27 março 2017

O cartunista Biratan, o escultor Valtério e Setúbal na Ilha do Fogo .

Quando morei em Juazeiro, na Bahia, muito frequentei a Ilha do Fogo, fluvial ínsula situada bem no meio do largo Rio São Francisco, sobre a qual foi construído a quilométrica ponte Presidente Dutra. Lugar mais que aprazível, lá ia eu tentar meus tímidos mergulhos, tomar cerveja, comer surubim e ficar jiboiando nas areias claras sob o sol. Ali ciceroneei diversos amigos que lá iam me visitar e conhecer a cidade onde nasceram João Gilberto e Ivete Sangalo. Por diversas vezes recebi uma admirável dupla, o premiadíssimo cartunista paraense Biratan Porto, com seu bigode à la Nietzsche, e o perfulgente escultor baiano Valtério Sales, dileto filho de Ruy Barbosa -  refiro-me, é claro, à cidade, não ao famoso Águia de Haia em pessoa. Na Ilha do Fogo, em meio aos frequentadores habituais, gente do povo,  nos abancávamos os três em uma barraca improvisada e assim protegidos do causticante sol da região bebíamos alguns magotes de gélidas cervejotas e deitávamos falação sobre tudo e tantos. Ali, naquele espaço popular,  plenos da mais certíssima certeza, discutíamos os rumos desta nação auriverde, execrávamos seus corruptos, articulávamos maneiras de com nossas artes salvar de trágicos destinos o explorado e sacrificado povo brasileiro. Para nossa sempre renovada surpresa, sem prévio aviso, Valtério Sales livrava-se de sua bermuda jeans e, trajando uma sunguinha rosa-shocking de lycra, vistosa e despudoradamente sumária - porém preservando e mesmo esbanjando a mais viril das virilidades - nos mostrava ser um autêntico Johnny Weismuller redivivo.  Com vigorosas braçadas, ele cruzava a todo instante as fortíssimas correntezas do São Francisco com elegância e raro destemor. Intimorato e radiante, Valtério mergulhava na Ilha do Fogo e ia dar lá em Petrolina. Sem descansar, célere mergulhava em Petrolina e vinha dar novamente na Ilha do Fogo. Num átimo mergulhava de uma pedra qualquer da Ilha e ia dar lá em Juazeiro. Isto se repetia até o raiar do sol, ele mergulhando em um lugar para ir dar em outro, fazendo com seus mergulhos a alegria da garotada do lugar. O nobre Biratan Porto é testemunha de que o infatigável Valtério hoje morre de tristeza por saber que militares pernambucanos, talvez em comemoração aos 50 anos do golpe militar de 64, resolveram de forma reprochável proibir o acesso de moradores e civis em geral à Ilha do Fogo e destarte nosso amado escultor e cartunista, absurdamente, está impedido de exibir seu físico de Adonis, sua sunguinha rosa-shocking de lycra, sua arte aquática e sua invejável forma física na Ilha do Fogo. Lamentável, lamentável.
(Publicado originalmente em 06/04/14)

25 março 2017

Na hora do Sexo, os chineses comem de pauzinho? / U Sexu nu mundo 6

Em desentendimentos conjugais, o marido chinês perde toda sua proverbial paciência chinesa com sua cara-metade e a ofende chamando-a de dragão. Acontece que na China esse negócio de dragão é coisa muito séria e aí rola a maior Kung Fu Zão, digo, confusão. Vai daí que a digníssima fica indignadíssima, partindo, exasperadíssima, pra quebrar a metade da cara que pertence ao seu cara-metade. E vá ser violenta assim lá na China, pois ela, sem precisar recorrer a nenhum manual de kung fu, quebra mesmo a asiática fuça do sujeito com muita porrada e na casa do casal Imperador, digo, impera a dor. A dor é tamanha que o pobre china faz horrendas caretas e pula gritando: "Aikidô, aikidô, aikidô". Quem acha que chinês e brasileiro não têm nada em comum, não sabe que, igual a qualquer brasileiro do povão, o chinês adora um bom pagode. Vá lá que é pagode chinês, mas é pagode, ora, bolas! Aliás, por aquelas plagas chinesas, o Zeca Pagodinho é um grande ídolo. O problema para os brasileiros na China é a comunicação, que é muitíssimo difícil. Você pede ao cozinheiro do hotel para ele mandar uma pizza, mas ele Mandarim, digo,  ele manda rim e você, para não passar fome, acaba tendo que comer, mesmo a contragosto. Falando em comer, os homens chineses adoram comer brotinhos. É broto de feijão, broto de bambu e por aí vai. Ele só não come mesmo é a própria mulher, tudo porque ela já não é mais nenhum brotinho.
(281210)

20 março 2017

Cafezinho na Bahia: a pausa que aquece ainda mais nossos calorosos corações.

 
Quem pensa que pelo fato de vivermos numa ensolarada urbe nós, soteropolitanos, não somos chegados a uma rubiácea quentinha, em muito se engana. Apreciamos, apreciamos e muito, seja dia, seja noite, brasileiros somos. Só que ao invés de sorvermos o cafezinho nosso de cada dia em balcões de bares ou padarias apinhadas de gentes, como sói acontecer em São Paulo e no Rio de Janeiro, preferimos fazê-lo ao ar livre aproveitando uma boa brisa vinda do mar do Atlântico que fica logo ali na esquina. Nós não vamos ao cafezinho - que aqui chamamos carinhosamente de menorzinho, sendo que o sem leite é singelamente batizado de pretinho. Aonde quer que estivermos, ele é que chega até nós em simpaticíssimos carrinhos de café, coisa da criatividade do proletariado soteropolitano que bolou e que fabrica os tais carrinhos. E lá se vão pelas ruas, ladeiras, altos, baixos, alamedas, vielas e becos de Soterópolis os carrinhos empurrados pelos seus orgulhosos donos, e é aquele desfile de matar de inveja os imponentes carros alegóricos das escolas de samba de Sampa e do Rio, sendo cada carrinho de café personalizado pelo orgulhoso proprietário, cada carrinho com suas características próprias segundo o gosto estético do envaidecido dono que o vai enfeitando dia a dia e aí fica um mais bonito que o outro - alguns até são dotados de som em altura moderada - e neles se vendem ainda cigarros para os incorrigíveis e assaz inveterados tabagistas e também se mercam os tradicionais queimados, que é como nós baianos simpáticos e cheios de malemolência, batizamos o que no sul chamam de balas. Balas para nós são só aquelas que malfeitores, sicários e policiais, fartamente e a qualquer hora,  despejam pelos espaços urbanos, cada um do seu lado e nós, cidadãos comuns, no meio tentando se esconder e apelando a um dos muitos santos que nomeados para prestar serviços entre nós. Mas enquanto essa galera do mal não vem nos apoquentar, ficamos ali na boa, olhando o mar, curtindo uma brisa que nos mitiga a alma e o melhor dos cafezinhos. Para melhor dar uma ideia do que dito foi, não perdi tempo e fotografei esta cena genuinamente soteropolitana com minha Rolleyflex de tinta acrílica, depois usei um tostão de Photoshop
(25/04/14)

Fernando Ikoma: quadrinista, argumentista, artista plástico dos muito bons.









No universo por vezes sombrio das HQs brasileiras, Fernando Ikoma foi sempre estrela das mais perfulgentes. Desde o início de sua rica trajetória Ikoma revelou possuir um talento raro e uma criatividade que o permitia transitar por temáticas mais que revisitadas por miríades de artistas sem cair nas insidiosas armadilhas dos estereótipos, das mesmices, das soluções fáceis. Seus personagens bem construídos viviam situações que suscitavam a curiosidade dos leitores. Personagens sempre envolvidos em tramas que tinham o dom de prender a atenção dos incontáveis fãs, entre os quais estava eu, admirador de primeira hora de suas criações, Fikom, Sibelle, a espiã de Vênus, A turma da Cova, Zé Experimentadinha, Paquera, Maria Esperançosa. Ufa! Haja criatividade para um único cérebro. Mas aqui neste Brasil de Gugu e Clodovil nem sempre ter talento é garantia de sucesso. Tanto mais num mercado inóspito como o dos quadrinhos. E o criador de Fikom e Cia, mesmo tendo tanto a mostrar e a produzir viu-se obrigado a mudar o rumo de sua vida profissional. Com sua verve criativa Fernando Ikoma poderia ser escritor, roteirista de TV ou Cinema, homem de Marketing e o escambau. Preferiu trilhar o belo caminho das Belas Artes e hoje usa seu talento para criar bem elaboradas pinturas em telas que o tornaram um artista plástico consagrado recebendo o merecido reconhecimento e o respeito de todos. Grande, grande Fernando Ikoma!
 Para ver trabalhos deste Mestre, vai aqui o link: http://blogdoikoma.blogspot.com/
(10/04/14)

Jô Oliveira, artista gráfico cercado de grana alta / Pintando o Set


Dos desenhadores e grafistas brasileiros, meu amigo Jô Oliveira é quem mais viveu a vida cercado de grana, mas muita grana mesmo, e bote grana nisso. Botou? Bote mais, bote mais. É que um dia Jô pegou seu matulão e deixou seu amado Pernambuco buscando dias melhores em Brasília, vindo a tornar-se um confiável funcionário da Casa da Moeda. Quer dizer, confiável mas ainda assim sujeito a rigorosas revistas diárias na entrada e na saída da dita Casa, que lá todo cuidado é pouco e não dão mole nem a um sujeito idôneo como o Jô.  Lá é criado e impresso - se minha amnésica memória não falha - toooodo o dinheiro deste país dito emergente. Milhões, bilhões, trilhões, caralhaisquilhões. Jô é - ao menos era - um daqueles caras responsáveis por fazer os belos desenhos, arabescos e filigranas cheias de cores e suas nuanças que estampam as cédulas às quais por vezes o povão  costumava lhes emprestar o nome de acordo com o valor ou cor característica. "Quanto custa isto?" "Um barão" ,"Um Cabral", "Uma abobrinha". E quando perdiam o tal valor, que tristeza, que depressivo. É  como canta o bardo cearense Falcão em um de seus clássicos: "Eu sinto na pele o desgosto / De Anísio Teixeira / Cunhado feito um abestado / Em uma cédula de mil...". E voltando ao Jô Oliveira, um dia, em Recife, com seu traço bonito fez esta minha régia fina estampa que usei para ilustrar esta postagem ditada pela saudade de tão nobre amigo. Nobilárquico Jô, nem todo o dinheiro que já o cercou aí na Casa da Moeda serviria para pagar tudo que seu talento artístico já produziu. Abração procê, cabra bão!
(22/04/14)

Para o gajo Fernando Pessoa uma acrílica que canta em cores.

 "Qualquer música. Ah, qualquer, logo que me tire da alma esta incerteza que quer qualquer impossível calma." Lindos esses versos de Fernando Pessoa, gajo muito giro, poeta mais que inspirado que no início do século passado escrevia essas coisas que até nos dias atuais seguimos lendo pra lá, muito pra lá de embevecidos. Inspirado pelos versos do bardo lusitano, pintei essa tela usando tinta acrílica sobre tela. E quando a pintei, caro Pessoa, fique certo que em minh'alma não vagava incerteza alguma.
(22/04/14)

12 março 2017

Damion Dunn, caricaturista e ilustrador da Califórnia.

 


 1.Jimi Hendrix 2.Samuel L. Jackson 3. Mya 4. She-Hulk
Volta e meia descubro coisas muito legais navegando pelos mares da internet, já que navegar é preciso. Entre outros grandes achados, descobri o blog deste maravilhoso artista de Los Angeles, Califórnia, chamado Damion Dunn, ainda desconhecido aqui nesse nosso país tropical abençoá por Dê e boni por naturê, ma que belê! Mas olhem só, amigos, que belo trabalho. Great stuff, Damion. So amazing, boy! 
Eis aqui um link para o blog do Damion:
http://damion009.blogspot.com/
(29/11/13)

Will Esner e The Spirit / Uns cara que eu amo 2

Dos meus alumbramentos na minha tenra infância ressoa forte uma HQ carregada do mais negro nanquim mostrando uma casa em região de inóspita floresta. Um ventilador de teto. Um homem com um jornal na mão que mata as moscas que insistem em pousar em sua mesa, em sua roupa e pele. Sua epiderme transpira por todos os poros enquanto o homem fuma seu cachimbo em cena vista de cima. Puro cinema, esta HQ. Tais imagens, instigantes, colaram-se nas minhas retinas, na minha memória. Cresci e só mais tarde descobri seu autor: Will Esner. O grande, o magistral, uma fonte inesgotável de criatividade, tanto no texto quanto nas ideias sempre renovadas. Will Esner. No Brasil ele se sentia muito à vontade por comprovar que aqui possuía uma legião incontável de incondicionais fãs de seu cinematográfico estilo. Entre eles, ói eu, embevecido, torcendo pelo Spirit, com sua máscara e um sorriso no canto da boca, sempre rodeado de belíssimas vilãs como a nada angelical Satã.
(30/10/2013)

11 março 2017

Sexo de graça - Sadomasoquismo familiar em flagrante

(07/05/13)

O cartunista Valtério e suas fantásticas criaturas


Afirmam as crenças católicas que tão logo criou o mundo, Deus resolveu criar o homem para nele habitar. E assim o fez, esculpindo-o em uma porção de barro. Fácil é deduzir que além de fazer surgir o primeiro ser da espécie, o Onipotente criou também a ainda inédita atividade de esculpir. Ou seja, avant la lettre, Deus foi um escultor, o que o torna assim um ilustríssimo colega de meu nobre amigo Valtério Salles que também esculpe em barro criativas figuras humanas e todo um mundo de coisas belas. Uma vez em uma revista de circulação nacional li uma entrevista com Millôr Fernandes. O guru do Meyer se deixou fotografar em sua própria residência e fez questão de posar em sua sala de estar ao lado de uma caricatura sua esculpida em barro. Detalhe: a peça tão apreciada pelo gênio da raça era um trabalho de Valtério. Essa incontestável habilidade de Valtério de esculpir em barro não preencheu de todo seu vasto impulso criativo.  Vai daí que ele retomou o desenho, ponto de partida de sua caminhada artística surgido ainda na sua infância vivida em Ruy Barbosa, no interior da Bahia.  Nos anos setentas, morando no Rio de Janeiro, tomou aulas no Senac com o cartunista Guidacci, afamado por exercer bem o ofício. Aos pouquinhos foi se aperfeiçoando, publicou em revistas e jornais, entre eles no emblemático O Pasquim. Sabendo que só a prática habitual e a perseverança poderiam melhorar seu desenho, há já um bom número de anos Valtério muniu-se de bloco de desenho e lápis e saiu desenhando um mundaréu de gentes pelas praias e barzinhos da Bahia. Pessoas ditas comuns e desconhecidas, o que não expressa bem a veracidade dos fatos. Na verdade, cada uma delas é mais notável que a outra em sua forma de ser, sendo também todas muito conhecidas por todos nos ambientes que frequentam. Assim sendo, Valtério caricaturou ao vivo banhistas, habitués de barracas, ávidos bebedores de cervejas e destilados, comensais de caranguejos e lambretas, vendedores de coco, picolé, queijo coalho, meninos, jovens, adultos, provectos senhores, homens e mulheres. O resultado disso foi que seu traço foi ganhando maturidade, ficando solto e se tornando cada vez mais bonito e seguro, diferenciando-se das suas influências e tornando-se mais próprio a cada trabalho feito. Então, deu-se que Valtério achou que era chegado o momento de publicar em livro o resultado de seus périplos praianos e o fez em um livro batizado de Criaturas. Nele, o autor junta seus modelos populares e mostra ainda um lote de seus amigos afamados, constando entre eles, escritor, jornalista, poeta, músico, artista gráfico, cineasta. Todos desenhados com o mesmo carinho, eternizados pelo belo e solto traço que Valtério conquistou nessas suas andanças pelos recantos baianos enriquecendo ainda mais seu cabedal artístico. De quebra ele republica hilários cartuns e caricaturas já antes publicados em jornais e revistas da imprensa brasileira. Como alguém que gosta muito de desenhos, foi com grande prazer que folheei cada uma das páginas de Criaturas, deliciando-me com os desenhos valterianos que certamente farão também a delícia de todos os leitores que amam a boa arte.
***Para adquirir seu exemplar, contatos pelo e-mail valterio.sales@terra.com.br     
(Publicado originalmente em 01/08/2015)






08 março 2017

João Ubaldo Ribeiro há anos já previa o golpe, por conhecer de sobra o Brasil.

"Desde que me entendo, ouço falar em reformas e as únicas que lembro ter visto efetivamente realizadas são as ortográficas. Talvez eu esteja sendo injusto e tenha presenciado a realização e implantação de alguma reforma não ortográfica. Mas não aquelas que antigamente eram chamadas de “reformas de base” e consideradas essenciais para o desenvolvimento ou até a sobrevivência do País. Reforma agrária, reforma tributária, reforma judicial, reforma administrativa, reforma educacional e por aí se desfiam as benditas reformas, um longuíssimo rosário, impossível de recitar de cor. Ao mencionar-se sua necessidade ou urgência, todos assentem com ares graves – sim, sim, naturalmente, as reformas.
Contudo, passar da anuência à ação é aparentemente impossível. Reforma é uma coisa na qual se fala, mas não se faz. É excelente para comícios e entrevistas, mas não para agir. De vez em quando, um governante diz que fez uma reforma. Se não me engano, o ex-presidente Lula anunciou que fez uma ou duas reformas. Não lembro quais e provavelmente nem ele, são coisas do passado e ninguém viu reforma nenhuma mesmo.
Tenho uma teoria simples a respeito desse assunto. Todas as reformas, de todos os tipos, iriam prejudicar os que ganham com a manutenção do que está aí. Como o País, de cabo a rabo, em todos os níveis, em todas as classes e categorias, é essencialmente corrupto, a corrupção não deixa. Não existe setor da administração pública, novamente em todos os níveis e dimensões, que não seja território de uma ou diversas máfias, algumas das quais institucionalizadas e quase todas alimentadas por uma burocracia pervertida e feita para ensejar propinas, vender influência e fazer proliferar os despachantes e seus equivalentes mais graduados, os chamados consultores – entre estes últimos constando o hoje injustamente esquecido filho de d. Erenice. ( N.R - JUR refere-se a Israel Guerra, filho da ex-Ministra-Chefe da Casa Civil
)Diante da realidade de que há quadrilhas em ação em todos os poderes, tanto de fora para dentro quanto de dentro para fora, não se vai acreditar que os beneficiários de determinado estado de coisas abdicarão de suas vantagens pelos belos olhos de quem quer que seja. Ouso mesmo dizer que, em muitas das áreas mafiosas, quem for fundo demais na investigação e na reforma corre o risco de morrer. São muitas as histórias de assassinatos realizados a mando de algum esquema de corrupção, pelo Brasil afora. Não escapa área nenhuma, a começar, simbolicamente, pelas próprias polícias.
E não escapa, naturalmente, o Congresso Nacional,
onde, segundo as más línguas (observem meu uso copioso do adjetivo “alegado”, ou quem vai preso sou eu) há alegados ladrões, alegados estelionatários, alegados salafrários e outros alegados, em tamanha fartura que desafia a contagem. Agora o Congresso está entregue à tarefa de realizar a reforma política, todo mundo fingindo que acredita que algo que prejudique os interesses imediatos dos congressistas será aprovado. E que o nosso sistema eleitoral está sendo aperfeiçoado.
Aperfeiçoado para eles. O que eles pretendem chega a parecer brincadeira, mas, infelizmente, não é. Querem, como se sabe, instituir o que já chamam afetuosamente de “listão”. O eleitor não votará mais em um candidato, mas na lista elaborada pelo partido, na ordem estabelecida pelo partido. Atualmente, com a lista aberta, pelo menos o eleitor escolhe uma pessoa e essa pessoa, se bem votada, fatalmente se elege. Mas não vai haver mais esse direito. De agora em diante, com a lista fechada, o eleitor escolhe o partido com que se identifica e lhe entrega a escolha dos nomes que serão eleitos.
Só pode ser deboche. Que significa um partido político no Brasil, senão a conglomeração temporária de interesses que raramente são os da nação, mas de grupos, categorias ou indivíduos? Até os programas partidários não passam de florilégios de frases vagas e altissonantes, tais como o combate à desigualdade e a injustiça social, os projetos de inclusão, o desenvolvimento sustentável, a preservação do meio ambiente e outras generalidades, quem ouve um, ouve outro e, se o nome do partido fosse apagado, não haveria quem o distinguisse. Apareceu até um partido que se declara não ser de esquerda, nem de direita, nem de centro. Talvez seja o mais honesto deles todos, por mostrar que reconhece a realidade política brasileira. Aqui nenhum partido quer dizer nada mesmo e podiam usar todos a mesma sigla: PPPPP, Partido Pela Predação do Patrimônio Público, porque tudo o que seus membros aqui almejam é abocanhar a parte deles.
Agora vêm com essa novidade da lista fechada. Se já não nos é permitido dar palpite no uso do nosso dinheiro, daqui a pouco nos tirarão o direito de escolher nossos governantes. Ou seja, seremos mandados pelas organizações oligárquicas e caciquistas dos partidos. Seremos uma “democracia” governada por conluios e manobras escusas. Ou por 171, como queiram."

( Trechos de artigo de João Ubaldo Ribeiro,
 (01 novembro 2011 )

Finitude / Setubardo, o maior dos poetas menores

Essa moça tece a teia
Que minh'alma inerme enleia.
Me esquivo dela qual o diabo da cruz
E quando me creio seguro,
Olha ela aí, meu Jesus!
C'est fini a calmaria.
Tornados, borrascas, procelas,
Tufões, ciclones, querelas,
Psique em desarmonia.
( 01/08/10)

07 março 2017

Jogador de futebol, um semideus / Arte que se reparte 3

Pintura em tela, tamanho 80x60 cm, que hoje faz parte da pinacotéquia do Seu Creysson, do Cassetia i Planetia, quer dizer, que atualmente integra a pinacoteca do graaaaande Claudio Manoel, do grupo Casseta e Planeta, segundo me informou o respeitável dono da galeria de Arte em que esse quadro foi vendido.
***Para você, pictórico leitor, que almeja ser artista plástico ou simplesmente gosta de ficar muito bem a par de detalhes e filigranas, saiba que para pintar essa futebolística tela fiz o esboço com lápis B e, para criar uma textura, usei massa acrílica colocada com espátulas. Na bola fiz uma colagem com um tecido para dar um relevo e um toque dadaísta, seja lá o que isso for. Já na pintura propriamente dita, usei um pequeno arsenal de pincéis de variados tamanhos e formas e uns tubos e potes da sempre boa tinta acrílica. 
(18/02/15)

06 março 2017

Fernando Trueba, Bebo Valdés, Carlinhos Brown e o Milagre do Candeal.

Carlinhos Brown, Bebo Valdés e Fernando Trueba, em 2004.
Belle Époque (Sedução, no Brasil) foi o primeiro filme dirigido por Fernando Trueba que assisti. Gostei muito e não era para menos. O argumento é envolvente, a fotografia bela, a direção primorosa. O elenco, maravilhoso, traz Ariadna Gil, Penélope Cruz, Jorge Sanz, Maribel Verdú, Fernando Fernán Gómez, Chus Lampreave. Por essas virtudes, em 1993 o filme recebeu prêmios importantes no mundo do cinema, como o Goya de melhor diretor e melhor argumento e o Oscar de melhor filme de língua não Inglesa e outros mais. Por haver gostado desse diretor, volta e meia assisto algo que ele dirige ou produz. Assim, assisti O milagre do Candeal (El milagro de Candeal), documentário de Trueba, rodado em 2004. Numa narrativa gostosa e cheia de nuanças, o documentário mostra, entre outras coisas, o trabalho social desenvolvido por Carlinhos Brown no hoje famoso bairro de Salvador, Bahia. Enriquece o documentário a participação do maravilhoso pianista cubano Bebo Valdés, que visita o Candeal, bem como a do cantor e músico Mateus Aleluia. Ao lado de Brown, Mateus faz as vezes de anfitrião a Bebo Valdés, diálogos em Espanhol e Português, em que o tema é o projeto social do Candeal, a música, as influências e intercâmbios musicais, as religiões de matriz afro, a ancestralidade comum, e também a chamada enorme influência africana presente no cotidiano da Bahia e em Cuba. Cenas de moradores do Candeal e voluntáiros trabalhando em álacre mutirão para erguer praça e construção são entremeadas de depoimentos desses populares, parte importante do projeto, erguendo com as próprias mãos a parte física e material do Milagre. Enriquece o documentário a presença de Marisa Monte, cantando ao lado de Brown. Mateus Aleluia também canta e toca, da mesma forma que Gilberto Gil e Caetano Veloso. Esses dois últimos, aparecem em entrevistas descontraídas. Caetano mostra um Espanhol escorreito, ao conversar com Bebo Valdés. Isso faz lembrar que, no documentário, quando as pessoas falam em Português, aparecem legendas em Espanhol. Tais legendas são dispensadas nas falas de Gil e Caetano, pelo Espanhol escorreito que falam. O burlesco, ainda que involuntário, fica por conta de Carlinhos Brown que, para se comunicar com Bebo, ataca de um Portunhol divertido e muito enrolado, por vezes uma verdadeira algaravia. O hilariante nisso é que em tal caso, as legendas aparecem e são providenciais até para os espectadores brasileiros. Grande Brown!    
****Coloco aqui um link para o documentário, mas como há coisas de internet que são o tempo todo mutáveis, quem quiser ver o documentário, que o faça logo. 

04 março 2017

J.L.Torrente, racista, misógino e fascista, é meu grande ídolo. .

Ter um fascista como ídolo não é de bom alvitre nem algo que se possa assumir de público com a mesma naturalidade com que alguém se assume torcedor desse ou daquele time de futebol. Fascismo e nazismo são molas propulsoras de dolorosas e inaceitáveis injustiças sociais, ódios esmagadores os mais diversos, discriminações e perseguições as mais desumanas, racismo, graves e irreparáveis violências ao próximo. Mas aqui abro meu corazón de melón, de melón, melón, melón, corazón, para mencionar algo que pode chocar a você, caroável e humanista leitor que não compactua com tais abjeções que tanto degradam a raça humana. Acontece que assumidamente tenho como ídolo um fascista dos piores. Um cara desprezível, sem um pingo de moral ou sentimento de lealdade dentro de sua alma suja, um verme racista, um aproveitador e chantagista, um ser abjeto recheado de egoísmo que para atingir seus propósitos mais mesquinhos é capaz de explorar da forma mais infame o próprio pai que padece com as graves sequelas de um derrame. Um homofóbico, um porco machista de extrema direita que usa as mulheres como meros objetos sem lhes dar o devido respeito e valor. Um anti-comunista ferrenho, um admirador confesso do Generalíssimo Franco, um mentiroso sórdido e contumaz que só pensa em tirar vantagens das pessoas desavisadas que com ele se iludem, capaz de roubar quem quer que seja, se tiver oportunidade para isso. Sua história de vida é recheada de fatos e atitudes escabrosos. Era policial e usava seu cargo para oprimir e achacar pessoas a quem devia proteger, sendo por isso expulso da corporação. Seus erros e crimes foram tantos que acabou indo parar atrás das grades, o que só serviu para piorar o que já não era bom nesse fascista de meu agrado. Gordo, careca, bigodinho, um constante riso de escárnio na boca de onde pende um palito que usou em recente refeição filada de alguém. Uma camisa amarfanhada sob o paletó seboso, nele é puro charme e elegância. Refiro-me a José Luiz Torrente Gálvan, ou simplesmente Torrente – El brazo tonto de la Ley, um guarda-costas ocasional e falso agente policial, personagem de cinco deliciosas comédias do cinema espanhol. Seu criador é Santiago Segura, um ator de grande versatilidade que engordou 20 quilos para viver o personagem, como um dia já o fizera Robert De Niro. Além de ser o grande ator que é, com uma rica e extensa filmografia, Segura cria hilários personagens e escreve seus criativos argumentos. Como diretor sempre soube escolher muito bem os atores para trabalhar em suas películas, artistas de grande talento como os célebres almodovarianos Chus Lampreave e Javier Cámera, entre outros notáveis. Há riquíssimas participações de personalidades admiradas em seus filmes, o que demonstra seu carisma e o bom conceito de que desfruta. Santiago Segura também é produtor de filmes, é compositor, já apresentou programas de TV, trabalhou como dublador, já criou argumentos para histórias em quadrinhos, editou fanzines, cursou Belas Artes e também é desenhista habilidoso além de criador de admiráveis personagens. Dentre esses personagens que cria para o mundo das grandes comédias cinematográficas feitas com um humor de primeira linha, em lugar de relevo e de grande importância está José Luis Torrente, seja ele um crápula incorrigível ou quem sabe um mero produto do meio e das circunstâncias que o tornaram o fascista grotesco que é. Para horror dos que se pretendem mais sensatos, a vida costuma imitar a arte e infelizmente é crescente o número de pessoas do mundo real que estão exibindo um comportamento que em tudo se assemelha ao personagem da ficção e isso não tem um pingo de graça, pra dizer o mínimo. José Luís Torrente Gálvan é o único fascista a contar com minha admiração. Quem não conhece os filmes com o personagem não sabe o que está perdendo. Viva a Espanha! Vivam Torrente e Santiago Segura!
(050916)

Cartola e as rosas tagarelas

As rosas não falam?! Falam, falam, sim, ora, se falam! Algumas são até beeeem tagarelas. Às vezes puxam assunto e falam muitíssimo bem desse notável brasileiro que é o mestre Cartola. Preconizam elazinhas que ele é, e sempre foi, um compositor magnífico, que legou à música brasileira verdadeiras pérolas finas musicais, tesouros de altíssimo valor, ainda que ele fosse uma pessoa de origem humilde, de poucos estudos formais, morador do Morro da Mangueira, no Rio, reduto de gente simples e comum, mesmo sendo ele um artista incomum. Esta carica acima eu fiz um tempo atrás, como presente pro meu nobre e especial amigo Biratan Porto, gente da minha querência, que todos sabem bem que é um cartunista e caricaturista piramidal, de alto gabarito, e de quebra é ainda um músico habilidoso, um virtuose do bandolim, coisa que tive a fortuna de comprovar ao vivo e a cores em Belém do Pará, e não fosse isso o bastante, Bira é também um cartolamaníaco inveterado, contumaz e renitente, no que lhe dou inteira razão.
(28/11/14)

Um Puto fascista em Portugal a serviço do Capitão Falcão e de Salazar.

Capitão Falcão é um militar treinado marcialmente para salvaguardar a ditadura em Portugal e, por extensão, proteger o ditador Antonio de Oliveira Salazar, criador do Estado Novo. Falcão ama tanto o despótico Salazar que em dado momento o oficial toma nos braços o déspota e com sofreguidão beija-lhe longamente a boca fascista em um ardoroso ósculo que denota a desmesurada paixão entre ambos. A cena é de uma comédia do cinema português em filme de 2015 dirigido em pelo cineasta luso João Leitão, que também é responsável pelo argumento e pelo roteiro, esse em parceria com Núria Leon Bernardo. Falcão, com sua máscara preta, faz uma linha de herói que muito tem a ver com o Batman e ainda mais com o Capitão América, patriótico combatente ianque que devasta os inimigos de seu país. A ideia inicial era fazer de Capitão Falcão uma série para a TV de Portugal. O projeto não avançou. O argumento foi reescrito e adaptado para o cinema, virou filme, alcançou bom público nas salas de exibições lusitanas, e acabou conseguindo ser exibido no formato minissérie nas telinhas pela RTP. Já li reportagens de alguns cineastas espanhóis reclamando da vida, da dureza que se tornou fazer cinema na Espanha. Não falariam isso à toa, mas a verdade é que, em termos de produção, o cinema espanhol tem dado um show nas películas que produz, o que não acontece com Capitão Falcão, de produção bem modesta, comparada às hispânicas e tantas mais. Ainda assim, o filme de Leitão surpreende positivamente com o elenco dando bem o seu recado. Capitão Falcão, o herói fascista, inimigo ferrenho de comunistas, esquerdistas de correntes as mais diversas e liberais em geral, é interpretado por Gonçalo Waddington enquanto José Pinto interpreta o ditador Salazar. O argumento e o clima do filme em alguns momentos fazem lembrar, ainda que de forma distante, o clima do humorístico brasileiro feito pelo grupo Casseta & Planeta e a TV Pirata. Com menos escracho, bem mais contido, mas com gags e detalhes de muita hilaridade. Curiosamente, Falcão batizou seu fiel ajudante de Puto Perdiz, o que para nós, do Brasil, soa hilário por si só, pelas diferenças no uso do Português, nossa língua comum, nem sempre tão comum assim. Aqui a palavra puto é pouco usada em sua forma masculina, e com sentido diverso do uso comum em Portugal. Na terra de Fernando Pessoa, os meninos ainda bem pequeninos são chamados de miúdos, enquanto os meninos maiorzinhos, já adentrando a adolescência, são chamados de putos, a exemplo da Itália, em que é comum chamar-se os meninos de puttos, designação oriunda do batismo daquelas esculturas ornamentais de anjinhos alados de capelas e igrejas, os puttos, putti, puttinos. No Brasil sabemos que impera um autêntico monopólio na exibição de filmes oriundos do cinema made in USA, e por aqui um filme português como Capitão Falcão praticamente não tem chances de ser exibido nos cinemas regulares. Cônscios disso, cinéfilos brasileiros juramentados não se cansam de tecer loas à internet por proporcionar o milagre de podermos assistir via online a filmes não encontradiços nas nossas salas de projeções, como essa comédia que mostra que os portugueses, além de serem bons de fado e de literatura, são também bons de humor e de cinema, o que se percebe através das imagens que mostram um Portugal dominado pelo Estado Novo e sob atenta vigília do Capitão Falcão e de seu amado Puto.
(22/11/16)

01 março 2017

A visão da imprensa na época de Antonio Conselheiro e a mídia atual.


Eu e o sertão, esse sertão tão dentro de mim, eu tão urbano. Aprendi a gostar deste tema graças aos filmes de Lima Barreto e Glauber Rocha, aos magistrais desenhos de Flavio Colin e de Percy Lau. Esta ilustração em bico-de-pena fiz para um livro já publicado que mostra como a imprensa da época via e retratava Antonio Conselheiro, tratando-o como um antimonarquista perigoso, um insidioso fanático e ardiloso, um sanguinário ensandecido e cruel que punha em perigo a estabilidade política e social do Brasil. Deu no que deu: um banho de sangue para Hitler e Stalin nenhum botar defeito, ligado para sempre à História do Brasil. Tanto ódio, tanta ira, tanto preconceito, visão distorcida e malsã, tão desmedida incitação à violência e a perseguições aniquiladoras insertadas pelos ricos e influentes donos da mídia, culminaram numa gigantesca e cruel tragédia que fizeram do beato um mártir eterno e deixou na história de nosso país essa mácula indelével, vergonhosamente abjeta. Fica o exemplo para que, nos dias atuais, procuremos todos avaliar melhor as posições da mídia, quais os reais interesses por trás do que veiculam, das campanhas por vezes implacáveis que movem, que ocultam inconfessáveis intentos e lamentavelmente findam por nos induzir a equívocos irreparáveis e armadilhas abissais.