Fernando, o Guerreiro, e depois em mini-séries globais, no filme Tieta e em peças outras. Fiquei fã incondicional. Frank, um tremendo artista que ali na fila nada mais era que um cidadão comum pagando suas contas. Luto contra um inesperado impulso tietagenístico que me empurra em sua direção. Ao vê-lo conversando descontraído, solícito e simpático com pessoas na fila crio coragem, aproximo-me, coloco no rosto meu melhor sorriso e declaro: "Sou um seu grande admirador e acompanho todos os seus trabalhos, Jefferson." Valei-me, meu São Freud! Minha mente levemente sequelada por algumas cannabis sativas fumadas no fulgor de minha juventude em anos de flower and power me prega peças até hoje e não me custa nada trocar um nome de provável origem anglo-saxônica por outro e lá vou eu pagando símio por aí. Meu alarme antigafe dispara e tento corrigir a mancada rápido qual um Usain Bolt: "Opa, Jefferson, não... Franklin. Mil perdões, Franklin!" Ele, fleumático e condescendente me diz: "Legal...mas não sou Jefferson nem Franklin. Meu nome é Frank." Isto tudo sorrindo, sem demonstrar indignação ou rancor. Mais uma para meu vasto cabedal de gafes. Vexado, volto lesto e presto ao meu lugar na fila onde permaneço hirto e silente. E resolvo que está mais do que hora de euzinho passar uma nova temporada na Grande Maçã entre meus very crazy fãs norte-americanos até que a vergonha se esvaneça. E tomo uma decisão: continuarei assistindo as peças deste grande ator que tanto admiro. Mas só irei aos teatros de óculos escuros, envergando chapéu de aba larga e uma capa com a gola levantada qual um Humprhey Bogart . E sem nenhuma Ingrid Bergman ao lado para não testemunhar minhas paquidérmicas gafes e dizer "Say it again, Set." 
(101012)

26 junho 2018

Amor instável, sujeito a chuvas e trovoadas, brisas e vendavais.

Com minha inadvertida aquiescência essa moça um dia adentra meu viver trazendo consigo generosas braçadas de olentes flores que deposita em cada cômodo de minha quase misantrópica ânima  tornando fúlgida e álacre cada jornada e mais felizes e iluminados meus passos pelo mundo. 
Inesperadamente, em dessemelhante dia, essa mesmíssima moça, com gestos impacientes e determinados, arrebata de mim seus ramalhetes, suas corbelhas, seus buquês e os leva para perfumar almas outras. Não se vai com a mesma delicadeza com que veio, antes dá uma aula de como, com marcial determinação, é possível deletar alguém da sua vida afetiva. Sem titubear, toma dos meus pincéis e tintas, rabisca palavras de ordem e frases beligerantes na parede dantes imaculada de meu quarto, rasga em tiras meus lençóis de pura seda, despedaça meus cristais da Bavária, quebra toda minha porcelana chinesa, retalha em pedaços miúdos minhas estampas Eucalol, meu pôster do Lennie Dale e os meus mais amados álbuns de HQs. Estrepitante, bate a porta atrás de si, esgueira-se pelas esquinas e quebradas deste mundo, mundo, vasto mundo, e desaparece de minha vida de forma definitiva. 
Definitiva, eu disse? Diante dos estragos causados pelo seu cataclismo pessoal nada diverso disto se poderia supor. Pois eis que,  passado um tempo não tão largo assim, sabe-se lá por quais insondáveis razões, como se nada do que sucedeu houvesse de fato acontecido, essa moça reaparece em cena, enviando-me um inesperado e intrigante e-mail o qual,  por mais que eu tente, não logro decifrar. Em seguida, não satisfeita, ela consegue com suas artes o número de meu telefone e com  voz doce, timbre suave, me diz coisas das quais inutilmente tento traduzir as intenções. A meio uma tempestade de emoções, um vendaval de sentimentos conflitantes, intento fugir, mas é inútil já que ela tem incrível capacidade de antever meus passos, me cercar os caminhos.  Até que um dia as minhas mãos - que a mim deveriam mostrar fidelidade - sem esperarem que eu com elas concorde, saltam insidiosas e deslizando  pelo teclado do meu PC escrevem os meus segredos mais guardados, os desejos mais ocultos, as carências mais inconfessáveis e, sem minha devida permissão, enviam para essa moça. Como dela jamais adivinho as ações, não posso dizer que fico pasmo diante de sua atitude quando essa mesma senhorita que voltou a me procurar, nada comenta sobre as inconfidências que minhas mãos insidiosamente lhe escreveram, queda-se silente, faz a egípcia. E não retruca, não aplaude, não discorda, não concorda, não tripudia, não contesta, não esboça um esgar jocoso em sua face me mostrando a língua,  não me exibe o dedo da mão no obsceno gesto, não sai pelas ruas, ladeiras, praças, vielas, veredas, alamedas e bulevares emitindo gritos ensandecidos, demonstrando alvoroçada alegria ou estridente raiva. Seu silêncio é um brado eloquente que diuturno reverbera em todo meu ser.
(28/11/2014)

25 junho 2018

Lucien e Sigmund, ambos são Freud.




Quando as gentes do mundo se perdem ao buscarem explicações para coisas d'alma humana aparentemente insondáveis, soem dizer "Freud explica."  Mister se faz esclarecer que o Freud evocado nesta ocasiões é o Sigmund, cognominado "Pai da Psicanálise". Seu neto, Lucien, honrou o sobrenome e tornou-se também uma celebridade mas não pela via da Psicanálise. Era um notável artista plástico e faleceu em julho deste corrente ano de 2011. Chamado por um respeitado crítico de "o intérprete da carne e da psique humana na pintura", Lucien jogava na tela tintas pesadas, empunhava seus pincéis com segurança e fúria, fazendo dali surgirem figuras em atitudes e situações que o avô famoso teria que se virar mais que dançarino de hip-hop e usar de toda sua sabedoria psicanalítica para poder explicar ao mundo o que os trabalhos do neto podem almejar dizer. Alemão de nascimento, Lucien foi criado na Inglaterra onde fora morar aos 10 anos de idade e como cidadão britânico viveu até aos 88 anos. Um tempo bastante razoável para incomodar o conservadorismo britânico e o do restante do mundo, incluindo-se os artistas amantes da mesmice que povoam o planeta e a caretice geral que assola a raça humana neste imenso mundo, mundo, vasto mundo.
Para ver mais trabalhos do fabuloso Lucien Freud, basta uma navegada básica na internet, por exemplo, acessando o https://tarjapretarte.wordpress.com/2011/07/10/freud/
(19/09/2011)

Traçou Xuxa Meneghel e postou na internet sem nenhum pudor.

1. Cabeludos de Liverpool rides again 2. Teórico relativo 3. O filho de Joseph Jackson 4. Um argentino que entrou para a História como herói 5. Um argentino que entrou para a História como vilão (ao fundo, aquela loira boluda, ex do Edson, entende?!)
E para vocês, só para vocês, caros, preclaros e fiéis leitores desse bloguito posto mais uma fantasticamente fantástica coleção de caricaturas do grande dibujante argentino Pablo Lobato, traço excelente, cores excelentes, excelente composição gráfica, em tudo, na verdade, excelente. Não é novidade que a escola argentina sempre foi pródiga em produzir maravilhas nas artes gráficas. Só para que todos vocêzinhos, caroáveis leitores deste bloguito e - ora, sejamos generosos - infonavegantes do mundo todos possam ver e se extasiar com estes fantásticos trabalhos feitos por este Leonel Messi da caricatura, o notável Pablo Lobato, cabra bueno
 (07/12/2014)

23 junho 2018

Deus e o tamanho do pingolim de Adão / Humor de graça

(04/03/2014)

Os Correios trazendo a felicidade em um pacote da Editora Criativo.

Há uns quinze minutos a felicidade bateu em minha porta. Não é a primeira vez que ela assim o faz. Em incontáveis oportunidades e pelos mais variados e escabrosos motivos - afinal, geminiano eu sou - mandei dizer a ela que eu não estava, e a felicidade, sem outra alternativa, desistiu e se foi. Desta vez, não! Ah, desta vez, não! Reconheço que o tempo que passa tem sido generoso com minha esplendorosa pessoa e, além de fazer aumentar minha beleza física máscula e varonil, tem-me fornecido também amplos conteineres de sabedoria, elevada inteligência e desmedido potencial intelectual. Ao ouvi-la me apelando de minha porta, na verdade, de meu portão, corri ao encontro da felicidade ainda de Havaianas, as únicas que não deformam, não têm cheiro e nem soltam as tiras. Pronto! Lá estava, paramentado de uniforme azul e amarelo, um garboso trabalhador brasileiro, um dileto e competente funcionário dos Correios. Assinei o recibo, agradecido, e voltei correndo para o interior de meu palacete assobradado, onde tratei de selfiar-me, belo, formoso e exultante, exibindo um exemplar do SketchBook Paulo Setúbal, que aqui, generoso, como de habitude, compartilho com vocês, amáveis e idolatráveis leitores, salvem!, salvem! No interior do SketchBook, há páginas e páginas de desenhos e estudos meus, caricaturas, cartuns e ilustrações, mostras de construções de personagens e uma gama de técnicas diversas. Os amantes de histórias em quadrinhos, trabalhos cartunísticos e caricaturais que estejam interessados em adquirir um exemplar devem acessar o belo e diversificado site da Editora Criativo, sobejamente sortida de tesouros gráficos miles. O link, posto agorinha mesmo: 
http://www.criativostore.com.br  
Um viva aos Correios, um viva à Editora Criativo!
(29/06/2017)

19 junho 2018

O grande cartunista Lage no Portal do Irdeb, em bela homenagem

O IRDEB, Instituto de Radiodifusão do Estado da Bahia, em seu atrativo e bem idealizado portal, está prestando uma bela e justíssima homenagem ao cartunista Lage, amigo inesquecível, cartunista de raro talento e um humor personalíssimo com uma extensa legião de admiradores em toda a Bahia e em todo este mulato inzoneiro chamado Brasil. Não só o público leitor admirava, cultuava, idolatrava Hélio Roberto Lage, seu humor, seus cartuns, seus desenhos. Também os próprios cartunistas os tinham na conta de um artista diferenciado, viam Hélio Lage como uma fera maior dos cartuns, babavam com seus desenhos e sacadas geniais. Quem quiser ver uma deliciosíssima seleção dos trabalhos de Lage, pra conhecer ou pra matar as saudades, é só visitar o belo e diversificado Portal do IRDEB. Você clica aqui neste link, http://www.irdeb.ba.gov.br . 
Acesso feito, você vai lá em Galeria de Imagens onde usufruirá do prazer de se encantar, se divertir, se regozijar com os maravilhosos trabalhos lagenianos.

Lage, Nildão, Setúbal, Zé Vieira, Alexandre Dumas, cartuns.

Aqui neste afro-terrão chamado Bahia, Lage, Nildão e eu, por um bom tempo formamos um trio tipo os três mosqueteiros do cartum, um time coeso, como permite entrever esta caricatura aí em cima. O quarto mosqueteiro, o D'Artagnan, era Zé Vieira, com seu bigodinho que lhe dava o irretocável phisique du rôle. Sucede que Zé Vieira, um belo - ou será triste? - dia deu uma solene banana ao universo cartunístico, botou na praça um tremendo escritório de arquitetura que logo encheu-se de afortunados clientes, graças ao talento arquitetoso do rapaz, e desta forma ele - merecidamente, diga-se - tornou-se um argentário dos mais abastados pois foi sempre o mais sabido de todos nós nestas questões com l'argentainda que não fosse um mercenário, longe, bem longe disso. O problema com Zé Vieira era que um ofídio dos mais peçonhentos costumava aninhar-se nos bolsos das suas calças e ele, a precaução em pessoa, ali não metia sua mãozinha com medo de levar uma mordida letal e vai daí que em bares, restaurantes e botecos que frequentávamos jamais víamos a cor do dinheirinho de tão precavido confrade. Diz a chamada sabedoria popular que dinheiro poupado é dinheiro ganho e que de tostão em tostão se faz um milhão. Se verdade houver em tais frases, Zé Vieira certamente acumulou alguns milhões só do que economizou graças à sua justificada precaução contra mordidas de cobras, notadamente certas variedades de mambas negras que soem se aninhar em bolsos e bolsas de alguns viventes. Não sei se Zé Vieira sente saudade dos tempos em que cartunava e quadrinhava, mas ele sempre foi um cara que criava verdadeiras maravilhas, tanto no texto quanto no desenho. E sempre foi um dos mais substanciais e agradáveis papos desta Bahia com h. Como que inspirado por Alexandre Dumas nosso grupo cartunístico sempre primou pelo conceito de amizade mesclada com lealdade. Poderíamos mesmo parafrasear Monsieur Dumas e bradar alto, a uma só voz: "Um por todos e todos por um, no reino do cartum".

17 junho 2018

Deputado Ulysses Guimarães, em estilo punk / Arte que se reparte 4

Para muita gente todos os políticos brasileiros são desonestos, oportunistas, corruptos, venais e arrivistas. Motivos não faltam para que prevaleça essa certeza de tantos. Mas vale lembrar que no Brasil tempo houve em que a população levava a maior fé em determinados políticos e a eles entregava a missão e o sonho de construir um país melhor para todos os cidadãos. E eles não decepcionavam, atentos aos anseios do povo em nome da democracia empunhavam bandeiras populares urgentes e sem decepcionar, se empenhavam para fazer com que o país fosse de fato mais justo. Os brasileiros mostravam seu reconhecimento dando a esses políticos carinhosos epítetos. Teotônio Portela, por exemplo, era chamado de "O menestrel das Alagoas". Já o inesquecível Ulysses Guimarães era chamado de "Senhor Diretas", por sua decidida participação na campanha das Diretas Já. Por outro lado, aqueles eleitores que consideravam o então presidente Fernando Henrique Cardoso um neoliberal dos mais sórdidos, um entreguista contumaz, cínico e dissimulado, chamavam carinhosamente FHC de ''Um bom fio de uma...''. Bom, deixemos esse pra lá já que entrou neste texto de penetra, voltemos ao grande Ulysses Diretas Já. Para homenageá-lo fiz essa caricatura dele, mostrando que seus quase 80 anos eram só um detalhe.
***A arte acima foi feita em papel Schöeller Hammer 4R, 250 gramas, grafite B para o esboço artefinalizado com nanquim e dois pincéis Kolinskys, sendo um número 2, novinho, e um velho número 4, desgastado, já bem, bem acabadinho. O novo foi utilizado nos traços do contorno, tendo o véinho sido usado com suas cerdas abertas, levemente embebidas em pouco de tinta china ou tinta da China ou nanquim numa antiquíssima técnica chamada pincel seco, que dá uma textura bonita e que é uma gostosura e faz qualquer artista trabalhar com um sorriso nos lábios.
(18/02/15)

15 junho 2018

Aprenda o maravilhoso idioma do Futebol.

Já está rolando a Copa do Mundo na Rússia neste ano de 2018 e ainda que nosso entusiasmo com a seleção brasileira de futebol não seja a mesma de gloriosos tempos pretéritos, não se pode deixar passar batido um papo sobre o esporte bretão e suas particularidades. Pois bem, senhoras e senhores, mocetinhas, mocetonas e varões deste patropi, saibam que o mundo do futebol utiliza em sua comunicação um palavreado próprio que os não iniciados soem desconhecer completamente. Na passada Copa de 2014, de triste memória para nosotros, o futebol da Alemanha nos ensinou uma dura lição através da impiedosa e vexatória goleada de 7x1 que os germânicos nos impingiram dentro de nossa própria casa, de nossos próprios domínios, se é que a gente ainda domina alguma coisa atualmente. Mas quem disse que aprendemos a lição e nos tornamos mais humildes, mais realistas? Quem disse que perdemos a pose de nos autointitularmos "os insuperáveis reis do futebol mundial"? É claro que sabemos bem que nosso futebol não é o que já foi, de sobra, um dia. Que não somos mais sequer uma sombra do que foi aquela geração maravilhosa que encantou o planeta com Pelé e Garrincha, mas fingimos que somos, repetimos despudoradamente que somos, mesmo sabendo que não somos. Tudo isso porque, malgrado a humilhação que agora teremos que carregar em nossas costas vida afora, o amor pelo esporte mais popular nesse orbe azulzinho insiste em seguir vivendo em nossos corações, e nesse país tropical abençoá por Dê e roubá por um mon de fi da pu, não é justo que nenhum vivente follado y mal pago fique por fora de assunto tão relevante quanto o idioma falado nos bastidores desse esporte que foi um dia importado da terra de Bill Shakespeare e que aqui se tornou tão brasileiro. Sendo assim e assim sendo foi que a quase dinâmica e atuante equipe esportiva que atua neste bloguito, resolveu criar um providencial Dicionário de Futebolês para deixar você por dentro de um Maracanã de palavras e expressões futebolísticas contidas no jargão corrente do dito esporte brutão, quer dizer, esporte bretão.

                                         1. Cruzamentos
 Quando estão afinzonas de um jogador, as assaz determinadas Marias-Chuteiras costumam usar e abusar dos cruzamentos para que seu alvo - e não estou falando de tom de pele - perceba que está sendo convidado para adentrar o gramado lá delas, que por sinal está sempre em excelentes condições para a prática de um match de muito mais que 90 minutos, com direito a intermináveis prorrogações.

2.Invadindo a pequena área
 Em tempos pretéritos que longe vão, as donzelas militantes e juramentadas, mesmo subindo pelas paredes e morrendo de vontade de dar, por questões da moral vigente não podiam deixar que a rapaziada do Bráz - ou de qualquer parte -  invadisse suas grandes áreas. Suas pequenas áreas, então, nem pensar. Hoje, com a revolução sexual, está valendo tudo e se o jogador não vai à linha de fundo da parceira um monte de vezes fica mal falado porque atualmente no campo do sexo está valendo tudo e mais um pouco.

 3. Gol de bico
  Recurso muito utilizado no futebol feminino, embora aparente ser um tanto dolorido.

4. Impedimento
  Em certos dias do mês a namorada do jogador costuma exibir um cartão vermelho-sangue para ele, uma coisa verdadeiramente menstruosa, digo, monstruosa. Assim, impedido de penetrar a zona do agrião da sua amada e desejada, o craque sai de campo de cabeças baixas.

                    5.Entrando com bola e tudo
Maria-Chuteira que se preza adora quando o craque malhadão mostra seu gingado e parte com tudo pra cima dela com toda sua maledurência, indo fundo e adentrando a meta com bolas e tudo. Aí é aquele delírio, galera!

6. Elemento surpresa vindo de trás
Nunca é demais dizer que o elemento surpresa é decisivo e muitas vezes é preciso uma virada de jogo para satisfazer as gatinhas que estão cada dia mais fogosas, mais exigentes e mais sem barreiras. 

7. Triangulação
 Tem mulher de jogador que acha que um pouco, dois é bom e três é bom pra caraca, que é do cacete. E bote cacete nisto! Toda véspera de jogo o marido boleiro vai para a concentração por ordem do técnico linha-dura do time e lá fica com um monte de barbudos, deixando em casa a excelentíssima. E bote excelentíssima nisto! Já ela, sempre fogosa e insaciável, aproveita para se concentrar em sua alcova com o sempre prestativo Ricardão que chega cheio de amor pra dar,  faz um rápido aquecimento secando rapidinho todo o scotch do ausente marido atleta, e depois de  mostrar seu invejável alongamento que sempre deixa a moçoila babando, vai adentrando no maior pique o gramado da ansiosa beldade e dando aquele show de bolas para o êxtase da gata.

8. Tabelinha
 Jogadores de futebol juram o tempo todo que tem o maior respeito e amor pela camisa do seu time. Já pela famosa e popular camisinha costumam deixar claro que não sentem o mínimo respeito nem amor algum, demonstrando total desprezo pelos preservativos. De sua parte a Maria-Chuteira diz que não usa pílula porque não se dá bem com químicas e prefere usar o método da tabelinha, mais natural e saudável. Aí, num retumbante dia a tabelinha falha e a sarada barriguinha da moça, moldada em academias, começa a crescer, crescer. O resto é aquela velha história: depois de nove meses um advogado com a cara do Sérgio Mallandro - ié, ié! - aparece na porta da luxuosa-porém-kitsch mansão do jogador com um risinho irônico nos lábios, exibindo um teste de DNA numa das  mãos e trazendo na outra uma ordem judicial  mostrando que o boleiro vai ter, pelo resto de sua vida, de morrer todo mês com uma milionária pensão à Maria-Chuteira.
(13/05/14)