05 dezembro 2019

O sexo e os portugueses ou Fornicar é preciso / U sexu nu mundo 1

Em Portugal o rigoroso inverno muitas vezes impede que a mulher portuguesa faça o devido asseio pessoal, inclusive o íntimo. Aí a coisa fica assaz periculosa, valha-nos Deus e valha-nos Nossa Senhora do Rosário de Fátima pois, em casos que tais,
 das lusas genitálias desprende-se um forte e inevitável odor de bacalhau o que, em verdade, não é privilégio das cachopas e das balzaquianas lusitanas, vez que a natureza humana tem seus irrevogáveis ditames, podendo isto acontecer com qualquer mulher de qualquer parte do mundo que passar um longo período sem lavar o objeto de desejo dos machos da espécie desde o Éden. O grande diferencial está em que se para nós, brasileiros, o tal odor se configura em fator brochante e nada convidativo, para os bravos rapazes lusitanos isto até instiga o apetite sexual pois sabido é o quanto os portugueses adoram comer um bom bacalhau, não dispensam esse acepipe por nada e caem de boca vorazmente quando veem um à sua frente, ora pois, pois. É voz corrente - seja verdade ou maldoso boato - que o maior problema lá nas terras de Camões e da pessoa de Pessoa é que em grande parte as mulheres ostentam buços tão compridos que são verdadeiros bigodes e, reza a lenda, os bigodes das Marias costumam ser maiores que os bigodes dos Manuéis e Joaquins. Como é muito difícil habituar-se a tal coisa, os gajos portugueses vivem tomando enormes sustos todas as manhãs, ao acordar, abrir os olhos e dar de cara com a cara de sua bigoduda companheira, ai, meu Jesus!, ai, meu padroeiro São Jorge! Nos livros, compêndios e almanaques deste planeta não é creditada aos bravos portugueses nenhuma das grandes invenções em prol da Humanidade tais como o automóvel, o telefone, a televisão, o laser e as calcinhas comestíveis. Tremenda injustiça e falta de reconhecimento para com os gajos lusos já que eles são os responsáveis por uma das mais espetaculares invenções para a raça humana: a mulata brasileira, Ôba, Ôba! Graças à incomensurável libido dos homens portugueses, incontrolável diante das abundâncias carnais das negras amas e mucamas desde o tempo da colonização, é que surgiu esta nova raça superior, a das mulatas sestrosas. Se por um lado a mulata é gostosa, por outro é mais gostosa ainda. O mundo já girou e girou muito desde os tempos coloniais, mas até hoje muitos brazucas ressentidos vivem se queixando que por séculos os lusitanos com suas naus surrupiaram para a corte d'Além Mar quase todo o ouro do Brasil. Para nossa sorte, como as naus saíam das costas brasileiras sobrecarregadas com o precioso metal, os portugas - contra a vontade e mui melancolicamente - viram-se obrigados a abrir mão das preciosas mulatas, deixando-as todas aqui sem imaginar que desta forma nós, brazucas, é que ficaríamos no lucro. Aquela preocupante crise econômica ocorrida há já algum tempo em Portugal é prova incontestável disto, vez que mostrou todo ouro que nos tomaram já se acabou por lá, foi pras cucuias. Em compensação aqui no Brasil temos uma fartura em mulatas maravilhosas que com suas exuberâncias, reentrâncias e abundâncias valem mais que todo ouro do mundo, ó pá!
(12/10/10)

04 dezembro 2019

Paris e as mulheres francesas estão em chamas / U Sexu nu mundo 7

        Os franceses sempre deram mostras de possuírem imensos poderes de inventividade e provaram isso apresentando ao mundo la guillotine, o crêpe Suzette, o Cancan, a caneta Bic e a Dominique-nique-nique. No entanto, das suas grandes invenções as mais conhecidas são mesmo o beijo francês, o vinho francês, o pão francês e a saída à francesa. A essa última nós, brasileiros, devemos muito do nosso desenvolvimento econômico e social. A História registra que em 1807, na iminência de ter o reino português invadido pelas tropas de Napoleão Bonaparte, o príncipe regente D. João deu uma passativa no beligerante gaulês se picando com toda sua corte para o Brasil, o que foi bom para nosso progresso pátrio. Resumo da ópera: o regente D. João, autêntico português, saiu à francesa. E como os franceses não tiveram o cuidado de patentear essa sua notável invenção, os lusitanos jamais lhes pagaram um escudo, um franco, nem um euro de royalties por ela. Quanto ao quesito sexual, os compatriotas de Sade não ficam atrás. Quer dizer, ficam atrás, ficam na frente, ficam de ladinho, ficam por cima, ficam por baixo, ficam em todas as posições imagináveis e inimagináveis, essas com maior frequência. É fato notório que foram tambem os franceses que inventaram o soutien, feito para ser desvestido beeem devagarinho pelas mulheres, deixando qualquer sujeito, francês ou não, mais doidão e piradão que qualquer aldrabão que se crê Napoleão. Inventaram também o beijo sur le cou - que não é o que você está pensando - e ainda o rendez-vous, o faire minette, o ménage à trois e, é claro, o já mencionado famoso e popular beijo francês. Esse amplo e invejável curriculum vitae confere aos franceses uma grande importância e prestígio, sexualmente falando. Mas é preciso levar em conta algumas particularidades. Caso esteja pensando em ir para a cama com algum ou alguma compatriota de Asterix e Obelix e você é uma pessoa ortodoxa no quesito higiene pessoal, é bom ir com um certo cuidado. É que, procedente ou não, rola por aí um enorme buxixo afirmando que o único banho diário praticado pelos inventivos franceses, é o banho de língua. 
(291210)

O Cabotinismo auriverde e o Bundamolismo tupiniquim/ Postagem no Facebook number 3

Nem bem se esvanece o rocio e este estóico cartunista já está em plena atividade no Central Park, na mui frígida atmosfera dessa Big Apple, malhando espartanamente. Mister se faz ter hercúleo físico para poder superar as cotidianas barreiras encontradas por um genuíno cartunista. Nós, os cartunistas autênticos, vivemos eternamente em pugna imensa contra as mazelas impingidas à raça humana, inerme e desprotegida, ainda que armada esteja. Tamanha dedicação não impede que tantos não nos reconheçam como seus legítimos e heroicos protetores e que nos dirijam injustas e indevidas ofensas. E se extremistas armados nos trucidam em mortais ataques, comemoram aos gritos de “bem feito, bem feito!!”. Miríades de brasileiros incorrem em tais abomináveis equívocos e em terras tupiniquins não faltam os que nos apodem de quixotescos e, de forma chula, nos chamem de bundas moles. Pensar nisso me faz intensificar a malhação dos meus bíceps, tríceps e principalmente dos meus glúteos para enrijecê-los de forma pétrea. Bunda mole é mãe!
***Neste post mais três trabalhos de ilustração, como me exigiu o cacique Biratan, que é minha participação em um projeto mostrando trabalhos de artistas gráficos exibidos no Facebook. Na sessão de hoje, numa homenagem ao assaz laureado cineasta Lima Barreto, nada de technicolor ou tequinicolor, só sertão com suas muitíssimas veredas, sertão nordestino, cangaço e cangaceiros em P&B.
1. O HERÓI, história em quadrinhos com argumento e roteiro do graaaaande Gonçalo Júnior, ainda inédita. Arte feita em papel Opaline 180 gramas, grafite B e caneta nanquim descartável.
 2. ROSTO EM CLOSE DO CONSELHEIRO, ilustração para revista. Monotipia feita com tinta preta em bisnaga para paredes e papel ofício.
 3. CANGACEIRO E BANDO. Ilustração para livro, Fakexilo, uma simulação de xilogravura feita com guache branco em papel preto.
(11022015)

02 dezembro 2019

Che Guevara e Bienvenido Granda na Bahia, Cedraz, Nildão, o ICBA.

Nestas fotografias dos anos 70s, preclaros leitores, mister se faz esclarecer unas cositas. Na foto mais acima, um barbudo esconde as mãos de forma suspeita, como se ocultasse uma arma. Santo Dios! Será que se trata do lendário guerrilheiro platino-cubano Che Guevara em incógnita visita à Bahia naquela incendiária década? Na foto central, este cara todo saradão, com bigode de cantor de bolero, será el cantante Bienvenido Granda em soteropolitanos dias? Em caso de identificação positiva, de que estariam tratando Che e Bienvenido naquela animada confabulação da foto número 3? A derrubada do governo militar no Brasil? A construção de uma gravadora especializada em músicas genuinamente latino-americanas sem dinheiro no bolso e sem parentes importantes? Nada disso, gentes, estas fotos todas eu surripiei do blog do Gutemberg Cruz, precisamente de sua série "A hora e a vez dos quadrinhos baianos". Blog maravilhoso, diga-se, para os fãs das HQs, cartuns e caricaturas onde Guto trata do assunto com seu conhecimento de causa, sendo apaixonado, dedicado e competente ao abordar tais temáticas. E para não prolongar o suspense, vou revelando: o evento fotografado é uma soteropolitana exposição de cartuns e quadrinhos lá pelo ano de 76 no Instituto Cultural Brasil-Alemanha, o ICBA, que sempre nos abriu as portas. Ali na foto número 1, o barbudo não é o Chê, é o cartunista e multimídia Josanildo Dias de Lacerda. Ah, suas ilustres pessoinhas acham que não conhecem?! Aí eu lhes pego de jeito, dizendo que esse Josanildo é o amado e idolatrado cartunista, irreverente poeta haikainiano e criativo designer gráfico Nildão, que vocês muito bem conhecem. Pois é, o mesmo Nildão, hoje todo clean, mas que já teve um dia este guevarístico visual como comprova a foto e ele não pode negar mesmo se o quisesse, coisa dos anos setentas. Na fotografia número 2 não se trata de Bienvenido Granda, que era, por razões óbvias, apodado de El bigode cantante. Trata-se, na verdade, do sempre festejado mestre dos quadrinhos Antonio Cedraz, criador do personagem Xaxado e todo um universo de personagens brasileiríssimos. Quem diria, Cedraz já foi, em pretéritos tempos, um galã do tipo machão latino como bem se pode ver, um autêntico Antônio Banderas sertanejo. No papo entre ambos o assunto era, inexoravelmente, os rumos dos quadrinhos e cartuns na Bahia, no Brasil e no mundo. Para mais aprofundados saberes, vai aqui o link pro blog do Guto: http://blogdogutemberg.blogspot.com/
(07/03/14)

Aquarela, sketchbook, família e Clarice Lispector.

Alguns artistas não abrem mão de levarem consigo, onde quer que forem, um providencial caderninho, com o fito de fazerem anotações diversas, sendo um valioso auxiliar. É ali que, por exemplo, compositores, escritores e redatores soem anotar ideias que lhes surgem sem hora marcada nem prévio aviso. Se não anotam...puff! Essas ideias se vão e se perdem por aí, sabe lá Deus para onde elas vão. Desenhistas e pintores também costumam utilizar frequentemente seus caderninhos, atualmente rebatizados com um termo da língua inglesa, sketchbook, o que lhes garante uma importância maior nesse país de infindáveis aculturamentos. Nos meus diversos caderninhos há um monte de desenhos que jamais publiquei. São só estudos, divagações gráficas que podem servir de base para novos trabalhos de desenho ou pintura. Entre tais estudos, está este aí em cima, feito em aquarela bem manchada. Manchas à mancheia, como diria o vate. A temática surgiu inspirada em uma velha foto no meu álbum de família e, por isso mesmo, sempre que revejo, me vem à mente Clarice Lispector e eu acabo sentindo, qual ela, uma imensa saudade de mim.
(04/07/14)

Os cubanos: bons de cana e maus de cama? / U sexu nu mundo 3


As mulheres cubanas andam reclamando que a vida sexual em Cuba está precisando urgentemente de uma revolução. Estas bravas, indômitas e mui guapas chicas vivem se queixando que anoche, anoche soñe contigo, na hora del cuerpo a cuerpo, seus respectivos maridóns não se animam muito na cama, frustrando as sequiosas mocetas que inutilmente ficam de olho fixo na guevara do cabisbaixo compañeroesperando - em vão - que a dita guevara do sujeito dê algum sinal de vida. Seja em Guantanamera, Siboney ou Habana, todas las chicas gritam desesperadas “hay que endurecer, hay que endurecer, por Dios!. Mas é tudo debalde, nada de los hombres endurecerem, armarem as barracas en Sierra Maestra ou em qualquer outro recanto da ilha. Também pudera, depois de haverem escutado, em pé e ao sol, por sete intermináveis horas o loquaz e verborrágico comandante Fidel Castro Ruz discursar contra os porcos imperialistas norte-americanos, os homens cubanos chegam em casa combalidos, trôpegos, extenuados e sem tesón para atender as súplicas inflamadas proferidas pelas concupiscentes mocetonas de la cor de la canelaAssim, sin embargo, ficam todas elas con sus pererequitas em chamas, subindo por las paredes e por lo paredón. Enquanto la mujer cubaña, cheia de lubricidade, fica na mão, siempre a periglo, e matando perro a gritoel macho cubaño - atualmente, já não tão macho assim - anda por aí de cabeças baixas, cheio de vergonha por haver se tornado um desditoso empata-rumba. A chegada da noite na Ilha passou a ser uma constante ameaça para los hombres cubaños, e eles não conseguem mais adormecer em paz, apavorados, com receio de que quando estiverem em seus sonos mais profundos, las compañeras, exímias cortadoras de cana, usem suas afiadas foices para lhes cortar seus preciosos charutos cubanos e jogar para los insaciables porcos imperialistas.
(15/11/10 )

23 novembro 2019

O dia em que Joel Santana foi à final com o Bahia e avisou: vocês vão ter que me ingerir!.

No ano de 2013 Joel Santana é chamado para socorrer o EC Bahia que não vinha nada bem,  recebendo do então presidente do tricolor um lote de jogadores que muitos tinham na conta de refugos, e a missão impossível de levar aquele bando à final do Baianão. A crônica esportiva baiana o espinafra impiedosamente antes mesmo que ele assuma, taxando-o de superado, enganador e inveterado bebedor de etílicos. Papai Joel pega seu laptop, digo, pega sua prancheta, reúne o elenco do qual dispunha, dá uma guaribada e vai à luta. Sua estrela brilha como sempre brilhou, e ele, contrariando a expectativa da mídia, leva aquele quase time à final contra o então forte e entrosado time do EC Vitória - já considerado o virtual campeão - para desespero de seus críticos mais ferrenhos que agora teriam que aturar Joetílico goela abaixo bem mais tempo que planejavam. Ganhar do afinado Leão aí já seria uma outra história, uma tarefa hercúlea, mas o importante é que Papai Joel colocou mesmo o sofrível time do Tricolor de Aço na decisão do título.
Acompanho resenhas esportivas desde pequeno, é mais que um hábito, é quase um vício que não consigo evitar, mesmo sendo claro para mim que cronistas esportivos, com raras, aliás, raríssimas exceções, não podem nunca serem levadas a sério - isso vale para cronistas de todo o Brasil - sendo pessoas que, acomodados em confortáveis assentos em um estúdio com ar acondicionado ou numa cabine de rádio ou TV, nas mesas redondas ou resenhas vivem se colocando na posição de verdadeiros PHDs em Ciência Futebolística Superior e Supremos Analistas dos Mais intrincados Esquemas Táticos. Com indisfarçável e gigantesca presunção, do seu refúgio seguro sugerem que entendem de futebol mais do que qualquer técnico em atividade, dando a si próprios uma importância que não possuem. E não vamos nem falar dos constantes e lamentáveis atentados que, mesmo os que dizem ter curso superior, cometem contra o vernáculo pátrio, nem - ainda pior - as ligações espúrias, nunca assumidas, que muitos mantém com cartolas suspeitíssimos. Cronistas que tais não gostam nem um pouqinho de serem contestados, fazem do microfone uma metralhadora inclemente contra quem os conteste. Mas, com o devido respeito aos bons profissionais - sou amigo pessoal de alguns - a lógica diz que se este fantástico conhecimento do futebol que arrotam fosse mesmo verdadeiro, procedente, qualquer um desses comentaristas mandaria as críticas injustificadas e os insultos que haveria de receber às favas e não hesitaria em assumir sem medo o cargo de professor em um clube de porte do nosso futebol ou mesmo dos States, da China, do Japão, onde iria ganhar em um único mês o que ele, como cronista esportivo, levaria dez anos para ganhar, numa área onde há enorme concorrência, podendo sempre aparecer um outro grande e incontestável gênio dos comentários oferecendo-se para ocupar seu lugar na equipe esportiva em troca de uma merreca. Como este conhecimento que pensam que possuem é coisa só da boca para fora, é só teórico e sem maiores fundamentos, estes pavões dos microfones, aboletados em suas cabines ou estúdios de TV cheios de empáfia vivem emitindo críticas sobre os que de fato são verdadeiramente talhados para o ofício, como Papai Joel, um mais que notável colecionador de títulos por diversos dos maiores clubes do Brasil, um vencedor incontestável com seu invejável histórico de conquistas. E - para aumentar ainda mais as já grandes dores de cotovelos - um garoto-propaganda de renomadas marcas, muitíssimo bem remunerado que, com enorme simpatia, faz até mesmo de seu Inglês-algaravia uma esplendorosa fonte extra de renda que brota de todos os lados, frondzé midôu, frondzé léfite, frondzé ráite. O resto é mesmo um grande e indisfarçável recalque geral, pura inveja, o que para mim explica a bronca que essa turma tem de Papai Joel e de qualquer outro consagrado técnico que alcance o sucesso em sua atividade.
(08/05/13)

22 novembro 2019

Eu quero ser locomotiva para atropelar você.

Eu quero ser como a locomotiva para atropelar você. Fazendo tchuc, tchuc, tchuc, tchuc, tchuc, tchuc... tchuíiíí! Eu quero ser como um gato do mato que vive só miando. Fazendo miau... miau... miau... miau... miau. Eu quero ser como um triste vampiro voando pela cidade. Fazendo vum, vum, vum, vum, vum, vum, vum, vum. Eu quero ser como a serpente da água que vive só na mágoa. Fazendo pisss... pisss... pisss...pisss... pisss... pisss. Eu quero ser como um telefone de plástico para ligar só pra você. Fazendo trrrim, trrrim, trrrim, trrrim, trrrim trrrim. Eu quero ser como uma TV colorida pra mostrar todas as cores. Fazendo miummm, miummm, miummm, miummm, miummm. Eu quero ser como um chiclé de bola pra estourar na sua boca. Fazendo ploft, ploft, ploft, ploft, ploft, ploft, ploft. Eu quero ser como um carro de praça levando a multidão. Fazendo fón, fón, fón, fón, fón, rrrr...fón, fón, fón. Eu quero ser como um riso de amor na boca de um anjo. Fazendo hã, hã, hã, hã, hã, hã, hã, hã... Eu, na verdade, na verdade, na verdade, queria mesmo era ser o Jorge Mautner pra pensar e dizer numa única canção tantas coisas tão saudavelmente insanas e tão lindas, ao som do banjo do arcanjo ou do meu violino extra de vários.
(03/03/2019)

20 novembro 2019

Olodum e Timbalada em duas pinturas de Paulo Setúbal..

Quando comecei a pintar, usava sempre a tinta a óleo. Ao longo dos séculos artistas de todo este orbe usaram toneladas desta tinta para pintar seus quadros, expressar o que traziam dentro de suas artísticas almas e, se Minerva lhes sorrisse, alcançar fama, reconhecimento, admiração e respeito do mundo, como sucedeu com caras feito Da Vinci e Picasso.. E, quem sabe ainda, amealhar uma considerável quantidade do dito vil metal. Por isso ou por aquilo, quase todos os artistas plásticos que eu conhecia utilizavam este tipo de material e eu acabei por também adotá-lo. Gostava de pintar com óleo, sim, gostava do prazer táctil contido no pincel deslizando pela tela com suas cerdas carregadas da oleosa tinta. Sentir em minhas narinas o cheiro do óleo me era prazeiroso, mesmo sabendo da toxidade contida neste material que, segundo livros diversos, teria ocasionado grande mal à saúde - e depois a morte - do mais famoso e admirado pintor brasileiro de todos os tempos, Cândido Portinari. Não foi isso que me fez mudar, foi só o fato de eu haver um dia experimentado pintar com a tinta acrílica, uma tinta que se dilui com água, a boa e velha água, dispensando-se o uso de diluentes como terebentina, óleo de linhaça, aguarrás ou até querosene, alternativas utilizadas por diversos colegas pintores. Só este detalhe já me livrava da grande lambança que fazia ao utilizar a tinta a óleo. Depois que experimentei pintar com a tinta acrílica optei por trabalhar sempre com ela. Gosto das tonalidades e do resultado final e uso para pintar quadros que vendo aos que gostam do meu estilo e a colecionadores. Também uso para fazer algumas ilustrações para revistas, livros, jornais. O resultado me traz enorme satisfação.Gosto de variar minha temática e sinto prazer em pintar temas ligados à Bahia, esta terra tão linda, terra onde nasci. Abaixo, dois trabalhos que pintei sobre tela, utilizando a formidável tinta acrílica para mostrar minha paixão por esta afro-city chamada Soterópolis ou Roma Negra ou simplesmente Salvador, capital da Bahia. 
MÚSICOS DO OLODUM, esboço com lápis B, pintura com tinta acrílica sobre tela, tamanho 22 x 20 cm.
JOGADOR, esboço com lápis B, pintura com tinta acrílica sobre tela tamanho 22 x 20 cm.
(271118)

Caetano Veloso, bandas de pífanos e pipocas modernas

Quem é do sul, sudeste e centro-oeste, enfim, quem não é do nordeste, talvez desconheça, mas estes aí acima são músicos que compõem bandas do interior baiano e de várias regiões do nordeste brasileiro, sempre cheio de apaixonantes alternativas culturais. São as bandas de pífanos. Ou pífaros como chamam outros. Há tempos, Caetano Veloso os descobriu e fez com que este Brasil que não conhece o Brasil, passasse a identificar e  admirar tais grupos. Com seu talento, o mano Caetano colocou letra em uma melodia de uma deles, a Banda de Pífanos de Caruaru, em uma canção batizada de "Pipoca moderna". Aí desanoiteceu a manhã e tudo mudou. Em homenagem a algo tão vivo e forte em nossa cultura popular, esbocei nesta tela com lápis 2B, cobri com massa acrílica e depois sapequei a velha e boa tinta acrílica. Pintura pronta, fotografei e usei uma lasquinha de Photoshop para postar aqui. Viva o sempre inspirado e atento e criativo Caê. E vivam as maravilhosas bandas de pífanos que nos brindam com seu som tão limpo, tão puro, tão genuinamente brasileiro.
(130410)

16 novembro 2019

Sérgio Rês, o Moço do Coração de Pastel, e a Velha Jovem Guarda

Todos sabemos que hoje em dia Sérgio Rês é um consagrado cantor mas que é também um criador de gado e um dos mais abastados fazendeiros deste país. No entanto, no começo de sua carreira bovino-musical teve que comer o pastel que o diabo amassou. Ou melhor, teve que se virar vendendo pastel nas feiras livres para ganhar algum tutu. Até que Rês levava uma certa vantagem pois sendo muito alto sobressaía-se na multidão com seu tabuleiro na cabeça e isto auxiliava no sucesso da vendagem. O imaginativo cantante ainda por cima criou um jingle para seu produto que dizia "Se você pensa que meu coração é um pastel, não vá mordendo, pois não é!" Um cliente seu, que era dono de uma gravadora, gostou do que ouviu e contratou Sérgio Reis para seu cast. O resultado foi o que todos já sabemos: o sucesso chegou trazendo muito dinheiro, o cara virou dono de muito gado e político cheio da grana. Gosta muitíssimo da política e de seus rebanhos e tanto gosta que, como político, parece não enxergar muita diferença entre gado e gente. Atualmente Sérgio Reis ainda gosta de saborear um bom pastel. Desde, que fique bem claro, que o recheio esteja à altura de seu atual status, o que significa que o dito recheio tem que ser de lagosta, faisão ou caviar Beluga de ovas advindas das gélidas águas do Volga ou mesmo as do Esturjão Siberiano do Lago Baukar, trazidas do distante Tutuquistão do Norte.
(100512)

Mortinha, o Queijinho de Minas, e a Velha Jovem Guarda


Oriunda da terra do heróico Tiradentes, a cantante Mortinha era carinhosamente epitetada de O queijinho de Minas. Este cognome, a um só tempo singelo e carinhoso, fazia menção às origens mineiras da guapa moçoila e rendeu uma enorme polêmica, tudo porque sabido era que Mortinha, O queijinho de Minas, costumava pisar nos palcos para cantar vestindo generosas minissaias que, se não chegavam a deixar à mostra o triângulo mineiro da moçoila, ao menos revelavam um mui bem torneado, invejável e cobiçável par de coxas, sendo que era trajada dessa capitosa forma que a mocetona se apresentava no programa "É uma brasa, mora!", do qual o Rei da Jovem Guarda, Roberto Calos, era o apresentador nas jovens tarde de domingo. E a alardeada polêmica teria surgido do fato de que RC nunca escondeu de ninguém - e até propagava aos quatro ventos - que adorava degustar com avidez todos os tipos de laticínios e gostosuras imagináveis oriundos de Minas Gerais, regalando-se com tais delícias e ainda lambendo os seus reais beiços cantantes.
(10/05/12)

Wanderley Caridoso, o Bom rapaz, e a Velha Jovem Guarda

Desde que era ainda um bebê, Wanderley Caridoso já demonstrava toda sua formidável bondade, e sempre dividia sua mamadeira com outros pequerruchos, entre um gugu-dadá e outro. Ele era mesmo uma boa alma, um sujeito generoso para com todos, jamais desmerecendo o sobrenome que tinha. Tão bom ele sempre foi que acabou por isso ganhando o apelido de O Bom rapaz. Vai daí, todos os anjinhos do céu se uniram e fizeram com que ele se tornasse um cantor famoso, bem sucedido e cheio de dindim em sua conta bancária. Quando o sucesso na carreira e a grana chegaram ao fim, WC tinha que fazer alguma coisa. E fez, e fez: colocou à venda o único bem material que lhe sobrara, uma pilha daqueles velhos e enormes discos de vinil chamados longplays ou LPs, todos eles com seus antigos hits que ficaram encalhados. Ninguém desconfiava, mas o desespero do Bom rapaz era tanto que ele tinha o abominável propósito de comprar uma pistola automática e com ela dar cabo da sua própria vida. Para dar um toque melodramático de filme de Almodóvar, o infausto gesto se daria sob o som de um dos seus encalhados  e empoeirados discos tocando na velha vitrola: "Parece que eu sabia que hoje era o dia de tudo terminar...". Felizmente para o bom WC, ninguém aguentava mais ouvir aquelas suas cantilenas e ele não conseguiu a notável façanha de vender sequer um único dos seus encalhados e bem empoeirados discos, deixando de amealhar algum tutu com o qual pretendia consumar seu nefasto propósito de comprar a arma fatal, o que o forçou a desistir do seu lamentável intento macabro. Foi então que a sorte voltou a sorrir para Wanderley, que acabou fazendo um enorme sucesso com Doce de Coco. Não, não se trata da açucarada canção, mas sim da açucarada, famosa e sempre apreciada cocadinha da Bahia, uma iguaria da melhor qualidade que Caridoso, valendo-se de uma receita que uma sua namorada baiana lhe passara, começou a produzir e a comercializar, logrando dar a volta por cima, voltando ao topo das paradas de sucesso, já não mais como cantante,mas como um mui bem sucedido empresário do ramo alimentício.
(100512)

A dupla OS VIPS e A Volta do ié-ié-ié / Quem é quem na Velha Jovem Guarda 7

Apesar do nome assaz pomposo desta dupla musical, Os Vips não conheceram mordomia no início de suas carreiras artísticas e tinham - qual Sua Majestade RC - de trabalhar em longa e exaustiva jornada dupla. Depois de passar as noites nos bailes da vida cantando em troca de pão, os dois irmãos enchiam um cesto enorme com os pábulos que recebiam e levavam tudo para uma pequena lanchonete que abriram a duras penas no bairro de Santana, em Sampa. Sempre ralando muito, enfrentavam o cansaço e recheavam no maior capricho os tais pães e vendiam seus deliciosos sanduíches a uma fiel clientela que foi aumentando mais e mais a cada dia. A dupla, assaz afinada tanto nos palcos quanto na economia, não gostava de esbanjar e eles não abriam as mãos nem para acenar para as fãs durante suas apresentações preferindo, os notáveis irmãos lanchonéticos-musicais, guardarem o lucro auferido em uma poupança comum que ia ficando mais e mais polpuda a cada dia enquanto, felizes com a musicalidade do tilintar das moedas, os manos cantantes entoavam "Estou guardando o que há de bom em mim..."
(19/09/13)

14 novembro 2019

Batatinha, Maria Bethânia e o circo proibido para tantos e tantos.

Só um compositor de talento muitíssimo vasto, dotado de imensa, de rara criatividade, poderia falar de desigualdades sociais sem resvalar no panfletário, sem patinar no pieguismo gratuito. Pois o sambista BATATINHA, batucando em sua caixinha de fósforo sempre muito bem afinada, sem se deixar enredar por raivas ou rancores, sem incorrer em qualquer espécie de vitimismo, de uma forma serena, com a simplicidade dos que sabem das coisas, entre as muitas maravilhosas que fez como compositor, compôs esta canção de bela melodia e letra concisa e exata. Canção que, sem perder a poesia, fala de exclusão social, desigualdade, dos que vivem à margem da vida, escanteados, obrigados a apenas assistirem os mais privilegiados, apenas eles, desfrutarem das coisas boas da existência, enquanto a um mundaréu de gente vê-se obrigado a se resignar à mera condição de espectadores, colocados à margem, mantidos do lado de fora do grande circo que é a vida, apenas "escutando a gargalhada" dos que nadam de braçada em mares de privilégios. Essa canção inegavelmente cabe em qualquer lista das grandes canções feitas neste nosso país visceralmente musical, de tantos compositores, músicos e cantores maravilhosos. Por conta dela e do talento de Batatinha, aqui posto esta carica do grande compositor popular que fiz para uma gazeta usando bico de pena, trapo embebido em nanquim e uns respingos de guache branco. De quebra, adiciono um vídeo em que ninguém menos que a cultuadíssima filha de Dona Canô, Maria Bethânia Vianna Telles Veloso, empresta sua voz tamanha à bela, sugestiva e cativante composição do saudoso pai do meu amigo Lucas Batatinha.

O escritor Ademar Gomes e o vasto universo dos puxa-sacos que por aí proliferam

Manual do Puxa-saco é um dos muitos livros do escritor e jornalista Ademar Gomes. Tive a subida honra e o prazer de ilustrar alguns deles a pedido de Ademar que, além de partner em empreitadas literárias que tais, tornou-se meu amigo pessoal, parceiro de altos papos sobre assuntos os mais diversos, notadamente a cultura, a política e os usos e costumes das baianas gentes, coisas que muito enriqueceram e ampliaram a minha visão deste mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo... 
Com Ademar Gomes, a partir de um olhar mais agudo no panorama desta afro-city denominada Soterópolis, sua gente, seu O tempo, o mores!, terminei por ver se estendendo mais e mais meus conceitos sobre fatos e pessoas, principiei a ter uma visão mais abrangente desta urbe e deste orbe, dos tipos que neles habitam, os papéis que aqui desempenham na sanha, por vezes insana, de cotidianamente sobreviver sobrepujando os obstáculos do duro caminhar. Entre os tipos mencionados, está aquele vivente desdenhado por tantos, olhado com desprezo pelas demais pessoas, aquele a quem apodam de puxa-saco. Ademar Gomes, passando ao largo do preconceito que o tipo costuma gerar, lança sobre ele e suas atitudes um olhar penetrante e decodificador, repleto do melhor dos humores e nos faz ver que um puxa-saco muita vez é um cidadão incompreendido, injustiçado, e que pode trazer ocultos grandes méritos em seu proceder puxa-saquísticos.
 
******Para o citado livro de Ademar Gomes fiz, entre outras, estas duas ilustrações em papel Opaline 160 g, usei grafite 2B, caneta de ponta porosa e uma providencial retícula aplicada, a meu pedido, pelo sempre colaborativo pessoal encarregado de fazer os fotolitos. Clicando sobre as ilustrações você as amplia.

11 novembro 2019

O homem no parque / Crônica Mente

        O homem sente a brisa fria do outono tocar seu rosto e vai despertando aos poucos de um sono pesado e longo. Com vagar seus sentidos vão se aguçando. Ouve vozes distantes. Risos adolescentes. Gritinhos femininos. Confabulações de velhos senhores. Não entende direito o que dizem. Esforça-se para enxergar de forma clara, mas suas retinas só captam vultos. Imprecisos. Inúteis. Quem são estas pessoas? Que dizem? Que fazem ali? A cabeça do homem parece girar e é forte a sensação de estar saindo de um estado letárgico, de um sono muito longo e pesado que ele sequer imagina quando começou.
      Aos poucos, felizmente, as coisas vão se tornando mais nítidas. As vozes mais audíveis. Os vultos vão tomando seus contornos humanos. Então ele vê. Está em um parque. Entretanto, embora a paisagem ao redor lhe pareça familiar, tudo o mais lhe é estranho. As pessoas estão trajadas com exóticas indumentárias. Os mais jovens parecem saídos de um mundo de ficção. São diferentes até no andar, no gestual, nas atitudes.
      Algumas crianças passam em grupo e aos gritos espantam os pombos que fogem alçando vôo. Vários pousam um pouco mais distante e recomeçam a comer as migalhas que encontram pelo chão. Uma das aves vem pousar sobre o chapéu do homem. Instintivamente ele tenta espantá-la com sua mão esquerda mas ela não esboça movimento algum. Tenta agora com a direita e, aterrorizado, percebe que  ela tampouco atende ao seu comando. Sente-se como se estivesse num estado de cruel apoplexia. Um grito às suas costas desvia seu pensamento. Uma voz desesperada grita por ajuda e brada: “Pega ladrão!”
      O homem tenta virar-se o mais rápido que pode mas não consegue. Dá-se conta que traz à cintura uma espada. Procura levar sua mão até ela na clara intenção de empunhá-la em socorro da vítima mas, se inteira, horrorizado, de que seus braços seguem desesperadamente estáticos. E seus antebraços, ombros, pescoço, pernas. Nada obedece ao seu comando. Nem mesmo o puro-sangue, que só agora percebe estar montando, tão imóvel quanto ele próprio. O homem vê aumentar seu desespero. Quer gritar seu grito mais forte. Mas de sua garganta não escapa sequer o mais débil gemido. Tal é seu horror, seu mudo desespero, que de seus olhos brotam duas lágrimas. Nelas, diluída, sua dor. Seu olhar marejado não consegue distinguir bem os dois vultos a uns poucos passos de si. Mas seus ouvidos lhe dizem que se trata de uma mulher adulta e uma menina de cinco ou seis anos. Aproximam-se enquanto conversam.
      _Mãinha, quem é este homem montado neste cavalo enorme?
     _É o velho Barão de Itapuã, filhinha. Um homem muito valente, que defendia o povo na luta contra nossos inimigos. Um verdadeiro herói, um patriota, tesouro da mamãe! Infelizmente hoje em dia existe pouca gente assim.
_Veja, mãinha! O homem está...está chorando!!
_Chorando?! Aonde já se viu, menina? Deve ser um resto de orvalho, querida. Você não sabe, minha doce criança? Estátuas não choram. 
( 06/02/2013)

06 novembro 2019

O dia em que o cartunista Valtério Sales saiu do armário e botou pra quebrar.

 Como é de habitude, os dias de estio da Bahia soem ser iluminados, plenos de risos, festas, confraternizações amistosas sob o sol à beira da praia, papos profundos regados à cerveja e roskas de frutas as mais diversas. Antes, bem antes que as águas de malço deem as caras fechando o verão, há uma enorme promessa de vida no meu coração e nos corações das gentes que por aqui habitam. Ou que por aqui aportam, como é o caso deste retumbante e maravilhoso trio de ilustres paraenses, estimados amigos meus que decidiram passar uns dias sob o convidativo sol desta afrocity chamada Soterópolis, que vem a ser a afrocapital da Bahia, e que em dias recentes nos visitaram nestas plagas. Refiro-me a Biratan Porto e J. Bosco, consagrados cartunistas e caricaturistas brilhantes, e a Luiz Fernando Carvalho, estudioso apaixonado do universo cartunístico, sendo ainda uma batelada de coisas mais. Pois estes intimoratos conterrâneos da Fafá de Belém, da Gaby Amaranto e do Pinduca planejaram com antecedência sua viagem e estadia, hospedando-se em um confortável flat em Itapuã. Também de forma antecipada ligaram cientificando a mim e ao cartunista e escultor Valtério Sales, por sermos seus amigos de longa data. No dia e hora da chegada, Valtério – estreando uma nova bengala toda feita em madeira de lei - foi buscá-los, transportando-os para o flat. Não demorou muito e cheguei eu. Reencontrar amigos do peito como Bira, Bosco e Luiz Fernando é sempre uma renovada alegria. E quando Bira anunciou que nos traziam uma mala cheia de regalos, dentre eles, para o Valtério, uma caixa da famosa bebida paraense que chamam de cachaça de jambu, uma cachaça que cachaça não é, segundo os dicionários, reservando eles esta denominação às bebidas feitas com cana de açúcar. Ocorre que, cachaça ou não cachaça, esta bebida é famosa por ter características exclusivas dela, tais como um barato que dá, seguido de uma dormência nos lábios, língua e céu da boca. Valtério, que já a experimentara em outras oportunidades, arregalou os olhos e chegou a flutuar, tal era sua felicidade. 
Muito embora este meu papo trate sobre gentes e acontecimentos da Bahia e do Pará, vou encaixar aqui um tremendo gauchão, o analista de Bagé, personagem criado por outro Luís Fernando, o escritor filho de Érico Veríssimo. Entre um joelhaço e outro em seus pacientes, o analista afirma, sem admitir réplica, que não existe gaúcho homossexual, o que existe nos pampas são correntes migratórias. Falo isso porque na Bahia não existem larápios, gatunos, ladravazes e rapaces. Mas volta e meia surgem por aqui umas correntes migratórias de maus elementos, oriundos de sei lá quais rincões, para nos turvar os dias mais solares. Pois uma dupla destas entendeu de dar plantão justamente no flat em que estávamos, assaltando eles todos os apartamentos e seus ocupantes. Precisamente ali, onde nos encontrávamos papeando na maior descontração, bebendo umas geladíssimas. J.Bosco, sedento, fora na cozinha pegar mais umas cervejotas na geladeira e viu os dois amigos do alheio armados com duas automáticas. Por sorte os meliantes não o viram, e ele conseguiu nos dar o alarme. Além de cartunistas, somos todos machos que honram as calças e as samba-canções que vestimos e fizemos o que era imperativo fazer. Já que este negócio de valentia tem hora e o bom senso nos alerta que em momentos de desvantagem como o que se anunciou, o ato mais corajoso, racional e sensato a ser feito é tratar de se esconder o melhor e o mais rápido possível. Assim, Luiz Fernando pulou, qual um acróbata, dentro de um grande baú que servia de decoração. Eu, Bosco e Bira, nos enfiamos céleres debaixo da cama e Valtério, na falta de um esconderijo melhor, entocou-se no armário. Não demorou e a dupla entrou no quarto e começou a mexer na bagagem dos nossos amigos. E nós - ai de nós! - todos silentes e sem mexer um músculo, nem respirar. Os sujeitos exultavam, colocando em um saco tudo de valor que encontravam, celulares, relógios, laptops, CDs do Pablo dos quais JBosco jamais se separa. De repente, um dos larápios comemorou em voz alta um achado precioso: “Mermão, olha só este tesouro: cachaça de jambu, vinda de Belém do Pará, meu rei!!” 
Dentro do armário, um anjo soprou no ouvido de Valtério uma verdade drástica: se ele não tomasse uma atitude iria ficar sem sua caixa de preciosíssimas cachaças de jambu, que iriam adormecer os beiços do maléfico duo de aves de rapina. Incontinenti, sem pensar nas consequências de seus atos, sem ligar para as armas mortais dos marginais, qual um tigre Valtério saiu do armário de um só salto e brandindo sua bengala de madeira de lei, deu certeiras e potentíssimas porretadas nas cucas das ladravazes criaturas, que caíram no chão, estatelados, sem sequer saberem o que os acertou, sem terem noção da chapa da jamanta que passou por cima deles. Com os bandidos totalmente fora de combate, minha coragem aumentou em muito, bem como a do resto da trupe e deixamos nossos esconderijos sem maiores constrangimentos. Na sequência, chegou a justa numa muito escura viatura. Assombrados com o estado em que ficaram os bandidos, os homi os levaram, ainda nocauteados, para a DP. A nenhum de nós Valtério soube explicar direito o que aconteceu. Porém dúvidas não restam: ele agiu movido por um impulso incontrolável ao perceber que ficaria sem seu néctar dos deuses, o jambu engarrafado que tão gentis amigos trouxeram do Pará. Os dias vão passando, passando, e nada da gente esquecer da cena daquele inacreditável massacre que sofreram os indigitados marginais. Na minha memória, na de Bira, Bosco e Luiz Fernando, testemunhas daqueles momentos, o acontecido ficou perenemente registrado, gravado de forma indelével como o dia em que, mostrando uma faceta que ate então desconhecíamos em tão estimado amigo, Valtério Sales saiu do armário para entrar para a História.
(12/02/19)

03 novembro 2019

Cartunistas que optam pelo fascismo, o escritor João Ubaldo Ribeiro, o golpe de 2016 e a verdade apunhalada..


Tenho alguns amigos em alta conta, estimo-os, a eles dedico sincero e desmedido afeto. Que imenso iceberg de tristeza toca minh'alma quando qualquer um deles me revela suas concepções políticas com argumentos oriundos de noticiários de revistas como a falaciosa Veja, aquela dos tempos dos Civittas, ou da Rede Globo - de propriedade 
da mafiosíssima famiglia Marinho - dois dos maiores mananciais de fakenews deste patropi, e de deplorável manipulação dos fatos, sempre ocultando, sonegando ou distorcendo informações por interesses escusos. O mesmo ocorre quando esses meus amigos me fazem indagações sobre o tema, partindo de coisas plantadas em suas cabeças que creem iluminadas. Munidos de tal crença, despejam cachoeiras de sofismas ao usarem como argumento as falaciosas acusações veiculadas pelos ditos "órgãos de imprensa", assim com aspas mesmo, por serem valhacoutos de gentes que, a troco de um polpudo numerário, lançam mão das mais desonestas falácias, dos mais aberrantes textos putativos e apócrifos para convencer os incautos de que o que dizem e pregam é a expressão da verdade. Desta forma, os citados amigos, nivelam-se àqueles que não podendo frequentar escolas, cresceram profundamente alienados. Disse que sigo gostando desses amigos e gosto muito por qualidades que possuem, mas diante dessas derrapadas diminuíram em muito no conceito que deles eu tinha anteriormente, constrange-me vê-los acomodados - e em péssima companhia - numa canoa furada. Para se aboletar em tão perfurada embarcação, só mesmo quem não é dotado de poder de discernimento, ou quem desconhece a História e as tenebrosas malfeitorias dos mafiosos Marinhos et caterva, com seus envolvimentos, digamos, suspeitosos com a abjeta ditadura militar brasileira de triste memória para quem não engrossa o cordão do autoritarismo. Lamentável é dizer que por aqui não faltam multidões de estultos e de escrotos que glorifiquem essa infame ditadura e que bradem pelo retorno de tão infaustos dias. Fui me tornando um cartunista por admirar o talento, a consciência, a lucidez e a coragem dos meus ídolos do cartum, gigantes como Millôr, Ziraldo, Henfil, Jaguar, Angeli, Laerte. Cartunistas sempre se caracterizaram por mostrarem em seus cartuns grande consciência social e política, desnudando o rei ante seus súditos, por livrar a cara dos desvalidos, dos injustiçados, dos que foram colocados à margem da sociedade. Mas atualmente é espantoso constatar que muitos e muitos que se entitulam cartunistas, de uma forma lamentável pautam seus cartuns, charges diárias e caricaturas pelo conteúdo veiculado pelas mídias mais falaciosas, contribuindo para induzir a um equivocado entendimento dos fatos a nossa população, por mais absurdo que isto possa soar. Dia desses meu amigo Santiago, genial cartunista gaúcho, publicou texto em sua rede social mostrando uma charge torpe de um velho desenhista que publicava na extinta revista Mad, em sua versão brasileira. Fiquei estarrecido ao constatar que o cara concebe e veicula ideias absurdamente fascistas 
 através de seus desenhos que, diga-se, são bons desenhos,  ainda que visivelmente calcados nos de Mort Drucker. As charges que vi deste cara são um poço de ódios, de visão deturpada dos atos e fatos e de preconceitos abjetos, coisa aberrante. Pior é saber que ele não está só, que outros usam o humor para caminhar de braços dados com o obscurantismo como vergonhosamente o fizeram, durante a construção do golpe de 2016, uns caricaturistas da supracitada Veja. 
Voltando às fontes, elas têm fundamental importância na formação dos nossos pensamentos, escolhas, postura política e social. Daí a importância de saber se a fonte em que você bebe é salutar, confiável, ou se é venenosa. Pensar o Brasil, buscar entendê-lo em suas minúncias, seus mistérios, mazelas, tesouros ocultos, males entranhados desde antanho, acertos e descaminhos, não é tarefa fácil como querem muitos precipitados em seus julgamentos levianos e superficiais alimentados pelas falácias ditas em TVs e revistas pertencentes a grupos mancomunados com os sórdidos que nos empurram goela abaixo suas torpezas. É necessário que usemos de cautela e que busquemos ler e ouvir o que dizem as pessoas idôneas com uma história de vida comprovadamente confiável. Gente cônscia, de grande inteligência, que conhece a nacão em seus mais intrincados pormenores, gente de ilibado proceder, que nos fale com clareza as palavras que possam nos conscientizar e nos livrar das mentiras convenientes aos arrivistas e venais, que beneficiem a todos com a verdade dos fatos. Como as encontráveis nos textos do respeitabilíssimo escritor e cartunista Luís Fernando Veríssimo, por exemplo. Ou como as do consagrado escritor João Ubaldo Ribeiro que estão neste texto direto em que ele discorre sobre as chamadas ''reformas de base'', esclarecedor, lúcido, acima dos conceitos ideológicos de esquerda e direita, em uma crônica intitulada "Se reformarem, é para pior", que é encontrável na internet, da qual repassarei, em futura postagem, trechos do que pensou e escreveu JUR a respeito do assunto. Mas já adianto aqui e agora o link para que vocês possam ler na íntegra o que o notável autor de "Viva o povo brasileiro" escreveu - para meu espanto e vergonhoso ceticismo - prenunciando golpe que se deu no ano de 2016, mas que poderia ter rolado antes ou mesmo depois, de acordo com a vontade e os interesses dos que se arvoram a serem donos do Brasil-sil-sil. Não porque fosse JUR uma pitonisa, apenas porque era um homem culto e muito bem informado que conhecia profundamente o Brasil, seu povo, suas eltes, sua História. 
Clique no link:
 http://academia.org.br/artigos/se-reformarem-e-para-piorar
( 03/04/15)

01 novembro 2019

Béu Machado: frases afiadas do poeta da Bahia


Com imenso talento nato para criar fantásticas poesias, letras de músicas e frases definitivas, Béu tinha tudo para ser hoje, no universo das Artes, um nome consagrado, conhecido, admirado e citado, do Oiapoque à PQP. Mas só algum tempo depois de sua lamentavelmente prematura morte é que foi lançado um livro com uma seleção de parte do seu trabalho. Uma edição que só foi possível graças ao amor e a admiração que ele semeou em vida. Um grupo de amigos mais próximos - entre os quais o também poeta e compositor José Carlos Capinan, jornalistas e artistas gráficos - editou com o merecido carinho o divertidíssimo "Pensamentando", produzido pelo citado grupo com toneladas de carinho, amizade, fraternidade, charme. O livro traz em suas páginas uma seleção das mais formidáveis  e hilariantes frases, para o leitor se deliciar a valer com as peraltices verbais de Béu, tão querido poeta, letrista, jornalista, colunista e frasista. A mim, tocou-me a honrosa incumbência de fazer as ilustrações. Vão aqui algumas frases para você ver do que a cuca de Béu Machado era capaz. Algumas delas podem ser encontradas em outros espaços aqui neste bloguito ilustradas com os desenhos que fiz para cada uma, especialmente para o livro. Dentre as frases béumachadianas selecionadas para a edição, garimpei essas aí, uma melhor do que a outra:
*Inteiramente a favor das conquistas femininas. Principalmente se eu for uma delas.
*Improvável como João Gilberto no encontro de trios.

*Para alguns ladrões, nenhuma clemência. Outros são chamados até de Vossa Excelência.
*Controle-se quando for ofendido, senão você pode errar a pontaria.
*Saúde de ferro, disse o médico desenganando o hipocondríaco.
*Na Rússia a coisa mais comum é Sergei.
*Oh, ser humano! Entender-te, quem? O travesti é frustrado porque tem.
*Não me deixei paralisar pelo medo. Fui a mil para debaixo da cama.
*Outra coisa: ralé, rapé. Gente fina, cocaína.
*Para que autodomínio se eu sou casado com minha mulher?
*O álcool eu controlo. Verifico sempre se o garçom está servindo as doses conforme exigi.
(19/11/13)

Paulo Caruso, tenor da caricatura/ Pintando o Set


É só Paulo Caruso chegar para a monotonia e a tristeza saírem de fininho. É imensa fortuna ser seu amigo, posto que Paulo é uma festa. Sua catadura de paulistano taciturno oculta um ser humano amabilíssimo de riso aberto e franco e um fino causeur que sabe falar e ouvir na hora certa. Se as coisas estão paradas, toca um instrumento e solta a voz alegrando o ambiente. Eis que um dia perdido no tempo, num bar no Recife dos rios cortados de pontes, dos bairros, das fontes coloniais, enquanto traçávamos uns conhaques,  Paulo traçou também esta carica minha. Eram os anos 80s e o cartum e a caricatura ainda não haviam me dado fama e fortuna. Em verdade não deram até hoje. Mas Manoel de Barros e Cora Coralina, gente da mais elevada estirpe, também tiveram dissabores que tais antes do devido reconhecimento. Olhando esta caricatura, notam os mais argutos que meu charme másculo e minha beleza apolínea só fizeram aumentar em muito com o tempo que passou. Pelo menos uns 20 quilos.
( 27/04/12)

31 outubro 2019

Sting, popstar inglês, e seu pai Raoni, que luta para salvar nossas florestas.

  Índios são sempre uma temática muito legal para se ilustrar. Pela beleza plástica que suas figuras encerram, por tudo de genuíno, de autêntico e de benéfica integração com a natureza que representam os povos indígenas desta descomunal Pindorama, os autóctones merecem todo nosso respeito e carinho. Eles se fazem merecedores de nossa estima e constante atenção, principalmente neste momento tão grave que nosso Brasil vem atravessando, dias absolutamente preocupantes em que o governo do país se encontra nas mãos de homens que conduzem de forma desastrosa as questões nacionais. Em tais questões estão incluídas nossas nações indígenas, tratadas de forma assumidamente destruidora.   Usei lápis, nanquim e tinta ecoline para retratar esta mãe índia a partir de uma bela foto que vi em uma revista onde, infelizmente, não consta o devido crédito ao fotógrafo. 
Em tempos mais recentes não há como falar da cultura índígena sem falar no célebre astro Sting que sempre demonstrou ter forte ligação com os autóctones brasileiros, em especial o cacique Raoni, a quem o roqueiro já afirmou considerar um pai. E como felizmente este patropi não é feito só de arbitrariedades e tragedias ambientais, uma velha piadinha foi adaptada para falar sobre o dia em que Sting visitou a tribo de Raoni pela primeira vez no anos oitentas. Mal chegara, o popstar retirou de uma canastra alguns colares e os ofertou ao cacique como prova de consideração e respeito. Ao ex-The Police, o chefe nativo agradeceu respeitosamente, mas lhe disse: "Índio não quer colar. Índio quer que você crie entidade para auxiliar tribos do Xingu na luta por nossa preservaçào e para nos ajudar contra a especulação imobiliária e a voracidade dos homens brancos que invadem nossas terras, derrubam e queimam florestas e exterminam os povos silvícolas". Sting, consciente que só ele, guardou seus balangandãs de volta na canastra, foi para Nova York e lá criou a Rainforest Foundation, mostrando ser um filho do qual Raoni pode se orgulhar eternamente.
(13/10/12)

Fala sério, Seu Palhaço / Cartum de Graça


Penosa é a vida / Frases do Barão de Itararé 2

Quando o pobre como frango, um dos dois está doente.
(Já dizia Aparício Torelly, o Barão de Itararé. Esta fez tanto sucesso, foi tão repetida de boca em boca, que acabou virando um ditado popular.)
(20/10/16)

30 outubro 2019

Mulher de Escorpião no Horóscopo de Vinicius de Moraes

Mulher de Escorpião
Comigo não! 
É a Abelha Mestra 
É a Viúva Negra 
Só sai de vedete
Nunca de extra
Cria o chamado conflito de personalidades
É mãe tirana
Mulher tirana
Irmã tirana
Filha tirana
Neta tirana.
Agora de cama diz que é boa paca.
(o3/03/14)

Camelôs da fé e suas igrejas que lhes dão fortunas e poder

Usando o nome de Deus como irresistível publicidade e o de Jesus Cristo como infalível garoto-propaganda, valendo-se de suas inegáveis capacidades de comunicação de massa e de persuasão, de seus poderes de oratória, vendem a fé como camelôs vendem produtos suspeitos numa esquina. Usando o forte poder da mídia televisiva e radiofônica, determinados sacripantas, ditos líderes espirituais, terrivelmente canalhas e anti-cristãos, cheios de uma enorme lábia e de um arsenal de más intenções, valendo-se de discursos inflamados, cheio de conceitos anacrônicos, equivocados, distorcidos, carregados de preconceitos que mal dissimulam um inconsequente e perigoso ódio aos que não caem nas insidiosas armadilhas que suas línguas bifurcadas armam para os incautos, conseguem encher as burras com fábulas de dinheiro que vêm, em sua maior parte, das classes mais pobres, carentes em todos os sentidos, da classe média e até de atletas, dos remediados aos milionários. Todos entregam de mão beijada a grana que dá a boa parte desses tais "líderes espirituais" o privilégio de morar em suntuosos palácios que em nada lembram os lares da maioria dos seus seguidores e bem diferente do que pregava o santo rabi. Eis o crime perfeito. Tão perfeito que nem considerado crime o é. E ai de quem tentar dizer o contrário aos fanatizados cordeiros que lhes entregam o que têm e o que não têm. Hoje, como bem se vê na internet, os próprios canastrões midiáticos oferecem farto material que evidenciam suas mutretas espantosas. Usando em tudo e por tudo o nome de Deus, sem cerimônias nem medo de punição. Há os que induzem os incautos a darem dinheiro que porventura ainda tenham, até mesmo estando desempregados. Outros choram copiosas lágrimas de crocodilo como que implorando doações aos ingênuos que se comovem. E por aí vai. É tudo explicitamente explícito pois eles se sentem intocáveis, inatingíveis. Há os que, sorrindo cinicamente, desafiam a quem queira desmascará-los e fazem ameaças acintosas dizendo ter um exército de advogados a sua disposição para processar os que se atreverem. Muitos deles estão ligados com o mais execrável lixo político e forte é a suspeita de que lavem dinheiro vindo de falcatruas dessas máfias políticas. Associados com o que há de pior na política,  tramam impor uma teocracia em que possam manipular toda a população, impor-nos seus torpes fundamentalismos.  E quando algum desses ditos líderes é apanhado em alguma de suas armações, há aqueles que dizem que o fiel não deve cumprir o seu papel de cidadão decente denunciando o inegável crime e o ladrão, que deve apenas mudar de igreja e não denunciar nada, tornando-se cúmplice do salafrário. Vivemos um mundo de disputas brutais em que os métodos utilizados por muitos são abomináveis. Pessoas buscam nas igrejas a esperança, a fé, razão para viver. Conheço líderes espirituais autênticos, seríssimos, gente que honra e dignifica o que fazem. Sou amigo pessoal de um pastor evangélico, pessoa consciente, que ajuda enormemente sua comunidade. Muitas pessoas, os chamados fiéis,  veem nas igrejas uma uma boia de salvação e se agarram fortemente a ela. É aí que entram em cena os aproveitadores usando o santificado nome de Deus para conseguir o que querem para si. Os muito crédulos, carentes e desinformados acreditam e depositam nesse bando, nessa súcia todas as suas esperanças e, é claro, seu escasso dinheirinho ganho tão duramente. Agarram-se a eles e a seus ditames buscando experimentar a sensação de que não estão sós nesses tempos de grandes e nefastos individualismos, torpeza e sordidez sem limites. Entre eles, iludidos,  os ditos fiéis sentem-se protegidos de todos as tormentas da vida. Querendo evitar o mal, seguem justamente para ele, sem desconfiar que estão voluntariamente se imolando no altar onde, disfarçado de bem, está o mal que dizem intentar evitar. Mas lembremos que muitos não embarcam nessa canoa enganados, iludidos. Por detrás dessas aparentemente puras intenções há também motivos não tão puros assim. Acumular riquezas sem repartir, ostentar, comprar carros, casas, enriquecer às custas dos semelhantes, por exemplo, é meta de muitos dos tais fiéis, para os quais o céu pode esperar, importando bem mais os bens materiais que possam vir a acumular graças ao que eles alegam ser a vontade divina. Que Deus ilumine e dê proteção a essa infausta gente crédula. E que nos livre a todos nós desses camelôs da fé. 
(071215)

Sogra do Rei das Selvas / / Humor de graça


26 outubro 2019

Furio Lonza, o golpe e um povo impopular.

Graças a um golpe ignominioso contra uma mandatária eleita legitimamente pelo povo brasileiro através das urnas, adonou-se do poder em nosso país um magote de seres caquéticos, desalmados, retrógrados, sem escrúpulos, um intragável bando de escrotos que portam, assumidamente ou não, os mais abjetos preconceitos raciais, étnicos, sociais e sexuais, valha-nos Deus, acuda-nos Jeová, socorra-nos Buda, Maomé, Tupã e São Longuinho, com seus três pulinhos. Triste, tudo isso é triste. Mas a maior tristeza está no fato de constatarmos que essa malta maligna só conseguiu concretizar suas abomináveis pretensões antidemocráticas, graças à apatia e - muito pior ainda -  até mesmo ao impensável apoio de uma grande parte do povo brasileiro. E que povinho é esse que, em grande parte, se posta explicitamente ao lado de tais algozes e avaliza toda sorte de desmandos, truculências contra a população de baixo poder aquisitivo, projetos de lei que conspurcam a Constituição, caçambas de atitudes indignas, incluindo-se nisso bisonhas farsas jurídicas que livram a cara de bandidos contumazes e enviam para as galés pessoas inocentes? Lembremos que essa maneira de ser não começou com esse golpe. Vem de longe. E de longe vem o questionamento, a vontade de encontrar uma resposta racional a tais irracionalidades. Reproduzo aqui trechos de um texto do final dos anos oitentas, de autoria do grande Furio Lonza, em que o escritor ítalo-brasileiro tece considerações sobre essa parcela do vulgo. Com a palavra, il signore Furio Lonza: 
"Falta povo neste país. Até um tempo atrás, a opinião corrente era de que "todo povo tem o governo que merece". Mentira! Qualquer governo, por mais safado que seja, ainda é muito para esse povo sem brios, sem vergonha na cara, esse povo burro e ridiculamente humilde, vaquinha de presépio que engole tudo até o talo, até a última gota, todos os sapos, todos os calangos, esse povo cativo, covarde, sempre com o rabo entre as pernas, esse povo que marchou com Deus, pela família, esse povo que deu seu ouro para o bem do Brasil, esse povo que vive coçando a virilha, que bebe cerveja sem colarinho, lê horóscopo e coluna social, esse povo que encoxa mulher no ônibus, que cheira cola, que puxa o saco do gerente, alcaguete de polícia, esse povo que, em dia de greve de ônibus, pega táxi para ir para o escritório, que pega avião para assistir Chitãozinho e Xororó em Las Vegas, esse povo besta que deixa a Xuxa fazer a cabeça de seus filhos, esse povo cujo ancestral índio acolheu o português de braços abertos em 1500, que rezou a primeira missa bem comportado junto aos jesuítas, esse povo que recebeu a Independência do Imperador da colônia, esse povo que proclamou a República e botou um militar no lugar do rei, esse povo que paga uma fortuna por uma TV a cabo e só assiste bosta, esse povo que come merda, respira merda, só pensa merda, esse povo que faz na entrada, na saída, no meio e ainda deixa um pouco atrás da porta pra ser encontrado no dia seguinte, um povinho que acredita no Jornal Nacional."

Mais atual, impossível. Mas se o grande Furio Lonza tivesse escrito em recentes dias este seu texto, sabemos bem que teria um material ainda mais farto que haveria de incluir aqueles grupos de seres sem-noção fazendo ridículas coreografias pró-golpe, com direito a uma estarrecedora ala geriátrica com seus matusaléns fascistas e todos os parvos teleguiados pela Rede Globo e por toda a grande mídia, vestidos com camisas da CBF, marchando nas ruas ao lado dos mais asquerosos corruptos, repetindo seus mais demagógicos bordões, clamando pelo fim de um governo de cunho popular eleito legitimamente, reivindicando a volta dos militares ao poder, a tortura, a repressão e toda sorte de suplícios e malefícios que causariam inveja aos mais fustigados masoquistas da História. Figuraria, enfim, toda a inconcebível participação desse povinho parvo em apoio a um golpe que extermina direitos populares tão arduamente conquistados, que entrega as riquezas naturais da nação  à sanha dos mais gananciosos capitalistas apátridas, que  aniquila sonhos e esperanças, que destrói o país em que ele próprio nasceu e onde vive, inviabilizando o presente e o futuro para si mesmo, seu filhos, famílias e netos. Ai do Brasil. Ai de seu povo. Ai de nós, São Longuinho!
(020718)