10 setembro 2019

Manezinho Araújo, o Rei da Embolada / Uns caras que eu amo 8

"Imbolá, vô imbolá, eu quero ver rebola bola, você diz que dá na bola, na bola você não dá." Tais palavras são de uma composição do grande e versátil Zeca Baleiro e você que gosta do trabalho do cara, certamente já o ouviu cantar essa melodia de ritmo e letra instigantes. Trata-se de uma embolada, gênero musical que se ouvia muito do final dos anos trintas até os anos cinquentas e que, em certa medida, é um ancestral do rap. Você, leitor dotado de seletíssimo ouvido e de acendrado gosto musical, sabe bem que Baleiro prima pela mistura de ritmos, pelas composições originais e ecléticas, que podem misturar batidas pop com diversas ritmos regionais do nordeste brasileiro, entre otras cositas. Mas não é o sempre magistral Zeca Baleiro o motivo maior dessa postagem, ele aqui é apenas o fio condutor para falar do Rei da Embolada, título que pertence, com totais méritos, ao genial Manezinho Araújo, compositor, cantor e pintor nascido em Pernambuco em 1910. Manezinho iniciou sua carreira profissional após um inusitado encontro com Carmen Miranda ocorrido em um navio, no tempo em que ele servia a Marinha do Brasil. Durante a viagem, estimulado pelos colegas marinheiros, Manezinho cantou suas emboladas para a Pequena Notável. Ela adorou, seu empresário e sua comitiva, idem, idem. Disso veio o convite para ir ao Rio de Janeiro buscar a sorte nas rádios para nelas cantar profissionalmente, o que acabou acontecendo e Manezinho foi muito bem sucedido, sendo contratado por uma boa gravadora que com ele gravou diversos discos. Na embolada estão amalgamados o lúdico, a alegria, a malícia, a sátira ferina, uma boa pitada de molecagem popular, muita criatividade e, sobretudo, doses maciças de humor e da mais pura brasilidade. Uma das coisas positivas da internet é que ela vem sendo usada como importante registro da História e um meio de preservação da memória popular. Nela podem ser encontradas gravações memoráveis, históricas, para o deleite de quem não se limita a ouvir ouvir apenas e tão somente a onda musical do momento. Quem gosta do que é bom, há de gostar de ouvir os sucessos de Manezinho Araújo, Pra onde vai, valente?, O carreté do Coroné, Coitadinho do Manezinho, A metraia dos navá, Cuma é o nome dele? Dezessete e setecentos, e outros mais. Todos deliciosos e bem brasileiros. Viva Manezinho Araújo! E que ninguém bula com Mané do Arraiá!
(16/11/16)

08 setembro 2019

Gordurinha e sua arte, Tio Sam, a Bahia e o bebop no nosso samba.

Gordurinha, cantor, compositor, humorista e radialista baiano, foi nome de sucesso em todo o Brasil na chamada Época de Ouro do Rádio. Difícil, quase impossível, é alguém da atual geração - tão bem servida de imagens oriundas de TVs, das câmeras fotográficas digitais ou dos múltiplos artefatos eletrônicos que a qualquer momento do dia filmam, gravam, registram imagens, divulgando-as, compartilhando-as instantaneamente - acreditar que existiu um tempo em que eram os ouvidos, e não os olhos, os condutores da arte e de toda e qualquer informação. Acontece, caros smartphonísticos mancebos e tabletísticas moçoilas, que as coisas já foram assim em uma era que já era, a Era do Rádio. Nela brilharam artistas fantásticos, entre eles o baiano Gordurinha, de tantos grandes hits populares, a exemplo de Baiano burro nasce morto, composição solo sua, cantada em todo esse mulato inzoneiro. Sua gravação de Mambo da Cantareira, de Barbosa e Eloíde, fez enorme sucesso, sendo regravado em tempos recentes pelo cantante Fagner. Uma composição sua, Oróra analfabeta, em parceria com Nascimento Gomes, é sucesso até hoje, descrevendo encantos e desencantos de Oróra, uma dona boa lá de Cascadura que é uma boa criatura, mas que escreve gato com J e escreve saudade com C e que, ainda por cima, afirma adorar uma feijoada compreta. De Gordurinha é também a bela e tocante Súplica cearense, feita em parceria com Nelinho, a divertida Caixa alta em Paris, a sensível Vendedor de caranguejo. Mas o maior êxito popular de Gordurinha, certamente é sua composição, Chiclete com banana. letra e música suas, ainda que oficialmente conste o nome de Almira Castilho, esposa e partner de Jackson do Pandeiro, como sua parceira na composição, o que -  segundo consta - de fato não teria acontecido. O que sucedeu, de verdade, foi que a composição agradou em cheio, adentrando com estilo a História da MPB, eternizada que foi pela gravação dele, o venerado Jackson do Pandeiro, senhor do ritmo, mestre da ginga e dono de uma maneira gostosa, única e inigualável de interpretar canções. Chiclete com banana é uma sacada perfeita de Gordurinha para definir o universo da nossa massificação cultural via United States, coisa que sempre nos assolou em diversas áreas de nossas artes.  Se na época o sucesso da música foi enorme, o tempo que passou nos diz que ela segue sendo uma rica referência até os dias atuais, no que muito ajudou sua regravação por Gilberto Gil no disco Expresso 2222. O título da música foi usado para batizar a famosa banda de axé-music e a revista em quadrinhos do cartunista Angeli. Sua letra é uma declaração de amor à música do Brasil, uma afirmação de carinho e apreço a tudo que temos de bom em nossa alma brasileira, um brado de resistência cultural diante da imposição das coisas made in USA, notadamente o constante domínio exercido pelas gravadoras e ritmos norte-americanos sobre a nossa música, no caso, vinda de um ritmo chamado bebop. De forma clara e gostosamente bem-humorada, Gordurinha informa à industria musical ianque que antes, bem antes, de nos aculturarem, eles precisariam conhecer mais profundamente, entender, respeitar e mesmo assimilar a música do Brasil, mandando-lhes um ritmado e irreverente recado: "Eu só boto bebop no meu samba, quando o Tio Sam pegar no tamborim. Quando ele pegar no pandeiro e no zabumba e entender que o samba não é rumba"... E, concluindo, desafiador: "Eu quero ver o Tio Sam de frigideira numa batucada brasileira."    
 (20/11/16)  

Caetano Veloso, Wladimir Maiakóvski, Fernando Pessoa e um vate chamado Edu. Pequenos equívocos sobre grandes poetas / Parte 2 de 2

Além da melodia envolvente contida no fado Os argonautas, também a bela e um tanto enigmática letra desta inebriante canção foi criada pelo compositor Caetano Veloso e não pelo bardo português Fernando Pessoa. Mas não faltam os que repitam por aí e até postem na internet, que a dita letra da música é uma poesia da autoria do bardo Pessoa musicada por Caetano. Quem se der ao trabalho de pesquisar atentamente os muitos poemas de Pessoa, escritos sob qualquer um dos seus muitos pseudônimos, não encontrará versos falando em “o automóvel brilhante, o trilho solto, o barulho do meu dente em sua veia” ou “noite no teu tão bonito sorriso solto, perdido”. As pessoas erram por uma questão de superficialidade, erram por que não se importam em errar, grandes porras, phoda-se. Fernando Pessoa deixa claríssimo na abertura de seu poema, que a frase “navegar é preciso, viver não é preciso”, cuja primeira parte usou para dar título ao belo poema, não é algo criado por ele, vindo ela da boca de antiquíssimas gentes do mar, coisas dos tempos do grande império romano que, segundo textos do impoluto Plutarco, teria sido dita em vez primeira pelo general Pompeu (106-48 a.C.), dirigindo-se a sua tripulação, aos seus soldados, os quais se mostravam excessivamente prudentes e cautelosos - para não dizer trêmulos e acovardados  – diante de um mar nigérrimo e proceloso, instigando-os a embarcar.  Como único argumento, Pompeu proferiu a frase que se celebrizou, chegando aos ouvidos de Fernando Pessoa que, parafraseando-o, disse que “viver não  é  necessário , o que é necessário é criar”. Maravilhoso! Todo artista e todo criador deveriam tomar isso como inspiração. Caetano Veloso, usou como refrão de Os argonautas a frase que Pessoa não concebeu mas que tanto amou que dela se valeu para nominar um seu poema famoso e para filosofar sobre sua irrefreável necessidade de criação. A expressão “Navegar é preciso” bem que pode ter sido o lema que norteou todas as intrépidas conquistas portuguesas na Era das Grandes Navegações. A frase, segundo dizem, estaria escrita no pórtico da lendária Escola de Sagres, fundada pelo infante Dom Henrique, no século XV, mais precisamente em 1460, bem antes do nascimento de Pessoa, que nela teria achado inspiração para o poema que escreveu. Mas estamos falando da raça humana e seus enganos, e aí temos que lembrar que não faltam os que, convictos, afirmem que a Escola de Sagres nunca tenha existido de fato, senão na imaginação das pessoas, que tudo não passa de uma lenda. Quanto ao poema de Pessoa, segue abaixo uma reprodução para que não pairem dúvidas sobre o que nela diz o venerável vate luso. Embora já saibamos bem que isso não fará cessar novos e contínuos erros e enganos, pois, aparentemente, quando adotou a frase "errar é humano" o homem outorgou a si próprio o direito de errar quantas vezes queira. Sem se importar em seguir o que versa a frase original, atribuída a Sêneca, que em sua inteireza nos diz: "errare humanum est, perseverare autem diabolicum."
               Navegar é Preciso
               (Fernando Pessoa)
Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:    
"Navegar é preciso; viver não é preciso".                    
Quero para mim o espírito desta frase,           
transformada a forma para a casar como eu sou:          
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.         
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.    
Só quero torná-la grande,                                           
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.                                              
Só quero torná-la de toda a humanidade;                          ainda que para isso tenha de a perder como minha.            Cada vez mais assim penso.                                        
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue  o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade.                                      
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

Oscar Wilde e Pol Serra, caricaturista da Espanha

"Posso resistir a tudo. Menos à uma tentação." "Nada é mais necessário do que o supérfluo." "Quando eu era jovem pensava que o dinheiro era a coisa mais importante do mundo. Hoje eu tenho certeza!" Tais frases geniais recheadas de deliciosa ironia e um humor cortante mas refinadaço, saíram da cuca deste cara aí acima, o pensador, o escritor, o polêmico, o maldito, o maravilhosamente criativo Oscar Wilde, aqui mostrado nesta bela caricatura feita pelo caricaturista espanhol Pol Serra que ilustra maravilhas nas terras da Espanha. O link para o site dele é http://polserra.blogspot.com/
(280913)

Michael Jackson e Neguinho do Samba, um encontro celestial

Sem o habitual séquito de paparicadores e seguranças, Michael Jackson chega ao Céu, onde tem reserva garantida pois se o papa é pop, São Pedro é hiperpop. Um coral de anjinhos de olhos gázeos, fulvas e cacheadas melenas, todos desnudos como nas pinturas renascentistas vem receber com cânticos o novo habitante do sacrossanto empíreo. Ao vê-los, Michael não contém sua emoção: "Uau! Isto aqui é mesmo o Paraíso!!" São Pedro o recebe com igual entusiasmo mas não deixa barato a presença do popstar e encomenda logo de cara uma apresentação à altura do muso para louvar o Pai Celestial. Para tanto, convocam os percussionistas que já habitam por ali, na celeste morada. Ensaiam exaustivamente. Mas Michael sente que falta algo mais, um swing maior pra fazer o Paraíso vibrar com alegria no mais apoteótica dos shows. O criador do moonwalker procura São Pedro e diz que necessita de alguém para dar à grande festividade a aura perfulgente, a alma radiosa, a contagiante alegria rítmica que lhe falta. E segreda um nome ao ouvido do guardião dos Reinos do Céu. Inteirado do que Michael precisa, Pedrão cofia a barba hirsuta, medita e finalmente berra para um querubim que por ali vai passando: "Manakel, meu zifio... vai voando na Bahia, passa lá na sede do bloco Olodum e me traga urgente o Neguinho do Samba!"
(10082013)

05 setembro 2019

Os chineses e o sexo agridoce: chinesas adoram comer rolinha primavera / U Sexu nu mundo 6

Em desentendimentos conjugais, o marido chinês perde toda sua proverbial paciência chinesa com sua cara-metade e a ofende chamando-a de dragão. Acontece que na China esse negócio de dragão é coisa muito séria e aí rola a maior kung fu zão, que é uma confusão acrescida por golpes de kung fu. Vai daí que a digníssima fica indignadíssima, partindo, exasperadíssima, pra quebrar a metade da cara que pertence ao seu cara-metade. E vá ser violenta assim lá na China, pois ela, sem precisar recorrer a nenhum manual de kung fu, quebra mesmo a asiática fuça do sujeito com muita porrada e na casa do casal Imperador, digo, impera a dor. A dor é tamanha que o pobre china faz horrendas caretas e pula gritando: "Aikidô, aikidô, aikidô". Quem acha que chinês e brasileiro não têm nada em comum, não sabe que, igual a qualquer brasileiro do povão, o chinês adora um bom pagode. Vá lá que é pagode chinês, mas é pagode, ora, bolas! Aliás, por aquelas plagas chinesas, o Zeca Pagodinho é um grande ídolo. O problema para os brasileiros na China é a comunicação, que é muitíssimo difícil. Você pede ao cozinheiro do hotel para ele mandar uma pizza, mas ele Mandarim, digo,  ele manda rim e você, para não passar fome, acaba tendo que comer, mesmo a contragosto. Falando em comer, os homens chineses adoram comer brotinhos. É broto de feijão, broto de bambu e por aí vai. Ele só não come mesmo é a própria mulher, tudo porque ela já não é mais nenhum brotinho.
(281210)

04 setembro 2019

Corinthians, time amado por corintianos e adorado por palmeirenses, por são-paulinos e outros torcedores.

  
Minh’alma canta, vejo o Rio de Janeiro, estou morrendo de saudades... quero dizer, minh’alma cantava e cantava muito mesmo naquele final de 2017 porque o que meus olhos viram, maravilhados, encantados, extasiados, foi o Corinthians recebendo a taça de legítimo campeão brasileiro daquele ano, com ampla vantagem sobre todos os competidores. Campeão pela sétima vez, desde o título, até então inédito, conquistado em 1990. Depois disso, foi ganhando campeonatos nacionais por diversas vezes, incluindo esse mencionado anno Domini de 2017, quando ficou com a taça do Brasileirão pela sétima vez, com todos os méritos. Salve, salve o Campeão dos Campeões, eternamente dentro dos nossos corações! Salve Jorge!, salve Jorge! Ogunhê, meu pai! Salve, salve, salve São Jorge!, competente e profícuo santo protetor do clube de futebol mais maravilhoso desse patropi, campeão invicto da Libertadores de 2012 com um time que sabia desempenhar em campo o esquema tático de Tite, e que sobrava em habilidade técnica, companheirismo, disciplina, raça, garra, empenho e uma paixão correspondida com o bando de loucosda Fiel Torcida.
Tão bom e poderoso era este time que, neste mesmo ano, foi grande e também invicto Campeão Mundial de Clubes pela FIFA, com direito à presença maciça, participativa e empolgante da Fiel Torcida, do bando de loucos presente ao estádio em Tóquio, no Japão, como se estivesse na Arena Corinthians, uma onda alvinegra de carinho e paixão clubística sem precedentes que ocupou grande parte do estádio nipônico escrevendo na história esportiva, de forma perene, o nome do Corinthians e mostrando que o amor de sua apaixonada torcida desconhece distâncias e limites. Inesquecícel! Faço questão de frisar que estou falando de Mundial, mas Mundiaaaal mesmo, de um torneio oficial da entidade máxima que rege o futebol em todo o planeta, a FIFA - ,Fédération Internationale Football Association - só acontecendo a primeira disputa pelo ansiado Mundial de Clubes apenas no ano 2000, e este histórico primeiro torneio foi abiscoitado pelo predestinado Timão que passara pelo Real Madrid e bateu o Vasco de Edmundo Animal. 
A realização deste primeiro Mundial encerrou uma longa espera dos torcedores mundo afora. Então, falamos aqui de um Mundial de Clubes de fato, oficialíssimo, nada tendo a ver com aqueles arranjos caça-níqueis de televisões e jornais que em anos passados apregoavam que um único jogo - disputado entre apenas dois representantes de apenas dois continentes, que acontecia apenas no Japão - valia por todo um torneio, um grande, um autêntico campeonato mundial, e quem ganhasse esse único jogo, um joguinho só, entre um time sul-americano e um europeu, seria considerado o clube campeão do mundo. A imprensa criou essa mentira e hoje vê-se obrigada a sustentá-la. Ora, mas táááá! É claro que a FIFA jamais avalizou isso, nem poderia jamais avalizar, em nome da Geografia e do bom-senso. E como poderia a entidade validar algo no qual não teve a mínima participação?! Hem?! Hem?! Então, nada vale, nem lógica, nem ética, nem fundamento tem essa esdrúxula canetada do tal Gianni Infantini, dizendo que oficializa títulos pretensamente mundiais de times que não disputaram o torneio com times dos cinco maiores continentes que compõem o mundo, onde o futebol é um esporte cheio de torcedores fanáticos. Só para os que ignoram, mister se faz repetir que no mundo há cinco grandes continentes em que se pratica o futebol profissional com absoluta participação popular em seus estádios. Não dois, não três, não quatro, mas cinco. Este Gianni Infantil não passa de um cartola corrupto, que substitui outro cartola corrupto, o execrável Joseph Blatter, um sacripanta deposto solenemente depois de ocupar por apenas quatro dias o cargo, tendo sido corruptamente reeleito em 2015. Blatter, não satisfeito de passar a mão em zilhões de euros, fruto de corrupção na presidência da entidade, ainda passou a mão na esplendorosa bunda da esplendorosa Hope Solo em esplendoroso evento oficial da FIFA. Bom, já ouvi de uns caras por aí que esse é o único ato de Blatter com o qual eles concordam, e de forma - digamos - abundante. No comments.
O Corinthians, o Timão, o Coringão, idolatrado em todo esse planeta, é um dos raros times do mundo ao qual as pessoas não são indiferentes, sendo que milhões e milhões de torcedores declaram, convictos, seu extremado amor por ele, enquanto que outros tantos torcedores também amam o Corinthians com fervor, porém sem saber que o amam. São aqueles que, de maneira estentórea, declaram odiá-lo com todas as forças, que lançam toda sorte de vitupérios à simples menção do nome Corinthians, que dizem que o Timão é favorecido por complôs e esquemas milionários que obrigam árbitros de futebol do mundo inteiro a roubarem a favor do time alvinegro do Parque São Jorge. Isso é amor, um robusto e acendrado amor, embora pareça ódio. Trata-se, como diz Caetano Veloso, do avesso do avesso do avesso do avesso. Sobre essa necessidade de negar um amor intenso que se sente, vale lembrar que quando uma pessoa não ama mais alguém que um dia de fato amou muito, com todas as forças da sua alma, tal pessoa só pode estar seguro que deixou de amar esse dito alguém através de sua reação ao ouvir o nome de sua antiga paixão. Se a pessoa reage com gélido desdém, com autêntica indiferença, é porque esse alguém, que tanto caro ou tanto cara, fora em dias pretéritos, já nada importa, já passou, já não representa mais na vida da dita pessoa. Mas, se ao contrário, a pessoa reage com altas cargas de emotividade, lágrimas, indignação e uma incontrolável fúria que se faz acompanhar de toda sorte de palavrões e pragas e maldições e sortilégios... baubau! Isso é prova cabal que, sim, a pessoa ainda segue amando aquela pessoa, só que, por uma questão de orgulho dos mais bestas, busca embuçar seu desmedido amor, sua grande admiração, sua sensação de perda e sua enorme frustração por detrás de uma capa feita de alegado ódio e pretenso rancor. Assim se dá com os que se dizem antiCorintians. Eles não dedicam o tempo que têm para vibrar, declarar paixão, nem para enaltecer o time que afirmam torcer. Preferem praguejar, preferencialmente em grupos, dizendo coisas que intentam desmerecer, tirar os méritos do Corinthians que, no fundo, no fundo, eles amam como nunca amaram os times que alegam amar. Por fora, xingam, expondo argumentos os mais diversos para seu alegado ódio, mas por dentro vibram forte e comemoram as incontáveis vitórias do Timão. Eu, que não preciso escamotear o meu grande amor pelo sublime Coringão, eu - com grande orgulho, mais um no bando de loucos - de peito aberto grito muitos salves e vivas ao meu Corinthians, de tradições e glórias mil, o orgulho dos desportistas do Brasil! É nós, manôôôô! 
(30/11/2017)

03 setembro 2019

Filins inmái rarte: cantores norte-americanos made in Brasil

Numa de suas belas composições, Caetano Veloso – sempre um sábio - asseverou que só se é possível filosofar em alemão. Para grande parte dos brasileiros parece que só se é permitido cantar e gravar canções se elas forem feitas em Inglês. Basta ver o repertório apresentado por calouros em atuais programas das nossas TVs. E olha que isto já foi beeeeem pior, acreditem vocês. Nos anos setentas, em quase toda sua totalidade, cantores brasileiros foram sumariamente varridos das paradas de sucesso, programa de rádios, das TVs, da mídia em geral deste patropi abençoá por Dê e boni por naturê, maquibelê! Só se tocavam, só se escutavam, só eram divulgadas nas nossas mídias as músicas norte-americanas e inglesas. E como o ditado versa que quando você não pode com um inimigo, deve unir-se a ele, houve à época um acontecimento que vale a pena que nos recordemos sempre, dado o inaudito e o irônico do fato. Um novo contingente de gringos, nomes nunca dantes consagrados, sequer ouvidos até então, foi invadindo rádios e TVs tupiniquins, sem esbarrar nas mesmas resistências às canções e aos cantantes brasileiros, tocando, recebendo enorme consagração popular, integrando trilhas musicais de novelas, vendendo toneladas de discos, ficando meses em paradas de sucesso. Estes gringos, a bem da verdade eram "gringos", grafados assim, com aspas, por serem tão norte-americanos e ingleses quanto você e eu. Em outras words, eram cantantes made in Brazil que acharam um jeitinho de fazer chegar a hora desta gente bronzeada mostrar seu valor. Pois é, pois é, "norte-americanos" e "ingleses" nascidos por aqui mesmo, já que eram cantores e compositores brasileiros que, para burlar a aparentemente intransponível barreira erguida pelo aculturamento, passaram a compor músicas no idioma de Bill Shakespeare e a adotar como pseudônimos uma lista de nomes de origem anglo-saxônica para dar mais credibilidade, lembrando um recurso que cineastas e atores italianos empregavam, à época, ao produzirem seus contestados spaghetti westerns. Para completar, as capas de tais discos feitas de forma a parecer que eram originalmente produzidos no exterior, e assim os nossos criativos “gringos” iam conseguindo seu lugar under the sun. Ou seja, foi imprescindível essa bendita transgressão para que muitos artistas brazucas conseguissem fazer sucesso. E que sucesso, que sucesso! Nomes como Morris Albert, Terry Winter, Mark Davis, Tony Stevens, Steve Maclean e Michael Sullivan, entre outros, que embalavam as festinhas adolescentes, adentravam os lares, vendiam pilhas e pilhas de discos, ficavam meses nas paradas de sucesso. E depois de conseguirem esta façanha, partiram para uma maior, e começaram a figurar por largos tempos nas paradas de sucesso de diversos países e a serem gravados e regravados por gringos, estes, sim, autênticos. Morris Albert, por exemplo, teve sua composição "Feelings" gravado por cantantes do mundo inteiro, incluindo os lendários Frank Sinatra e Elvis Presley, façanha que muitos grandes compositores ianques não lograram conseguir por mais que se empenhassem neste desiderato. Outros grandes astros e estrelas da música norte-americana, como a grandiosa Nina Simone, também a gravaram. A lista de celebridades a gravá-la é vastíssima, incluindo o supracitado Caetano Veloso, a diva Ella Fitzgerald e Barbra Streisand. No filme "Susie e os Baker Boys" a canção extrapola seu lugar na trilha sonora e invade o roteiro pois ela é o pomo da discórdia entre os personagens da lindinha Michelle Pfeiffer e os brothers Jeff e Beau Bridges. Aliás a canção está em mais de uma centena de filmes, séries e novelas televisivas. Morris vendeu mais de 160 milhões de discos pelo planeta! Uau! Uau de novo! Ontem, ao rever "Entre Tenieblas", de Almodóvar, percebi que uma das músicas utilizadas era "Dime", grande sucesso na Espanha. Nada mais que uma versão em língua espanhola para "Feelings", de Morris Albert. Um dia, um juiz da corte norte-americana afirmou em sentença que ao compor a música, Morris teria plagiado uma antiga canção de nome "Pour toi", composta em 1956 pelo francês Loulou Gasté, canção essa gravada por Dario Moreno, que fazia parte da trilha sonora do filme Les Feux aux podres
Muita gente que opina concorda que há semelhanças, notadamente nos acordes iniciais da canção, mas que elas não chegam a se constituir em um plágio, discordando frontalmente do juiz, cuja sentença foi amplamente favorável ao compositor francês já que, no entendimento do maugistrado, Morris deve ser considerado apenas o autor da letra em Inglês, um absurdo que configura um autêntico assalto jurídico adredemente consumado em um tribunal, e nós, brasileiros, sabemos sobejamente o que é essa coisa de juízes tendenciosos, abjetamente parciais, que agem ao arrepio da lei atropelando a verdade, a decência, a honestidade e os pricípios mais basilares da Constituição e do Direito, em nada se importando com as consequências calamitosas que suas injustas decisões haverão de impor às vidas de terceiros. 
Polêmicas jurídicas à parte, ''Feelings" tornou-se incontestavelmente um dos imortais clássicos mundiais da canção graças ao talento de Maurício Alberto, nome verdadeiro de Morris, sendo Maurício um cidadão brasileiro, um paulista que, nesse país tantas vezes tão surrealista, por força das circunstâncias, tornou-se certo dia um antológico e inolvidável cantor e compositor “gringo”.
(12/05/2013)

02 setembro 2019

O cineasta Jim Jarmusch, o músico e cantor Screamin Jay Hawkin, Rock'n roll e Cinema.

Sou sabedor do elevado nível de inteligência e de conhecimentos gerais de vocês, preclaros leitores desse bloguito. Ainda assim, intuo que ao indagar se algum de vocês conhece ou já ouviu falar de um cara chamado Jalacy, um sonoro “não” será unânime. Talvez ajude um pouco se eu disser que Jalacy Hawkins era um negro norte-americano nascido em 18 de julho de 1929 em Cleveland, Ohio, USA. Mas a coisa seguramente mudará de figura se eu disser que Jalacy era músico de talento e cantor, idem, idem, e que ele usava o nome artístico de Jay Hawkins. Jay marcou a cena musical ianque, notadamente o rock’n roll, sendo um dos construtores desse estilo de música que é muito mais antigo do que podem imaginar os roqueiros mais aficionados, tendo esse dito estilo musical surgido da cultura negra, mantendo grandes analogias com o blues e outros ritmos negros, em que pese o fato de – Chuck Berry à parte - que os maiores ídolos sempre foram brancos, como Elvis, Jerry Lee Lewis, Bill Halley, todos muito talentosos, e outros mais, que é que se pode esperar em uma sociedade de supremacia branca. Jay era incrivelmente bom e inovador, tendo criado um estilo personalíssimo que findou por influenciar grandes estrelas do rock contemporâneo que são amados por fãs adolescentes que nos quatro cantos do mundo se descabelam por esses seus ídolos. Quem conhece e admira o canto e as interpretações de Janis Joplin, certamente reconhecerá em seu estilo intenso e vibrante a influência enorme de Hawkins. Quando cantava, Jay sabia usar sua expressividade de ator, assim, uma das suas características marcantes era uma interpretação de grande intensidade em que ele emitia gritos e grunhidos para fazer chegar, sem desvios, aos que o viam e ouviam, a sua força interior. Tão marcante isso era que ele ganhou um sugestivo aditivo em seu nome, sendo conhecido como Screamin Jay Hawkins. Ele foi um ator com considerável filmografia, já que mandava muito bem diante das câmeras. Muito boa, lúdica e profundamente divertida, é a sua atuação em Mistery Train, de 1989, bela película dirigida pelo criativamente inusitado Jim Jarmusch. O filme pode ser encontrado acessando-se o Youtube, se as coisas não mudarem enquanto faço esta postagem. O áudio é original, vez que Jarmusch exige que os áudios originais de seus filmes sejam mantidos para exibições em qualquer país, descartando o uso de dublagens. A cópia que vi tinha legendas em Italiano, o que certamente pode ajudar a compreender os diálogos originais, principalmente na parte em que dois jovens atores japoneses - um casal apaixonado por rock n'roll - dizem suas falas usando seu idioma pátrio. Uma das músicas de Screamin Jay, I put a spell on you, tornou-se um clássico e tem ótimas regravações, sobressaindo-se a versão arrasadora gravada pela não menos arrasadora Nina Simone. Esta antológica interpretação de Nina dá o clima exato a uma cena dramática do filme A balada de Jack e Rose - de Rebecca Miller, com Daniel Day-Lewis e Camilla Belle - em que a protagonista, uma adolescente às voltas com paixões marcantes, o florescer de sua sexualidade e com emoções delicadas de se lidar, tem seus longos cabelos cortados em uma sequência que vai mostrando as madeixas caindo em câmara lenta ao som da voz de Nina entoando a música de Screamin. Garimpem este belo filme de Jim Jarmusch, Mistery train, no Youtube ou em outro sítio da web, e deliciem-se com esse vídeo, vendo e ouvindo o grande, o magnífico, o inigualável Screamin Jay Hawkins.

01 setembro 2019

Biratan Porto, Belém do Pará, Setúbal, Flavio Colin e uma nova tradição

 
Coisa impensável entre católicos praticantes e juramentados é ir a Roma e não ver o Papa. Pois em verdade, em verdade vos digo, fiéis leitores, que um cartunista autêntico ou um genuíno desenhista de histórias em quadrinhos que preza seu ofício, em caso de visita a Belém do Pará, tem o sagrado dever de ir ao estúdio de Biratan Porto, que é também seu lar, pedir a benção ao piramidal cartunista. Se for contemplado com a indeclinável honraria de ser convidado para tal visitação, é claro. Benção pedida e concedida, a coisa não pára por aí, pois no larestúdio do Biratan estando, sem que nenhum protocolo ou norma de etiqueta assim o determine, o desenhista deve em determinado momento do papo, colocar-se ao lado de um pôster com um desenho do incomparável, inigualável e insuperável Flavio Colin, que Bira mantém em uma das paredes à guisa de decoração e homenagem ao Mestre dos Mestres. Foi exatamente o que fiz, preclaros leitores. Mal troquei algumas idéias com meu anfitrião e...catapimba! Lá fui eu, alegre e altaneiro, posicionar-me ao lado do belo pôster de Colin, para ter uma foto minha comprovando que vivi tão honroso momento. A pose não foi estudada, mas ao ver a foto pronta, nota-se que nela, enquanto aponto orgulhoso a assinatura de Colin, seu personagem, o detetive Castro, ameaçadoramente aponta sua arma automática para meu coração vagabundo que quer guardar o mundo em mim. Em contraponto, no alto, enquanto toca um telefone, uma delicada mãozinha feminina vem sensualmente acarinhar os meus cabelos longos e anelados, os quais costumo domar com toneladas de gel. Papeando depois com meu piramidalístico amigo, fico sabendo que essa história de visitantes posarem ao lado do dito pôster é algo que jamais foi planejado, sendo coisa que foi acontecendo natural e espontaneamente, e que aos poucos parece que vai se transformando numa espécie de cultuada tradição entre os cartunistas que visitam o larestúdio. Com o carisma e a popularidade de Biratan, não será surpresa se um dia esse ritual visitativo tiver um público comparável ao tradicional Círio de Nazaré. Ao Bira envio, aqui da Bahia, meus mais amistosos amplexos e os mais fraternais ósculos. Aproveito o ensejo e ilustro esta postagem com a mencionada foto, que é para nenhum vivente, cartunista ou não, duvidar do meu marcante feito. Razão, muita razão, têm os meus amigos escritores Gonçalo Junior, Vitor Souza e Tom Figueiredo, quando propagam aos quatro ventos que eu não sou fraco, não! 
(14/12/2016) 

30 agosto 2019

Mulher de Libra no Horóscopo de Vinicius de Moraes

A mulher de Libra
Não tem muita fibra
Mas vibra
Quer ver uma libriana contente?
Dê-lhe um presente.
Quando o marido a trai
A mulher de Libra
balança mas não cai.
Se você a paparica
Ela fica.
Com librium ou sem librium
Salve, venusiana
Que guarda o equilíbrio
Na corda mais fina.
(121013)

27 agosto 2019

Os japoneses em seus mínimos detalhes sexuais / U sexu nu mundo 5

O Japão é um país de pequenas dimensões, sabido é. Devido a isto, e à consequente falta de espaço, tudo lá é pequeno em tamanho, menos os lutadores de Sumô. Os apartamentos são todos verdadeiras quitinetes, os rádios são pequenos, as telas dos aparelhos de TVs são minúsculas, os celulares, idem, os carrões de lá são do tamanho daquele do Mr. Bean. Até o biótipo japonês parece acompanhar esta tendência pois os pés das graciosas japonesas são bem pequenininhos. Menores que eles só mesmo as bimbinhas dos homens japoneses, fato que não os deixa nem um pinguinho complexados como ocorre com os brasileiros mal dotados. Se você assistir um filme de sexo explícito feito no Japão, vai logo perceber que os atores pornôs japoneses não tem o mínimo grilo com relação ao diminuto tamanho do seu, digamos, instrumento de trabalho. Entram em cena sem nenhum constrangimento, como se fossem uns autênticos pés-de-mesa. Antes de partir para cima da atriz pornô, o nipônico olha com orgulho para a própria varinha e grita: "Tora! Tora! Tora!". Pensar grande é isto aí. Já no plano familiar, sabe-se que quando vai comer sua venerável esposa, o marido japonês costuma usar dois pauzinhos. Um, é o dele mesmo. O outro é o pauzinho do Ricardón San que está sempre disposto a colaborar porque adora comer primeiro o sashimi e depois o tofu da mulher do seu amigo.
(04/12/10)

25 agosto 2019

Flavio Colin, desenhista de quadrinhos magistral e um cara muito, muito especial

Um dia um anjo torto me colocou o dedo na testa e me disse: "Vai Setúbal, ser desenhista de quadrinhos na vida." Pensei então: "Caraca!, estou acima dos outros. Um anjo, um emissário do Onipotente, me tocou a testa e me fez um cara especial". Ainda um neófito, lesto e presto saí por aí empolgadíssimo, rabiscando tudo o que via pela frente, feliz por poder fazer coisas que outros não sabiam fazer e estas gentes vinham e me circundavam com olhos embevecidos a cada ainda incipiente traço que eu traçava para maior gáudio do meu já mui inflado ego. Até que um dia me caíram às mãos revistas com os desenhos de Flavio Colin. Meus olhos saltaram em órbita, meus joelhos tremeram, meu coração disparou um retumbante som de percussão. Que traço maravilhoso, personalíssimo, seguro, quanta criatividade ao desenhar personagens apaixonantes, indumentárias, animais, natureza, cenários! Um sentimento difícil de traduzir em palavras tomava conta de mim a cada nova conferida naquelas maravilhas em preto e branco, sensação que se mostrou perene. Desde seus primeiros trabalhos Colin mostrava desenhar quadrinhos como um Mestre legítimo, anos luz à frente de tantos bons profissionais.
Atônito, um tanto frustrado, meio jururu, voltei ao anjo e lhe disse: "Pô, bró! Eu queria que meus desenhos fossem assim, tão maravilhosos como os deste cara". Inabalável, com certo enfado no olhar e ares de este-cara-já-tá-querendo-demais, bem pouco angelical o anjo redarguiu: "Nada posso fazer, meu caro. Mesmo entre os especiais há aqueles que são, digamos... bem mais especiais que os outros. E meu chefe diz que Flavio Colin, amizade, é um cara muito, muito especial!"
(120414)

24 agosto 2019

Loredano, caricaturista maior / Uns caras que eu amo 4


A maior fera que já vi fazer caricaturas neste planeta azulzinho que habitamos é Loredano, o grande Cássio Loredano. E olhe que há gente muito boa caricaturando mundo afora. No Brasil esta sempre foi uma arte que nos brindou com talentosos artífices. Nas décadas mais recentes ampliou-se o número de caricaturistas notáveis, bons de traço e ideias. Muitos deles são virtuoses nos programas de computação e ali produzem caricaturas esplêndidas. Bom, é fato que se muitos caricaturistas brasileiros evoluíram no aspecto grafico, perderam na essência e estão fazendo um tipo de arte graficamente bonita, sim, mas com um conteúdo político deplorável, para dizer o mínimo. Em verdade, este é um mal que atualmente observado em um certo número de cartunistas e chargistas do Brasil, não se limitando aos caricaturistas deste patropi. Voltando a Cássio Loredano, tive eu - Deus é bom - a grande fortuna de havê-lo conhecido em pessoa durante uma exposição da Fiocruz, no Rio de Janeiro, há bem uns 20 anos. Bebericamos, batemos um papo agradabilíssimo em mesa de bar entre outros amigos desenhantes tais como Amorim e Dil Márcio. E me prestou Cássio uma prestimosa e assaz luxuosa assessoria para que eu pudesse contar ao grupo de cartunistas uma piada sobre lusitanos, com o devido respeito, de maneira politicamente correta, sendo eu um cara respeitador das soberanias nacionais, artigo tão escasso na atualidade. Pelo fato de Cassio Loredano haver morado em Portugal, o acento português que reproduzia em suas falas era escorreito, mil vezes melhor que o meu lusitano sotaque altamente canastrão. Vai daí que, com a caveira cheia dos mais diversos e capitosos licores, eu ia contando a piada e nos momentos em que nela havia a fala de um lusitano, imediatamente eu repassava ao Loredano a incumbência de repeti-la em voz alta aos demais, com o seu impecável sotaque luso, coisa de fazer babar quaisquer Camões, Fernandos Pessoas ou Amálias Rodrigues. Nós e todo o grupo ríamos às escâncaras, não pela piada em si, mas pelo nosso canhestro mise-en-scène, reforçado pelo fato da piada ser contada a quatro mãos. Ou duas vozes, sei lá. Além de ser o gênio da caricatura que é, Cássio Loredano é um gentleman, um cara bem humorado, de bem com a vida, cordato e, nem preciso dizer, inteligentíssimo. Sempre admirei nele seu traço elegante e sua maneira única e original de distorcer, quando o quer, as faces, os corpos de seus modelos e fazer com seu traço mágico uma cirurgia desconstrutiva tal que algumas vezes o nariz vai parar acima dos olhos - como no caso dos escritores Saramago e Nelson Rodrigues aí em cima - sem que se perca a impressionante fidelidade ao rosto, à personalidade do modelo. Os trabalhos aqui postados são antigos e você, leitor, valendo-se da internet poderá se deliciar com um mundo de desenhos loredanísticos outros. Hoje em dia há uma certa tendência das revistas e jornais de só utilizarem vistosos desenhos supercoloridos, executados em computadores nos mais hodiernos programas por aqueles artistas infovirtuosos supracitados. Os editores optam sempre pelas artes executadas através de programas de computaçào em detrimento dos trabalhos que seguem a linha mais tradicional. Mas Loredano - assim como faz Ziraldo e Shimamoto e tantos outros, e como o fazia o genial ilustrador Flavio Colin - usando na maioria das vezes apenas nanquim preto, prova que a verdadeira genialidade está acima de modismos e tendências na ordem do dia. As caricaturas de Cássio Loredano são um deleite, um colírio, um bálsamo para olhos e almas. Pela Europa, onde ele já passou, morou e publicou, há um monte de seguidores seus. Lá, como cá, quem sabe o que é bom fica fã incondicional das  caricaturas exatas de Loredano que, dentre tantos caricaturistas maravilhosos espalhados por este imenso orbe, é aquele que mais me impressionou desde sempre. Axé procê, Cássio Loredano!
( 200813)

Cafezinho na Bahia: a pausa que aquece ainda mais nossos calorosos corações.

 
Quem pensa que pelo fato de vivermos numa ensolarada urbe nós, soteropolitanos, não somos chegados a uma rubiácea quentinha, em muito se engana. Apreciamos, apreciamos e muito, seja dia, seja noite, brasileiros somos. Só que ao invés de sorvermos o cafezinho nosso de cada dia em balcões de bares ou padarias apinhadas de gentes, como sói acontecer em São Paulo e no Rio de Janeiro, preferimos fazê-lo ao ar livre aproveitando uma boa brisa vinda do mar do Atlântico que fica logo ali na esquina. Nós não vamos ao cafezinho - que aqui chamamos carinhosamente de menor ou menorzinho, sendo que o sem leite é singelamente batizado de pretinho. Aonde quer que estivermos, ele é que chega até nós em simpaticíssimos carrinhos de café, coisa da criatividade do proletariado soteropolitano que bolou e que fabrica os tais transportadores do quente e oloroso café acondicionado em diversas garrafas térmicas que nesta afrocity chamamos de quente-frio. E lá se vão pelas ruas, ladeiras, altos, baixos, alamedas, vielas e becos de Soterópolis os carrinhos empurrados pelos seus orgulhosos donos, e é aquele desfile de matar de inveja os imponentes carros alegóricos das escolas de samba do Rio de Janeiro e de Sampa, sendo cada carrinho de café personalizado pelo seu justificadamente orgulhoso proprietário. Este vendedor, aliás, aqui batizamos de café ou cafezinho e assim, respeitosamente, o chamamos quando queremos sorver um revigorante menor. Aliás cada um deles com suas características próprias segundo o gosto estético do envaidecido dono que o vai enfeitando dia a dia. Vale escudo do EC Bahia ou do EC Vitória, adesivos diversos, luzes e o escambau, e aí fica um mais bonito que o outro - alguns até são dotados de som em altura moderada - e neles se vendem ainda cigarros para os incorrigíveis e assaz contumazes, inveterados e renitentes tabagistas. Neles  também se mercam os tradicionais queimados, que é como nós baianos simpáticos e cheios de malemolência, batizamos o que em outros rincões desta vasta Pindorama chamam de balas. Balas para nós são só aquelas que malfeitores, sicários, milicianos e policiais, fartamente e a qualquer hora, despejam pelos espaços urbanos, cada um do seu lado e nós, cidadãos comuns, no meio tentando se esconder e apelando a um dos muitos santos que tradicionalmente são escalados para prestar tais protetores serviços entre nós. Mas enquanto essa galera do mal não vem nos apoquentar, ficamos ali na boa, olhando o mar azulzinho, curtindo uma brisa que nos mitiga a alma e sorvendo com vagar o mais delicioso dos cafezinhos que há neste orbe. Para melhor dar uma ideia do que dito foi, não perdi tempo e esta cena genuinamente soteropolitana aí acima eu fotografei com minha Rolleyflex de tinta acrílica, depois usei um tostão de Photoshop, enquanto bebericava um menorzinho vindo de um quente-frio do carrinho de um cafezinho que passava assobiando sob minha janela.
(25/04/14)

22 agosto 2019

Havia vida antes da Internet? (Lembrando Sylvio Lamenha, Ademar Gomes, Ariovaldo Matos, Alvinho Guimarães)

Dias destes numa postagem citei o grande cronista baiano Sylvio Lamenha. Cronista só é pouco dizer. Sylvio era um homem de invejável cultura, dominava a arte de bem escrever, era grande e inspirado frasista e usava bordões criativos como "a poesia é o axial" e "resistir, quem há-de?", que as pessoas viviam repetindo. Cito, de memória, que ele foi repórter, cronista, compositor, professor, ator do cinema novo. Ah, e um imitador sem igual da maravilhosa Dalva de Oliveira, chamada em vida de A Rainha da voz. Para desespero de alguns amigos mais tradicionalistas e de modos mais discretos que temiam a língua viperina do povo, Lamenha soltava seus trinados a alto e bom som onde quer que chegasse, sem levar em conta o ambiente e quem lá estivesse, sem se importar com olhares reprovadores e reprocháveis ouvidos. Sylvio, de tantos aspectos e predicados, era um gay avant la lettre. Hoje fico desnorteado ao perceber que Lamenha é totalmente desconhecido das novas gerações. Ele, sempre tão brilhante, foi apagado do imaginário popular, delido dos arquivos da existência. Ocorre que os feitos de sua rica vivência não foram registradas na maior fonte de pesquisa do mundo atualmente, a internet, já que à época ela ainda engatinhava, não sendo ainda o que é hoje, uma fonte de fundamental importância, praticamente indispensável e por vezes única para grande parte das pessoas. Não se pode atribuir a isso toda a razão para tão lamentável esquecinento, mas que tem muitíssimo a ver, é certo que sim. Não está na internet, não existiu, não existe, não existirá. Isto, ressalte-se, não se resume a Sylvio Lamenha, é fenômeno que ocorre com muita gente que viveu antes da informática tornar-se gênero de primeira necessidade. Pessoas de grande importância e vidas tão intensamente vividas em todos os aspectos foram relegadas a esse verdadeiro limbo cultural, simplesmente por serem da era pré-Internet. Procuro fotos e textos sobre Sylvio na Web e quase nada encontro. Bem como procuro em vão coisas sobre Alvinho Guimarães, ator e diretor teatral de grande importância e atuação na cena baiana, citado de forma reverente em várias páginas do livro Verdade Tropical, por seu autor, ninguém menos que Caetano Veloso. Procuro sem sucesso coisas sobre Ariovaldo Matos, jornalista e escritor talentoso, a quem não conheci em vida, apesar do considerável número de amigos em comum. O mesmo se dá em relação ao também jornalista e escritor Ademar Gomes, meu grande e estimado amigo, de quem ilustrei muitos livros e que se foi deste mundo levando parte de minha alegria. Hoje releio livros que ele escreveu e isto me traz de volta a inventividade, o humor e o talento deste amigo que escrevia coisas inusitadas, tiradas do seu convívio com um monte de gente aqui deste afro-terrão chamado Soterópolis. Não é justo que ele e tantos seres criativos sigam exilados nesta autêntica Zona Fantasma, embora saibamos que a vida nem sempre é justa. Para modestamente tentar lhes trazer um mínimo de visibilidade, aqui neste meu singelo bloguito vou postar alguns escritos de Ademar Gomes onde ele fala de si próprio enquanto fala dos seus confrades ilustres, como Sylvio Lamenha e Ariovaldo Matos . Eles merecem, gentes do bem que foram, seres criativos, profícuos e atuantes em suas vidas vividas intensamente, que é como se deve viver.
(13 / 04 / 14)

Travecos tipo exportação made in Brazil

 
O traveco é uma instituição das mais sólidas neste torrão auriverde, um patrimônio nacional de valor inestimável e um dos mais cobiçados produtos de exportação deste patropi abençoá por Dê. Os franceses, por exemplo, se curvam - e bote se curvam nisto - ante os les travequês delapatri  brésiliene, que podem ser encontrados às centenas no Bois de Bologne caprichando no biquinho e falando no idioma de Mollière e de Zola lindas palavras como ménage à trois e voulez-vous une boquettê, missiê? Já na terra de Dante Alighieri, nossos estóicos traveconni agitam a massa, coisa que Rubinho Barrichello, mesmo tendo sobrenome itálico, nunca conseguiu fazer quando estava na Ferrari. Aqui nesta Soterópolis de Carla Peres e de loiras e morenas do Tchan, os travecos sofrem uma desleal concorrência e têm de rebolar para ganhar o pau, digo, o pão de cada dia. Por sorte, contam em sua defesa com o CATSO (Centro de Amparo aos Travecos Soteropolitanos Oprimidos), que é um órgão vibrante que está aí para provar que as bibas baianas não são de fugir do pau não, senhor. Ora, que despautério!
(21/03/12)

17 agosto 2019

Todo baiano é um Dorival Caymmi.

A imagem que muita gente no Brasil guarda dos baianos é de um sujeito folgazão, deitado numa rede, morena do lado, voz de estentóreo timbre que entoa canções do mar, um oceano azulzinho pela frente, olhar de pura  indolência e corpo pleno de malemolência. O estereótipo é um, a realidade bem outra. O fato é que neuroses e fobias não são privilégios de paulistas, gaúchos e cariocas ou de qualquer outro cidadão deste imenso país, vez que nós, baianos, somos igualmente neuróticos como qualquer outro vivente normal. Ou anormal, veja você aí, atilado leitor. Acontece que eu sou baiano, acontece que ela não é, quer dizer, por aqui temos a fortuna de possuirmos nas paredes da nossa etnologia índio-afro-lusa, mui ricamente emoldurado, um retrato de Dorival Caymmi, cujo modus vivendi tão invejado por tantos e tantos muitíssimo ajuda a fazer as pessoas pensarem que nós, soteropolitanos e baianos em geral, somos uns seres humanos fora do catálogo, de bem com a vida 24 horas por dia, sete dias na semana, 365 dias por ano. Ou mais que isso. Por uma imagem que tantos compatriotas invejam, direciono a Caymmi, a minha mais que completa admiração e justificada gratitude. Ah!, e esta caricatura aí em cima, pequena homenagem que faço a este formidável Buda Nagô, que se fez eterno através de suas dulcíssimas composições.
(30/04/2014)

José Cândido de Carvalho e seu magnífico romance O Coronel e o lobisomem

Sempre que posso, releio "O coronel e o lobisomem", de José Cândido de Carvalho. Ou ao menos parágrafos que costumo marcar a lápis, quando gosto muito. E cada releitura, acreditem, é plena de renovada emoção, enlevo e contentamento. Tudo neste livro é maravilhoso e pra mostrar, reproduzo aqui um trechinho que dá uma boa mostra de como José Cândido constrói com rara maestria sua literatura feita de brasilidade, magia e encantamento: "Olhei em derredor. Um fogo de labareda, de cambulhada com um bater de patas, vinha do aceiro. Era o Diabo em seu trabalho nefasto. Pois ia ele saber quem era o neto de Simeão, coronel por valentia e senhor de pasto por direito de herança. Sem medo, peito estofado, cocei a garrucha e risquei, com a roseta, a barriga da mulinha de São Jorge. A danada, boca de seda, obedeceu a minha ordem. O luar caía a pino do alto do céu. Em pata de nuvem, mais por cima do arvoredo do que um passarinho, comecei a galopar. Embaixo da sela passavam os banhados, os currais, tudo que não tinha mais serventia pra quem ia travar luta mortal contra o pai de todas as maldades. Um clarão escorria de minha pessoa. Do lado do mar vinha vindo um canto de boniteza nunca ouvido. Devia ser o canto da madrugada que subia."
************Ilustração feita no Photoshop com o mouse do PC / Arte que se reparte
(10/10/14)

16 agosto 2019

Fernando Pessoa, criadas, moços de fretes e o fingimento do poeta / Arte que se reparte

Durante longo tempo trabalhei diariamente em redações com a incumbência de ilustrar matérias, artigos, crônicas e coisas quejandas, entre as quais se incluem a feitura de caricaturas e retratos de insignes gentes, como o grande poeta da língua portuguesa, Fernando Pessoa. Para aproveitar o momento, eu sempre buscava experimentar toda sorte de materiais que me possibilitassem fazer uma boa ilustração e ao mesmo tempo, me permitissem conhecer mais do uso desses referidos materiais. Um deles, o lápis 6B, foi o que usei para fazer em papel westerprint 180 gramas este retrato do grande, do formidável poeta fingidor que fingia tão completamente que chegava a fingir que era dor a dor que deveras sentia, que sofria enxovalhos e se mantinha calado, fingindo não perceber a troça das criadas de hotel nem o piscar de olhos dos moços de fretes. Gajo porreiro, gajo fixe, o Pessoa. Cabra bão!
(180518)

James Joyce, quem diria, também morou na Bahia

 
James Joyce, apesar de ter nascido na fria Irlanda, ficou conhecido mundialmente por haver escrito Ulysses, biografia do brasileiríssimo deputado Ulysses Diretas Já Guimarães, democrático político deste assaz ensolarado país tropical abençoado por Zeus, boni por naturê e tão amado por todos nosotros, quase sempre follados e mal pagos. Enquanto escrevia sua obra-prima, Joyce fixou residência no Brasil, mais exatamente em Salvador, na Bahia, escolhendo o bairro do Bonfim, cuja famosa colina de forma significativa lembrava a ele a topografia irlandesa. De família abastada e fervorosamente católica, o escritor sentia falta das tradições de sua terra natal, notadamente a popular lavagem das escadarias de Dublin. Para suprir tal falta, amealhou um batalhão de baianas devidamente paramentadas de brancas vestes, colares e indefectíveis balangandãs e, estando todas munidas de vassouras e quartinhas com água, com elas lavou as escadas da igreja de seu bairro soteropolitano. Os baianos, sempre hedonistas e chegados numa boa muvuca, gostaram do que viram e se juntaram incontinenti à patuscada com seus instrumentos musicais. Pronto. A lavagem das escadas de Dublin davam destarte origem à hoje tradicionalíssima Lavagem das Escadarias do Bonfim, festa que nestes tempos hodiernos arrasta multidões de fiéis e infiéis do mundo inteiro para esta afrocity Soterópolis, que a todos acolhe na sagrada colina incrustada nesta afro-terra de dendês e morenas frajolas e gentes bonitas de todas as etnias, chamada Bahia. Thanksthanks so much, Jojó!
(10/10/13)

10 agosto 2019

José Luis Torrente, um símbolo incontestável da masculinidade contra o homossexualismo.

Dentre os infindáveis estereótipos que estamos habituados a ver em cenas de filmes norte-americanos está aquele em que dois policiais com a missão de patrulhar as ruas da cidade estão no interior de sua viatura, curtindo aquela calmaria que costuma anteceder os grandes conflitos, conversando amenidades e saboreando com volúpia enormes e deliciosos donuts, que são uma espécie de rosquinha ianque com variados recheios e coberturas transbordantes de caldas com muito açúcar. Na ótima série de comédias do cinema espanhol em que o ator Santiago Segura interpreta o anti-herói José Luis Torrente, um agente policial franquista, racista, machista e fascista, xenofóbico e homofóbico, essa famosa cena é um tanto diferente. Enquanto está com um outro policial dentro de um carro, apatrullando la ciudad ou montando campana em alguma investigação, sob o pretexto de relaxar das tensões da vigília e passar o tempo que monotonamente se arrasta, Torrente propõe ao colega que ambos se masturbem de forma mútua. Os já iniciados nessa práxis topam na hora e partem logo para a punhetística parceria, certamente por acharem isso muito mais interessante que ficar se lambuzando com os tais donuts. Já os policiais novéis nessa prática de onanismo em dupla, relutam diante da proposta, alegando que isso não é coisa que fique bem entre dois sujeitos héteros, mas acabam cedendo diante de um argumento definitivo de Torrente que afirma que tudo é feito observando o respeito às mais ortodoxas normas do machismo. Enquanto cada um manipula freneticamente la polla alheia, ou seja, o membro, a piroca, a verga do outro, percebendo que seu parceiro deixa escapar longo e sonoro gemido de prazer, Torrente, resfolegante, em bom espanhol o adverte: ”Sin mariconadas! Sin mariconadas!”.
(091218)

Deus e o dom do caricaturista



Parte do meu ofício consiste em fazer caricaturas ao vivo de simpáticas gentes as quais nunca vi mais obesas ou mais esquálidas. As pessoas geralmente adoram participar de eventos que contem com caricaturistas. E ao me verem empunhar o lápis e da virginal brancura do papel fazer surgir a figura de alguém que posa, deixam escapar aquilo que certamente todos os caricaturistas ouvem também: "É um dom!" Como se um querubim a serviço do Criador - ou Ele próprio - tivesse tocado a testa de cada um de nós e nos legado o tal "dom" que nos diferencia dos demais mortais. Longe estão de imaginar que faço - e certamente a maior parte dos caricaturistas o faz - um extenuante e repetitivo esforço para tentar estabelecer uma relativa intimidade com a arte de bem desenhar. Cotidianamente gasto resmas de papel rabiscando, esboçando, bosquejando, debuxando, hachurando, traçando, fazendo, refazendo, corrigindo. Chega a ser algo obsedante. Comecei a fazer caricaturas ao vivo nos anos 80, empurrado por Gonzalo Cárcamo, um chileno com cara de abastado sheik árabe que morou nesta afroterra. Com ele aprendi também o método profícuo e agradável de unir intenso treinamento artístico com o lazer. Munidos de prancheta e papel lá íamos nós para as praias, locais onde encontrávamos à disposição um batalhão de modelos, muitos inertes deixando-se tostar pelo sol. Banhistas, vendedores, adultos, crianças, anciões, núbios, sinos, arianos...uma festa. Aí, discretamente, enquanto se bebia umas cervejinhas e se comia uns caranguejos e lambretas, íamos produzindo estudos e mais estudos da figura humana ao vivo. Até hoje, já sem a companhia de Cárcamo que agora mora em Ilhabela, SP, sigo o método com empenho. Isto, via de regra, resulta em uma natural evolução do desenho e uma maior segurança no traço. Em sua quase totalidade as pessoas soem ignorar todo este esforço e esta dedicação ou até mesmo optam por não acreditar neles, preferindo atribuir tudo ao que chamam de "dom ", o que nos faz sermos vistos com imerecida aura divina. Já não tento demover ninguém deste equívoco, ajeito a indevida auréola sobre minha cuca, pego minha velha pranchetinha, meu prosaico lápis e vou à luta.
Ilustro esta postagem com alguns dos desenhos para estudos que fiz na praia de Jaguaribe, próximo à Itapuã. 
(021113)

Affonso Manta, poeta: masoquista light

Para o dulcíssimo deleite dos meus mais lirísticos leitores já postei aqui alguns dos versos pra lá de criativos e irreverentes do mui inspirado poeta baiano Affonso Manta para mostrar a vocês que a boa poesia baiana vai muito além do consagradíssimo vate Castro Alves. Navegando nas info-ondas da internet, pesquisando com acuro, achei estes outros versos de Manta, com sutil toque sadomasô, que são uma rara delícia para encantar os mais refinados paladares. Bon appétit.
Pisciana
Celeste é meio indócil, mas serena.
De gênio calmo. Mas de amor fogoso.
Ela me dá felicidade plena
E surra de cipó de fedegoso.
(161013)

08 agosto 2019

O rumoroso caso de amor entre o jornalista Gonçalo Júnior e sua nona.

É com o precípuo escopo de tirar onda de gostoso e posar de intelectual versado em assuntos os mais diversos que passo uma razoável parte do meu tempo lendo o que bons autores escrevem. Não há qualquer intenção nobre nisto tudo, acreditem, pios leitores. Trata-se de meu rotundo e insaciável ego querendo alimentar-se de afagos e salamaleques, mesmo que através de mui imerecidos elogios. Já confidenciei a vocês mas, por garantia, mister se faz que eu volte a confidenciar, que ao assim proceder, lendo um razoável número de livros acabei desenvolvendo alguns traquejos e adquirindo certa prática para bem saber discernir entre os que, em reduzido número, são de fato bons autores e aqueles, em largo contingente, que equivocadamente julgam que o são. Por exemplo, em matéria de competência, quando o papo são as Histórias em Quadrinhos, não vacilo, leio uma fera que domina o assunto de nome Gonçalo Júnior, respeitadíssimo na área. Gonçalo é jornalista atuante, dos mais conscientes da importância e dos verdadeiras propósitos de sua profissão, é fundador e editor da prolífica Editora Noir, em SP. Ele não se limita a ser uma autoridade na chamada nona arte, vai além, muito além disso, pois é também escritor com muitos importantes livros já publicados, argumentista de HQs, pesquisador incansável, é íntimo das palavras e, claro, do vasto universo dos quadrinhos. Tem uma ampla cultura geral o que lhe dá embasamento para tratar com propriedade de assuntos diversificados, conhece os terrenos em que pisa. E não lhe falta coragem para colocar o dedo na ferida quando necessário, não se limitando a ser um mero repassador de releases fornecidos por políticos ou editoras, hábito tão em voga nos tempos hodiernos. Se na História oficial há algo oculto nas entrelinhas, Gonçalo traz à luz, não acredita em determinadas verdades absolutas. Se há sujeiras sob o tapete, ele as revela a todos, intimorato que é, cônscio que é, ético que é. A participação de alguém como Gonçalo só faz enobrecer a chamada nona arte, pela qual nutre imenso amor e evidente apreço. Seu olhar aguçado é guia confiável num mundo que por vezes é pródigo em indesculpáveis equívocos. Vale muito a pena dar uma busca na Internet para se ter contato com os textos de tão brilhante autor ou, ainda melhor, ir a uma livraria de respeito e lá comprar os muito bons livros de sua autoria, entre eles, um dos mais lidos e emblemáticos, A guerra dos gibis. Textos escritos por Gonçalo são leitura imperdível, como se diz nos Cadernos Bês da vida.
(10/10/13)

01 agosto 2019

Mulher de Leão no Horóscopo de Vinicius de Moraes

A mulher de Leão
Brilha na escuridão
A mulher de Leão, mesmo sem fome
Pega, mata e come 
A mulher de Leão não tem perdão. 
As mulheres de Leão 
Leoas são. 
Poeta, operário, capitão 
Cuidado com a mulher de Leão! 
São ciumentas e antagônicas 
Solares e dominicais 
Ígneas, áureas e sardônicas 
E muito, muito liberais.
(121013)

Beijo roubado // Setubardo 7

Um beijo roubado
Quando consumado
Furta fôlego, rouba voz.
Não é completa maldade
Sói haver cumplicidade
Entre vítima e algoz.
(200909)

Uma poesia de Affonso Manta

Sempre é bom lembrar que a poesia maravilhosa de Castro Alves não é a única bela poesia que se faz nesta afroterra. Há por exemplo um poeta cujos versos sempre me enchem de prazer a cada releitura. Seu nome, Affonso Manta, bardo nascido em Salvador e que bem cedo foi morar em Poções, pequena cidade da hinterlândia baiana. Vejam só que beleza estes versos:
JOB
Eu só tenho de meu a noite e o dia
E a tarde quando morre no poente.
Do banquete da vida estou ausente
Frequento as alamedas da agonia.
Eu só tenho de meu o sol e a lua
E o jardim que contemplo da varanda
E as meninas que brincam de ciranda
No silêncio geral da minha rua.
(171110)