13 novembro 2018

O Judiciário e a Lei dos mais fortes / Frases de Béu Machado 12

Todos os homens são iguais perante a lei. 
Mas como são diferenciados perante os juízes!
(Frase de Béu Machado, do seu livro Pensamentando)
(23/09/16)

Batman em luta titânica contra todos os fundamentalistas

 
Nos quadrinhos, na telona do cinema, na telinha da TV, Batman sempre agradou. Muitos são os fãs que preferem a versão que mostra o cara como um herói soturno, sombrio, misterioso e implacável em filmes e HQs. Já eu, geminiano da gema, sempre curti de montão aquele Batman dos seriados plenos de humor e onomatopeias com Adam West e Burt Ward, que deixam de cabelos em pé tais fãs mais ortodoxos e, de quebra ainda, magotes de fundamentalistas que se assumiam como inimigos de qualquer herói de HQs, além das próprias HQs, claro é. Sim, eles já existiram e hoje, se não extintos, conservam-se silentes devido à imensa paixão que atualmente a maioria das pessoas professa ter pelas histórias em quadrinhos. Hoje dizer que os quadrinhos são arte do diabo, que desencaminham criancinhas desavisadas pega muito mal e ninguém faz sucesso com um discurso arcaico e equivocado desses. Mas um dia, pasmem, isso já aconteceu e de com força. Os tais fundamentalistas num passado não muito distante mostravam suas caras assustadores e eram tão malucos quanto qualquer fundamentalista. Muito devido a estes caras e a maneira como viam o Bat-seriado e muitas HQs, foi que surgiu a tal teoria contida no livro "Seduction of the innocent", de Frederic Wertham - o Diabo o conserve - que redundariam no Comics Code Authorithy, de triste memória, e no Código de Ética, versão brasileira desta insanidade criada para salvar nossas almas do inferno e que só fez foi dar mais um golpe no movimento pela nacionalização dos quadrinhos neste patropi abençoá por Dê e bonipornaturê, prejudicando em muito os desenhistas dessas plagas tupinanquins, digo, tupiniquins. Usei neste desenho uma bat-caneta nanquim 0.5, um bat-pincel seco, um bat-reticulado e um precioso bat-graminha de Photoshop. Santa informática, Batman!
(Publicado originalmente em 29/03/14, antes, bem antes que o Grande Morcego subisse aos céus)

Floriano Teixeira, um artista plástico maravilhosamente iluminado.

Nas artes plásticas brasileiras sempre despontaram soberbos desenhistas. Geralmente também exímios na feitura de gravura e artes afins, esses talentosos artistas tinham como marca maior a criatividade, a excelência no conteúdo das idéias, a busca pelo ineditismo, a elegância e a extrema beleza do traço. Não se limitavam ao talento natural com que eram dotados, empenhavam-se arduamente na tarefa de terem os conhecimentos, as qualidades e as necessárias habilidades de serem os melhores. Desses virtuoses do desenho é possível citar de memória os magistrais Poty, Aldemir Martins, Carybé e Floriano Teixeira. Não por coincidência, todos eles brilharam quando usaram seus desenhos para ilustrar livros de notáveis literatos. Jorge Amado, escritor consagrado mundialmente, era grande amigo de Floriano e o convidou para ilustrar romances seus. Santa amizade, bendito convite! O expressivo número de exemplares vendidos possibilitou que milhares de pessoas tivessem acesso ao elegante desenho de Floriano e a consagração nacional veio fazer jus ao talento desse artista que nasceu no Maranhão, viveu no Ceará e veio morar na Bahia. Essas ilustrações para os romances de Jorge Amado deram de fato uma grande visibilidade ao talento de Floriano, no entanto é preciso ressaltar-se que sua arte já era apurada, madura, premiada e consagrada por onde era exibida, quer fossem pinturas em telas, painéis, esculturas, linóleo, gravuras e quaisquer outros meios, já que seu trabalho sempre foi extremamente diversificado. Em todos imprimia a mesma excelência, vez que destinava a cada um deles cuidado igual, produzindo-os com vagar e paciência, usando de extremo acuro para assim manter em qualquer peça produzida a mesma qualidade excepcional. No desenho, seu traço tinha como marca uma rara elegância. Sua linha refinada, inigualável, única, nos conduzia com delicadeza a um universo por vezes pitoresco, sempre pleno de sensualidade, crítica social e um humor sutil da melhor qualidade em que toda a fauna humana brasileira desfilava. O homem comum, o magnata, o operário, o burguês, pescadores, bêbados, noctívagos, pistoleiros, jagunços, coronéis, padres, polacas, morenas frajolas, mulatas, negras, ricos e pobres, a cara e o espírito do Brasil surgindo de seu traço ora limpo e claro, algumas vezes intencionalmente forte e mais carregado, outras vezes com longos espaços preenchidos por caprichadas hachuras. Entre os materiais empregados, canetas para bico-de-pena, pincéis diversificados, lápis os mais variados, meios que serviam para que o desenho de Floriano gritasse bem alto o talento incomparável desse grande Mestre. Suas cores suaves e belas e suas criações, oníricas e sensuais, nos faziam sonhar sonhos felizes e não poucas vezes, lúbricos. Sonhos maravilhosos, pleno de cores e de belezas inesquecíveis, como a arte de Floriano Teixeira.
(10/11/15)

Os afegãos em burca do Sexo perdido / U Sexu nu mundo 8


A vida sexual dos afegãos sempre foi um marasmo, ficando muito, muito agitada e atribulada em tempos recentes devido à presença ostensiva das tropas americanas em seu país, armadas até os dentes e xeretando tudo e mais um pouco. O marido afegão, mesmo não tendo barba, quando estava fazendo sexo oral na sua esposa muitas vezes era confundido pelos ianques com o Osama Bin Laden, se é que vocês me entendem. Aí era tanto tiro para cima dele que o pobre afegão não conseguia mais manter sua torre gêmea em pé.
(011010)

Humor de graça / Bat-sinal acidental

101213


A palavra de Deus, os pescadores de homens e a Rede. / Humor de graça

(20/02/2012)

11 novembro 2018

Desenhos de Setúbal para trilogia de quadrinhos Em Terras Americanas

 
Antonio Cedraz, o aclamado Mestre baiano dos quadrinhos, emérito criador do personagem Xaxado, em uma dessas segundas-feiras de céu cinzento me telefonou e disse que o a Editora Cedraz tinha um projeto para fazer três histórias em quadrinhos aguardando o resultado de uma licitação da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. Falou que se o projeto fosse escolhido O Estúdio receberia recursos do Fundo de Cultura do Estado, que as chances de escolha eram grandes e, melhor ainda, que eu seria um dos participantes na feitura das HQs. Diante de tão alvissareira notícia o tom cinza do céu desvaneceu-se imediatamente para mim. Contou-me Cedraz que ele e Tom Figueiredo, escritor, argumentista e seu braço direito no Estúdio, haviam me escolhido para desenhar a trilogia batizada de Em Terras Americanas que seria realizada em uma linha diferente daquela dirigida para o público infantil habitualmente adotada pelo Estúdio Cedraz e que o tornou um desenhista admirado em todo o Brasil. O estilo a ser empregado seria aquele que costumeiramente se vê nas revistas de super-heróis em que os desenhistas mostram conhecimentos de anatomia e domínio de sombras e iluminação, movimentos, indumentárias, expressões fisionômicas. Passou-se um tempo e o melhor acabou acontecendo: o projeto do Estúdio Cedraz foi realmente selecionado. Agora restava apenas aguardar a chegada da verba oficial para podermos tocar o trabalho. Enquanto isso não acontecia tratei de intensificar meus treinos de desenho de anatomia, mergulhando em livros que tenho sobre o assunto, rabiscando em toneladas de papéis e procurando ver o que estava se publicando de novidade nos quadrinhos na linha pretendida, os conceitos mais em voga, os novos grafismos utilizados. Todo esforço e treino para aprender a desenhar corretamente a anatomia é pouco. Há que se empenhar muito, copiar dos livros adequados mãos, pés, pernas, olhos, narizes, bocas, fazer, refazer, treinar compulsivamente dias e dias buscando aprender tudo sobre cada músculo do corpo humano, movimentos, expressões fisionômicas. E há ainda as sombras, ângulos, enquadramentos diversos, entre otras cositas, detalhes que exigem uma dedicação e uma perseverança que existem somente nos que gostam muito de desenhar e pretendem melhorar o próprio desempenho. Por fim, Tom Figueiredo anunciou que havia chegado a hora de iniciarmos o trabalho que foi feito em uma equipe composta pelo próprio Tom, na qualidade de autor do argumento, do roteiro e até mesmo dos providenciais rafes, aqueles desenhos rápidos feitos para orientar os desenhistas de quadrinhos. De posse do material passado por Tom tratei de iniciar o trabalho de desenhar as mais de sessenta páginas que continham as três histórias de Em Terras Americanas e de suas respectivas capas, todas feitas em pranchas de papel em formato A3, como manda o figurino tradicional. Desenhar histórias em quadrinhos pode ser algo divertido e compensador, mas como já disse antes e repito agora, é também um trabalho árduo que exige uma boa dose de rigor, disciplina e uma dedicação exclusiva ou quase isso. Umas bronquinhas do Tom, também contam muito para a celeridade do processo. Vale dizer que o sempre presente trabalho da coordenação de produção foi fundamental também para que eu pudesse trabalhar com a necessária segurança e tranquilidade. Não sei dizer aqui o quanto demorei desenhando e artefefinalizando com nanquim a primeira das revistas, mas tão logo terminei passei incontinente para Vitor Souza, o colorista encarregado de enriquecer com suas cores as HQs, para que ele desse início à sua própria maratona colorindo sozinho as mais de sessenta páginas, uma equipe de um homem só. Enquanto Vitor coloria a primeira das revistas passei a desenhar e artefinalizar a segunda. E assim a coisa caminhou até que finalmente concluímos as três HQs para a alegria da equipe e para a felicidade geral desse povo varonil que com justificável júbilo oscula o auriverde pendão da minha terra que a brisa do Brasil beija e balança. Bom é saber que por terem sido publicadas com numerário advindo de verba oficial, as três revistas estão sendo vendidas por preço mais que acessível, sendo que a renda angariada será totalmente revertida em favor da ONG Centro Comunitário Batista Soteropolitano . Os amantes dos quadrinhos interessados podem adquirir por módicos R$12,00, todos os três exemplares de Em Terras Americanas ali na KATAPOW (Av. Octávio Mangabeira, Edifício Privilege, loja 7, Pituba) e na RV CULTURA E ARTE (Av. Cardeal da Silva, 158, Rio Vermelho), localizadas ambas nessa cidade de Salvador, Bahia, espaços especializados na venda do que há de melhor no universo dos quadrinhos (Um rápido e necessário PS: a loja KATAPOW já deixou de existir, mas a RV continua firme, para alegria dos quadrimaníacos). Os leitores que não moram em Salvador ou mesmo os que não têm tempo de passar em uma das lojas citadas, podem encomendar seus exemplares pela Internet enviando o pedido em e-mail para editora@estudiocedraz.com.br. Nesse caso o preço é R$18,00, com o frete incluso. Enquanto você não adquire seus exemplares, usando de minha proverbial generosidade, postei acima uma capa e duas páginas das HQs para permitir que você, leitor amado, possa aqui e agora prelibar alguns momentos de Em Terras Americanas. 

De Israel, um pouquinho mais do fantástico Hanoch Piven





E como o que é bom deve ser visto sempre, vão aqui mais estas caricas divertidíssimas da lavra do caricaturista israelense Hanoch Piven, um cara que brinca com colagens e que de forma assaz original consegue fazer estas maravilhas contidas nestas postagem mostrando o genial Woody Allen, que um dia dirigiu um filme chamado "Bananas", e mais Bob Dylan, Keit Richards, com sua língua sempre viperina, Iggy Pop e até o nosso brasileiríssimo ídolo Ronaldinho Gaúcho, quando arrasava pelo Barcelona. Vão ao site do cara que lá tem muito mais procês:
 http://www.pivenworld.com
(Publicado originalmente em 29/11/2013)

Na hora do Sexo, os chineses comem de pauzinho? / U Sexu nu mundo 6

Em desentendimentos conjugais, o marido chinês perde toda sua proverbial paciência chinesa com sua cara-metade e a ofende chamando-a de dragão. Acontece que na China esse negócio de dragão é coisa muito séria e aí rola a maior Kung Fu Zão, digo, confusão. Vai daí que a digníssima fica indignadíssima, partindo, exasperadíssima, pra quebrar a metade da cara que pertence ao seu cara-metade. E vá ser violenta assim lá na China, pois ela, sem precisar recorrer a nenhum manual de kung fu, quebra mesmo a asiática fuça do sujeito com muita porrada e na casa do casal Imperador, digo, impera a dor. A dor é tamanha que o pobre china faz horrendas caretas e pula gritando: "Aikidô, aikidô, aikidô". Quem acha que chinês e brasileiro não têm nada em comum, não sabe que, igual a qualquer brasileiro do povão, o chinês adora um bom pagode. Vá lá que é pagode chinês, mas é pagode, ora, bolas! Aliás, por aquelas plagas chinesas, o Zeca Pagodinho é um grande ídolo. O problema para os brasileiros na China é a comunicação, que é muitíssimo difícil. Você pede ao cozinheiro do hotel para ele mandar uma pizza, mas ele Mandarim, digo,  ele manda rim e você, para não passar fome, acaba tendo que comer, mesmo a contragosto. Falando em comer, os homens chineses adoram comer brotinhos. É broto de feijão, broto de bambu e por aí vai. Ele só não come mesmo é a própria mulher, tudo porque ela já não é mais nenhum brotinho.
(281210)

Humor de graça / Bat-crise econômica


10 novembro 2018

Portal Multimídia do IRDEB: Arte e artistas da Bahia.

Não é de hoje que o IRDEB, Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia, presta mui relevantes serviços à cultura da Bahia. Para aproveitar os elásticos poderes de comunicação da internet e dar maior visibilidade aos artistas, literatos, dramaturgos, fotógrafos, eventos sociais e políticos, festas populares e otras cositas buenas dessa afro-terra, há já algum tempo o Instituto criou o Portal do IRDEB em que os interessados, os que têm sede de cultura, encontram um mundo de coisas relativas ao expressivo caldeirão cultural da Bahia, toneladas de ótimos vídeos, projetos especiais, radionovelas, jornalismo, poesia, filmes e o escambau. Você, leitor fenomenal, de vasto cabedal cultural etcétera e tal, não pode passar batido. Acesse o link e dê uma boa e atenta olhada o quanto antes, agora mesmo, se possível. Vale dizer que ao entrar no Portal, uma das muitas opções a seu dispor é clicar em Galeria de Imagens. Lá você encontrará uma seleção de conhecidos artistas da Bahia, todos com trabalhos bem diversificados, incluindo fotografias, esculturas, artes gráficas e plásticas e um mundaréu de coisas mui belas. Entre esses artistas você encontrará o cartunista Lage e seus cartuns e desenhos maravilhosos, o sempre criativo Robério Cordeiro e o formidável Guache Marques, que é um mix de talentosíssimo artista plástico e irresistível galã de novelas mexicanas, sempre arrancando suspiros de lúbricas e concupiscentes moçoilas quando por qualquer vereda su fina estampa passea. Ah, antes que me esqueça, usando da maior falsa modéstia, quero lembrar que, nessa seleta lista de amados e venerados artistas, também está o aclamado Setúbal, o Paulo Setúbal, o popular eu mesmo, exibindo uma série de trabalhos de minha lavra como ilustrador, pintor, retratista e caricaturista. Tá pensando o quê?! Não sou fraco não, véio!
******O link para o Portal é http://www.irdeb.ba.gov.br 
(24/12/16)

Gonçalo Júnior e as panelinhas, um mal dos Quadrinhos

Sou fã de Gonçalo Júnior, um cara sério, jornalista competente que entende tudo de Histórias em Quadrinhos e do seu universo, autor consagrado de diversos livros com tal temática. Li este texto escrito por ele e achei por bem reproduzir aqui neste bloguito, devidamente não autorizado, para que leitores conscientes das HQs, desenhistas e demais profissionais da área e todos os interessados no tema possam ler.
O tabu das panelinhas, um mal dos Quadrinhos.
Por Gonçalo Junior

 Você faz parte de alguma panelinha dos Quadrinhos? Ou melhor, acredita que existam panelinhas no meio de quem faz, publica ou estuda Quadrinhos no Brasil? Quando pensei em escrever sobre esse tema, imaginei a primeira reação da parte de quem pararia para ler estas linhas: isso não existe, é exagero, não é bem assim, etc. Na verdade, há panelinhas do bem e do mal, digamos assim. Quase sempre, são grupos de amigos que lutam por objetivos comuns.
Como em qualquer atividade profissional humana, porém, existem as panelinhas nefastas, aquelas que atropelam valores éticos e morais em nome do se dar bem a qualquer custo para seus acampados membros. Ou pelo simples prazer de destruir o próximo. Quem é jornalista sabe bem que muitas vezes o comando das redações é revezado por participantes de poderosas panelas que tomam conta de jornais e revistas. É a turma que está sempre por cima porque um ajuda o outro, acolhe o outro. Se não há vagas, demita-se alguém. Talento? Isso é um mero detalhe, cara-pálida. Em 15 anos de profissão, posso falar com tranqüilidade sobre onde as boas relações levam certos jornalistas. Mas interessa aqui o segmento de gibis. Nesse mercado, talvez o assunto venha embrulhado em desfaçatez, de boicote, de intrigas e fofocas. Canso de ouvir comentários destrutivos sobre alguém que não se deu bem em algum projeto. É como uma vitória pessoal do “Eu não disse? Eu não avisei?”.
A panelinha é uma instituição no mundo dos Quadrinhos Brasileiros e não nasceu ontem. Faz tempo. Num evento que fui recentemente, ouvi uma piada de um amigo que procurava justificar o deserto que havia na platéia: “Era possível juntar numa ante-sala de uma cafeteria de São Paulo os artistas que faziam Quadrinhos no país. Mas não se recomendava fazer o mesmo com os editores, pois eles se matariam e dificilmente um sairia de lá vivo”. Injustiça com os editores, claro. Entre artistas, comerciantes e colecionadores, não é diferente esse tipo de hostilidade que, muitas vezes, tem a ver com panelinhas. Quadrinhos no Brasil são como torcida de futebol. Se um caiu para a segunda divisão, os outros querem vê-lo na terceira. Ou mesmo extinto. Se bem que, entre amigos, os torcedores apenas tiram um saudável sarro. Com os Quadrinhos é diferente. Como diria Raul Seixas, é muita estrela para pouca constelação em alguns casos. É muito ego para pouco espaço. Não me refiro apenas a determinados editores. Falo do "pessoal" de Quadrinhos de modo geral. Quero dizer: como aves de rapina, alguns ficam sobre a cerca de arame na torcida para que o outro literalmente se dane.
Os boicotes são o que há de mais sintomático nisso. É preciso boicotar o evento do outro para que ele aprenda a lição e não faça mais isso. Não me esqueço do dia em que circulou a informação de que uma editora de um amigo havia acabado. Foi uma festa geral, como se todos os outros estivessem acima do bem e do mal. É lamentável notar que momentos ideais para encontros de confraternização e troca de contatos, de aproximação, fiquem sempre vazios. Costumo dividir a "humanidade" e, conseqüentemente, a turma dos Quadrinhos, em três categorias: os que fazem, os que não fazem e os que só fazem falar. O grupo intermediário é a galera do bem, os leitores, os consumidores de gibis, os fãs. Enfim, a ala que realmente me interessa e em quem sempre penso quando escrevo um livro. O terceiro reúne os chamados espíritos de porco, fofoqueiros, intrigueiros, paranóicos, psicóticos. São criaturas que agem pela internet, criam personagens fictícios para ofender, destratar, difamar. Muitas vezes, alguns me colocam em saia justa. Não é fácil trafegar em todos esses meios, uma vez que exige certo tato, certo zelo para não ferir vaidades.
Um problema causado pelas panelinhas é que seus participantes perdem o senso crítico. Em sua visão do mundo, não interessa o que é melhor, mas se foi feito por alguém que tem afinidade com o seu grupo. Ninguém me tira isso da cabeça. Só assim consigo compreender porque eleições como as do HQ Mix causem tanta polêmica, uma vez que confio na idoneidade de Jal e Gualberto, seus organizadores, quanto ao processo de seleção. A rede de amigos tem uma força decisiva nos resultados desse e de outros prêmios. O que não quer dizer que se trata sempre de panelinhas. Mas, dentre os votantes, um número razoável faz parte delas e fecham os olhos para quem está competindo. Não interessa o que os outros fazem. E ponto final. É óbvio, portanto, que o sistema de votação se torna frágil porque fica vulnerável à força de interesses mesquinhos, das torcidas uniformizadas da Panela Futebol Clube. Não se indica ou não se vota numa obra de um editor ou autor "inimigo". Não importa o seu valor, repito.
Não é fácil entrar numa panelinha. Você precisa provar lealdade, que é alguém realmente confiável, sincero, que traga a cabeça de um rival numa bandeja. Quer um exemplo pessoal? Lancei quatro livros num determinado lugar e não me lembro de ter tido o prazer de contar com a presença de um único editor "concorrente" – que foram amigavelmente convidados. A não ser Eloyr Pacheco e Wagner Augusto. Sem querer ofender, isso parece coisa de gangue de rua. Ninguém pinta no pedaço do outro. Patético. Aonde quero chegar? Nos malefícios que todo esse joguinho rasteiro do boicote traz para o mercado de Quadrinhos. Conheço pessoas que dizem de boca cheia: não compro os livros de tal editora. E daí, meu irmão? Não sabe o que está perdendo. O buraco é mais embaixo. Ao invés de arregimentar leitores detonando o concorrente ou a editora que compete com a panelinha que faz parte, acredito que o caminho seja discutir saídas a médio e longo-prazos, pois vejo uma bolha se formar no horizonte.
Essa mesquinharia vai matar o mercado. Não acredito que o número de compradores regulares de gibis tenha aumentado. Pelo contrário. Vejo um sacrifício imposto a um universo reduzido de consumidores, com alto poder aquisitivo, por editores que não competem de forma saudável. Por outro lado, falta a preocupação de que daqui a dez ou quinze anos esse público se renove. A molecada adolescente que lê gibis está sendo desprezada. E tenho dito: adulto não descobre os Quadrinhos, o gosto vem da infância e da adolescência. Ou discutimos esses temas e procuramos revitalizar o mercado, a começar pelo o fim dos boicotes – e mostramos força no setor – ou nos entrincheiramos dentro de uma panelinha, a olhar pela borda e a torcer para que o mundo lá fora se dane."
(Public. origin. 20/09/14)

Screamin Jay Hawkins, Jim Jarmusch, Rock'n roll e Cinema.

Sou sabedor do elevado nível de inteligência e de conhecimentos gerais de vocês, preclaros leitores desse bloguito. Ainda assim, intuo que ao indagar se algum de vocês conhece ou já ouviu falar de um cara chamado Jalacy, um sonoro “não” será unânime. Talvez ajude um pouco se eu disser que Jalacy Hawkins era um negro norte-americano nascido em 18 de julho de 1929 em Cleveland, Ohio, USA. Mas a coisa seguramente mudará de figura se eu disser que Jalacy era músico de talento e cantor, idem, idem, e que ele usava o nome artístico de Jay Hawkins. Jay marcou a cena musical ianque, notadamente o rock’n roll, sendo um dos construtores desse estilo de música que é muito mais antigo do que podem imaginar os roqueiros mais aficionados, tendo esse dito estilo musical surgido da cultura negra, mantendo grandes analogias com o blues e outros ritmos negros, em que pese o fato de – Chuck Berry à parte - que os maiores ídolos sempre foram brancos, como Elvis, Jerry Lee Lewis, Bill Halley, todos muito talentosos, e outros mais, que é que se pode esperar em uma sociedade de supremacia branca. Jay era incrivelmente bom e inovador, tendo criado um estilo personalíssimo que findou por influenciar grandes estrelas do rock contemporâneo que são amados por fãs adolescentes que nos quatro cantos do mundo se descabelam por esses seus ídolos. Quem conhece e admira o canto e as interpretações de Janis Joplin, certamente reconhecerá em seu estilo intenso e vibrante a influência enorme de Hawkins. Quando cantava, Jay sabia usar sua expressividade de ator, assim, uma das suas características marcantes era uma interpretação de grande intensidade em que ele emitia gritos e grunhidos para fazer chegar, sem desvios, aos que o viam e ouviam, a sua força interior. Tão marcante isso era que ele ganhou um sugestivo aditivo em seu nome, sendo conhecido como Screamin Jay Hawkins. Ele foi um ator com considerável filmografia, já que mandava muito bem diante das câmeras. Muito boa, lúdica e profundamente divertida, é a sua atuação em Mistery Train, de 1989, bela película dirigida pelo criativo Jim Jarmusch. O filme pode ser encontrado nos arquivos do Youtube, se as coisas não mudarem enquanto faço esta postagem. O áudio é original, vez que Jarmusch exige que os áudios originais de seus filmes sejam mantidos para exibições em qualquer país, descartando o uso de dublagens. A cópia que vi tinha legendas em Italiano, o que ajuda a compreender os diálogos, principalmente na parte em que um jovem casal de atores japoneses dizem suas falas usando o idioma pátrio. Uma das músicas de Screamin Jay tornou-se um clássico e pode ser ouvido na voz de grandes monstros da música, feito Nina Simone. Trata-se de I put a spell on you. Garimpem o filme no Youtube ou em outro sítio da web, e deliciem-se com esse vídeo, vendo e ouvindo o grande, o magnífico, o inigualável Screamin Jay Hawkins.

08 novembro 2018

Mulher de Escorpião no Horóscopo de Vinicius de Moraes

Mulher de Escorpião
Comigo não! 
É a Abelha Mestra 
É a Viúva Negra 
Só sai de vedete
Nunca de extra
Cria o chamado conflito de personalidades
É mãe tirana
Mulher tirana
Irmã tirana
Filha tirana
Neta tirana.
Agora de cama diz que é boa paca.
(o3/03/14)

Lage, Nildão, Setúbal, Zé Vieira, Alexandre Dumas, cartuns.

Aqui neste afro-terrão chamado Bahia, Lage, Nildão e eu, por um bom tempo formamos um inseparável trio, tipo os três mosqueteiros do cartum, um time coeso, como permite entrever esta caricatura aí em cima. O quarto mosqueteiro, o D'Artagnan, era Zé Vieira, com seu bigodinho que lhe dava o irretocável phisique du rôle. Sucede que Zé Vieira, um belo - ou será triste? - dia deu uma solene banana ao universo cartunístico, botou na praça um tremendo escritório de arquitetura que logo encheu-se de afortunados clientes, graças ao talento arquitetoso do rapaz, e desta forma ele - merecidamente, diga-se - tornou-se um argentário dos mais abastados pois foi sempre o mais sabido de todos nós nestas questões com l'argentainda que não fosse um mercenário, longe, bem longe disso. O problema com Zé Vieira era que um ofídio dos mais peçonhentos costumava aninhar-se nos bolsos das suas calças e ele, a precaução em pessoa, ali não metia sua mãozinha com medo de levar uma mordida letal e vai daí que em bares, restaurantes e botecos que frequentávamos jamais víamos a cor do dinheirinho de tão precavido confrade. Diz a chamada sabedoria popular que dinheiro poupado é dinheiro ganho e que de tostão em tostão se faz um milhão. Se verdade houver em tais frases, Zé Vieira certamente acumulou alguns milhões só do que economizou graças à sua justificada precaução contra mordidas de cobras, notadamente certas variedades de mambas negras que soem se aninhar em bolsos e bolsas de alguns viventes. Não sei se Zé Vieira sente saudade dos tempos em que cartunava e quadrinhava, mas ele sempre foi um cara que criava verdadeiras maravilhas, tanto no texto quanto no desenho. E sempre foi um dos mais substanciais e agradáveis papos desta Bahia com h. Como que inspirado por Alexandre Dumas nosso grupo cartunístico sempre primou pelo conceito de amizade mesclada com lealdade. Poderíamos mesmo empunhar nossos lápis, à guisa de espadas mosqueteiras, erguê-los fazendo tocar no alto suas pontas e, parafraseando os personagens de Monsieur Dumas, bradar alto, a uma só voz: "Um por todos e todos por um, em luta pela defesa do reino do cartum".

Raul Seixas, do Oiapoque à PQP.

Das bandas do Oiapoque ao Chuí, das bandas de rock à Marilena Chauí, neste Brasil varonil do Gugu e do Clodovil, em uníssono eleva-se o brado retumbante de formidável contingente de pessoas: "Toca Raul!" 
Mesmo com todos os terríveis obstáculos jabaculísticos dos dias atuais, as rádios acabam tendo de atender aos veementes pedidos, pois a pressão popular é imensa, irrefreável. Quanto a mim, não preciso que em coro gritem: ''Pinta Raul!'' Na maior velô, vou logo me munindo de pincéis, tintas, lápis, pastel seco, pastel a óleo, carvão, sanguínea, papéis de gramaturas diversas, telas, Photoshop e...zás!, vou mandando ver em honra do nosso sempre amado, adorado e assaz idolatrado maluco beleza. É Raul Seixas na veia, nos ouvidos, nas retinas e na mente.Tá rebocado, meu compadre! Titirrane, Raulzito, titirrante!
(Pul. orig. 01/05/2015)

Amor instável, sujeito a chuvas e trovoadas, brisas e vendavais.

Com minha inadvertida aquiescência essa moça um dia adentra meu viver trazendo consigo generosas braçadas de olentes flores que deposita em cada cômodo de minha quase misantrópica ânima  tornando fúlgida e álacre cada jornada e mais felizes e iluminados meus passos pelo mundo. 
Inesperadamente, em dessemelhante dia, essa mesmíssima moça, com gestos impacientes e determinados, arrebata de mim seus ramalhetes, suas corbelhas, seus buquês e os leva para perfumar almas outras. Não se vai com a mesma delicadeza com que veio, antes dá uma aula de como, com marcial determinação, é possível deletar alguém da sua vida afetiva. Sem titubear, toma dos meus pincéis e tintas, rabisca palavras de ordem e belicosas frases na parede dantes imaculada de meu quarto, rasga em tiras meus lençóis de pura seda, despedaça meus cristais da Bavária, quebra toda minha porcelana chinesa, retalha em pedaços miúdos minhas estampas Eucalol, meu pôster do Lennie Dale e os meus mais amados álbuns de HQs. Estrepitante, bate a porta atrás de si, esgueira-se pelas esquinas e quebradas deste mundo, mundo, vasto mundo, e desaparece de minha vida de forma definitiva. 
Definitiva, eu disse? Diante dos estragos causados pelo seu cataclismo pessoal nada diverso disto se poderia supor. Pois eis que,  passado um tempo não tão largo assim, sabe-se lá por quais insondáveis razões, como se nada do que sucedeu houvesse de fato acontecido, essa moça reaparece em cena, enviando-me um inesperado e intrigante e-mail o qual,  por mais que eu tente, não logro decifrar. Em seguida, não satisfeita, ela consegue com suas artes o número de meu telefone e com  voz doce, timbre suave, me diz coisas das quais inutilmente tento traduzir as intenções. A meio uma tempestade de emoções, um vendaval de sentimentos conflitantes, intento fugir, mas é inútil já que ela tem incrível capacidade de antever meus passos, me cercar os caminhos.  Até que um dia as minhas mãos - que a mim deveriam mostrar fidelidade - sem esperarem que eu com elas concorde, saltam insidiosas e deslizando  pelo teclado do meu PC escrevem os meus segredos mais guardados, os desejos mais ocultos, as carências mais inconfessáveis e, sem minha devida permissão, enviam para essa moça. Como dela jamais adivinho as ações, não posso dizer que fico pasmo diante de sua atitude quando essa mesma senhorita que voltou a me procurar, nada comenta sobre as inconfidências que minhas mãos insidiosamente lhe escreveram, queda-se silente, faz a egípcia. E não retruca nada do que lhe foi escrito, não aplaude, não discorda, não concorda, não tripudia, não contesta, não esboça um esgar jocoso em sua face me mostrando a língua,  não me exibe o dedo da mão no obsceno gesto, não sai pelas ruas, ladeiras, praças, vielas, veredas, alamedas e bulevares emitindo gritos ensandecidos, demonstrando alvoroçada alegria ou estridente raiva. Seu silêncio é um brado eloquente que diuturno reverbera em todo meu ser.
(11/11/2014)

Complexo de inferioridade e analista / Humor de graça

(11/10/13)

06 novembro 2018

Roberto Calos, o rei. Sua vida dupla, suas manias, e a Velha Jovem Guarda

Mesmo sendo filho do Espírito Santo, os céus não ajudaram muito Roberto Calos em sua juventude. Vindo de uma família de pouquíssima grana, esse cara sou eu tinha que trabalhar arduamente, sendo que era obrigado a encarar uma extenuante jornada dupla para ganhar a vida. De dia, Roberto Calos era jogador de futebol e em campo defendia uns pixulés jogando na lateral esquerda. Mal o juiz apitava o fim do jogo, Roberto Calos saía a 120...150...200 km por hora para os vestiários e ali mesmo sapecava uma peruca em sua cuca legal, vestia um terno azul ou branco, colocava um medalhão no pescoço, enchia os dedos de anéis e, na maior azáfama, ia em busca de mais uns trocados que iria amealhar atuando como cantor de diversas boates. Alguns, invejosos dessa sua versatilidade, insinuavam que ele não cantava banana nenhuma, que ele só urrava, daí o terem cognominado de Urrei Roberto Calos. Depois de muito ralar, RC conseguiu juntar umas economias e com elas resolveu se dedicar inteiramente à sua carreira de cantante e compositante. Desistiu de ser beque e comprou um calhambeque. Empolgado e gritando "Eu sou terrível!", saiu guiando sua caranga que não era lá uma máquina quente. Mas o moço acabou se dando mal pois parou na contramão nas curvas da Estrada de Santos e um guarda apitou. Vai daí, o homem da lei tascou-lhe uma multa que quase fez o cantor perder a voz. Inconformado, o filho de Lady Laura bradou: "Querem acabar comigo!" Como o policial não se comoveu, o cantante não contou conversa e, indignado, vituperou: "Quero que vá tudo pro inferno!". De repente, se tocou que aquilo dava música. Chamou seu amigo Marasmo Calos e com ele fez um hit do iê-iê-iê que se tornou um verdadeiro hino da juventude vendendo toneladas de cópias pelo mundo afora, o que lhes trouxe muita grana cofre a dentro. Já tendo vendido mais de 100 milhões de álbuns no planeta, RC não sabe mais o que fazer com tanto dinheiro que ganhou. São milhões, bilhões e fudelhões de reais, dólares e euros que permitiram, entre otras cositas, que RC contratasse os melhores psicanalistas da praça para tentar curá-lo de algumas excentricidades e manias estapafúrdias que ele havia desenvolvido, como o fato de só gostar das cores branca e azul, achando que as demais lhe traziam mau agouro, abominando a cor preta, o cinza, o marrom e o verde que não te quero verde, cruz-e-credo!, pé de pato!, mangalô!, três vezes! Esse lance bizarro lhe trouxe problemas e constrangimentos, sendo Roberto Calos muito criticado por ter chegado ao cúmulo de dizer à Garota Marota Alcione que parasse de se insinuar para ele, afirmando que jamais iria convidá-la para jantá-la só pelo fato dela ser a Marrom.
(19/05/2014)

Marasmo Carlos e a Velha Jovem Guarda

Roberto Calos, cognominado o Rei do iê-iê-iê, sempre dizia que Marasmo era mais que seu braço direito, era seu umbigo. E assim o apresentava em seus programas e shows: "Com vocês, o meu umbigo...Marasmo Carlos!!" Sendo amigo de fé, irmão e camarada do Rei RC, Marasmo sempre foi um cara muito boa praça e, no entanto, vivia posando de bad boy pois, como diz Leila Diniz, homem tem que ser durão. Convicto disso, ele fazia tudo para manter a sua fama de mau e quando numa Festa de Arromba via uma Gatinha Manhosa, dizia logo: "Pode vir quente que eu estou fervendo!" Apesar de afirmar em uma composição já ter fumado um cigarro e meio esperando uma gata que não veio, Marasmo sempre foi um antitabagista ferrenho, contumaz e renitente e quando alguém tenta acender um nefando tubo nicotífero ao seu lado ele trata de mostrar um aviso que diz "É proibido fumar". Mesmo não tendo ganho durante sua carreira fortuna tão grande como a de RC, Marasmo não ficou sentado à beira do caminho com os braços cruzados e conseguiu amealhar uma boa poupança o que o ajuda muito nos dias de hoje pois, atualmente com 94 anos, o cantante e compositante foi acometido pelo Mal de Parkinson e passa o dia com incontroláveis e incessantes tremedeiras, ganhando por isso o apelido de O Tremendão.
(10/05/14)

Wanderléya Ternorinha, Wanderley Luxemburgo e a Velha Jovem Guarda

Além de ser renomada cantora, Wanderléya é irmã de Wanderley, o Luxemburgo, famoso técnico de futebol do Brasil que foi deportado da Espanha por insistir em massacrar impiedosamente a Língua Espanhola durante suas entrevistas. Quando o time do seu amado mano está perdendo, Wandeca costuma invadir os gramados gritando a plenos pulmões para o árbitro: "Por favor, pare agora! Senhor Juiz, pare agora! Senhor Juiz este impedimento será pra mim todo meu tormento!" Precursora do uso de indumentária masculina por belas mulheres, a moça tanto usou vistosos ternos que acabou ganhando o apelido de Ternorinha. Seu irmão, o dono dos referidos ternos, é que nunca gostou muito da elegância arrojada da mana e vai daí que, mesmo sendo muito unidos, a fraternal dupla mantém um acordo: ela não desfila mais pelas ruas, ágoras, veredas, boulevards, alamedas e avenidas com os ternos do seu irmão. Em contrapartida, Wanderley Luxemburgo não pode sair por aí vestindo as microssaias da irmã das coxas grossas, mesmo que morra de vontade de fazer isso.
(10/10/13)

Wanderley Caridoso, o Bom rapaz, e a Velha Jovem Guarda

Desde que era ainda um bebê, Wanderley Caridoso já demonstrava toda sua formidável bondade, e sempre dividia sua mamadeira com outros pequerruchos, entre um gugu-dadá e outro. Ele era mesmo uma boa alma, um sujeito generoso para com todos, jamais desmerecendo o sobrenome que tinha. Tão bom ele sempre foi que acabou por isso ganhando o apelido de O Bom rapaz. Vai daí, todos os anjinhos do céu se uniram e fizeram com que ele se tornasse um cantor famoso, bem sucedido e cheio de dindim em sua conta bancária. Quando o sucesso na carreira e a grana chegaram ao fim, WC tinha que fazer alguma coisa. E fez, e fez: colocou à venda o único bem material que lhe sobrara, uma pilha daqueles velhos e enormes discos de vinil chamados longplays ou LPs, todos eles com seus antigos hits que ficaram encalhados. Ninguém desconfiava, mas o desespero do Bom rapaz era tanto que ele tinha o abominável propósito de comprar uma pistola automática e com ela dar cabo da sua própria vida. Para dar um toque melodramático de filme de Almodóvar, o infausto gesto se daria sob o som de um dos seus encalhados  e empoeirados discos tocando na velha vitrola: "Parece que eu sabia que hoje era o dia de tudo terminar...". Felizmente para o bom WC, ninguém aguentava mais ouvir aquelas suas cantilenas e ele não conseguiu a notável façanha de vender sequer um único dos seus encalhados e bem empoeirados discos, deixando de amealhar algum tutu com o qual pretendia consumar seu nefasto propósito de comprar a arma fatal, o que o forçou a desistir do seu lamentável intento macabro. Foi então que a sorte voltou a sorrir para Wanderley, que acabou fazendo um enorme sucesso com Doce de Coco. Não, não se trata da açucarada canção, mas sim da açucarada, famosa e sempre apreciada cocadinha da Bahia, uma iguaria da melhor qualidade que Caridoso, valendo-se de uma receita que uma sua namorada baiana lhe passara, começou a produzir e a comercializar, logrando dar a volta por cima, voltando ao topo das paradas de sucesso, já não mais como cantante,mas como um mui bem sucedido empresário do ramo alimentício.
(100512)

Mortinha, o Queijinho de Minas, e a Velha Jovem Guarda


Oriunda da terra do heróico Tiradentes, a cantante Mortinha era carinhosamente epitetada de O queijinho de Minas. Este cognome, a um só tempo singelo e carinhoso, fazia menção às origens mineiras da guapa moçoila e rendeu uma enorme polêmica, tudo porque sabido era que Mortinha, O queijinho de Minas, costumava pisar nos palcos para cantar vestindo generosas minissaias que, se não chegavam a deixar à mostra o triângulo mineiro da moçoila, ao menos revelavam um mui bem torneado, invejável e cobiçável par de coxas, sendo que era trajada dessa capitosa forma que a mocetona se apresentava no programa "É uma brasa, mora!", do qual o Rei da Jovem Guarda, Roberto Calos, era o apresentador nas jovens tarde de domingo. E a alardeada polêmica teria surgido do fato de que RC nunca escondeu de ninguém - e até propagava aos quatro ventos - que adorava degustar com avidez todos os tipos de laticínios e gostosuras imagináveis oriundos de Minas Gerais, regalando-se com tais delícias e ainda lambendo os seus reais beiços cantantes.
(10/05/12)

04 novembro 2018

Wladimir Maiakóvski, Fernando Pessoa, Caetano Veloso e um certo Edu. Pequenos equívocos sobre grandes poetas / Parte 1 de 2

Foi por saber que erra e erra muito, que desde os tempos de Sêneca o homem criou para si o axioma “errar é humano.” Isso parece dar a ele, na verdade a todos nós, seres humanos, certa “licença poética” para incorrer em erronias e equívocos, uma, duas, algumas vezes. Dá-se que muitos abusam da sua salvaguarda para cometerem sucessivos e incontáveis erros, erros à mancheia, que faz o povo pasmar. Dos errinhos pequenininhos, quase imperceptíveis, aos mais grosseiros e paquidérmicos. Uma vaga imensa deles, um tsunami, deslizes de todos os calibres, pesos e medidas, em todos os tipos de assuntos, a começar pelos mais prosaicos. Até mesmo equívocos que versam sobre a Cultura, o que torna tudo mais estranho, pois é de se acreditar que se uma pessoa resolve transitar pelos terrenos culturais, presumível é que essa dita pessoa haja se preparado para emitir opiniões consistentes, embasadas, procedentes, verdadeiramente cultas, como se pretendem. Na prática, isso é diferente, por vezes, muito, muito. Por exemplo, uma considerável parcela dos leitores brasileiros sabe muitíssimo bem que o poema No caminho com Maiakóvski foi escrito pelo poeta vanguardista russo Vladimir Vladimirovich Maiakóvski. Orgulham-se de saber disso. Jactam-se por sabê-lo. Mas... não, o poema não foi escrito pelo grande poeta russo, é da autoria de um poeta brasileiro chamado Eduardo. E não me perguntem como é que alguém, conhecido pelos amigos mais próximos como Edu, tenha podido escrever em 1964, em plena era de chumbo, um poema tão denso, tão forte, tão belo. Digno de um Maiakóvski. Pois Edu, Eduardo Alves da Costa, fez isso. E as pessoas, ainda hoje, mesmo sendo alertadas sobre o equívoco, mesmo sendo esclarecidas sobre quem é o verdadeiro autor do poema, insistem em dizer que ele é de Maiakóvski. Deliberadamente, persistem no erro. Errar pode ser desumano. Ainda no terreno da poesia, as pessoas insistem em atribuir ao maravilhoso Fernando Pessoa a criação da célebre frase “Navegar é preciso”. E não param por aí, de quebra, dão a Pessoa uma luxuosa parceria com o compositor baiano Caetano Veloso, na música Os argonautas, um fado belíssimo, pungente, capitoso, que é um deslumbre escutá-lo, muito especialmente na voz de certas cantoras lusitanas que o interpretam com o coração de fadista, coisa de arrepiar. 
A canção é maravilhosa, a letra é um deslumbre. Mas as coisas são um tanto diferente do que supõe alguns, como bem podemos ver na parte 2 deste post.

Fernando Pessoa, criadas, moços de fretes e o fingimento do poeta / Arte que se reparte

Durante longo tempo trabalhei diariamente em redações com a incumbência de ilustrar matérias, artigos, crônicas e coisas quejandas, entre as quais se incluem a feitura de caricaturas e retratos de insignes gentes, como o grande poeta da língua portuguesa, Fernando Pessoa. Para aproveitar o momento, eu sempre buscava experimentar toda sorte de materiais que me possibilitassem fazer uma boa ilustração e ao mesmo tempo, me permitissem conhecer mais do uso desses referidos materiais. Um deles, o lápis 6B, foi o que usei para fazer em papel westerprint 180 gramas este retrato do grande, do formidável poeta fingidor que fingia tão completamente que chegava a fingir que era dor a dor que deveras sentia, que sofria enxovalhos e se mantinha calado, fingindo não perceber a troça das criadas de hotel nem o piscar de olhos dos moços de fretes. Gajo porreiro, gajo fixe, o Pessoa. Cabra bão!
(18/05/18)

03 novembro 2018

Orangotango no tangolomango / Postagem no Facebook number 2

Densa e impenetrável é a selva que me cerca, indecifrável, ameaçadora, ruidosa. Dentre as miríades de ruídos meus ouvidos treinados distinguem o som dos tambores selvagens da amazônica tribo Papaxibé. Mister se faz aqui esclarecer que me refiro à única jângal que conheço, a selva de pedra da Big Apple, onde moro desde tenra infância, tendo aqui sido criado por um orangotango, primata assim chamado por gostar de ouvir o ritmo musical consagrado por Gardel. Quanto ao som de tambor, trata-se meramente do toque do meu celular de última geração, presente que recebi do cacique Biratan, verdadeiro silvícola alencariano, espadaúdo e viril de fazer babar qualquer Ceci. Eis que ele me liga exigindo que eu poste mais três de trabalhos meus no Facebook na qualidade de participante de um projeto envolvendo artistas gráficos. Pois aqui vão eles, preclaro morubixaba.

1. MACHADO DE ASSIS, cidadão brasileiro, mulato, considerado por muitos o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Arte feita em papel Opaline, 180 gramas, grafite B, caneta de ponta porosa, cópia xerocada e pintada com ecoline, lápis Caran d'Ache, brilhos e luzes feitas com guache branco e pincel Kolinsky bem como com líquido corretor. Publicado no caderno cultural de uma gazeta.
2. MORTE DE LAMPÍÃO, uma fakexilo, que é uma simulação da arte da xilogravura, feita com guache branco sobre papel preto. Cansa bem menos do que esculpir a madeira com goivas. Ilustração para livro Dadá, do escritor e cineasta José Umberto Dias.
3. GLAUBER ROCHA E ANTONIO DAS MORTES, desenho feito com grafite B, caneta nanquim descartável, recortado e montado sobre retícula xerocada. Ilustração para livro.
(11/02/2015)

Um autóctone brasileiro em Nova York / Postagens no Facebook number 1

Em noite do mais argênteo plenilúnio estava eu aqui em minha cobertura no Soho, Big Apple, empenhado no labor de livrar-me de incômodos pruridos em minhas pudendas partes, quando eis que me chega às mãos uma infomensagem de sinal de fumaça enviada pelo intimorato cacique-cartunista Biratan, nobre aborígene paraense que sói desfilar seu garbo varonil pela jângal, paramentado com seu cocar feito com penas...de nanquim. O nobilárquico silvícola Papaxibé me deixa claro que tenho que postar nesse espaço três rabiscos diários durante cinco luas. Ou é isso ou ele declara guerra contra minha tribo baiana, os índios Akarajés.
1. NELSON RODRIGUES, grafite B, caneta nanquim descartável, alguns vidros de ecoline e um tostão de Photoshop.
2. GARI, lápis HB2, tinta acrílica sobre tela e um grama de Photoshop.
3. ORELHÃO, grafite B, canetas nanquim descartáveis, pincel Kolinsky number 2, um trapinho manchado de nanquim sobre papel Opaline 180 gramas e uma espórtula de Photoshop. 
(11/02/2015)

O cangaceiro ilustrado e MacGyver / Arte que se reparte 1

A imagem do homem do cangaço ficou conhecida mundialmente com o sucesso que acompanhou o filme O cangaceiro, do cineasta Lima Barreto, laureado no Festival de cinema de Cannes em 1953. Essa película conquistou a admiração de cinéfilos dos mais variados países, sendo que foi comprada por mais de 80 países e exibido com êxito absoluto, notadamente na França, onde o sucesso foi tão grande que o filme ficou em cartaz por quase cinco anos seguidos, façanha que nenhum blockbuster da indústria cinematográfica hollywoodiana conseguiu superar ou mesmo igualar.
***E como esse negócio de Photoshop e Illustrator são para os fracos, fiz este desenho utilizando um papel Opaline bem encorpado, com 240 gramas, esboçado com grafite B, sendo que utilizei pincel Kolinsky e um guache branco que logo foi coberto com alguns litros de nanquim preto e enxaguado debaixo de torneira com água corrente para conseguir a textura pretendida. MacGyver perde fácil, fácil.
(180215)

La belle de jour no Rio de Janeiro / Arte que se reparte 2

Quando vou ilustrar o texto de algum profissional da escrita, busco ler seus escritos com o devido respeito e a mais absoluta atenção para poder interpretar bem e saber qual é o terreno em que devo caminhar. Tenho sempre em mente a intenção de me tornar um parceiro do escriba e não seu concorrente na busca pela admiração dos leitores. Sempre almejo criar uma ilustração que desperte nesses leitores o interesse pela leitura do texto, fazer com que fiquem curiosos com o que ele lhes revela, o que nele motivou aquele desenho. Nada de fazer uma ilustração que seja muito bonita graficamente mas que fuja ao espírito do que ali está descrito por palavras. Também acho de primordial importância não cair na armadilha de fazer um desenho que revele antecipadamente o conteúdo dos escritos, tirando a surpresa, o interesse dos amáveis e sapientes leitores, equívoco em que alguns desenhistas por vezes incorrem. Também vale dizer que se no dito texto a ser ilustrado há elementos de malícia ou conteúdo político, sensualidade, suspense, humor ou outros que tais, intento fazer com que esses elementos se incorporem ao desenho que vou produzir, seja através da composição, das linhas, dos enquadramentos, das expressões ou da postura dos personagens colocados em cena. Isto é um pouquinho dos "bastidores" de um desenho que muita gente sequer imagina existir, crentes que um desenhante já tem tudo preparadinho dentro de sua mui privilegiada cuca, como se fosse o conteúdo de um pendrive, bastando que esse artista gráfico empunhe um lápis ou caneta, e aí esse seu pendrive interiorcomo em um passe de mágica, faz todo o trabalho surgir prontinho, prontinho no branco virginal do papel. 
***A ilustração acima foi feita para o texto La belle de jour no Rio de Janeiro, do livro A ÚLTIMA COPA EM PARIS, de autoria do escritor Ademar Gomes. Usei papel Opaline 180 gramas, grafite B, canetas nanquim descartáveis e umas somíticas gotinhas de Photoshop.
(190215)

31 outubro 2018

Bundamolismo e cabotinismo / Postagem no Facebook number 3

Nem bem se esvanece o rocio e este estóico cartunista já está em plena atividade no Central Park, na mui frígida atmosfera dessa Big Apple, malhando espartanamente. Mister se faz ter hercúleo físico para poder superar as cotidianas barreiras encontradas por um genuíno cartunista. Nós, os cartunistas autênticos, vivemos eternamente em pugna imensa contra as mazelas impingidas à raça humana, inerme e desprotegida, ainda que armada esteja. Tamanha dedicação não impede que tantos não nos reconheçam como seus legítimos e heroicos protetores e que nos dirijam injustas e indevidas ofensas. E se extremistas armados nos trucidam em mortais ataques, comemoram aos gritos de “bem feito, bem feito!!”. Miríades de brasileiros incorrem em tais abomináveis equívocos e em terras tupiniquins não faltam os que nos apodem de quixotescos e, de forma chula, nos chamem de bundas moles. Pensar nisso me faz intensificar a malhação dos meus bíceps, tríceps e principalmente dos meus glúteos para enrijecê-los de forma pétrea. Bunda mole é mãe!
***Neste post mais três trabalhos de ilustração, como me exigiu o cacique Biratan, que é minha participação em um projeto mostrando trabalhos de artistas gráficos exibidos no Facebook. Na sessão de hoje, numa homenagem ao assaz laureado cineasta Lima Barreto, nada de techinicolor, só sertão nordestino, cangaço e cangaceiros em P&B.
1. O HERÓI, história em quadrinhos com argumento e roteiro do graaaaande Gonçalo Júnior, ainda inédita. Arte feita em papel Opaline 180 gramas, grafite B e caneta nanquim descartável.
 2. ROSTO EM CLOSE DO CONSELHEIRO, ilustração para revista. Monotipia feita com tinta preta em bisnaga para paredes e papel ofício.
 3. CANGACEIRO E BANDO. Ilustração para livro, Fakexilo, uma simulação de xilogravura feita com guache branco em papel preto.
(11022015)

Escribabacas ou Virulências gramaticais que nos impingem os literataços e os sofômanos

No pélago do meu ser trago ocultas um milhão de veleidades . Uma delas é a de ser um poeta, um festejado vate. Não preciso ser um Ruy Espinheira Filho, um Augusto dos Anjos, um Drummond, um Bandeira, que aí é querer muito. A mim basta ser um modesto bardo, quem sabe um Setubardo. Anos e anos de trabalho ilustrando toda sorte de texto para jornais, revistas e livros me possibilitaram a fortuna de manusear e ler em primeira mão originais escritos por quem domina a difícil arte de bem saber escrever. Em injusta contrapartida - hélas, hélas! - também fui obrigado a assistir a um interminável desfile de escribas ilegítimos que se julgam detentores da raríssima habilidade de tratar com intimidade e maestria as palavras. E assim pensando nos impingem um profusão de escritos, invariavelmente alambicados, acacianos e rebarbativos, acometidos que são por deletérios achaques literários que certamente fazem o velho e bom Machado revirar-se no mausoléu qual um irrequieto dançante de hip-hop. O mais das vezes por tais pretensos literatos ignorarem que são portadores de um grave mal, muito comum neste século, de nome científico egoinfladozitis exasperantis, enfermidade que nem sempre é silenciosa, como muitas vezes é estridente. Empunhando impunemente penas, esferográficas e teclados saem por aí de forma inadvertida atropelando o vernáculo, estuprando métricas e sintaxes incautas, violentando as mais inocentes ortoépias. E como mal maior, essas gentes me fazem pensar o impensável e acabam me convencendo que eu próprio tenho o incontestável direito de cometer impunemente prosas e versos e aqui estou eu a escrever sandices inqualificáveis. Tivesse eu o necessário senso de conveniência e guardaria em providenciais gavetas minhas canhestras tentativas de escrevinhar, versejar, sonetar, redondilhar, dando um nobiliárquico exemplo a esses usurpadores de páginas opusculares e gazetais, abjetos invasores dos nossos sacrossantos penates. Mas qual o quê, sou um homem do meu século e não sou dado a nobreza de sentimentos. Se esta gente pode, concluo que também posso, insigne Eça, nobre Pessoa, formidável João Ubaldo, maravilhoso Drummond. Então aqui vou eu com uma pena na mão e pletoras de estultices na cabeça tirando onda de inspirado escriba igualzinho aos inúmeros literataços sem senso de conveniência infiltrados em jornais e revistas. E de quebra hei de perpetrar versos que certamente farão qualquer poeta sensato perder seu norte emocional e entregar uma afiada tesoura a um Doutor, implorando que o dito esculápio lhe corte a sua singularíssima pessoa. Malgrado isso, a julgar por certas figuras eleitas pela Academia e por ela guindadas à condição de imortais, tenho chances reais de conseguir um fardão da ABL.
(20/03//10)

Danusa se recusa e oclusa não se escusa / Postagem no Facebook number 4

I love Paris in springtime. E quer saber, Mr. Cole? Adoro também no summer, no fall e no winter. Vou lá quantas vezes me dá vontade de ir e cada vez gosto mais. Aquela famosa justificativa da Danusa Leão de não querer mais saber de ir a Paris temendo o dissabor de em parisienses logradouros dar de cara com o porteiro do seu prédio, me cheira mais à desculpa esfarrapada de quem está na pior, mal de finanças, lisa, sem plata, money, l’argent. Li que a ex-dondoca, que já teve seus dias de fausto, pompa e circunstância, hoje não tem grana nem para comprar a prestações um desses pacotes de agências de viagens ou para embarcar em um vôo charter mais lotado que qualquer buzu da periferia em horário de rush. Até que eu compreendo o drama da perua, nem todos têm minha profissão de cartunista e a polpuda conta bancária que os cartuns regiamente me trouxeram. Com a fortuna que amealhei, entre outros mimos, adquiri um confortável jatinho para mim. Quando me bate uma vontade de comer pão francês não vou à padaria da esquina, vou à França e lá me farto com o pão francês original, os mesmos que alimentam a Amélie Poulain, a Isabelle Adjani, a Catherine Deneuve. E quando minha libido exige um beijo francês de verdade, é também pra lá que vou encontrar uma certa mademoiselle que em Montmartre me foi apresentada pelo Juarez Machado, sendo ela do tipo mignon com um derrière très jolie de fazer inveja a qualquer mulata bem servida. E é bom parar o papo por aqui porque eis que ele já envereda por rumos periculosos e isso aqui é um perfil de respeito. Au revoir, mons enfants de La Patrie.

1. BOB MARLEY. Papel Opaline, 180 gramas, esboço com grafite B, caneta nanquim descartável, retículas, um quase nada de Photoshop.
2. CANTORA DE CABELO COR DE ROSA. Tinta acrílica sobre tela de 1,50 x 1,00m.
3. CANTORA E MÚSICOS COM CAMISAS VERMELHAS. Tinta acrílica sobre tela de 1,50 x 1,00m.
(11/02/2015)

O cantor Gerônimo, a escritora Aninha Franco, eu e um dos milhões de gaiatos da Bahia


A cada passo um gaiato nato que nos atormenta o dia-a-dia e eis aqui a cidade da Bahia. Meu caro Boca do Inferno, se outros países necessitassem desesperadamente de gaiatos e a Bahia tivesse permissão para exportar tipos que tais, daqui eles sairiam às toneladas acondicionados em infindáveis contêineres, e teríamos um PIB tão elevado que ricos seríamos todos neste afrobaiano torrão. Ser gaiato é qualidade inerente à grande maioria dos baianos. E um sujeito sério como eu não tem vida fácil nesta terra. Por exemplo, quando vou ao Pelô, gosto de almoçar no Restaurante Axêgo. E o sacripanta que é dono do local - cujo nome aqui não declinarei para não dar ousadia - ao me ver chegar me recebe invariavelmente de duas formas. Se estou com meus longos cabelos presos em rabo-de-cavalo, com um largo sorriso grita para mim lá detrás do balcão: "Gerônimo! Seja bem-vindo!", fingindo se equivocar. Depois complementa, com aquele sorrisinho sacana, que eu e o cantante de "Agradecer e abraçar" somos um o focinho do outro, esculpidos e encarnados ou cuspidos e escarrados, como preferirem. Menas verdade, diria nosso amado Presidente Lula. Tenho em casa um espelho que está comigo há muitos lustros - lustros na idade, no espelho nem tanto assim. Esse espelho é de minha inteira confiança, nunca falta com a verdade, por isto mesmo sempre enche minha bola e me afirma que estou a cada dia mais parecido com o Brad Pitt, com o Alain Delon de 30 anos atrás. Já Jerônimo, muito me pesa dizer que seu único e indiscutível atributo de beleza está na pena que usa no alto do cocoruto a título de adereço. Então, prefiro dar um voto de confiança na sinceridade do meu espelho que tem relevantes serviços prestados a este vivente que vos escreve estas mal digitadas linhas. Ah, a segunda forma: se chego ao Axêgo com meus cabelos soltos, as melenas levemente onduladas livres ao vento qual um indômito silvícola alencariano de olhos garços, o tal proprietário me saúda gritando: "Aninha Franco! Que bom lhe ver!" Aninha se alguém ainda não sabe, é teatróloga e escritora entre outros pendores que ostenta. Admiro seu intelecto, mas ser sósia dela não é exatamente o que almejei para mim na vida. Entretanto uma coisa já constatei: quando - segundo o gaiato em questão - "estou" Jerônimo não consigo a façanha de ter mulheres me olhando com os zoim compridos cheios de quebranto, promessas e desejos inconfessáveis. No entanto quando "estou" Aninha Franco, costumo abiscoitar para meu harém algumas núbias curvilíneas e gringas com sardas, queimadinhas de sol e cheias de love to give, sendo que já recebi inúmeros torpedos de morenas frajolas nativas, que mulher baiana quando está a fim de alguém não é de muitos pudores, formalidades e etiquetas. Por via das dúvidas, agora ando sempre de cabelos soltos Pelô afora. E mesmo quando o supracitado sacripanta ao me ver passar sob seu balcão grita para mim: "Aninha Fraaaanco!", respiro fundo, sigo em frente o meu caminho com a tranquilidade de quem está numa boa e nem tchum pra ele. Mais importante é meu harém.
(060414)