16 outubro 2017

Lembrando Lage, cartunista tão brilhante quanto o Sol da Bahia

Quando perdemos Lage este país perdeu um dos seus mais brilhantes cartunistas. Hélio Lage era um profissional do Humor que tinha a capacidade rara de fazer um trabalho social e politicamente engajado, transparente, preciso, que atingia infalivelmente os alvos visados. Isto tudo sem perder a sua excepcional veia humorística, que Humor era com ele mesmo. Os amigos e os colegas das redações de jornais morriam de rir com suas frases espirituosas tiradas de improviso sobre qualquer situação e em qualquer local que ele se fizesse presente. Na charge, no cartum, nas HQs, nas suas tiras, Lage tinha a marca do ineditismo. Seu Humor era algo personalíssimo, original, com um timbre só dele, que eu nunca havia visto, que envolvia, apaixonava, encantava, capturava qualquer leitor inteligente, e tudo isso usando a mais risível, a mais autêntica, a mais louvável e deliciosa sacanagem baiana. Recordo-me claramente de cartuns e tiras feitos por ele há já vários lustros. E ainda rio muito com todos, sou capaz de citar de cor textos dos balões com as falas de seus personagens, da mesma forma que, em filmes norte-americanos, cinéfilos adolescentes citam longos diálogos entre protagonistas de seus filmes preferidos. Lage era universal e ao mesmo tempo, profundamente baiano, seu Humor escreve-se assim, com H maiúsculo. Ele fazia um Humor popular, Humor moleque, Humor intimorato que arrostava os poderosos de plantão. Nestes dias em que o Brasil vive dias sombrios, frutos de um governo ilegítimo guindado ao poder através de um golpe abjeto, Lage faz falta, muita falta, com sua lucidez, sua coragem, sua sagacidade, seus cartuns reveladores, capazes de traduzir toda a canalhice contida nos atos dos que estão destruindo sonhos, esperanças, vida cotidiana, tornando pó todos os direitos trabalhistas, dando privilégios aos já muito privilegiados, e entregando de bandeja aos gringos nossas riquezas pátrias, relegando o Brasil ao humilhante papel de mera colônia, em um inconcebível e inaceitável retrocesso.
Dona Benedita, mãe de Lage, Seu Anísio, seu pai, acertaram em cheio na escolha de seu prenome, Hélio. Como Hélio, o Sol, Lage brilhou intensamente nesta terra, nesta vida e nos iluminou a todos.
Para ver trabalhos do Lage, clique no link que leva ao Portal do IRDEB:  http://www.irdeb.ba.gov.br/imagens/media/view/528 e vá em Galeria de Imagens.
(18/03/14)