05 setembro 2020

A Poesia e a Boca de Béu Machado.

Nem bem dissipava-se a primeira das gotas de orvalho e lá estava eu, senhor do mar qual um Poseidon, mergulhando nas águas da Praia da Armação, na Boca do Rio, nesta soteropolitana urbe. Tempos antes, Caetano Veloso soltara sua voz tamanha alardeando que a Boca do Rio era beleza pura. Um aval régio desses não é inteligente desprezar-se. Vai daí peguei meus pincéis e tintas e fui habitar o - na época - paradisíaco bairro onde já haviam morado até Os Mutantes, em fase pós-Rita Lee. Entre os tradicionais moradores estava o vate Béu Machado, que eu já conhecia das redações de gazetas baianas, vez que ele sustentava sua prole e família ganhando o pábulo nosso de cada dia nessas redações, escrevendo, com competência e estilo próprio, coluna falando sobre as artes made in Bahia, divulgando os artistas locais, notadamente os da música, muitos dos quais ainda emergiam na profissão, antes de tornarem-se as estrelas que hoje são. Fora das redações, Béu curtia mesmo era prosear bebendo umas e outras em algum cacete-armado do seu bairro, cotovelo no balcão, fumando um cigarro atrás do outro com seu jeito pacato, sua mansidão bovina. Observando-o assim ninguém adivinharia que ali estava um poeta de surpreendente criatividade e um frasista mais que inspirado, ora crítico, ora irônico, às vezes debochado, muita vez lírico, e o letrista, parceiro de Moraes Moreira em canções em que diz coisas como "Salvador é um Porto Seguro". Um dia, quando a bebida e o cigarro lhe golpearam mais duramente a saúde, atendendo à amada e aos filhos deixou de beber para melhor se cuidar. De Brasília, nosso amigo em comum, o jornalista Fernando Vita, também apreciador de liquors variados, envia texto a ser publicado em que lamenta o recesso alcoólico de tão querido amigo. Tempos depois não resistindo mais à prolongada abstinência, Béu rendeu-se e voltou a beber contrariando médicos, esposa e filhos, todos receosos de nefastas consequências dessa sua decisão, até de uma possível morte prematura. Em nota na sua coluna Swing, enfim responde a Vita, colocando-o a par de sua atitude e justificando sua humana fraqueza: "Vita, querido, voltei ao etílico. Aquela força-de-vontade não podia continuar me dominando!" Grande, grande, grande Béu Machado.
(241112)

03 setembro 2020

O Bundamolismo e o cabotinismo neste país tupiniquim

Nem bem se esvanece o rocio e este estóico cartunista já está em plena atividade no Central Park, na mui frígida atmosfera dessa Big Apple, malhando espartanamente. Mister se faz ter hercúleo físico para poder superar as cotidianas barreiras encontradas por um genuíno cartunista. Nós, os cartunistas autênticos, vivemos eternamente em pugna imensa contra as mazelas impingidas à raça humana, inerme e desprotegida, ainda que armada esteja. Tamanha dedicação não impede que tantos não nos reconheçam como seus legítimos e heroicos protetores e que nos dirijam injustas e indevidas ofensas. E se extremistas armados nos trucidam em mortais ataques, comemoram aos gritos de “bem feito, bem feito!!”. Miríades de brasileiros incorrem em tais abomináveis equívocos e em terras tupiniquins não faltam os que nos apodem de quixotescos e, de forma chula, nos chamem de bundas moles. Pensar nisso me faz intensificar a malhação dos meus bíceps, tríceps e principalmente dos meus glúteos para enrijecê-los de forma pétrea. Bunda mole é mãe!
***Neste post mais três trabalhos de ilustração, como me exigiu o cacique Biratan, que é minha participação em um projeto mostrando trabalhos de artistas gráficos exibidos no Facebook. Na sessão de hoje, numa homenagem ao assaz laureado cineasta Lima Barreto, nada de technicolor ou tequinicolor, só sertão com suas muitíssimas veredas, sertão nordestino, cangaço e cangaceiros em P&B.
1. O HERÓI, história em quadrinhos com argumento e roteiro do graaaaande Gonçalo Júnior, ainda inédita. Arte feita em papel Opaline 180 gramas, grafite B e caneta nanquim descartável.
 2. ROSTO EM CLOSE DO CONSELHEIRO, ilustração para revista. Monotipia feita com tinta preta em bisnaga para paredes e papel ofício.
3. CANGACEIRO E BANDO. Ilustração para livro, Fakexilo, uma simulação de xilogravura feita com guache branco em papel preto.
(11022015)

Um pequenino detalhe sexual / Humor de graça

(200115)

30 agosto 2020

Béu Machado: frases afiadas do poeta da Bahia

Com imenso talento nato para criar fantásticas poesias, letras de músicas e frases definitivas, Béu tinha tudo para ser hoje, no universo das Artes, um nome consagrado, conhecido, admirado e citado, do Oiapoque à PQP. Mas só algum tempo depois de sua lamentavelmente prematura morte é que foi lançado um livro com uma seleção de parte do seu trabalho. Uma edição que só foi possível graças ao amor e a admiração que ele semeou em vida. Um grupo de amigos mais próximos - entre os quais o também poeta e compositor José Carlos Capinan, jornalistas e artistas gráficos - editou com o merecido carinho o divertidíssimo "Pensamentando", produzido pelo citado grupo com toneladas de carinho, amizade, fraternidade, charme. O livro traz em suas páginas uma seleção das mais formidáveis  e hilariantes frases, para o leitor se deliciar a valer com as peraltices verbais de Béu, tão querido poeta, letrista, jornalista, colunista e frasista. A mim, tocou-me a honrosa incumbência de fazer as ilustrações. Vão aqui algumas frases para você ver do que a cuca de Béu Machado era capaz. Algumas delas podem ser encontradas em outros espaços aqui neste bloguito ilustradas com os desenhos que fiz para cada uma, especialmente para o livro. Dentre as frases béumachadianas selecionadas para a edição, garimpei essas aí, uma melhor do que a outra:
*Inteiramente a favor das conquistas femininas. Principalmente se eu for uma delas.
*Improvável como João Gilberto no encontro de trios.

*Para alguns ladrões, nenhuma clemência. Outros são chamados até de Vossa Excelência.
*Controle-se quando for ofendido, senão você pode errar a pontaria.
*Saúde de ferro, disse o médico desenganando o hipocondríaco.
*Na Rússia a coisa mais comum é Sergei.
*Oh, ser humano! Entender-te, quem? O travesti é frustrado porque tem.
*Não me deixei paralisar pelo medo. Fui a mil para debaixo da cama.
*Outra coisa: ralé, rapé. Gente fina, cocaína.
*Para que autodomínio se eu sou casado com minha mulher?
*O álcool eu controlo. Verifico sempre se o garçom está servindo as doses conforme exigi.
(191113)

29 agosto 2020

Vinicius de Moraes e seu Horóscopo para as mulheres que amam apaixonadamente

.Em um sebo encontrei um opúsculo de Vinicius de Moraes, cuja poesia muito me agradou sempre, um homem que nasceu para cantar as mulheres. Quer dizer, cantar no sentido de louvar. Se bem que no caso do poetinha acho que o outro sentido, o de seduzir, rolava amalgamado e não consta que alguma de suas musas haja reclamado no Procon, no STJ nem na mídia televisiva e impressa. Também neste pequeno livro, as poesias versam sobre as mulheres - assunto recorrente do poetinha - observadas agora sob o ponto de vista do zodíaco, com um olhar todo especial que só o talento de Vinicius podia trazer bem longe das baboseiras de praxe que o assunto parece atrair. Achei que mostrar aqui seria uma forma singela mas sincera de homenagear o autor do Soneto da Fidelidade na passagem da data do seu centenário, sendo também um bom pretexto para eu fazer uns traços e rabiscos à guisa de ilustrações. Aqui neste bloguito postarei todo o Horóscopo escrito em belos versos em que Vinicius deslinda a alma de cada uma das mulheres dos signos do zodíaco. De forma original, bela e única que nenhum Horóscopo jamais mostrou pois somente o amado Poetinha teria a criatividade necessária para preparar para vocês, doces meninas.

20 agosto 2020

Vitor Souza, pastor de muita fé, colorista, ilustrador, designer gráfico e escritor.

Um personagem de história em quadrinhos chamado Xaxado foi quem me apresentou ao meu amigo Vitor Souza, competente professor de Teologia e dedicado pastor, designer gráfico e colorista dos melhores. Trocando em miúdos, bem antes de ser amigo de Vitor eu já o era do desenhista Antonio Cedraz, criador de diversos personagens de quadrinhos, sendo o mais famoso deles um menino nordestino, um pequeno sertanejo que usa um chapéu de couro, atende pelo nome de Xaxado e é neto de um autêntico cangaceiro. Cedraz, tão sertanejo quanto seu personagem, desde seus dias de infância no interior da Bahia era um grande apaixonado por quadrinhos. Sonhava ter os personagens criados por ele tão cultuados quanto os de outros já consagrados profissionais. Pensando nisso, trabalhou sozinho com perseverança, depois decidiu que era chegada a hora de ter um estúdio e formar uma equipe para produzir seus quadrinhos. Montou seu tão sonhado estúdio e abriu uma editora, a Editora Cedraz, disposto a publicar e divulgar suas criações. Começou a selecionar pessoas que tivessem competência e vontade de fazer quadrinhos. Logo arregimentou gente disposta a trabalhar firme para tornar realidade o sonho dourado de viver de histórias em quadrinhos na Bahia. Dentre essas pessoas selecionadas, estava Tom Figueiredo, literato premiado, argumentista e roteirista de quadrinhos, estava também Sidney Falcão, desenhista profícuo, de grande habilidade, que assimilou com competência o traço de Cedraz e, last but not least, integrava essa turma Vitor Souza, que no estúdio, é claro, não atuava como pastor nem dava aulas deTeologia. O que Vitor fazia por lá, entre outras coisas,  era colocar títulos, letras e balões nos desenhos e colorir digitalmente as histórias que surgiam da cuca de Tom e Cedraz e eram desenhadas por Sidney e pelo próprio Cedraz, a maioria delas com o menino Xaxado que, graças ao seu carisma, havia se tornado o personagem principal e o carro-chefe do estúdio ensejando a produção de centenas de tiras e páginas, sendo a grande maioria colorida por Vitor que, de novato na arte de colorir, foi se aperfeiçoando e se tornando um profissional competente e habilidoso, dominando o uso de diversos programas, ficando íntimo das cores digitais e não apenas isso, das cores em si, suas nuanças, seus matizes, sua linguagem cheia de sutilezas e de possibilidades. Eu gostava de visitar Cedraz no estúdio, era estimulante ver o trabalho que ele e sua equipe desenvolviam com tanto carinho. Ali naquele ambiente pude presenciar Vitor Souza colorindo o Xaxado. A cada visita minha ao estúdio, enquanto ele letreirava ou coloria, conversávamos animadamente e eu gostava de ouvi-lo falar com propriedade sobre os temas mais diversos, cinema, política, sociedade, quadrinhos e um mundo de coisas interessantes. Vitor sempre foi o tipo de gente que gosto de ter como amigo, um cara muito bem informado, com saberes fundamentados através de leitura de livros e revistas de qualidade, cinema, Internet. Nessas fontes que bebia captava informações importantes o que propiciava que ele falasse das coisas com conhecimento de causa. Sendo ainda bem jovem sempre mostrou ter ideias maduras e uma mente aberta, sabendo argumentar com grande embasamento, sem radicalismos. Sabia ouvir e falar na hora certa, mostrando personalidade, sem querer ser o dono da verdade. Findamos por nos tornar amigos próximos e, inevitavelmente, começamos a trabalhar juntos, a misturar nossas artes, eu com meu desenho, ele com suas cores e seu trabalho de designer gráfico. Vitor, além de profissional competente, é um ser humano de boa índole que batalha muito para ser feliz ao lado da própria família. Não sou religioso como ele o é, nem tenho as relações sólidas com Deus como ele as tem, mas mesmo sem maiores intimidades, tenho lá minhas ligações com o Criador e quando rezo pedindo a felicidade de gente da minha estima, peço ao Onipotente que contemple com paz e concórdia a caminhada de tão bom amigo. E que a vida de Vitor e sua família possa ter sempre a mesma maravilhosa harmonia que ele magistralmente consegue dar às suas cores.  
( As ilustrações  desta postagem são da HQ Em Terras Americanas com argumento de Tom S. Figueiredo, desenhos de Setúbal, com colorização e letreiramento de Vitor Souza.)
(220716)

06 agosto 2020

O cartunista Simanca, Fidel Castro, Cuba e Bahia

É do bravo comandante Fidel Castro o olhar nostálgico que perlustra o mar caribenho nesta tépida noite de estio em que intenso plenilúnio ilumina toda esta Baía dos Porcos. Doces reminiscências povoam a mente de El Comandante, certamente evocando vitoriosas pelejas contra esbirros enviados pelos porcos imperialistas ianques em pretérito não muito distante aqui neste mesmo cenário. Aboletado sobre larga rocha, Fidel Alejandro Castro Ruz abre uma caixa de madeira onde guarda um tesouro dos mais preciosos, seus puros cubanos. Prelibando os doces momentos vindouros, vagarosamente retira da caixa um dos charutos, acende-o e saboreia cada baforada demonstrando inebriante prazer. Neste preciso instante entra em cena um outro personagem, o adolescente cubano Osmani Simanca, ainda um cartunista neófito mas muito promissor. Eis que por ali passando, este novel avista Castro em pleno deleite tabagístico e inocentemente toma a iniciativa de solicitar-lhe um charuto para compartir tão prazeroso momento. Indignado, com chispas nos olhos, a mão deslizando para o coldre à cintura, o líder guerrilheiro vocifera: "Que puerra es esta, pendejo?! Quierendo hacer socialismo moreno con mis sabrosos puritos?! Sarta fuera, bundón!!". Assustado com a virulenta reação, o jovem Simanca tratou de evadir-se, célere, balbuciando em solilóquio: "Hay que adolescer, péro sin perder mi gostosura!". Praguejando contra Fidel Ruz e todos seus compañeros revolucionários, Osmani cogitou que poderia sofrer una retaliación nel paredón e decidiu que, para preservar sua vida que ainda adolescia, teria que se picar rapidinho da ilha. E foi o que fez, embarcando em uma lancha que fazia a linha Havana-Isla de Itaparica, na Bahia. De lá pegou um ferry-boat para Soterópolis. Na capital da Bahia chegando tratou de invadir a redação do jornal A Tarde armado com lápis e pontiagudas penas para nanquim, preconizando que era chegado o momento de se fazer uma revolução gráfica no tradicional periódico baiano. Desse heróico dia muito tempo já transcorreu e de lá para cá muitos jornais impressos, atingidos pela crise econômica mundial e pela chegada impactante da internet em nosso cotidiano, foram indo pras cucuias, outros sobrevivem a duras penas. Devido tais fatores e outros mais como a sempre deplorável censura editorial, muitos profissionais foram dispensados das redações, inclusivelmente os desenhistas gráficos, entre eles Osmani Simanca. Mister se faz ressalvar-e que enquanto exercia com competência sua função de chargista no periódico soteropolitano Simanca deixava muito claro que jamais perdoara Fidel Castro pelo incidente entre ambos naquela noite na Baía dos Porcos. Seu amor por Cuba jamais arrefeceu, mas recebia com indiferença certas notícias vindas de lá. Não quis nem saber quando Fidel, por ordens médicas, já não fumava mais seus tão apreciados puros e, já provecto, passara o comando de Mi Crocodilo Verde para seu hermano Raúl. Isto em nada animou Osmani a retornar à sua amada Cuba que é tão dele quanto de Celia Cruz, Bola de Nieve, Nicolás Guillén, Pablo Milanés, Rita Montaner, Ninon Sevilla, Perez Prado, Bienvenido Granda, La Lupe, Carlos Puebla, Omara Portuondo, Antonio Machin, do pessoal do Buena Vista Social Club e de tantos outros cubanos notáveis. Vivendo na Bahia há tanto tempo, Simanca abaianou-se de tal forma que já não quer mais saber de beber su mojito en la bodeguita, prefere entornar umas caipirinhas no Mercado das Sete Portas, já não dança salsas, rumbas ou chá-chá-chás, só quer mesmo saber de quebrar em sambões. Tornou-se Mestre em capoeira, não perde um só Ba-Vi na Fonte Nova e já está providenciando mudar o seu nome para Osmani Caymmi Amado Rocha Ubaldo Veloso Gil Simanca.
.........Para ver mais trabalhos do cartunista Simanca, clique no link:
(241013)

04 agosto 2020

A noite em que Raul Seixas baixou em Rita Lee

Raul Seixas, o rock'n roll brasileiro em pessoa, de blue jeans, blusão de couro, de barba ou cavanhaque, topete e de óculos escuros, na falta de um providencial colírio. Quando era ainda um pequerrucho, um glabro maluquinho belezinha, Raul foi alimentado com suculentas mamadeiras de rock'n roll. Já um adolescente, Raulzito tomou muito rock em copos duplos, em garrafas e também rock na veia. Viveu a vida como um roqueiro autêntico e como um legítimo roqueiro se foi deste planeta na carona do homem do disco voador. A cantora e compositora Rita Lee, alma d'Os Mutantes, bem mais light - mas com muitíssimo talento e irreverência - trilhou o rock por caminhos que escolheu trilhar, bem menos heavy. Até que um dia, roqueira de corpo e alma, mas já uma senhora,  resolveu se despedir dos palcos. Numa dessas despedidas, em Recife, viu-se na obrigação de dizer umas tantas e boas para policiais truculentos que estavam agindo com extrema violência contra jovens fãs de sua empolgada plateia. Disse aos fardados o que eles precisavam ouvir e por eles foi detida e conduzida aos costumes para uma delegacia de polícia como se fora qualquer adolescente roqueira. Lá seguiu bradando sua mais que procedente indignação, o seu protesto de artista mui consciente de que sua arte vai além dos cifrões. Não se calou, disse o que era preciso ser dito aos brucutus fardados. Certamente o espírito de Raul Seixas, o Maluco Beleza, baixou na cantora e ela fez o que uma autêntica roqueira teria que ter feito. Titirrane, Rita Lee, titirrane! Tá rebocado!
(020613)

03 agosto 2020

Um Puto fascista em Portugal a serviço do Capitão Falcão e de Salazar.

Capitão Falcão é um militar treinado marcialmente para salvaguardar a ditadura em Portugal e, por extensão, proteger o ditador Antonio de Oliveira Salazar, criador do Estado Novo. Falcão ama tanto o despótico Salazar que, em dado momento, o oficial toma nos braços o déspota e com sofreguidão beija-lhe longamente a boca fascista em um ardoroso ósculo que denota a desmesurada paixão vigente entre ambos. A cena é de uma comédia do cinema português, em filme de 2015 dirigido em pelo cineasta luso João Leitão, que também é responsável pelo argumento e pelo roteiro, sendo esse em parceria com Núria Leon Bernardo. Falcão, com sua máscara preta, faz uma linha de herói que muito tem a ver com o Batman e ainda mais com o Capitão América, patriótico e ufanista combatente ianque que devasta os inimigos de seu país. A ideia inicial era fazer de Capitão Falcão uma série para a TV de Portugal. O projeto não avançou. O argumento foi reescrito e adaptado para o cinema, virou filme, alcançou bom público nas salas de exibições lusitanas, e acabou conseguindo ser exibido no formato minissérie nas telinhas pela RTP. Já li reportagens de alguns cineastas espanhóis reclamando da vida, da dureza que se tornou fazer cinema na Espanha. Não falariam isso à toa, mas a verdade é que, em termos de produção, o cinema espanhol tem dado um show nas películas que produz, o que não acontece com Capitão Falcão, de produção bem modesta, comparada às hispânicas e tantas mais. Ainda assim, o filme de Leitão surpreende positivamente com o elenco dando bem o seu recado. Capitão Falcão, o herói fascista, inimigo ferrenho de comunistas, esquerdistas de correntes as mais diversas e liberais em geral, é interpretado por Gonçalo Waddington enquanto José Pinto interpreta o ditador Salazar. O argumento e o clima do filme em alguns momentos fazem lembrar, ainda que de forma distante, o clima do humorístico brasileiro feito pelo grupo Casseta & Planeta e a TV Pirata. Com menos escracho, bem mais contido, mas com gags e detalhes de muita hilaridade. Curiosamente, Falcão batizou seu fiel ajudante de Puto Perdiz, o que para nós, do Brasil, soa hilário por si só, pelas diferenças no uso do Português, nossa língua comum, nem sempre tão comum assim. Aqui a palavra puto é pouco usada em sua forma masculina, e com sentido diverso do uso comum em Portugal. Na terra de Fernando Pessoa, os meninos ainda bem pequeninos são chamados de miúdos, enquanto os meninos maiorzinhos, já adentrando a adolescência, são chamados de putos, a exemplo da Itália, em que é comum chamar-se os meninos de puttos, designação oriunda do batismo daquelas esculturas ornamentais de anjinhos alados de capelas e igrejas, os puttos, putti, puttinos. No Brasil sabemos que impera um autêntico monopólio na exibição de filmes oriundos do cinema made in USA, e por aqui um filme português como Capitão Falcão praticamente não tem chances de ser exibido nos cinemas regulares. Cônscios disso, cinéfilos brasileiros juramentados não se cansam de tecer loas à internet por proporcionar o milagre de podermos assistir via online a filmes não encontradiços nas nossas salas de projeções, como essa comédia que mostra que os portugueses, além de serem bons de fado e de literatura, são também bons de humor e de cinema, o que se percebe através das imagens que mostram um Portugal dominado pelo Estado Novo e sob atenta vigília do Capitão Falcão e de seu amado Puto.
(22/11/16)

02 agosto 2020

O Coronga vai às compras.

Em um mercadinho de Pituaçu, bairro soteropolitano, funcionários e clientes (felizmente todos usando máscaras, conforme ditames oficiais) falam alto trocando diversificadas ideias sobre o coronga e a pandemia. Em 40 minutos que os escuto, sem mostrarem um pingo de discernimento nem a menor gota de bom senso, permutam enganos, escambam falácias, mentiras e mais sofismas e distorções dos fatos do que se pode ouvir em horário nobre no JN, mais fakenews que o gabinete do ódio. Tanto escutam quanto proferem toda sorte das mais absurdas inverdades adquiridas de mui suspeitas procedências. E fazem tudo com a mais convicta das certezas, o mais absoluto dos contentamentos nos rostos humildes como se nenhuma epidemia os ameaçasse, nenhum vírus aniquilador os intimidasse, sequer existisse. E ai de alguém que quiser contestar qualquer coisa que afirmam, falar algo que soe sensato, embasado ou emitir qualquer verdade fundamentada. Será trucidado sem piedade.

01 agosto 2020

Saudades do nazismo e do fascismo..


Nem todo mundo que usa bigodinho estilo toothbrush se chama Carlitos ou Charlot, usa bengala, chapéu-coco, tem pernas tortas como a de Garrincha, um andar que lembra o caminhar de um pinguim, e vive situações expressas através de pantomimas que soem divertir milhões de pessoas ao envolver-se em situações hilariantes com seu jeito único, irreverente e criativo. Exemplificando melhor, bem sabemos que o sujeitinho na ilustraçào desta postagem, com bigodinho similar ao de Carlitos, chama-se Adolf Hitler, sendo que muitos acham mais adequado valer-se de cacofonia para chamá-lo de Adolfo Deu pelas barbaridades que cometia e a mania de querer subjugar todos os seres viventes. Ocorre que se um dia ele já foi muito mal visto, rejeitado, odiado e execrado por milhões, atualmente parece andar em alta mundo afora, inclusivemente em países considerados como sendo o tal Primeiro Mundo. Ou seja, seus simpatizantes se preservaram por décadas em insidioso mutismo e devem achar que agora é chegado o momento de reviver as coisas preconizadas pelo dito Adolfo Deu, e que me perdoem se insisto no infame trocadilho cacofônico, mas infâmia maior não há que a do nazismo e a do fascismo. A propósito, para que não se fale em exageros injustificáveis e paranóias improcedentes, nào devemos jamais esquecer que já houve governantes do Brasil que viram com muita simpatia o projeto nazi-fascista, tendo o DIP de Getúlio Vargas, chegado ao absurdo de proibir terminantemente a exibiçào do filme O GRANDE DITADOR, de Charles Chaplin, cujo alter ego era o citado Carlitos ou Charlot. O fato é que cada vez mais vem aumentando o número dos que estão embarcando com tudo em uma incompreensível onda de malfazejo saudosismo quer pelos ditames ideológicos, quer pelo sórdido proceder. Alegam para tão inaceitáveis decisões os mais nobres e elevados propósitos.  Claro está que se o cenário mundial é preocupante, mais preocupante ainda é ver que aqui mesmo neste Patropi abençoá por Dê, que sempre primou por uma democrática mistura de raças, o baixinho da suástica vem sendo visto com preocupante simpatia por quem considera seus métodos a senda redentora para este auriverde torrão. Tais admiradores, saudosistas do nazismo e do fascismo, vêm agindo abertamente e cometendo os mais absurdos desvarios em plena luz do dia, expandindo o terror, alastrando o ódio e o medo. Assim querem nos dominar e impor sua estúpida visão de mundo. Nossos horizontes vão sendo obumbrados pelas mais densas e negras nuvens que os mais alienados não sonham perceber e assim vão engrossando, convictos, as fileiras da maldade. Que os céus nos acudam a todos e que tenhamos muita consciência e destemor para, juntos e fortes, lutarmos com desassombro pelo estado democrático e por um Brasil livre das sufocantes garras dos nefastos que ressurgem nesta nova investida. 
(301218)

18 julho 2020

Setubardo, o maior dos poetas menores.

Quando, na antiga Grécia,
Peripatéticos mestres
Iniciavam seus pupilos na poesia,
Não podiam sequer desconfiar
Que num futuro solar,
Um belo dia,
Em Candeias, cidade da Bahia,
O maior poeta menor adviria.
Quando os parnasianos versejavam
Faziam versos exatos, 
passo a passo,
Utilizando esquadro e compasso,
Medindo com régua suas rimas
Sem saber que no Olimpo, 
lá em cima,
Minerva, deusa da Sabedoria,
Pesquisara na internet e já sabia
Que na mítica Candeias, Bahia,
O poeta Setubardo à luz viria.
Fui chegando já de olho bem aberto
E um esculápio tirado a esperto
Me deu uma palmada, 
pura covardia,
Pensando que eu choraria.
Vê-se que esse fulustreco,
Esse pulha de jaleco 
Não me conhecia,
Isto é certo,
Pois pro espanto de quem estava perto,
Ao invés de chorar, declamei uma poesia.
A primeira mamadeira a gente nunca esquece
E quando ela veio,
Trazia indesejável recheio.
À minha mãe, na surdina, 
Proferi frase ferina:
"Qualé, Dona Celina?! 
Só desejo papa fina!
Quero em minha mamadeira, 
Drummond, Pessoa e Bandeira.
Dispensa a vitamina de banana,
Me traga Baudelaire 
E muito Mário Quintana!"
Minha mãe, bem rapidinha,
Fez uma sopa de letrinhas
Formando versos, quadrinhas.
Assim foi que eu cresci,
Muitos versos ingeri,
Digeri, hauri, degluti
Do desjejum ao jantar,
E também pelo almoço.
Já na merenda escolar
Meu alimento, seu moço,
Era todo dia
A mais concreta poesia.
Em Candeias, me iluminei,
Em Santo Amaro da Purificação 
Me purifiquei,
Em Salvador, me salvei.
Hoje eu sou Setubovski,
Sou Quintanúbal,
Sou Setusto dos Anjos.
Minha lira eu tanjo
E nessa vida maluca
Refresco minha cuca
Fazendo versos na raça
Que recito na praça
De qualquer cidade.
Contra a mediocridade 
Dessa gente 
Não sapiente 
De mente vazia,
Poesia, poesia, poesia e poesia!
(01/01/08)

16 julho 2020

A China e o sexo: as chinesas adoram saborear uma rolinha primavera.

Em certos desentendimentos conjugais, o marido chinês perde toda sua proverbial paciência chinesa para com sua cara-metade e a ofende chamando-a de dragão. Chamou, se lascou, pois depois de chamar não adianta dizer "foi Mao!, foi Mao!, foi Mao!". Acontece que na China esse negócio de dragão é coisa muito séria e aí rola a maior kung fu zão, que é uma confusão acrescida por golpes de kung fu. Vai daí que a digníssima fica indignadíssima, partindo exasperadíssima pra quebrar a metade da cara que pertence ao seu cara-metade. E vá ser violenta assim lá na China, pois ela, sem precisar recorrer a nenhum manual de kung fu, quebra mesmo a asiática fuça do sujeito com muita porrada e na casa do casal Imperador, digo, impera a dor. A dor é tamanha que o pobre china faz horrendas caretas e pula gritando: "Aikidô!, aikidô!, aikidô!". Quem acha que chinês e brasileiro não têm nada em comum, não sabe que, igual a qualquer brasuca do povão, o chinês adora um bom pagode. Vá lá que seja pagode chinês, mas é pagode, ora, bolas! Aliás, por aquelas plagas chinesas, nosso Zeca Pagodinho é um grande ídolo. O problema para os brasileiros na China é a comunicação, que é muitíssimo difícil. Você pede ao cozinheiro do hotel para ele mandar uma pizza, mas ele Mandarim, digo,  ele manda rim e você, para não passar fome, acaba tendo que comer, mesmo a contragosto. Falando em comer, os homens chineses adoram comer brotinhos. É broto de feijão, broto de bambu e por aí vai. Ele só não come mesmo é a própria mulher, tudo porque ela já não é mais nenhum brotinho.
(281210)

14 julho 2020

Aprenda o maravilhoso idioma do Futebol.

Mais recente Copa do Mundo, o torneio da FIFA, ocorrido na Rússia no ano de 2018, pode ter sido a última copa mundial para muitos torcedores, notadamente os do grupo dos mais provectos matusaléns entre os amantes do esporte das multidões. A pandemia que ora assola o planeta está dando pinta de que gostou tanto de seu infeccioso trabalho que pretende esticar sua permanência por aqui, o que impossibilita prever se a próxima Copa, programada para 2022, irá mesmo acontecer ou terá que ser adiada ad infinitum. Quanto ao autoproclamado "país do futebol", ainda que depois daquela humilhante derrota de 7x1 para os germânicos nosso entusiasmo com a seleção brasileira de futebol não seja o mesmo de gloriosos tempos pretéritos, seguimos amantes de um esporte que já nos trouxe tantas alegrias e glórias, e não se pode deixar passar batido um papo sobre o esporte bretão e suas particularidades. Pois bem, senhoras e senhores, mocetinhas, mocetonas e varões deste patropi, saibam que o mundo do futebol utiliza em sua comunicação um palavreado próprio que os não iniciados soem desconhecer completamente. Com esta postagem, leitor, vocês ficará completamente por dentro da jogada.

 1. Cruzamentos                                           
 Quando estão afinzonas de um jogador, as assaz determinadas Marias-Chuteiras costumam usar e abusar dos cruzamentos para que seu alvo - e não estou falando de tom de pele - perceba que está sendo convidado para adentrar o gramado lá delas, que por sinal está sempre em excelentes condições para a prática de um match de muito mais que 90 minutos, com direito a intermináveis prorrogações.

2.Invadindo a pequena área
 Em tempos d'antanho, que longe vão, as donzelas militantes e juramentadas, mesmo subindo pelas paredes e morrendo de vontade de dar, por questões da moral vigente não podiam deixar que a rapaziada do Bráz - ou de qualquer parte -  invadisse suas grandes áreas. Suas pequenas áreas, então, nem pensar. Hoje, com a revolução sexual, está valendo tudo e se o jogador não vai à linha de fundo da parceira um monte de vezes fica mal falado porque atualmente no campo do sexo está valendo tudo e mais um pouco.

 3. Gol de bico
  Recurso muito utilizado no futebol feminino, embora aparente ser um tanto dolorido.

4. Impedimento
  Em certos dias do mês a namorada do jogador costuma exibir um cartão vermelho-sangue para ele, uma coisa verdadeiramente menstruosa, digo, monstruosa. Assim, impedido de penetrar a zona do agrião da sua amada e desejada, o craque sai de campo de cabeças baixas.

5.Entrando com bola e tudo
Maria-Chuteira que se preza adora quando o craque malhadão mostra seu gingado e parte com tudo pra cima dela com toda sua maledurência, indo fundo e adentrando a meta com bolas e tudo. Aí é aquele delírio, galera!

6. Elemento surpresa vindo de trás
Nunca é demais dizer que o elemento surpresa é decisivo e muitas vezes é preciso uma virada de jogo para satisfazer as gatinhas que estão cada dia mais fogosas, mais exigentes e mais sem barreiras. 

7. Triangulação
 Tem mulher de jogador que acha que um pouco, dois é bom e três é bom pra caraca, que é do cacete. E bote cacete nisto! Toda véspera de jogo o marido boleiro vai para a concentração por ordem do técnico linha-dura do time e lá fica com um monte de barbudos, deixando em casa a excelentíssima. E bote excelentíssima nisto! Já ela, sempre fogosa e insaciável, aproveita para se concentrar em sua alcova com o sempre prestativo Ricardão Fenômeno que chega cheio de amor pra dar, faz um prévio aquecimento secando rapidinho todo o scotch do ausente marido atleta, e depois de  mostrar seu invejável alongamento que sempre deixa a moçoila babando, vai adentrando no maior pique o gramado da ansiosa beldade e dando aquele show de bolas para o êxtase da gata.

8. Tabelinha
 Jogadores de futebol juram o tempo todo que têm o maior respeito e amor pela camisa do seu time. Já pela famosa e popular camisinha costumam deixar claro que não sentem o mínimo respeito nem amor algum, demonstrando total desprezo pelos preservativos. De sua parte a Maria-Chuteira diz que não usa pílula porque não se dá bem com químicas e prefere adotar o método da tabelinha, mais natural e saudável. Aí, num retumbante dia, a tabelinha falha e a sarada barriguinha da moça, moldada em academias, começa a crescer, crescer, crescer. O resto é aquela velha história: depois de nove meses um advogado com a cara do Sérgio Mallandro - ié, ié! - aparece na porta da luxuosa-porém-kitsch mansão do jogador com um risinho irônico nos lábios, exibindo um teste de DNA numa das  mãos e trazendo na outra uma ordem judicial  mostrando que o boleiro vai ter, pelo resto de sua vida, de morrer todo mês com uma milionária pensão a ser paga à Maria-Chuteira.
(13/05/14)

08 julho 2020

Camelôs da fé e suas igrejas que lhes dão fortunas e poder

Usando o nome de Deus como irresistível publicidade e o de Jesus Cristo como infalível garoto-propaganda, valendo-se de suas inegáveis capacidades de comunicação de massa e de persuasão, de seus poderes de oratória, vendem a fé como camelôs vendem produtos suspeitos numa esquina. Usando o forte poder da mídia televisiva e radiofônica, determinados sacripantas, ditos líderes espirituais, terrivelmente canalhas e anti-cristãos, cheios de uma enorme lábia e de um arsenal de más intenções, valendo-se de discursos inflamados, cheio de conceitos anacrônicos, equivocados, distorcidos, carregados de preconceitos que mal dissimulam um inconsequente e perigoso ódio aos que não caem nas insidiosas armadilhas que suas línguas bifurcadas armam para os incautos, conseguem encher as burras com fábulas de dinheiro que vêm, em sua maior parte, das classes mais pobres, carentes em todos os sentidos, da classe média e até de atletas, dos remediados aos milionários. Todos entregam de mão beijada a grana que dá a boa parte desses tais "líderes espirituais" o privilégio de morar em suntuosos palácios que em nada lembram os lares da maioria dos seus seguidores e bem diferente do que pregava o santo rabi. Eis o crime perfeito. Tão perfeito que nem considerado crime o é. E ai de quem tentar dizer o contrário aos fanatizados cordeiros que lhes entregam o que têm e o que não têm. Hoje, como bem se vê na internet, os próprios canastrões midiáticos oferecem farto material que evidenciam suas mutretas espantosas. Usando em tudo e por tudo o nome de Deus, sem cerimônias nem medo de punição. Há os que induzem os incautos a darem dinheiro que porventura ainda tenham, até mesmo estando desempregados. Outros choram copiosas lágrimas de crocodilo como que implorando doações aos ingênuos que se comovem. E por aí vai. É tudo explicitamente explícito pois eles se sentem intocáveis, inatingíveis. Há os que, sorrindo cinicamente, desafiam a quem queira desmascará-los e fazem ameaças acintosas dizendo ter um exército de advogados a sua disposição para processar os que se atreverem. Muitos deles estão ligados com o mais execrável lixo político e forte é a suspeita de que lavem dinheiro vindo de falcatruas dessas máfias políticas. Associados com o que há de pior na política,  tramam impor uma teocracia em que possam manipular toda a população, impor-nos seus torpes fundamentalismos.  E quando algum desses ditos líderes é apanhado em alguma de suas armações, há aqueles que dizem que o fiel não deve cumprir o seu papel de cidadão decente denunciando o inegável crime e o ladrão, que deve apenas mudar de igreja e não denunciar nada, tornando-se cúmplice do salafrário. Vivemos um mundo de disputas brutais em que os métodos utilizados por muitos são abomináveis. Pessoas buscam nas igrejas a esperança, a fé, razão para viver. Conheço líderes espirituais autênticos, seríssimos, gente que honra e dignifica o que fazem. Sou amigo pessoal de um pastor evangélico, pessoa consciente, que ajuda enormemente sua comunidade. Muitas pessoas, os chamados fiéis,  veem nas igrejas uma uma boia de salvação e se agarram fortemente a ela. É aí que entram em cena os aproveitadores usando o santificado nome de Deus para conseguir o que querem para si. Os muito crédulos, carentes e desinformados acreditam e depositam nesse bando, nessa súcia todas as suas esperanças e, é claro, seu escasso dinheirinho ganho tão duramente. Agarram-se a eles e a seus ditames buscando experimentar a sensação de que não estão sós nesses tempos de grandes e nefastos individualismos, torpeza e sordidez sem limites. Entre eles, iludidos,  os ditos fiéis sentem-se protegidos de todos as tormentas da vida. Querendo evitar o mal, seguem justamente para ele, sem desconfiar que estão voluntariamente se imolando no altar onde, disfarçado de bem, está o mal que dizem intentar evitar. Mas lembremos que muitos não embarcam nessa canoa enganados, iludidos. Por detrás dessas aparentemente puras intenções há também motivos não tão puros assim. Acumular riquezas sem repartir, ostentar, comprar carros, casas, enriquecer às custas dos semelhantes, por exemplo, é meta de muitos dos tais fiéis, para os quais o céu pode esperar, importando bem mais os bens materiais que possam vir a acumular graças ao que eles alegam ser a vontade divina. Que Deus ilumine e dê proteção a essa infausta gente crédula. E que nos livre a todos nós desses camelôs da fé. 
(071215)

02 julho 2020

Professor Pasquale fez forfait no ensino de Português, mon Dieu!

Por sempre me faltar l'argent jamais tive uma garçoniére. Nunca fui habituée de rendez-vous, em compensação frequentei muuuito o boudoir de uma madame altamente distinta. Enquanto eu, muito cafona, envergava na cintura uma pochette, ela - muito chic - ia de nécessaire e manteau. E, para meu gáudio, essa femme fatale nunca usava soutien, ficando très jolie de lingerie, e assaz coquette em uma négligée preta e em um peignoir transparentemente revelador que era de matar le diable. Mas o que ela curtia mesmo era ficar au naturel para um tête-à-tête amoroso à luz difusa do abat-jour lilás. Ulalá! A frase que eu mais ouvia dela era "Voulez-vous coucher avec moi ce soit?" Eu sempre dizia "oui" sem falar uma palavra, de um modo que nem Marcel Marceau faria melhor. Ela sempre organizava uns soirées na base do petit-comité, onde eu era o piéce de résistance, que não sou fraco, não. E a danadinha sempre convidava uma certa mademoiselle muito cheia de predicados que fazia miché e - noblesse oblige - com um belíssimo derrriére de se comer rezando, sendo que a talzinha era uma mistura de uma jovem Catherine Deneuve com a Isabelle Adjani, e dona de um menu sexual ricamente sortido, sendo ela apetrechada de habilidades que me transformavam em um Marquês de Sade afro-baiano. Sacré bleu!, mas que pas de deux, que nada!, a gente se enroscava num ménage à trois alucinante - que eu não sou de ficar só nessa de voyeur - e lá vinham elas com miríades de bouquettes e eu com um verdadeiro pot-pourri de safadezas para atender a ambas, a todo instante solicitando meus proverbiais faire minettes. Bem, se alguma coisa eu tenho nesta vida é savoir - faire em sacanagens de alcova e aí tome-lhe entrée e reentrée, entrée e reentrée, entrée e  reentrée, a meio seus gritos e sussurros, e eu naquele déjà vu só vendo la vie en rose. Vive la différence! Insaciáveis elas vinham prá cima de moi, e eu, sendo o crème de la crème, não deixava barato e fazia minha parte comme il faut. E bota comme il faut nisto. Et alors, c'est fini. Ao som de La Marseillaise em ritmo de samba, mes chers amis, maintenant eu lhes digo au revoir.
(030214)

29 junho 2020

Jegues diplomados / Frases do Barão de Itararé 1

Diplomas não encurtam orelhas de ninguém.
(Já dizia Aparício Torelly, Barão de Itararé)
(29/10/16)

Penosa é a vida / Frases do Barão de Itararé 2

Quando o pobre come frango, um dos dois está doente.
(Já dizia Aparício Torelly, o Barão de Itararé. Esta fez tanto sucesso, foi tão repetida de boca em boca, que acabou virando um ditado popular.)
(20/10/16)

Decerto é deserto / Frases do Barão de Itararé 3

Não é triste mudar de ideia. Triste é não ter ideias para mudar.
(Já dizia Aparício Torelly, o Barão de Itararé)
(201016)

10 junho 2020

.Jorge Amado, Floriano Teixeira, Setúbal.

Em postagens anteriores falei do Floriano Teixeira, artista maravilhoso e ser humano iluminado, cara do bem, divertido, bom papo, de caráter sem jaça. Bateu uma fortecíssima saudade e fui ao meu baú cheio de recuerdos de Ypacaraí com o precípuo escopo de fuçar no intuito de conseguir alguma foto que eu tivesse tirado ao lado de Floriano. No meio da grande bagunça que é esse meu larestúdio, em um cantinho ermo do relicário imenso deste amor achei estas fotografias aí em cima, ambas tiradas quando Floriano Teixeira e Jorge Amado vieram me abraçar durante uma exposição de caricaturas que fiz no Shopping Iguatemi, nesta Soterópolis. Glória das glórias! Dois gigantes das Artes brasileiras que, apesar do endeusamento geral mundo afora, mantinham-se sempre como pessoas de notável simplicidade, companheirismo, sinceridade e solidariedade a toda prova, diferente, bem diferente de um magote de cabotinos desapetrechados de lídimo talento que pululam em toda parte e com os quais topamos a todo instante, contrariando em muito nossas vontades. E nem é bom citar o imenso tsunami de mediocridades gerais e malevolências patológicas com as quais turbas doentias insistem em atormentar nossos presentes dias.  
Saudades de Jorge, saudades de Flori, seres humanos extraordinários, a bonomia, a excelência de conduta e a beleza d'alma personificadas, que fazem uma imensurável falta a mim, a todo o povo baiano, ao planeta e à espécie humana. Sorte nossa que, ultrapassando o mero aspecto físico, de forma perene, através de seus trabalhos fantásticos e imorredouros eles permanecem entre nós, iluminados que sempre foram e que seguirão sendo pela eternidade.
(180303)

 

06 junho 2020

Sylvio Lamenha, amado cronista que tanta falta nos faz, em texto do escritor Ademar Gomes.

Prometi postar neste bloguito alguns textos do jornalista e escritor Ademar Gomes falando de gente de sua estima, seus companheiros mais próximos e estimados, grandes e inesquecíveis amigos. Um deles, um dos caras mais cultos que a Bahia já pode desfrutar da honraria de ter como um dos filhos amados, é o maravilhoso Sylvio Lamenha, uma espécie de tutor intelectual de Ademar, que só chamava Sylvio de Tia Dalva, pelo fato de Lamenha ser amigo pessoal da maravilhosa cantora Dalva de Oliveira, sabendo imitar seu belíssimo canto à perfeição. Pelo tom pesaroso identificável no texto de Ademar, nos apercebemos de sua grande tristeza, da dor pungente, advinda da perda de Sylvio que se foi desta vida deixando seus amigos e admiradores em imenso desconsolo, como bem se pode ver nas palavras de Ademar em homenagem ao cronista e amigo querido.
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"E agora, Tia Dalva, quem me socorrerá nas derrapagens semânticas? Quem me libertará das armadilhas da crase, evitando que eu fique à deriva em meus audaciosos mergulhos nos mares da literatura? Quem - sem chute, sem porretismo - me ensinará a história ( e estórias ) da música popular brasileira? Quem, com simplicidade, sem complicações, me fará viajar no mundo da semiótica? Quem, com sua genialidade, para trocar figurinhas sobre passagens dos chamados clássicos do cinema? E agora, Tia Dalva, quem - cheio de remorsos - me acordará de madrugada para um mea culpa patético sobre eventuais grosserias à Bia, sua devotada mãe, a demonstrar a simbiose entre o gênio e a criança? Quem garantirá agora às inúmeras toupeiras que aspiram chegar à universidade a certeza da aprovação no vestibular, com seus infalíveis ensinamentos? Quem, wildeanamente, terá a audácia de agitar o modorrento dia-a-dia da cidade de muros baixos, onde as igrejinhas - embora reconhecendo-lhe o talento - tanto o reprimiram? Quem, après toi, será capaz de desfilar com bengala renascentista, anéis, colares e pulseiras incrustadas de esmeralda em tributo aos olhos verdes de Maureen O'Hara, sua deusa irlandesa? Quem, depois de sua morte, alegrará os almoços dos amigos com suas boutades, suas estórias irreverentes sobre guerras de espada e perfumarias? Quem espargirá cultura sobre a cabeça dos ignorantes, mas sem a chatice dos que se querem excessivamente brilhantes? Quem guiará meus passos nos sebos da vida? Quem me decodificará a linguagem das artes plásticas, poupando-me do constrangimento de confundir primitivismo, impressionismo, cubismo e outros ismos? Quem, com tanto saber, me explicará Diana, Artemis, Júpiter, me libertando da ignorância mitológica? Quem me enfiará na renitente cabeça que mutatis mutandis nada tem a ver com mulato malandro?
Quem evitará que eu confunda vocativo com ablativo ou nominativo com dativo? Quem, com sua cultura, terá coragem e talento para imitar os falsetes da Dalva de Oliveira, tornando gay e festivo os ambientes formais? E agora, Tia Dalva, sem poesia  e sem irisadas opalas gráficas, resistir, quem há-de?"
(281213)

04 junho 2020

Baianos são bons de futebol e na Bahia o baba na praia é sagrado

Ah, Bahia, Bahia, gentilíssima mater de filhos negros de todas as cores e nuanças, em minha língua suavemente desliza teu dulcíssimo nome quando o pronuncio com sempiterna emoção que se vai renovando infinitamente. Em seus mares de águas translúcidas, Yemanjá - eterna rainha - fez sua morada. Diáfanas nuvens ornamentam seus céus que se tingem com os mais delicados matizes nesta rododáctila aurora que nem o próprio Homero jamais contemplou similar. Ah, Homero, Homero, pobre Homero, sempre às voltas com Odisseias e Ilíadas, nunca dispondo de tempo para si próprio, na Bahia jamais aportou, seja em gozo de férias ou de merecidas licenças remuneradas, não tendo destarte a fortuna de descobrir o quão deslumbrante é este afro-baiano torrão. Para você, odisseico vate, e para quem interessar possa, mostro aqui um pouquinho dos tipos, usos e costumes das gentes baianas, das quais faço jubilosa parte. Para tal fiz e posto, aqui e agora, ao vivo e a cores, esta tomada geral de um baba, que é assim mesmo, no masculino: jogar um baba, pegar o baba . É o modo como nós baianos chamamos aquela recreação futebolística que no restante do país chamam de pelada, esclarecendo que pelada, para nós, é outra coisa bem diferente, sendo também muitíssimo apreciada e consumida com notável gula pelos viventes dessa afrourbe nominada Soterópolis. Para pintar, utilizei tinta acrílica sobre tela, vez que nem tudo é PC, HD ou sei lá mais o quê.
(24/04/14)

01 junho 2020

Batatinha, Maria Bethânia e o circo proibido para tantos e tantos.

Só um compositor de talento muitíssimo vasto, dotado de imensa, de rara criatividade, poderia falar de desigualdades sociais sem resvalar no panfletário, sem patinar no pieguismo gratuito. Pois o sambista BATATINHA, batucando em sua caixinha de fósforo sempre muito bem afinada, sem se deixar enredar por raivas ou rancores, sem incorrer em qualquer espécie de alegado vitimismo, de uma forma serena, com a simplicidade dos que sabem das coisas, entre as muitas maravilhosas que fez como compositor, compôs esta canção de bela melodia e letra concisa e exata. Canção que, sem perder a poesia, fala de exclusão social, desigualdade, dos que vivem à margem da vida, escanteados, obrigados a apenas assistirem os mais privilegiados, apenas eles, desfrutarem das coisas boas da existência, enquanto a um mundaréu de gente vê-se obrigado a se resignar à mera condição de espectadores, colocados à margem, mantidos do lado de fora do grande circo que é a vida, apenas "escutando a gargalhada" dos que nadam de braçada em mares de privilégios. Essa canção inegavelmente cabe em qualquer lista das grandes canções feitas neste nosso país visceralmente musical, de tantos compositores, músicos e cantores maravilhosos. Por conta dela e do talento de Batatinha, aqui posto esta carica do grande compositor popular que fiz para uma gazeta usando bico de pena, trapo embebido em nanquim e uns respingos de guache branco. De quebra, adiciono um vídeo em que ninguém menos que a cultuadíssima filha de Dona Canô, Maria Bethânia Vianna Telles Veloso, empresta sua voz tamanha à bela, sugestiva e cativante composição do saudoso pai do meu amigo Lucas Batatinha.

01 maio 2020

Raul Seixas, Marcelo Nova, muito rock na veia e porrada na cara!


Hoje é dia de rock na Concha Acústica do Teatro Castro Alves neste verão de 88. Tá rebocado, meu compadre, tem rock do bom na veia e é em dose dupla: Raul Seixas e Marcelo Nova. Não sou roqueiro de carteirinha mas sei o que é bom. Ao show, seguramente maravilhoso, que Gal fará no palco principal do TCA logo mais, prefiro o rock que rolará na Concha. E vou a caráter, blusão de couro, jeans e brilhantina no cabelo que é para entrar no clima. Raul está com a saúde abalada pelos excessos cometidos, teme-se o pior. Marceleza surge em cena qual um anjo de blue jeans, organiza shows com o amigo, viagens e até um disco, A Panela do Diabo. Motiva o Maluco Beleza que se revigora. Agora ambos estão se revezando no palco, desfilando suas canções que todos os roqueiros sabem de cor e cantam juntos com os ídolos. Empolgado com o entusiasmo da plateia, Raul emenda uma música após a outra e o concerto se prolonga para deleite do público apaixonado. De repente, atrás de Raul percebo uma coreografia que não faz evidentemente parte do show. Marcelo Nova, enfurecido, está descendo o braço com vontade na cara de um cabeludo. Quando parte do público percebe, começa um coro de "bota pra fudê!" que é a senha pro eterno líder do Camisa de Vênus encher com renovadas muquetas a fuça do sujeito. Um último gancho de direita o arremessa ao poscênio de onde, nocauteado, não retorna. Nova vem para o lado de Raul, empunha o microfone e brada: "Este aqui ao meu lado é o maior artista de rock deste país! Nenhum canalha irá desrespeitá-lo em minha presença. Ele é o maior de todos, ele é Raul!" A platéia enlouquece e renova, ainda mais alto, o grito de "bota pra fudê!" Fico sabendo depois que o cabeludo surrado seria um produtor musical que queria encerrar na marra o show dos roqueiros alegando razões de pauta, horário, conflito de entrada e saída com o público do show de Gal e sei lá mais o quê. Aprendeu da forma mais dura a lição do Professor Marceleza: o respeito aos ídolos autênticos está acima de razões mais comezinhas. Poucos meses depois, o coração debilitado do homem da Sociedade Alternativa cantou e dançou seu derradeiro rock neste mundo. Sabendo que tem tanta estrela por aí, pra alguma delas lá se foi Raul numa carona com o moço do disco voador. Mas naquela noite de verão, ali na Concha Acústica, as duas maiores estrelas do rock nacional brilharam tanto e tão intensamente que os afortunados que lá foram por todas suas vidas jamais poderão delir de suas mentes e de seus corações essas lembranças. Marcelo Nova jogou duro, botou pra fudê como manda o figurino roqueiro. E Raul... bem, Raul foi Raul. E não era preciso nada além disso. Titirrane, Raulzito. Titirrane!
(101012)