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29 abril 2026

A dita Guerra de Canudos em versos do escritor Édio Souza, com desenhos de Setúbal


Eu já havia ilustrado crônicas que o escritor Édio Souza enviava de Santo Amaro da Purificação para o jornal A Tarde. Um dia, por telefone, ele me convidou para ilustrar um livro seu, escrito com versos à maneira da instigante, bela e tão brasileira linguagem dos livros de cordéis. Topei. Com uma ajuda do Núcleo de Incentivo Cultural de Santo Amaro fizemos um opúsculo que é, sim, pequeno em tamanho, mas que no final resultou em um belo livro que considero merecedor de uma nova edição feita por alguém que enxergue na obra o real valor que tem. Uma edição nova, bem feita, em um tamanho maior, em bom papel, impressão e revisão à altura da obra, pois a narração em inspirados versos escritos por Édio Souza faz por merecer ser lida por um público mais amplo, sendo esta narrativa de Édio uma preciosidade, lançando um olhar próprio e novo de um homem inteirado sobre uma temática já tão amplamente debatida mas que jamais se esgota, um olhar que é amplo, aguçado e embasado sobre esta dita guerra, que guerra nunca foi pois só havia um único exército na refrega, uma dolorosa ferida que carregamos na alma através de sucessivas décadas e que parece não querer cicatrizar, uma mais que delicada e inquietante página da História do nosso país de tantas e tantas páginas inquietantes que se repetem contra a vontade dos que querem uma pátria mais humana, mais justa. 
**********Acima, a capa, logo abaixo, três das ilustrações que fiz para o livro. Para fazê-las, utilizei grafite 2B sobre papel westerprint 180gramas, canetas nanquim, pincel Kolinsky 02, nanquim e uma cor laranja-céu-da-caatinga indicada graficamente. Clique em cima das figuras para ampliá-las.

20 abril 2026

Quem precisa de Pasquale, Sacconi ou Sérgio Nogueira para falar o Português de forma irretocável?

 
Não sou nenhum mulato inzoneiro mas sou pleno de malemolência. Sou um cara do balacobaco, cheio de borogodó e de ziriguidum. Sou vacinado contra tudo que é ziquizira. Nunca fui de encarar nenhuma tribufu e comigo não tem ingresia nem forrobodó. Na hora do bafafá faço a maior quizumba, não sou de dar piriri, nem piripaque e muito menos caruara. Comigo, distinto, não tem trelelê nem trololó. Chego enfiando sapecaiaiá, distribuindo catiripapo e o fuzuê vira um quiproquó de fazer gosto e tudo acaba no maior bundalelê.
(040214)

26 março 2026

Setúbal, um ilustrador ilustre, redações, espaços virtuais.

Meninos, eu vi. Época houve em que existiam agitadas redações de jornais que eram impressos em papel e nelas ilustradores e chargistas havia. Fui um deles num tempo em que havia galos, noites e quintais e as tais redações de jornais impressos, também chamados de gazetas ou periódicos. Ou matutinos e vespertinos, conforme o período do dia em que circulassem. A informática tornou dispensável a presença física de alguns profissionais de seus quadros, entre eles, os mencionados chargistas e ilustradores. Por outro lado, essa mesma informática também contribuiu em muito para que os próprios jornais em papel fossem acabando, acabando, acabando e hoje apenas uns mais recalcitrantes, contumazes e renitentes insistem em sobreviver, em sua quase totalidade formado por aqueles cujos proprietários são políticos ou têm convenientes ligações com os que o são, o que lhes garantem oportuníssimas publicidades pagas com verbas oriundas do dinheiro público. Quanto ao ilustrador, ao chegar nas hoje volatilizadas redações, esse profissional recebia dos editores laudas com os textos de cronistas ou colunistas ou jornalistas, para ler e fazer um desenho baseado no conteúdo dos textos. Pra quem gosta de criar e desenhar, uma coisa maravilhosa. Quando discorro sobre este assunto, costumo repetir que eu sempre buscava experimentar técnicas diferentes para fugir da rotina, dos lugares comuns, usando do mesmo capricho no caso da ilustração ser para o caderno de Cultura, suplementos culturais, páginas destinada à política ou ao futebol. Para você, sapiente leitor, aí vão mais três singelos exemplos desse tipo de desenho e a respectiva técnica empregada:
1. Ilustração de texto para uma crônica de um Caderno B. Normalmente em uma ilustração produzo um esboço a lápis, geralmente HB ou B, e depois cubro esse traço a lápis com tinta nanquim. Aqui, dispensei o uso da tinta nanquim e o tal traço a lápis B ganhou status de arte-final.
2. Ilustração para crônica sobre esculápios que costumam entornar uns gorós, esboçada com grafite B, finalizado com pena bico de pato e nanquim, efeitos sobre o corpo executados com um pincel Kolinsky velhusco, bem descabelado, com as cerdas abertas umedecidas em pouco nanquim, um quase nada, em uma técnica que sempre curti muitíssimo chamada pincel seco. A corzinha sépia chapada foi colocada no Photoshop, só para dar um contraste na figura.
3. Para um caderno de esportes fiz esta ilustração sobre o E.C. Vitória, aí ameaçado por um rival disposto a tudo para arrasar o time cognominado de Leão da Barra. O detalhe da lanterna é ícone bem familiar para todos os torcedores do dito esporte bretão. Esboço com grafite B, finalizado com pincel Kolinsky number 2, colorido com tinta ecoline, bastante prática para se usar em trabalhos rápidos, tendo resultado muito semelhante à aquarela. Já se passou um bom tempo desde que esta ilustração foi publicada no caderno de esportes de um matutino da Bahia, mas a lanterna ainda é um adereço que, infelizmente para quem é rubro-negro, o leão segue insistindo em carregar por onde vai. 
010718

25 fevereiro 2025

Charles Chaplin/ O homem no parque/ Dentes: quatro ilustrações de Setúbal

O HOMEM NO PARQUE/ Versão 1. Desenho esboçado com grafite B, arte-finalizado com bico de pena e pincel Winsor & Newton número 2. Foi utilizado nanquim Talens e um trapo embebido no nanquim para dar efeito de reticulado. Clicando sobre esta e as demais ilustrações você as amplia.
 O HOMEM NO PARQUE/ Versão 2. Esboço feito com grafite 2B, arte-final com caneta nanquim descartável. Sombreado em cinza feito no Photoshop.
CARLITOS, CINEMA E PIPOCA, grafite B usado para esboçar, caneta nanquim descartável para a arte-finalização.
DENTES E DENTES. Ilustração esboçada com lápis 2B, arte-finalizada com caneta nanquim. Para o efeito de reticulado ao fundo, foi usado um trapinho embebido em nanquim.

16 abril 2023

O lendário escritor Jorge Amado, o Rio Vermelho e o jornalista GustavoTapioca.

Gustavo Tapioca é jornalista da melhor linhagem. De um tempo em que jornal que se prezasse tinha que comportar em suas fileiras jornalistas autênticos, o que significava ser um profissional com consciência social e política, brios, coragem, imparcialidade e, acima de tudo, saber escrever bem. Nada a ver com um magote de vaquinhas de presépio que se limitam a reproduzir os releases que recebem de fontes pouco fidedignas, nem com os descompreendidos, prenhes de mercenários intentos, que tomaram de assalto as redações dos jornalões de ricos patrões, abancaram-se nos jornais nacionais, globos news e similares para divulgar coisas que pouco ou nada têm a ver com a verdade dos fatos, servindo apenas para privilegiar os já mui privilegiados, para dizer o mínimo. E fazem tudo isso com uma naturalidade assombrosa, julgando-se acima do bem e do mal, convictos de que todos assimilam tudo de errado que eles articulam e veiculam. Bem, o pior é que têm motivos para terem convicções que tais vez que um enorme contingente de pessoas engole mesmo as informações - ou desinformações - que recebe numa boa. Mas nem todos, felizmente nem todos. Quanto ao domínio da escrita, é justamente por bem saber escrever que Gustavo Tapioca redigiu e lançou seu livro Meninos do Rio Vermelho, um memorial inspirado de quem foi, ainda infante, vizinho de Jorge Amado, personagem onipresente nas memórias tapiocanísticas grafadas nas páginas desse livro merecedor de sua atenção, leitor atilado que é, para conferir e se deliciar com uma Bahia solar, apaixonante e tão cheia de agradáveis surpresas como o texto de Gustavo, que aliás me brindou com o honroso convite para fazer as ilustrações, convocação que aceitei com júbilo adolescente. Ao sapecar meu traço, aproveitei para fazer, com lápis, pena, nanquim e miríades de hachuras, uma homenagem a Floriano Teixeira, fabuloso ilustrador e artista plástico, ídolo maior e meu amigo pessoal, também ele um tradicional morador do charmoso e emblemático bairro do Rio Vermelho. Estou certo de que o dia que este livro chegar em mãos certas, vira minissérie televisiva ou filme de sucesso. 
**** O e-mail de contato para o leitor que estiver interessado em adquirir um exemplar é: gustavo.tapioca@gmail.com 
(300709)

18 maio 2022

As façanhas sexuais de um chefe, segundo o relato de um insuspeito Puxa-saco.

UM PUXA-SACO TEM QUE SER IMAGINATIVO E ENGRANDECER A PLANGENTE PERFORMANCE SEXUAL DE SEU SAGRADO CHEFE.
O criativo e hilariante texto contido no livro MANUAL DO PUXA-SACO, do escritor e jornalista Ademar Gomes, é de imprescindível leitura para os que querem, nestes tempos bicudos, assomar o pedestal da dignidade puxa-saquística e se regalar com os proventos daí advindos. Transcrevo a seguir um trecho do que Ademar Gomes escreveu sobre o assunto no seu delicioso MANUAL:
"Criatividade é essencial. Quem não a tiver o bastante para inventar histórias que exaltem o chefe não deve nem pensar em ingressar na confraria. Mas nada de exageros  - "Doutor Viana é o maior fudedor que eu conheço" - para não expor o chefe ao ridículo, principalmente se ele estiver acostumado a so pegar no tombo, mesmo na primeira...Tem de ser histórias verossímeis, sua briga com três estupradores para defender o cabaço da namorada, botando todos para correr com certeiras pernadas, rabos de arraias, martelos, ainda que o chefe nunca tenha entrado numa roda de capoeira e não saiba sequer o que é um berimbau. No começo, a culhuda sobre a coragem de um frouxo como ele pode até deixá-lo constrangido, mas depois de ouvir algumas vezes acaba incorporando-a às suas próprias fantasias, até porque fama de brigão intimida eventuais agressores..."

**********Quando recebi o texto original de MANUAL DO PUXA-SACO, esta basilar obra de Ademar "Professor Bandeira" Gomes, não pude me conter e li-o de um só fôlego, tão deliciosos eram os escritos de Ademar. Aí então, lesto e presto, esbocei todas as ilustrações usando grafite 2B sobre papel Opaline 180 g. Incontinente, arte-finalizei todos os desenhos com uma dócil canetinha de ponta porosa e indiquei o meio-tom em papel vegetal. Curti à beça o texto hilariante de Ademar e, qual um Narciso soteropolitano, curti também as ilustrações que fiz para tão magistral escriba e tão generoso amigo.

20 abril 2021

Chico Buarque de Hollanda, Kid Morengueira e Miles Davis. Três retratos em P&B por Setúbal.

MOREIRA DA SILVA, o popular Kid Morengueira, homem dos sambas de breque e do humor delicioso em incontáveis sucessos musicais. Desenho em papel Opaline 180 g, esboço feito com grafite 2B, arte-final com caneta nanquim, pincel seco e nanquim Talens. Clicando sobre cada uma destas ilustrações, intrépido leitor, você poderá vê-las ampliadas.
 CHICO BUARQUE DE HOLLANDA, cantor e compositor cultuado em todo o planeta, escritor e dramaturgo mais que premiado, suas canções, nas letras e melodias, têm a marca da genialidade, sendo cantadas e regravadas em diversos países pelos mais consagrados cantores. Ao lado de Caetano foi apresentador de um programa musical televisivo, escreveu inúmeras trilhas musicais antológicas para filmes e peças teatrais. Retrato feito em papel de diagramação, esboço com grafite B, arte-final com caneta nanquim, meio-tom em retícula executada graficamente.
Mr. Miles Dewey Davis III, o virtuosíssimo trompetista MILES DAVIS, também compositor e bandleader, deixou seu nome marcado no jazz e em toda a música norte-americana e mundial. Retrato em papel Westerprint 180 g, grafite B, caneta nanquim, fundo com retícula xerocada. 

19 janeiro 2021

Chiclete com Banana, Bell Marques e multidões.


No carnaval da Bahia, quando o Chiclete com Banana desponta nas praças, ruas e avenidas trazendo seu som potente e contagiante não há quem fique parado. É um sacolejo geral, amplo e irrestrito. Bell Marques, além de músico que tem o dom de saber levar alegria à multidão das ruas, não deixar ninguém estático, fazer todos cantarem, todos dançarem na mais contagiante empolgação, com essa sua banda Chiclete com Banana criou um estilo, um modo próprio de agitar a galera. Por tal façanha Bell ganhou uma vasta legião de fãs. Em virtude de meu trabalho de quadrinhos eis que um dia conheci Bell e tive a grata satisfação de ver que ele é um artista que não posa de inatingível popstar, porta-se como um cara simples. Em cima de um trio, Bell é um músico e cantor que possui enorme empatia com a massa de foliões e um imenso carisma pessoal. Euzinho, hedonista como costumam ser os que nascem nesta terra brasilis, sempre fui Chicleteiro, um a mais na imensa multidão, pulando, cantando, brincando, exorcizando os estresses. Há já um tempinho, Bell Marques, buscando trilhar caminhos próprios, saiu do Chiclete para tristeza dos fãs, mas a banda prometeu não deixar a peteca cair e continuar na estrada com o alto astral de sempre, promessa que vem sendo cumprida. Esta caricatura, com a qual ilustro essa chicleteana postagem, mostra uma formação antiga do Chiclete, do tempo que eu chicleteava por ruas e avenidas atrás da banda. Fiz em duas versões, ambas com a presença de  Bell Marques. Na primeira, o grupo segura uma imensa banana, que é a fruta que nomina o grupo. Nesta aí, como você, atilado leitor, bem pode ver, eles estão segurando uma espiga de milho, vez que de há muito as festas juninas fazem parte do calendário da banda. Mesmo que a canção do sempre sábio mano Caetano diga que atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu, já não me arrisco a enfrentar o sufoco das grandes multidões carnavalescas que seguem seus músicos preferidos através dos logradouros dessa soteropolitana afrocity. Não me aventuro mais a seguir o Chiclete com Banana e nem outros trios quaisquer, mas sigo sendo um Chicleteiro, ressaltando que, tendo eu um gosto musical beeeem diversificado, sou também um inveterado e fiel Mutanteszeiro, um Titãszeiro, um Mestreambrosiozeiro, Camisadevênuscommarcelonovazeiro, Naçãozumbizeiro, Sibaeafulorestazeiro, Chicobuarquezeiro, Caetanovelosozeiro, Raulseixaszeiro, um Genivallacerdazeiro, Jacksondopandeirozeiro e de quebra sou Zecabaleirozeiro. Viva a música brasileira, sua alegria e nosso santificado hedonismo!
(281013)

26 novembro 2020

Retratando Antonio Conselheiro.

Há desenhistas que arrancam as próprias melenas, às vezes até bem raras, em busca de um estilo pessoal que seja passível de reconhecimento como se dá com sua escrita, cujo modo de delinear as letras as pessoas identificam de pronto. Não foi este o caminho que busquei na minha senda de ilustrador, vez que adoro mudar sempre que possível e o mais que puder, tentar novos rumos, novas linguagens, novas técnicas, buscando fugir da mesmice, de repetitivas soluções gráficas, dos maneirimos, do que é rotineiro. Para mim, fazer a mesma coisa em nome de um estilo pode se tornar algo previsível e mesmo cansativo, desestimulante. Sinto-me mais motivado mudando sempre que possível - geminiano sou - em eterno desafio, tentando surpreender positivamente o público leitor e até mesmo a mim próprio. Nestes retratos de Antonio Conselheiro intentei buscar duas alternativas, dois enfoques diversos. Em uma almejei criar um impacto mostrando em close as marcantes feições de um sertanejo atingido por graves e injustas perseguições que findaram por tirar-lhe a vida. Para tal, utilizei sobre papel ofício uma experimental bisnaga de tinta negra, destas para pintar paredes. Foi uma meleira completa, mas o resultado final me agradou. Na outra, mais clean, usando tinta acrílica fui em busca de um clima semelhante mas agora almejando situar o personagem no seu hábitat recortado por um céu digno de um glauberrochístico filme. Um pincel na mão e uma ideia fixa na cabeça.
(151114)

19 outubro 2020

Brasil, bico de pena, artistas, escolas / Arte que se reparte

Comecei a fazer desenhos a bico de pena influenciado pelos trabalhos de alguns desenhistas magistrais, autênticos virtuoses no desempenho dessa técnica milenar. Artistas europeus, chineses, norte-americanos, sul-americanos já fizeram maravilhas valendo-se de uma prosaica pena embebida em nanquim e uma singela folha de papel. De tantos artistas, muita coisa que vi me encantou. Já citei várias vezes, volto a citar, que Percy Lau me deixava atônito com seus desenhos a bico de pena, desde que eu ainda era um niño de Jesus. Esse brasileiro, nascido em Arequipa, Peru, era o cão de calçolão. E chupando manga, quando acaba. Também o eram Poty, Carybé, Aldemir Martins. Tenho o orgulho de ter sido amigo de um dos maiores desenhistas deste planeta, Floriano Teixeira, principal ilustrador dos livros escritos por Jorge Amado. Para meu júbilo, Flori gostava de meu desenho, me recebia sempre em seu atelier e me presenteou com alguns tesouros que fez a nanquim. Com cada um desses artistas, aprendi um pouquinho. Ou muitinho, melhor dizendo. Dá-se que quando trabalhei como ilustrador e cartunista em jornais, em uma era pós-clichês e pré-computadores, eu me vali muito de bico de penas, mesmo não sendo penas de metal para desenhos no sentido exato da palavra, aquelas que substituíram as penas de ave usadas em tempos de antanho. A nomenclatura dada a elas, as tais peninhas, era bico de pato e mosquito, penas metálicas enfiadas em um cabinho de madeira. Também as usei muito, mas sempre preferi trabalhar mais com canetas com tinta nanquim, super práticas, as recarregáveis e as do tipo descartáveis, como a que usei para fazer o desenho acima. É a ilustração de uma crônica falando em escolas municipais, merendas e brasilidade, impressa há já algum tempo, em uma gazeta diária dessa cidade batizada de Soterópolis. Para fazer a aludida ilustração, li com a devida atenção o texto do autor, formulei a ideia que achei de acordo com o conteúdo dos escritos, esbocei com grafite B em papel usada em diagramação e finalizei com caneta nanquim descartável, caprichando nas hachuras que soem caracterizar um bico de pena. Te cuida, Percy!

18 outubro 2020

Dr. Jota Cristo, advogado trabalhista, TRT da Bahia, João Jorge Amado e Setúbal.

Histórias reais, ocorridas verdadeiramente, acreditem, acreditem, por mais inacreditáveis que possam soar. Fatos pitorescos, hilariantes, de causar espécie, risos e gargalhadas, ocorridos no âmbito do TRT da Bahia. Todas elas foram pesquisadas, garimpadas, recolhidas, selecionadas e narradas por João Jorge Amado e resultam em um rico material que está contido no seu livro Pequeno Anedotário do TRT da 5ª Região, editado pela Fundação Casa de Jorge Amado. João Jorge, que por muito tempo trabalhou dentro do dito TRT, teve o discernimento de saber que tantos fatos insólitos formavam um mote riquíssimo, dignos de registro literário. Fui chamado pelo autor para fazer as ilustrações e de tanto gostar das histórias narradas, volta e meia costumo reler, principalmente aquelas que considero mais hilariantes. Uma delas fala de certo reclamante que, em tom solene, disse ao juiz ter por advogado ninguém mais, ninguém menos que o próprio Jesus Cristo, o filho de Deus Onipotente. Achava ele que estava sendo original, mas os juízes já estão habituados a coisas que tais. Ocorre que  nestes tempos em que vemos crescer o descrédito nas chamadas autoridades constituídas, quando uma enorme desesperança geral nas coisas terrenas parece tomar conta das pessoas, são muitos os que buscam se agarrar a deidades diversas na esperança de construir uma ponte com o mundo espiritual que lhes garantam a um só tempo, um lugar nos céus e, de quebra, as coisas materiais que ainda sonha possuir aqui na Terra. Vamos aos fatos: iniciada a audiência, o juiz Cláudio Mascarenhas Brandão, que a presidia, indagou ao reclamante se ele tinha advogado. Como resposta, ouviu:
 "Meu advogado, Doutor, é Jesus Cristo."
Impassível e sagaz, aduziu o juiz:
 “Este daí é muito, muito bom. Infelizmente ele não pode advogar nesta audiência, pois não é inscrito na OAB."
Por estas e outras é que a Bahia foi um dia cognominada a terra da felicidade. 
**********Arte que se reparte: a ilustração desta postagem foi feita em papel Westerprint 180 g, tendo o esboço sido executado com grafite B e a arte-finalização feita com caneta nanquim e retícula Letratone.           

21 setembro 2020

Nenhuma mulher me resiste / Frases de Béu Machado 13

 As mulheres não resistem à minha presença: dão no pé.
(Béu Machado, de seu livro Pensamentando)
260916

Dívida dura de engolir / Frases de Béu Machado 03

Uma senhora com um colar de pérolas
pode estar endividada até o pescoço.
(Frase de Béu Machado, de seu livro Pensamentando)
(220916)

Fundos que nos afundam / Frases de Béu Machado 09

Os magnatas não costumam depositar seus fundos no banco dos réus.
(Béu Machado, do seu livro Pensamentando)
(230916)

Telepata que empata / Frases de Béu Machado 20

Pense sempre nos outros. Mas antes se certifique de que seu marido não é telepata. 
(Frase de Béu Machado, de seu livro Pensamentando)
(300916)

10 setembro 2020

Elis Regina, insuperável. / Umas minas que eu amo 4

Somos um país musical. Essencialmente, fundamentalmente, visceralmente, extraordinariamente musical. Entre nossos tesouros pátrios, temos cantoras maravilhosas que arrasam ao cantar e interpretar qualquer tipo de música. Que maravilha, que musical deleite é ouvir o canto de Gal Costa, de Rita Lee, de Clara Nunes, de Cássia Eller, de Daúde, de Adriana Calcanhotto, de Marisa Monte, de Clementina de Jesus, de Astrud Gilberto, de Flora Purim, de Bidu Sayão, de Dona Ivone Lara, de Carmen Miranda, de Elba Ramalho, de Marinês, de Nara Leão, de Dalva de Oliveira, de Ângela Maria, de...ah, são tantas e tantas e tantas! Para mim, entre elas, brilha a estrela mais cintilante: Elis Regina. Elis, a Pimentinha. Inesquecível, incomparável e, em diversos aspectos, insuperável. Elis tinha uma voz e uma força interpretativa que supera os limites do que já é muito, muito bom. Tudo quanto ela cantou ou gravou, segue tendo uma força maior e dói saber que se foi dessa vida e não se ouvirá suas possíveis interpretações para canções que amamos, gravadas por outras notáveis cantoras. Ouço uma delas interpretando uma música, gosto do resultado, mas sempre me pego em solilóquio, dizendo que extraordinário seria escutar Elis Regina interpretando aquela canção, de uma forma que só ela saberia interpretar com toda a força que lhe ia na alma de quem nasceu para cantar, com o coração pulsando forte, saindo do peito, extraindo da canção tudo que ela continha em seus mais recônditos dizeres, de um modo que ninguém jamais a igualou, deslizando por sua garganta abençoada, chegando a nós, preciosa e exata, através de sua voz, de sua força interior. Dói muito tal sentimento de perda. Elis tinha um timing que foge ao comum, mergulhava na canção, ia ao seu âmago, dali arrebatava tudo que essa canção tinha para dar em termos de emoção, fosse a mais profunda dor, melancolia, alegria, esperança, amor não correspondido, amor vitorioso, redentor. O músico César Camargo Mariano, que acompanhava Elis, diz que ela não era só uma cantora e grande intérprete - o que não é pouco - que ela ia muito além disso. César a tinha na conta de um músico, em pé de igualdade com os que a acompanhavam e isso gerava uma total empatia e cumplicidade que facilitava as coisas, era fundamental nos ensaios, nas gravações e apresentações. Elis correu o mundo, esteve em várias cidades do planeta e causou admiração por todos os recantos que passou, graças à sua grandeza musical. Mas não quis fincar raízes na Europa ou nos Estados Unidos. Afirmava ser uma cantora genuinamente brasileira, com largos e indissociáveis vínculos com nossa cultura. Aqui se quedou, em ambiente muita vez adverso para ela e  para o Brasil que ela desejava, lutou com seu talento, sua índole e sua bravura pessoal, e seguiu carreira renovando-se a cada dia, agigantando-se, chegando a um patamar em que poucas no mundo da música chegarão. Tinha a sabedoria de adivinhar o formidável, o magistral em compositores ainda neófitos, novatos em que ela vislumbrava talento em potencial, e lançou ao estrelato vários deles em gravações antológicas. Dava às canções uma força que fazia boquiabertos os próprios autores das composições, fossem eles os ainda iniciantes Gilberto Gil, Zé Rodrix, Belchior ou mesmo Aldir Blanc e João Bosco ou, certamente, o Maestro Soberano, Tom Jobim, com quem Elis fez um dia um antológico dueto, interpretando Águas de Março. Elis se foi, e é uma imensurável perda para o mundo da música. Consola-nos, ao menos, o fato de poder ver e ouvir em vídeos postados na internet, sua voz de interpretações que não encontram similares, uma voz maravilhosa, clara, forte e poderosa que encantou não só o Brasil, foi além, bem mais além, e conquistou o mundo.
(070716)

09 setembro 2020

Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Francis, Zélia Gattai, Godofredo Filho e Tiradentes em retratos feitos a cores por Setúbal.

O lusitano FERNANDO PESSOA, o mineiro CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, o baiano GODOFREDO FILHO, poetas mais que inspirados da língua portuguesa. Retratos em papel Opaline 160 g, esboço com grafite B, arte-final com caneta nanquim, cores feitas com lápis Caran D'ache. Clicando sobre cada uma das ilustrações, luminiscente leitor, você as amplia.

 PAULO FRANCIS, jornalista, crítico de teatro, escritor. Papel Canson, 180 g, esboço com grafite HD, arte-finalização com caneta nanquim, colorização com aquarela.
 ZÉLIA GATTAI, escritora, fotógrafa e memorialista brasileira. Retrato feito sobre papel Opaline 160 g, grafite B para esboçar, caneta nanquim para arte-finalizar, tinta ecoline para colorir. 
TIRADENTES, retrato feito a partir de imagens que costumeiramente  circulam em livros e jornais brasileiros. Papel Fabriano 200 g, desenhado e colorido com pastel seco.

Madonna, Rubem Braga, religiões, protesto e resistência à ditadura. Três ilustrações de Setúbal.

MADONNA BOA DONA E RUBEM AI DE TI PINDORAMA BRAGA. Ilustração esboçada com grafite 2B em papel de diagramação, arte-finalizada com caneta nanquim e com um pincel 02 na aplicação de tinta ecoline de cor cinza. A retícula pontilhada no alto da arte foi garimpada na internet. 
Clicando sobre cada uma das ilustrações você irá vê-las em formato ampliado.
O HOMEM, AS RELIGIÕES. Esboço feito com grafite B sobre papel de diagramação. Sobre este esboço foram colocadas manchas de meios-tons de cinza feitos com aquarela.
RESISTÊNCIA A DITADORES. Ilustração feita com lápis dermatográfico sobre papel preto. Os toques de cinza, que ajudam a visualizar melhor os personagens, foram colocados através do Photoshop. 

08 setembro 2020

O bardo Bill Shakespeare no traço de Setúbal.

Há jogadores profissionais de futebol que só jogam em uma única posição, seja ela qual for. Outros, entretanto, se adaptam a diversas posições, do ataque à defesa, passando pelo meio de campo. Há até uns craques que, mesmo não sendo goleiros de ofício, em caso de uma emergência calçam as luvas de arqueiro e vão estoicamente defender o chamado último reduto. O fato em si não torna um jogador eclético melhor que o que não o é, é só uma questão de versatilidade que um não tem e no outro por vezes sobra. Falo isso porque já conheci desenhistas que sempre seguiram uma única linha de trabalho e dessa forma mostravam-se notáveis. Outros conheci que tinham inúmeras variantes para se expressar. Meu trabalho se situa entre os destes profissionais. Faço isso por gostar de fazer um número de coisas diferentes, variar, ousar, experimentar técnicas e materiais novos, o que me enche de prazer e satisfação e afasta para bem longe qualquer possível chatice contida em rotina que ameace ser enfadonha, Assim, busco renovar um trabalho cotidiano, torná-lo um desafio, dar o melhor de mim e fazer um trabalho profissional que surpreenda sempre aos leitores, quer fazendo cartuns, HQs, tiras, ilustrações variadas, caricaturas e retratos. Destes últimos, os retratos, já fiz um bom número mostrando artistas, políticos, escritores, intelectuais e um infindável número de gentes outras. 
Nesta postagem, mostro acima o mais que extraordinário William Shakespeare, poeta, dramaturgo e ator inglês, celebrizado como "O bardo do Avon". Não confundir com o Bar do Avon, que deve ser - há de existir - o nome de algum pub local. Shakespeare é considerado o poeta nacional da Inglaterra, eternizado como o criador de prodígios como Hamlet, A megera domada, Rei Lear e Romeu e Julieta - frisando que não estou me referindo à sobremesa assim batizada, composta de goiabada-cascão-com-muito-queijo. Falo é do célebre casal de jovens apaixonados de Verona que não há quem desconheça neste mundo, mundo, vasto mundo. 
********Usando grafite B esbocei o desenho em papel de diagramaço. Fiz a arte-final com caneta nanquim e sobre ela - qual um inventivo MacGyver - me valendo de uma velha escova de dentes, aspergi tinta nanquim para dar um toque visual mutcho porreta, como dizem as mais representativos representantes do povão desta minha afrocity baiana, Soterópolis. 
(300518)