31 maio 2016

Caetano Veloso, bandas de pífanos e pipocas modernas

Quem é do sul talvez desconheça, mas esses aí são músicos que compõem bandas do interior baiano e de várias regiões do nordeste brasileiro, sempre cheio de apaixonantes alternativas culturais. São as bandas de pífanos. Ou pífaros como chamam outros. Há tempos, Caetano Veloso os descobriu e fez com que este Brasil que não conhece o Brasil, passasse a identificar e  admirar tais grupos. Com seu talento, Caetano colocou letra em uma melodia de uma deles, a Banda de Pífanos de Caruaru, em uma canção batizada de "Pipoca moderna". Aí desanoiteceu a manhã e tudo mudou. Em homenagem a algo tão vivo e forte em nossa cultura popular, pintei essa tela com tinta acrílica. Depois usei uma lasquinha de photoshop. Viva o sempre inspirado e atento e criativo Caê. E vivam as maravilhosas bandas de pífanos que nos brindam com seu som tão limpo, tão puro, tão genuinamente brasileiro.
(Publicado originalmente em 13/04/2010)

Minha cara, minha nobre família baiana

Sou brasileiro, de estatura mediana, nascido em Candeias, terra onde farto é o petróleo, e onde vivi, meu caro Mario Prata, até aquela idade em que alentejanos e lisboetas nos explicam que os meninos deixam de serem miúdos para serem putos. E assim eu, quase puto, porém numa boa, deixei estas terras no recôncavo baiano para ir habitar a hinterlândia paulista, mais exatamente a cidade de Pindorama, que calha de ser a terra natal do escritor Raduan Nassar. Tudo porque Seu Setúbal, meu pai, era paulista - igualzinho ao Buarque, pai do Chico - e voltou para o pindoramense torrão que também a ele viu nascer, levando-me na bagagem. E em sendo assim e assim sendo, tenho eu um pé na coccina tantos eram os italianos do lado macarroni e pepperoni da família. Indeléveis lembranças me evocam sempre o estilo mais que agregador dos meus familiares ítalo-paulistas, as álacres reuniões em torno de longas mesas com pastos, antepastos e repastos, suãs, paneladas de sugo, a polenta fumegante, o falar alto e livre, os risos, as gargalhadas chicoteando o ar, a vida sendo celebrada como bem sabem fazer os de sangue latino. Por tudo isso meu lado paulista ainda pulsa forte e eu, trago no coração Pindorama City e minha maravilhosa professora de Português, Sylvia Jorge, que tanto me ajudou a amar os livros e a escrita. E mesmo nunca falando "ôrra, meu", jamais consegui gostar de outro time senão do meu amado, idolatrado, salve, salve S.C.Corinthians Paulista. E este preâmbulo todo uso para falar de uma típica família baiana, também enorme, igualmente festeira, uma família em que me descubro como parte integrante. Depois da minha experiência paulista voltei para a Bahia, arrumei companheira. E sabe como é: banho de mar, cônjuge voa, engole água, se iodifica, depois que boa, que morenaço que ela fica. Resultado: filho. Tornei-me pai de um soteropolitaníssimo galeguim do zóio azu que hoje, homem feito, se apaixona por uma das morenas mais frajolas da Bahia e me contempla com essa nora cheia de morenice. E achando pouco me regala com uma neta sem aviso prévio, logo eu, um quase teen viro de repente um grandpa. Antes que eu consiga dizer alguma coisa, igualmente à socapa me mimoseia com mais um neto e uma netinha igualmente galeguinha de zói azu, essa aí da foto no colo do galego que é seu genitor. E de quebra me presenteia com uma família muitíssimo baiana com matriarcal primazia, cheia de avós, tias, primas, gentes de matizes diversos, de peles que vão do moreno-claro ao negro. E eu, com meu sangue ítalo-hispânico-luso-paulista-baiânico, me vejo feliz compartilhando dos laços desta autêntica família brasileira, genuína família baiana, uma aula de congraçamento étnico-cultural. Família que tem muito mais em comum com o lado italiano que deixei do que podem supor os habituais cultivadores de estereótipos que nos colocam a nós, da parte de cima do mapa, como um povinho exótico deflagrador de risos de motejo. É traço comum a autêntica alegria de viver, a celebração cotidiana da existência, o espírito gregário, o calor humano, o amor entre os integrantes do clã, a solidariedade, o companheirismo, o compartilhar das felicidades e alegrias. Isto tudo seja em festas populares como a de Yemanjá, do Dois de Julho, do Bonfim, de Santa Luzia, onde o sagrado e o profano se entrelaçam, o catolicismo e as afro-religiões se mesclam em uma democracia autêntica que é uma constante do povo baiano e onde o mundo se devia espelhar para bem conviver. E seja ainda nas festas familiares que sabe-se apenas quando começa - e começa pelo menos uns vinte dias antes da efeméride propriamente dita - e que nunca se sabe quando se vai acabar. Talvez quando acabe a comida, que sendo tanta nunca acaba. Agora mesmo na comemoração do batizado e aniversário de Malu, minha dita neta caçula, que para animar ainda mais a coisa coincide com o dia de São Cosme e São Damião - os Ibeji e Erês, santos-meninos na afro-baiana religião - havia panelões cheios de saborosos vatapá, caruru, farofa de dendê, feijão-fradinho, galinha de xinxim e sabe-se lá mais o quê. Antes todo mundo na igreja católica para o devido batizado. Depois todos à casa para mastigar, deglutir, engolir, comer o caruru da forma que sempre o fazem em meio a conversas diversas, risos, gargalhadas, abraços de admirável confraternização, onde a fé e o amor são uma constante, onde não há espaço para tristezas e a vida é reverenciada como uma dádiva que se comemora com júbilo, afeto e uma exuberante e renovável alegria. Que Deus e os orixás sempre nos iluminem a todos e que bisa Elza, encomende logo sua vistosa elegante roupa vermelha já que a Festa de Iansãnta Bárbara não tarda nadinha a chegar.
(Publicado originalmente em 30/09/2016)

Partindo para a ignorância com o Paulo Paiva / Pintando o Set 9


Justiça se faça, o cidadão Paulo Paiva - famoso no universo das HQs com o codinome Pepê - é um cara retado. E retado, aqui onde me encontro, neste afrobaiano torrão, entre outras coisas boas, significa que o assim chamado é um sujeito competente, que sabe das coisas, cheio de denodo e de muita fibra. Aliás, Pepê tem mais fibra que a embalagem de uma tonelada da Aveia Quaker vendida nos supermercados por aí. Tanto é verdade que nem um AVC conseguiu deter este meu amigo. Passado o susto inicial, Pepê - com o auxílio fundamental de sua cara-metade Suely Furukawa - lutou com determinação e foi reassumindo aos poucos seus afazeres que o fizeram tão conhecido e amado. Pois este amigo um mês atrás me pega de surpresa ao me enviar via Net uma mensagem gravada em vídeo onde aparece dirigindo-se a mim e falando entusiasmado sobre alguns trabalhos meus que ele viria a publicar em uma das revistas de HQs, textos e cartuns que co-edita com Suely. No referido vídeo, mostra-se mais que satisfeito com a qualidade do material que lhes enviei para publicação e me tece elogios que um cara machão-porém-emotivo como eu não pode receber sem se debulhar em lágrimas. E se esta história parasse por aqui, seria um final feliz digno de Hollywood. Mas o caso é que ao retomar suas atividades, além de editar, Pepê também vem voltando a escrever, criar e ainda desenhar. É bem aí é que reside indesejável cizânia. Tudo solamente porque dentre os confrades que fiz neste mulato inzoneiro country, Pepê é daqueles que perdem o amigo mas não perdem a oportunidade de sacanear. Passado um recesso, eis que ele me envia, de sua atual lavra, outra caricatura da minha magnânima e régia pessoa apesar de eu já haver alertado ao indigitado amigo que não aprecio gestos que tais. Em postagem anterior, cordatamente já o alertara, muito já blasfemei e vituperei, já dei indiretas diretíssimas, já fiz ameaças veladas e outras escancaradas mas nada do Pepê se mancar. Então mister se faz subir o tom. Que Seu Pepê não reclame quando estiver no conforto de seu lar e sem aviso prévio receber a contraporra. E se ele não sabe o que é isso, esclareço didaticamente que aqui na Bahia isto é o mesmo que receber a galinha pulando, o que equivale a ser alvo de uns catiripapos aplicados de sopetão naquela cara de sacana que ele tem assentada em cima do pescoço. Sou ainda capaz de fazer coisas mais deletérias. Isto é claro se Suely, mais exatamente Suely Hiromi Furukawa, se distrair por algum momento, pois de besta só tenho a cara. Plenamente cônscio de ser ela uma nissei versada em tradicionais nipônicas artes marciais não sou em quem vai dar moleza e passar de agressor a candidato à vaga em leito de UTI. Para lá quem vai mesmo é o Pepê se continuar a me enviar tantas e tão depreciativas caricaturas de minha augusta pessoa. E tenho dito.
(Publicado originalmente em 25/11/2009)

27 maio 2016

O cartunista Glauco, Paulo Paiva e Deus

No calor da forte emoção da perda de um amigo de longa data e longos papos, Paulo Paiva fez esta caricatura em homenagem ao cartunista Glauco que se foi desse mundo no auge de sua criatividade, de uma forma que a todos nos deixa siderados pela loucura e violência com que aconteceu. Um desses acontecimentos chocantes que nos assombra os dias nos tempos atuais. Fiquei emocionado com o belo gesto do Pepê e neste 12 de março, tão triste para cartunistas e quadrinistas, faço de sua sincera, tocante e tão fraterna homenagem, a minha própria homenagem ao irreverente e sempre inspirado criador de Geraldão e de tantos personagens que ganharam vida através de seu traço fantasticamente hilário e do seu humor que marcou toda uma geração de leitores.
(12/03/10)

19 maio 2016

Biratan Porto, cartunista, um muso nada obtuso

Desenhar é profissão, fonte de recursos - parcos para muitos profissionais, suficiente para outros - mas é também fonte de prazer vez que, ponto comum, amamos o que fazemos. Para tornar mais divertidos os momentos em que faço um trabalho de quadrinhos, costumo colocar nome de amigos em personagens, falar de fatos sucedidos comigo mesmo ou com conhecidos. Ou até mesmo colocar como personagem algum amigo pelo qual tenho grande consideração que é maneira de homenagear a quem gosto. E ninguém mais digno de todas as homenagens cabíveis que o grande Biratan, cartunista paraense, supimpa e piramidal, amplamente premiado, mente fecunda que é, calhando ainda de Bira ser um ser humano dos melhores, amigão de todos, amado por um batalhão de gentes em todo este Brasil varonil do Gugu e do Clodovil. Bira é o tipo de cara que todo baiano como eu adora ter como amigo por ser uma figura muitíssimo do bem, uma companhia das melhores, papo inteligente e, sobretudo, pleno de humor da melhor qualidade. Sendo um vivente simples, franco, criativo, bem-humorado, talentoso, sem alarde nem rompantes, Bira gosta de sorver uma cervejinha na maciota enquanto tira acordes sonantes e dissonantes de seu instrumento de cordas, apreciando também trocar umas ideias com amigos numa roda à mesa de um bar ou barraca. Ainda bem que sou um desses amigos e falo isso ab imo pectore, ab imo corde, seja lá que zorra queiram dizer tais latinidades, vez que sou um tipo sórdido que cita coisas das quais não entende lhufas, só por achá-las bonitas e sonoras e para parecer um cara culto aos olhos e ouvidos alheios. Ilustrando esta matéria, uma página da HQ inspirada em um cartum birataniano, sendo que tal HQ foi publicada há algum tempo pela Editora Escala, e nela coloquei meu chapinha Biratan como personagem central. Daqui da Bahia mando para você um benfazejo axé, Bira, cabra bom de cartuns e de bandolim!
(Public. orig. 14/02/10)

11 maio 2016

Beatles, Stones, Marley, Steve Wonder e Ringo Starr no traço maravilhoso de Pablo Lobato

1. Cabeludos de Liverpool 2. Pedras rolantes 3. Majestade do Reggae 4. Cego Maravilha 4. Batera dos quatro cabeludos
Já postei aqui uns belíssimos trabalhos do caricaturista argentino Pablo Lobato. Fera. Um trabalho lindo, limpo, diversificado, pleno de originalidade e que, além de tudo, traz estampada a incontestável marca do talento que os exímios desenhistas argentinos costumam exibir em cartuns, caricaturas, quadrinhos, ilustrações, pinturas. Grandes magazines planeta afora trazem em suas páginas o traço elegante desse argentino que encanta a todos os amantes da boa arte.

09 maio 2016

Vinicius de Moraes e seu Horóscopo para as mulheres que amam apaixonadamente

Em um sebo encontrei um opúsculo de Vinicius de Moraes, cuja poesia muito me agradou sempre, um homem que nasceu para cantar as mulheres. Quer dizer, cantar no sentido de louvar. Se bem que no caso do poetinha acho que o outro sentido, o de seduzir, rolava amalgamado e não consta que alguma de suas musas haja reclamado no Procon, no STJ nem na mídia televisiva e impressa. Também neste pequeno livro, as poesias versam sobre as mulheres - assunto recorrente do poetinha - observadas agora sob o ponto de vista do zodíaco, com um olhar todo especial que só o talento de Vinicius podia trazer bem longe das baboseiras de praxe que o assunto parece atrair. Achei que mostrar aqui seria uma forma singela mas sincera de homenagear o autor do Soneto da Fidelidade na passagem da data do seu centenário, sendo também um bom pretexto para eu fazer uns traços e rabiscos à guisa de ilustrações. Aqui neste bloguito postarei todo o Horóscopo escrito em belos versos em que Vinicius deslinda a alma de cada uma das mulheres dos signos do zodíaco. De forma original, bela e única que nenhum Horóscopo jamais mostrou pois somente o amado Poetinha teria a criatividade necessária para preparar para vocês, doces meninas.

07 maio 2016

Affonso Manta, Ruy Espinheira Filho, Versos, Poesias

 
E já que falei no poeta Affonso Manta e já que postei uma poesia de sua lavra, posto aqui outra que boa poesia nunca é demais. A morte levou Manta deste mundo mas antes disso a Indesejada das Gentes ouviu do vate - amante das coisas belas e boas da vida - que ele não ia desinteressado do seu destino mas muito a contragosto. .
Não desejo morrer
Não desejo morrer enquanto houver
No céu estrelas brancas cintilando,
Na manhã clara um pássaro cantando,
Na cama um corpo airoso de mulher.
Não desejo morrer hora nenhuma
E sobretudo no instante presente.
Eu desejo ficar para semente
Carpindo minhas dores uma a uma.

De quebra, perfulgentes leitores, vai aqui uma poesia que Affonso escreveu e dedicou ao amigo, o inspirado poeta Ruy Espinheira Filho, também baiano, que era admirador de Manta. Nela, Affonso define o que é poesia para ele, poeta em tempo integral
A Poesia

Para Ruy Espinheira Filho
A poesia tem os olhos inocentes.
Inocentes de saberem tudo.
A poesia nos envolve
Como o silêncio do tempo que passa.
A poesia é um pássaro branco
Voando na velocidade da luz.
A poesia embriaga como o vinho.
E nos mantém vivos como o ar.
A poesia é um rio imenso,
Um rio que deságua no infinito.
A poesia é um mar profundo.
Profundo como o mistério da vida.

(Publ. orig. 16/10/13)