07 março 2020

Nem Portugal, nem Brasil: nossa verdadeira pátria é a língua portuguesa,

  O que quer, o que pode esta língua? Ah, pode nos encantar a todos e a todos seduzir, esta língua portuguesa, tão sonoramente gostosa, tão vária e tão bela, que encerra um “assombro vocálico em que os sons são cores ideais”, como definiu Bernardo Soares. Aliás, este escritor português, em meados do século passado, escreveu um texto que até hoje reverbera grandemente entre nós, habitantes dos países que têm o Português como língua materna. Decidido, com segurança, destemor e ousadia, no referido texto Bernardo nos diz que a ele pouco importava, que nada se lhe dava se um dia Portugal fosse invadido, se o solo lusitano fosse tomado por quem quer que fosse, porque sua única pátria era outra: a língua portuguesa. A esta não admitia, sob nenhuma hipótese, que tratassem com apedeutismo, insciência, incúria. Literal e literariamente assim nos asseveravou Bernardo Soares: “Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente.”    
Tanto tempo se passou e até hoje a mencionada frase é motivo de grandes burburinhos, discordâncias e de controvertidas análises, tanto mais por sabermos que Bernardo Soares é outro dos muitos heterônimos utilizados pelo escritor Fernando Pessoa, dos quais se valia para dizer o que lhe ia na sua rica alma de poeta, escritor e intelectual. 
Grandes escritores e poetas portugueses ensinaram a nós, do Brasil, a amar o idioma que um dia nos chegou a bordo de caravelas lusitanas. Através dele, talentosos escritores, cantores, compositores. cineastas e atores brasileiros se expressam, se manifestam por palcos, telas, recantos do mundo todo, encantando plateias de idiomas diversos e ampliando enormemente a força e a glória que esta língua encerra.   
Passados mais de 500 anos, no Brasil a língua portuguesa foi criando uma forma própria de ser, aqui se permitindo todas as influências e mudanças possíveis. Hoje, nosso idioma comporta galicismos, anglicanismos, neologismos e influências as mais diversas, temos diferenças na forma de falar de acordo com cada região deste país tão extenso, erros acolhidos e incorporados, gírias inumeráveis que sempre se renovam. Nesses tempos de globalização, a cultura brasileira, por sua criatividade e força comunicativa, se faz conhecida em diversos países do mundo. Em parte, isso se deve à internet e ao veículo TV, notadamente às novelas feitas por aqui, uma febre em muitos países há dezenas de anos. Em Portugal, Angola, Moçambique e em países outros, os habitantes locais tomam conhecimento e terminam mesmo adotando as gírias, o gestual, o vocabulário, este modo de falar exuberante, pontuado pela irreverência do povo brasileiro, um modo bem pouco restrito a normas e dogmas idiomáticos. Assim nos expressamos nós, nativos desta terra que um dia Cabral encontrou dando sopa, dando mole, dando a maior bobeira aqui pelos trópicos. Desta nossa maneira de falar o Português, melhor não pensar o que poderiam dizer Luís de Camões, Eça de Queiroz e o Padre António Vieira. Muito menos o que pensariam e diriam Bernardo Soares, autor da tão polêmica frase, e Fernando Pessoa. Estes dois, aliás, ainda que em alguns pontos pudessem divergir entre si, certamente teriam opiniões semelhantes e bem pouco lisonjeiras sobre este modo que muitas vezes nós, brasileiros, usamos para falar e escrever esta tão amada língua portuguesa.

05 março 2020

Travecos tipo exportação made in Brazil

 
O traveco é uma instituição das mais sólidas neste torrão auriverde, um patrimônio nacional de valor inestimável e um dos mais cobiçados produtos de exportação deste patropi abençoá por Dê. Os franceses, por exemplo, se curvam - e bote se curvam nisto - ante les brésilienes travequês delapatri, que podem ser encontrados às centenas no Bois de Bologne caprichando no biquinho e falando no idioma de Mollière e de Zola lindas palavras como ménage à trois e voulez-vous une boquettê, missiê? Já na terra de Dante Alighieri, nossos estóicos traveconni agitam a massa, coisa que Rubinho Barrichello, mesmo tendo sobrenome itálico, nunca conseguiu fazer quando estava na Ferrari. Aqui nesta Soterópolis, urbe afamada por produzir em larga escala autênticas Vênus Calipígias estilo Carlas Peres e miríades de popozudíssimas loiras, mulatas, sararás e morenas do Tchan, os travecos locais sofrem uma desleal concorrência e têm de rebolar muito para ganhar o pau, digo, o pão de cada dia. Por sorte, contam em sua defesa com o CATSO (Centro de Amparo aos Travecos Soteropolitanos Oprimidos), que é um órgão vibrante que está aí para provar que as bibas baianas não são de fugir do pau não, senhor. Ora, que despautério!
(210312)

25 fevereiro 2020

Cartola e as rosas tagarelas

As rosas não falam?! Ô, Seu Angenor, elas falam, falam, sim, ora, se falam! Algumas são incrivelmente loquazes, outras chegam até a serem beeeem tagarelas e é um custo fazer com que calem suas róseas boquitas. Às vezes puxam um assunto qualquer e logo desandam a falar - de forma muitíssimo bem articulada, por sinal -  sobre o tema que pauta para si. Por exemplo, por exemplo, o samba, um mais que valioso tesouro da nossa música popular. E é claro que se elas falam sobre samba falam de sua notabilíssima pessoa, Seu Angenor de Oliveira, o senhor que é um dos mais valiosos tesouros culturais deste patropi abençoá por Dê, um grande Mestre do samba, da vida, eternizado no universo musical pelo seu cognome de Cartola, o Mestre Cartola, conhecido como sendo o compositor mais identificado com a Escola de Samba da Mangueira. Mas nós, brasileiros, sabemos bem que Seu Angenor, o marido de Dona Zica, foi bem além disto, sendo gravado pelos mais consagrados cantores da nossa rica MPB. Preconizam as mui falantes florzinhas que o compositor Cartola legou à música brasileira autênticas e finíssimas pérolas musicais, tesouros de altíssimo valor, versos que denotam um criador de alma culta, ainda que o autor fosse uma pessoa de origem humilde, de poucos estudos formais, morador do Morro da Mangueira, no Rio, reduto de gente simples e dita comum, mesmo sendo ele um artista incomum. 
Esta carica acima eu fiz um tempo atrás como presente pro meu nobre e especial amigo Biratan Porto, gente da minha consideração e apreço, que todos sabem bem que é um cartunista e caricaturista piramidal, de alto gabarito e que, de quebra, é ainda um músico habilidoso, um virtuose do bandolim, coisa que tive a fortuna de comprovar ao vivo e a cores em Belém do Pará. E não fosse isso o bastante, Bira é também um cartolamaníaco inveterado, contumaz e renitente, no que lhe dou inteira razão, convicto de que ele merece ouvir das rosas umas loas tão enaltecedoras quanto as que elas dirigem ao Mestre Cartola.
(281114)

Sketchbook 03 / estudo de homem com camisa listrada

Trabalhar com computador é sempre gratificante. Mas são tantas as formas prazerosas de fazer um bom desenho que é bom experimentar um pouco de cada um de tais prazeres, notadamente as técnicas mais tradicionais já utilizadas por tantos e tantos artistas deste mundo, mundo, vasto mundo. Aquarela é sempre uma delícia das mais deliciosamente deliciosas. Ainda mais assim, manchadona, feita meio que com uma estudada falta de acuro. O lado bom de quem ama desenhar e escolheu como profissão justamente o trabalho com desenho, é que este se torna ao mesmo tempo fonte de sobrevivência e um enorme e perene prazer.
(171110)

21 fevereiro 2020

Carnaval de rua na Bahia, tinta acrílica, beldades e um temerário ser chamado Caó.


Já é carnaval, cidade, acorda pra ver! Curtir a folia, brincar o carnaval nas ruas da Bahia é puro delírio. A festa é um painel colorido, belo e efervescente, cheio de personagens maravilhosos. A velha raça humana se esquece dos problemas e vai à praça gritar a alegria que segue cultivando em seu peito malgrado as ações dos nefastos, integrando-se ao melhor dos hedonismos, com direito àqueles beijos nada colombinos, desejos luxuriosos mais que legítimos e novos amores eternos que durarão até a quarta-feira de cinzas. Ou quinta-feira. Ou sexta, já que o carnaval aqui nunca sabemos dizer com precisão quando termina, considerando-se a remotíssima hipótese de que ele termina. Bom, ninguém aqui nesse bloguito é tão alienado que não saiba que na elaboração da festa há enormes manipulações oficiais e interesses empresariais que atropelam a honestidade, a tranquilidade e o conforto de moradores de bairros ocupados pela folia oficial e até mesmo o direito de ir e vir desses e de outros moradores, e ainda as tradições mais populares e o bom senso na busca do lucro fácil e farto. Mas fiquemos, por ora, no aspecto lúdico, na alegria e na loucura a que todos se permitem, pois é por motivos tais que o carnaval da Bahia é mesmo uma bela temática para se pintar, caprichando no colorido de cores vivas, cores quentes, cores redondas ou seja lá que outro nome lhes deem, como aliás busquei fazer nesta pintura concebida com massa acrílica e tinta acrílica sobre tela de 1.00 x 0.80 m. Ditas tais quase profundas e filosóficas palavras, eu agora vou correndo pro Pelô, senão um fulano que conheço num piscar de olhos é bem capaz de comer todas as mulheres que estiverem por lá e não sobra nada pra ninguém, sendo que isto inclui talqualmente minha pessoa. O tal fulano é phoda, quando vê murundum não considera amigo nenhum! Axé, galera!! Sem perda de tempo, lá vou eu. Fuiiii!
(250217)

Samba e turismo sexual no País do Carnaval

 Você, sapientíssimo leitor, já deve ter notado que Carmen Miranda é uma figura recorrente em minhas pinturas. Isto se explica pela formidável admiração que ela exerce sobre mim e também em miríades de gentes deste planeta azulzinho. Na ilustração deste post está uma versão da Pequena Notável executada com tinta acrílica sobre tela, sendo ela parte integrante de uma extensa série de pinturas que fiz buscando falar sobre um amontoado de erros com os quais convivemos, por vezes indiferentes, nesta Terra Brasilis, pátria amada nem sempre tão gentil que, ainda assim, intenso amor nos inspira, apesar dos tantos e tantos pesares. Por aqui, hedonistas que somos, amamos o samba, que é nosso e que é tão bom, entre tantos ritmos brasileiros que celebram nossa admirável alegria interior. Mas não podemos perder de vista o fato de que neste país amado, entre outros malefícios, perdura um forte turismo sexual e a pedofilia, frutos da desigualdade, praticados por gentes inescrupulosas, que trazem suas moedas fortes com as quais logram corromper nosso caráter por vezes tão macunaímico. E tudo tende a piorar quando um presidente do Brasil diz o que já disse acerca de estrangeiros e turismo sexual.  Há ainda a terrível e abominável situação da infância que foi abandonada - e não é de hoje - pelos governantes mas pela sociedade também. Estamos em tempo de carnaval. Dancemos e celebremos nas ruas e praças a vida movidos por nossa inesgotável, elogiável, invejável alegria interior. Mas nada de guardar nossa consciência num pano de guardar confetes. Evoé!
(150213)

14 fevereiro 2020

Riachão, 99 anos de samba, luta e alegria.

Quem quiser saber tudo de samba e de Bahia tem de beber no sagrado manancial chamado Riachão. Há que se sorver sofregamente a arte do samba de Riachão. Caetano bebeu em generosos haustos. Gilberto Gil bebeu a se fartar. Cassia Eller, maravilhosamente, idem, idem. Riachão é a Bahia em forma de gente subindo a ladeira do Pelô ao encontro da roda de samba com seu terno branco com cravo na lapela, seu boné, seus óculos, anéis, correntes, toalha no pescoço, jeito de malandro, sua ginga, sua alegria contagiante, dentes escancarados num largo sorriso só encontrável em soteropolitanos tipos. Riachão, em verdade, é o próprio Samba da Bahia, com RG e tudo. Puro e da melhor qualidade, sim, o Samba baiano é este maravilhoso senhor Clementino Rodrigues, o Riachão, que completará 99 anos no próximo novembro, e lançando o disco Se Deus quiser vou chegar aos 100, louvado seja Nosso Senhor do Bonfim! 
Xô, chuá, cada macaco no seu galho, a nega lá em casa não quer trabalhar, quer comer engordurado e nào quer cozinhar. Chega na roda o quase centenário Riachão, Mestre do Samba, e dele transborda a mais carismática baianidade, seu talento de sambista nato é líquido e certo, oferecendo-se generosamente para que nele sorvamos os necessários e substanciais haustos. Com as graças de Oxalá. Epa Babá! Viva Riachão! 
(310514)

Guache Marques, um artista plástico da Bahia e seus múltiplos talentos.

Ainda que a arte da Bahia com maior visibilidade no Brasil e no mundo seja a música, outras artes baianas são igualmente efervescentes e têm seus grandes artífices. Literatura, cinema, fotografia, teatro e também as artes plásticas. Volta e meia, caminho pelas ruas de Salvador em um périplo destinado a rever painéis e esculturas do genial Carybé que estão abrigadas em hotéis, bancos, edifícios residenciais. Puro deleite. Frequento galerias e folheio mil vezes alguns catálogos que guardo, buscando sempre o prazer de ver e rever trabalhos do estupendo Floriano Teixeira, a excelência de seu desenho feito com os traços mais refinados que meus olhos já viram, e sua pintura feita de delicadeza, magia, surpresas. Não se pode dizer que a pintura baiana seja uma única. Há linhas e linhas de trabalhos. Nessas linhas há sempre aqueles que se sobressaem mais por acreditarem nos seus talentos, nas suas artes, e buscam trabalhar com dedicação e amor. Falo isso lembrando-me do trabalho do artista plástico Antonio Gomes Marques, mais conhecido como Guache Marques, nascido em Feira de Santana, BA, formado em Artes Plásticas pela UFBA. Sua arte tem mil aspectos, Guache segue inúmeras vertentes para se expressar, sendo ele múltiplo no seu ofício artístico, oferecendo aos que amam as artes plásticas um vasto leque de caminhos e possibilidades. Em cada um deles, Guache se comunica com total domínio, competência, talento. Habilidoso ao desenhar, na feitura de seus desenhos expressa-se através de diversos materiais, faz bico-de-pena, ilustrações para textos, pinturas em tela, gravuras, artes digitais e fotos-desenhos. Não bastasse isso, é também programador visual. 
O trabalho de Guache Marques não se encerra na grande beleza plástica que trazem em si, limite para muitos artistas que daí não passam, por aí mesmo estacionam, satisfeitos. Nesses tempos em que tantos demonstram grande alienação - incluindo-se nisso, um mundaréu  de gente do mundo das artes plásticas - há que se dizer que Guache é um artista, com alta consciência social, politizado - sem incorrer na panfletagem - e com fortíssimas ligações com a Bahia, sua gente, lutas, aspirações, costumes, História. Através dos seus desenhos, gravuras e pinturas, de tudo que faz, o espectador é contemplado com sua visão das coisas, um enfoque social que, vale repetir,  não é panfletário, falando do homem, suas crenças, sonhos, pelejas, anseios, religiosidade, raízes, signos afro-brasileiros. Guache Marques é profícuo em seu ofício e tem incontáveis exposições, individuais e coletivas, inúmeros painéis, fez instalações, participou de dezenas de Salões de Artes Plásticas, recebendo um expressivo número de premiações. Ser um artista plástico completo e talentosos como Guache Marques é para poucos. Exemplos de sua arte madura e bela podem ser vistos e apreciados na internet através de um bom buscador, como o Google. Alguns trabalhos e dados do artista são encontráveis através do link:

13 fevereiro 2020

J. Jorge Amado e o Jacaré no esparro

Jacaré no seco anda?
Antes de responder esta singela e inocente indagação, saiba você que ela não é assim tããão singela nem inocente. Em verdade, traz implícita em si muita malícia e sacanagem,  tratando-se de um significativo exemplo do que são os esparros, frases utilizados no coloquial do povo da Bahia cheias de duplo sentido e de malícia, recheadas de um humor pra lá de sacana. Tais frases são encontradiças em pitorescos diálogos populares de todo nordeste e de maneira constante na boca do povão baiano que tem como característica marcante ser irreverente, como se pode comprovar nesta particularidade de sua cultura oral que serviu de temática para o escritor João Jorge Amado.  Sempre atento, como é de seu feitio, J. Jorge pesquisou, garimpou, coletou e selecionou com um mais que acurado empenho e publicou esparros à mancheia em seu ótimo livro, "Lá ele ! O esparro na Bahiapor mim ilustrado entre uma gargalhada e outra. Você que é dado a boas leituras pode tentar conseguir um exemplar fazendo contato com a Publit Soluções Editoriais, através do seu site 
http://www.publit.com.br/
(140213)

11 fevereiro 2020

Para o gajo Fernando Pessoa uma acrílica que canta em cores.

"Qualquer música. Ah, qualquer, logo que me tire da alma esta incerteza que quer qualquer impossível calma." Lindos esses versos de Fernando Pessoa, gajo fixe, giro, poeta mais que inspirado que no início do século passado escrevia essas coisas, versos e ideias que até nos dias atuais seguimos lendo pra lá, muito pra lá de embevecidos. Há de ter sido inspirado pelos versos do prolífico e iluminado bardo lusitano que pintei essa tela usando tinta acrílica. Cantando como cantaria, com seu vozeirão, o inefável Professor Cauby: ''Pintei, pintei, jamais pintei tão lindo assiiiiiiim''. Bem, bem, exagero, não chega a tanto, mas quando desenhei e pincelei as tintas nesta tela, luminiscente leitor, fique certo que eu ouvia alguma música mais que divinal e que em minh'alma não vagava incerteza alguma.
(220414)

06 fevereiro 2020

Bill Watterson, Calvin and Hobbes / Uns cara que eu amo 5

 
Entre meus quadrinhos preferidos está Calvin and Hobbes, aqui no Brasil conhecidos como Calvin e Haroldo. Bill Watterson não é apenas um estupendo desenhista, é um argumentista de raro talento que criou um universo mais que maravilhoso onde um menino, Calvin, e seu companheiro constante, Haroldo, um tigre de pelúcia que ganha vida quando ambos estão a sós sem a inconveniente interferência de adultos. Estes, por sua vez, transformam-se, na prolífica imaginação de Calvin, em dinossauros ou em monstros estranhos de outros universos, sempre prontos a atrapalhar a vida do inteligente menino. E inteligência é o que mais se vê nas tiras de Watterson, presentes nos diálogos mais criativos das HQs desde que foram inventadas. As situações que ambos vivem, mesclando realidade e fantasia para discutir problemas do homem atual, ultrapassam os limites da mesmice, das fórmulas fáceis, das mensagens convencionais com tipos estereotipados que os americanos tanto adoram. Tão fora do convencional é Bill Watterson que um dia, gozando de notável popularidade e do mais irrestrito respeito, para surpresa geral deixou de produzir desenhos com o menino e seu tigre. Talvez tenha se cansado, talvez fazer as tiras não lhe trouxesse mais alegrias, talvez - quem sabe - achando que poderia repetir-se, tenha resolvido parar depois de 10 anos onde chegou a produzir mais de 3100 tiras da dupla de personagens. Retirou-se do cenário artístico e não pensou como qualquer criador, americano ou não, de explorar comercialmente seus personagens, o que o tornaria um multimilionário, fazendo lembrar o genial desenhista do underground Robert Crumb que se lixava para o mercado de licenciamento para o qual dava sonoras negativas e explícitas bananas. Caramba!, gente assim sempre me causa uma profunda admiração e um enorme e insopitável sentimento de inveja pela firmeza de caráter, pela forte personalidade com que mostram que estão acima da mesmice geral, pela maneira independente de pensar e de recusar-se a ser apenas mais um na manada, mais um na interminável multidão dos medíocres que povoam uma grande extensão neste vasto orbe.
(101113)

27 janeiro 2020

Wilhelm Reich, o nazismo, o fascismo, os EUA, o Brasil, o sistema que busca aniquilar os divergentes.

WILHELM REICH, PRISÃO E MORTE NOS EUA. 
Sobre o psicanalista e cientista natural antifa Wilhelm Reich, dizia o analista de Bagé, criação do escritor Luís Fernando Veríssimo: "Reich? Reich para mim é véspera do escarro!". Ainda que provoque sonoras gargalhadas, tal frase pode soar rude aos ouvidos mais refinados. Mas ela tem lá sua poesia, fazendo lembrar os versos de Augusto dos Anjos que dizem que se faz imperioso retribuir um beijo com um escarro. Sendo o analista de Bagé, "um freudiano de carregar bandeira, mais ortodoxo do que rótulo de Maizena e pijama listrado", não era de se espantar tal opinião emitida. Comecei o texto citando o personagem de LFV, buscando amenizar um pouquinho as coisas, vez que a vida de Wilhelm Reich, nascido em 1897 em Dobzau - hoje norte da Ucrânia, à época território do Império Austro-Húngaro - não foi exatamente um mar de rosas, do nascimento até sua morte. Reich foi um pensador de idéias fortes, que jamais abriu mão de suas idéias, muitas expressas através de livros que escreveu, tais como A revolução sexual e O combate sexual da juventude, A psicologia de massa do fascismo e Análise do caráter. Ele foi um dia colaborador de Sigmund Freud, mas rompeu com o "pai da psicanálise" por contestar conceitos dele dos quais discordava frontalmente. Tinha idéias próprias, por exemplo, sobre a função do orgasmo, idéias para os quais a psicanálise freudiana parecia não estar preparada, originando a dissidência. Reich preferiu prosseguir na elaboração de suas teorias e conceitos próprios, sempre dotados de um olhar novo, revolucionário. 
Como homem político, Reich não deixou por menos. Com a força de suas idéias combateu o nazismo e o fascismo, sendo perseguido com ferocidade. Para um homem dotado de extrema inteligência, uma visão clara e acurada como a dele, ficava fácil perceber o atroz e nefasto engano da população alemã e de países outros que acreditaram nas pregações do nazismo e do fascismo, enxergando neles a redenção para suas pátrias e povos. Tal clarividência é sempre um fardo pesado, doloroso de carregar e ele sofreu por enxergar tão claramente a cegueira popular e a que tragédias essa cegueira conduziria. Reich, no Brasil atual, sofreria em dobro tais dissabores vendo as enormes multidões de cegos caminhando com um sorriso nos lábios e a passos largos para um precipício de profundezas abissais, convictos que seguem a senda correta e que estão salvando a nação brasileira e a si próprios. Sofrendo a perseguição que sofreu, Wilhelm acabou sendo expulso pelos nazi-fascistas. Acabou indo morar naquela que se denomina "a pátria da liberdade", os EUA. E é aqui que tudo se converte em tragicamente irônico, dolorosamente irônico. Por suas idéias revolucionárias lá nos States ele também foi contestado e perseguido pelo chamado sistema que, sabemos bem, é inflexível com cidadãos considerados um estorvo, uma pedra no sapato, um obstáculo ao seus interesses pessoais mas que dizem interesse público. Para comprovar isto nem é preciso ir longe, basta olhar os fatos incrustrados na História deste auriverde torrão dito varonil, a passada e a recente. 
Falei em ironia e em tragedia porque dá-se que o psicanalista e cientista Wilhelm Reich, tido como um mais que inconveniente estorvo por tiranos dos governos nazistas e fascistas, terminou sendo preso, julgado e condenado pelas leis dos EUA. E se os psicopatas nazistas e fascistas, inimigos das democracias, não o mataram, os norte-americanos, que alardeiam serem os EUA a Pátria da Democracia, a terra da Liberdade, se incubiram de desempenhar esta abominável ignomínia. Reich foi encarcerado pelas leis ianques findando por morrer em uma cela na Penitenciária Federal de Lewisburg, na Pensilvânia. Por determinação das autoridades dos EUA, seus livros e instrumentos de pesquisa foram destruídos, no melhor e mais irretocável dos estilos tirânicos e totalitaristas. Suas idéias, no entanto, seguem vivas através de seus livros e de suas frases lapidares como esta: "A própria existência de um movimento fascista constitui uma expressão social indubitável do imperialismo nacionalista. Mas é o movimento de massas da classe média que possibilita a transformação desse movimento fascista num movimento de massas e a sua subida ao poder que vem cumprir a sua função imperialista. Somente levando em consideração estas oposições e contradições, cada uma de per si, é que se pode compreender o fenômeno do fascismo." Ler isto chega a dar arrepios, pois Reich parece estar descrevendo em minúncias o momento tormentoso que atravessa o povo de um certo país localizado abaixo da Linha do Equador.
Este retrato de Reich que ilustra a postagem foi feito por mim para o caderno cultural de um matutino. Intrepidamente, esbocei-o com lápis 2B sobre papel Canson 120 g. A arte-final foi feita com caneta nanquim e uma mais que prazerosa tinta aquarela.
(151218)

25 janeiro 2020

Biratan, um cartunista com nobre sangue indígena.

Biratan Porto! Grande Bira, paraense dos bão! Em suas veias corre legítimo sangue papa-chibé, o que está mais do que na cara, basta olhar seus olhos amendoados que ele herdou de seus nobres antepassados indígenas. Amigo queridíssimo, Bira é um virtuose no bandolim e - en passant - um dos cartunistas mais premiados neste globo terrestre nos Salões de Humor destas e de outras plagas. Curto fazer caricaturas dos amigos dos quais mais gosto. Biratan é um destes, amizade de longa data que a distância jamais fez diminuir. Nas vezes que calha da vida nos possibilitar estarmos juntos em um elevado tête-à-tête, lançamos mão da sapiência de bater papos saudáveis regados com algumas cervejotas que ninguém aqui é nenhum Tony Stark, o tal Homem de Ferro da Marvel Comics, que por determinações médicas não pode sorver quaisquer líquidos, pois se enferruja à toa, à toa. Fiz esta homenagem em dose dupla, que é o jeito que Bira gosta de sorver seus etílicos. Se quiser ver humor de qualidade feito por um grande Mestre dos cartuns, quadrinhos e crônicas, clique aqui neste link: http://biratancartoon.blogspot.com/
( 290312)

24 janeiro 2020

Flavio Colin, o Mestre dos Mestres das HQs, comentando os desenhos de Setúbal.

Indômito e estoico, o decidido coração do explorador o leva a penetrar intrepidamente na imperscrutável selva que no seu emaranhado interior mortais armadilhas oculta. Na jângal de nigérrima escuridão e insondáveis mistérios penetra ele com invulgar destemor, sem quaisquer hesitações. Este explorador de quem falo sou eu, leitores. Esta selva, o espaço desorganizado de um quarto de meu larestúdio, em que se amontoam livros, revistas, discos de vinil, papéis com bosquejos, debuxos, rafes, layouts, rabiscos e estudos, lápis, canetas nanquim, pincéis, tintas a óleo e acrílicas, um bolachão do Manezinho Araujo, uma fita cassete com uma coletânea do Odair José, um CD do Bola de Nieve, outro com trilhas sonoras de filmes de Almodóvar, um poster mostrando Chavela Vargas e Atahualpa Yupanki, uma revista O Cruzeiro com Carmen Miranda na capa, uma figurinha carimbada do Flávio Minuano com a camisa 9 do Corinthians e incontáveis recuerdos de Ypacaraí. Toda sorte de objetos de formas, tipos e procedências se acumulam nessa mui densa selva em que os intrépidos irmãos Villas-Bôas não ousariam adentrar, temerosos. 
Tais temerárias atitudes de minha parte por vezes são altamente compensadoras. Muita vez meu peito experimenta a alegria de um velho arqueólogo que, após décadas de intensa procura, finalmente descobre milenares tesouros de um faraó. Isso se dá quando encontro algo que, estando perdido no meu caos doméstico, ressurge diante de meus olhos, materializa-se em minhas mãos. Como esta carta que um dia, no anno Domini 1998, enviou-me o inimitável, o inigualável, o incomparável Flavio Colin, meu ídolo desde que, ainda um guri, comecei a ler histórias em quadrinhos. 
Não conheci Colin pessoalmente, só grahambellmente, em longas conversas, principalmente sobre quadrinhos. Enviei a ele livros e revistas com desenhos meus e de amigos aqui da Bahia. Nos papos, Colin mostrava-se um homem culto e politizado. Sendo cortês, não deixou de escrever-me e o fez de forma alongada, falando de coisas que denotavam seu pensamento de profissional e, indo além, de forma espontânea teceu comentários sobre meus desenhos. Nada de teclados, notebooks, e-mails, o que Colin escreveu sobre meu trabalho foi escrito pelo mesmo punho que desenhava aquelas maravilhas todas que fizeram feliz minha existência de voraz devorador de gibis, álbuns, revistas de quadrinhos. Suas palavras foram e são para mim uma grande motivação. 
Considero que meus desenhos são meras garatujas diante da arte maior de Colin, mas ele, vendo meus trabalhos nos livros e revistas que lhe enviara, gostou e se motivou a me escrever, inflando meu ego, fazendo meu peito estufar preenchido pelo mais lídimo, justificável e salutar sentimento de orgulho. Determinam as regras do mais elevado e ético comportamento humano que uma pessoa assim laureada, porte-se com dignidade, com elevada modéstia, de maneira nobre, de forma serena, contida, reservada, sem ostentação. Pois faço saber que nesse caso mando uma banana para a modéstia e outra para sua irmã caçula, a discrição. Uma honra dessas não se acha por aí, aos montes, dando sopa pelas ruas, becos, ladeiras, vielas, veredas, ágoras, alamedas e bulevares, e não serei eu quem irá encobrir com o diáfano véu da falsa modéstia o irrefreável orgulho que sinto pelas palavras do Mestre Flavio Colin:
"Caro Setúbal:...
...Gostei e admirei especialmente "ABC da Guerra do Absurdo". Sem bajulações e sem salamaleques, considero suas ilustrações belíssimas. Um trabalho realmente primoroso. Vou guardá-lo com todo o carinho. Espero que você alcance êxito, não só profissional e financeiramente, para que possa expor todo o seu potencial artístico e viver do seu talento com a segurança e a dignidade que bem merece. aguardo novos trabalhos seus. Abração do Flavio Colin."
200817

17 janeiro 2020

Lage, cartunista e caricaturista maior, tinha lá seus pecadilhos.

O cidadão soteropolitano Hélio Roberto Lage era um formidável arquiteto, merecidamente graduado e de muita competência. Poderia levar uma vida digna com essa sua edificante profissão. Ao invés disso, preferiu seguir os conselhos de algum anjo torto, desses que vivem na sombra, e foi ser cartunista na vida. Um cartunista maior. Munido de seu talento gráfico, elevada consciência política, presença de espírito, invejável sagacidade, a alma plena de um transbordante humor, lá ia Lage para a redação do jornal em que trabalhava e traçava charges impactantes, cartuns demolidores, caricaturas que desnudavam os políticos mais infames. Isto não é pouco e ele odia parar por aí, bem que poderia. Mas quem disse que ele parava? Pois é chegada a hora da verdade e a verdade tem que ser dita: Lage não conduzia a profissão que exercia com a devida seriedade e sempre foi um cartunista metido a engraçadinho. Ao invés de se portar de forma séria, como sói acontecer aos profissionais que têm consciência do dever de ofício, tinha ele o reprochável hábito de viver fazendo piadinhas em seu ambiente de trabalho e mesmo fora dele. E ainda as desenhava, como agravante. É abalado e até profundamente traumatizado que aqui deponho que, de forma recorrente e impiedosa, fui habitual vítima dessas suas gracinhas sem graça das quais todos achavam a maior graça, menos eu, a inerme vítima desses motejos gráficos. Desde 1981, ano em que muitos dos leitores desse bloguito sequer haviam nascido, guardo comigo, cheio de mágoa e ressentimento, essa caricatura que ora posto, da lavra de um sujeito que se dizia meu amigo mas que retratava-me de maneira injustificavelmente sórdida, impiedosamente abjeta. Desconfio que ele era movido pela mais infame das invejas, pois sabendo-me um cara de físico apolíneo, um Adônis, um invariável escopo da concupiscência feminina, Lage traçou de mim esta caricatura em que ele subverte tudo, colocando meu avantajado peito de remador no lugar da minha barriga tanquinho, delineada em incansáveis e espartanas malhações. Mas Zeus é grande, Zeus é pai e sempre sou atendido quando rogo aos deuses do Olimpo cartunístico que eles, lá do seu sacrossanto empíreo, enviem-me forças para seguir em frente e suportar tantos e tão desmesurados infortúnios movidos pela mais abjetas zelotipias e as mais hediondas invídias.
(140712)

14 janeiro 2020

0 Instituto Cultural Brasil-Alemanha, Roland Schaffner, as Artes e os anos de chumbo na Bahia.

Usando de seu glamour e poder de convencimento o cinema norte-americano sempre aculturou populações inteiras mundo afora incutindo nas mentes das pessoas o padrão comportamental e os valores lá deles. Coisas boas nos chegavam pelos celulóides mas  também nos vinham, sutil ou abertamente, ódios raciais, visões estereotipadas e preconceitos contra povos que os financiadores deste cinema made in USA julgavam serem impecilho contra a sanha imperialista dos States. Não é por acaso que ao ouvirmos o nome Alemanha muitas vezes nos venha à mente, qual uma ideia fixa, a cruz quebrada do nefasto nazismo. Como se cada cidadão teuto fosse um execrável nazista em potencial. Bom, atualmente em várias partes do mundo - aqui mesmo neste país tropical - não são poucos os que almejam ver de volta o nazismo com toda sua tirania. Pois sucede que na Bahia muitas e muitas pessoas, as mais bem informadas, têm para com a Alemanha um sentimento de gratidão eterna. Não só por Schopenhauer, Kant, Nietzsche, Beethoven, Franz Beckenbauer e outros craques tedescos, mas devido a um germânico de nome Roland Schaffner que nos anos 70 dirigiu o ICBA, Instituto Cultural Brasil-Alemanha, uma entidade cultural alemã que não se limitou a nos revelar o melhor da admirável cultura da terra de Goethe e de um interminável lote de brilhantes filósofos, literatos e artistas. Foi muito além disso, irmanando-se com as gentes da Bahia em um tempo, página infeliz da nossa história, passagem desbotada na memória de nossas novas gerações em que um magote de equinos engalanados de verde-oliva tomaram o poder e nos desgovernaram por duas tristes décadas. Com seus coturnos pisavam nossos plexos, jugulares e pomos-de-Adão, sufocando-nos e tirando-nos a voz. A meio isto, foi que Schaffner, administrador do ICBA na Bahia, usando de altruísmo, de senso democrático e de muita coragem abriu e deixou abertas as portas do ICBA para abrigar os baianos mais conscientes que queriam escapar do jugo dos imbecis em gandolas, sequiosos de nos impor o que deviámos ver, ler, falar e até pensar. Seus braços truculentos não alcançavam a entidade oficial alemã, seus coturnos sujos de sangue não podiam ali pisar. Invadir o ICBA seria invadir a própria Alemanha. Então ali, naquele autêntico oásis democrático, podíamos ver exposições e também expor sem as amarras da censura em voga no país. Podíamos desenhar, pintar, ver peças teatrais, atuar nelas, ler. E o fazíamos. Líamos, conversávamos, sonhávamos, ríamos, vivíamos. Os ares libertários do ICBA eram os que queríamos respirar nas ágoras de nossa urbe. Da quartelada nefasta dos anos de chumbo nos ficou um país de visíveis castas onde a desigualdade é gritante. Uns poucos nadam em dinheiro e vivem nababescamente e para eles o paraíso é aqui enquanto um contingente de sofredores têm que lutar arduamente fazendo das tripas o coração para conseguir sobreviver. Há um número assustador de gentes que transitam na maior indigência, mostrando a quem queira ver que o país que nos legaram os ditadores é uma fábrica de desassistidos, de desqualificados, de marginalizados sem acesso às escolas, incapacitados para adentrar o mercado de trabalho e poder contribuir para o país. Entre estes alijados, milhões de famílias de onde nascerá aquele guri franzino de sete, oito anos que dentro de poucos dias, com a mente entorpecida pela cola ou pelo crack, meterá uma bala no meio dos cornos do transeunte que retorna exausto de sua faina com uns poucos trocados no bolso. E rezemos, rezemos muito para que este transeunte não seja um de nós. 
E que dizer do panorama nada auspicioso do Brasil atual que não se mostra nada auspicioso? Que é desalentador? Que ceifa nossos sonhos e esperanças? Não. Temos tudo para sermos desesperançados mas não somos. Gente como Roland Schaffner nos mostra que há um modo correto e mais justo e digno de se agir com os semelhantes. Que ética, cônsciência política e social, coragem e altivez podem ser mais que meros vocábulos nas páginas do Aurélio. Que democracia não deve significar a opressão de muitos em benefício de uns poucos. Que para as trevas sufocantes que nos querem impingir a todo instante e de todas as formas, devemos nos unir e, como Goethe, clamar em altos brados: "Luz! Luz! Deixem entrar a luz!"
201009

13 janeiro 2020

O magnífico cartunista Lage e a falta que faz na luta contra o flagelo político que assola o Brasil.

Este texto que reproduzo abaixo é do ano de 2010. Lendo-o, fidelíssimo leitor, você constatará que a economia do Brasil, malgrado os percalços mais renitentes, caminhava muito bem na era Lula navegando em mar de almirante, flanando em céu de brigadeiro. Assim íamos, cheios de orgulho pátrio, garbosos e varonis, antes que, para nos salvar desse calamitoso estado de coisas - segundo alegavam - surgissem em cena, como nossos redentores, políticos corruptos,  banqueiros gananciosos, juízes venais, rentistas inescrupulosos, a sempre falaciosa e manipuladora grande mídia, capitaneada pela Rede Globo, ianques com sua CIA, um magote de entreguistas, igrejas de pastores fundamentalistas, militares com pijamas ao invés das fardas e com pantufas no lugar dos coturnos, batalhões de racistas, misóginos, homofóbicos, nazistas e fascistas, matadores de indígenas e de pessoas sem-teto, levas de "gentes de bem" que não estão nem aí para a injustiça social e a criminosa desigualdade em que estamos atolados e não acham nem um pinguinho que "gente é para brilhar, não para morrer de fome". Enfim um nauseabundo chorume oriundo dos mais fétidos esgotos, de tudo que é extremamente escroto e nocivo ao Brasil e a seu povo, algo que nem os mais delirantes paranóicos vislumbraram em seus delírios. Eu me pergunto como é que pessoas que se creem sensatas e inteligentes se deixaram enredar por tal escória capaz de levar qualquer país do mundo a um retumbante desastre econômico, político e social? Tudo que sei é que numa hora destas os que nos amparam e ajudam a entender as coisas são as pessoas mais equilibradas, lúcidas e combativas, caras assim como sempre o foi o brilhante cartunista Lage, que tanta falta nos faz por seu lápis certeiro, sua pena infalível que hoje não teria descanso diante desta imensa horda de canalhas que se apossou do Brasil e teima em dar à esta nação auriverde o pior dos destinos. 
Eis a mencionada postagem:
"Os números da política econômica relativos ao governo Lula são incontestavelmente muito bons e visivelmente melhores que os de todos os governos anteriores. Ter o FMI como devedor e não mais como credor mostra que a mudança é um fato positivo. Com o bolsa-família inegável é que os indigitados deste país, as gentes das periferias e as suburbanas gentes passaram a comer diariamente mais e melhor, é verdade, mas seu calvario está longe de terminar. São mais de 500 anos de desigualdades no lombo do povo, sofrido povo, em uma sociedade de mentalidade escravocrata onde muita gente quer mesmo é aumentar ainda mais o já existente abismo social, que já é extremamente abissal, fenomenal, colossal. Nada de escolas, nada de assistência médica, nada de moradia e existência dignas. Tudo por conta de preconceitos arraigados e da mentalidade excludente na base do "se pessoas passam fome e não têm onde morar a culpa não é minha" ou "Deus é quem fez as coisas assim como são". E é bom nem falar em certas religiões e seu papel nisto tudo. O fato é que os seculos passam e muitos e muitos brasileiros continuam estagnados como dantes, muito mal acomodados, no fim da fila social sem grandes benefícios nem tratamento digno. Lage, cartunista sempre atento e com aguçada visão política, com seu desenho nos alerta sobre o perrengue que passam tantos brasileiros despossuídos, alijados da condiçào de cidadãos aptos para contribuirem com o desenvolvimento do país, mostrando Lage os excluídos através de charges reveladoras. Lage era retadinho, era preciso e sempre acertava em cheio o alvo visado. Grande, grande, grande Lage.
031110

12 janeiro 2020

Deus, o primeiro homem e sua primeira queixa.

Navegar é preciso. Sei disto e, disto convicto, tornei-me um inveterado navegador nos mares da internet, por vezes procelosos, inseguros e sujeitos a naufrágios de nautas incautos. Sou um daqueles personagens retratados nos cartuns, alheios ao mundo ao derredor, que não enxergam outra coisa que não sejam as coisas que vão sendo exibidas no diminuto espaço da tela de seu celular. Uma das minhas razões deste navegar constante é a vontade que tenho de ver antigos e novos trabalhos de desenhistas. Achei há tempos um espaço virtual, o Tinta China, que mostra cartuns e cartunistas, um blog dos pampas que é bom às pampas. E quando estava fuçando, esmiuçando tudo o que via, me deparei com um cartum meu que me valeu há alguns anos premiação no Salão de Humor de Piracicaba. Não tenho hábito de mandar regularmente cartuns para Salões. Falta-me empenho, organização, disciplina e mesmo interesse. Mas um dia resolvi participar e mandei o desenho que ilustra esta postagem, um cartum que foge da temática política tradicional e brinca com um dos grandes grilos que frequentam a cabeça dos homens desde a era das cavernas quando os pitecantropos se engalfinhavam dizendo que seu tacape era bem maior que o do cara da caverna ao lado. Para minha sorte, o júri do Salão era simpático e era competente. Resultou que me premiaram.
No Grafar não há postagens recentes, mas o blog pode ser acessado para quem curte os bons cartuns e cartunistas. Lá há trabalhos muito legais do Canini, uma fera, e feras outras tais como LF Veríssimo, Quino, Jaguar, Edgar Vasques e um mundão de cartunistas gaúchos e não gaúchos, incluindo ate mesmo um genuíno baiano, tal como sou. Para acessar o Grafar e se deliciar com os cartuns que lá se encontram, clique aqui: http://grafar.blogspot.com/
Boas risadas, tchês!
(161209)

04 dezembro 2019

Paris e as mulheres francesas estão em chamas / U Sexu nu mundo 7

        Os franceses sempre deram mostras de possuírem imensos poderes de inventividade e provaram isso apresentando ao mundo la guillotinele crêpe Suzette, le Cancan, la canetê Bic e la Dominique-nique-nique. No entanto, das suas grandes invenções as mais conhecidas são mesmo o beijo francês, o vinho francês, o pão francês e a saída à francesa. A essa última nós, brasileiros, devemos muito do nosso desenvolvimento econômico e social. A História registra que em 1807, na iminência de ter o reino português invadido pelas tropas de Napoleão Bonaparte, o príncipe regente D. João deu uma passativa no beligerante gaulês se picando com toda sua corte para o Brasil, o que foi bom para nosso progresso pátrio. Resumo da ópera: o regente D. João, autêntico português, saiu à francesa. E como os franceses não tiveram o cuidado de patentear essa sua notável invenção, os lusitanos jamais lhes pagaram um escudo, um franco, nem um euro de royalties por ela. Quanto ao quesito sexual, os compatriotas de Sade não ficam atrás. Quer dizer, ficam atrás, ficam na frente, ficam de ladinho, ficam por cima, ficam por baixo, ficam em todas as posições imagináveis e inimagináveis, essas com maior frequência. É fato notório que foram tambem os franceses que inventaram o soutien, feito para ser desvestido beeem devagarinho pelas mulheres, deixando qualquer sujeito, francês ou não, mais doidão e piradão que qualquer aldrabão que se crê Napoleão. Inventaram também o beijo sur le cou - que não é o que você está pensando - e ainda o rendez-vous, o faire minette, o ménage à trois e, é claro, o já mencionado famoso e popular beijo francês. Esse amplo e invejável curriculum vitae confere aos franceses uma grande importância e prestígio, sexualmente falando. Mas é preciso levar em conta algumas particularidades. Caso esteja pensando em ir para a cama com algum ou alguma compatriota de Asterix e Obelix e você é uma pessoa ortodoxa no quesito higiene pessoal, é bom ir com um certo cuidado. É que, procedente ou não, rola por aí um enorme buxixo afirmando que o único banho diário praticado pelos inventivos franceses, é o banho de língua. 
(291210)

02 dezembro 2019

Che Guevara e Bienvenido Granda na Bahia, os cartunistas Cedraz, Nildão, o ICBA.

Nestas fotografias dos anos 70s, preclaros leitores, mister se faz esclarecer unas cositas. Na foto mais acima, um barbudo esconde as mãos de forma suspeita, como se ocultasse uma arma. Santo Dios! Será que se trata do lendário guerrilheiro platino-cubano Che Guevara em incógnita visita à Bahia naquela incendiária década? Na foto central, este cara todo saradão, com bigode de cantor de bolero, será el cantante Bienvenido Granda em soteropolitanos dias? Em caso de identificação positiva, de que estariam tratando Che e Bienvenido naquela animada confabulação da foto número 3? A derrubada do governo militar no Brasil? A construção de uma gravadora especializada em músicas genuinamente latino-americanas sem dinheiro no bolso e sem parentes importantes? Nada disso, gentes, estas fotos todas eu surripiei do blog do Gutemberg Cruz, precisamente de sua série "A hora e a vez dos quadrinhos baianos". Blog maravilhoso, diga-se, para os fãs das HQs, cartuns e caricaturas onde Guto trata do assunto com seu conhecimento de causa, sendo apaixonado, dedicado e competente ao abordar tais temáticas. E para não prolongar o suspense, vou revelando: o evento fotografado é uma soteropolitana exposição de cartuns e quadrinhos lá pelo ano de 76 no Instituto Cultural Brasil-Alemanha, o ICBA, que sempre nos abriu as portas. Ali na foto número 1, o barbudo não é o Chê, é o cartunista e multimídia Josanildo Dias de Lacerda. Ah, suas ilustres pessoinhas acham que não conhecem?! Aí eu lhes pego de jeito, dizendo que esse Josanildo é o amado e idolatrado cartunista, irreverente poeta haikainiano e criativo designer gráfico Nildão, que vocês muito bem conhecem. Pois é, o mesmo Nildão, hoje todo clean, mas que já teve um dia este guevarístico visual como comprova a foto e ele não pode negar mesmo se o quisesse, coisa dos anos setentas. Na fotografia número 2 não se trata de Bienvenido Granda, que era, por razões óbvias, apodado de El bigode cantante. Trata-se, na verdade, do sempre festejado mestre dos quadrinhos Antonio Cedraz, criador do personagem Xaxado e todo um universo de personagens brasileiríssimos. Quem diria, Cedraz já foi, em pretéritos tempos, um galã do tipo machão latino como bem se pode ver, um autêntico Antônio Banderas sertanejo. No papo entre ambos o assunto era, inexoravelmente, os rumos dos quadrinhos e cartuns na Bahia, no Brasil e no mundo. Para mais aprofundados saberes, vai aqui o link pro blog do Guto: http://blogdogutemberg.blogspot.com/
(07/03/14)

Aquarela, sketchbook, família e Clarice Lispector.

Alguns artistas não abrem mão de levarem consigo, onde quer que forem, um providencial caderninho, com o fito de fazerem anotações diversas, sendo um valioso auxiliar. É ali que, por exemplo, compositores, escritores e redatores soem anotar ideias que lhes surgem sem hora marcada nem prévio aviso. Se não anotam...puff! Essas ideias se vão e se perdem por aí, sabe lá Deus para onde elas vão. Desenhistas e pintores também costumam utilizar frequentemente seus caderninhos, atualmente rebatizados com um termo da língua inglesa, sketchbook, o que lhes garante uma importância maior nesse país de infindáveis aculturamentos. Nos meus diversos caderninhos há um monte de desenhos que jamais publiquei. São só estudos, divagações gráficas que podem servir de base para novos trabalhos de desenho ou pintura. Entre tais estudos, está este aí em cima, feito em aquarela bem manchada. Manchas à mancheia, como diria o vate. A temática surgiu inspirada em uma velha foto no meu álbum de família e, por isso mesmo, sempre que revejo, me vem à mente Clarice Lispector e eu acabo sentindo, qual ela, uma imensa saudade de mim.
(04/07/14)

23 novembro 2019

O dia em que Joel Santana foi à final com o Bahia e avisou: vocês vão ter que me ingerir!.

No ano de 2013 Joel Santana é chamado para socorrer o EC Bahia que não vinha nada bem,  recebendo do então presidente do tricolor um lote de jogadores que muitos tinham na conta de refugos, e a missão impossível de levar aquele bando à final do Baianão. A crônica esportiva baiana o espinafra impiedosamente antes mesmo que ele assuma, taxando-o de superado, enganador e inveterado bebedor de etílicos. Papai Joel pega seu laptop, digo, pega sua prancheta, reúne o elenco do qual dispunha, dá uma guaribada e vai à luta. Sua estrela brilha como sempre brilhou, e ele, contrariando a expectativa da mídia, leva aquele quase time à final contra o então forte e entrosado time do EC Vitória - já considerado o virtual campeão - para desespero de seus críticos mais ferrenhos que agora teriam que aturar Joetílico goela abaixo bem mais tempo que planejavam. Ganhar do afinado Leão aí já seria uma outra história, uma tarefa hercúlea, mas o importante é que Papai Joel colocou mesmo o sofrível time do Tricolor de Aço na decisão do título.
Acompanho resenhas esportivas desde pequeno, é mais que um hábito, é quase um vício que não consigo evitar, mesmo sendo claro para mim que cronistas esportivos, com raras, aliás, raríssimas exceções, não podem nunca serem levadas a sério - isso vale para cronistas de todo o Brasil - sendo pessoas que, acomodados em confortáveis assentos em um estúdio com ar acondicionado ou numa cabine de rádio ou TV, nas mesas redondas ou resenhas vivem se colocando na posição de verdadeiros PHDs em Ciência Futebolística Superior e Supremos Analistas dos Mais intrincados Esquemas Táticos. Com indisfarçável e gigantesca presunção, do seu refúgio seguro sugerem que entendem de futebol mais do que qualquer técnico em atividade, dando a si próprios uma importância que não possuem. E não vamos nem falar dos constantes e lamentáveis atentados que, mesmo os que dizem ter curso superior, cometem contra o vernáculo pátrio, nem - ainda pior - as ligações espúrias, nunca assumidas, que muitos mantém com cartolas suspeitíssimos. Cronistas que tais não gostam nem um pouqinho de serem contestados, fazem do microfone uma metralhadora inclemente contra quem os conteste. Mas, com o devido respeito aos bons profissionais - sou amigo pessoal de alguns - a lógica diz que se este fantástico conhecimento do futebol que arrotam fosse mesmo verdadeiro, procedente, qualquer um desses comentaristas mandaria as críticas injustificadas e os insultos que haveria de receber às favas e não hesitaria em assumir sem medo o cargo de professor em um clube de porte do nosso futebol ou mesmo dos States, da China, do Japão, onde iria ganhar em um único mês o que ele, como cronista esportivo, levaria dez anos para ganhar, numa área onde há enorme concorrência, podendo sempre aparecer um outro grande e incontestável gênio dos comentários oferecendo-se para ocupar seu lugar na equipe esportiva em troca de uma merreca. Como este conhecimento que pensam que possuem é coisa só da boca para fora, é só teórico e sem maiores fundamentos, estes pavões dos microfones, aboletados em suas cabines ou estúdios de TV cheios de empáfia vivem emitindo críticas sobre os que de fato são verdadeiramente talhados para o ofício, como Papai Joel, um mais que notável colecionador de títulos por diversos dos maiores clubes do Brasil, um vencedor incontestável com seu invejável histórico de conquistas. E - para aumentar ainda mais as já grandes dores de cotovelos - um garoto-propaganda de renomadas marcas, muitíssimo bem remunerado que, com enorme simpatia, faz até mesmo de seu Inglês-algaravia uma esplendorosa fonte extra de renda que brota de todos os lados, frondzé midôu, frondzé léfite, frondzé ráite. O resto é mesmo um grande e indisfarçável recalque geral, pura inveja, o que para mim explica a bronca que essa turma tem de Papai Joel e de qualquer outro consagrado técnico que alcance o sucesso em sua atividade.
(08/05/13)

20 novembro 2019

Olodum e Timbalada em duas pinturas de Paulo Setúbal..

Quando comecei a pintar, usava sempre a tinta a óleo. Ao longo dos séculos artistas de todo este orbe usaram toneladas desta tinta para pintar seus quadros, expressar o que traziam dentro de suas artísticas almas e, se Minerva lhes sorrisse, alcançar fama, reconhecimento, admiração e respeito do mundo, como sucedeu com caras feito Da Vinci e Picasso.. E, quem sabe ainda, amealhar uma considerável quantidade do dito vil metal. Por isso ou por aquilo, quase todos os artistas plásticos que eu conhecia utilizavam este tipo de material e eu acabei por também adotá-lo. Gostava de pintar com óleo, sim, gostava do prazer táctil contido no pincel deslizando pela tela com suas cerdas carregadas da oleosa tinta. Sentir em minhas narinas o cheiro do óleo me era prazeiroso, mesmo sabendo da toxidade contida neste material que, segundo livros diversos, teria ocasionado grande mal à saúde - e depois a morte - do mais famoso e admirado pintor brasileiro de todos os tempos, Cândido Portinari. Não foi isso que me fez mudar, foi só o fato de eu haver um dia experimentado pintar com a tinta acrílica, uma tinta que se dilui com água, a boa e velha água, dispensando-se o uso de diluentes como terebentina, óleo de linhaça, aguarrás ou até querosene, alternativas utilizadas por diversos colegas pintores. Só este detalhe já me livrava da grande lambança que fazia ao utilizar a tinta a óleo. Depois que experimentei pintar com a tinta acrílica optei por trabalhar sempre com ela. Gosto das tonalidades e do resultado final e uso para pintar quadros que vendo aos que gostam do meu estilo e a colecionadores. Também uso para fazer algumas ilustrações para revistas, livros, jornais. O resultado me traz enorme satisfação.Gosto de variar minha temática e sinto prazer em pintar temas ligados à Bahia, esta terra tão linda, terra onde nasci. Abaixo, dois trabalhos que pintei sobre tela, utilizando a formidável tinta acrílica para mostrar minha paixão por esta afro-city chamada Soterópolis ou Roma Negra ou simplesmente Salvador, capital da Bahia. 
MÚSICOS DO OLODUM, esboço com lápis B, pintura com tinta acrílica sobre tela, tamanho 22 x 20 cm.
JOGADOR, esboço com lápis B, pintura com tinta acrílica sobre tela tamanho 22 x 20 cm.
(271118)

Caetano Veloso, bandas de pífanos e pipocas modernas

Quem é do sul, sudeste e centro-oeste, enfim, quem não é do nordeste, talvez desconheça, mas estes aí acima são músicos que compõem bandas do interior baiano e de várias regiões do nordeste brasileiro, sempre cheio de apaixonantes alternativas culturais. São as bandas de pífanos. Ou pífaros como chamam outros. Há tempos, Caetano Veloso os descobriu e fez com que este Brasil que não conhece o Brasil, passasse a identificar e  admirar tais grupos. Com seu talento, o mano Caetano colocou letra em uma melodia de uma deles, a Banda de Pífanos de Caruaru, em uma canção batizada de "Pipoca moderna". Aí desanoiteceu a manhã e tudo mudou. Em homenagem a algo tão vivo e forte em nossa cultura popular, esbocei nesta tela com lápis 2B, cobri com massa acrílica e depois sapequei a velha e boa tinta acrílica. Pintura pronta, fotografei e usei uma lasquinha de Photoshop para postar aqui. Viva o sempre inspirado e atento e criativo Caê. E vivam as maravilhosas bandas de pífanos que nos brindam com seu som tão limpo, tão puro, tão genuinamente brasileiro.
(130410)

16 novembro 2019

Sérgio Rês, o Moço do Coração de Pastel, e a Velha Jovem Guarda

Todos sabemos que hoje em dia Sérgio Rês é um consagrado cantor mas que é também um criador de gado e um dos mais abastados fazendeiros deste país. No entanto, no começo de sua carreira bovino-musical teve que comer o pastel que o diabo amassou. Ou melhor, teve que se virar vendendo pastel nas feiras livres para ganhar algum tutu. Até que Rês levava uma certa vantagem pois sendo muito alto sobressaía-se na multidão com seu tabuleiro na cabeça e isto auxiliava no sucesso da vendagem. O imaginativo cantante ainda por cima criou um jingle para seu produto que dizia "Se você pensa que meu coração é um pastel, não vá mordendo, pois não é!" Um cliente seu, que era dono de uma gravadora, gostou do que ouviu e contratou Sérgio Reis para seu cast. O resultado foi o que todos já sabemos: o sucesso chegou trazendo muito dinheiro, o cara virou dono de muito gado e político cheio da grana. Gosta muitíssimo da política e de seus rebanhos e tanto gosta que, como político, parece não enxergar muita diferença entre gado e gente. Atualmente Sérgio Reis ainda gosta de saborear um bom pastel. Desde, que fique bem claro, que o recheio esteja à altura de seu atual status, o que significa que o dito recheio tem que ser de lagosta, faisão ou caviar Beluga de ovas advindas das gélidas águas do Volga ou mesmo as do Esturjão Siberiano do Lago Baukar, trazidas do distante Tutuquistão do Norte.
(100512)

Mortinha, o Queijinho de Minas, e a Velha Jovem Guarda


Oriunda da terra do heróico Tiradentes, a cantante Mortinha era carinhosamente epitetada de O queijinho de Minas. Este cognome, a um só tempo singelo e carinhoso, fazia menção às origens mineiras da guapa moçoila e rendeu uma enorme polêmica, tudo porque sabido era que Mortinha, O queijinho de Minas, costumava pisar nos palcos para cantar vestindo generosas minissaias que, se não chegavam a deixar à mostra o triângulo mineiro da moçoila, ao menos revelavam um mui bem torneado, invejável e cobiçável par de coxas, sendo que era trajada dessa capitosa forma que a mocetona se apresentava no programa "É uma brasa, mora!", do qual o Rei da Jovem Guarda, Roberto Calos, era o apresentador nas jovens tarde de domingo. E a alardeada polêmica teria surgido do fato de que RC nunca escondeu de ninguém - e até propagava aos quatro ventos - que adorava degustar com avidez todos os tipos de laticínios e gostosuras imagináveis oriundos de Minas Gerais, regalando-se com tais delícias e ainda lambendo os seus reais beiços cantantes.
(10/05/12)

Wanderley Caridoso, o Bom rapaz, e a Velha Jovem Guarda

Desde que era ainda um bebê, Wanderley Caridoso já demonstrava toda sua formidável bondade, e sempre dividia sua mamadeira com outros pequerruchos, entre um gugu-dadá e outro. Ele era mesmo uma boa alma, um sujeito generoso para com todos, jamais desmerecendo o sobrenome que tinha. Tão bom ele sempre foi que acabou por isso ganhando o apelido de O Bom rapaz. Vai daí, todos os anjinhos do céu se uniram e fizeram com que ele se tornasse um cantor famoso, bem sucedido e cheio de dindim em sua conta bancária. Quando o sucesso na carreira e a grana chegaram ao fim, WC tinha que fazer alguma coisa. E fez, e fez: colocou à venda o único bem material que lhe sobrara, uma pilha daqueles velhos e enormes discos de vinil chamados longplays ou LPs, todos eles com seus antigos hits que ficaram encalhados. Ninguém desconfiava, mas o desespero do Bom rapaz era tanto que ele tinha o abominável propósito de comprar uma pistola automática e com ela dar cabo da sua própria vida. Para dar um toque melodramático de filme de Almodóvar, o infausto gesto se daria sob o som de um dos seus encalhados  e empoeirados discos tocando na velha vitrola: "Parece que eu sabia que hoje era o dia de tudo terminar...". Felizmente para o bom WC, ninguém aguentava mais ouvir aquelas suas cantilenas e ele não conseguiu a notável façanha de vender sequer um único dos seus encalhados e bem empoeirados discos, deixando de amealhar algum tutu com o qual pretendia consumar seu nefasto propósito de comprar a arma fatal, o que o forçou a desistir do seu lamentável intento macabro. Foi então que a sorte voltou a sorrir para Wanderley, que acabou fazendo um enorme sucesso com Doce de Coco. Não, não se trata da açucarada canção, mas sim da açucarada, famosa e sempre apreciada cocadinha da Bahia, uma iguaria da melhor qualidade que Caridoso, valendo-se de uma receita que uma sua namorada baiana lhe passara, começou a produzir e a comercializar, logrando dar a volta por cima, voltando ao topo das paradas de sucesso, já não mais como cantante,mas como um mui bem sucedido empresário do ramo alimentício.
(100512)

A dupla OS VIPS e A Volta do ié-ié-ié / Quem é quem na Velha Jovem Guarda 7

Apesar do nome assaz pomposo desta dupla musical, Os Vips não tiveram vida farta nem conheceram mordomia no início de suas carreiras artísticas e tinham - qual Sua Majestade RC - de trabalhar em longa e exaustiva jornada dupla. Depois de passarem as noites nos bailes da vida cantando em troca de pão, os dois brothers enchiam um cesto enorme com os pábulos que recebiam como parte do cachê e levavam tudo para uma pequena lanchonete que abriram a duras penas no bairro de Santana, em Sampa. Sempre ralando muito, mal acabavam de fazer um show corriam à lanchonete e, enfrentando o cansaço da pós-apresentação, recheavam no maior capricho os tais pães e vendiam seus deliciosos sanduíches a uma fiel clientela que foi aumentando mais e mais a cada dia. A dupla, harmoniosamente afinada tanto nos palcos quanto na economia, não gostava de esbanjar e eles não abriam as mãos nem para acenar para as fãs durante suas apresentações preferindo, os notáveis irmãos lanchonéticos-musicais, guardarem o lucro auferido em uma poupança comum que ia ficando mais e mais polpuda a cada dia enquanto, felizes com a musicalidade do tilintar das moedas, os manos cantantes entoavam "Estou guardando o que há de bom em mim..."
(19/09/13)