23 setembro 2018

Furor uterino / Setubardo fescenino

Acordo tarde, bem tarde,
Com uma ressaca ingrata
Depois de uma noite daquelas.
O ar puro é um descalabro
Quando abro as janelas.
Meu espelho indeciso
Nem sabe o que me revela
Esta cara, este siso...
Serei eu ou será ela?
Vomito as tripas no vaso
Gemendo, sentindo dor
O que nós temos, um caso?
É paixão, engano, amor?
Ela mal fala comigo
É volúpia, sofreguidão
Me toma qual objeto
Seu escravo predileto
Em pé, na cama, no chão.
Esta musa obtusa
Esta górgone Medusa
Traz letal ninfomania
Nos trejeitos de vadia.
Tem modos de meretriz
Tem cara de perdição
Pra cada transa, um bis
O seu sexo, vulcão
Mas - ai de mim! - sou feliz
Quando me diz:
Vem, tesão!!
(01/05/11)

Amor chocante / Setubardo fescenino

Você é uma figura tão chocante
Que na hora do amasso
Uso luvas de borracha
( Sua voltagem não é nada baixa.)
Você é uma mina tão brilhante
Que só olho pra você
Usando meus óculos Ray-Ban
(Minha luz, eu sou seu fã.)
Você é uma gata tão fogosa
Que pra namorar você
Uso roupa de amianto
(É fogo este seu encanto.)
Você é uma coisinha tão massa
Que se como muito você
Minha nutricionista se queixa
(Ai!, que prazer me dá comer seu sushi, minha gueixa.)
(01/05/11)

O orgasmo que até Deus aplaudiu / Setubardo fescenino

Ah, que orgasmo divino!
Que coisa mais delirante!
Fui à lua neste instante
Peço perdão pela ausência
Volto ao leito com urgência
Pra te amar com loucura
E pra deixar na fissura
Todos os casais do mundo
Ah, que orgasmo invocado!
Que coisa mais excitante!
Fui à Marte, doce amante
Fui à Vênus, lá no Monte
Sorvendo naquela fonte
O néctar do seu prazer
Volto aos seus braços em febre
Pra que seu corpo celebre
Um rito de ensandecer
Ah, que orgasmo irado!
Que coisa estonteante!
Foi radical, foi chocante
Centenas de maremotos
Milhares de terremotos
Um cataclismo dos bons
Equivalente ao tesão
De mil homens e mil mulheres
Mais de um milhão de amperes
Clareando esta Nação
Ah, que orgasmo retado!
Que coisa mais retumbante!
De repente, num rompante
Soaram suas trombetas
Pletoras de querubins
Rufaram suas baquetas
Um bilhão de serafins
Pois deste orgasmo bendito
Foi tal a repercussão
Que Deus, o onipotente,
Veio do céu pessoalmente
Apertar a minha mão:
"Que orgasmo, hein, meu irmão?!!"
(01/06/2011)

O homem perfeito que todas as mulheres esperavam ansiosamente / Setubardo

Um dia competentes cientistas
Resolveram criar o homem perfeito
Forte, bonito, bom de leito,
Charmoso, grande papo, inteligente,
Físico de deus grego, espirituoso, valente
Então, em um liquidificador gigante
Juntaram uma galera importante:
Adonis, Hércules, Apolo,
Julio Cesar, Colombo, Cabral, Marco Polo,
Bolívar, Che Guevara, Fidel, Napoleão.
Apertaram da máquina um botão
Deixaram misturar com paciência
Acrescentando na sequência
Gene Kelly e Groucho, lá de Hollywood,
Tarantino, Fred Astaire e o bom Woody,
Poetas de muitos bons ofícios:
Maiakovski, Baudelaire e Vinícius,
Shakespeare, Neruda, Borges, Bandeira,
Leminski que estremece a palmeira,
Augusto dos Anjos, Lorca, Drummond
Quintana, tudo de bom,
Lennon, Paul, George e Ringo Starr
E o Jagger, que deixa sangrar,
Todo o Monty Phyton, Tati, Chaplin e Mr. Bean,
Jackson do Pandeiro, Genival e Tom Jobim
Baleiro, Caetano, Gil, João Gilberto,
Raul Seixas, Arnaldo, Erasmo e Roberto
E para complementar
Tal mistura estelar,
Almodóvar, Banderas, Elvis Presley, Brad Pitt
Mistura chocante, pura dinamite.
Concretizado esse homem perfeito
Anunciaram os cientistas seu insuperável feito
E o resultado que deu
Ora, meninas, foi... eu!!
(01/01/2012) 

O maior dos poetas menores / Setubardo, frente e verso.

Quando, na antiga Grécia,
Peripatéticos mestres
Iniciavam seus pupilos na poesia,
Não podiam sequer desconfiar
Que num futuro solar,
Um belo dia,
Em Candeias, cidade da Bahia,
O Poeta dos Poetas surgiria.
Quando os parnasianos versejavam
Faziam versos exatos, passo a passo,
Utilizando esquadro e compasso,
Medindo com régua suas rimas
Sem saber o que no Olimpo, lá em cima,
Minerva, deusa da Sabedoria,
Ligada na internet já sabia
Que em Candeias, Bahia,
O poeta Setubardo adviria.
Já fui chegando de olho bem aberto
E um esculápio tirado a esperto
Me deu uma palmada, pura covardia,
Só para ver se eu choraria.
Vê-se que tal pulha não me conhecia,
Isto é certo
Pois pra espanto de quem estava perto,
Ao invés de chorar, declamei uma poesia.
A primeira mamadeira a gente nunca esquece
E quando ela veio
Com indesejável recheio,
Bradei à minha genitora frase ferina:
"Qualé, Dona Celina?! 
Eu só quero papa fina:
Na minha mamadeira, 
Quero Drummond, Pessoa e Bandeira,
Dispensa essa vitamina de banana,
Me traga Baudelaire e Quintana."
Assim foi que eu cresci,
Muitos versos digeri.
Mastiguei e degluti
Do desjejum ao jantar
E na merenda escolar.
O meu almoço, seu moço,
Era todo dia
A mais concreta poesia.
Em Candeias, me iluminei
Em Santo Amaro da Purificação, me purifiquei
Em Salvador, me salvei.
Hoje eu sou Setubovski,
Sou Quintanúbal,
Sou Setusto dos Anjos.
Minha lira eu tanjo
E nessa vida maluca
Refresco minha cuca
Fazendo versos na raça
Que recito na praça
De qualquer cidade.
Contra a mediocridade 
Dessa gente 
Nada sapiente 
De mente vazia,
Poesia, poesia, poesia e poesia!
(01/01/08)

22 setembro 2018

Deus e o dom do caricaturista



Parte do meu ofício consiste em fazer caricaturas ao vivo de simpáticas gentes as quais nunca vi mais obesas ou mais esquálidas. As pessoas geralmente adoram participar de eventos que contem com caricaturistas. E ao me verem empunhar o lápis e da virginal brancura do papel fazer surgir a figura de alguém que posa, deixam escapar aquilo que certamente todos os caricaturistas ouvem também: "É um dom!" Como se um querubim a serviço do Criador - ou Ele próprio - tivesse tocado a testa de cada um de nós e nos legado o tal "dom" que nos diferencia dos demais mortais. Longe estão de imaginar que faço - e certamente a maior parte dos caricaturistas o faz - um extenuante e repetitivo esforço para tentar estabelecer uma relativa intimidade com a arte de bem desenhar. Cotidianamente gasto resmas de papel rabiscando, esboçando, bosquejando, debuxando, hachurando, traçando, fazendo, refazendo, corrigindo. Chega a ser algo obsedante. Comecei a fazer caricaturas ao vivo nos anos 80, empurrado por Gonzalo Cárcamo, um chileno com cara de abastado sheik árabe que morou nesta afroterra. Com ele aprendi também o método profícuo e agradável de unir intenso treinamento artístico com o lazer. Munidos de prancheta e papel lá íamos nós para as praias, locais onde encontrávamos à disposição um batalhão de modelos, muitos inertes deixando-se tostar pelo sol. Banhistas, vendedores, adultos, crianças, anciões, núbios, sinos, arianos...uma festa. Aí, discretamente, enquanto se bebia umas cervejinhas e se comia uns caranguejos e lambretas, íamos produzindo estudos e mais estudos da figura humana ao vivo. Até hoje, já sem a companhia de Cárcamo que agora mora em Ilhabela, SP, sigo o método com empenho. Isto, via de regra, resulta em uma natural evolução do desenho e uma maior segurança no traço. As pessoas ignoram todo este esforço e esta dedicação ou até mesmo optam por não acreditar neles, preferindo atribuir tudo ao que chamam de "dom ", o que nos faz sermos vistos com imerecida aura divina. Já não tento demover ninguém deste equívoco, ajeito a indevida auréola sobre minha cuca, pego minha velha pranchetinha, meu prosaico lápis e vou à luta.
Ilustro esta postagem com alguns dos desenhos para estudos que fiz na praia de Jaguaribe, próximo à Itapuã. 
(021113)

Biratan Porto, Setúbal e a foto da discórdia em Belém do Pará

Belém do Pará, dia 31 de maio do corrente ano. Esta foto registra o instante em que eu, no larestúdio do cartunista Biratan Porto, sopro um virtual bolo de aniversário, de um dos lados da imagem, enquanto a carica de minha augusta pessoa feita pelo Bira ajuda soprando do outro. Isso foi algo que eu e Bira criamos na hora e ele clicou para a posteridade. Essas ideias inusitadas surgem do nada da cuca de quem trabalha com humor, uma gente - não por coincidência – mui bem humorada e que leva a vida buscando criar para si e para os que os cercam, momentos felizes, plenos de riso. Só um deslize cometeu o Bira, e não estou falando do físico de bebedor de cerveja que ostento no desenho que ele assaz sordidamente fez. Refiro-me, sim, ao fato dele haver colocado na imagem a ideia de que estou colhendo 66 primaveras no jardim de minha existência, quando em verdade, tenho pouco mais que a metade disso, acreditem querendo, pios leitores. Somos humanos e, portanto, sujeitos a ser tentados pelo coisa ruim a cometer atos malafaios como o que, em momento de fraqueza, foi praticado por esse meu amigo de fé, irmão, camarada. Todos sabem muito bem sabido que Bira habitualmente é um perfeito gentleman, um cavalheiro, um pró-homem, sempre lhano, cordato,  pleno de bonomia e eu, alma nobre que sou, já o perdoei do fundo do meu coração corintiano. 
(25/11/2015)

Flavio Colin, desenhista de quadrinhos. Um cara muito, muito especial

Um dia um anjo torto me colocou o dedo na testa e me disse: "Vai Setúbal, ser desenhista de quadrinhos na vida." Pensei então: "Caraca!, estou acima dos outros. Um anjo, um emissário do Onipotente, me tocou a testa e me fez um cara especial!" Lesto e presto saí por aí empolgadíssimo, rabiscando tudo o que via pela frente, feliz por poder fazer coisas que outros não sabiam fazer e estas gentes vinham e me circundavam com olhos embevecidos a cada traço que eu traçava para maior gáudio do meu já mui inflado ego. Até que um dia me caíram às mãos revistas com os desenhos de Flavio Colin. Meus olhos saltaram em órbita, meus joelhos tremeram, meu coração disparou um som de percussão. Que traço maravilhoso, quanta criatividade ao desenhar personagens, indumentárias, animais, natureza, cenários! Um sentimento difícil de traduzir em palavras tomava conta de mim a cada nova conferida naquelas maravilhas em preto e branco, sensação que se mostrou perene. Desde seus primeiros trabalhos Colin mostrava desenhar quadrinhos como um Mestre legítimo, anos luz a frente de tantos.
Atônito, um tanto frustrado, meio jururu, voltei ao anjo e lhe disse: "Pô, bró! Eu queria que meus desenhos fossem assim, tão maravilhosos como os deste cara!" Sem se abalar, o anjo, com certo enfado no olhar e ares de esse-cara-já-tá-querendo-demais, redarguiu pouco angelicamente: "Nada posso fazer, meu caro. Mesmo entre os especiais há aqueles que são, digamos... bem mais especiais que os outros. E o Flavio Colin, amizade, é um cara muuuito especial!"
(12/04/2014)

13 setembro 2018

O Brasil no traço do maravilhoso Percy Lau


Aqui neste bloguito já postei um texto-exaltação em que me alonguei tecendo loas ao estupendo desenhista Percy Lau, uma das minhas maiores paixões pictóricas. Os desenhos acima mostram o porquê. Nascido no ano de 1903 em Arequipa, no Peru, Percy mudou-se para o Brasil em 1921, ou seja, ao 18 anos, certamente com a alma transbordante de sonhos, que em nosso país ele soube tornar realidade.  Aqui ele se naturalizou e com seu talento raro transformou-se em um dos maiores brasileiros que esta terra encontrada por Cabral já teve a honra de conhecer. Sua obra marcou profunda e positivamente minha infância. E certamente marcou também a de milhões de brazucas que tiveram a felicidade de ver os deslumbrantes bicos-de-pena que Percy fazia para o IBGE e eram reproduzidos nos didáticos livros de Geografia adotados pelas escolas da Pátria. Bicos-de-pena de deixar qualquer um boquiaberto, feitos com o apoio de um belíssimo e preciso trabalho fotográfico, mostram aos brasileiros como era - e em muitos aspectos ainda é - o nosso Brasil do Oiapoque ao Chuí. Quem leu tais livros para aprender coisas sobre nossa Pátria, foi além disso pois viu a cara exata de nosso Brasil, um Brasil mostrado por inteiro, traduzido pelos olhos, mãos e coração de um artista com alma verdeamarelaazulebranca a quem devemos reverenciar eternamente, 
(06/12/14)

Marijuana e La Cucaracha em dose dupla.

A tradicional e assaz alegre canção popular La cucaracha, que fala nos percalços existenciais de uma barata coxa, é antiquíssima, sendo cantada desde antes da Revolução Mexicana. Pela simplicidade e tom lúdico de sua letra e pela alegria contagiante da melodia, a tal barata tornou-se mundialmente tão famosa quanto sua colega kafkaniana e a singela música logrou virar patrimônio cultural da humanidade. Assim como a canção cubana Guantanamera, ela tem variadas letras que se encaixam numa mesma melodia e algumas versões remontam aos tempos de Pancho Villa e Zapata. Uma delas é essa que os bravos rapazes do Kumbia Kings Brown Jr. gravaram. Como o assunto é palpitante e de largo interesse popular, coloco de quebra a versão feita pelo legítimo sucessor de Miguel Aceves Mejia, el gran cantante Mario Baez, sendo que, com ligeiras variações, ambas as letras falam em marijuana, coisa seguramente mais antiga e popular que a lúdica e contagiante canção e que, segundo os aficionados, não dá cucaracha, digo, não dá barata, mas dá o maior barato. Se bem que se a gente ouve com a devida seriedade, percebemos nas entrelinhas da letra que essa versão, em verdade, traz em si nobres intenções e edificantes propósitos pois preconiza o uso medicinal da planta cannabis sativa, nos dando conta de que a cucaracha é deficiente, sim, mas só não pode caminhar apenasmente porque lhe falta a marijuana pra fumar, de onde se deduz que, fazendo uso da planta, a deficiente cucarachita pode sair por aí lépida e fagueira e até mandar ver numa dança mariachi. Santo remédio! De qualquer forma, manda a prudência que ouçam a música com moderação, pois  os mais afoitos podem se viciar.
(02/06/16)

11 setembro 2018

Béu Machado, Caetano Veloso, Goethe

Sempre relembro Béu Machado, sempre vale a pena que todos relembremos Béu. Amiúde me vem à mente seu jeito calmo de poeta, quase anônimo, fingindo-se igual aos viventes outros, malgrado o talento imensurável para versejar, criar frases. Contrariando Caê, que diz que só se pode filosofar na língua de Goethe, Béu filosofava em muito bom soteropolitanês. Seu humor, carregado de dendê e pimenta dedo-de-moça, algumas vezes era pura molecagem e outras ocultava, por trás de uma aparente despretensão, uma profundidade que a muitos certamente poderia escapar. O humor béumachadiano e sua filosofia podem ser percebidos a olho nu em frases como estas que aqui reproduzo para matar as saudades do poeta, do frasista, do vizinho na Boca do Rio e do amigo cortês e espirituoso.
*O fato de marcianos virem periodicamente à Terra só prova uma coisa: não existe vida inteligente em Marte.
*O açougueiro cortou a parte que eu mais precisava: meu crédito.
*"Saúde de ferro!", disse o médico, desenganando o hipocondríaco.
*De lascar é quando a bola bate no pau sem chocar na trave.
*De nada adiantou eles ordenarem que eu me calasse.Heroicamente continuei gritando "Ai!"
*Desisti de desafiar o Mike Tyson. Os motivos são de força menor.
*Desta vez vai correr sangue: aumentaram os preços dos absorventes!
* Ler Proust é uma perda de tempo.

Que grande, grande falta nos faz Béu Machado.
(29/11/2014)

Valtério Sales, escultor e cartunista dos bão, louvado em prosa e verso

Valtério Sales é um cartunista aqui da Bahia que já andou por um tempo lá pelas bandas do Rio. É um cara muito bom quando faz caricaturas em papel. E é um arraso nas esculturas em barro, invariavelmente feitas com toques de muito bom humor. Ele é meio avesso à computadores e muito por isso mesmo ainda não tem um site para que vocês possam apreciar os maravilhosos trabalhos que ele esculpe. 
Ôpa! Êpa! Parem as máquinas! Escrevi esse preâmbulo todo aí, mas eis que acaba de chegar na redação desse bloguito uma carta que nos eleva o espírito e preenche de júbilo nossas almas. A dita missiva nos dá conta de que, buscando correr atrás do tempo informático perdido, Valtério Sales retou-se e resolveu adentrar de vez o universo cibernético. O cultuado escultor já tem até um perfil no Facebook em que mostra sua fina estampa e a arte que executa com seu enorme talento. Tomara que, entusiasmado com essa sua infoexperiência, o artista providencie um site ou blog para tornar ainda mais visível o seu trabalho e maior o nosso deleite. Nunca é demais relembrar que Valtério, o grande escultor, cartunista e humorista, é nascido em Ruy Barbosa, Bahia, onde atendia pelo cognome de Vartim de Sinésio, só saindo um dia da pequena urbe para brilhar na Oropa, França e adjacências. Para celebrar seu benfazejo ingresso nas redes sociais, a equipe desse bloguito convocou Setubardo, o sempre mui inspirado poeta, nosso contumaz colaborador, e o vate nos enviou um poema que, radiantes, publicamos: 
Valtério no caminho das artes
Evém Valtério.
Quem o diz no climatério?
Mal não lhe causa
a andropausa.
Vem gaio e gala
com sua bengala.
Caminha seu caminho,
rebolandinho.
Torpes maliciam
seu rebolar 
quase sutil.
Não é frescura,
posto que viril.
É só da perna
leve atrofio.
(16/07/13)

Família Batman / Humor de graça

(201016)

09 setembro 2018

Fernando Pessoa, a música, a pintura.

Música. Ontem, hoje, agora, ainda e sempre. Gravada ou ao vivo. Via rádio AM ou FM, em CD original ou pirata, na trilha sonora de filmes, de novelas, de minisséries televisivas, no coreto da praça, na viola de um cego cantador, no repente surpreendente do eminente repentista, na tuba, no contrabaixo, no alto falante do circo mambembe, na flauta doce ou salgada, no violão, no xequerê, na bacurinha, no timbal, nos timbales, no caxambu, na batera, no cavaquinho, no bandolim, no pandeiro, no reco-reco, bolão e azeitona, no fagote, no violino, na rabeca, no berimbau, na guitarra, plugged ou unplugged, e mesmo em uma pintura, como esta que fiz, com mucho gusto, em uma tela de 1,50m x 1,00m. Música, ah, qualquer música! Samba, rock, baião, xaxado, maxixe, jazz, polca, salsa, mambo, tango, fado, valsa, corta-jaca, tarantela, blues, bossa-nova, cumbia, reggae, samba-reggae, samba-rock, bolero-lero-lero-lero, no beguin the beguine. Música. Qualquer música, ah, qualquer, logo que me tire da alma esta incerteza que quer qualquer impossível calma!
(27/01/2010)

08 setembro 2018

Travecos made in Brazil

 
O traveco é uma instituição das mais sólidas neste torrão auriverde, um patrimônio nacional de valor inestimável e um dos mais cobiçados produtos de exportação deste patropi abençoá por Dê. Os franceses, por exemplo, se curvam - e bote se curvam nisto - ante os les travequês delapatri  brésiliene, que podem ser encontrados às centenas no Bois de Bologne caprichando no biquinho e falando no idioma de Mollière e de Zola lindas palavras como ménage à trois e voulez-vous une boquettê, missiê? Já na terra de Dante Alighieri, nossos estóicos traveconni agitam a massa, coisa que Rubinho Barrichello, mesmo tendo sobrenome itálico, nunca conseguiu fazer quando estava na Ferrari. Aqui nesta Soterópolis de Carla Peres e de loiras e morenas do Tchan, os travecos sofrem uma desleal concorrência e têm de rebolar para ganhar o pau, digo, o pão de cada dia. Por sorte, contam em sua defesa com o CATSO (Centro de Amparo aos Travecos Soteropolitanos Oprimidos), que é um órgão vibrante que está aí para provar que as bibas baianas não são de fugir do pau não, senhor. Ora, que despautério!
(21/03/12)

Nenhuma mulher me resiste / Frases de Béu Machado 13

 As mulheres não resistem à minha presença: dão no pé.
(Béu Machado, de seu livro Pensamentando)
26/09/16

Diário de bordo: Jerry Adriani e eu em dueto nas nuvens, indo para Belém

Consta que o primeiro dos homens foi feito com uma porção de barro pelo Todo Poderoso que, como bem se vê, tinha lá suas veleidades de escultor. Tendo sido criado, esse primeiro ser da espécie não ganhou a chave da casa própria pelo BNH ou pelo Minha Casa, Minha Vida, ganhou coisa bem melhor: o direito de morar de graça em um verdadeiro Paraíso. Tá bom pra você? Pois pro cara não estava. O papo que rola por aí é que esse primeiro homem não ficou lá muito satisfeito com o divino presente tendo em breve tempo se cansado de bater perna pelos rincões paradisíacos. Ponderou ele que aquilo ali até que era bom mas era também um tanto insípido e fatigantemente monótono. Olhava os pássaros e invejava-lhes os voos livres firmamento afora. Pensou em como seria bom se pudesse voar livre entre as nuvens. Voar, voar, esta ideia virou uma verdadeira obsessão para o homem que só sossegou no dia em que ele inventou o avião e o check in. Para quem há pouco tempo não passava de um montículo de barro, criar o avião e a aviação foi um progresso notável, pois desde que o tal invento não invente de cair e se espatifar no chão, não existe coisa melhor nesse mundão todo. No avião que sigo para Belém indo participar como jurado do VII Salão de Humor da Amazônia, tudo corre maravilhosamente bem e o céu é de brigadeiro - qualquer um menos o Burnier, de triste memória para a Democracia. Desço em Brasília, espero outra aeronave da conexão. Tudo segue correndo numa nice, eu ali de boa, sentado próximo ao Gate 4, quando avisto ninguém menos que Jerry Adriani, cantante que marcou época no Movimento Jovem Guarda, liderado pelo Rei Roberto Carlos. Está ao lado de um grupo que carrega cases com seus instrumentos musicais e conversa de maneira simpática com todos que a ele se dirigem, tira algumas dezenas de selfies com umas fãs que também o reconheceram. Menos por fome e mais pra passar o tempo, vou em busca de um pãozinho de queijo a título de lanche e, quando percebo, Jerry está ao meu lado no balcão fazendo seu pedido à moça do caixa. Não deixo passar batido a oportunidade e o abordo, digo umas quantas palavras que ele ouve, receptivo, simples, afável, a simpatia em pessoa. Despeço-me, agradecendo. Por coincidência ele também está indo para Belém no mesmo vôo que eu e acabamos por nos encontrar algumas vezes, ele entabula conversa, digo que sou da Bahia. Falamos sobre música em geral e sobre axé music.  Ele me diz do caráter excludente desse ritmo para muitos profissionais da área da música, fala que ela praticamente monopoliza o mercado musical, sendo necessário esforço enorme para cantores de outras tendências musicais conseguirem contratos de shows para se manterem com seus trabalhos. Digo-lhe que esse é um problema que também atinge fortemente músicos da própria Bahia, que perdem em visibilidade e espaço de atuação. Papeamos sobre amigos e conhecidos em comum, como Waldir Serrão, o Big Ben, roqueiro das antigas. O papo prossegue já dentro da aeronave. A empatia foi tamanha que em dado momento, para encantamento das charmosas comissárias e dos demais passageiros, em pé, no corredor do avião, entoamos um dueto cantando um dos hits do meu agora velho amigo, “Doce, doce amoooooor...”. Jerry é profissional do canto, tem uma notável extensão vocal, mas quando decido brindar as pessoas com meus dotes canoros, faço bonito, não tem prá ninguém. Repentinamente toda a tripulação e os demais passageiros entraram no clima, se puseram a cantar conosco e o ambiente fazia lembrar um daqueles filmes musicais hollywoodianos. Maravilha das maravilhas! Só quando pisei em solo belenense é que me ocorreu fazer uma selfie registrando para a posteridade meu encontro com Jerry Adriani, cara admirável, dono de uma vasta e belíssima trajetória no mundo da música, gente super, hiper do bem. Se o habitante do Éden, o primeiro dos homens, estivesse a bordo haveria de sorrir, satisfeito e orgulhoso de seu inventivo invento.
(15/07/15)

França Teixeira, Fan Teixeira, Dadá de Corisco, Cangaço

Nos anos 70 me encantou uma entrevista feita com Dadá, viúva do afamado cangaceiro Corisco, tendo sido ela própria uma participante do cangaço integrando o bando do legendário Capitão Virgulino Ferreira, o Lampião. Quem entrevistava Dadá era França Teixeira, célebre radialista, bom de tv, grande comunicador, emérito criador de um estilo carregado de irreverência jamais igualado em rádio. França é o pai da apresentadora Fan Teixeira, que herdou o talento paterno e apresenta com brilhantismo o ótimo programa Balaio de Gato, da TVE. Ouvindo a entrevista, fiquei inebriado pela rica e peculiar oratória da sertaneja revelando passagens que ela vivera ao lado do bando liderado por Lampião. A certa altura da sua fala, Dadá relata que a arma que Maria Bonita, a célebre companheira de Lampião, usava na cintura era praticamente um adereço, não a usando a bela Maria para alvejar as volantes que sem tréguas, sertão afora perseguiam os cangaceiros atirando para matar. Dadá vai além e afirma que ela própria, sim, é que empunhava quando necessário se fazia, sua arma contra os macacos, que é como os cangaceiros chamavam os soldados da volante. Deixando transparecer um vívido interesse, o rosto de França se torna ainda mais rubicundo quando lhe pergunta: "Então você, Dadá, chegava a atirar nos soldados da volante?" Ela, sem pestanejar: "Sim, quando preciso, atirei." França, interessadíssimo, insiste: " Desses nos quais você atirou, algum morreu?" E Dadá, com um sorriso mais enigmático que o de Monalisa: "Que eu visse, não!"
(Publicado originalmente em 19 de julho de 2013)

06 setembro 2018

Cartola e as rosas tagarelas

As rosas não falam?! Falam, falam, sim, ora, se falam! Algumas são incrivelmente loquazes, outras chegam até a serem beeeem tagarelas. Às vezes puxam assunto e desandam a falar - muitíssimo bem, por sinal -  deste notável brasileiro, Angenor de Oliveira, mais conhecido pelo cognome de Cartola, um grande mestre do samba, da música, da vida, o Mestre Cartola. Preconizam elazinhas que ele é, e sempre foi, um compositor magnífico, que legou à música brasileira autênticas e finíssimas pérolas musicais, tesouros de altíssimo valor, versos que denotavam um criador de alma culta, ainda que Cartola fosse uma pessoa de origem humilde, de poucos estudos formais, morador do Morro da Mangueira, no Rio, reduto de gente simples e dita comum, mesmo sendo ele um artista incomum. Esta carica acima eu fiz um tempo atrás, como presente pro meu nobre e especial amigo Biratan Porto, gente da minha querência, que todos sabem bem que é um cartunista e caricaturista piramidal, de alto gabarito, e de quebra é ainda um músico habilidoso, um virtuose do bandolim, coisa que tive a fortuna de comprovar ao vivo e a cores em Belém do Pará, e não fosse isso o bastante, Bira é também um cartolamaníaco inveterado, contumaz e renitente, no que lhe dou inteira razão, convicto de que ele merece ouvir das rosas loas tão enaltecedoras quanto as que elas dirigem ao Mestre Cartola.
(28/11/14)

Para o gajo Fernando Pessoa uma acrílica que canta em cores.

"Qualquer música. Ah, qualquer, logo que me tire da alma esta incerteza que quer qualquer impossível calma." Lindos esses versos de Fernando Pessoa, gajo fixe, giro, poeta mais que inspirado que no início do século passado escrevia essas coisas, versos e ideias que até nos dias atuais seguimos lendo pra lá, muito pra lá de embevecidos. Há de ter sido inspirado pelos versos do prolífico e iluminado bardo lusitano que pintei essa tela usando tinta acrílica. Cantando, diria com seu vozeirão o inefável Professor Cauby: ''Pintei, pintei, jamais pintei tão lindo assiiiim''. Bem, bem, não chega a tanto, mas quando desenhei e pincelei as tintas nesta tela, luminiscente leitor, fique certo que em minh'alma não vagava incerteza alguma.
(22/04/14)

05 setembro 2018

Lage, cartunista e caricaturista maior, tinha lá seus pecadilhos / Pintando o Set 5

O cidadão soteropolitano Hélio Roberto Lage era um formidável arquiteto, merecidamente graduado e de muita competência. Poderia levar uma vida digna com essa sua edificante profissão. Ao invés disso, preferiu seguir os conselhos de algum anjo torto, desses que vivem na sombra, e foi ser cartunista na vida. Um cartunista maior. Munido de seu talento gráfico, elevada consciência política, presença de espírito e invejável sagacidade, lá ia Lage para a redação do jornal em que trabalhava e traçava charges impactantes, cartuns demolidores, caricaturas que desnudavam os políticos mais infames. Podia parar por aí, bem que podia. Mas quem disse que ele parava? Pois é chegada a hora da verdade e a verdade tem que ser dita: Lage não conduzia a nova profissão com a devida seriedade e sempre foi um cartunista metido a engraçadinho. Ao invés de se portar de forma séria, como sói acontecer aos profissionais que têm consciência do dever de ofício, tinha ele o reprochável hábito de viver fazendo piadinhas em seu ambiente de trabalho e mesmo fora dele. E ainda as desenhava, como agravante. É abalado e profundamente traumatizado que aqui deponho que, de forma recorrente e impiedosa, fui vítima dessas suas gracinhas sem graça das quais todos achavam a maior graça, menos eu, a inerme vítima desses motejos gráficos. Desde 1981, ano em que muitos dos leitores desse bloguito sequer haviam nascido, guardo comigo, cheio de mágoa e ressentimento, essa caricatura que ora posto, da lavra de um sujeito que se dizia meu amigo mas que retratava-me de maneira injustificavelmente sórdida, impiedosamente abjeta. Desconfio que ele era movido pela mais infame das invejas, pois sabendo-me um cara de físico apolíneo, um Adônis, um invariável escopo da concupiscência feminina, Lage traçou de mim esta caricatura em que ele subverte tudo, colocando meu avantajado peito de remador no lugar da minha barriga tanquinho, delineada em incansáveis e espartanas malhações. Ó, deuses do Olimpo cartunístico, daí do vosso sacrossanto empíreo enviai-me forças para seguir em frente e suportar tantos e tão desmesurados infortúnios movidos pela mais abjetas zelotipias e as mais hediondas invídias.
(14/07/12)

As Histórias em Quadrinhos, o diabo contra o Brasil

Tempos houve em que as Histórias em Quadrinhos aqui neste Patropi eram consideradas coisas do demo, do canhoto ou seja lá que nome dêem ao anjo dissidente das hordes celestiais. Você, amável e atilado leitor, que no conforto do seu sacrossanto lar gosta de ler bem editados álbuns de luxo de HQ que hoje circulam em toda parte com pompa e circustância, ficará um tanto cético diante de tal afirmação, mas ela é a pura expressão da verdade, por mais absurda que lhe possa parecer. Em meados de 1930 o empresário Adolfo Aizen, através do Suplemento Juvenil, lançou as HQs aqui no Brasil. Quer dizer, esta é a versão corrente, embora haja os que afirmem que antes dele já havia pubicações pioneiras de quadrinhos por aqui. O fato é que Aizen lançou com grande repercussão, em larga escala, de maneira maciça e por isso é considerado o grande marco dos quadrinhos no Brasil. Entre os leitores e os quadrinhos houve uma paixão instantânea e fulminante que se fortaleceu à medida em que o tempo foi passando. Mas gente que se crê dona da verdade e se autoentitula defensora legítima da moral e dos bons costumes não é uma sandice dos tempos atuais, sempre existiu. Infiltradas nos órgãos oficiais, nos gabinetes acabaram por desenvolver verdadeiras campanhas onde a tônica era o mais improcedente preconceito e buscaram fazer uma lavagem cerebral por atacado afirmando que as revistas de HQs, os conhecidos Gibis, eram um inimigo natural dos livros didáticos, um adversário maléfico, um feroz antagonista das consagradas obras dos bons escritores, que destarte eram um inimigo do próprio Brasil e do povo brasileiro e um monte de sandices congêneres. Difícil de acreditar em algo assim, não é? Pois coisas até piores que isso foram ditas, escritas, impressas e circularam entre nós. Afirmavam, em cartazes e por outros meios, que a criança que lia quadrinhos inexoravelmente haveria de se tornar um malfeitor que empunharia armas contra as pessoas ditas normais. Valei-me meu São Stanislaw! Esta autêntica Idade das Trevas das comunicações graças aos céus parece ter chegado ao fim e hoje os quadrinhos circulam nos mais salutares ambientes com as devidas alvíssaras e são comercializados em versões bem cuidadas, até luxuosas, em livrarias conceituadas, sendo largamente empregados em campanhas governamentais, seja na área de saúde ou outra qualquer, onde se faça necessária uma forma de comunicação rápida e de alcance de todas as camadas. E, glória das glórias, hoje são utilizados amiúde em parcerias com os livros didáticos que assim levam ao povo, com o auxílio luxuoso das HQs, o doce sabor do Saber. Os quadrinhistas brasileiros, comovidos, agradecem, não é mesmo Bira Dantas e Cedraz?
(publ orig 21/03/2014)

Vigário e vigarista / Humor de Graça

(200212)

31 agosto 2018

Roberto Ferri, pintor italiano: um pouquinho mais de sua arte instigante.

Em postagem anterior brindei você, meu cordialíssimo e sapientíssimo leitor, com uns belíssimos trabalhos de um pintor italiano ainda jovem mas extremamente habilidoso no manejo dos pincéis e tintas que segue uma linha clássica de pintura. O nome do ragazzo é Roberto Ferri, um cara veramente meraviglioso. A galera que acompanha este troppo piccolo blog curtiu muito os instigantes trabalhos do itálico pintante. Adesso volto a carga com mais uma dose do talento do signore Ferri para degustação geral da nação. Links até o trabalho de Ferri: http://www.robertoferri.net/ e http://robertoferripittore.blogspot.com/ . Auguri.
(121214)

O cartunista Simanca, Fidel Castro, Cuba e Bahia


 É do bravo comandante Fidel Castro o olhar nostálgico que perlustra o mar caribenho nesta tépida noite de estio em que intenso plenilúnio ilumina toda esta Baía dos Porcos. Doces reminiscências povoam a mente de El Comandante certamente evocando pelejas vitoriosas contra esbirros enviados pelos porcos imperialistas ianques em pretérito não muito distante aqui neste mesmo cenário. Aboletado sobre uma pedra, Castro abre uma caixa de madeira onde guarda um tesouro: seus puros cubanos. Retira um, acende e saboreia cada baforada demonstrando um inebriante prazer. Neste momento entra em cena um outro personagem, o jovem cartunista cubano Osmani Simanca, ainda um novel, que por ali vai passando. O dibujante saúda Fidel e solicita dele um dos charutos para poder desfrutar também daquele prazeiroso momento. Com chispas nos olhos e mão no gatilho o guerrilheiro vocifera: "Que puerra es esta, pendejo?! Querendo hacer socialismo moreno con mis puritos?! Sarta fuera, bundón!!" O jovem Simanca, assustado, balbucia em solilóquio: "Hay que adolescer, péro sin perder mi gostosura!" Aí, para preservar sua vida que ainda adolescia, tratou de ir saindo de fininho praguejando em voz baixa contra todos os socialistas insulares e seu barbudo líder. Temeroso de uma retaliación nel paredón, tratou de se picar da ilha embarcando em uma lancha que fazia a linha Havana - Isla de Itaparica. De lá pegou um ferry-boat para Soterópolis. Aqui chegando, tratou de invadir a redação do jornal A Tarde armado de lápis, pena e pincel, preconizando que chegara o momento de se fazer uma revolução gráfica. Passou-se já um bom tempo e ainda assim Simanca deixa evidente em suas charges feitas para o periódico baiano que não perdoou Castro até hoje hoje pelo episódio ocorrido entre ambos naquela noite na Baía dos Porcos. Não quer nem saber se Fidel, por ordens médicas, já não fuma mais seus puros e, já provecto, passou o poder em Cuba para o hermano, Raúl. Isso nada animou Simanca a retornar para a isla que é dele tanto quanto de Célia Cruz, Bola de Nieve, La Lupe, Perez Prado e do Buena Vista Social Club. Vivendo na Bahia todo este tempo, abaianou-se de tal forma que já não quer mais saber de beber mojito en La Bodeguita, prefere entornar umas caipirinhas no Mercado das Sete Portas. E já não dança salsas nem rumbas, só quer saber mesmo é de quebrar em sambões. Tornou-se mestre de capoeira, não perde um Ba-Vi e já está providenciando mudar seu nome para Osmani Caymmi Amado Rocha Ubaldo Veloso Gil Simanca.
  Para ver mais trabalhos de Simanca, clique no link: http://simancablog.blogspot.com/  
(24/10/13)

O escritor André Nunes,o Xingu e o Pará

André Nunes é paraense, um insular nascido e criado na fluvial Ilha do Arapujá , que fica bem defronte a Altamira, e que divide o Rio Xingu, importante afluente do Rio Amazonas. Um ribeirinho, sim, de boa cepa e com muito orgulho. Mas também é um cidadão do mundo, com ampla e benéfica visão social e política, um homem consciente, de rica trajetória existencial, culto, que ama sua gente, sua terra, a vida em toda sua plenitude. Tais qualidades somadas acabaram por torná-lo o notável escritor que é, inspirado, cônscio, senhor das palavras. Em seu livro Xingu, causos e crônicas, André nos permite embarcar em seu caxiri que seguramente nos conduz em instigante périplo por rios, igarapés, matas amazônicas, seringais em que se evidenciam quilombos, ditadura militar, cabanos, seringueiros, ribeirinhos, indígenas, caboclos, grileiros, pistoleiros, almas, corações e mentes num itinerário que envolve e emociona o leitor. A rica narrativa é construída pela privilegiada memória do autor que descreve em minúncias cada detalhe dos acontecimentos, por vezes poéticos, compostos pelo vôo de borboletas azuis, por vezes brutais, protagonizados por homens inclementes com suas motosserras rasgando o ventre da floresta amazônica, aniquilando flora e fauna, pelo massacres de inocentes e desvalidos, pela desfiguração e incerteza trazidos pela implantação de grande hidrelétrica. Acontecimentos que foram todos vividos com intensidade, plenos dos mais variados sentimentos e emoções diversas. Neles sempre se faz presente um humor contido, bem pessoal e uma declaração de amor à vida. Sem se valer de frases de efeito ou maneirismos inócuos, usando as palavras exatas com o domínio de escritor de notável talento que é, André sabe dar a cada narrativa o toque de emoção e verossimilhança, criando um clima envolvente e prazeroso que delicia e encanta o leitor. Seu texto sobre o Haiti, em luta desigual contra as grandes potências do mundo, é leitura que lança preciosas luzes sobre a forma de agir da velha e da nova Ordem Mundial. Quando escreve sobre o Pará, o carinho de André pelo chão, pelo seu círculo parental, pelos seus mais fiéis amigos e por toda a gente paraense se evidencia, e sua paixão pela terra se faz facilmente identificável em cada um de seus relatos e observações numa antropologia exata feita do mais tocante amor.
Aos interessados em adquirir um exemplar, mensagem para: andre@terradomeio.com.br
(09/11/015)

29 agosto 2018

Will Esner e The Spirit / Uns cara que eu amo 2

Dos meus alumbramentos na minha tenra infância ressoa forte uma HQ carregada do mais negro nanquim mostrando uma casa rudimentar em região de inóspito palude. Um ventilador de teto. Um homem com um jornal na mão que mata as moscas que insistem em pousar em sua mesa, em sua roupa e pele. Ele traz na boca um fumegante cachimbo e sua epiderme transpira por todos os poros enquanto se movimenta, impaciente, em ação mostrada do ponto de vista do alto da casa. Puro cinema em cada cena desenhada no papel. Tais imagens, instigantes, impactantes, colaram-se de forma perene na vida de minhas retinas ainda não fatigadas, na minha memória de infante. Cresci e só mais tarde descobri seu autor: Will Esner. O grande, o magistral, um manancial de criatividade extasiante, jorrando fartamente para o deleite de seus felizardos leitores, tanto no texto quanto nas ideias sempre renovadas. Will Esner. No Brasil ele se sentia muito à vontade por comprovar que aqui possuía uma legião incontável de incondicionais fãs de seu cinematográfico estilo. Entre eles, ói eu, embevecido, torcendo pelo Spirit, com sua máscara e um sorriso no canto da boca, sempre rodeado de belíssimas e voluptuosas vilãs como a nada angelical Satã.
                                                                                (30/10/2013)

Alejandro Iñárritu, Amores perros e um Cinema feito por quem sabe fazer Cinema.

Há toneladas de filmes na história do cinema que nada de importante dizem ou propõem, feitos por diretores que nada têm a dizer ou a propor. São meros produtos comerciais feitos com o objetivo de gerar lucros econômicos, fabricados para atender a uma grande faixa de público não muito exigente, que acorre às salas de projeção buscando um filme feito para proporcionar momentos de relax, construídos com uma narrativa nem um pouquinho complicada, repleta de lugares comuns, cheias de momentos déjà vu, de moral e desfecho previsíveis, atores bonitos e carismáticos, alguns efeitos especiais para enfeitar o bolo e ainda por cima dublado, que esse negócio de ler legendas e olhar imagens é coisa intolerável. Quem achar que são uma boa pedida que os assista e sejam felizes. Quanto a esse filho de meu pai, essa semana procurei na internet, achei e revi Amores perros (no Brasil, Amores brutos), com o áudio original, um filme do qual gosto muito, pois, felizmente, há diretores e filmes que não compactuam com a mediocridade geral que assola o grande écran, diretores como o criativo e inovador cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu, que o digam os que assistiram seu Birdman, de 2014, com Michael Keaton. Amores perros é, surpreendentemente, o filme de sua estreia em longa-metragens. E que estreia! O filme é um soco no estômago que tira o fôlego do espectador, tão emocionante é, tão bem escrito é, tão bem dirigido, interpretado e montado é. Entre os atores, se sobressai a figura de um Gael Garcia Bernal bem jovem que, com a visibilidade adquirida a partir dessa película, foi guindado à condição de astro internacional, filmando com renomados cineastas outros, entre eles, Pedro Almodóvar e nosso Walter Moreira Salles, entre outros. Ousado, emocionante, iconoclasta, criativo, surpreendente, Amores perros é feito de narrações e sub-narrações, histórias e personagens de mundos diferentes que acabam se cruzando pelo imponderável da vida. Fortes emoções são reservados ao espectador que não consegue adivinhar como será a próxima cena nem as soluções dos conflitos expostos, em meio ao amor, à paixão, a uma chocante violência urbana, tudo alinhavado por Iñárritu de uma forma em que os perros do título são fatores determinantes na deflagração de conflitos em que imperam emoções incomuns que tomam conta do espectador. Para os que apostam em filmes comerciais medíocres para angariar lucros, é bom dizer que Amores perros é uma das grandes bilheterias do cinema, o quinto em toda a história do cine mexicano. E o filme não precisou se valer da mediocridade, do lugar-comum e de velhas fórmulas para seu êxito comercial.
(06/12/16)