29 abril 2026

A dita Guerra de Canudos em versos do escritor Édio Souza, com desenhos de Setúbal


Eu já havia ilustrado crônicas que o escritor Édio Souza enviava de Santo Amaro da Purificação para o jornal A Tarde. Um dia, por telefone, ele me convidou para ilustrar um livro seu, escrito com versos à maneira da instigante, bela e tão brasileira linguagem dos livros de cordéis. Topei. Com uma ajuda do Núcleo de Incentivo Cultural de Santo Amaro fizemos um opúsculo que é, sim, pequeno em tamanho, mas que no final resultou em um belo livro que considero merecedor de uma nova edição feita por alguém que enxergue na obra o real valor que tem. Uma edição nova, bem feita, em um tamanho maior, em bom papel, impressão e revisão à altura da obra, pois a narração em inspirados versos escritos por Édio Souza faz por merecer ser lida por um público mais amplo, sendo esta narrativa de Édio uma preciosidade, lançando um olhar próprio e novo de um homem inteirado sobre uma temática já tão amplamente debatida mas que jamais se esgota, um olhar que é amplo, aguçado e embasado sobre esta dita guerra, que guerra nunca foi pois só havia um único exército na refrega, uma dolorosa ferida que carregamos na alma através de sucessivas décadas e que parece não querer cicatrizar, uma mais que delicada e inquietante página da História do nosso país de tantas e tantas páginas inquietantes que se repetem contra a vontade dos que querem uma pátria mais humana, mais justa. 
**********Acima, a capa, logo abaixo, três das ilustrações que fiz para o livro. Para fazê-las, utilizei grafite 2B sobre papel westerprint 180gramas, canetas nanquim, pincel Kolinsky 02, nanquim e uma cor laranja-céu-da-caatinga indicada graficamente. Clique em cima das figuras para ampliá-las.

28 abril 2026

James Joyce, quem diria, também morou na Bahia.

 
James Joyce, apesar de ter nascido na fria Irlanda, ficou conhecido mundialmente por haver escrito Ulysses, biografia do brasileiríssimo deputado Ulysses Diretas Já Guimarães, democrático político deste assaz ensolarado país tropical abençoado por Zeus, boni por naturê e tão amado por todos nosotros, quase sempre follados e mal pagos. Enquanto escrevia sua obra-prima, Joyce fixou residência no Brasil, mais exatamente em Salvador, na Bahia, escolhendo o bairro do Bonfim, cuja famosa colina de forma significativa lembrava a ele a topografia irlandesa. De família abastada e fervorosamente católica, o escritor sentia falta das tradições de sua terra natal, notadamente a popular lavagem das escadarias de Dublin. Para suprir tal falta, amealhou um batalhão de baianas devidamente paramentadas de brancas vestes, colares e indefectíveis balangandãs e, estando todas munidas de vassouras e quartinhas com água, com elas lavou as escadas da igreja de seu bairro soteropolitano. Os baianos, sempre hedonistas e chegados numa boa muvuca, gostaram do que viram e se juntaram incontinenti à patuscada com seus instrumentos musicais. Pronto. A lavagem das escadas de Dublin davam destarte origem à hoje tradicionalíssima Lavagem das Escadarias do Bonfim, festa que nestes tempos hodiernos arrasta multidões de fiéis e infiéis do mundo inteiro para esta afrocity Soterópolis, que a todos acolhe na sagrada colina incrustada nesta afro-terra de dendês e morenas frajolas e gentes bonitas de todas as etnias, chamada Bahia. Thanksthanks so much, Jojó!
(101013)

Raul Seixas, do Oiapoque à PQP.

Das bandas do Oiapoque ao Chuí, das bandas de rock à Marilena Chauí, neste Brasil varonil do másculo pra xuxu Gugu e do viril Clodovil, em uníssono eleva-se o brado retumbante de formidável contingente de pessoas: "Toca Raul!" 
Mesmo com todos os terríveis obstáculos jabaculísticos dos dias atuais, as rádios acabam tendo de atender aos veementes pedidos, pois a pressão popular é imensa, irrefreável. Quanto a mim, não preciso que em coro gritem: ''Pinta Raul!'' Na maior velô, vou logo me munindo de pincéis, tintas, lápis, pastel seco, pastel a óleo, carvão, sanguínea, papéis de gramaturas diversas, telas, Photoshop e...zás!, vou mandando ver em honra do nosso sempre amado, adorado e assaz idolatrado maluco beleza. É Raul Seixas na veia, nos ouvidos, nas retinas e na mente.Tá rebocado, meu compadre! Titirrane, Raulzito, titirrante!
(01052015)

26 abril 2026

O maravilhoso Percy Lau, o Brasil, o Peru, o IBGE


Meu primeiro alumbramento não foi nenhuma manuelbandeiriana moça nua banhando-se em inocente despudor. Foram o cinema e os desenhos. Mal largara a mamadeira, eu já era fã ardoroso dos geniais Flavio Colin e Will Esner. Mas havia um cara cujos desenhos eu ficava horas olhando, embevecido. Um desenhista que nunca vi ser citado por qualquer dos grandes artista do traço. Seu nome, Percy Lau. E a quem se disponha a perguntar que personagem ele fazia, em que revista desenhava, vou avisando que os desenhos de Percy, que tanto me encantavam, eram publicados em didáticos livros de Geografia adotados oficialmente nas escolas. Eram bicos-de-penas fantásticos que mostravam cenas, cotidiano, folclore e tipos do Brasil e desnudavam aos meus olhos infantes essa pátria, esse povo brasileiro. Vaqueiro do Marajó, Aguadeiro do São Francisco, As cachoeiras de Paulo Afonso, O gaúcho, A baiana vendendo acarajé, Seringueiros, A Caatinga, A floresta atlântica brasileira. Tudo feito com maestria e um evidente, incontestável e desmesurado amor por este país, que me causava espécie. Ainda mais quando descobri que Percy não era baiano, carioca, paulista, potiguar nem capixaba. Ou era tudo isso, vez que nascera em nuestro hermano Peru e adotara o Brasil como sua pátria onde era funcionário contratado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, sob incumbência do qual traçava com suas abençoadas mãos o retrato mais que perfeito deste povo, desta terra. Seguramente ele ia além do que lhe era exigido. Em cada hachura sua, em cada pontilhado mostrava e despertava amor pelo Brasil. Esse mesmo Brasil, do qual sempre se diz ser um país injusto e sem memória, tem uma dívida enorme para com Percy Lau. É mais que hora do IBGE valorizar o tesouro que tem e a própria excelência da Instituição, que teve a competência de produzir um trabalho, um registro importante assim, chamando pessoas tão gabaritadas quanto Lau para executá-lo. É oportuno editar um livro que mostre a grandeza de Percy , parte fundamental deste projeto. Não falo de um livro como o que comprei em um sebo, Tipos e aspectos do Brasil, do próprio IBGE, com um pequeno parágrafo falando desse brasileiro nascido na urbe de Arequipa, e sim um que enfoque Lau e que mostre, além dos seus maravilhosos trabalhos, quem era o homem, além do funcionário dedicado, um grande artista brasileiro, nascido casualmente em terras distantes, como tantos. Um álbum à altura do fantástico Percy Lau. E uma exposição significativa com seus magníficos desenhos, que seja itinerante e que possa mostrar às pessoas desse país sua Arte fantástica. Há pouco se deu o centenário de nascimento dele, é oportuno. E se no IBGE não tiver gente consciente e de competência para tal, que a Embaixada do Peru acorde e tome a si a responsabilidade, numa iniciativa que mostre que os peruanos produzem tesouros com admirável talento artístico. Ou qualquer boa editora, historiadores dedicados ou amantes da boa arte em geral. O importante é dar visibilidade ao talento de um soberbo artista e à sua produção tão intrinsecamente ligada às raízes populares brasileiras, feita com amor, paixão, zelo e carinho por este país verde, amarelo, azul e branco. Um homem iluminado, um anjo com uma pena na mão e um Brasil nos olhos, na cabeça, no sangue, na alma. Um artista fantástico que nos ensinou a todos a enxergar, a conhecer, a entender e a amar mais e melhor esse auriverde país.
(101012)

24 abril 2026

Madonna è mobile ou Do que uma mulher perdidamente apaixonada é capaz, my God!

Em pleno inverno novaiorquino estava eu em meu badalado studio no Soho pintando um quilométrico portrait de Madonna que a própria diva pop, em pessoa, me havia encomendado, pagando-me adiantadamente e de forma régia. Ah, mas nem tudo são flowers na vida deste cultuado multimídia soteropolitano que vos mimoseia com estes textos que Oscar Wilde assinaria prenhe de orgulho. Para meu lamento, apesar de se dizer uma eterna ardorosa amante de Jesus, a blonde girl quando se reta vira uma nigrinha dada a barracos, bafafás, pitis e quiproquós. Só que euzinho também tenho lá meus calunduns e não sou de levar desaforos para minha cobertura do Upper East Side, em Manhattan. Assim, depois de um formidável lug-tail (arranca- rabo, para os não poliglotas) com a Material Girl, dei um sonoro so long para a ex - Sean Penn, peguei um jatinho e troquei a Big Apple por uma big moqueca de Papa-fumo - marisco de respeito - na Barraca Ó Paí ó, de Tia Marizete, lá em Cacha-Pregos, na baianíssima e assaz paradisíaca Ilha de Itaparica. Com direito a uma caipiroska de siriguela e uma loira geladíssima - e não estou me referindo à Madonna Louise Veronica Ciccone. Quanto à cantora, belatriz e quase atriz, conheço muito bem a fera. Não demora, passada a raiva ela me liga chorando copiosamente cheia dos "come back, come back". Mas desta vez garanto que não saio tão cedo do meu palacete no Vale das Muriçocas nem por todas as verdinhas da terra do Tio Sam. E qualquer integrante de fã-clube da pop star que apareça em meu recôndito valhacouto pedindo que eu ceda às súplicas da Queen of pop, será devidamente rechaçado por meus mastins e pitbulls. E se não debandarem correm sério risco de terem as partes pudendas abocanhadas por um deles e aí vão passar o resto da vida cantando "Like a virgin" com a voz em falsete qual um Farinelli pop.
 (310413)

20 abril 2026

Quem precisa de Pasquale, Sacconi ou Sérgio Nogueira para falar o Português de forma irretocável?

 
Não sou nenhum mulato inzoneiro mas sou pleno de malemolência. Sou um cara do balacobaco, cheio de borogodó e de ziriguidum. Sou vacinado contra tudo que é ziquizira. Nunca fui de encarar nenhuma tribufu e comigo não tem ingresia nem forrobodó. Na hora do bafafá faço a maior quizumba, não sou de dar piriri, nem piripaque e muito menos caruara. Comigo, distinto, não tem trelelê nem trololó. Chego enfiando sapecaiaiá, distribuindo catiripapo e o fuzuê vira um quiproquó de fazer gosto e tudo acaba no maior bundalelê.
(040214)

19 abril 2026

Roberto Calos, o Rei. Sua vida dupla, suas manias excêntricas, e a Vetusta Jovem Guarda

Mesmo sendo filho do Espírito Santo, os céus não ajudaram muito Roberto Calos em sua juventude. Vindo de uma família que fazia malabarismos para sobreviver com curtíssima grana, esse cara sou eu tinha que trabalhar arduamente, sendo que era obrigado a encarar uma extenuante jornada dupla para ganhar a vida. De dia, Roberto Calos era jogador de futebol e em campo defendia uns pixulés jogando na lateral esquerda. Mal o juiz apitava o fim do jogo, Roberto Calos saía a 120...150...200 km por hora para os vestiários e ali mesmo sapecava uma peruca em sua cuca legal, vestia um terno azul ou branco, colocava um medalhão no pescoço, enchia os dedos de anéis e, na maior azáfama, ia em busca de mais uns trocados que conseguia amealhar atuando como cantor de diversas boates. Alguns, invejosos dessa sua versatilidade, insinuavam que ele não cantava banana nenhuma, que ele só urrava, daí o terem cognominado de Urrei Roberto Calos. Depois de muito ralar, RC conseguiu juntar umas economias e com elas resolveu se dedicar inteiramente à sua carreira de cantante e compositante. Vai daí, ao menos provisoriamente, desistiu de ser beque e comprou um calhambeque. Empolgado e gritando "Eu sou terrível!", saiu guiando sua caranga que não era lá uma máquina quente. Mas RC acabou se dando mal pois ele parou na contramão nas curvas da Estrada de Santos e um guarda apitou. Inflexivel, o intrépido homem da lei tascou-lhe uma multa que quase fez o cantor perder a voz. Inconformado, o filho de Lady Laura bradou: "Querem acabar comigo!" Como o policial não se comoveu, o cantante ficou indignado e vituperou: "Quero que vá tudo pro inferno!" De repente, se tocou que aquilo dava uma bela de uma música. Chamou seu parceiro Marasmo Calos e com esse seu amigo de fé, irmão, camaraaaada compôs um hit do iê-iê-iê que se tornou um verdadeiro hino da juventude vendendo toneladas de cópias mundo afora, o que lhes trouxe muita grana cofre a dentro. Já tendo vendido mais de 130 milhões de álbuns no planeta, RC não sabe mais o que fazer com tanto dinheiro que ganhou. São milhões, bilhões e fudelhões de reais, dólares, yuans, pesos, francos e euros que permitiram, entre otras cositas, que RC contratasse os melhores psicanalistas da praça para tentar curá-lo de algumas excentricidades e manias estapafúrdias que ele havia desenvolvido desde a sua infância, como o fato de gostar exclusivamente das cores branca e azul, achando que as demais lhe traziam mau agouro, abominando ele a cor preta, o cinza, o marrom e o verde que não te quero verde, cruz-e-credo!, pé de pato!, mangalô!, três vezes!! Esse lance meio bizarro lhe trouxe problemas e constrangimentos, sendo Roberto Calos muito criticado por ter chegado ao cúmulo de dizer à Garota Marota Alcione que parasse de se insinuar para ele, dizendo que jamais iria convidá-la para jantá-la pelo fato dela ser A Marrom.
(190514)

11 abril 2026

As Histórias em Quadrinhos, o diabo contra o Brasil

Tempos houve em que as Histórias em Quadrinhos aqui neste Patropi eram consideradas coisas do demo, do canhoto ou seja lá que nome dêem ao anjo dissidente das hordes celestiais. Você, amável e atilado leitor, que no conforto do seu sacrossanto lar gosta de ler bem editados álbuns de luxo de HQ que hoje circulam em toda parte com pompa e circustância, ficará um tanto cético diante de tal afirmação, mas ela é a pura expressão da verdade, por mais absurda que lhe possa parecer. Em meados de 1930 o empresário Adolfo Aizen, através do Suplemento Juvenil, lançou as HQs aqui no Brasil. Quer dizer, esta é a versão corrente, embora haja os que afirmem que antes dele já havia pubicações pioneiras de quadrinhos por aqui. O fato é que Aizen lançou com grande repercussão, em larga escala, de maneira maciça e por isso é considerado o grande marco dos quadrinhos no Brasil. Entre os leitores e os quadrinhos houve uma paixão instantânea e fulminante que se fortaleceu à medida em que o tempo foi passando. Não percamos de vista que nesse nosso país varonil de céu de anil somos forçados a conviver com um magote de gentes de mentalidade retrógrada, reacionários, autoritários e violentos que têm em comum o repugnante hábito de tentar impor aos demais a sua forma distorcida de enxergar o mundo por seus critérios malévolos como o que enxergava nas HQs a presença maligna do demo, o coisa ruim, o capiroto, o diabo. E não estamos falando do simpático personagem, o diabinho chamado Brasinha, o Hot Stuff, the Little Devil, que circulou no nosso patropi em gibis nos anos 60s e era aceito entre nós sem temores de despropositadas caça às bruxas, quando o número dos ditos cristãos fanatizados e iracundos ainda não parecia algo a ser temido, embora Brizola, que sempre teve uma aguçada visão da política, já fizesse alertas das catástrofes que a fé manipulada por charlatães inevitalmente traria ao Brasil. Hoje os mais atentos se dão conta das terríveis consequências que a fusão em curso das igrejas neopentecostais com a extrema nos ameaça a todos com sérias atrocidades. Premonitório Briza!    
Sim, toda essas hostes compostas por seres assombrosamente reacionários que depois da era bozolóide passou a circular livremente em espaços públicos sob nomes incorretos como "patriotas" ou mesmo "conservadores", um eufemismo indevido adotado para os que, de fato, são retrógrados, uma súcia antiga que não deixava em paz a cultura, a educação, as artes. Uma gente que se crê dona da verdade e se autoentitula defensora legítima da moral e dos bons costumes não é uma sandice dos tempos atuais, como pensam muitos, tal escória sempre existiu. Infiltradas nos órgãos oficiais, nos gabinetes acabaram por desenvolver verdadeiras campanhas onde a tônica era o mais improcedente preconceito e buscaram fazer uma lavagem cerebral por atacado afirmando que as revistas de HQs, os conhecidos Gibis, eram um inimigo natural dos livros didáticos, um adversário maléfico, um feroz antagonista das consagradas obras dos bons escritores, que destarte eram um inimigo do próprio Brasil e do povo brasileiro e um monte de sandices congêneres. Com todos essas acusações absurdas visando estigmatizar as linguagem dos quadrinhos, todo esse reacionarismo explícito, você ficará atônito ao descobrir que hoje existe, entre profissionais das HQs certos grupos de desenhistas e argumentistas que estão interligados abertamente à extrema direita e sua abominável política que odeia a Educação, a Cultura e as artes em geral, incluindo as histórias em quadrinhos, campo onde atuam profissioanalmente? Difícil de acreditar em algo assim, não é? Só as cabeças insanas deles para buscar razões que consideram plausíveis para justificar tão inaceitável aburdo. Quanto ao tempo das cruzadas abertas contra os quadrinho, absurdos inomináveis já foram ditos, escritos, foram impressos e circularam entre nós. Afirmavam, em cartazes e por outros meios, que a criança que lia quadrinhos inexoravelmente haveria de se tornar um malfeitor que empunharia armas contra as pessoas ditas normais. Valei-me meu São Stanislaw! 
Essa autêntica Idade das Trevas das comunicações graças aos céus parece ter chegado ao fim e hoje os quadrinhos circulam nos mais salutares ambientes com as devidas alvíssaras e são comercializados em versões bem cuidadas, até luxuosas, em livrarias conceituadas, sendo largamente empregados em campanhas governamentais, seja na área de saúde ou outra qualquer, onde se faça necessária uma forma de comunicação rápida e de alcance de todas as camadas. E, glória das glórias, hoje são utilizados amiúde em parcerias com os livros didáticos que assim levam ao povo, com o auxílio luxuoso das HQs, o doce sabor do Saber. Os quadrinistas brasileiros conscientes e dignos sempre lutaram pelo reconhecimento das HQs como forma legítima de comunicação e arte maior. Eternos batalhadores em prol do reconhecimento de seus trabalhos, vão sendo a cada dia mais valorizados. Muito justo, justíssimo. Merecido, merecidíssimo.
(210314)

08 abril 2026

Meu grande ídolo é um fascista, misógino, reacionário e homofóbico.

Ter um fascista como ídolo não é de bom alvitre nem algo que se possa assumir de público com a mesma naturalidade com que alguém se assume torcedor desse ou daquele time de futebol. Fascismo e nazismo são molas propulsoras de dolorosas e inaceitáveis injustiças sociais, ódios esmagadores os mais diversos, discriminações e perseguições as mais desumanas, racismo, graves e irreparáveis violências ao próximo. Mas aqui abro meu corazón de melón, de melón, melón, melón, corazón, para mencionar algo que pode chocar a você, caroável e humanista leitor que não compactua com tais abjeções que tanto degradam a raça humana. Acontece que assumidamente tenho como ídolo um fascista dos piores. Um cara desprezível, sem um pingo de moral ou sentimento de lealdade dentro de sua alma suja, um verme racista, um aproveitador e chantagista, um ser abjeto recheado de egoísmo que para atingir seus propósitos mais mesquinhos é capaz de explorar da forma mais infame o próprio pai que padece com as graves sequelas de um derrame. Um homofóbico, um porco machista de extrema direita que usa as mulheres como meros objetos sem lhes dar o devido respeito e valor. Um anti-comunista ferrenho, um admirador confesso do Generalíssimo Franco, um mentiroso sórdido e contumaz que só pensa em tirar vantagens das pessoas desavisadas que com ele se iludem, capaz de roubar quem quer que seja, se tiver oportunidade para isso. Sua história de vida é recheada de fatos e atitudes escabrosos. Era policial e usava seu cargo para oprimir e achacar pessoas a quem devia proteger, sendo por isso expulso da corporação. Seus erros e crimes foram tantos que acabou indo parar atrás das grades, o que só serviu para piorar o que já não era bom nesse fascista de meu agrado. Gordo, careca, bigodinho, um constante riso de escárnio na boca de onde pende um palito que usou em recente refeição filada de alguém. Uma camisa amarfanhada sob o paletó seboso, nele é puro charme e elegância. Refiro-me a José Luiz Torrente Gálvan, ou simplesmente Torrente – El brazo tonto de la Ley - um guarda-costas ocasional e falso agente policial, personagem de cinco deliciosas comédias do cinema espanhol. 
Seu criador é Santiago Segura, um ator de grande versatilidade que engordou 20 quilos para viver o personagem, como um dia já o fizera Robert De Niro. Além de ser o grande ator que é, com uma rica e extensa filmografia, Segura cria hilários personagens e escreve seus criativos argumentos. Como diretor sempre soube escolher muito bem os atores para trabalhar em suas películas, artistas de grande talento como os célebres almodovarianos Chus Lampreave e Javier Cámera, entre outros notáveis. Há riquíssimas participações de personalidades admiradas em seus filmes, o que demonstra seu carisma e o bom conceito de que desfruta. 
Santiago Segura também é produtor de filmes, é compositor, já apresentou programas de TV, faz trabalhos como dublador, já criou argumentos para histórias em quadrinhos, editou fanzines, cursou Belas Artes e também é desenhista habilidoso além de criador de admiráveis personagens. Dentre esses personagens que cria para o mundo das grandes comédias cinematográficas feitas com um humor de primeira linha, em lugar de relevo e de grande importância está José Luis Torrente, seja ele um crápula incorrigível ou quem sabe um mero produto do meio e das circunstâncias que o tornaram o fascista grotesco que é. Para horror dos que se pretendem mais sensatos, a vida costuma imitar a arte e infelizmente é crescente o número de pessoas do mundo real que estão exibindo um comportamento que em tudo se assemelha ao personagem da ficção e isso não tem um pingo de graça, pra dizer o mínimo. José Luís Torrente Gálvan é o único fascista a contar com minha admiração. Quem não conhece os filmes com o personagem não sabe o que está perdendo. Viva a Espanha! Vivam Torrente e Santiago Segura!
(050916)

07 abril 2026

O idioma franco-português falado na terra do Professor Pasquale.

Sou um liberal avant la lettre. Nos costumes, que fique claro. No atual sentido político-econômico, nem pensar. Esse negócio de lassez faire, lassez aller, lassez passer, só é bom mesmo para um grupinho e há que se ter um olho bem aberto. Ou melhor, os dois. Sou do time da liberté, égalité et fraternité, mas não na base do uso de la guillotine, Sacré bleu! Já fui um enfant terrible, mas jamais um enfant gâté. Nem um franc-maçon, coisa que, aliás, vejo com muitas reservas. Sempre busquei encarar a vida como um bon vivant e tudo comigo é às claras, ali no vis-à-vis, no tête-à-tête. Nunca morei em chateau, só em modestas maisons. Fui sempre um gourmand mas nem sempre - ai de mim! - um bon gourmet. Adoro cassoulet, bouef bourguignon, filet au poivre, e lambo os dedos saboreando um foie gras, mas não dispenso um bom soufflé e um caprichado ratatouille. Na sequência, crêpes Suzette flambées ao melhor estilo da Le Cordon Bleu, até minha barriga estufar, já que esse negócio de novelle cuisine não combina muito com meu estilo de sujeito de baixa extração. Já gostei muito de cognac ( à la santé, mon ami Paulo Carrusô! ) e de champagne. Mas nunca, mon Dieu, tive o prazer de saborear um Grand Cru, como o Romanée-Conti. Ou um Le Montrachet. Mas quem sabe, um dia chego lá. Enquanto isto vou sorvendo umas garrafas de um popular Capelinha, que prefiro chamar de Petite Chapelle, o que engana os mais desatentos. No amor, me envolvi com cocottes e também sofri, com alegria, nas garras de femmes fatales. Curto Vaudeville e adoraria ir no Moulin Rouge assistir um Can-can. Aprecio filmes noirNovelle VagueArt Naif, Art Noveau e as delícias da Belle Époque. Já Décor e Art Déco nem tanto, talvez por eu não ser um nouveau riche. Gosto de trabalhar com papier marché e com papier glacé. Tento desenhar e pintar e, para tal, uso muito o papier couché, cada vez mais difícil de encontrar nesta Soterópolis. Primeiro faço debuxos e croquis depois uso Caran d'Ache. Adoro todas as cores, mas depois daquela Copa da França de 98, não me falem em Les Bleus, muito menos em Zidane. Sem falsa modéstia, sou coqueluche nas altas rodas de Montmatre e outros sítios menos votados. E nas minhas vernissages, sorvendo taças de um bom bordeaux, saboreio croissant, croquete, petit-pois, crème brûlée e um bom petit gâteau au chocolat. Mon Dieu, mon Dieu! Alors, no balanço do Olodum, o meu au revoir para vocês, mons enfants de la patrie.
(040214)

05 abril 2026

Os bebês reborn, as infindáveis pretensões

Uma palavra-chave que ora impera nessa auriverde sociedade hodierna: pretensos. Pretensos pastores. Pretensos padres. Pretensos pais de pretensos bebês. Pretensa deputada (casada com pretenso ex-juiz) que propõe leis a favor dos pretensos pais de pretensos bebês. Pretensos políticos justos (veríssimos) que só são defensores dos muito privilegiados. Pretensos doentes que alegam males orgânicos raros e mui convenientes e que, sob tais alegações, se internam em UTI-Realyte Show, ou que correm, céleres, 100m rasos com revólver engatilhado atrás de cidadão preto e depois se declaram portadores de pretensas síndromes que são apenas pretensos motivos para pedir (e obter) farto PIX do gado pretensamente patriota.