28 setembro 2020

Manezinho Araújo, o Rei da Embolada / Uns caras que eu amo 8

"Imbolá, vô imbolá, eu quero ver rebola bola, você diz que dá na bola, na bola você não dá." Tais palavras são de uma composição do grande e versátil Zeca Baleiro e você que gosta do trabalho do cara, certamente já o ouviu cantar essa melodia de ritmo e letra instigantes. Trata-se de uma embolada, gênero musical que se ouvia muito do final dos anos trintas até os anos cinquentas e que, em certa medida, é um ancestral do rap. Você, leitor dotado de seletíssimo ouvido e de acendrado gosto musical, sabe bem que Baleiro prima pela mistura de ritmos, pelas composições originais e ecléticas, que podem misturar batidas pop com diversas ritmos regionais do nordeste brasileiro, entre otras cositas. Mas não é o sempre magistral Zeca Baleiro o motivo maior dessa postagem, ele aqui é apenas o fio condutor para falar do Rei da Embolada, título que pertence, com totais méritos, ao genial Manezinho Araújo, compositor, cantor e pintor nascido em Pernambuco em 1910. Manezinho iniciou sua carreira profissional após um inusitado encontro com Carmen Miranda ocorrido em um navio, no tempo em que ele servia a Marinha do Brasil. Durante a viagem, estimulado pelos colegas marinheiros, Manezinho cantou suas emboladas para a Pequena Notável. Ela adorou, seu empresário e sua comitiva, idem, idem. Disso veio o convite para ir ao Rio de Janeiro buscar a sorte nas rádios para nelas cantar profissionalmente, o que acabou acontecendo e Manezinho foi muito bem sucedido, sendo contratado por uma boa gravadora que com ele gravou diversos discos. Na embolada estão amalgamados o lúdico, a alegria, a malícia, a sátira ferina, uma boa pitada de molecagem popular, muita criatividade e, sobretudo, doses maciças de humor e da mais pura brasilidade. Uma das coisas positivas da internet é que ela vem sendo usada como importante registro da História e um meio de preservação da memória popular. Nela podem ser encontradas gravações memoráveis, históricas, para o deleite de quem não se limita a ouvir ouvir apenas e tão somente a onda musical do momento. Quem gosta do que é bom, há de gostar de ouvir os sucessos de Manezinho Araújo, Pra onde vai, valente?, O carreté do Coroné, Coitadinho do Manezinho, A metraia dos navá, Cuma é o nome dele? Dezessete e setecentos, e outros mais. Todos deliciosos e bem brasileiros. Viva Manezinho Araújo! E que ninguém bula com Mané do Arraiá!
(161116)

23 setembro 2020

Nildão e Renatinho da Silveira e a Santa Inquisição nos dias atuais

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1. São Rock 2. Nossa Senhora do HD 3. Aparição da Virgem 4. Santo Antônio 
Em uma bela e enluarada noite de quinta-feira, mais exatamente no dia 27 de janeiro do Anno Domini de 2011 (o teeempo passa, torcida brasileira!), o cidadão Nildão, inspirado poeta, intimorato artista gráfico e iconoclástico cartunista, estava lançando seu mais novo livro de então, sendo tal opúsculo prenhe de criatividades miles. Nildão é o cara! Sabe que o bom humor serve para questionar o estabelecido e os dogmas mais entranhados. Assim é que ele, trabalhando em dupla com seu inseparável comparsa, o maravilhoso Renato da Silveira, criou e lançou algum tempo atrás a série "São Será o Benedito e outros santos geneticamente modificados". Católicos ortodoxos não gostaram nadinha de mexerem com seus ícones. E um grupo um tantinho fundamentalista, lá de Sorocaba, SP, moveu um processo criminal que foi encampado pelo Ministério Público Federal de São Paulo. Qual seria o próximo passo? A excomunhão de Nildão e Renatinho da Silveira? A ressurreição de Torquemada para, com seus autos-de-fé e suas fogueiras, punir as heresias gráficas da dupla? Não sei responder, sou péssimo em opinar sobre coisas em que a sensatez e a racionalidade nos escapam, em que as escolhas de atitudes fogem ao bom-senso. E sabemos bem até onde isso pode nos levar, desde a devastadoras guerras santas, como a acusações de bruxaria e queima de inocentes nas fogueiras de Salem, por exemplo. Não, não sei. O que sei é que Nildão e Renatinho são fantásticos criadores gráficos, plenos de humor e sapiência, mentes mais iluminadas que qualquer grande fogueira da Inquisição, caras do bem, talentosos e profícuos, que a toda hora lançam alguma coisa nova, instigante, que nos faz rir, e que assim nos chega ao cérebro e nos faz parar para refletir um pouco mais sobre sentidos e valores atribuídos às coisas. Quem quiser conferir pode ir ao site do Nildão e dar uma olhadinha lá que vai sair fã da dupla. O link é http://www.nildao.com.br
(18010211)

21 setembro 2020

Nenhuma mulher me resiste / Frases de Béu Machado 13

 As mulheres não resistem à minha presença: dão no pé.
(Béu Machado, de seu livro Pensamentando)
260916

Dívida dura de engolir / Frases de Béu Machado 03

Uma senhora com um colar de pérolas
pode estar endividada até o pescoço.
(Frase de Béu Machado, de seu livro Pensamentando)
(220916)

Fundos que nos afundam / Frases de Béu Machado 09

Os magnatas não costumam depositar seus fundos no banco dos réus.
(Béu Machado, do seu livro Pensamentando)
(230916)

Telepata que empata / Frases de Béu Machado 20

Pense sempre nos outros. Mas antes se certifique de que seu marido não é telepata. 
(Frase de Béu Machado, de seu livro Pensamentando)
(300916)

10 setembro 2020

Elis Regina, insuperável. / Umas minas que eu amo 4

Somos um país musical. Essencialmente, fundamentalmente, visceralmente, extraordinariamente musical. Entre nossos tesouros pátrios, temos cantoras maravilhosas que arrasam ao cantar e interpretar qualquer tipo de música. Que maravilha, que musical deleite é ouvir o canto de Gal Costa, de Rita Lee, de Clara Nunes, de Cássia Eller, de Daúde, de Adriana Calcanhotto, de Marisa Monte, de Clementina de Jesus, de Astrud Gilberto, de Flora Purim, de Bidu Sayão, de Dona Ivone Lara, de Carmen Miranda, de Elba Ramalho, de Marinês, de Nara Leão, de Dalva de Oliveira, de Ângela Maria, de...ah, são tantas e tantas e tantas! Para mim, entre elas, brilha a estrela mais cintilante: Elis Regina. Elis, a Pimentinha. Inesquecível, incomparável e, em diversos aspectos, insuperável. Elis tinha uma voz e uma força interpretativa que supera os limites do que já é muito, muito bom. Tudo quanto ela cantou ou gravou, segue tendo uma força maior e dói saber que se foi dessa vida e não se ouvirá suas possíveis interpretações para canções que amamos, gravadas por outras notáveis cantoras. Ouço uma delas interpretando uma música, gosto do resultado, mas sempre me pego em solilóquio, dizendo que extraordinário seria escutar Elis Regina interpretando aquela canção, de uma forma que só ela saberia interpretar com toda a força que lhe ia na alma de quem nasceu para cantar, com o coração pulsando forte, saindo do peito, extraindo da canção tudo que ela continha em seus mais recônditos dizeres, de um modo que ninguém jamais a igualou, deslizando por sua garganta abençoada, chegando a nós, preciosa e exata, através de sua voz, de sua força interior. Dói muito tal sentimento de perda. Elis tinha um timing que foge ao comum, mergulhava na canção, ia ao seu âmago, dali arrebatava tudo que essa canção tinha para dar em termos de emoção, fosse a mais profunda dor, melancolia, alegria, esperança, amor não correspondido, amor vitorioso, redentor. O músico César Camargo Mariano, que acompanhava Elis, diz que ela não era só uma cantora e grande intérprete - o que não é pouco - que ela ia muito além disso. César a tinha na conta de um músico, em pé de igualdade com os que a acompanhavam e isso gerava uma total empatia e cumplicidade que facilitava as coisas, era fundamental nos ensaios, nas gravações e apresentações. Elis correu o mundo, esteve em várias cidades do planeta e causou admiração por todos os recantos que passou, graças à sua grandeza musical. Mas não quis fincar raízes na Europa ou nos Estados Unidos. Afirmava ser uma cantora genuinamente brasileira, com largos e indissociáveis vínculos com nossa cultura. Aqui se quedou, em ambiente muita vez adverso para ela e  para o Brasil que ela desejava, lutou com seu talento, sua índole e sua bravura pessoal, e seguiu carreira renovando-se a cada dia, agigantando-se, chegando a um patamar em que poucas no mundo da música chegarão. Tinha a sabedoria de adivinhar o formidável, o magistral em compositores ainda neófitos, novatos em que ela vislumbrava talento em potencial, e lançou ao estrelato vários deles em gravações antológicas. Dava às canções uma força que fazia boquiabertos os próprios autores das composições, fossem eles os ainda iniciantes Gilberto Gil, Zé Rodrix, Belchior ou mesmo Aldir Blanc e João Bosco ou, certamente, o Maestro Soberano, Tom Jobim, com quem Elis fez um dia um antológico dueto, interpretando Águas de Março. Elis se foi, e é uma imensurável perda para o mundo da música. Consola-nos, ao menos, o fato de poder ver e ouvir em vídeos postados na internet, sua voz de interpretações que não encontram similares, uma voz maravilhosa, clara, forte e poderosa que encantou não só o Brasil, foi além, bem mais além, e conquistou o mundo.
(070716)

09 setembro 2020

Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Francis, Zélia Gattai, Godofredo Filho e Tiradentes em retratos feitos a cores por Setúbal.

O lusitano FERNANDO PESSOA, o mineiro CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, o baiano GODOFREDO FILHO, poetas mais que inspirados da língua portuguesa. Retratos em papel Opaline 160 g, esboço com grafite B, arte-final com caneta nanquim, cores feitas com lápis Caran D'ache. Clicando sobre cada uma das ilustrações, luminiscente leitor, você as amplia.

 PAULO FRANCIS, jornalista, crítico de teatro, escritor. Papel Canson, 180 g, esboço com grafite HD, arte-finalização com caneta nanquim, colorização com aquarela.
 ZÉLIA GATTAI, escritora, fotógrafa e memorialista brasileira. Retrato feito sobre papel Opaline 160 g, grafite B para esboçar, caneta nanquim para arte-finalizar, tinta ecoline para colorir. 
TIRADENTES, retrato feito a partir de imagens que costumeiramente  circulam em livros e jornais brasileiros. Papel Fabriano 200 g, desenhado e colorido com pastel seco.

Madonna, Rubem Braga, religiões, protesto e resistência à ditadura. Três ilustrações de Setúbal.

MADONNA BOA DONA E RUBEM AI DE TI PINDORAMA BRAGA. Ilustração esboçada com grafite 2B em papel de diagramação, arte-finalizada com caneta nanquim e com um pincel 02 na aplicação de tinta ecoline de cor cinza. A retícula pontilhada no alto da arte foi garimpada na internet. 
Clicando sobre cada uma das ilustrações você irá vê-las em formato ampliado.
O HOMEM, AS RELIGIÕES. Esboço feito com grafite B sobre papel de diagramação. Sobre este esboço foram colocadas manchas de meios-tons de cinza feitos com aquarela.
RESISTÊNCIA A DITADORES. Ilustração feita com lápis dermatográfico sobre papel preto. Os toques de cinza, que ajudam a visualizar melhor os personagens, foram colocados através do Photoshop. 

08 setembro 2020

O bardo Bill Shakespeare no traço de Setúbal.

Há jogadores profissionais de futebol que só jogam em uma única posição, seja ela qual for. Outros, entretanto, se adaptam a diversas posições, do ataque à defesa, passando pelo meio de campo. Há até uns craques que, mesmo não sendo goleiros de ofício, em caso de uma emergência calçam as luvas de arqueiro e vão estoicamente defender o chamado último reduto. O fato em si não torna um jogador eclético melhor que o que não o é, é só uma questão de versatilidade que um não tem e no outro por vezes sobra. Falo isso porque já conheci desenhistas que sempre seguiram uma única linha de trabalho e dessa forma mostravam-se notáveis. Outros conheci que tinham inúmeras variantes para se expressar. Meu trabalho se situa entre os destes profissionais. Faço isso por gostar de fazer um número de coisas diferentes, variar, ousar, experimentar técnicas e materiais novos, o que me enche de prazer e satisfação e afasta para bem longe qualquer possível chatice contida em rotina que ameace ser enfadonha, Assim, busco renovar um trabalho cotidiano, torná-lo um desafio, dar o melhor de mim e fazer um trabalho profissional que surpreenda sempre aos leitores, quer fazendo cartuns, HQs, tiras, ilustrações variadas, caricaturas e retratos. Destes últimos, os retratos, já fiz um bom número mostrando artistas, políticos, escritores, intelectuais e um infindável número de gentes outras. 
Nesta postagem, mostro acima o mais que extraordinário William Shakespeare, poeta, dramaturgo e ator inglês, celebrizado como "O bardo do Avon". Não confundir com o Bar do Avon, que deve ser - há de existir - o nome de algum pub local. Shakespeare é considerado o poeta nacional da Inglaterra, eternizado como o criador de prodígios como Hamlet, A megera domada, Rei Lear e Romeu e Julieta - frisando que não estou me referindo à sobremesa assim batizada, composta de goiabada-cascão-com-muito-queijo. Falo é do célebre casal de jovens apaixonados de Verona que não há quem desconheça neste mundo, mundo, vasto mundo. 
********Usando grafite B esbocei o desenho em papel de diagramaço. Fiz a arte-final com caneta nanquim e sobre ela - qual um inventivo MacGyver - me valendo de uma velha escova de dentes, aspergi tinta nanquim para dar um toque visual mutcho porreta, como dizem as mais representativos representantes do povão desta minha afrocity baiana, Soterópolis. 
(300518)

05 setembro 2020

A Poesia e a Boca de Béu Machado.

Nem bem dissipava-se a primeira das gotas de orvalho e lá estava eu, senhor do mar qual um Poseidon, mergulhando nas águas da Praia da Armação, na Boca do Rio, nesta soteropolitana urbe. Tempos antes, Caetano Veloso soltara sua voz tamanha alardeando que a Boca do Rio era beleza pura. Um aval régio desses não é inteligente desprezar-se. Vai daí peguei meus pincéis e tintas e fui habitar o - na época - paradisíaco bairro onde já haviam morado até Os Mutantes, em fase pós-Rita Lee. Entre os tradicionais moradores estava o vate Béu Machado, que eu já conhecia das redações de gazetas baianas, vez que ele sustentava sua prole e família ganhando o pábulo nosso de cada dia nessas redações, escrevendo, com competência e estilo próprio, coluna falando sobre as artes made in Bahia, divulgando os artistas locais, notadamente os da música, muitos dos quais ainda emergiam na profissão, antes de tornarem-se as estrelas que hoje são. Fora das redações, Béu curtia mesmo era prosear bebendo umas e outras em algum cacete-armado do seu bairro, cotovelo no balcão, fumando um cigarro atrás do outro com seu jeito pacato, sua mansidão bovina. Observando-o assim ninguém adivinharia que ali estava um poeta de surpreendente criatividade e um frasista mais que inspirado, ora crítico, ora irônico, às vezes debochado, muita vez lírico, e o letrista, parceiro de Moraes Moreira em canções em que diz coisas como "Salvador é um Porto Seguro". Um dia, quando a bebida e o cigarro lhe golpearam mais duramente a saúde, atendendo à amada e aos filhos deixou de beber para melhor se cuidar. De Brasília, nosso amigo em comum, o jornalista Fernando Vita, também apreciador de liquors variados, envia texto a ser publicado em que lamenta o recesso alcoólico de tão querido amigo. Tempos depois não resistindo mais à prolongada abstinência, Béu rendeu-se e voltou a beber contrariando médicos, esposa e filhos, todos receosos de nefastas consequências dessa sua decisão, até de uma possível morte prematura. Em nota na sua coluna Swing, enfim responde a Vita, colocando-o a par de sua atitude e justificando sua humana fraqueza: "Vita, querido, voltei ao etílico. Aquela força-de-vontade não podia continuar me dominando!" Grande, grande, grande Béu Machado.
(241112)

03 setembro 2020

O Bundamolismo e o cabotinismo neste país tupiniquim

Nem bem se esvanece o rocio e este estóico cartunista já está em plena atividade no Central Park, na mui frígida atmosfera dessa Big Apple, malhando espartanamente. Mister se faz ter hercúleo físico para poder superar as cotidianas barreiras encontradas por um genuíno cartunista. Nós, os cartunistas autênticos, vivemos eternamente em pugna imensa contra as mazelas impingidas à raça humana, inerme e desprotegida, ainda que armada esteja. Tamanha dedicação não impede que tantos não nos reconheçam como seus legítimos e heroicos protetores e que nos dirijam injustas e indevidas ofensas. E se extremistas armados nos trucidam em mortais ataques, comemoram aos gritos de “bem feito, bem feito!!”. Miríades de brasileiros incorrem em tais abomináveis equívocos e em terras tupiniquins não faltam os que nos apodem de quixotescos e, de forma chula, nos chamem de bundas moles. Pensar nisso me faz intensificar a malhação dos meus bíceps, tríceps e principalmente dos meus glúteos para enrijecê-los de forma pétrea. Bunda mole é mãe!
***Neste post mais três trabalhos de ilustração, como me exigiu o cacique Biratan, que é minha participação em um projeto mostrando trabalhos de artistas gráficos exibidos no Facebook. Na sessão de hoje, numa homenagem ao assaz laureado cineasta Lima Barreto, nada de technicolor ou tequinicolor, só sertão com suas muitíssimas veredas, sertão nordestino, cangaço e cangaceiros em P&B.
1. O HERÓI, história em quadrinhos com argumento e roteiro do graaaaande Gonçalo Júnior, ainda inédita. Arte feita em papel Opaline 180 gramas, grafite B e caneta nanquim descartável.
 2. ROSTO EM CLOSE DO CONSELHEIRO, ilustração para revista. Monotipia feita com tinta preta em bisnaga para paredes e papel ofício.
3. CANGACEIRO E BANDO. Ilustração para livro, Fakexilo, uma simulação de xilogravura feita com guache branco em papel preto.
(11022015)

Um pequenino detalhe sexual / Humor de graça

(200115)

30 agosto 2020

Béu Machado: frases afiadas do poeta da Bahia

Com imenso talento nato para criar fantásticas poesias, letras de músicas e frases definitivas, Béu tinha tudo para ser hoje, no universo das Artes, um nome consagrado, conhecido, admirado e citado, do Oiapoque à PQP. Mas só algum tempo depois de sua lamentavelmente prematura morte é que foi lançado um livro com uma seleção de parte do seu trabalho. Uma edição que só foi possível graças ao amor e a admiração que ele semeou em vida. Um grupo de amigos mais próximos - entre os quais o também poeta e compositor José Carlos Capinan, jornalistas e artistas gráficos - editou com o merecido carinho o divertidíssimo "Pensamentando", produzido pelo citado grupo com toneladas de carinho, amizade, fraternidade, charme. O livro traz em suas páginas uma seleção das mais formidáveis  e hilariantes frases, para o leitor se deliciar a valer com as peraltices verbais de Béu, tão querido poeta, letrista, jornalista, colunista e frasista. A mim, tocou-me a honrosa incumbência de fazer as ilustrações. Vão aqui algumas frases para você ver do que a cuca de Béu Machado era capaz. Algumas delas podem ser encontradas em outros espaços aqui neste bloguito ilustradas com os desenhos que fiz para cada uma, especialmente para o livro. Dentre as frases béumachadianas selecionadas para a edição, garimpei essas aí, uma melhor do que a outra:
*Inteiramente a favor das conquistas femininas. Principalmente se eu for uma delas.
*Improvável como João Gilberto no encontro de trios.

*Para alguns ladrões, nenhuma clemência. Outros são chamados até de Vossa Excelência.
*Controle-se quando for ofendido, senão você pode errar a pontaria.
*Saúde de ferro, disse o médico desenganando o hipocondríaco.
*Na Rússia a coisa mais comum é Sergei.
*Oh, ser humano! Entender-te, quem? O travesti é frustrado porque tem.
*Não me deixei paralisar pelo medo. Fui a mil para debaixo da cama.
*Outra coisa: ralé, rapé. Gente fina, cocaína.
*Para que autodomínio se eu sou casado com minha mulher?
*O álcool eu controlo. Verifico sempre se o garçom está servindo as doses conforme exigi.
(191113)

29 agosto 2020

Vinicius de Moraes e seu Horóscopo para as mulheres que amam apaixonadamente

.Em um sebo encontrei um opúsculo de Vinicius de Moraes, cuja poesia muito me agradou sempre, um homem que nasceu para cantar as mulheres. Quer dizer, cantar no sentido de louvar. Se bem que no caso do poetinha acho que o outro sentido, o de seduzir, rolava amalgamado e não consta que alguma de suas musas haja reclamado no Procon, no STJ nem na mídia televisiva e impressa. Também neste pequeno livro, as poesias versam sobre as mulheres - assunto recorrente do poetinha - observadas agora sob o ponto de vista do zodíaco, com um olhar todo especial que só o talento de Vinicius podia trazer bem longe das baboseiras de praxe que o assunto parece atrair. Achei que mostrar aqui seria uma forma singela mas sincera de homenagear o autor do Soneto da Fidelidade na passagem da data do seu centenário, sendo também um bom pretexto para eu fazer uns traços e rabiscos à guisa de ilustrações. Aqui neste bloguito postarei todo o Horóscopo escrito em belos versos em que Vinicius deslinda a alma de cada uma das mulheres dos signos do zodíaco. De forma original, bela e única que nenhum Horóscopo jamais mostrou pois somente o amado Poetinha teria a criatividade necessária para preparar para vocês, doces meninas.

20 agosto 2020

Vitor Souza, pastor de muita fé, colorista, ilustrador, designer gráfico e escritor.

Um personagem de história em quadrinhos chamado Xaxado foi quem me apresentou ao meu amigo Vitor Souza, competente professor de Teologia e dedicado pastor, designer gráfico e colorista dos melhores. Trocando em miúdos, bem antes de ser amigo de Vitor eu já o era do desenhista Antonio Cedraz, criador de diversos personagens de quadrinhos, sendo o mais famoso deles um menino nordestino, um pequeno sertanejo que usa um chapéu de couro, atende pelo nome de Xaxado e é neto de um autêntico cangaceiro. Cedraz, tão sertanejo quanto seu personagem, desde seus dias de infância no interior da Bahia era um grande apaixonado por quadrinhos. Sonhava ter os personagens criados por ele tão cultuados quanto os de outros já consagrados profissionais. Pensando nisso, trabalhou sozinho com perseverança, depois decidiu que era chegada a hora de ter um estúdio e formar uma equipe para produzir seus quadrinhos. Montou seu tão sonhado estúdio e abriu uma editora, a Editora Cedraz, disposto a publicar e divulgar suas criações. Começou a selecionar pessoas que tivessem competência e vontade de fazer quadrinhos. Logo arregimentou gente disposta a trabalhar firme para tornar realidade o sonho dourado de viver de histórias em quadrinhos na Bahia. Dentre essas pessoas selecionadas, estava Tom Figueiredo, literato premiado, argumentista e roteirista de quadrinhos, estava também Sidney Falcão, desenhista profícuo, de grande habilidade, que assimilou com competência o traço de Cedraz e, last but not least, integrava essa turma Vitor Souza, que no estúdio, é claro, não atuava como pastor nem dava aulas deTeologia. O que Vitor fazia por lá, entre outras coisas,  era colocar títulos, letras e balões nos desenhos e colorir digitalmente as histórias que surgiam da cuca de Tom e Cedraz e eram desenhadas por Sidney e pelo próprio Cedraz, a maioria delas com o menino Xaxado que, graças ao seu carisma, havia se tornado o personagem principal e o carro-chefe do estúdio ensejando a produção de centenas de tiras e páginas, sendo a grande maioria colorida por Vitor que, de novato na arte de colorir, foi se aperfeiçoando e se tornando um profissional competente e habilidoso, dominando o uso de diversos programas, ficando íntimo das cores digitais e não apenas isso, das cores em si, suas nuanças, seus matizes, sua linguagem cheia de sutilezas e de possibilidades. Eu gostava de visitar Cedraz no estúdio, era estimulante ver o trabalho que ele e sua equipe desenvolviam com tanto carinho. Ali naquele ambiente pude presenciar Vitor Souza colorindo o Xaxado. A cada visita minha ao estúdio, enquanto ele letreirava ou coloria, conversávamos animadamente e eu gostava de ouvi-lo falar com propriedade sobre os temas mais diversos, cinema, política, sociedade, quadrinhos e um mundo de coisas interessantes. Vitor sempre foi o tipo de gente que gosto de ter como amigo, um cara muito bem informado, com saberes fundamentados através de leitura de livros e revistas de qualidade, cinema, Internet. Nessas fontes que bebia captava informações importantes o que propiciava que ele falasse das coisas com conhecimento de causa. Sendo ainda bem jovem sempre mostrou ter ideias maduras e uma mente aberta, sabendo argumentar com grande embasamento, sem radicalismos. Sabia ouvir e falar na hora certa, mostrando personalidade, sem querer ser o dono da verdade. Findamos por nos tornar amigos próximos e, inevitavelmente, começamos a trabalhar juntos, a misturar nossas artes, eu com meu desenho, ele com suas cores e seu trabalho de designer gráfico. Vitor, além de profissional competente, é um ser humano de boa índole que batalha muito para ser feliz ao lado da própria família. Não sou religioso como ele o é, nem tenho as relações sólidas com Deus como ele as tem, mas mesmo sem maiores intimidades, tenho lá minhas ligações com o Criador e quando rezo pedindo a felicidade de gente da minha estima, peço ao Onipotente que contemple com paz e concórdia a caminhada de tão bom amigo. E que a vida de Vitor e sua família possa ter sempre a mesma maravilhosa harmonia que ele magistralmente consegue dar às suas cores.  
( As ilustrações  desta postagem são da HQ Em Terras Americanas com argumento de Tom S. Figueiredo, desenhos de Setúbal, com colorização e letreiramento de Vitor Souza.)
(220716)

06 agosto 2020

O cartunista Simanca, Fidel Castro, Cuba e Bahia

É do bravo comandante Fidel Castro o olhar nostálgico que perlustra o mar caribenho nesta tépida noite de estio em que intenso plenilúnio ilumina toda esta Baía dos Porcos. Doces reminiscências povoam a mente de El Comandante, certamente evocando vitoriosas pelejas contra esbirros enviados pelos porcos imperialistas ianques em pretérito não muito distante aqui neste mesmo cenário. Aboletado sobre larga rocha, Fidel Alejandro Castro Ruz abre uma caixa de madeira onde guarda um tesouro dos mais preciosos, seus puros cubanos. Prelibando os doces momentos vindouros, vagarosamente retira da caixa um dos charutos, acende-o e saboreia cada baforada demonstrando inebriante prazer. Neste preciso instante entra em cena um outro personagem, o adolescente cubano Osmani Simanca, ainda um cartunista neófito mas muito promissor. Eis que por ali passando, este novel avista Castro em pleno deleite tabagístico e inocentemente toma a iniciativa de solicitar-lhe um charuto para compartir tão prazeroso momento. Indignado, com chispas nos olhos, a mão deslizando para o coldre à cintura, o líder guerrilheiro vocifera: "Que puerra es esta, pendejo?! Quierendo hacer socialismo moreno con mis sabrosos puritos?! Sarta fuera, bundón!!". Assustado com a virulenta reação, o jovem Simanca tratou de evadir-se, célere, balbuciando em solilóquio: "Hay que adolescer, péro sin perder mi gostosura!". Praguejando contra Fidel Ruz e todos seus compañeros revolucionários, Osmani cogitou que poderia sofrer una retaliación nel paredón e decidiu que, para preservar sua vida que ainda adolescia, teria que se picar rapidinho da ilha. E foi o que fez, embarcando em uma lancha que fazia a linha Havana-Isla de Itaparica, na Bahia. De lá pegou um ferry-boat para Soterópolis. Na capital da Bahia chegando tratou de invadir a redação do jornal A Tarde armado com lápis e pontiagudas penas para nanquim, preconizando que era chegado o momento de se fazer uma revolução gráfica no tradicional periódico baiano. Desse heróico dia muito tempo já transcorreu e de lá para cá muitos jornais impressos, atingidos pela crise econômica mundial e pela chegada impactante da internet em nosso cotidiano, foram indo pras cucuias, outros sobrevivem a duras penas. Devido tais fatores e outros mais como a sempre deplorável censura editorial, muitos profissionais foram dispensados das redações, inclusivelmente os desenhistas gráficos, entre eles Osmani Simanca. Mister se faz ressalvar-e que enquanto exercia com competência sua função de chargista no periódico soteropolitano Simanca deixava muito claro que jamais perdoara Fidel Castro pelo incidente entre ambos naquela noite na Baía dos Porcos. Seu amor por Cuba jamais arrefeceu, mas recebia com indiferença certas notícias vindas de lá. Não quis nem saber quando Fidel, por ordens médicas, já não fumava mais seus tão apreciados puros e, já provecto, passara o comando de Mi Crocodilo Verde para seu hermano Raúl. Isto em nada animou Osmani a retornar à sua amada Cuba que é tão dele quanto de Celia Cruz, Bola de Nieve, Nicolás Guillén, Pablo Milanés, Rita Montaner, Ninon Sevilla, Perez Prado, Bienvenido Granda, La Lupe, Carlos Puebla, Omara Portuondo, Antonio Machin, do pessoal do Buena Vista Social Club e de tantos outros cubanos notáveis. Vivendo na Bahia há tanto tempo, Simanca abaianou-se de tal forma que já não quer mais saber de beber su mojito en la bodeguita, prefere entornar umas caipirinhas no Mercado das Sete Portas, já não dança salsas, rumbas ou chá-chá-chás, só quer mesmo saber de quebrar em sambões. Tornou-se Mestre em capoeira, não perde um só Ba-Vi na Fonte Nova e já está providenciando mudar o seu nome para Osmani Caymmi Amado Rocha Ubaldo Veloso Gil Simanca.
.........Para ver mais trabalhos do cartunista Simanca, clique no link:
(241013)

04 agosto 2020

A noite em que Raul Seixas baixou em Rita Lee

Raul Seixas, o rock'n roll brasileiro em pessoa, de blue jeans, blusão de couro, de barba ou cavanhaque, topete e de óculos escuros, na falta de um providencial colírio. Quando era ainda um pequerrucho, um glabro maluquinho belezinha, Raul foi alimentado com suculentas mamadeiras de rock'n roll. Já um adolescente, Raulzito tomou muito rock em copos duplos, em garrafas e também rock na veia. Viveu a vida como um roqueiro autêntico e como um legítimo roqueiro se foi deste planeta na carona do homem do disco voador. A cantora e compositora Rita Lee, alma d'Os Mutantes, bem mais light - mas com muitíssimo talento e irreverência - trilhou o rock por caminhos que escolheu trilhar, bem menos heavy. Até que um dia, roqueira de corpo e alma, mas já uma senhora,  resolveu se despedir dos palcos. Numa dessas despedidas, em Recife, viu-se na obrigação de dizer umas tantas e boas para policiais truculentos que estavam agindo com extrema violência contra jovens fãs de sua empolgada plateia. Disse aos fardados o que eles precisavam ouvir e por eles foi detida e conduzida aos costumes para uma delegacia de polícia como se fora qualquer adolescente roqueira. Lá seguiu bradando sua mais que procedente indignação, o seu protesto de artista mui consciente de que sua arte vai além dos cifrões. Não se calou, disse o que era preciso ser dito aos brucutus fardados. Certamente o espírito de Raul Seixas, o Maluco Beleza, baixou na cantora e ela fez o que uma autêntica roqueira teria que ter feito. Titirrane, Rita Lee, titirrane! Tá rebocado!
(020613)

03 agosto 2020

Um Puto fascista em Portugal a serviço do Capitão Falcão e de Salazar.

Capitão Falcão é um militar treinado marcialmente para salvaguardar a ditadura em Portugal e, por extensão, proteger o ditador Antonio de Oliveira Salazar, criador do Estado Novo. Falcão ama tanto o despótico Salazar que, em dado momento, o oficial toma nos braços o déspota e com sofreguidão beija-lhe longamente a boca fascista em um ardoroso ósculo que denota a desmesurada paixão vigente entre ambos. A cena é de uma comédia do cinema português, em filme de 2015 dirigido em pelo cineasta luso João Leitão, que também é responsável pelo argumento e pelo roteiro, sendo esse em parceria com Núria Leon Bernardo. Falcão, com sua máscara preta, faz uma linha de herói que muito tem a ver com o Batman e ainda mais com o Capitão América, patriótico e ufanista combatente ianque que devasta os inimigos de seu país. A ideia inicial era fazer de Capitão Falcão uma série para a TV de Portugal. O projeto não avançou. O argumento foi reescrito e adaptado para o cinema, virou filme, alcançou bom público nas salas de exibições lusitanas, e acabou conseguindo ser exibido no formato minissérie nas telinhas pela RTP. Já li reportagens de alguns cineastas espanhóis reclamando da vida, da dureza que se tornou fazer cinema na Espanha. Não falariam isso à toa, mas a verdade é que, em termos de produção, o cinema espanhol tem dado um show nas películas que produz, o que não acontece com Capitão Falcão, de produção bem modesta, comparada às hispânicas e tantas mais. Ainda assim, o filme de Leitão surpreende positivamente com o elenco dando bem o seu recado. Capitão Falcão, o herói fascista, inimigo ferrenho de comunistas, esquerdistas de correntes as mais diversas e liberais em geral, é interpretado por Gonçalo Waddington enquanto José Pinto interpreta o ditador Salazar. O argumento e o clima do filme em alguns momentos fazem lembrar, ainda que de forma distante, o clima do humorístico brasileiro feito pelo grupo Casseta & Planeta e a TV Pirata. Com menos escracho, bem mais contido, mas com gags e detalhes de muita hilaridade. Curiosamente, Falcão batizou seu fiel ajudante de Puto Perdiz, o que para nós, do Brasil, soa hilário por si só, pelas diferenças no uso do Português, nossa língua comum, nem sempre tão comum assim. Aqui a palavra puto é pouco usada em sua forma masculina, e com sentido diverso do uso comum em Portugal. Na terra de Fernando Pessoa, os meninos ainda bem pequeninos são chamados de miúdos, enquanto os meninos maiorzinhos, já adentrando a adolescência, são chamados de putos, a exemplo da Itália, em que é comum chamar-se os meninos de puttos, designação oriunda do batismo daquelas esculturas ornamentais de anjinhos alados de capelas e igrejas, os puttos, putti, puttinos. No Brasil sabemos que impera um autêntico monopólio na exibição de filmes oriundos do cinema made in USA, e por aqui um filme português como Capitão Falcão praticamente não tem chances de ser exibido nos cinemas regulares. Cônscios disso, cinéfilos brasileiros juramentados não se cansam de tecer loas à internet por proporcionar o milagre de podermos assistir via online a filmes não encontradiços nas nossas salas de projeções, como essa comédia que mostra que os portugueses, além de serem bons de fado e de literatura, são também bons de humor e de cinema, o que se percebe através das imagens que mostram um Portugal dominado pelo Estado Novo e sob atenta vigília do Capitão Falcão e de seu amado Puto.
(22/11/16)

02 agosto 2020

O Coronga vai às compras.

Em um mercadinho de Pituaçu, bairro soteropolitano, funcionários e clientes (felizmente todos usando máscaras, conforme ditames oficiais) falam alto trocando diversificadas ideias sobre o coronga e a pandemia. Em 40 minutos que os escuto, sem mostrarem um pingo de discernimento nem a menor gota de bom senso, permutam enganos, escambam falácias, mentiras e mais sofismas e distorções dos fatos do que se pode ouvir em horário nobre no JN, mais fakenews que o gabinete do ódio. Tanto escutam quanto proferem toda sorte das mais absurdas inverdades adquiridas de mui suspeitas procedências. E fazem tudo com a mais convicta das certezas, o mais absoluto dos contentamentos nos rostos humildes como se nenhuma epidemia os ameaçasse, nenhum vírus aniquilador os intimidasse, sequer existisse. E ai de alguém que quiser contestar qualquer coisa que afirmam, falar algo que soe sensato, embasado ou emitir qualquer verdade fundamentada. Será trucidado sem piedade.

01 agosto 2020

Saudades do nazismo e do fascismo..


Nem todo mundo que usa bigodinho estilo toothbrush se chama Carlitos ou Charlot, usa bengala, chapéu-coco, tem pernas tortas como a de Garrincha, um andar que lembra o caminhar de um pinguim, e vive situações expressas através de pantomimas que soem divertir milhões de pessoas ao envolver-se em situações hilariantes com seu jeito único, irreverente e criativo. Exemplificando melhor, bem sabemos que o sujeitinho na ilustraçào desta postagem, com bigodinho similar ao de Carlitos, chama-se Adolf Hitler, sendo que muitos acham mais adequado valer-se de cacofonia para chamá-lo de Adolfo Deu pelas barbaridades que cometia e a mania de querer subjugar todos os seres viventes. Ocorre que se um dia ele já foi muito mal visto, rejeitado, odiado e execrado por milhões, atualmente parece andar em alta mundo afora, inclusivemente em países considerados como sendo o tal Primeiro Mundo. Ou seja, seus simpatizantes se preservaram por décadas em insidioso mutismo e devem achar que agora é chegado o momento de reviver as coisas preconizadas pelo dito Adolfo Deu, e que me perdoem se insisto no infame trocadilho cacofônico, mas infâmia maior não há que a do nazismo e a do fascismo. A propósito, para que não se fale em exageros injustificáveis e paranóias improcedentes, nào devemos jamais esquecer que já houve governantes do Brasil que viram com muita simpatia o projeto nazi-fascista, tendo o DIP de Getúlio Vargas, chegado ao absurdo de proibir terminantemente a exibiçào do filme O GRANDE DITADOR, de Charles Chaplin, cujo alter ego era o citado Carlitos ou Charlot. O fato é que cada vez mais vem aumentando o número dos que estão embarcando com tudo em uma incompreensível onda de malfazejo saudosismo quer pelos ditames ideológicos, quer pelo sórdido proceder. Alegam para tão inaceitáveis decisões os mais nobres e elevados propósitos.  Claro está que se o cenário mundial é preocupante, mais preocupante ainda é ver que aqui mesmo neste Patropi abençoá por Dê, que sempre primou por uma democrática mistura de raças, o baixinho da suástica vem sendo visto com preocupante simpatia por quem considera seus métodos a senda redentora para este auriverde torrão. Tais admiradores, saudosistas do nazismo e do fascismo, vêm agindo abertamente e cometendo os mais absurdos desvarios em plena luz do dia, expandindo o terror, alastrando o ódio e o medo. Assim querem nos dominar e impor sua estúpida visão de mundo. Nossos horizontes vão sendo obumbrados pelas mais densas e negras nuvens que os mais alienados não sonham perceber e assim vão engrossando, convictos, as fileiras da maldade. Que os céus nos acudam a todos e que tenhamos muita consciência e destemor para, juntos e fortes, lutarmos com desassombro pelo estado democrático e por um Brasil livre das sufocantes garras dos nefastos que ressurgem nesta nova investida. 
(301218)

18 julho 2020

Setubardo, o maior dos poetas menores.

Quando, na antiga Grécia,
Peripatéticos mestres
Iniciavam seus pupilos na poesia,
Não podiam sequer desconfiar
Que num futuro solar,
Um belo dia,
Em Candeias, cidade da Bahia,
O maior poeta menor adviria.
Quando os parnasianos versejavam
Faziam versos exatos, 
passo a passo,
Utilizando esquadro e compasso,
Medindo com régua suas rimas
Sem saber que no Olimpo, 
lá em cima,
Minerva, deusa da Sabedoria,
Pesquisara na internet e já sabia
Que na mítica Candeias, Bahia,
O poeta Setubardo à luz viria.
Fui chegando já de olho bem aberto
E um esculápio tirado a esperto
Me deu uma palmada, 
pura covardia,
Pensando que eu choraria.
Vê-se que esse fulustreco,
Esse pulha de jaleco 
Não me conhecia,
Isto é certo,
Pois pro espanto de quem estava perto,
Ao invés de chorar, declamei uma poesia.
A primeira mamadeira a gente nunca esquece
E quando ela veio,
Trazia indesejável recheio.
À minha mãe, na surdina, 
Proferi frase ferina:
"Qualé, Dona Celina?! 
Só desejo papa fina!
Quero em minha mamadeira, 
Drummond, Pessoa e Bandeira.
Dispensa a vitamina de banana,
Me traga Baudelaire 
E muito Mário Quintana!"
Minha mãe, bem rapidinha,
Fez uma sopa de letrinhas
Formando versos, quadrinhas.
Assim foi que eu cresci,
Muitos versos ingeri,
Digeri, hauri, degluti
Do desjejum ao jantar,
E também pelo almoço.
Já na merenda escolar
Meu alimento, seu moço,
Era todo dia
A mais concreta poesia.
Em Candeias, me iluminei,
Em Santo Amaro da Purificação 
Me purifiquei,
Em Salvador, me salvei.
Hoje eu sou Setubovski,
Sou Quintanúbal,
Sou Setusto dos Anjos.
Minha lira eu tanjo
E nessa vida maluca
Refresco minha cuca
Fazendo versos na raça
Que recito na praça
De qualquer cidade.
Contra a mediocridade 
Dessa gente 
Não sapiente 
De mente vazia,
Poesia, poesia, poesia e poesia!
(01/01/08)

16 julho 2020

A China e o sexo: as chinesas adoram saborear uma rolinha primavera.

Em certos desentendimentos conjugais, o marido chinês perde toda sua proverbial paciência chinesa para com sua cara-metade e a ofende chamando-a de dragão. Chamou, se lascou, pois depois de chamar não adianta dizer "foi Mao!, foi Mao!, foi Mao!". Acontece que na China esse negócio de dragão é coisa muito séria e aí rola a maior kung fu zão, que é uma confusão acrescida por golpes de kung fu. Vai daí que a digníssima fica indignadíssima, partindo exasperadíssima pra quebrar a metade da cara que pertence ao seu cara-metade. E vá ser violenta assim lá na China, pois ela, sem precisar recorrer a nenhum manual de kung fu, quebra mesmo a asiática fuça do sujeito com muita porrada e na casa do casal Imperador, digo, impera a dor. A dor é tamanha que o pobre china faz horrendas caretas e pula gritando: "Aikidô!, aikidô!, aikidô!". Quem acha que chinês e brasileiro não têm nada em comum, não sabe que, igual a qualquer brasuca do povão, o chinês adora um bom pagode. Vá lá que seja pagode chinês, mas é pagode, ora, bolas! Aliás, por aquelas plagas chinesas, nosso Zeca Pagodinho é um grande ídolo. O problema para os brasileiros na China é a comunicação, que é muitíssimo difícil. Você pede ao cozinheiro do hotel para ele mandar uma pizza, mas ele Mandarim, digo,  ele manda rim e você, para não passar fome, acaba tendo que comer, mesmo a contragosto. Falando em comer, os homens chineses adoram comer brotinhos. É broto de feijão, broto de bambu e por aí vai. Ele só não come mesmo é a própria mulher, tudo porque ela já não é mais nenhum brotinho.
(281210)

14 julho 2020

Aprenda o maravilhoso idioma do Futebol.

Mais recente Copa do Mundo, o torneio da FIFA, ocorrido na Rússia no ano de 2018, pode ter sido a última copa mundial para muitos torcedores, notadamente os do grupo dos mais provectos matusaléns entre os amantes do esporte das multidões. A pandemia que ora assola o planeta está dando pinta de que gostou tanto de seu infeccioso trabalho que pretende esticar sua permanência por aqui, o que impossibilita prever se a próxima Copa, programada para 2022, irá mesmo acontecer ou terá que ser adiada ad infinitum. Quanto ao autoproclamado "país do futebol", ainda que depois daquela humilhante derrota de 7x1 para os germânicos nosso entusiasmo com a seleção brasileira de futebol não seja o mesmo de gloriosos tempos pretéritos, seguimos amantes de um esporte que já nos trouxe tantas alegrias e glórias, e não se pode deixar passar batido um papo sobre o esporte bretão e suas particularidades. Pois bem, senhoras e senhores, mocetinhas, mocetonas e varões deste patropi, saibam que o mundo do futebol utiliza em sua comunicação um palavreado próprio que os não iniciados soem desconhecer completamente. Com esta postagem, leitor, vocês ficará completamente por dentro da jogada.

 1. Cruzamentos                                           
 Quando estão afinzonas de um jogador, as assaz determinadas Marias-Chuteiras costumam usar e abusar dos cruzamentos para que seu alvo - e não estou falando de tom de pele - perceba que está sendo convidado para adentrar o gramado lá delas, que por sinal está sempre em excelentes condições para a prática de um match de muito mais que 90 minutos, com direito a intermináveis prorrogações.

2.Invadindo a pequena área
 Em tempos d'antanho, que longe vão, as donzelas militantes e juramentadas, mesmo subindo pelas paredes e morrendo de vontade de dar, por questões da moral vigente não podiam deixar que a rapaziada do Bráz - ou de qualquer parte -  invadisse suas grandes áreas. Suas pequenas áreas, então, nem pensar. Hoje, com a revolução sexual, está valendo tudo e se o jogador não vai à linha de fundo da parceira um monte de vezes fica mal falado porque atualmente no campo do sexo está valendo tudo e mais um pouco.

 3. Gol de bico
  Recurso muito utilizado no futebol feminino, embora aparente ser um tanto dolorido.

4. Impedimento
  Em certos dias do mês a namorada do jogador costuma exibir um cartão vermelho-sangue para ele, uma coisa verdadeiramente menstruosa, digo, monstruosa. Assim, impedido de penetrar a zona do agrião da sua amada e desejada, o craque sai de campo de cabeças baixas.

5.Entrando com bola e tudo
Maria-Chuteira que se preza adora quando o craque malhadão mostra seu gingado e parte com tudo pra cima dela com toda sua maledurência, indo fundo e adentrando a meta com bolas e tudo. Aí é aquele delírio, galera!

6. Elemento surpresa vindo de trás
Nunca é demais dizer que o elemento surpresa é decisivo e muitas vezes é preciso uma virada de jogo para satisfazer as gatinhas que estão cada dia mais fogosas, mais exigentes e mais sem barreiras. 

7. Triangulação
 Tem mulher de jogador que acha que um pouco, dois é bom e três é bom pra caraca, que é do cacete. E bote cacete nisto! Toda véspera de jogo o marido boleiro vai para a concentração por ordem do técnico linha-dura do time e lá fica com um monte de barbudos, deixando em casa a excelentíssima. E bote excelentíssima nisto! Já ela, sempre fogosa e insaciável, aproveita para se concentrar em sua alcova com o sempre prestativo Ricardão Fenômeno que chega cheio de amor pra dar, faz um prévio aquecimento secando rapidinho todo o scotch do ausente marido atleta, e depois de  mostrar seu invejável alongamento que sempre deixa a moçoila babando, vai adentrando no maior pique o gramado da ansiosa beldade e dando aquele show de bolas para o êxtase da gata.

8. Tabelinha
 Jogadores de futebol juram o tempo todo que têm o maior respeito e amor pela camisa do seu time. Já pela famosa e popular camisinha costumam deixar claro que não sentem o mínimo respeito nem amor algum, demonstrando total desprezo pelos preservativos. De sua parte a Maria-Chuteira diz que não usa pílula porque não se dá bem com químicas e prefere adotar o método da tabelinha, mais natural e saudável. Aí, num retumbante dia, a tabelinha falha e a sarada barriguinha da moça, moldada em academias, começa a crescer, crescer, crescer. O resto é aquela velha história: depois de nove meses um advogado com a cara do Sérgio Mallandro - ié, ié! - aparece na porta da luxuosa-porém-kitsch mansão do jogador com um risinho irônico nos lábios, exibindo um teste de DNA numa das  mãos e trazendo na outra uma ordem judicial  mostrando que o boleiro vai ter, pelo resto de sua vida, de morrer todo mês com uma milionária pensão a ser paga à Maria-Chuteira.
(13/05/14)

08 julho 2020

Camelôs da fé e suas igrejas que lhes dão fortunas e poder

Usando o nome de Deus como irresistível publicidade e o de Jesus Cristo como infalível garoto-propaganda, valendo-se de suas inegáveis capacidades de comunicação de massa e de persuasão, de seus poderes de oratória, vendem a fé como camelôs vendem produtos suspeitos numa esquina. Usando o forte poder da mídia televisiva e radiofônica, determinados sacripantas, ditos líderes espirituais, terrivelmente canalhas e anti-cristãos, cheios de uma enorme lábia e de um arsenal de más intenções, valendo-se de discursos inflamados, cheio de conceitos anacrônicos, equivocados, distorcidos, carregados de preconceitos que mal dissimulam um inconsequente e perigoso ódio aos que não caem nas insidiosas armadilhas que suas línguas bifurcadas armam para os incautos, conseguem encher as burras com fábulas de dinheiro que vêm, em sua maior parte, das classes mais pobres, carentes em todos os sentidos, da classe média e até de atletas, dos remediados aos milionários. Todos entregam de mão beijada a grana que dá a boa parte desses tais "líderes espirituais" o privilégio de morar em suntuosos palácios que em nada lembram os lares da maioria dos seus seguidores e bem diferente do que pregava o santo rabi. Eis o crime perfeito. Tão perfeito que nem considerado crime o é. E ai de quem tentar dizer o contrário aos fanatizados cordeiros que lhes entregam o que têm e o que não têm. Hoje, como bem se vê na internet, os próprios canastrões midiáticos oferecem farto material que evidenciam suas mutretas espantosas. Usando em tudo e por tudo o nome de Deus, sem cerimônias nem medo de punição. Há os que induzem os incautos a darem dinheiro que porventura ainda tenham, até mesmo estando desempregados. Outros choram copiosas lágrimas de crocodilo como que implorando doações aos ingênuos que se comovem. E por aí vai. É tudo explicitamente explícito pois eles se sentem intocáveis, inatingíveis. Há os que, sorrindo cinicamente, desafiam a quem queira desmascará-los e fazem ameaças acintosas dizendo ter um exército de advogados a sua disposição para processar os que se atreverem. Muitos deles estão ligados com o mais execrável lixo político e forte é a suspeita de que lavem dinheiro vindo de falcatruas dessas máfias políticas. Associados com o que há de pior na política,  tramam impor uma teocracia em que possam manipular toda a população, impor-nos seus torpes fundamentalismos.  E quando algum desses ditos líderes é apanhado em alguma de suas armações, há aqueles que dizem que o fiel não deve cumprir o seu papel de cidadão decente denunciando o inegável crime e o ladrão, que deve apenas mudar de igreja e não denunciar nada, tornando-se cúmplice do salafrário. Vivemos um mundo de disputas brutais em que os métodos utilizados por muitos são abomináveis. Pessoas buscam nas igrejas a esperança, a fé, razão para viver. Conheço líderes espirituais autênticos, seríssimos, gente que honra e dignifica o que fazem. Sou amigo pessoal de um pastor evangélico, pessoa consciente, que ajuda enormemente sua comunidade. Muitas pessoas, os chamados fiéis,  veem nas igrejas uma uma boia de salvação e se agarram fortemente a ela. É aí que entram em cena os aproveitadores usando o santificado nome de Deus para conseguir o que querem para si. Os muito crédulos, carentes e desinformados acreditam e depositam nesse bando, nessa súcia todas as suas esperanças e, é claro, seu escasso dinheirinho ganho tão duramente. Agarram-se a eles e a seus ditames buscando experimentar a sensação de que não estão sós nesses tempos de grandes e nefastos individualismos, torpeza e sordidez sem limites. Entre eles, iludidos,  os ditos fiéis sentem-se protegidos de todos as tormentas da vida. Querendo evitar o mal, seguem justamente para ele, sem desconfiar que estão voluntariamente se imolando no altar onde, disfarçado de bem, está o mal que dizem intentar evitar. Mas lembremos que muitos não embarcam nessa canoa enganados, iludidos. Por detrás dessas aparentemente puras intenções há também motivos não tão puros assim. Acumular riquezas sem repartir, ostentar, comprar carros, casas, enriquecer às custas dos semelhantes, por exemplo, é meta de muitos dos tais fiéis, para os quais o céu pode esperar, importando bem mais os bens materiais que possam vir a acumular graças ao que eles alegam ser a vontade divina. Que Deus ilumine e dê proteção a essa infausta gente crédula. E que nos livre a todos nós desses camelôs da fé. 
(071215)