24 maio 2026

Lage, Nildão, Setúbal, Zé Vieira, Alexandre Dumas, cartuns.

Aqui neste afrotorrão chamado Bahia, Lage, Nildão e eu, por um bom tempo formamos um inseparável trio, tipo os três mosqueteiros do cartum, um time coeso, como permite entrever esta caricatura aí em cima. O quarto mosqueteiro, o D'Artagnan, era o indômito Zé Vieira com seu bigodinho que lhe dava o irretocável phisique du rôle. Sucede que Zé Vieira, um belo - ou seria triste? - dia deu uma solene banana ao universo cartunístico, botou na praça um tremendo escritório de arquitetura que logo encheu-se de afortunados clientes, graças ao talento arquitetoso do rapaz, e desta forma ele - merecidamente, diga-se - tornou-se um argentário dos mais abastados pois foi sempre o mais sabido de todos nós nestas questões com l'argentainda que não fosse um mercenário, longe, bem longe disso. O problema com Zé Vieira era que um ofídio dos mais peçonhentos costumava aninhar-se nos bolsos das suas calças e ele, a precaução em pessoa, ali não metia sua mãozinha com medo de levar uma mordida letal e vai daí que em bares, restaurantes e botecos que frequentávamos jamais víamos a cor do dinheirinho de tão precavido confrade. Diz a chamada sabedoria popular que dinheiro poupado é dinheiro ganho e que de tostão em tostão se faz um milhão. Se verdade houver em tais frases, Zé Vieira certamente acumulou alguns milhões só com o que economizou graças à sua justificada precaução contra mordeduras de ofídios, notadamente certas variedades de letais mambas negras que soem se aninhar em bolsos e bolsas de alguns incautos. Não sei se o hoje abastado Zé Vieira sente algum frêmito de saudade dos tempos em que cartunava e quadrinhava, ele que sempre foi um cara que criava verdadeiras maravilhas, tanto no texto quanto no desenho. E há que ser dito que, de quebra, Zé Vieira sempre foi um dos mais substanciais e agradáveis papos dessa Bahia com h. Ali pelos hoje um tanto distante anos 80s do século anterior, como que inspirado por Alexandre Dumas nosso grupo cartunístico sempre primou pelo conceito de amizade mesclada com lealdade. Poderíamos mesmo empunhar nossos lápis, à guisa de espadas mosqueteiras, erguê-los fazendo tocar no alto suas pontas e, parafraseando os personagens de Monsieur Dumas, bradar alto, a uma só voz: "Um por todos e todos por um, em defesa do Reino do Cartum".