02 abril 2022

O dia em que o cartunista Valtério Sales saiu do armário e botou pra quebrar.

 Como é de habitude, os dias de estio da Bahia soem ser iluminados, plenos de risos, festas, confraternizações amistosas sob o sol à beira da praia, papos profundos regados à cerveja e roskas de frutas as mais diversas. Antes, bem antes que as águas de malço deem as caras fechando o verão, há uma enorme promessa de vida no meu coração e nos corações das gentes que por aqui habitam. Ou que por aqui aportam, como é o caso deste retumbante e maravilhoso trio de ilustres paraenses, estimados amigos meus que decidiram passar uns dias sob o convidativo sol desta afrocity chamada Soterópolis, que vem a ser a afrocapital da Bahia, e que em dias recentes nos visitaram nestas plagas. Refiro-me a Biratan Porto e J. Bosco, consagrados cartunistas e caricaturistas brilhantes, e a Luiz Fernando Carvalho, estudioso apaixonado do universo cartunístico, sendo ainda uma batelada de coisas mais. Pois estes intimoratos conterrâneos da Fafá de Belém, da Gaby Amaranto e do Pinduca planejaram com antecedência sua viagem e estadia, hospedando-se em um confortável flat em Itapuã. Também de forma antecipada ligaram cientificando a mim e ao cartunista e escultor Valtério Sales, por sermos seus amigos de longa data. No dia e hora da chegada, Valtério – estreando uma nova bengala toda feita em madeira de lei - foi buscá-los, transportando-os para o flat. Não demorou muito e cheguei eu. Reencontrar amigos do peito como Bira, Bosco e Luiz Fernando é sempre uma renovada alegria, sentimento em muito ampliado quando Bira anunciou que nos traziam uma mala cheia de regalos, dentre eles, para o Valtério, uma caixa da famosa bebida paraense que chamam de cachaça de jambu, uma cachaça que cachaça não é, segundo os dicionários, reservando eles esta denominação às bebidas feitas com cana de açúcar. Ocorre que, cachaça ou não cachaça, esta bebida é famosa por ter características exclusivas dela, tais como um barato que dá, seguido de uma dormência nos lábios, língua e céu da boca. Valtério, que já a experimentara em outras oportunidades, arregalou os olhos e chegou a flutuar, tal era sua felicidade. 
Muito embora este meu papo trate sobre gentes e acontecimentos da Bahia e do Pará, vou encaixar aqui um tremendo gauchão, o analista de Bagé, personagem criado por outro Luís Fernando, o escritor filho de Érico Veríssimo. Entre um joelhaço e outro em seus pacientes, o analista afirma, sem admitir réplica, que não existe gaúcho homossexual, o que existe nos pampas são correntes migratórias. Falo isso porque na Bahia não existem larápios, gatunos, ladravazes e rapaces. Mas volta e meia surgem por aqui umas correntes migratórias de maus elementos, oriundos de sei lá quais rincões, para nos turvar os dias mais solares. Pois uma dupla destas entendeu de dar plantão justamente no flat em que estávamos, assaltando eles todos os apartamentos e seus ocupantes. Precisamente ali, onde nos encontrávamos papeando na maior descontração, bebendo umas geladíssimas. J.Bosco, sedento, fora na cozinha pegar mais umas cervejotas na geladeira e viu os dois amigos do alheio armados com duas automáticas. Por sorte os meliantes não o viram, e ele conseguiu nos dar o alarme. Além de cartunistas, somos todos machos que honram as calças e as samba-canções que vestimos e fizemos o que era imperativo fazer, já que este negócio de valentia tem hora e o bom senso nos alerta que em momentos de desvantagem como o que se anunciou, o ato mais corajoso, racional e sensato a ser feito é tratar de se esconder o melhor e o mais rápido possível. Assim, Luiz Fernando, que tem físico de lutador de sumô, pulou, qual um acróbata, dentro de um grande baú que servia de decoração. Eu, Bosco e Bira, nos enfiamos céleres debaixo da cama e Valtério, na falta de um esconderijo melhor, entocou-se no armário. Não demorou e a dupla entrou no quarto e começou a mexer na bagagem dos nossos amigos. E nós - ai de nós! - todos silentes e sem mexer um músculo, nem respirar. Os sujeitos exultavam, colocando em um saco tudo de valor que encontravam, celulares, relógios, laptops, chave do carro, CDs do Pablo dos quais JBosco jamais se separa. De repente, um dos larápios comemorou em voz alta um achado precioso: “Mermão, olha só este tesouro: cachaça de jambu, vinda de Belém do Pará, meu rei!!” 
Dentro do armário, um anjo soprou no ouvido de Valtério uma verdade drástica: se ele não tomasse uma atitude iria ficar sem sua caixa de preciosíssimas cachaças de jambu, que iriam adormecer os beiços do maléfico duo de aves de rapina. Incontinenti, sem pensar nas consequências de seus atos, sem ligar para as armas mortais dos marginais, qual um tigre Valtério saiu do armário de um só salto e brandindo sua bengala de madeira de lei deu certeiras e potentíssimas porretadas nas cucas das ladravazes criaturas, que caíram no chão, estatelados, sem sequer saberem o que os acertou, sem terem noção da chapa da jamanta que passou por cima deles. Com os bandidos totalmente fora de combate, minha coragem aumentou em muito, bem como a do resto da trupe e deixamos nossos esconderijos sem maiores constrangimentos. Na sequência, chegou a justa numa muito escura viatura. Assombrados com o estado em que ficaram os bandidos, os homi os levaram, ainda nocauteados, para a DP. A nenhum de nós Valtério soube explicar direito o que aconteceu. Porém dúvidas não restam: ele agiu movido por um impulso incontrolável ao perceber que ficaria sem seu néctar dos deuses, o jambu engarrafado que tão gentis amigos trouxeram do Pará. Os dias vão passando, passando, e nada da gente esquecer da cena daquele inacreditável massacre que sofreram os indigitados marginais. Na minha memória, na de Bira, Bosco e Luiz Fernando, testemunhas daqueles momentos, o acontecido ficou perenemente registrado, gravado de forma indelével como o dia em que, mostrando uma faceta que até então desconhecíamos em tão cordato amigo, Valtério Sales saiu do armário e entrou para a História.
(120219)

31 março 2022

Bola de Nieve, um artista maior de Cuba / Uns caras que eu amo 7

Ignacio Jacinto Villa Fernández. Se você sair por aí perguntando quem conhece esse grande pianista, cantor e compositor cubano, certamente ouvirá sonoras negativas. Mas se a pergunta for “você conhece Bola de Nieve?”, sempre haverá os mais atentos que dirão conhecer. Bola de Nieve era o apodo dado a Ignacio Jacinto. Com ele acabou virando uma lenda de uma música de alta qualidade produzida em Cuba, que findou por apaixonar gente de todo esse planeta azulzinho. Caetano Veloso gravou canções desse grande artista cubano que sua mãe, Dona Canô, cantava para ele em sua infância, e volta e meia se refere a ele elogiosamente. Pedro Almodóvar, cujos filmes primam também pelas belíssimas trilhas sonoras, incluiu a voz única de Bola de Nieve em pelo menos duas de suas películas de sucesso, La ley del deseo (Déjame recordar) e La flor de mi secreto (Ay amor), sendo que nesse último uma frase da linda composição de Bola de Nieve integra-se ao roteiro ao ser citada por um dos personagens da trama. Tempos houve em que as canções cubanas reinavam soberanas entre os amantes da música mundo afora. Orquestras, bandas, cantores, cantoras, percussionistas, pianistas e instrumentistas diversos interpretavam mambos, rumbas, salsas, chachachás, boleros e outras maravilhas sonoras. Bola de Nieve tornou-se um mito cantando divinamente e, além do Espanhol, cantava em Português, Francês, Inglês, Italiano e até em Catalão. Seus dotes eram muitos e com eles encantava plateias mundo afora. Cantava bonito e interpretava com alma as suas canções nesses idiomas diversos, tocava piano de forma linda e bem pessoal, conversava com o púbico com empatia. E compunha canções que adentraram a História da música popular cubana e se perpetuaram. Mister se faz dizer que Bola de Nieve teve que lutar duramente contra obstáculos difíceis em sua trajetória artística, como o racismo e a homofobia. Mas sua genialidade visível na sua maneira pessoal, apaixonada e única e até teatral, de tocar o piano e interpretar canções, acabou por prevalecer e músicas que compôs ou que interpretou se perpetuaram gritando bem alto o seu talento difícil de ser igualado. No seu repertório há uma vasta quantidade de tesouros, entre tantos, para nosso orgulho pátrio, está a canção Faixa de Cetim, do carioquíssimo mineiro Ary Barroso. Dos inúmeros sucessos de Bola de Nieve vale citar canções como La Flor de la canela, Ay amor, Drume negrita, No me comprendes, Ne me quitte pas, La vie en Rose, Dejame recordar, Vete de mi, Ay Mama Inés. Fácil, muito fácil amar a Arte maior de Bola de Nieve.
No vídeo abaixo, veja quão genial é este cantante, musicante e compositante cubano, aqui interpretando uma deliciosa canção que fala de um caprino inconsequente que rompeu o tambor de um homem do povo, privando-o de seu imprescindível instrumento musical, gerando fortes sentimentos de vingança por parte do sujeito que cogita cobrar bem caro o malfeito arrancando o couro do indigitado caprino. Grande, grande Bola de Nieve.
(02/09/16)

30 março 2022

O dia triste em que comi Alcione, a marrom

 
Pindorama, além de ser o nome indígena desta Terra Brasilis, é também o topônimo que designa uma mui aprazível cidade da hinterlândia paulista. Foi dali que vieram sumidades do porte de Raduan Nassar e Marilena Chauí. Era lá que, ainda um niño de Jesus, eu vivia uma vidinha pacata ao lado dos meus amáveis genitores e irmãos. Meu pai se afastara do emprego para um longo e necessário tratamento de sua debilitada saúde e passava os dias em casa procurando ocupar seu tempo com leituras e escritos. E volta e meia inventava uma nova ocupação. A mais recente era um pequeno galinheiro que ele houvera por bem colocar no fundo do nosso amplo quintal de casa interiorana. Passei a ajudá-lo no trato com as penosas que me atraíram desde a chegada. Trazia-lhes milho, água, ração, remédios. Tão apegado a elas fiquei que decidi dar-lhes nomes da forma com que se faz aos animais de estimação. Como elas cantassem bonito, batizei cada uma com nomes de cantoras de minha preferência, Wanderléa, Vanusa, Martinha, numa sincera homenagem nascida de minha mente sem malícias de inocente infante. Minha predileta entre as preferidas era uma bem mais rechonchuda que todas as outras e que tinha porte de rainha ao caminhar no terreiro. Por ter sua plumagem num lindo tom marrom e por seu canto poderoso, dei-lhe o nome de Alcione. Seu reino, poleiro e terreiro. Ali ela agitava suas brilhantes asas marrons e cacarejava de afinadíssima forma. Uma belezura! Eis que um dia anunciou-se pelos corredores da casa a vinda de um irmão de meu pai, tio Dario, que morava em Bauru e vinha nos visitar aproveitando o feriadão gerado pelo carnaval que se aproximava. Na véspera da chegada de meu tio, mamãe anunciou que ia matar umas galinhas para um lauto almoço de boas-vindas ao ilustre visitante. Meu coração disparou. "A Alcione, não! A Alcione, não, mamãe!" . Todos riram da minha aflição. Mas o que eu temia aconteceu e minhas preferidas terminaram seus cacarejantes dias em grandes panelas a meio de uma infinidade de cebolas, alho, cebolinha picada e congêneres. Lacrimoso, inconsolável, jurei a mim mesmo não tocar nos pratos feitos com minhas amigas. Chegado o momento do ágape o aroma dos guisados e assados invadiu minhas narinas de petiz, enfeitiçando-me. Minha mãe tinha mãos divinas ao cozinhar. Em uma travessa percebi aquelas coxas maiores e mais atraentes que as outras. Eram de Alcione, eu sabia. Com gestos mecânicos puxei a travessa e servi-me generosamente do peito e das coxas. Quase em transe, dispensei os talheres e sem ligar para o preclaro visitante, enfiei meus dedos naquele peito macio e cheiroso e o levei à boca ansiosa. Ah!, prazer dos prazeres! Meus olhos então se fixaram nas coxas de Alcione. Coxas belas, roliças, de maravilhosa cor dourada e capitoso olor. Caí de boca de forma descontrolada. E novamente minha língua passeou naquelas carnes divinas. Simplesmente delirante. O apetite saciado me trouxe de volta à realidade. Caí em mim e incontinenti percebi a grave traição em que eu incorrera com aquela descontrolada e quase antropofágica conduta. Saí da mesa correndo para que não pudessem notar minhas copiosas lágrimas. Era emoção demais para meus verdes anos de vida. Em um só dia conheci os inesquecíveis prazeres da carne, vindos das coxas macias, do peito aveludado de Alcione, a marrom. Desolado descobri que sou um fraco nas minhas convicções e que oscarwildeanamente resisto a tudo, tudo. Menos a uma tentação.
(230514)

25 março 2022

O cartunista Biratan, o escultor Valtério e Setúbal na Ilha do Fogo .

Quando morei em Juazeiro, na Bahia, muito frequentei a Ilha do Fogo, fluvial ínsula situada bem no meio do largo Rio São Francisco, sobre a qual foi construído a quilométrica ponte Presidente Dutra. Lugar mais que aprazível, lá ia eu tentar meus tímidos mergulhos, tomar cerveja, comer surubim e ficar jiboiando nas areias claras sob o sol. Ali ciceroneei diversos amigos que lá iam me visitar e conhecer a cidade onde nasceram João Gilberto e Ivete Sangalo. Por diversas vezes recebi uma admirável dupla, o premiadíssimo cartunista paraense Biratan Porto, com seu bigode à la Nietzsche, e o perfulgente escultor baiano Valtério Sales, dileto filho de Ruy Barbosa -  refiro-me, é claro, à cidade, não ao famoso Águia de Haia em pessoa. Na Ilha do Fogo, em meio aos frequentadores habituais, gente do povo,  nos abancávamos os três em uma barraca improvisada e assim protegidos do causticante sol da região bebíamos alguns magotes de gélidas cervejotas e deitávamos falação sobre tudo e tantos. Ali, naquele espaço popular,  plenos da mais certíssima certeza, discutíamos os rumos desta nação auriverde, execrávamos seus corruptos, articulávamos maneiras de com nossas artes salvar de trágicos destinos o explorado e sacrificado povo brasileiro. Para nossa sempre renovada surpresa, sem prévio aviso, Valtério Sales livrava-se de sua bermuda jeans e, trajando uma sunguinha rosa-shocking de lycra, vistosa e despudoradamente sumária - porém preservando e mesmo esbanjando a mais viril das virilidades - nos mostrava ser ele um autêntico Johnny Weismuller redivivo.  Intimorato, com vigorosas braçadas, Valtério cruzava a todo instante as fortíssimas correntezas do São Francisco com elegância e raro destemor. Lépido e radiante, eis que Valtério mergulhava na Ilha do Fogo e ia dar lá em Petrolina. Sem descansar, célere, mergulhava em Petrolina e vinha dar novamente na Ilha do Fogo. Num átimo mergulhava de uma pedra qualquer da Ilha e ia dar lá em Juazeiro. Isto se repetia até o raiar do sol, ele mergulhando em um lugar para ir dar em outro, fazendo, com seus mergulhos, a alegria da garotada do lugar. O nobre Biratan Porto é testemunha de que o infatigável Valtério hoje morre de tristeza por saber que militares pernambucanos, talvez em comemoração aos 50 anos do golpe militar de 64, resolveram de forma reprochável proibir o acesso de moradores e civis em geral à Ilha do Fogo e destarte nosso amado escultor e cartunista está absurdamente impedido de ali, entre os ilhéus, exibir seu físico de Adonis, sua sunguinha rosa-shocking de lycra, sua invejável forma física e, pior ainda, Valtério vê tolhida sua arte aquática, sua álacre e assaz jubilosa prática de mergulhar em um recanto para ir mui alegremente dar em outro.  Lamentável, lamentável.
(060414)

Gutemberg Cruz, crítico de Histórias em Quadrinhos, falando sobre o SketchBook de Setúbal pela Editora Criativo.

Gutemberg Cruz e Gonçalo Junior, duas feras da imprensa, dois dos principais estudiosos e críticos das histórias em quadrinhos, são baianos. Para minha fortuna, ambos gostam de meu traço, de meus trabalhos como ilustrador, quadrinista, caricaturista e cartunista. Sorte minha. Esta semana, lendo o blog de Gutemberg Cruz, encontrei esta postagem em que ele comenta sobre o Sketchbook da Editora Criativo, de São Paulo, dedicado aos meus trabalhos de desenhista. A Carlos Rodrigues, da Criativo, a Gutemberg e a Gonçalo Junior meus mais sinceros agradecimentos.
Registro do artista gráfico Setúbal pela EDITORA CRIATIVO, de SP
Sketchbook é um caderno rascunho para registrar ideias e composições para posteriormente transformar em pinturas em telas ou usar outro suporte como papel e aquarela ou outro tipo de técnica. Alguns fazem os rascunhos e deixam dessa forma em cadernos. Servem para registrar a evolução do artista nos desenhos. E é isso o que a Editora Criativo está fazendo. Já lançou mais de 90 álbuns com os trabalhos de diversos artistas gráficos brasileiros.
O volume dedicado ao baiano Paulo Setúbal registrou o trabalho do artista com esboços e artes-finais em vários estágios, estilos e técnicas, tiradas de seu acervo pessoal, num flagrante não convencional de sua produção ao longo da carreira. O objetivo da coleção é formar uma grande galeria com os mais diversos estilos e traços, indo de nomes consagrados a iniciantes, incentivando o talento individual. Os álbuns têm acabamento com a qualidade, 64 páginas, papel off-set 150g, capas cartonadas com orelhas, no tamanho 21x28 cm, e mostram como cada profissional do desenho é um universo empírico e individualizado, seja ele um autodidata ou com formação acadêmica, havendo alguns pontos em comum na forma de criar e desenvolver os trabalhos.
Paulo Henrique Setúbal é cartunista, ilustrador, desenhista, argumentista, roteirista de quadrinhos, autor de textos de humor e artista plástico. Assina seus trabalhos como Paulo Setúbal ou simplesmente Setúbal. Nasceu na cidade de Candeias, na Bahia, onde viveu até os 9 anos de idade. Nesse período, as revistas de quadrinhos e o cinema eram suas grandes paixões, as primeiras inspirações e os elementos motivadores para seus primeiros desenhos. Buscando reproduzir o que via nas telonas e nos gibis, começou a desenhar e nunca mais parou. Quando seu pai, paulista de Pindorama, resolveu retornar para o interior de São Paulo, inicialmente, a família morou em Bauru por três anos. Pindorama, a terra natal do patriarca, foi o destino seguinte e ali viveram por dez anos. Com a morte do pai, a família mudou-se para a capital paulista.
 Em Sampa, disposto a fazer quadrinhos profissionalmente, buscou todas as informações possíveis a respeito dessa arte. Essa busca o levou a procurar o desenhista e editor Minami Keizi, que lhe indicou o também desenhista Ignacio Justo, de quem recebeu inúmeras e valiosas orientações que muito o ajudaram a fazer evoluir o seu desenho. Pensando em aprimorar-se, passou a cursar a Escola Panamericana de Artes, embora seu aprendizado tenha, em sua maior parte, acontecido mesmo de forma empírica.
Passando a residir em Salvador, iniciou a colaborar profissionalmente com jornais e revistas da imprensa baiana. Nela, trabalhou por mais de duas décadas, produzindo charges, caricaturas, cartuns, tiras, histórias em quadrinhos, pôsteres e ilustrações. Fez ilustrações para dezenas de livros de autores diversos. Como cartunista e caricaturista, colaborou com a imprensa alternativa, participou de diversas exposições coletivas e individuais, tendo também participado de Salões de Humor, havendo sido premiado no Salão Internacional de Humor de Piracicaba. Atuando como artista plástico, fez igualmente diversas exposições, coletivas e individuais, tendo sido premiado por duas vezes com suas pinturas em Salões da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Tem telas adquiridas por colecionadores da Espanha, Portugal, França, Espanha e Itália, entre outros países do mundo.
Sobre o artista, comenta o pesquisador Gonçalo Júnior: “Setúbal é original, dono de um traço único, singular, personalíssimo. Ao mesmo tempo, traz em sua arte todo o sincretismo de raças, credos e ícones da cultura baiana e nordestina – tento de Salvador quanto do interior. Como o cordel e a xilogravura. Desde o começo de sua carreira, que ganhou ênfase nas páginas do jornal A Tarde, até a produção mais recente, Setúbal tem demonstrado talento tanto para a caricatura e o cartum como para a ilustração, para a imprensa e capas de livros e a história em quadrinhos – linguagem próximas, porém com características próprias”.
Mais informações sobre o artista, leia:
SETÚBAL: “Desenhar, para mim, é abraçar o mundo e a mim mesmo”

                   QUEM SOU Eu 
     GUTEMBERG CRUZ
Jornalista profissional formado pela Escola de Biblioteconomia e Comunicação da UFBa em 1979. Registro Profissional DRT-BA 761. Atuou nos jornais Tribuna da Bahia, Diário de Notícias, Correio da Bahia, A Tarde e Bahia Hoje como repórter, redator e Editor de Cultura. Atuou ainda na Rádio Cruzeiro da Bahia (repórter), Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (gerente de produção), TV Itapuã (produtor) e rádios Piatã e Bandeirantes (produtor de programas). Atualmente exerce a função de Coordenador de Comunicação na União dos Municípios da Bahia.

12 março 2022

O cineasta Jim Jarmusch, o músico e cantor Screamin Jay Hawkin, Rock'n roll e Cinema.

Sou sabedor do elevado nível de inteligência e de conhecimentos gerais de vocês, preclaros leitores desse bloguito. Ainda assim, intuo que ao indagar se algum de vocês conhece ou já ouviu falar de um cara chamado Jalacy, um sonoro “não” será unânime. Talvez ajude um pouco se eu disser que Jalacy Hawkins era um negro norte-americano nascido em 18 de julho de 1929 em Cleveland, Ohio, USA. Mas a coisa seguramente mudará de figura se eu disser que Jalacy era músico de talento e cantor, idem, idem, e que ele usava o nome artístico de Jay Hawkins. Jay marcou a cena musical ianque, notadamente o rock’n roll, sendo um dos construtores desse estilo de música que é muito mais antigo do que podem imaginar os roqueiros mais aficionados, tendo esse dito estilo musical surgido da cultura negra, mantendo grandes analogias com o blues e outros ritmos negros, em que pese o fato de – Chuck Berry à parte - que os maiores ídolos sempre foram brancos, como Elvis, Jerry Lee Lewis, Bill Halley, todos muito talentosos, e outros mais, que é que se pode esperar em uma sociedade de supremacia branca. Jay era incrivelmente bom e inovador, tendo criado um estilo personalíssimo que findou por influenciar grandes estrelas do rock contemporâneo que são amados por fãs adolescentes que nos quatro cantos do mundo se descabelam por esses seus ídolos. Quem conhece e admira o canto e as interpretações de Janis Joplin, certamente reconhecerá em seu estilo intenso e vibrante a influência enorme de Hawkins. Quando cantava, Jay sabia usar sua expressividade de ator, assim, uma das suas características marcantes era uma interpretação de grande intensidade em que ele emitia gritos e grunhidos para fazer chegar, sem desvios, aos que o viam e ouviam, a sua força interior. Tão marcante isso era que ele ganhou um sugestivo aditivo em seu nome, sendo conhecido como Screamin Jay Hawkins. Ele foi um ator com considerável filmografia, já que mandava muito bem diante das câmeras. Muito boa, lúdica e profundamente divertida, é a sua atuação em Mistery Train, de 1989, bela película dirigida pelo criativamente inusitado Jim Jarmusch. O filme pode ser encontrado acessando-se o Youtube, se as coisas não mudarem enquanto faço esta postagem. O áudio é original, vez que Jarmusch exige que os áudios originais de seus filmes sejam mantidos para exibições em qualquer país, descartando o uso de dublagens. A cópia que vi tinha legendas em Italiano, o que certamente pode ajudar a compreender os diálogos originais, principalmente na parte em que dois jovens atores japoneses - um casal apaixonado por rock n'roll - dizem suas falas usando seu idioma pátrio. Uma das músicas de Screamin Jay, I put a spell on you, tornou-se um clássico e tem ótimas regravações, sobressaindo-se a versão arrasadora gravada pela não menos arrasadora Nina Simone. Esta antológica interpretação de Nina dá o clima exato a uma cena dramática do filme A balada de Jack e Rose - de Rebecca Miller, com Daniel Day-Lewis e Camilla Belle - em que a protagonista, uma adolescente às voltas com paixões marcantes, o florescer de sua sexualidade e com emoções delicadas de se lidar, tem seus longos cabelos cortados em uma sequência que vai mostrando as madeixas caindo em câmara lenta ao som da voz de Nina entoando a música de Screamin. Garimpem este belo filme de Jim Jarmusch, Mistery train, no Youtube ou em outro sítio da web, e deliciem-se com esse vídeo, vendo e ouvindo o grande, o magnífico, o inigualável Screamin Jay Hawkins.

11 março 2022

Cinema: Jim Jamusch e Mistery Train, um tesouro disponível no YouTube.

Arte e deleite estão sempre muito bem combinados nos filmes de Jim Jarmusch, cineasta norte-americano que, entre outras cositas, optou conscientemente por abrir mão de ganhos milionários dos produtores de filmes de Hollywood, preferindo ser livre em suas criações, seguindo, com as próprias pernas e mente, a trilha do cinema dito independente, desatrelado aos ditames dos bigshots hollywodianos, o que o salvou de ser apenas mais um cineasta fazedor de parte dessas toneladas de  filmes previsíveis que há décadas seguem fórmulas manjadas que lhes garantem substanciais lucros nas bilheterias dos cinemas do mundo. Melhor para o público do chamado cinema de arte, que pode se deliciar vendo Jarmusch imprimir sua criatividade nos seus belos e instigantes filmes. Uma outra coisa, nascida das idiossincrasias de Jim, é que o cara não permite que filmes seus sejam exibidos dublados em país nenhum, exigindo que seja mantido o áudio original de cada um de seus trabalhos fílmicos. Não tenho notícia de outro cineasta e produtor que aja assim, principalmente sendo um ianque. Essa semana, procurando no Youtube algum vídeo mostrando o incrível músico e ator Screamin Jay Hawkins, terminei encontrando um filme no qual ele participa, atuando com brilho, justamente sob a batuta de Jim Jarmusch. Trata-se de Mistery Train, rodado em1989, que se apossa bem a propósito do nome da canção que um dia Elvis Presley gravou, e que integra a bela trilha sonora do filme. Um trem chegando e partindo conduz personagens, colocando-os e retirando-os de cena. Em seus passos pelas ruas de uma Memphis, cidade do Tennessee, urbe famosa por haver sido local de morada do Rei do Rock, esses personagens deparam-se com a realidade de uma cidade que viu ficar para trás seus faustosos dias de glória, em que abrigava grandes astros da música, inclusive The King, Elvis. A câmera de Jim mostra uma Memphis que agora exibe um melancólico aspecto desgastado, muitos prédios em ruínas, já bastante castigada pelo tempo e pelas mudanças nesse mundo, mundo, vasto mundo moderno. Em certa medida, é possível fazer alguma analogia com Anônimo Veneziano, filme italiano de 1970, em que Salerno, seu diretor, faz uso de imagens de uma Veneza decompondo-se, decadente, servindo de paralelo para narrar a história de um amor que se esvai, marcado por um trágico e inevitável destino reservado ao par romântico da trama. Em Mistery train, lançando mão de uma trilha sonora recheada de rocks, baladas e blues, com direito à doce Blue Moon, Ray Parkins, Jerry Lee Lewis e Roy Orbison, Jarmusch nos conduz por quatro histórias que ao princípio parecem separadas, independentes, com cada personagem vivendo seus sonhos, frustrações, angústias e dramas pessoais. Mas Jarmusch é Jarmusch e nos prepara surpresas com sua câmera, ora parada, ora se deslocando lentamente, enfocando bares, lanchonetes e hotéis em tomadas que lembram quadros pintados por Edward Hopper, pintor ianque que em suas telas congela momentos insólitos, em cenas que exibem ambientes plenos de solidão e mistérios. Sempre se valendo de bons parceiros, nesse Mistery Train Jim conta, como em diversas outras películas suas, com a participação de notáveis, tais como Steve Buscemi e John Lurie. Dois atores japoneses estão muito bem como o jovem casal nipônico que vem a Memphis realizar o sonho de suas adolescências, que é vivenciar o mesmo ambiente que seus ídolos musicais dos anos sessenta, como Elvis, viveram boa parte de suas vidas, incluindo aí cenas do lado externo da lendária Graceland, hábitat em que vivia The Pelvis. Voltando a essa lenda do rock, Screamin Jay Hawkins, o músico e ator, com seu vistoso blazer e gravata vermelhos, está impagável como o recepcionista do Arcade Hotel, em que se passa a maioria das ações do filme, atuando ao lado de Cinqué Lee, irmão de Spike Lee. Fiquem sabendo vocês, leitores fiéis, essa jóia cinematográfica é encontrável gratuitamente no Youtube que, entre tantas midiotices postadas por um magote de gente de cérebro, digamos, pouco brilhante, nos presenteia com tesouros como esse e outros filmes de Jim Jarmusch.
(060917)

08 março 2022

Jim Jarmusch, Coffee and cigarrettes, claquetes e muita fumaça.

Humanos prazeres são por vezes de difícil entendimento e aceitação para os que deles não desfrutam. Mas não há como negar o intenso e inebriante deleite que se adivinha por trás das expressões oriundas das faces daqueles viventes que fazem do hábito de desfrutar um cigarro depois de um café – e de um café antes do cigarro – um ritual sagrado, inadiável, inigualável, único para essa galera. Um turbilhão de prazeres nascendo de momento que aparenta ser de total banalidade, um vício saudável, diriam tais rubiaceasófanos e tabagísticos viventes. Jim Jarmusch, um dos meus cineastas norte-americanos de estimação, aborda, no mais colorido dos pretos e brancos, essa temática em seu Coffee and cigarrettes, filme lançado nos EUA em 2003. Nele, Jim vale-se de sua câmera e de uns poucos planos, de diálogos inteligentes, aparentemente despretensiosos, sempre oscilando entre o prosaico e o nonsense, ditos com propriedade pelas bocas de atores expressivos, que dominam o seu ofício de atuar. Mesmo os que como eu não fumam, nem bebem café com a sofreguidão dos personagens, certamente se regozijarão com as interpretações de astros como Roberto Benigni, Iggy Pop, Tom Waits, Bill Murray e tantos mais. Jarmusch capta o momento íntimo e aparentemente banal, em que personagens dividem seus cafés e cigarros sobre mesas cobertas com indefectíveis toalhas quadriculadas, e aí ele mistura ficção com realidade, vez que os atores entram em cena assumindo serem-se as pessoas que de fato são na dita vida real, atores mais que consagrados e, no entanto, seguindo o script escrito por Jarmusch, dizem coisas e vivem situações nas quais mostram um incômodo arsenal de defeitos de caráter, comportamentos desabilitados de figurar em manuais de boa conduta, em que pitadas de prepotência, arrogância, maledicência e desdém entram em cena, ao lado de ingenuidade, de simplicidade, da boa-fé, de sentimentos edificantes. Uau! O resultado é que isso evidencia um humor sutil, raro, pouco encontrável nas telinhas e telonas do mundo, os diálogos são divertidos, especialmente os protagonizados por Murray, Iggy e Waits. Molina e Coogan. La donna è móbile e a internet é ainda bem mais, então quem quiser assistir, encontrará, ao menos por ora, o filme no Youtube, com áudio em Inglês e legendas em espanhol. Eu, que um dia haverei de ser um poliglota, tiro de letra e assisto de boas, que dirá você, meu scholar leitor.
(09/06/18)

07 março 2022

O Brasil no traço do maravilhoso Percy Lau


Aqui neste bloguito já postei um texto-exaltação em que me alonguei tecendo loas ao estupendo desenhista Percy Lau, uma das minhas maiores paixões pictóricas. Os desenhos acima mostram o porquê. Nascido no ano de 1903 em Arequipa, no Peru, Percy mudou-se para o Brasil em 1921, ou seja, ao 18 anos, certamente com a alma transbordante de sonhos, que em nosso país ele soube tornar realidade.  Aqui ele se naturalizou e com seu talento raro transformou-se em um dos maiores brasileiros que esta terra encontrada por Cabral já teve a honra de conhecer. Sua obra marcou profunda e positivamente minha infância. E certamente marcou também a de milhões de brazucas que tiveram a felicidade de ver os deslumbrantes bicos-de-pena que Percy fazia para o IBGE e eram reproduzidos nos didáticos livros de Geografia adotados pelas escolas da Pátria. Bicos-de-pena de deixar qualquer um boquiaberto, feitos com o apoio de um belíssimo e preciso trabalho fotográfico, mostram aos brasileiros como era - e em muitos aspectos ainda é - o nosso Brasil do Oiapoque ao Chuí. Quem leu tais livros para aprender coisas sobre nossa Pátria, foi além disso pois viu a cara exata de nosso Brasil, um Brasil mostrado por inteiro, traduzido pelos olhos, mãos e coração de um artista com alma verdeamarelaazulebranca a quem devemos reverenciar eternamente, 
(06/12/14)

21 fevereiro 2022

Cartunistas que optam pelo fascismo, o escritor João Ubaldo Ribeiro, o golpe de 2016 e a verdade apunhalada..


Tenho alguns amigos em alta conta, estimo-os, a eles dedico sincero e desmedido afeto. Que imenso iceberg de tristeza toca minh'alma quando qualquer um deles me revela suas concepções políticas com argumentos oriundos de noticiários de revistas e mídias asquerosamente falaciosas tal como a revista Veja, que já teve dias melhores nos tempos dos Civittas, mas sempre fez opção pelos mais ricos, privilegiados e poderosos, categoria em que se inserem. Esses amigos aos quais me refiro, também costumam cultivar o nada salutar hábito de beberem sofregamente na fontes envenenadas da Rede Globo, JN e GloboNews, comentários da nada digerível de Miriam Leitão. A Rede Globo, sabemos todos muito bem, é propriedade 
da mafiosíssima famiglia Marinho, sendo um dos maiores mananciais de desinformação -e, não raramente, até de fakenews - deste patropi, e de deplorável manipulação dos fatos, sempre ocultando, sonegando ou distorcendo informações por interesses escusos. Recentemente veio à tona a participaçào direta dos Marinhos/ Rede Globo na conspiração em atos de lesa-Pátria feitos sordidamente em cumplicidade com certos juízes, procuradores, CIA e FBI, coisa de estarrecer. Tal conspiracionismo possibilitou o golpe de 2016, uma sabotagem contra a democracia brasileira que colocara no poder um partido ligado ao trabalhismo, coisa que os ricos, os privilegiados e os manipulados soem abominar. 
Voltando aos referidos amigos meus, quando alguns deles me fazem indagações sobre a atual política, partindo do lixo plantado em suas cabeças que creem iluminadas, eles o fazem munidos de absurdas inverdades e vão, convictos, despejando cachoeiras de sofismas ao usarem como argumento as falaciosas acusações veiculadas pelos ditos "órgãos de imprensa", assim com aspas mesmo, por serem valhacoutos de gentes que, a troco de polpudos numerários, lançam mão das mais desonestas falácias, dos mais aberrantes textos putativos e apócrifos para convencer os incautos de que o que dizem e pregam é a expressão da verdade. Desta forma, os citados amigos, nivelam-se àqueles que não podendo frequentar escolas, cresceram profundamente alienados. Disse que sigo gostando desses amigos e gosto muito por qualidades que possuem, mas diante dessas derrapadas diminuíram em muito no conceito que deles eu tinha anteriormente, constrange-me vê-los acomodados - e em péssima companhia - numa canoa furada. Para se aboletar em tão perfurada embarcação, só mesmo quem não é dotado de poder de discernimento, ou quem desconhece a História e as tenebrosas malfeitorias dos mafiosos Marinhos et caterva, com seus envolvimentos, digamos, suspeitosos com a abjeta ditadura militar brasileira de triste memória para quem não engrossa o cordão do autoritarismo. Lamentável é dizer que por aqui não faltam multidões de estultos e de escrotos que glorifiquem essa infame ditadura e que bradem pelo retorno de tão infaustos dias. Fui me tornando um cartunista por admirar o talento, a consciência, a lucidez e a coragem dos meus ídolos do cartum, gigantes como Millôr, Ziraldo, Henfil, Jaguar, Angeli, Laerte. Cartunistas sempre se caracterizaram por mostrarem em seus cartuns grande consciência social e política, desnudando o rei ante seus súditos, por livrar a cara dos desvalidos, dos injustiçados, dos que foram colocados à margem da sociedade. Mas atualmente é espantoso constatar que muitos e muitos que se entitulam cartunistas, de uma forma lamentável pautam seus cartuns, charges diárias e caricaturas pelo conteúdo veiculado pelas mídias mais falaciosas, contribuindo para induzir a um equivocado entendimento dos fatos a nossa população, por mais absurdo que isto possa soar. Dia desses meu amigo Santiago, genial cartunista gaúcho, publicou texto em sua rede social mostrando uma charge torpe de um velho desenhista que publicava na extinta revista Mad, em sua versão brasileira. Fiquei estarrecido ao constatar que o cara concebe e veicula ideias absurdamente fascistas 
 através de seus desenhos que, diga-se, são bons desenhos,  ainda que visivelmente calcados nos de Mort Drucker. As charges que vi deste cara são um poço de ódios, de visão deturpada dos atos e fatos e de preconceitos abjetos, coisa aberrante. Pior é saber que ele não está só, que outros usam o humor para caminhar de braços dados com o obscurantismo como vergonhosamente o fizeram, durante a construção do golpe de 2016, uns caricaturistas da supracitada Veja. 
Voltando às fontes, elas têm fundamental importância na formação dos nossos pensamentos, escolhas, postura política e social. Daí a importância de saber se a fonte em que você bebe é salutar, confiável, ou se é venenosa. Pensar o Brasil, buscar entendê-lo em suas minúncias, seus mistérios, mazelas, tesouros ocultos, males entranhados desde antanho, acertos e descaminhos, não é tarefa fácil como querem muitos precipitados em seus julgamentos levianos e superficiais alimentados pelas falácias ditas em TVs e revistas pertencentes a grupos mancomunados com os sórdidos que nos empurram goela abaixo suas torpezas. É necessário que usemos de cautela e que busquemos ler e ouvir o que dizem as pessoas idôneas com uma história de vida comprovadamente confiável. Gente cônscia, de grande inteligência, que conhece a nacão em seus mais intrincados pormenores, gente de ilibado proceder, que nos fale com clareza as palavras que possam nos conscientizar e nos livrar das mentiras convenientes aos arrivistas e venais, que beneficiem a todos com a verdade dos fatos. Como as encontráveis nos textos do respeitabilíssimo escritor e cartunista Luís Fernando Veríssimo, por exemplo. Ou como as do consagrado escritor João Ubaldo Ribeiro que estão neste texto direto em que ele discorre sobre as chamadas ''reformas de base'', esclarecedor, lúcido, acima dos conceitos ideológicos de esquerda e direita, em uma crônica intitulada "Se reformarem, é para pior", que é encontrável na internet, da qual repassarei, em futura postagem, trechos do que pensou e escreveu JUR a respeito do assunto. Mas já adianto aqui e agora o link para que vocês possam ler na íntegra o que o notável autor de "Viva o povo brasileiro" escreveu - para meu espanto e vergonhoso ceticismo - prenunciando golpe que se deu no ano de 2016, mas que poderia ter rolado antes ou mesmo depois, de acordo com a vontade e os interesses dos que se arvoram a serem donos do Brazil-zil-zil. Não porque fosse JUR uma pitonisa, apenas porque era um homem culto e muito bem informado que conhecia profundamente o Brasil, seu povo, suas eltes, sua História. 
Clique no link:
 http://academia.org.br/artigos/se-reformarem-e-para-piorar
( 03/04/15)

11 fevereiro 2022

Affonso Manta, Ruy Espinheira Filho e a poesia.

Para vocês, perfulgentes,  amantíssimos e mui líricos leitores, vai aqui uma poesia que o vate Affonso Manta escreveu e dedicou ao confrade e amigo, o inspirado poeta Ruy Espinheira Filho, também baiano, que por sua vez era admirador do magnífico fabro poético que era Manta. Nela, Affonso define o que é poesia para ele, poeta em tempo integral


A Poesia
Para Ruy Espinheira Filho

A poesia tem os olhos inocentes.

Inocentes de saberem tudo.
A poesia nos envolve
Como o silêncio do tempo que passa.
A poesia é um pássaro branco
Voando na velocidade da luz.
A poesia embriaga como o vinho.
E nos mantém vivos como o ar.
A poesia é um rio imenso,
Um rio que deságua no infinito.
A poesia é um mar profundo.
Profundo como o mistério da vida.

(161013)

Affonso Manta: um girassol entre os dentes do poeta.

Para o deleite de vocês, leitores de fino trato, vai aqui mais uma dose dos capitosos versos de Affonso Manta, poeta da Bahia, para que todos possam perceber que, além de Gregório de Mattos e Castro Alves, há uma poesia baiana luxuosamente inspirada porém ainda inédita para a maioria das gentes deste país tropical bonito por natureza que, ainda que os fatos insistam em nos contradizer, insistimos em alardear que é um patropi abençoá por Dê. 
O Louco
Enlouqueci, um girassol nasceu na minha boca.
Os pássaros já estão fazendo ninho
Atrás da minha orelha.
Enlouqueci, o azul explodiu em fevereiro.
Vou conhecer Londres no meu bergantim de pirata.
As ruas são-me passarela para bailar.
Não me conheceis, transeuntes?
Não me conheceis, moça de olhos calmos
Do último andar do edifício?
Sou o Louco.
Prometi as chuvas do mês passado.
Prometi as árvores.
Prometi os vinhos.
Prometi este intenso azul de fevereiro.
Faço promessas maravilhosas.
E vede que se cumprem.
Abram as portas.
Chamem vossos filhos.
Chamem vossas noivas.
Os garotos vão rir de mim.
Por acaso, não quereis que as vossas noivas se divirtam?
Não há quem não ache graça
Do meu aspecto excessivo de profeta.
Convidem todo mundo.
Trago uma flor no bolso de dentro do paletó
Para ofertar ao sorriso mais inocente da cidade.
Não tenham medo.
Não faço mal a ninguém.
Sou o Louco.
 

(150314))

Affonso Manta, e seus versos. A poesia é imortal, imorredouro é o poeta.

 
E já que falei no poeta Affonso Manta e já que postei uma poesia de sua lavra, posto aqui outra que boa poesia nunca é demais. A morte levou Manta deste mundo mas antes disso a Indesejada das Gentes ouviu do vate - amante das coisas belas e boas da vida - que ele não iria desinteressado do seu destino, que partiria muito a contragosto. .
Não desejo morrer
Não desejo morrer enquanto houver
No céu estrelas brancas cintilando,
Na manhã clara um pássaro cantando,
Na cama um corpo airoso de mulher.
Não desejo morrer hora nenhuma
E sobretudo no instante presente.
Eu desejo ficar para semente
Carpindo minhas dores uma a uma.
(161013)

05 fevereiro 2022

Merchandising Divina / Frases do Barão de Itararé 4

"A estrela de Belém 
foi o primeiro
anúncio luminoso."
(Já dizia Aparício Torelly, o Barão de Itararé)
(20/10/16)

03 janeiro 2022

Uma poesia de Affonso Manta

Sempre é bom lembrar que a poesia maravilhosa de Castro Alves não é a única bela poesia que se faz nesta afroterra. Há por exemplo um poeta cujos versos sempre me enchem de prazer a cada releitura. Seu nome, Affonso Manta, bardo nascido em Salvador e que bem cedo foi morar em Poções, pequena cidade da hinterlândia baiana. Vejam só que beleza estes versos:
JOB
Eu só tenho de meu a noite e o dia
E a tarde quando morre no poente.
Do banquete da vida estou ausente
Frequento as alamedas da agonia.
Eu só tenho de meu o sol e a lua
E o jardim que contemplo da varanda
E as meninas que brincam de ciranda
No silêncio geral da minha rua.
(171110)

01 janeiro 2022

Gal Costa. Divina, maravilhosa. Ontem. Hoje. Sempre.


 

Affonso Manta, poeta: masoquista light

Para o dulcíssimo deleite dos meus mais lirísticos leitores já postei aqui alguns dos versos pra lá de criativos e irreverentes do mui inspirado poeta baiano Affonso Manta para mostrar a vocês que a boa poesia baiana vai muito além do consagradíssimo vate Castro Alves. Navegando nas info-ondas da internet, pesquisando com acuro, achei estes outros versos de Manta, com sutil toque sadomasô, que são uma rara delícia para encantar os mais refinados paladares. Bon appétit.
Pisciana
Celeste é meio indócil, mas serena.
De gênio calmo. Mas de amor fogoso.
Ela me dá felicidade plena
E surra de cipó de fedegoso.
(161013)

31 dezembro 2021

Affonso Manta, um poeta maior da Bahia

A mais inquestionável das verdades, fúlgido e resplandecente leitor, é que nascer aqui, nesta afroterra chamada Bahia, é nascer poeta. Eu próprio - confesso prenhe de justificável orgulho - com notável frequência sinto em mim o borbulhar do gênio e aí, a torto e a direito, dou minhas cacetadas poéticas cujo refinado e sutil lirismo fariam babar o gauche e alcalóidico Drummond, o criativo e multifacetado Fernando Pessoa, o esverdeante Lorca, o pasargástico Bandeira e tantos inspirados vates mais. Se uso pseudônimo quando isto ocorre, não é por vergonha e sim  pelo mais subido e nobre sentimento de invejável modéstia. Isto posto, gentes finas, já sabem: quando lhe pedirem para citar nomes de poetas baianos, não fiquem restritos ao magistral Castro Alves e seus condores abolicionistas ou a Gregório Boca do Inferno de Mattos e suas impudicas freirinhas. Mostre quão vasto é seu cabedal de conhecimentos, cite e declame esta deliciosa poesia que aqui posto em que Affonso Manta, talentoso bardo soteropolitano, se autodefine de irreverente maneira. Em 2003 o poeta Manta se foi deste mundo, mas sua poesia criativa, deliciosa e com um capitoso aroma de juventude permanece entre nós álacre, viva, muito bem viva. Leia e comprove.

Lá vai Affonso Manta
Com estrelas na testa de rapaz,
Com uma sede enorme na garganta,
Lá vai, lá vai, lá vai Affonso Manta
Pela rua lilás.
Coroa de alumínio sobre o crânio,
Lapelas enfeitadas de gerânios
E flechas no carcás.
Manto florido de madapolão,
Bengala marchetada de latão,
Desfila o marechal,
O rei da extravagância, o sem maldade,
O campeão de originalidade,
O peregrino astral.
(020314)