25 janeiro 2020

Biratan, um cartunista com nobre sangue indígena.

Biratan Porto! Grande Bira, paraense dos bão! Em suas veias corre legítimo sangue papa-chibé, o que está mais do que na cara, basta olhar seus olhos amendoados que ele herdou de seus nobres antepassados indígenas. Amigo queridíssimo, Bira é um virtuose no bandolim e - en passant - um dos cartunistas mais premiados neste globo terrestre nos Salões de Humor destas e de outras plagas. Curto fazer caricaturas dos amigos dos quais mais gosto. Biratan é um destes, amizade de longa data que a distância jamais fez diminuir. Nas vezes que calha da vida nos possibilitar estarmos juntos em um elevado tête-à-tête, lançamos mão da sapiência de bater papos saudáveis regados com algumas cervejotas que ninguém aqui é nenhum Tony Stark, o tal Homem de Ferro da Marvel Comics, que por determinações médicas não pode sorver quaisquer líquidos, pois se enferruja à toa, à toa. Fiz esta homenagem em dose dupla, que é o jeito que Bira gosta de sorver seus etílicos. Se quiser ver humor de qualidade feito por um grande Mestre dos cartuns, quadrinhos e crônicas, clique aqui neste link: http://biratancartoon.blogspot.com/
( 290312)

24 janeiro 2020

Flavio Colin, o Mestre dos Mestres das HQs, comentando os desenhos de Setúbal.

Indômito e estoico, o decidido coração do explorador o leva a penetrar intrepidamente na imperscrutável selva que no seu emaranhado interior mortais armadilhas oculta. Na jângal de nigérrima escuridão e insondáveis mistérios penetra ele com invulgar destemor, sem quaisquer hesitações. Este explorador de quem falo sou eu, leitores. Esta selva, o espaço desorganizado de um quarto de meu larestúdio, em que se amontoam livros, revistas, discos de vinil, papéis com bosquejos, debuxos, rafes, layouts, rabiscos e estudos, lápis, canetas nanquim, pincéis, tintas a óleo e acrílicas, um bolachão do Manezinho Araujo, uma fita cassete com uma coletânea do Odair José, um CD do Bola de Nieve, outro com trilhas sonoras de filmes de Almodóvar, um poster mostrando Chavela Vargas e Atahualpa Yupanki, uma revista O Cruzeiro com Carmen Miranda na capa, uma figurinha carimbada do Flávio Minuano com a camisa 9 do Corinthians e incontáveis recuerdos de Ypacaraí. Toda sorte de objetos de formas, tipos e procedências se acumulam nessa mui densa selva em que os intrépidos irmãos Villas-Bôas não ousariam adentrar, temerosos. 
Tais temerárias atitudes de minha parte por vezes são altamente compensadoras. Muita vez meu peito experimenta a alegria de um velho arqueólogo que, após décadas de intensa procura, finalmente descobre milenares tesouros de um faraó. Isso se dá quando encontro algo que, estando perdido no meu caos doméstico, ressurge diante de meus olhos, materializa-se em minhas mãos. Como esta carta que um dia, no anno Domini 1998, enviou-me o inimitável, o inigualável, o incomparável Flavio Colin, meu ídolo desde que, ainda um guri, comecei a ler histórias em quadrinhos. 
Não conheci Colin pessoalmente, só grahambellmente, em longas conversas, principalmente sobre quadrinhos. Enviei a ele livros e revistas com desenhos meus e de amigos aqui da Bahia. Nos papos, Colin mostrava-se um homem culto e politizado. Sendo cortês, não deixou de escrever-me e o fez de forma alongada, falando de coisas que denotavam seu pensamento de profissional e, indo além, de forma espontânea teceu comentários sobre meus desenhos. Nada de teclados, notebooks, e-mails, o que Colin escreveu sobre meu trabalho foi escrito pelo mesmo punho que desenhava aquelas maravilhas todas que fizeram feliz minha existência de voraz devorador de gibis, álbuns, revistas de quadrinhos. Suas palavras foram e são para mim uma grande motivação. 
Considero que meus desenhos são meras garatujas diante da arte maior de Colin, mas ele, vendo meus trabalhos nos livros e revistas que lhe enviara, gostou e se motivou a me escrever, inflando meu ego, fazendo meu peito estufar preenchido pelo mais lídimo, justificável e salutar sentimento de orgulho. Determinam as regras do mais elevado e ético comportamento humano que uma pessoa assim laureada, porte-se com dignidade, com elevada modéstia, de maneira nobre, de forma serena, contida, reservada, sem ostentação. Pois faço saber que nesse caso mando uma banana para a modéstia e outra para sua irmã caçula, a discrição. Uma honra dessas não se acha por aí, aos montes, dando sopa pelas ruas, becos, ladeiras, vielas, veredas, ágoras, alamedas e bulevares, e não serei eu quem irá encobrir com o diáfano véu da falsa modéstia o irrefreável orgulho que sinto pelas palavras do Mestre Flavio Colin:
"Caro Setúbal:...
...Gostei e admirei especialmente "ABC da Guerra do Absurdo". Sem bajulações e sem salamaleques, considero suas ilustrações belíssimas. Um trabalho realmente primoroso. Vou guardá-lo com todo o carinho. Espero que você alcance êxito, não só profissional e financeiramente, para que possa expor todo o seu potencial artístico e viver do seu talento com a segurança e a dignidade que bem merece. aguardo novos trabalhos seus. Abração do Flavio Colin."
200817

17 janeiro 2020

Lage, cartunista e caricaturista maior, tinha lá seus pecadilhos.

O cidadão soteropolitano Hélio Roberto Lage era um formidável arquiteto, merecidamente graduado e de muita competência. Poderia levar uma vida digna com essa sua edificante profissão. Ao invés disso, preferiu seguir os conselhos de algum anjo torto, desses que vivem na sombra, e foi ser cartunista na vida. Um cartunista maior. Munido de seu talento gráfico, elevada consciência política, presença de espírito, invejável sagacidade, a alma plena de um transbordante humor, lá ia Lage para a redação do jornal em que trabalhava e traçava charges impactantes, cartuns demolidores, caricaturas que desnudavam os políticos mais infames. Isto não é pouco e ele odia parar por aí, bem que poderia. Mas quem disse que ele parava? Pois é chegada a hora da verdade e a verdade tem que ser dita: Lage não conduzia a profissão que exercia com a devida seriedade e sempre foi um cartunista metido a engraçadinho. Ao invés de se portar de forma séria, como sói acontecer aos profissionais que têm consciência do dever de ofício, tinha ele o reprochável hábito de viver fazendo piadinhas em seu ambiente de trabalho e mesmo fora dele. E ainda as desenhava, como agravante. É abalado e até profundamente traumatizado que aqui deponho que, de forma recorrente e impiedosa, fui habitual vítima dessas suas gracinhas sem graça das quais todos achavam a maior graça, menos eu, a inerme vítima desses motejos gráficos. Desde 1981, ano em que muitos dos leitores desse bloguito sequer haviam nascido, guardo comigo, cheio de mágoa e ressentimento, essa caricatura que ora posto, da lavra de um sujeito que se dizia meu amigo mas que retratava-me de maneira injustificavelmente sórdida, impiedosamente abjeta. Desconfio que ele era movido pela mais infame das invejas, pois sabendo-me um cara de físico apolíneo, um Adônis, um invariável escopo da concupiscência feminina, Lage traçou de mim esta caricatura em que ele subverte tudo, colocando meu avantajado peito de remador no lugar da minha barriga tanquinho, delineada em incansáveis e espartanas malhações. Mas Zeus é grande, Zeus é pai e sempre sou atendido quando rogo aos deuses do Olimpo cartunístico que eles, lá do seu sacrossanto empíreo, enviem-me forças para seguir em frente e suportar tantos e tão desmesurados infortúnios movidos pela mais abjetas zelotipias e as mais hediondas invídias.
(140712)

14 janeiro 2020

0 Instituto Cultural Brasil-Alemanha, Roland Schaffner, as Artes e os anos de chumbo na Bahia.

Usando de seu glamour e poder de convencimento o cinema norte-americano sempre aculturou populações inteiras mundo afora incutindo nas mentes das pessoas o padrão comportamental e os valores lá deles. Coisas boas nos chegavam pelos celulóides mas  também nos vinham, sutil ou abertamente, ódios raciais, visões estereotipadas e preconceitos contra povos que os financiadores deste cinema made in USA julgavam serem impecilho contra a sanha imperialista dos States. Não é por acaso que ao ouvirmos o nome Alemanha muitas vezes nos venha à mente, qual uma ideia fixa, a cruz quebrada do nefasto nazismo. Como se cada cidadão teuto fosse um execrável nazista em potencial. Bom, atualmente em várias partes do mundo - aqui mesmo neste país tropical - não são poucos os que almejam ver de volta o nazismo com toda sua tirania. Pois sucede que na Bahia muitas e muitas pessoas, as mais bem informadas, têm para com a Alemanha um sentimento de gratidão eterna. Não só por Schopenhauer, Kant, Nietzsche, Beethoven, Franz Beckenbauer e outros craques tedescos, mas devido a um germânico de nome Roland Schaffner que nos anos 70 dirigiu o ICBA, Instituto Cultural Brasil-Alemanha, uma entidade cultural alemã que não se limitou a nos revelar o melhor da admirável cultura da terra de Goethe e de um interminável lote de brilhantes filósofos, literatos e artistas. Foi muito além disso, irmanando-se com as gentes da Bahia em um tempo, página infeliz da nossa história, passagem desbotada na memória de nossas novas gerações em que um magote de equinos engalanados de verde-oliva tomaram o poder e nos desgovernaram por duas tristes décadas. Com seus coturnos pisavam nossos plexos, jugulares e pomos-de-Adão, sufocando-nos e tirando-nos a voz. A meio isto, foi que Schaffner, administrador do ICBA na Bahia, usando de altruísmo, de senso democrático e de muita coragem abriu e deixou abertas as portas do ICBA para abrigar os baianos mais conscientes que queriam escapar do jugo dos imbecis em gandolas, sequiosos de nos impor o que deviámos ver, ler, falar e até pensar. Seus braços truculentos não alcançavam a entidade oficial alemã, seus coturnos sujos de sangue não podiam ali pisar. Invadir o ICBA seria invadir a própria Alemanha. Então ali, naquele autêntico oásis democrático, podíamos ver exposições e também expor sem as amarras da censura em voga no país. Podíamos desenhar, pintar, ver peças teatrais, atuar nelas, ler. E o fazíamos. Líamos, conversávamos, sonhávamos, ríamos, vivíamos. Os ares libertários do ICBA eram os que queríamos respirar nas ágoras de nossa urbe. Da quartelada nefasta dos anos de chumbo nos ficou um país de visíveis castas onde a desigualdade é gritante. Uns poucos nadam em dinheiro e vivem nababescamente e para eles o paraíso é aqui enquanto um contingente de sofredores têm que lutar arduamente fazendo das tripas o coração para conseguir sobreviver. Há um número assustador de gentes que transitam na maior indigência, mostrando a quem queira ver que o país que nos legaram os ditadores é uma fábrica de desassistidos, de desqualificados, de marginalizados sem acesso às escolas, incapacitados para adentrar o mercado de trabalho e poder contribuir para o país. Entre estes alijados, milhões de famílias de onde nascerá aquele guri franzino de sete, oito anos que dentro de poucos dias, com a mente entorpecida pela cola ou pelo crack, meterá uma bala no meio dos cornos do transeunte que retorna exausto de sua faina com uns poucos trocados no bolso. E rezemos, rezemos muito para que este transeunte não seja um de nós. 
E que dizer do panorama nada auspicioso do Brasil atual que não se mostra nada auspicioso? Que é desalentador? Que ceifa nossos sonhos e esperanças? Não. Temos tudo para sermos desesperançados mas não somos. Gente como Roland Schaffner nos mostra que há um modo correto e mais justo e digno de se agir com os semelhantes. Que ética, cônsciência política e social, coragem e altivez podem ser mais que meros vocábulos nas páginas do Aurélio. Que democracia não deve significar a opressão de muitos em benefício de uns poucos. Que para as trevas sufocantes que nos querem impingir a todo instante e de todas as formas, devemos nos unir e, como Goethe, clamar em altos brados: "Luz! Luz! Deixem entrar a luz!"
201009

13 janeiro 2020

O magnífico cartunista Lage e a falta que faz na luta contra o flagelo político que assola o Brasil.

Este texto que reproduzo abaixo é do ano de 2010. Lendo-o, fidelíssimo leitor, você constatará que a economia do Brasil, malgrado os percalços mais renitentes, caminhava muito bem na era Lula navegando em mar de almirante, flanando em céu de brigadeiro. Assim íamos, cheios de orgulho pátrio, garbosos e varonis, antes que, para nos salvar desse calamitoso estado de coisas - segundo alegavam - surgissem em cena, como nossos redentores, políticos corruptos,  banqueiros gananciosos, juízes venais, rentistas inescrupulosos, a sempre falaciosa e manipuladora grande mídia, capitaneada pela Rede Globo, ianques com sua CIA, um magote de entreguistas, igrejas de pastores fundamentalistas, militares com pijamas ao invés das fardas e com pantufas no lugar dos coturnos, batalhões de racistas, misóginos, homofóbicos, nazistas e fascistas, matadores de indígenas e de pessoas sem-teto, levas de "gentes de bem" que não estão nem aí para a injustiça social e a criminosa desigualdade em que estamos atolados e não acham nem um pinguinho que "gente é para brilhar, não para morrer de fome". Enfim um nauseabundo chorume oriundo dos mais fétidos esgotos, de tudo que é extremamente escroto e nocivo ao Brasil e a seu povo, algo que nem os mais delirantes paranóicos vislumbraram em seus delírios. Eu me pergunto como é que pessoas que se creem sensatas e inteligentes se deixaram enredar por tal escória capaz de levar qualquer país do mundo a um retumbante desastre econômico, político e social? Tudo que sei é que numa hora destas os que nos amparam e ajudam a entender as coisas são as pessoas mais equilibradas, lúcidas e combativas, caras assim como sempre o foi o brilhante cartunista Lage, que tanta falta nos faz por seu lápis certeiro, sua pena infalível que hoje não teria descanso diante desta imensa horda de canalhas que se apossou do Brasil e teima em dar à esta nação auriverde o pior dos destinos. 
Eis a mencionada postagem:
"Os números da política econômica relativos ao governo Lula são incontestavelmente muito bons e visivelmente melhores que os de todos os governos anteriores. Ter o FMI como devedor e não mais como credor mostra que a mudança é um fato positivo. Com o bolsa-família inegável é que os indigitados deste país, as gentes das periferias e as suburbanas gentes passaram a comer diariamente mais e melhor, é verdade, mas seu calvario está longe de terminar. São mais de 500 anos de desigualdades no lombo do povo, sofrido povo, em uma sociedade de mentalidade escravocrata onde muita gente quer mesmo é aumentar ainda mais o já existente abismo social, que já é extremamente abissal, fenomenal, colossal. Nada de escolas, nada de assistência médica, nada de moradia e existência dignas. Tudo por conta de preconceitos arraigados e da mentalidade excludente na base do "se pessoas passam fome e não têm onde morar a culpa não é minha" ou "Deus é quem fez as coisas assim como são". E é bom nem falar em certas religiões e seu papel nisto tudo. O fato é que os seculos passam e muitos e muitos brasileiros continuam estagnados como dantes, muito mal acomodados, no fim da fila social sem grandes benefícios nem tratamento digno. Lage, cartunista sempre atento e com aguçada visão política, com seu desenho nos alerta sobre o perrengue que passam tantos brasileiros despossuídos, alijados da condiçào de cidadãos aptos para contribuirem com o desenvolvimento do país, mostrando Lage os excluídos através de charges reveladoras. Lage era retadinho, era preciso e sempre acertava em cheio o alvo visado. Grande, grande, grande Lage.
031110

12 janeiro 2020

Deus, o primeiro homem e sua primeira queixa.

Navegar é preciso. Sei disto e, disto convicto, tornei-me um inveterado navegador nos mares da internet, por vezes procelosos, inseguros e sujeitos a naufrágios de nautas incautos. Sou um daqueles personagens retratados nos cartuns, alheios ao mundo ao derredor, que não enxergam outra coisa que não sejam as coisas que vão sendo exibidas no diminuto espaço da tela de seu celular. Uma das minhas razões deste navegar constante é a vontade que tenho de ver antigos e novos trabalhos de desenhistas. Achei há tempos um espaço virtual, o Tinta China, que mostra cartuns e cartunistas, um blog dos pampas que é bom às pampas. E quando estava fuçando, esmiuçando tudo o que via, me deparei com um cartum meu que me valeu há alguns anos premiação no Salão de Humor de Piracicaba. Não tenho hábito de mandar regularmente cartuns para Salões. Falta-me empenho, organização, disciplina e mesmo interesse. Mas um dia resolvi participar e mandei o desenho que ilustra esta postagem, um cartum que foge da temática política tradicional e brinca com um dos grandes grilos que frequentam a cabeça dos homens desde a era das cavernas quando os pitecantropos se engalfinhavam dizendo que seu tacape era bem maior que o do cara da caverna ao lado. Para minha sorte, o júri do Salão era simpático e era competente. Resultou que me premiaram.
No Grafar não há postagens recentes, mas o blog pode ser acessado para quem curte os bons cartuns e cartunistas. Lá há trabalhos muito legais do Canini, uma fera, e feras outras tais como LF Veríssimo, Quino, Jaguar, Edgar Vasques e um mundão de cartunistas gaúchos e não gaúchos, incluindo ate mesmo um genuíno baiano, tal como sou. Para acessar o Grafar e se deliciar com os cartuns que lá se encontram, clique aqui: http://grafar.blogspot.com/
Boas risadas, tchês!
(161209)

04 dezembro 2019

Paris e as mulheres francesas estão em chamas / U Sexu nu mundo 7

        Os franceses sempre deram mostras de possuírem imensos poderes de inventividade e provaram isso apresentando ao mundo la guillotinele crêpe Suzette, le Cancan, la canetê Bic e la Dominique-nique-nique. No entanto, das suas grandes invenções as mais conhecidas são mesmo o beijo francês, o vinho francês, o pão francês e a saída à francesa. A essa última nós, brasileiros, devemos muito do nosso desenvolvimento econômico e social. A História registra que em 1807, na iminência de ter o reino português invadido pelas tropas de Napoleão Bonaparte, o príncipe regente D. João deu uma passativa no beligerante gaulês se picando com toda sua corte para o Brasil, o que foi bom para nosso progresso pátrio. Resumo da ópera: o regente D. João, autêntico português, saiu à francesa. E como os franceses não tiveram o cuidado de patentear essa sua notável invenção, os lusitanos jamais lhes pagaram um escudo, um franco, nem um euro de royalties por ela. Quanto ao quesito sexual, os compatriotas de Sade não ficam atrás. Quer dizer, ficam atrás, ficam na frente, ficam de ladinho, ficam por cima, ficam por baixo, ficam em todas as posições imagináveis e inimagináveis, essas com maior frequência. É fato notório que foram tambem os franceses que inventaram o soutien, feito para ser desvestido beeem devagarinho pelas mulheres, deixando qualquer sujeito, francês ou não, mais doidão e piradão que qualquer aldrabão que se crê Napoleão. Inventaram também o beijo sur le cou - que não é o que você está pensando - e ainda o rendez-vous, o faire minette, o ménage à trois e, é claro, o já mencionado famoso e popular beijo francês. Esse amplo e invejável curriculum vitae confere aos franceses uma grande importância e prestígio, sexualmente falando. Mas é preciso levar em conta algumas particularidades. Caso esteja pensando em ir para a cama com algum ou alguma compatriota de Asterix e Obelix e você é uma pessoa ortodoxa no quesito higiene pessoal, é bom ir com um certo cuidado. É que, procedente ou não, rola por aí um enorme buxixo afirmando que o único banho diário praticado pelos inventivos franceses, é o banho de língua. 
(291210)

02 dezembro 2019

Che Guevara e Bienvenido Granda na Bahia, os cartunistas Cedraz, Nildão, o ICBA.

Nestas fotografias dos anos 70s, preclaros leitores, mister se faz esclarecer unas cositas. Na foto mais acima, um barbudo esconde as mãos de forma suspeita, como se ocultasse uma arma. Santo Dios! Será que se trata do lendário guerrilheiro platino-cubano Che Guevara em incógnita visita à Bahia naquela incendiária década? Na foto central, este cara todo saradão, com bigode de cantor de bolero, será el cantante Bienvenido Granda em soteropolitanos dias? Em caso de identificação positiva, de que estariam tratando Che e Bienvenido naquela animada confabulação da foto número 3? A derrubada do governo militar no Brasil? A construção de uma gravadora especializada em músicas genuinamente latino-americanas sem dinheiro no bolso e sem parentes importantes? Nada disso, gentes, estas fotos todas eu surripiei do blog do Gutemberg Cruz, precisamente de sua série "A hora e a vez dos quadrinhos baianos". Blog maravilhoso, diga-se, para os fãs das HQs, cartuns e caricaturas onde Guto trata do assunto com seu conhecimento de causa, sendo apaixonado, dedicado e competente ao abordar tais temáticas. E para não prolongar o suspense, vou revelando: o evento fotografado é uma soteropolitana exposição de cartuns e quadrinhos lá pelo ano de 76 no Instituto Cultural Brasil-Alemanha, o ICBA, que sempre nos abriu as portas. Ali na foto número 1, o barbudo não é o Chê, é o cartunista e multimídia Josanildo Dias de Lacerda. Ah, suas ilustres pessoinhas acham que não conhecem?! Aí eu lhes pego de jeito, dizendo que esse Josanildo é o amado e idolatrado cartunista, irreverente poeta haikainiano e criativo designer gráfico Nildão, que vocês muito bem conhecem. Pois é, o mesmo Nildão, hoje todo clean, mas que já teve um dia este guevarístico visual como comprova a foto e ele não pode negar mesmo se o quisesse, coisa dos anos setentas. Na fotografia número 2 não se trata de Bienvenido Granda, que era, por razões óbvias, apodado de El bigode cantante. Trata-se, na verdade, do sempre festejado mestre dos quadrinhos Antonio Cedraz, criador do personagem Xaxado e todo um universo de personagens brasileiríssimos. Quem diria, Cedraz já foi, em pretéritos tempos, um galã do tipo machão latino como bem se pode ver, um autêntico Antônio Banderas sertanejo. No papo entre ambos o assunto era, inexoravelmente, os rumos dos quadrinhos e cartuns na Bahia, no Brasil e no mundo. Para mais aprofundados saberes, vai aqui o link pro blog do Guto: http://blogdogutemberg.blogspot.com/
(07/03/14)

Aquarela, sketchbook, família e Clarice Lispector.

Alguns artistas não abrem mão de levarem consigo, onde quer que forem, um providencial caderninho, com o fito de fazerem anotações diversas, sendo um valioso auxiliar. É ali que, por exemplo, compositores, escritores e redatores soem anotar ideias que lhes surgem sem hora marcada nem prévio aviso. Se não anotam...puff! Essas ideias se vão e se perdem por aí, sabe lá Deus para onde elas vão. Desenhistas e pintores também costumam utilizar frequentemente seus caderninhos, atualmente rebatizados com um termo da língua inglesa, sketchbook, o que lhes garante uma importância maior nesse país de infindáveis aculturamentos. Nos meus diversos caderninhos há um monte de desenhos que jamais publiquei. São só estudos, divagações gráficas que podem servir de base para novos trabalhos de desenho ou pintura. Entre tais estudos, está este aí em cima, feito em aquarela bem manchada. Manchas à mancheia, como diria o vate. A temática surgiu inspirada em uma velha foto no meu álbum de família e, por isso mesmo, sempre que revejo, me vem à mente Clarice Lispector e eu acabo sentindo, qual ela, uma imensa saudade de mim.
(04/07/14)

23 novembro 2019

O dia em que Joel Santana foi à final com o Bahia e avisou: vocês vão ter que me ingerir!.

No ano de 2013 Joel Santana é chamado para socorrer o EC Bahia que não vinha nada bem,  recebendo do então presidente do tricolor um lote de jogadores que muitos tinham na conta de refugos, e a missão impossível de levar aquele bando à final do Baianão. A crônica esportiva baiana o espinafra impiedosamente antes mesmo que ele assuma, taxando-o de superado, enganador e inveterado bebedor de etílicos. Papai Joel pega seu laptop, digo, pega sua prancheta, reúne o elenco do qual dispunha, dá uma guaribada e vai à luta. Sua estrela brilha como sempre brilhou, e ele, contrariando a expectativa da mídia, leva aquele quase time à final contra o então forte e entrosado time do EC Vitória - já considerado o virtual campeão - para desespero de seus críticos mais ferrenhos que agora teriam que aturar Joetílico goela abaixo bem mais tempo que planejavam. Ganhar do afinado Leão aí já seria uma outra história, uma tarefa hercúlea, mas o importante é que Papai Joel colocou mesmo o sofrível time do Tricolor de Aço na decisão do título.
Acompanho resenhas esportivas desde pequeno, é mais que um hábito, é quase um vício que não consigo evitar, mesmo sendo claro para mim que cronistas esportivos, com raras, aliás, raríssimas exceções, não podem nunca serem levadas a sério - isso vale para cronistas de todo o Brasil - sendo pessoas que, acomodados em confortáveis assentos em um estúdio com ar acondicionado ou numa cabine de rádio ou TV, nas mesas redondas ou resenhas vivem se colocando na posição de verdadeiros PHDs em Ciência Futebolística Superior e Supremos Analistas dos Mais intrincados Esquemas Táticos. Com indisfarçável e gigantesca presunção, do seu refúgio seguro sugerem que entendem de futebol mais do que qualquer técnico em atividade, dando a si próprios uma importância que não possuem. E não vamos nem falar dos constantes e lamentáveis atentados que, mesmo os que dizem ter curso superior, cometem contra o vernáculo pátrio, nem - ainda pior - as ligações espúrias, nunca assumidas, que muitos mantém com cartolas suspeitíssimos. Cronistas que tais não gostam nem um pouqinho de serem contestados, fazem do microfone uma metralhadora inclemente contra quem os conteste. Mas, com o devido respeito aos bons profissionais - sou amigo pessoal de alguns - a lógica diz que se este fantástico conhecimento do futebol que arrotam fosse mesmo verdadeiro, procedente, qualquer um desses comentaristas mandaria as críticas injustificadas e os insultos que haveria de receber às favas e não hesitaria em assumir sem medo o cargo de professor em um clube de porte do nosso futebol ou mesmo dos States, da China, do Japão, onde iria ganhar em um único mês o que ele, como cronista esportivo, levaria dez anos para ganhar, numa área onde há enorme concorrência, podendo sempre aparecer um outro grande e incontestável gênio dos comentários oferecendo-se para ocupar seu lugar na equipe esportiva em troca de uma merreca. Como este conhecimento que pensam que possuem é coisa só da boca para fora, é só teórico e sem maiores fundamentos, estes pavões dos microfones, aboletados em suas cabines ou estúdios de TV cheios de empáfia vivem emitindo críticas sobre os que de fato são verdadeiramente talhados para o ofício, como Papai Joel, um mais que notável colecionador de títulos por diversos dos maiores clubes do Brasil, um vencedor incontestável com seu invejável histórico de conquistas. E - para aumentar ainda mais as já grandes dores de cotovelos - um garoto-propaganda de renomadas marcas, muitíssimo bem remunerado que, com enorme simpatia, faz até mesmo de seu Inglês-algaravia uma esplendorosa fonte extra de renda que brota de todos os lados, frondzé midôu, frondzé léfite, frondzé ráite. O resto é mesmo um grande e indisfarçável recalque geral, pura inveja, o que para mim explica a bronca que essa turma tem de Papai Joel e de qualquer outro consagrado técnico que alcance o sucesso em sua atividade.
(08/05/13)

20 novembro 2019

Olodum e Timbalada em duas pinturas de Paulo Setúbal..

Quando comecei a pintar, usava sempre a tinta a óleo. Ao longo dos séculos artistas de todo este orbe usaram toneladas desta tinta para pintar seus quadros, expressar o que traziam dentro de suas artísticas almas e, se Minerva lhes sorrisse, alcançar fama, reconhecimento, admiração e respeito do mundo, como sucedeu com caras feito Da Vinci e Picasso.. E, quem sabe ainda, amealhar uma considerável quantidade do dito vil metal. Por isso ou por aquilo, quase todos os artistas plásticos que eu conhecia utilizavam este tipo de material e eu acabei por também adotá-lo. Gostava de pintar com óleo, sim, gostava do prazer táctil contido no pincel deslizando pela tela com suas cerdas carregadas da oleosa tinta. Sentir em minhas narinas o cheiro do óleo me era prazeiroso, mesmo sabendo da toxidade contida neste material que, segundo livros diversos, teria ocasionado grande mal à saúde - e depois a morte - do mais famoso e admirado pintor brasileiro de todos os tempos, Cândido Portinari. Não foi isso que me fez mudar, foi só o fato de eu haver um dia experimentado pintar com a tinta acrílica, uma tinta que se dilui com água, a boa e velha água, dispensando-se o uso de diluentes como terebentina, óleo de linhaça, aguarrás ou até querosene, alternativas utilizadas por diversos colegas pintores. Só este detalhe já me livrava da grande lambança que fazia ao utilizar a tinta a óleo. Depois que experimentei pintar com a tinta acrílica optei por trabalhar sempre com ela. Gosto das tonalidades e do resultado final e uso para pintar quadros que vendo aos que gostam do meu estilo e a colecionadores. Também uso para fazer algumas ilustrações para revistas, livros, jornais. O resultado me traz enorme satisfação.Gosto de variar minha temática e sinto prazer em pintar temas ligados à Bahia, esta terra tão linda, terra onde nasci. Abaixo, dois trabalhos que pintei sobre tela, utilizando a formidável tinta acrílica para mostrar minha paixão por esta afro-city chamada Soterópolis ou Roma Negra ou simplesmente Salvador, capital da Bahia. 
MÚSICOS DO OLODUM, esboço com lápis B, pintura com tinta acrílica sobre tela, tamanho 22 x 20 cm.
JOGADOR, esboço com lápis B, pintura com tinta acrílica sobre tela tamanho 22 x 20 cm.
(271118)

Caetano Veloso, bandas de pífanos e pipocas modernas

Quem é do sul, sudeste e centro-oeste, enfim, quem não é do nordeste, talvez desconheça, mas estes aí acima são músicos que compõem bandas do interior baiano e de várias regiões do nordeste brasileiro, sempre cheio de apaixonantes alternativas culturais. São as bandas de pífanos. Ou pífaros como chamam outros. Há tempos, Caetano Veloso os descobriu e fez com que este Brasil que não conhece o Brasil, passasse a identificar e  admirar tais grupos. Com seu talento, o mano Caetano colocou letra em uma melodia de uma deles, a Banda de Pífanos de Caruaru, em uma canção batizada de "Pipoca moderna". Aí desanoiteceu a manhã e tudo mudou. Em homenagem a algo tão vivo e forte em nossa cultura popular, esbocei nesta tela com lápis 2B, cobri com massa acrílica e depois sapequei a velha e boa tinta acrílica. Pintura pronta, fotografei e usei uma lasquinha de Photoshop para postar aqui. Viva o sempre inspirado e atento e criativo Caê. E vivam as maravilhosas bandas de pífanos que nos brindam com seu som tão limpo, tão puro, tão genuinamente brasileiro.
(130410)

16 novembro 2019

Sérgio Rês, o Moço do Coração de Pastel, e a Velha Jovem Guarda

Todos sabemos que hoje em dia Sérgio Rês é um consagrado cantor mas que é também um criador de gado e um dos mais abastados fazendeiros deste país. No entanto, no começo de sua carreira bovino-musical teve que comer o pastel que o diabo amassou. Ou melhor, teve que se virar vendendo pastel nas feiras livres para ganhar algum tutu. Até que Rês levava uma certa vantagem pois sendo muito alto sobressaía-se na multidão com seu tabuleiro na cabeça e isto auxiliava no sucesso da vendagem. O imaginativo cantante ainda por cima criou um jingle para seu produto que dizia "Se você pensa que meu coração é um pastel, não vá mordendo, pois não é!" Um cliente seu, que era dono de uma gravadora, gostou do que ouviu e contratou Sérgio Reis para seu cast. O resultado foi o que todos já sabemos: o sucesso chegou trazendo muito dinheiro, o cara virou dono de muito gado e político cheio da grana. Gosta muitíssimo da política e de seus rebanhos e tanto gosta que, como político, parece não enxergar muita diferença entre gado e gente. Atualmente Sérgio Reis ainda gosta de saborear um bom pastel. Desde, que fique bem claro, que o recheio esteja à altura de seu atual status, o que significa que o dito recheio tem que ser de lagosta, faisão ou caviar Beluga de ovas advindas das gélidas águas do Volga ou mesmo as do Esturjão Siberiano do Lago Baukar, trazidas do distante Tutuquistão do Norte.
(100512)

Mortinha, o Queijinho de Minas, e a Velha Jovem Guarda


Oriunda da terra do heróico Tiradentes, a cantante Mortinha era carinhosamente epitetada de O queijinho de Minas. Este cognome, a um só tempo singelo e carinhoso, fazia menção às origens mineiras da guapa moçoila e rendeu uma enorme polêmica, tudo porque sabido era que Mortinha, O queijinho de Minas, costumava pisar nos palcos para cantar vestindo generosas minissaias que, se não chegavam a deixar à mostra o triângulo mineiro da moçoila, ao menos revelavam um mui bem torneado, invejável e cobiçável par de coxas, sendo que era trajada dessa capitosa forma que a mocetona se apresentava no programa "É uma brasa, mora!", do qual o Rei da Jovem Guarda, Roberto Calos, era o apresentador nas jovens tarde de domingo. E a alardeada polêmica teria surgido do fato de que RC nunca escondeu de ninguém - e até propagava aos quatro ventos - que adorava degustar com avidez todos os tipos de laticínios e gostosuras imagináveis oriundos de Minas Gerais, regalando-se com tais delícias e ainda lambendo os seus reais beiços cantantes.
(10/05/12)

Wanderley Caridoso, o Bom rapaz, e a Velha Jovem Guarda

Desde que era ainda um bebê, Wanderley Caridoso já demonstrava toda sua formidável bondade, e sempre dividia sua mamadeira com outros pequerruchos, entre um gugu-dadá e outro. Ele era mesmo uma boa alma, um sujeito generoso para com todos, jamais desmerecendo o sobrenome que tinha. Tão bom ele sempre foi que acabou por isso ganhando o apelido de O Bom rapaz. Vai daí, todos os anjinhos do céu se uniram e fizeram com que ele se tornasse um cantor famoso, bem sucedido e cheio de dindim em sua conta bancária. Quando o sucesso na carreira e a grana chegaram ao fim, WC tinha que fazer alguma coisa. E fez, e fez: colocou à venda o único bem material que lhe sobrara, uma pilha daqueles velhos e enormes discos de vinil chamados longplays ou LPs, todos eles com seus antigos hits que ficaram encalhados. Ninguém desconfiava, mas o desespero do Bom rapaz era tanto que ele tinha o abominável propósito de comprar uma pistola automática e com ela dar cabo da sua própria vida. Para dar um toque melodramático de filme de Almodóvar, o infausto gesto se daria sob o som de um dos seus encalhados  e empoeirados discos tocando na velha vitrola: "Parece que eu sabia que hoje era o dia de tudo terminar...". Felizmente para o bom WC, ninguém aguentava mais ouvir aquelas suas cantilenas e ele não conseguiu a notável façanha de vender sequer um único dos seus encalhados e bem empoeirados discos, deixando de amealhar algum tutu com o qual pretendia consumar seu nefasto propósito de comprar a arma fatal, o que o forçou a desistir do seu lamentável intento macabro. Foi então que a sorte voltou a sorrir para Wanderley, que acabou fazendo um enorme sucesso com Doce de Coco. Não, não se trata da açucarada canção, mas sim da açucarada, famosa e sempre apreciada cocadinha da Bahia, uma iguaria da melhor qualidade que Caridoso, valendo-se de uma receita que uma sua namorada baiana lhe passara, começou a produzir e a comercializar, logrando dar a volta por cima, voltando ao topo das paradas de sucesso, já não mais como cantante,mas como um mui bem sucedido empresário do ramo alimentício.
(100512)

A dupla OS VIPS e A Volta do ié-ié-ié / Quem é quem na Velha Jovem Guarda 7

Apesar do nome assaz pomposo desta dupla musical, Os Vips não tiveram vida farta nem conheceram mordomia no início de suas carreiras artísticas e tinham - qual Sua Majestade RC - de trabalhar em longa e exaustiva jornada dupla. Depois de passarem as noites nos bailes da vida cantando em troca de pão, os dois brothers enchiam um cesto enorme com os pábulos que recebiam como parte do cachê e levavam tudo para uma pequena lanchonete que abriram a duras penas no bairro de Santana, em Sampa. Sempre ralando muito, mal acabavam de fazer um show corriam à lanchonete e, enfrentando o cansaço da pós-apresentação, recheavam no maior capricho os tais pães e vendiam seus deliciosos sanduíches a uma fiel clientela que foi aumentando mais e mais a cada dia. A dupla, harmoniosamente afinada tanto nos palcos quanto na economia, não gostava de esbanjar e eles não abriam as mãos nem para acenar para as fãs durante suas apresentações preferindo, os notáveis irmãos lanchonéticos-musicais, guardarem o lucro auferido em uma poupança comum que ia ficando mais e mais polpuda a cada dia enquanto, felizes com a musicalidade do tilintar das moedas, os manos cantantes entoavam "Estou guardando o que há de bom em mim..."
(19/09/13)

31 outubro 2019

Sting, popstar inglês, e seu pai Raoni, que luta para salvar nossas florestas.

  Índios são sempre uma temática muito legal para se ilustrar. Pela beleza plástica que suas figuras encerram, por tudo de genuíno, de autêntico e de benéfica integração com a natureza que representam os povos indígenas desta descomunal Pindorama, os autóctones merecem todo nosso respeito e carinho. Eles se fazem merecedores de nossa estima e constante atenção, principalmente neste momento tão grave que nosso Brasil vem atravessando, dias absolutamente preocupantes em que o governo do país se encontra nas mãos de homens que conduzem de forma desastrosa as questões nacionais. Em tais questões estão incluídas nossas nações indígenas, tratadas de forma assumidamente destruidora.   Usei lápis, nanquim e tinta ecoline para retratar esta mãe índia a partir de uma bela foto que vi em uma revista onde, infelizmente, não consta o devido crédito ao fotógrafo. 
Em tempos mais recentes não há como falar da cultura índígena sem falar no célebre astro Sting que sempre demonstrou ter forte ligação com os autóctones brasileiros, em especial o cacique Raoni, a quem o roqueiro já afirmou considerar um pai. E como felizmente este patropi não é feito só de arbitrariedades e tragedias ambientais, uma velha piadinha foi adaptada para falar sobre o dia em que Sting visitou a tribo de Raoni pela primeira vez no anos oitentas. Mal chegara, o popstar retirou de uma canastra alguns colares e os ofertou ao cacique como prova de consideração e respeito. Ao ex-The Police, o chefe nativo agradeceu respeitosamente, mas lhe disse: "Índio não quer colar. Índio quer que você crie entidade para auxiliar tribos do Xingu na luta por nossa preservaçào e para nos ajudar contra a especulação imobiliária e a voracidade dos homens brancos que invadem nossas terras, derrubam e queimam florestas e exterminam os povos silvícolas". Sting, consciente que só ele, guardou seus balangandãs de volta na canastra, foi para Nova York e lá criou a Rainforest Foundation, mostrando ser um filho do qual Raoni pode se orgulhar eternamente.
(13/10/12)

Fala sério, Seu Palhaço / Cartum de Graça


30 outubro 2019

Mulher de Escorpião no Horóscopo de Vinicius de Moraes

Mulher de Escorpião
Comigo não! 
É a Abelha Mestra 
É a Viúva Negra 
Só sai de vedete
Nunca de extra
Cria o chamado conflito de personalidades
É mãe tirana
Mulher tirana
Irmã tirana
Filha tirana
Neta tirana.
Agora de cama diz que é boa paca.
(o3/03/14)

Sogra do Rei das Selvas / / Humor de graça


26 outubro 2019

Furio Lonza, o golpe e um povo impopular.

Graças a um golpe ignominioso contra uma mandatária eleita legitimamente pelo povo brasileiro através das urnas, adonou-se do poder em nosso país um magote de seres caquéticos, desalmados, retrógrados, sem escrúpulos, um intragável bando de escrotos que portam, assumidamente ou não, os mais abjetos preconceitos raciais, étnicos, sociais e sexuais, valha-nos Deus, acuda-nos Jeová, socorra-nos Buda, Maomé, Tupã e São Longuinho, com seus três pulinhos. Triste, tudo isso é triste. Mas a maior tristeza está no fato de constatarmos que essa malta maligna só conseguiu concretizar suas abomináveis pretensões antidemocráticas, graças à apatia e - muito pior ainda -  até mesmo ao impensável apoio de uma grande parte do povo brasileiro. E que povinho é esse que, em grande parte, se posta explicitamente ao lado de tais algozes e avaliza toda sorte de desmandos, truculências contra a população de baixo poder aquisitivo, projetos de lei que conspurcam a Constituição, caçambas de atitudes indignas, incluindo-se nisso bisonhas farsas jurídicas que livram a cara de bandidos contumazes e enviam para as galés pessoas inocentes? Lembremos que essa maneira de ser não começou com esse golpe. Vem de longe. E de longe vem o questionamento, a vontade de encontrar uma resposta racional a tais irracionalidades. Reproduzo aqui trechos de um texto do final dos anos oitentas, de autoria do grande Furio Lonza, em que o escritor ítalo-brasileiro tece considerações sobre essa parcela do vulgo. Com a palavra, il signore Furio Lonza: 
"Falta povo neste país. Até um tempo atrás, a opinião corrente era de que "todo povo tem o governo que merece". Mentira! Qualquer governo, por mais safado que seja, ainda é muito para esse povo sem brios, sem vergonha na cara, esse povo burro e ridiculamente humilde, vaquinha de presépio que engole tudo até o talo, até a última gota, todos os sapos, todos os calangos, esse povo cativo, covarde, sempre com o rabo entre as pernas, esse povo que marchou com Deus, pela família, esse povo que deu seu ouro para o bem do Brasil, esse povo que vive coçando a virilha, que bebe cerveja sem colarinho, lê horóscopo e coluna social, esse povo que encoxa mulher no ônibus, que cheira cola, que puxa o saco do gerente, alcaguete de polícia, esse povo que, em dia de greve de ônibus, pega táxi para ir para o escritório, que pega avião para assistir Chitãozinho e Xororó em Las Vegas, esse povo besta que deixa a Xuxa fazer a cabeça de seus filhos, esse povo cujo ancestral índio acolheu o português de braços abertos em 1500, que rezou a primeira missa bem comportado junto aos jesuítas, esse povo que recebeu a Independência do Imperador da colônia, esse povo que proclamou a República e botou um militar no lugar do rei, esse povo que paga uma fortuna por uma TV a cabo e só assiste bosta, esse povo que come merda, respira merda, só pensa merda, esse povo que faz na entrada, na saída, no meio e ainda deixa um pouco atrás da porta pra ser encontrado no dia seguinte, um povinho que acredita no Jornal Nacional."

Mais atual, impossível. Mas se o grande Furio Lonza tivesse escrito em recentes dias este seu texto, sabemos bem que teria um material ainda mais farto que haveria de incluir aqueles grupos de seres sem-noção fazendo ridículas coreografias pró-golpe, com direito a uma estarrecedora ala geriátrica com seus matusaléns fascistas e todos os parvos teleguiados pela Rede Globo e por toda a grande mídia, vestidos com camisas da CBF, marchando nas ruas ao lado dos mais asquerosos corruptos, repetindo seus mais demagógicos bordões, clamando pelo fim de um governo de cunho popular eleito legitimamente, reivindicando a volta dos militares ao poder, a tortura, a repressão e toda sorte de suplícios e malefícios que causariam inveja aos mais fustigados masoquistas da História. Figuraria, enfim, toda a inconcebível participação desse povinho parvo em apoio a um golpe que extermina direitos populares tão arduamente conquistados, que entrega as riquezas naturais da nação  à sanha dos mais gananciosos capitalistas apátridas, que  aniquila sonhos e esperanças, que destrói o país em que ele próprio nasceu e onde vive, inviabilizando o presente e o futuro para si mesmo, seu filhos, famílias e netos. Ai do Brasil. Ai de seu povo. Ai de nós, São Longuinho!
(020718)

23 outubro 2019

Humor de graça / Bat-crise econômica


Wanderléya Ternorinha, Wanderley Luxemburgo e a Velha Jovem Guarda

Além de ser renomada cantora, Wanderléya é irmã de Wanderley, o Luxemburgo, famoso técnico de futebol do Brasil que foi deportado da Espanha por insistir em massacrar impiedosamente a Língua Espanhola durante suas entrevistas. Quando o time do seu amado mano está perdendo, Wandeca costuma invadir os gramados gritando a plenos pulmões para o árbitro: "Por favor, pare agora! Senhor Juiz, pare agora! Senhor Juiz este impedimento será pra mim todo meu tormento!" Precursora do uso de indumentária masculina por belas mulheres, a moça tanto usou vistosos ternos que acabou ganhando o apelido de Ternorinha. Seu irmão, o dono dos referidos ternos, é que nunca gostou muito da elegância arrojada da mana e vai daí que, mesmo sendo muito unidos, a fraternal dupla mantém um acordo: ela não desfila mais pelas ruas, ágoras, veredas, boulevards, alamedas e avenidas com os ternos do seu irmão. Em contrapartida, Wanderley Luxemburgo não pode sair por aí vestindo as microssaias da irmã das coxas grossas, mesmo que morra de vontade de fazer isso.
(10/10/13)

11 outubro 2019

Irmã Dulce e a Bahia de Todos os Santos e Orixás.


Boa parte do tempo sou um agnóstico convicto ou um inveterado livre-pensador. Em outras sou um católico apostólico baiano, o que significa ter um pé em Roma - com sua infindável galeria de santos - e outro na África, com seus prestimosos orixás. Aqui nessa afroterra que habito, múltipla em todos os sentidos, o ecumenismo é um caminho natural que os que se pretendem justos devem civilizadamente trilhar em nome da paz e da mais fraternal das convivências. Há que se respeitar as escolhas pessoais no tocante à fé e tratar todas elas com igual carinho e humano respeito, e não seguir a senda maldita e o horror dos ortodoxos e fundamentalistas de todos os matizes que tentam se assenhorar do poder governista através da religião, visando estabelecer nefasta e sufocante teocracia. Preces fervorosas para o Homem de Nazaré, para Nossas Senhoras, para Siddartha Gautama, Allah, Jeovah,Tupã, orações para Allan Kardec e oferendas cheias de fé para Oxuns, Yansãs e Yemanjás. Fiz essa caricatura do maior ícone do catolicismo soteropolitano, Irmã Dulce, que tratava com desmesurada bondade pessoas pobres, doentes, desamparadas, sem ter mais a quem recorrer, seres humanos já desesperançados que a procuravam em busca de ajuda e a quem ela acolhia sem se importar se eram católicos, evangélicos, de religião afro, judeus, agnósticos, ateus, se eram héteros ou homossexuais, negros ou brancos, nordestinos ou não. Eram seres humanos carentes de amparo e isto era o que mais importava para que ela os acolhesse com suas próprias mãos, praticando o verdadeiro amor que Cristo sempre pregou e que muitos arrogantes que se dizem líderes religiosos jamais aprenderam e praticaram, utilizando o cristianismo e o nome divino para espalhar dominar multidões de carentes ou incautos, manipulando mentes com o grande poder de  oratória que têm, 
 enganando os crédulos, deles tirando dinheiros, acumulando fortunas pessoais e levando despudoradamente uma vida de luxo e ostentação, morando em suntuosas mansões, aqui ou no exterior, com direito a anéis e banheiras de ouro, jatinhos particulares, automóveis dignos de xeiques, roupas dignas de reis, incontáveis latifúndios, lucrativas empresas pessoais e tudo que o dinheiro pode comprar. Diferentes, bem diferentes de Jesus Cristo que nada tinha de fausto e de pompa. Jesus, em sua simplicidade, trajava apenas uma túnica inconsútil para levar o que realmente importava: o amor, o respeito ao próximo e a palavra de Deus. Assim como Irmã Dulce, que usava tão somente um hábito surrado para amparar os desvalidos. Dulce, dulcíssima. Em sua forma física Irmã Dulce se foi, mas seu exemplo de verdadeiro amor ao próximo ficou, segue entre nós. E hoje certamente ela está lá no céu ajudando muitíssimo seu chefe, que ela não é mulher de ficar acomodada num canto. Odô yá, Irmã!
(11/11/13)

09 outubro 2019

Biratan Porto e suas deliciosas crônicas do livro Ora, mas tá!

Exibicionismos de erudição, sempre gratuitos e desnecessários, não são encontradiços nos textos do cronista Biratan Porto. Suas crônicas no livro Ora, mas tá! chegam aos leitores trilhando o caminho da simplicidade, despojadas de ludibriantes recursos linguísticos em que o supérfluo, desfavoravelmente, pudesse vir a prevalecer. Por aí começam as muitas riquezas contidas em suas crônicas exibidas nesse livro, frisando que essa dita simplicidade não é, digamos, simplesmente tão simples. Coisas aparentemente triviais para os mais desatentos transformam-se em um rico mote para as crônicas de Biratan. Quem haveria de adivinhar as reminiscências que podem se encerrar em uma prosaica folha de imbaubeira caída em uma calçada? As pessoas comuns, certamente, não. Passariam mil vezes por ela sem dela se darem conta. Até poderiam pisá-la, em seu desatento caminhar. Da via pública o cronista recolhe a folha e, extasiado, observa-a com atenção. Embevecido, termina por viajar por suas fibras e nervuras, transportando-se no tempo até sua infância em Castanhal, em uma jornada sentimental que também arrebata a nós, seus leitores, e lá vamos nós com ele. Cada crônica de Biratan nesse seu livro é um périplo a nos conduzir por emoções de todas as grandezas, por reflexões existenciais oriundas dos mais improváveis recantos, por grandiosidades narradas com rara sutileza. Seus textos, em alguns momentos, por vezes se fazem acompanhar de uma leve ironia ao abordar instantes da vida em que vigora o inesperado, as reviravoltas da existência, o errado sobrepondo-se ao correto. A criatividade do cronista se faz onipresente, o seu olhar prima pela busca do insólito, do pitoresco, do inédito, do risível, seja relatando a vida de um incorrigível conquistador e suas pretendentes, seja mostrando um delegado chegado a excessos arbitrários, mas chegado muito mais ao sambista Geraldo Pereira. Seja, ainda, narrando os detalhes de uma imponderável corrida de galinhas ou mesmo expondo as angústias de uma kafkabirataniana barata e sua luta para salvar de trágico holocausto suas irmãs e todo seu povo. As crônicas de Biratan não deixam espaço para a dor, melancolia ou tristeza. Nelas sempre se faz visível o tom positivo, para cima, comprovando que o autor acredita que o ser humano, malgrado seus equívocos, pode se fazer viável e experimentar a felicidade no planeta que habita e viver em harmonia com os seus semelhantes. Tudo isso se nos apresenta alinhavado pelo refinado humor desse inspirado cronista, Biratan Porto, um humor que ora nos chega de forma sutil, contida - e aí há que se ficar atento para não perder o riquíssimo sabor dessas passagens – e por vezes, esse humor se nos invade de forma histriônica e não há como conter uma gostosa e revigorante gargalhada.                                                                    *****Para os que querem experimentar o prazer de ler as crônicas de Biratan e as de seu partner, o também cronista Max Reis, que com ele divide as páginas desse Ora, mas ta!, devo dizer que esta edição está esgotada. Resta o consolo de saber que Biratan esta em vias de lançar um livro inedito de crônicas. Aguardemos.

07 outubro 2019

Trocadilhos do Batman / Humor de graça


Lembrando Lage, cartunista tão brilhante quanto o Sol da Bahia

Quando perdemos Lage este país perdeu um dos seus mais brilhantes cartunistas. Hélio Lage era um profissional do Humor que tinha a capacidade rara de fazer um trabalho social e politicamente engajado, transparente, preciso, que atingia infalivelmente os alvos visados. Isto tudo sem perder a sua excepcional veia humorística, que Humor era com ele mesmo. Os amigos e os colegas das redações de jornais morriam de rir com suas frases espirituosas tiradas de improviso sobre qualquer situação e em qualquer local que ele se fizesse presente. Na charge, no cartum, nas HQs, nas suas tiras, Lage tinha a marca do ineditismo. Seu Humor era algo personalíssimo, original, com um timbre só dele, que eu nunca havia visto, que envolvia, apaixonava, encantava, capturava qualquer leitor inteligente, e tudo isso usando a mais risível, a mais autêntica, a mais louvável e deliciosa sacanagem baiana. Recordo-me claramente de cartuns e tiras feitos por ele há já vários lustros. E ainda rio muito com todos, sou capaz de citar de cor textos dos balões com as falas de seus personagens, da mesma forma que, em filmes norte-americanos, cinéfilos adolescentes citam longos diálogos entre protagonistas de seus filmes preferidos. Lage era universal e ao mesmo tempo, profundamente baiano, seu Humor escreve-se assim, com H maiúsculo. Ele fazia um Humor popular, Humor moleque, Humor intimorato que arrostava os poderosos de plantão. Neste presente tempo em que o Brasil vive dias sombrios, frutos de governantes ilegítimos teleguiados por forças do mal, guindados ao poder por vias de um golpe abjeto e fraudes nefárias, Lage faz falta, muita falta, com sua lucidez, sua coragem, sua sagacidade, seus cartuns reveladores, capazes de traduzir toda a canalhice contida nos atos dos que estão destruindo sonhos, esperanças, vida cotidiana, espalhando o medo, a alienação, a submissão, tornando pó todos os direitos trabalhistas, dando privilégios aos já muito privilegiados, e entregando de bandeja aos gringos nossas riquezas pátrias, relegando o Brasil ao humilhante papel de mera colônia, em um inconcebível e inaceitável retrocesso.
Dona Benedita, mãe de Lage, Seu Anísio, seu pai, acertaram em cheio na escolha de seu prenome, Hélio. Como Hélio, o Sol, Lage brilhou intensamente nesta terra, nesta vida e nos iluminou a todos.
**********Pesa-me dizer que não existe um site unicamente dedicado a Lage, seus cartuns, caricaturas, tiras, quadrinhos e pinturas, e mesmo uma biografia com os detalhes de sua brilhante carreira. Para ver trabalhos do cartunista Lage, há que se procurar no Google ou outro buscador. Também é possível ver uma bela mostra de seu trabalho clicando neste link:
http://www.bvconsueloponde.ba.gov.br/arquivos/File/lage/biografia.html

Batman em um mundo de fundamentalistas e obscurantismo.

 
Nos quadrinhos, na telona do cinema, na telinha da TV, Batman sempre agradou. Muitos são os fãs que preferem a versão que mostra o cara como um herói soturno, sombrio, misterioso e implacável, que sói vociferar com voz gutural terríveis ameaças aos vilões,  em filmes e HQs. Já eu, geminiano da gema, sempre curti de montão aquele Batman dos seriados plenos de humor feito de sutilezas e fartas onomatopeias com Adam West e Burt Ward, que deixam de cabelos em pé tais fãs mais ortodoxos e, de quebra ainda, magotes de fundamentalistas que se assumiam como inimigos de qualquer herói de HQs, além das próprias HQs, claro é. Sim, eles já existiram de forma escancarada, fantasiados de guardiães da moralidade. Quem os consideravam extintos estão vendo que eles apenas se embuçavam nas sombras, silentes, esperando o momento de deixarem os fétidos esgotos em que se ocultavam. Depois da era macartista, a histeria generalizada deu um tempo e dizer que os quadrinhos, que são arte do diabo, que desencaminham criancinhas desavisadas e podem conduzir ao crime passou a pegar muito mal e ninguém faria sucesso com um discurso arcaico e equivocado desses que funcionava de com força nos anos cinquentas. Os tais fundamentalistas nesse passado não muito distante exibiam orgulhosamente suas caras assustadores e eram tão malucos quanto qualquer fundamentalista. Muito devido a estes caras e a maneira como viam o Bat-seriado e muitas HQs, foi que surgiu a tal teoria contida no livro "Seduction of the innocent", de Frederic Wertham - o Diabo o conserve - que redundariam no Comics Code Authorithy, de triste memória, e no Código de Ética, versão brasileira desta insanidade criada para salvar nossas almas do inferno e que só fez foi dar mais um golpe no movimento pela nacionalização dos quadrinhos neste patropi abençoá por Dê, prejudicando em muito os desenhistas dessas plagas tupinanquins, digo, tupiniquins. Nos dias atuais é fácil constatar que perigos assim voltaram a rondar nossas existèncias. O extremismo religioso vem se alastrando com toda sua estupidez e toneladas de preconceitos e moralismos os mais esdrúxulos que retornaram para nos assombrar. O obscurantismo político e social retornou com mais ousadia. Pesa-me dizer que muitos bons profissionais das histórias em quadrinhos mostraram e mostram ser tremendamente alienados ou, pior, que são política e socialmente retrógrados. Triste ver que uns caras que admiramos pelo seus belos trabalhos participaram ajudaram de alguma forma a trazer de volta o que há de pior para a nosso país e, tolinhos, para eles próprios, como o atual momento político com suas leis e decisões que estão afetando de forma profundamente nefasta nossa economia gerando grandes perdas para a população brasileira. Quanto mais a economia for danificada menor será o campo de trabalho dos desenhistas e argumentistas e coloristas e redatores e editores. Incluindo os que apoiaram a volta das trevas. Por serem de curto alcance mental, tais desavisados demorarão a cair em si, caso caiam. E nào adianta iluminar os céus com o bat-sinal, pois Batman também corre grandes perigos contra sua longa existência agaquesística.
Neste desenho acima usei um bat-lápis 2B, uma bat-caneta nanquim 0.5, um bat-pincel seco, um belo bat-reticulado e um precioso bat-graminha de Photoshop. Santa informática, Batman!
(290314)

05 outubro 2019

H. Lima, o Lima Limão, um raro artista da Bahia.

Horiosvaldo. Este é o nome que ele recebera em pia batismal. Horiosvaldo, sim senhor. Assim, com H e tudo. Horiosvaldo Moura Lima, a quem todos chamavam apenas de Lima. Às vezes, jocosamente, de Lima Limão. Artista plástico, gravador de rara habilidade no manejo da goiva que em sua mão penetrava a madeira sem a ela causar dores. Dali iam surgindo casarios com amplas janelas, céus, mares que ele ao final pintava com sua sensibilidade de artista raro. Cursara a Faculdade de Belas Artes sem no entanto concluir o curso, seja por dificuldades econômicas ou por entender que o chamado ensino superior não lhe traria o que a prática generosamente lhe dava. Mal eu chegara de Sampa para morar na Bahia, conheci Lima e ele de pronto me adotou como irmão mais novo. Me acolheu em sua casa, integrou-me em sua família como se um irmão de fato eu fosse. Sua estratégia de vida consistia em pegar os poucos caraminguás que tinha no bolso, conseguir uns dois compensados pequenos, umas poucas bisnagas de tinta acrílica. Assim munido, criava duas belas obras de arte e com elas sob os braços lá ia ele - e eu, fazendo as vezes de fiel escudeiro - pelos edifícios do Comércio visitando profissionais liberais e pequenos empresários aos quais ele mostrava suas criações até que alguém as adquirisse. Então, cheque no bolso, deixávamos a Cidade Baixa pelo Plano Inclinado, atravessávamos o Terreiro de Jesus e íamos direto ao brega, no Pelô. Com as melhores e as mais puras intenções, frise-se. Enquanto descíamos as ladeiras do meretrício, onde a vida imitava os livros de Jorge Amado, das janelas vinham motejos de femininas vozes dirigidos ao meu amigo de corpo franzino: "Macarrão 38!", "Lima Limão!". A elas ele devolvia, sorrindo: "Lindinalva, magrela!", "Marizete, roçona!". E seguíamos sem nos deter, pois no brega não estávamos para desfrutar das gentis senhoritas que ali viviam de mercar seus corpos, mas para trocar o tal cheque recebido com algum coligado, dono de bar, que mediante um ágio, colocava dinheiro vivo na mão de Lima que já sabia o que fazer com ele. Parte seria destinada à manutenção do lar, entregue à Maria, sua fiel companheira de todas as horas, mãe de seus três rebentos, que assim compraria munição de boca para os próximos dias. Esta era a preocupação mor de meu amigo que, enquanto vivo foi, portou-se como um pai exemplarmente zeloso que amava com  extremado carinho sua prole e dela cuidava sem incúrias. Uma segunda parte da verba auferida seria para compra de novo lote de material - madeira e tinta - para fazer os próximos quadros, o que garantia este ciclo. E uma terceira parte era destinada a pagar uma série de velhas contas em pequenos botecos, visgueiras e cacetes-armados onde Lima costumava beber sua caninha Saborosa e pendurar as contas. Nem sempre era possível pagar a todos, era preciso fazer uma seleção criteriosa. E muitos ficavam de fora da partilha. Estes ele evitava mudando de calçada e de ruas. E me dizia, enquanto caminhávamos: "Seu Paulo, vamos desviar por aqui. Ali naquela rua tem um cara que está me devendo uma boa grana. E eu não quero receber de jeito nenhum!". Saudade. Muita saudade, Lima Limão.
(05/11/14)

02 outubro 2019

Qualquer música. E um mundo de cores.

    A música, ah, a música!, essa paixão que surge mui precocemente na vida de todo ser humano. Paixão que se apodera de nossa alma, vinda através dos pavilhões que temos assentados, um em cada lado de nossos crânios. Música, um tema pictórico dos melhores e, por isso mesmo, dele usam e abusam artistas plásticos de todo esse imenso orbe. Essa pintura aí em cima foi feita em tela de dimensões 1,50m x 1,00m. Na execução do esboço usei lápis 02, daqueles mesmos que desenhistas usam para desenhar em papel. Já para a pintura em si, usei, como sói acontecer, uma antiga companheira e cúmplice, a sempre eficaz tinta acrílica, de secagem muito mais rápida que a tinta a óleo, além de não ser tóxica como essa última. Para mostrar que sou um cara versátil, um artista eclético, de múltiplos talentos, nela empreguei um toque de humor de caricaturista na construção das figuras, uma cantora e seus músicos em plena faina musical. Te cuida, Pablito Picasso!
( 270116)