11 outubro 2026

 QUE CORAGEM!! QUE EXEMPLO!! ROSEANE MURRAY É AQUELA ESCRITORA QUE FOI QUASE TRUCIDADA POR FEROZES PITBULLS SOLTOS NA RUA. TEVE BRAÇO E ORELHA AMPUTADOS. AINDA ASSIM, MURRAY ANUNCIA QUE ESTARÁ PRESENTE ÀS URNAS PARA VOTAR CONTRA O FASCISMO DE FLAVIO BOZONAZI DANDO A CADA UM DE NÓS, BRASILEIROS DEMOCRATAS, UM EXEMPLO DE CONSCIÊNCIA POLÍTICA E SOCIAL, SUPERAÇÃO, RESILIÊNCIA, DE DAR O DEVIDO MÉRITO AO DIREITO DE VOTAR, JUTIFICÁVEL HORROR AO FASCISMO E AMOR MAIOR À VIDA, À CIDADANIA, AO BRASIL E À SUA DEMOCRACIA.

O meu braço agora é azul, e me acompanhará dia 25 para votar em Lula contra o horror e a violência.
Muito jovem vivi a Ditadura.
Ainda criança conheci sobreviventes de Campos de Concentração.
Nosso voto é para salvar o Brasil do Mal Absoluto, que conhecemos na Pandemia.
Quem não se lembra dos 4 anos terríveis do Governo Bolsonaro? Um presidente que se divertia com a morte?
Que disse "eu sei é matar"?
Aqui estamos, às vésperas de uma catástrofe anunciada.
Para salvar o Brasil vote com o coração encharcado de amor e bem. Vote 13, vote Lula.

06 outubro 2026

Camelôs da fé e suas igrejas que lhes dão fortunas e poder

Usando o nome de Deus como irresistível publicidade e o de Jesus Cristo como infalível garoto-propaganda, valendo-se de suas inegáveis capacidades de comunicação de massa e de persuasão, de seus poderes de oratória, vendem a fé como camelôs vendem produtos suspeitos numa esquina. Usufruindo do forte poder da mídia televisiva e radiofônica, determinados sacripantas, ditos líderes espirituais, terrivelmente canalhas e tremendamente anticristãos, cheios de uma enorme lábia e de um arsenal de intenções abjetas, valendo-se de discursos inflamados, cheio de conceitos anacrônicos, equivocados, distorcidos, carregados de preconceitos que mal dissimulam um inconsequente e perigoso ódio aos que não caem nas insidiosas armadilhas que suas línguas bifurcadas armam para os incautos, conseguem encher as burras com fábulas de dinheiro que vêm, em sua maior parte, das classes mais pobres, carentes em todos os sentidos, da classe média e até de atletas, dos remediados aos milionários. Todos entregam de mão beijada a grana que dá a boa parte desses tais "líderes espirituais" o privilégio de morar em suntuosos palácios que em nada lembram os lares da maioria dos seus seguidores e bem diferente do que pregava o santo rabi. Eis o crime perfeito. Tão perfeito que nem considerado crime o é. E ai de quem tentar dizer o contrário aos fanatizados cordeiros que lhes entregam o que têm e o que não têm. Hoje, como bem se vê na internet, os próprios canastrões midiáticos oferecem farto material em áudios e vídeos que evidenciam suas mutretas espantosas. Usando em tudo e por tudo o nome de Deus, sem cerimônias nem medo de punição. Há os que induzem os incautos a darem dinheiro que porventura ainda tenham, até mesmo estando desempregados. Outros choram copiosas lágrimas de crocodilo como que implorando doações aos ingênuos que se comovem. E por aí vai. É tudo explicitamente explícito pois eles se sentem intocáveis, inatingíveis. Há os que, sorrindo cinicamente, desafiam a quem queira desmascará-los e fazem ameaças acintosas dizendo ter um exército de advogados a sua disposição para processar os que se atreverem. Muitos deles estão ligados ao mais execrável lixo político e forte é a suspeita de que lavem dinheiro vindo de falcatruas dessas máfias políticas. Associados com o que há de mais abjeto na política, tramam impor a mais absolutista teocracia em que irão mostrar suas cortantes garras, manipulando ainda mais toda a população, impondo a ferro e fogo seus torpes fundamentalismos. E no ritmo que a coisa vai indo, não será surpresa se daqui a um tempinho toda população se veja obrigada a se vestir e a se comportar como povos bíblicos do antigo oriente médio. Só não será adotado o uso de burcas porque isso é coisa de outros religiosos fundamentalistas. Para comprovar certos fatos, lembremos que quando algum desses tais líderes "ungidos de Deus" é apanhado em alguma de suas armações, há aqueles que pregam que o fiel não deve cumprir o seu papel cívico de cidadão decente, consciente, denunciando o inegável crime e o ladrão, que deve apenas mudar de igreja e não denunciar nada, tornando-se cúmplice do salafrário. Vivemos um mundo de disputas brutais em que os métodos utilizados por muitos são abomináveis. A princípio, pessoas vão às igrejas em busca de se conectar com as divindades em que crê, bem como em busca de
 esperança, fé, razão para viver. Conheço líderes espirituais autênticos, seríssimos, gente que honra e dignifica o que fazem. Sou amigo pessoal de um pastor evangélico, pessoa consciente, que ajuda enormemente sua comunidade. Muitas pessoas, os chamados fiéis,  veem nas igrejas uma uma boia de salvação e se agarram fortemente a ela. É aí que entram em cena os aproveitadores usando o santificado nome de Deus para conseguir o que querem para si. Os muito crédulos, carentes e desinformados acreditam e depositam nesse bando, nessa súcia todas as suas esperanças e, é claro, seu escasso dinheirinho ganho tão duramente. Agarram-se a eles e a seus ditames buscando experimentar a sensação de que não estão sós nesses tempos de grandes e nefastos individualismos, torpeza e sordidez sem limites. Entre eles, iludidos,  os ditos fiéis sentem-se protegidos de todos as tormentas da vida. Querendo evitar o mal, seguem justamente para ele, sem desconfiar que estão voluntariamente se imolando no altar onde, disfarçado de bem, está o mal que dizem intentar evitar. Mas lembremos que muitos não embarcam nessa canoa enganados, iludidos. Por detrás dessas aparentemente puras intenções há também motivos não tão puros assim. Acumular riquezas sem repartir, ostentar, comprar carros, casas, enriquecer às custas dos semelhantes, por exemplo, é meta de muitos dos tais fiéis, para os quais o céu pode esperar, importando bem mais os bens materiais que possam vir a acumular graças ao que eles alegam ser a vontade divina. Que Deus ilumine e dê proteção a essa infausta gente crédula. E que nos livre a todos nós desses camelôs da fé. 
(071215)

05 outubro 2026

Ademar Gomes, jornalista e escritor: um Machado de Assis com muita pimenta

 Ser amigo de Ademar Gomes nem sempre era tarefa fácil. Suas alternâncias de humor, suas explosões de indignação e de raiva, seus esgares na face exangue, seus olhos faiscantes surgindo por trás da fumaça de seus puros requeriam paciência digna de monge budista. Em se tratando de inter-relações pessoais Ademar não era exatamente uma grata unanimidade. Professor Bandeira - seu apelido e alter ego - tinha curtíssimo pavio e não primava pelo uso de eufemismos e antífrases quando queria dizer aos outros o que deles pensava. Assim sendo, angariou ao longo da vida um considerável número de desafetos que, à socapa, apodavam-no picareta. Nada mais injusto. Bandeira era um bravo batalhador que sobrevivia com seus escritos. Dos anúncios de seu jornal, o JC, e dos seus livros, ganhava lícita e dignamente o croissant de cada dia e jamais se envolvia em cambalachos, maracutaias, fraudes ou falcatruas que pudessem prejudicar quem quer que fosse. Sua história pessoal daria um rico roteiro cinematográfico. Sendo de baixa extração, tornou-se - qual um Machado de Assis redivivo - um homem de invejável cultura. Boa parte a devia ao escritor Ariovaldo Matos, com quem muito conviveu, e ao respeitado cronista Sylvio "Resistir Quem Há-De" Lamenha, professor e intelectual, uma espécie de mentor de Ademar. Professor Bandeira - ou ainda Zé do Grilo, outro alter ego seu - tinha verve rara e quando as coisas para ele navegavam em mar de almirante, era agradavelmente gárrulo e todos em volta ficavam embevecidos com sua rara dialética e sua retórica entremeada de inspiradas boutades. Conhecia em detalhes a vida, a trajetória de cada político, de cada empresário, de cada figura desta terra. Sabia-lhes o lícito e o ilícito, os golpes perpetrados, as insídias, os adultérios, as tramoias. Um dia meu filho se aproxima de mim com um jornal aberto na página dos obituários, nela o nome do amigo tão fraterno. Abraçamo-nos em pranto convulso. Nutríamos por Ademar um imenso afeto que descobri maior quando ele se foi desta vida. Hoje, sua ausência traz uma constante e indefinível sensação de vazio, uma dor que lancina, análoga a que sinto pela perda precoce de irmãos meus em Sampa. E fica a certeza de que quando alguém que amamos se vai, uma parte da gente segue junto e nunca mais somos completos. Poderia dizer a este tão amado amigo "descanse em paz, Ademar". Mas esta não é a frase adequada para se usar com Professor Bandeira que, agorinha mesmo, Romeo Y Julieta no bico, inexoravelmente está promovendo formidáveis esporros entre as nuvens do céu, questionando São Pedro, enquadrando anjos, arcanjos e querubins, exigindo falar com o Criador em pessoa para reclamar da música, do serviço celestial, do desafinado coral de anjinhos. E o Paraíso nunca mais será o mesmo. Bote pra F, querido irmão!
(231110)

03 outubro 2026

El gran Vázquez: um fantástico cartunista da Espanha e o filme sobre sua vida e criações.

El gran Vázquez é nome de um filme de 2010 do cineasta espanhol Óscar Aibar. A película se baseia na vida - por sinal, bastantíssimo atribulada - de um dibujante de historietas, mais exatamente um historietista cómico español, ou seja, um retumbante e altaneiro desenhista de histórias em quadrinhos da Espanha, cujo nome era Manoel Vázquez Gallego. Segundo consta, Vázquez nasceu em Madrid em 24 de janeiro de 1930, sendo filho de pai espanhol e de mãe brasileira, vá vendo você como são as coisas nesse planeta azulzinho que habitamos. Essas atribulações da sua vida eram motivadas em parte por suas muitas dificuldades econômicas que faziam com que o bravo dibujante contraísse dívidas e mais dívidas e constantemente tivesse um monte de cobradores em seus calcanhares e ele tinha que ser mais escorregadio que sabão para escapar dos insistentes sujeitos. 
Vázquez não era viciado em drogas ou em qualquer tipo de jogo de azar, suas dívidas vinham do fato dele não se conformar com as limitações impostas pelos seus parcos ganhos como desenhista e, malgrado isso, insistir em levar uma vida com nível que ia além do que seus somíticos proventos lhe permitiam. Diretores da Editorial Bruguera tratavam de complicar ainda mais as coisas tirando-lhe todo e qualquer direito sobre os personagens que ele criava, agindo impiedosamente de uma forma injusta e antiética: ou ele assinava a cessão dos direitos ou não recebia nenhum vintém pelos desenhos feitos. Seus personagens, a exemplo de La famillia Cebolleta, Las hermanas Gilda e Anacleto, agente secreto, eram adorados pelos leitores, mas com os direitos autorais nas mãos dos patrões, pouco lhe rendiam. Nada recebia por eles além do valor pouco expressivo pago pelas páginas com as histórias que criava e desenhava. Tal situação abusiva era imposta também a seus colegas de prancheta na Bruguera, entre eles desenhistas que se tornaram famosos como Peñarroya e o hoje consagrado Francisco Ibañez, criador de Mortadelo y Filemon, no Brasil batizados de Mortadelo e Salaminho. Vázquez tinha um ótimo traço, era um artista talentoso que, de forma criativa, muitas vezes se inspirava em suas vivências cotidianas e colocava a si próprio como personagem de suas historietas, revivendo suas agruras e suas alegrias, como uma autêntica catarse em nanquim. Vázquez criava também toda sorte de subterfúgios para driblar a política injusta imposta por seus editores, não as aceitava passivamente como os demais. Enquanto isso, tinha sempre que usar de muita sagacidade para fugir do indesejável séquito de cobradores que o perseguiam a qualquer hora do dia. Seus problemas com o dinheiro e com os editores terminaram por levá-lo à cadeia sob a acusação feita pela Bruguera dele receber indevidamente valores monetários valendo-se de fraude, com direito a falsificações de assinatura pelo dibujante. De certa forma, isso seria um troco à exploração e vilania dos seus patrões, o que nos faz pensar em Vázquez como uma espécie de Robin Hood que tirava dos ricos para dar ao pobre, no caso ele mesmo. 

Para complicar um pouquinho mais as coisas, a vida amorosa de Vázquez também não era exatamente um mar de rosas. Gostava de mulheres, tendo vivido com sete delas em regime, digamos, de união estável. Através desses relacionamentos colocou no mundo onze filhos, onze boquitas para alimentar com leche, paellas e tortillas. Acusado de bigamia, Vázquez voltou a passar um período na cadeia. Óscar Aibar, antes de se dedicar integralmente ao cinema, trabalhou como guionista de historietas, ou seja, argumentista de quadrinhos, na revista Makoki. Nessa condição conheceu e conviveu com Manolo Vázquez e dele ouviu detalhes de sua vida pessoal que muitíssimo impressionaram o cineasta, surgindo daí a decisão de um dia levar ao écran um filme sobre o historietista famoso e seu modo diferenciado de viver nesse mundo. Quando chegou a ocasião de realizar a película, para interpretar Vázquez, Aibar chamou o ator Santiago Segura, fantástico como sempre. O roteiro é muito bem escrito, todo o elenco está bem, o diretor é habilidoso aos mostrar, de forma contida, as sequências com tom humorístico ou dramático. Não sei se as locadoras de vídeos têm em seus acervos El gran Vázquez. Na verdade, nem sei mesmo se ainda existem locadoras. Em todo caso, sempre é possível, com paciência e vagar, achar-se uma cópia do filme na internet. Para quem, a exemplo de mim, ama historietas, dibujos, dibujantes e o cinema, vale muitíssimo a pena.
(120117)

27 setembro 2026

Minha Pátria é a língua de Fernando Pessoa, Caetano Veloso, Chico Buarque, Adoniran Barbosa.

 
Moro longe, pra lá da Conchichina. Tenhor pavor de pastor alemão e de gripe espanhola. Tenho mania de comer pão francês com molho inglês . Nunca dirijo um Toyota, um Mitshubishi ou veículos da Asia Motors quando em mão inglesa. Democracia? Plebiscito? Tertius? Pra mim vocês estão falando grego. Loja de artigos de R$1,99: eis o verdadeiro negócio da China. Pra consertar guitarra baiana, uso chave inglesa. Tive um canário belga que cantava Brasileirinho. Você costuma comer americano? Eu prefiro traçar o bacalhau da bela portuguesa, quer dizer, um belo bacalhau à portuguesa. Empresas judias jamais adotam semana inglesa. Em Milão todo bife é à milanesa. Na Ásia toda febre é amarela. Na Rússia toda salada é russa. Na França todo beijo é francês. Na Turquia todo banho é turco. Aliás, nesse calorão, banho turco grátis é presente de grego. Só falsos amigos nos servem uísque paraguaio. Quem tem boca vai à Roma e come pizza alla napolitana. No Japão faça como os japoneses e nunca peça bife à cavalo, mesmo porque você pode acabar comendo basashi, que é um sashimi feito com carne de equino e aí sua indigestão pode ser cavalar. E, a propósito, estando em certas regiões da China jamais peça um cachorro-quente. Você pode ter uma surpresa pouco agradável quando lhe trouxerem o prato. Meu parco francês é só pra inglês ver e quando a coisa está ficando russa eu saio à francesa.
(040214)

26 setembro 2026

Dr. Jota Cristo, advogado trabalhista, TRT da Bahia, João Jorge Amado e Setúbal.

Histórias reais, ocorridas verdadeiramente, acreditem, acreditem, por mais inacreditáveis que possam soar. Fatos pitorescos, hilariantes, de causar espécie, risos e gargalhadas, ocorridos no âmbito do TRT da Bahia. Todas elas foram pesquisadas, garimpadas, recolhidas, selecionadas e narradas por João Jorge Amado e resultam em um rico material que está contido no seu livro Pequeno Anedotário do TRT da 5ª Região, editado pela Fundação Casa de Jorge Amado. João Jorge, que por muito tempo trabalhou dentro do dito TRT, teve o discernimento de saber que tantos fatos insólitos formavam um mote riquíssimo, dignos de registro literário. Fui chamado pelo autor para fazer as ilustrações e de tanto gostar das histórias narradas, volta e meia costumo reler, principalmente aquelas que considero mais hilariantes. Uma delas fala de certo reclamante que, em tom solene, disse ao juiz ter por advogado ninguém mais, ninguém menos que o próprio Jesus Cristo, o filho de Deus Onipotente. Achava ele que estava sendo original, mas os juízes já estão habituados a coisas que tais. Ocorre que  nestes tempos em que vemos crescer o descrédito nas chamadas autoridades constituídas, quando uma enorme desesperança geral nas coisas terrenas parece tomar conta das pessoas, são muitos os que buscam se agarrar a deidades diversas na esperança de construir uma ponte com o mundo espiritual que lhes garantam a um só tempo, um lugar nos céus e, de quebra, as coisas materiais que ainda sonha possuir aqui na Terra. Vamos aos fatos: iniciada a audiência, o juiz Cláudio Mascarenhas Brandão, que a presidia, indagou ao reclamante se ele tinha advogado para assessorá-lo na audiência. E esse reclamante respondeu dizendo o que deveria soar como impactante frase de efeito:
 "Meu advogado, Doutor, é Jesus Cristo."
Impassível e sagaz, aduziu o juiz:
 “Este daí é muito, muito bom. Infelizmente ele não pode advogar nesta audiência, pois não é inscrito na OAB."
Por estas e outras é que a Bahia foi um dia cognominada a terra da felicidade. 
**********Arte que se reparte: a ilustração desta postagem foi feita em papel Westerprint 180 g, tendo o esboço sido executado com grafite B e a arte-finalização feita com caneta nanquim e retícula Letratone.          
(181020)

Flavio Colin, desenhista de quadrinhos, um cara muito especial.

Um dia um anjo torto me colocou o dedo na testa e me disse: "Vai Setúbal, ser desenhista de quadrinhos na vida." Instantâneamente empolgado, pensei: "Caraca!, estou acima dos outros. Um anjo, um emissário do Onipotente, me tocou a testa e me fez um cara especial". Sim, fizera mesmo, e eu - ainda um meninote e neófito - a meio um desmedido deslumbramento, lesto e presto saí por aí empolgadíssimo, rabiscando tudo o que via a minha frente, feliz por poder fazer coisas que outros não sabiam fazer. E estas gentes vinham e me circundavam com olhos embevecidos a cada ainda incipiente traço que eu traçava para maior gáudio do meu já mui inflado ego. Até que um dia me caíram às mãos revistas com os desenhos de Flavio Colin. Meus olhos saltaram em órbita, meus joelhos tremeram, meu coração disparou um retumbante som de percussão. Que traço maravilhoso, que desenho personalíssimo, seguro! Quanta criatividade ao desenhar personagens apaixonantes, indumentárias, animais, natureza, cenários! Seus traços transmitiam aos meus olhos de leitor o clima requerido por cada cena, drama, tensão, terror, humor, mistério, expectativa, medo, pavor, erotismo, alegrias. Um sentimento difícil de se traduzir em palavras tomava conta de mim a cada nova conferida naquelas maravilhas em preto e branco, sensação que se mostrou perene ao longo de minha vida. Desde seus primeiros trabalhos Colin desenhava quadrinhos como um experimentado Mestre, autêntico, legítimo, anos luz à frente de tantos bons profissionais.
Atônito, um tanto frustrado, meio jururu, voltei ao tal anjo e lhe disse: "Pô, bró...fiquei feliz por saber desenhar, mas eu queria mesmo é que meus desenhos fossem assim, tão maravilhosos como os deste cara". Inabalável, com boa dose de enfado, olhar blasé e ares de este-cara-já-tá-querendo-demais, foi em um tom bem pouco angelical que o anjo redarguiu: "Nada posso fazer, meu caro. Mesmo entre os especiais há aqueles que são, digamos... bem mais especiais que os outros. E meu chefe vive dizendo, amizade, que Flavio Colin, é um cara muito, muito, muuuuito especial!"
(120414)

Lage, Nildão, Setúbal, Zé Vieira, Alexandre Dumas, cartuns.

Aqui neste afrotorrão chamado Bahia, Lage, Nildão e eu, por um bom tempo formamos um inseparável trio, tipo os três mosqueteiros do cartum, um time coeso, como permite entrever esta caricatura aí em cima. O quarto mosqueteiro, o D'Artagnan, era o indômito Zé Vieira com seu bigodinho que lhe dava o irretocável phisique du rôle. Sucede que Zé Vieira, um belo - ou seria triste? - dia deu uma solene banana ao universo cartunístico, botou na praça um tremendo escritório de arquitetura que logo encheu-se de afortunados clientes, graças ao talento arquitetoso do rapaz, e desta forma ele - merecidamente, diga-se - tornou-se um argentário dos mais abastados pois foi sempre o mais sabido de todos nós nestas questões com l'argent, ainda que não fosse um mercenário, longe, bem longe disso. O problema com Zé Vieira era que um ofídio dos mais peçonhentos costumava aninhar-se nos bolsos das suas calças e ele, a precaução em pessoa, ali não metia sua mãozinha com medo de levar uma mordida letal e vai daí que em bares, restaurantes e botecos que frequentávamos jamais víamos a cor do dinheirinho de tão precavido confrade. Diz a chamada sabedoria popular que dinheiro poupado é dinheiro ganho e que de tostão em tostão se faz um milhão. Se verdade houver em tais frases, Zé Vieira certamente acumulou alguns milhões só com o que economizou graças à sua justificada precaução contra mordeduras de ofídios, notadamente certas variedades de letais mambas negras que soem se aninhar em bolsos e bolsas de alguns incautos. Não sei se o hoje abastado Zé Vieira sente algum frêmito de saudade dos tempos em que cartunava e quadrinhava, ele que sempre foi um cara que criava verdadeiras maravilhas, tanto no texto quanto no desenho. E há que ser dito que, de quebra, Zé Vieira sempre foi um dos mais substanciais e agradáveis papos dessa Bahia com h. Ali pelos hoje um tanto distante anos 80s do século anterior, como que inspirado por Alexandre Dumas nosso grupo cartunístico sempre primou pelo conceito de amizade mesclada com lealdade. Poderíamos mesmo empunhar nossos lápis, à guisa de espadas mosqueteiras, erguê-los fazendo tocar no alto suas pontas e, parafraseando os personagens de Monsieur Dumas, bradar alto, a uma só voz: "Um por todos e todos por um, em defesa do Reino do Cartum".

O Bundamolismo e o cabotinismo neste país tupiniquim

Nem bem se esvanece o rocio e este estóico cartunista já está em plena atividade no Central Park, na mui frígida atmosfera dessa Big Apple, malhando espartanamente. Mister se faz ter hercúleo físico para poder superar as cotidianas barreiras encontradas por um genuíno cartunista. Nós, os cartunistas autênticos, vivemos eternamente em pugna imensa contra as mazelas impingidas à raça humana, inerme e desprotegida, ainda que armada esteja. Tamanha dedicação não impede que tantos não nos reconheçam como seus legítimos e heroicos protetores e que nos dirijam injustas e indevidas ofensas. E se extremistas armados nos trucidam em mortais ataques, comemoram aos gritos de “bem feito, bem feito!!”. Miríades de brasileiros incorrem em tais abomináveis equívocos e em terras tupiniquins não faltam os que nos apodem de quixotescos e, de forma chula, nos chamem de bundas moles. Pensar nisso me faz intensificar a malhação dos meus bíceps, tríceps e principalmente dos meus glúteos para enrijecê-los de forma pétrea. Bunda mole é mãe!
***Neste post mais três trabalhos de ilustração, como me exigiu o cacique Biratan, que é minha participação em um projeto mostrando trabalhos de artistas gráficos exibidos no Facebook. Na sessão de hoje, numa homenagem ao assaz laureado cineasta Lima Barreto, nada de technicolor ou tequinicolor, só sertão com suas muitíssimas veredas, sertão nordestino, cangaço e cangaceiros em P&B.
1. O HERÓI, história em quadrinhos com argumento e roteiro do graaaaande Gonçalo Júnior, ainda inédita. Arte feita em papel Opaline 180 gramas, grafite B e caneta nanquim descartável.
 2. ROSTO EM CLOSE DO CONSELHEIRO, ilustração para revista. Monotipia feita com tinta preta em bisnaga para paredes e papel ofício.
3. CANGACEIRO E BANDO. Ilustração para livro, Fakexilo, uma simulação de xilogravura feita com guache branco em papel preto.
(11022015)

20 setembro 2026

Saudades do nazismo e do fascismo..


Nem todo mundo que usa bigodinho estilo toothbrush se chama Carlitos ou Charlot, usa bengala, chapéu-coco, tem pernas tortas como a de Garrincha, um andar que lembra o caminhar de um pinguim, e vive situações expressas através de pantomimas que soem divertir milhões de pessoas ao envolver-se em situações hilariantes com seu jeito único, irreverente e criativo. Exemplificando melhor, bem sabemos que o sujeitinho na ilustraçào desta postagem, com bigodinho similar ao de Carlitos, chama-se Adolf Hitler, sendo que muitos acham mais adequado valer-se de cacofonia para chamá-lo de Adolfo Deu pelas barbaridades que cometia e a mania de querer subjugar todos os seres viventes. Ocorre que se um dia ele já foi muito mal visto, rejeitado, odiado e execrado por milhões, atualmente parece andar em alta mundo afora, inclusivemente em países considerados como sendo o tal Primeiro Mundo. Ou seja, seus simpatizantes se preservaram por décadas em insidioso mutismo e devem achar que agora é chegado o momento de reviver as coisas preconizadas pelo dito Adolfo Deu, e que me perdoem se insisto no infame trocadilho cacofônico, mas infâmia maior não há que a do nazismo e a do fascismo. A propósito, para que não se fale em exageros injustificáveis e paranóias improcedentes, nào devemos jamais esquecer que já houve governantes do Brasil que viram com muita simpatia o projeto nazi-fascista, tendo o DIP de Getúlio Vargas, chegado ao absurdo de proibir terminantemente a exibiçào do filme O GRANDE DITADOR, de Charles Chaplin, cujo alter ego era o citado Carlitos ou Charlot. O fato é que cada vez mais vem aumentando o número dos que estão embarcando com tudo em uma incompreensível onda de malfazejo saudosismo quer pelos ditames ideológicos, quer pelo sórdido proceder. Alegam para tão inaceitáveis decisões os mais nobres e elevados propósitos. Basta ver as atrocidades que vem fazendo Trump em conjunto com os miliardários que formam com ele uma destruidora aliança. Claro está que se o cenário mundial é preocupante, mais preocupante ainda é ver que aqui mesmo neste Patropi abençoá por Dê, que sempre primou por uma democrática mistura de raças, o baixinho da suástica vem sendo visto com preocupante crescente simpatia por quem considera seus métodos a senda redentora para este auriverde torrão. Tais admiradores, saudosistas do nazismo e do fascismo, vêm agindo abertamente e cometendo os mais absurdos desvarios em plena luz do dia, expandindo o terror, alastrando o ódio e o medo. Assim querem nos dominar e impor sua estúpida visão de mundo. Nossos horizontes vão sendo obumbrados pelas mais densas e negras nuvens que os mais alienados não sonham perceber e assim vão engrossando, convictos, as fileiras da maldade. Que os céus nos acudam a todos e que tenhamos muita consciência e destemor para, juntos e fortes, lutarmos com desassombro pelo estado democrático e por um Brasil livre das sufocantes garras dos nefastos que ressurgem nesta nova investida. 
(301218)

As façanhas sexuais de um chefe, segundo o relato de um insuspeito Puxa-saco.

UM PUXA-SACO TEM QUE SER IMAGINATIVO E ENGRANDECER A PLANGENTE PERFORMANCE SEXUAL DE SEU SAGRADO CHEFE.
O criativo e hilariante texto contido no livro MANUAL DO PUXA-SACO, do escritor e jornalista Ademar Gomes, é de imprescindível leitura para os que querem, nestes tempos bicudos, assomar o pedestal da dignidade puxa-saquística e se regalar com os proventos daí advindos. Transcrevo a seguir um trecho do que Ademar Gomes escreveu sobre o assunto no seu delicioso MANUAL:
"Criatividade é essencial. Quem não a tiver o bastante para inventar histórias que exaltem o chefe não deve nem pensar em ingressar na confraria. Mas nada de exageros  - "Doutor Viana é o maior fudedor que eu conheço" - para não expor o chefe ao ridículo, principalmente se ele estiver acostumado a so pegar no tombo, mesmo na primeira...Tem de ser histórias verossímeis, sua briga com três estupradores para defender o cabaço da namorada, botando todos para correr com certeiras pernadas, rabos de arraias, martelos, ainda que o chefe nunca tenha entrado numa roda de capoeira e não saiba sequer o que é um berimbau. No começo, a culhuda sobre a coragem de um frouxo como ele pode até deixá-lo constrangido, mas depois de ouvir algumas vezes acaba incorporando-a às suas próprias fantasias, até porque fama de brigão intimida eventuais agressores..."

**********Quando recebi o texto original de MANUAL DO PUXA-SACO, esta basilar obra de Ademar "Professor Bandeira" Gomes, não pude me conter e li-o de um só fôlego, tão deliciosos eram os escritos de Ademar. Aí então, lesto e presto, esbocei todas as ilustrações usando grafite 2B sobre providencial papel Opaline 180g. Incontinente, arte-finalizei todos os desenhos com uma dócil canetinha de ponta porosa e indiquei o meio-tom em papel vegetal. E se é fato que curti à beça o texto de Ademar, devo aduzir sem constrangimento algum que, qual soteropolitano Narciso, aqui confesso que também curti muito as ilustrações que fiz para tão magistral escriba e tão generoso amigo.
180522

15 setembro 2026

Lage, cartunista e caricaturista maior, tinha lá seus pecadilhos.

O cidadão soteropolitano Hélio Roberto Lage era um formidável arquiteto, merecidamente graduado e de muita competência. Poderia levar uma vida digna com essa sua edificante profissão. Ao invés disso, preferiu seguir os conselhos de algum anjo torto, desses que vivem na sombra, e foi ser cartunista na vida. Um cartunista maior. Munido de seu talento gráfico, elevada consciência política, presença de espírito, invejável sagacidade, a alma plena de um transbordante humor, lá ia Lage para a redação do jornal em que trabalhava e traçava charges impactantes, cartuns demolidores, caricaturas que desnudavam os políticos mais infames. Isto não é pouco e ele poderia parar por aí, bem que poderia. Mas quem disse que ele parava? Pois é chegada a hora da verdade e a verdade tem que ser dita: Lage não conduzia a profissão que exercia com a devida seriedade e sempre foi um cartunista metido a engraçadinho. Ao invés de se portar de forma séria, como sói acontecer aos profissionais que têm consciência do dever de ofício, tinha ele o reprochável hábito de viver fazendo piadinhas em seu ambiente de trabalho e mesmo fora dele. E ainda as desenhava, como agravante. É abalado e até profundamente traumatizado que aqui deponho que, de forma recorrente e impiedosa, fui habitual vítima dessas suas gracinhas sem graça das quais todos achavam a maior graça, menos eu, a inerme vítima desses motejos gráficos. Desde 1981, ano em que muitos dos leitores desse bloguito sequer haviam nascido, guardo comigo, cheio de mágoa e ressentimento, essa caricatura que ora posto, da lavra de um sujeito que se dizia meu amigo mas que retratava-me de maneira injustificavelmente sórdida, impiedosamente abjeta. Desconfio que ele era movido pela mais infame das invejas, pois sabendo-me um cara de físico apolíneo, um Adônis, um invariável escopo da concupiscência feminina, Lage traçou de mim esta caricatura em que ele subverte tudo, me atribuindo um traseiro de baiana de acarajé e, insidiosamente, subvertendo a realidade e colocando meu avantajado peito de remador no lugar da minha barriga tanquinho, delineada em incansáveis e espartanas malhações. Mas Zeus é grande, Zeus é pai e sempre sou atendido quando rogo aos deuses do Olimpo cartunístico que eles, lá do seu sacrossanto empíreo, enviem-me forças para seguir em frente e suportar tantos e tão desmesurados infortúnios movidos pela mais abjetas zelotipias e as mais hediondas invídias.
(140712)