Robério Cordeiro é um cara que transita no desenho há décadas. Primeiro conheci seu trabalho de quadrinista e criador de personagens quando ele surgiu acompanhando Cedraz, este já um desenhista admirado, a quem Robério, jovem recém chegado lá das bandas de Jacobina, interior baiano, insistentemente chamava de senhor. Era um tal de "Seu Cedraz" prá lá e "Seu Cedraz" prá cá, coisa de se admirar, o respeitoso tratamento. O tempo passou, torcida brasileira, e como por aqui na Bahia não há muito espaço onde se publicar desenhos de quadrinhos, tiras e cartuns, Robério, ao invés de ficar chorando, sentado à beira do caminho, optou por colocar seu traço a serviço do IRDEB/BA, fazendo por lá toda sorte de trabalhos, desde ilustração para livros de teor didático, capas de CD, encartes e uma montanha de coisas onde cabe seu traço fino, sendo ele próprio um rapaz de finos traços. Qual um Wilson Gray, aquele ator brasileiro de ortodoxo visual, Robério Cordeiro atravessa a vida com a mesma cara de menino, o mesmo corpitio que tinha em adolescentes dias. Com o advento da informatização, Robério - hoje artisticamente maduro - ampliou seu universo, acrescentando ao seu cabedal o domínio do Photoshop e uma cacetada de programas outros que só fizeram aumentar a qualidade do trabalho desse artista gráfico baiano, que pode ser conferido nestes links aqui:http://www.roberiocordeiro.blogger.com.br http://www.flickr.com/photos/roberiocordeiro . Ah, sim, há também o link para o Portal do IRDEB/BA. Você clica aqui neste http://www.irdeb.ba.gov.br/ e lá acessa a Galeria de Imagens para ver algumas das mui belas criações do Robério Cordeiro.
"Ponciano de Azeredo Furtado, coronel de patente, de que tenho orgulho e faço alarde". Esta é a auto-apresentação de um dos mais apaixonantes personagens da literatura que tive o imenso prazer de conhecer. Saído da mente iluminada de José Cândido de Carvalho para as páginas de seu magistral romance "O coronel e o lobisomem", este maravilhoso Coronel Ponciano cativa, envolve, diverte, elucida, deslumbra e nunca mais se evade da memória de quem teve a ventura de ler o livro do brilhante escritor. Tão maravilhado sou pelo personagem que de quando em vez rabisco o papel tentando captar em um desenho - perdão, Poty, perdão! - o dito Ponciano na esperança, quem sabe, de que ele ganhe vida e que eu possa vê-lo inpersonaentrar em luta renhida contra onças gigantescas e vorazes, cobras de alta peçonha e de desmedida metragem, lobisomens sequiosos de carne humana e até contra o próprio diabo, o cão, o satanás, o coisa ruim. Sou mais o coronel!
Gordurinha,
cantor, compositor, humorista e radialista baiano, foi nome de sucesso em todo
o Brasil na chamada Época de Ouro do Rádio. Difícil, quase impossível, é alguém
da atual geração - tão bem servida de imagens oriundas de TVs, das câmeras
fotográficas digitais ou dos múltiplos artefatos eletrônicos que a qualquer
momento do dia filmam, gravam, registram imagens, divulgando-as, compartilhando-as
instantaneamente - acreditar que existiu um tempo em que eram os ouvidos, e não
os olhos, os condutores da arte e de toda e qualquer informação. Acontece, caros smartphonísticos mancebos e tabletísticas moçoilas, que as coisas já
foram assim em uma era que já era, a Era do Rádio. Nela brilharam artistas fantásticos,
entre eles o baiano Gordurinha, de tantos grandes hits populares, a exemplo de Baiano
burro nasce morto, composição solo sua, cantada em todo esse mulato
inzoneiro. Sua gravação de Mambo da
Cantareira, de Barbosa e Eloíde, fez enorme sucesso, sendo regravado em
tempos recentes pelo cantante Fagner. Uma composição sua, Oróra analfabeta, em parceria com Nascimento Gomes, é
sucesso até hoje, descrevendo encantos e desencantos de Oróra, uma dona boa lá de Cascadura que é uma boa criatura, mas que
escreve gato com J e escreve saudade com C e que, ainda por cima, afirma adorar uma feijoada compreta. De
Gordurinha é também a bela e tocante Súplica
cearense, feita em parceria com Nelinho, a divertida Caixa alta em Paris, a sensível Vendedor
de caranguejo. Mas o maior êxito popular de Gordurinha, certamente é sua
composição, Chiclete com banana. letra e música suas, ainda que oficialmente conste o nome de Almira Castilho, esposa e partner de Jackson do Pandeiro, como sua parceira na composição, o que - segundo consta - de fato não teria acontecido. O que sucedeu, de verdade, foi que a composição agradou em cheio, adentrando com estilo a História da MPB, eternizada que foi pela gravação dele, o venerado Jackson do Pandeiro, senhor do ritmo, mestre da
ginga e dono de uma maneira gostosa, única e inigualável de interpretar canções. Chicletecombanana é uma sacada perfeita de Gordurinha para definir o universo da nossa massificação cultural via United States, coisa que sempre nos assolou em diversas áreas de nossas artes. Se na época o sucesso da música foi enorme, o tempo que passou nos diz que ela segue sendo uma rica referência até os dias atuais, no que muito ajudou sua regravação por Gilberto Gil no disco Expresso 2222. O título da música foi usado para batizar a famosa banda de axé-music e a revista em quadrinhos do cartunista Angeli. Sua letra é uma declaração de amor à música do Brasil, uma
afirmação de carinho e apreço a tudo que temos de bom em nossa alma brasileira, um brado de resistência cultural diante da imposição das coisas made inUSA, notadamente o constante domínio exercido pelas gravadoras e ritmos norte-americanos sobre a nossa música, no caso, vinda de um ritmo chamado bebop. De forma clara e gostosamente bem-humorada, Gordurinha informa à industria musical ianque que antes, bem antes, de nos aculturarem, eles precisariam conhecer mais
profundamente, entender, respeitar e mesmo assimilar a música do Brasil, mandando-lhes um ritmado e irreverente recado: "Eu só boto bebop no meu samba,
quando o Tio Sam pegar no tamborim. Quando ele pegar no pandeiro e no zabumba e entender que o samba não é rumba"... E, concluindo, desafiador: "Eu quero ver o Tio Sam de frigideira numa batucada brasileira."
"Posso resistir a tudo. Menos à uma tentação." "Nada é mais necessário do que o supérfluo." "Quando eu era jovem pensava que o dinheiro era a coisa mais importante do mundo. Hoje eu tenho certeza!" Tais frases geniais recheadas de deliciosa ironia e um humor cortante mas refinadaço, saíram da cuca deste cara aí acima, o pensador, o escritor, o polêmico, o maldito, o maravilhosamente criativo Oscar Wilde, aqui mostrado nesta bela caricatura feita pelo caricaturista espanhol Pol Serra que ilustra maravilhas nas terras da Espanha. O link para o site dele é http://polserra.blogspot.com/ (280913)
Sem o habitual séquito de paparicadores e seguranças, Michael Jackson chega ao Céu, onde tem reserva garantida pois se o papa é pop, São Pedro é hiperpop. Um coral de anjinhos de olhos gázeos, fulvas e cacheadas melenas, todos desnudos como nas pinturas renascentistas vem receber com cânticos o novo habitante do sacrossanto empíreo. Ao vê-los, Michael não contém sua emoção: "Uau! Isto aqui é mesmo o Paraíso!!" São Pedro o recebe com igual entusiasmo mas não deixa barato a presença do popstar e encomenda logo de cara uma apresentação à altura do muso para louvar o Pai Celestial. Para tanto, convocam os percussionistas que já habitam por ali, na celeste morada. Ensaiam exaustivamente. Mas Michael sente que falta algo mais, um swing maior pra fazer o Paraíso vibrar com alegria no mais apoteótica dos shows. O criador do moonwalker procura São Pedro e diz que necessita de alguém para dar à grande festividade a aura perfulgente, a alma radiosa, a contagiante alegria rítmica que lhe falta. E segreda um nome ao ouvido do guardião dos Reinos do Céu. Inteirado do que Michael precisa, Pedrão cofia a barba hirsuta, medita e finalmente berra para um querubim que por ali vai passando: "Manakel, meu zifio... vai voando na Bahia, passa lá na sede do bloco Olodum e me traga urgente o Neguinho do Samba!" (10082013)
Numa de suas belas composições, Caetano Veloso – sempre um
sábio - asseverou que só se é possível filosofar em alemão. Para grande
parte dos brasileiros parece que só se é permitido cantar e gravar canções se elas
forem feitas em Inglês. Basta ver o repertório apresentado por calouros em
atuais programas das nossas TVs. E olha que isto já foi beeeeem pior, acreditem
vocês. Nos anos setentas, em quase toda sua totalidade, cantores brasileiros
foram sumariamente varridos das paradas de sucesso, programa de rádios, das TVs,
da mídia em geral deste patropi abençoá por Dê e boni por naturê, maquibelê! Só
se tocavam, só se escutavam, só eram divulgadas nas nossas mídias as músicas norte-americanas
e inglesas. E como o ditado versa que quando você não pode com um inimigo, deve
unir-se a ele, houve à época um acontecimento que vale a pena que nos
recordemos sempre, dado o inaudito e o irônico do fato. Um novo contingente de
gringos, nomes nunca dantes consagrados, sequer ouvidos até então, foi invadindo rádios e TVs tupiniquins,
sem esbarrar nas mesmas resistências às canções e aos cantantes brasileiros,
tocando, recebendo enorme consagração popular, integrando trilhas musicais de novelas,
vendendo toneladas de discos, ficando meses em paradas de sucesso. Estes
gringos, a bem da verdade eram "gringos", grafados assim, com aspas, por serem tão norte-americanos
e ingleses quanto você e eu. Em outras words, eram cantantesmade
in Brazil que acharam um jeitinho de fazer chegar a hora desta
gente bronzeada mostrar seu valor. Pois é, pois é, "norte-americanos" e
"ingleses" nascidos por aqui mesmo, já que eram cantores e
compositores brasileiros que, para burlar a aparentemente intransponível barreira erguida pelo
aculturamento, passaram a compor músicas no idioma de Bill Shakespeare e a adotar como pseudônimos uma lista de nomes de origem anglo-saxônica para dar
mais credibilidade, lembrando um recurso que cineastas e atores italianos
empregavam, à época, ao produzirem seus contestados spaghetti
westerns. Para completar, as capas de tais discos feitas de forma a parecer
que eram originalmente produzidos no exterior, e assim os nossos criativos “gringos”
iam conseguindo seu lugarunderthe sun. Ou seja, foi imprescindível essa bendita transgressão para que muitos
artistas brazucas conseguissem fazer sucesso. E que sucesso, que sucesso!
Nomes como Morris Albert, Terry Winter, Mark Davis, Tony Stevens, Steve Maclean
e Michael Sullivan, entre outros, que embalavam as festinhas adolescentes,
adentravam os lares, vendiam pilhas e pilhas de discos, ficavam meses nas
paradas de sucesso. E depois de conseguirem esta façanha, partiram para uma
maior, e começaram a figurar por largos tempos nas paradas de sucesso de
diversos países e a serem gravados e regravados por gringos, estes, sim,
autênticos. Morris Albert, por exemplo, teve sua composição
"Feelings" gravado por cantantes do mundo inteiro, incluindo os lendários Frank Sinatra e Elvis Presley, façanha que muitos grandes compositores ianques não lograram conseguir por mais que se empenhassem neste desiderato. Outros grandes astros e estrelas da
música norte-americana, como a grandiosa Nina Simone, também a gravaram. A lista de celebridades
a gravá-la é vastíssima, incluindo o supracitado Caetano Veloso, a diva Ella Fitzgerald e Barbra Streisand. No filme "Susie e os Baker Boys" a canção extrapola seu lugar na trilha sonora e invade o roteiro pois ela é o pomo da discórdia entre os
personagens da lindinha Michelle Pfeiffer e os brothers Jeff e Beau Bridges. Aliás a canção está em mais de uma centena de filmes, séries e novelas televisivas. Morris vendeu mais de 160 milhões de discos pelo planeta! Uau! Uau de novo! Ontem, ao rever "Entre Tenieblas", de Almodóvar,
percebi que uma das músicas utilizadas era "Dime", grande sucesso na Espanha. Nada mais que uma versão em
língua espanhola para "Feelings", de Morris Albert. Um dia, um juiz da
corte norte-americana afirmou em sentença que ao compor a música, Morris teria
plagiado uma antiga canção de nome "Pour toi", composta em
1956 pelo francês Loulou Gasté, canção essa gravada por Dario Moreno, que fazia
parte da trilha sonora do filmeLes
Feux aux podres.
Muita gente que opina concorda que há semelhanças,
notadamente nos acordes iniciais da canção, mas que elas não chegam a se
constituir em um plágio, discordando frontalmente do juiz, cuja sentença foi
amplamente favorável ao compositor francês já que, no entendimento do
maugistrado, Morris deve ser considerado apenas o autor da letra em Inglês, um
absurdo que configura um autêntico assalto jurídico adredemente consumado em um tribunal, e nós, brasileiros, sabemos
sobejamente o que é essa coisa de juízes tendenciosos, abjetamente parciais, que agem ao arrepio da lei atropelando a verdade, a decência, a honestidade e os pricípios mais basilares da Constituição e do Direito, em nada se importando com as consequências calamitosas que suas injustas decisões haverão de impor às vidas de terceiros.
Polêmicas jurídicas à parte, ''Feelings" tornou-se incontestavelmente um dos imortais clássicos mundiais da
canção graças ao talento de Maurício Alberto, nome verdadeiro de Morris, sendo
Maurício um cidadão brasileiro, um paulista que, nesse país tantas vezes tão surrealista, por força das circunstâncias, tornou-se certo dia um antológico e inolvidável cantor e compositor “gringo”.
Coisa impensável entre católicos praticantes e juramentados
é ir a Roma e não ver o Papa. Pois em verdade, em verdade vos digo, fiéis
leitores, que um cartunista autêntico ou um genuíno desenhista de histórias em
quadrinhos que preza seu ofício, em caso de visita a Belém do Pará, tem o
sagrado dever de ir ao estúdio de Biratan Porto, que é também seu lar, pedir a
benção ao piramidal cartunista. Se for contemplado com a indeclinável honraria
de ser convidado para tal visitação, é claro. Benção pedida e concedida, a
coisa não pára por aí, pois no larestúdio
do Biratan estando, sem que nenhum protocolo ou norma de etiqueta assim o
determine, o desenhista deve em determinado momento do papo, colocar-se ao lado
de um pôster com um desenho do incomparável, inigualável e insuperável Flavio
Colin, que Bira mantém em uma das paredes à guisa de decoração e homenagem ao
Mestre dos Mestres. Foi exatamente o que fiz, preclaros leitores. Mal troquei
algumas idéias com meu anfitrião e...catapimba! Lá fui eu, alegre e altaneiro,
posicionar-me ao lado do belo pôster de Colin, para ter uma foto minha
comprovando que vivi tão honroso momento. A pose não foi estudada, mas ao ver a
foto pronta, nota-se que nela, enquanto aponto orgulhoso a assinatura de Colin, seu personagem, o detetive Castro, ameaçadoramente aponta sua arma automática para meu
coração vagabundo que quer guardar o mundo em mim. Em contraponto, no alto,
enquanto toca um telefone, uma delicada mãozinha feminina vem sensualmente acarinhar
os meus cabelos longos e anelados, os quais costumo domar com toneladas de gel. Papeando depois com meu piramidalístico amigo, fico sabendo que essa
história de visitantes posarem ao lado do dito pôster é algo que jamais foi planejado,
sendo coisa que foi acontecendo natural e espontaneamente, e que aos poucos
parece que vai se transformando numa espécie de cultuada tradição entre os cartunistas
que visitam o larestúdio. Com o carisma e a popularidade de Biratan, não será surpresa se um dia esse ritual visitativo tiver um público comparável ao tradicional Círio de Nazaré.Ao Bira envio, aqui da Bahia, meus mais amistosos amplexos e os mais fraternais ósculos. Aproveito o ensejo e ilustro esta postagem com a
mencionada foto, que é para nenhum vivente, cartunista ou não, duvidar do meu marcante feito. Razão, muita razão, têm os meus amigos escritores Gonçalo Junior, Vitor Souza e Tom Figueiredo, quando propagam aos quatro ventos que eu não sou fraco, não! (14/12/2016)
A maior fera que já vi fazer caricaturas neste planeta azulzinho que habitamos é Loredano, o grande Cássio Loredano. E olhe que há gente muito boa caricaturando mundo afora. No Brasil esta sempre foi uma arte que nos brindou com talentosos artífices. Nas décadas mais recentes ampliou-se o número de caricaturistas notáveis, bons de traço e ideias. Muitos deles são virtuoses nos programas de computação e ali produzem caricaturas esplêndidas. Bom, é fato que se muitos caricaturistas brasileiros evoluíram no aspecto grafico, perderam na essência e estão fazendo um tipo de arte graficamente bonita, sim, mas com um conteúdo político deplorável, para dizer o mínimo. Em verdade, este é um mal que atualmente observado em um certo número de cartunistas e chargistas do Brasil, não se limitando aos caricaturistas deste patropi. Voltando a Cássio Loredano, tive
eu - Deus é bom - a grande fortuna de havê-lo conhecido em pessoa durante
uma exposição da Fiocruz, no Rio de Janeiro, há bem uns 20 anos. Bebericamos,
batemos um papo agradabilíssimo em mesa de bar entre outros amigos desenhantes tais como Amorim e Dil Márcio. E
me prestou Cássio uma prestimosa e assaz luxuosa assessoria para que eu
pudesse contar ao grupo de cartunistas uma piada sobre lusitanos, com o devido respeito, de maneira politicamente correta, sendo eu um cara respeitador das
soberanias nacionais, artigo tão escasso na atualidade. Pelo fato de Cassio Loredano haver morado em
Portugal, o acento português que reproduzia em suas falas era escorreito, mil
vezes melhor que o meu lusitano sotaque altamente canastrão. Vai daí que, com a caveira cheia dos
mais diversos e capitosos licores, eu ia contando a piada e nos
momentos em que nela havia a fala de um lusitano,
imediatamente eu repassava ao Loredano a incumbência de
repeti-la em voz alta aos demais, com o seu impecável sotaque luso, coisa de fazer babar
quaisquer Camões, Fernandos Pessoas ou Amálias Rodrigues. Nós e todo o grupo
ríamos às escâncaras, não pela piada em si, mas pelo nosso canhestromise-en-scène,
reforçado pelo fato da piada ser contada a quatro mãos. Ou duas vozes, sei
lá. Além de ser o gênio da caricatura que é, Cássio Loredano é umgentleman,
um cara bem humorado, de bem com a vida, cordato e, nem preciso dizer,
inteligentíssimo. Sempre admirei nele seu traço elegante e sua maneira única e
original de distorcer, quando o quer, as faces, os corpos de seus modelos e
fazer com seu traço mágico uma cirurgia desconstrutiva tal que algumas
vezes o nariz vai parar acima dos olhos - como no caso dos escritores Saramago
e Nelson Rodrigues aí em cima - sem que se perca a impressionante fidelidade ao
rosto, à personalidade do modelo. Os trabalhos aqui postados são antigos e você, leitor, valendo-se da internet poderá se deliciar com um mundo de desenhos loredanísticos outros. Hoje em dia há uma certa tendência das
revistas e jornais de só utilizarem vistosos desenhos supercoloridos,
executados em computadores nos mais hodiernos programas por aqueles artistas infovirtuosos supracitados. Os editores optam sempre pelas artes executadas através de programas de computaçào em detrimento dos trabalhos que seguem a linha mais tradicional. Mas Loredano - assim como faz Ziraldo e Shimamoto e tantos outros, e como o fazia o genial ilustrador Flavio Colin - usando na maioria das vezes apenas nanquim preto, prova que a verdadeira
genialidade está acima de modismos e tendências na ordem do dia. As
caricaturas de Cássio Loredano são um deleite, um colírio, um bálsamo para olhos e almas. Pela
Europa, onde ele já passou, morou e publicou, há um monte de seguidores seus. Lá, como
cá, quem sabe o que é bom fica fã incondicional das caricaturas exatas de
Loredano que, dentre tantos caricaturistas maravilhosos espalhados por este
imenso orbe, é aquele que mais me impressionou desde sempre. Axé procê, Cássio Loredano!
Quem pensa que pelo fato de vivermos numa ensolarada urbe nós, soteropolitanos, não somos chegados a uma rubiácea quentinha, em muito se engana. Apreciamos, apreciamos e muito, seja dia, seja noite, brasileiros somos. Só que ao invés de sorvermos o cafezinho nosso de cada dia em balcões de bares ou padarias apinhadas de gentes, como sói acontecer em São Paulo e no Rio de Janeiro, preferimos fazê-lo ao ar livre aproveitando uma boa brisa vinda do mar do Atlântico que fica logo ali na esquina. Nós não vamos ao cafezinho - que aqui chamamos carinhosamente de menor ou menorzinho, sendo que o sem leite é singelamente batizado de pretinho. Aonde quer que estivermos, ele é que chega até nós em simpaticíssimos carrinhos de café, coisa da criatividade do proletariado soteropolitano que bolou e que fabrica os tais transportadores do quente e oloroso café acondicionado em diversas garrafas térmicas que nesta afrocity chamamos de quente-frio. E lá se vão pelas ruas, ladeiras, altos, baixos, alamedas, vielas e becos de Soterópolis os carrinhos empurrados pelos seus orgulhosos donos, e é aquele desfile de matar de inveja os imponentes carros alegóricos das escolas de samba do Rio de Janeiro e de Sampa, sendo cada carrinho de café personalizado pelo seu justificadamente orgulhoso proprietário. Este vendedor, aliás, aqui batizamos de café ou cafezinho e assim, respeitosamente, o chamamos quando queremos sorver um revigorante menor. Aliás cada um deles com suas características próprias segundo o gosto estético do envaidecido dono que o vai enfeitando dia a dia. Vale escudo do EC Bahia ou do EC Vitória, adesivos diversos, luzes e o escambau, e aí fica um mais bonito que o outro - alguns até são dotados de som em altura moderada - e neles se vendem ainda cigarros para os incorrigíveis e assaz contumazes, inveterados e renitentes tabagistas. Neles também se mercam os tradicionais queimados, que é como nós baianos simpáticos e cheios de malemolência, batizamos o que em outros rincões desta vasta Pindorama chamam de balas. Balas para nós são só aquelas que malfeitores, sicários, milicianos e policiais, fartamente e a qualquer hora, despejam pelos espaços urbanos, cada um do seu lado e nós, cidadãos comuns, no meio tentando se esconder e apelando a um dos muitos santos que tradicionalmente são escalados para prestar tais protetores serviços entre nós. Mas enquanto essa galera do mal não vem nos apoquentar, ficamos ali na boa, olhando o mar azulzinho, curtindo uma brisa que nos mitiga a alma e sorvendo com vagar o mais delicioso dos cafezinhos que há neste orbe. Para melhor dar uma ideia do que dito foi, não perdi tempo e esta cena genuinamente soteropolitana aí acima eu fotografei com minha Rolleyflex de tinta acrílica, depois usei um tostão de Photoshop, enquanto bebericava um menorzinho vindo de um quente-frio do carrinho de um cafezinho que passava assobiando sob minha janela. (25/04/14)
A imagem que muita gente no Brasil guarda dos baianos é de um sujeito folgazão, deitado numa rede, morena do lado, voz de estentóreo timbre que entoa canções do mar, um oceano azulzinho pela frente, olhar de pura indolência e corpo pleno de malemolência. O estereótipo é um, a realidade bem outra. O fato é que neuroses e fobias não são privilégios de paulistas, gaúchos e cariocas ou de qualquer outro cidadão deste imenso país, vez que nós, baianos, somos igualmente neuróticos como qualquer outro vivente normal. Ou anormal, veja você aí, atilado leitor. Acontece que eu sou baiano, acontece que ela não é, quer dizer, por aqui temos a fortuna de possuirmos nas paredes da nossa etnologia índio-afro-lusa, mui ricamente emoldurado, um retrato de Dorival Caymmi, cujo modus vivendi tão invejado por tantos e tantos muitíssimo ajuda a fazer as pessoas pensarem que nós, soteropolitanos e baianos em geral, somos uns seres humanos fora do catálogo, de bem com a vida 24 horas por dia, sete dias na semana, 365 dias por ano. Ou mais que isso. Por uma imagem que tantos compatriotas invejam, direciono a Caymmi, a minha mais que completa admiração e justificada gratitude. Ah!, e esta caricatura aí em cima, pequena homenagem que faço a este formidável Buda Nagô, que se fez eterno através de suas dulcíssimas composições. (30/04/2014)
Sempre que posso, releio "O coronel e o lobisomem", de José Cândido de Carvalho. Ou ao menos parágrafos que costumo marcar a lápis, quando gosto muito. E cada releitura, acreditem, é plena de renovada emoção, enlevo e contentamento. Tudo neste livro é maravilhoso e pra mostrar, reproduzo aqui um trechinho que dá uma boa mostra de como José Cândido constrói com rara maestria sua literatura feita de brasilidade, magia e encantamento: "Olhei em derredor. Um fogo de labareda, de cambulhada com um bater de patas, vinha do aceiro. Era o Diabo em seu trabalho nefasto. Pois ia ele saber quem era o neto de Simeão, coronel por valentia e senhor de pasto por direito de herança. Sem medo, peito estofado, cocei a garrucha e risquei, com a roseta, a barriga da mulinha de São Jorge. A danada, boca de seda, obedeceu a minha ordem. O luar caía a pino do alto do céu. Em pata de nuvem, mais por cima do arvoredo do que um passarinho, comecei a galopar. Embaixo da sela passavam os banhados, os currais, tudo que não tinha mais serventia pra quem ia travar luta mortal contra o pai de todas as maldades. Um clarão escorria de minha pessoa. Do lado do mar vinha vindo um canto de boniteza nunca ouvido. Devia ser o canto da madrugada que subia." ************Ilustração feita no Photoshop com o mouse do PC / Arte que se reparte (10/10/14)
Dentre os
infindáveis estereótipos que estamos habituados a ver em cenas de filmes norte-americanos está
aquele em que dois policiais com a missão de patrulhar as ruas da cidade estão
no interior de sua viatura, curtindo aquela calmaria que costuma anteceder os grandes conflitos, conversando amenidades e saboreando com
volúpia enormes e deliciosos donuts, que
são uma espécie de rosquinha ianque com variados recheios e coberturas transbordantes
de caldas com muito açúcar. Na ótima série de comédias do cinema espanhol em que o ator Santiago Segura interpreta o anti-herói José Luis Torrente, um agente
policial franquista, racista, machista e fascista, xenofóbico e homofóbico, essa famosa cena é um tanto diferente. Enquanto
está com um outro policial dentro de um carro, apatrullando la ciudad ou montando campana em alguma investigação, sob o pretexto de relaxar das tensões da vigília e passar o tempo que monotonamente se arrasta, Torrente propõe
ao colega que ambos se masturbem de forma mútua. Os já iniciados nessa práxis
topam na hora e partem logo para a punhetística parceria, certamente por
acharem isso muito mais interessante que ficar se lambuzando com os tais donuts. Já os policiais novéis nessa
prática de onanismo em dupla, relutam diante da proposta, alegando que isso não
é coisa que fique bem entre dois sujeitos héteros, mas acabam cedendo diante de
um argumento definitivo de Torrente que afirma que tudo é feito observando o respeito às mais ortodoxas normas do machismo. Enquanto cada um manipula freneticamente lapolla alheia, ou seja, o membro, a piroca, a verga do outro, percebendo que seu parceiro deixa escapar longo e sonoro gemido de prazer, Torrente, resfolegante, em bom espanhol o adverte: ”Sin mariconadas! Sin mariconadas!”. (091218)
Parte do meu ofício consiste em fazer caricaturas ao vivo de simpáticas gentes as quais nunca vi mais obesas ou mais esquálidas. As pessoas geralmente adoram participar de eventos que contem com caricaturistas. E ao me verem empunhar o lápis e da virginal brancura do papel fazer surgir a figura de alguém que posa, deixam escapar aquilo que certamente todos os caricaturistas ouvem também: "É um dom!" Como se um querubim a serviço do Criador - ou Ele próprio - tivesse tocado a testa de cada um de nós e nos legado o tal "dom" que nos diferencia dos demais mortais. Longe estão de imaginar que faço - e certamente a maior parte dos caricaturistas o faz - um extenuante e repetitivo esforço para tentar estabelecer uma relativa intimidade com a arte de bem desenhar. Cotidianamente gasto resmas de papel rabiscando, esboçando, bosquejando, debuxando, hachurando, traçando, fazendo, refazendo, corrigindo. Chega a ser algo obsedante. Comecei a fazer caricaturas ao vivo nos anos 80, empurrado por Gonzalo Cárcamo, um chileno com cara de abastado sheik árabe que morou nesta afroterra. Com ele aprendi também o método profícuo e agradável de unir intenso treinamento artístico com o lazer. Munidos de prancheta e papel lá íamos nós para as praias, locais onde encontrávamos à disposição um batalhão de modelos, muitos inertes deixando-se tostar pelo sol. Banhistas, vendedores, adultos, crianças, anciões, núbios, sinos, arianos...uma festa. Aí, discretamente, enquanto se bebia umas cervejinhas e se comia uns caranguejos e lambretas, íamos produzindo estudos e mais estudos da figura humana ao vivo. Até hoje, já sem a companhia de Cárcamo que agora mora em Ilhabela, SP, sigo o método com empenho. Isto, via de regra, resulta em uma natural evolução do desenho e uma maior segurança no traço. Em sua quase totalidade as pessoas soem ignorar todo este esforço e esta dedicação ou até mesmo optam por não acreditar neles, preferindo atribuir tudo ao que chamam de "dom ", o que nos faz sermos vistos com imerecida aura divina. Já não tento demover ninguém deste equívoco, ajeito a indevida auréola sobre minha cuca, pego minha velha pranchetinha, meu prosaico lápis e vou à luta.
Ilustro esta postagem com alguns dos desenhos para estudos que fiz na praia de Jaguaribe, próximo à Itapuã.
Dando uma bola, cheirando cola, mandando bala. Retrato 3 x 4 da infância de certa camada população brasileira. Fotografei com minha Rolleyflex acrílica que revelou esta enorme ingratidão social. (300510)
Tudo o que é bom merece ser divulgado para que mais e mais pessoas possam ver e admirar o que merece ser visto e admirado. Posto sempre aqui inúmeros trabalhos e links de gente de todas partes deste mundo, mundo, vasto mundo. Faço isso com muitos cuidados buscando evitar incorrer no erro de olvidar que aqui mesmo onde vivo, nesta afrocidade de Soterópolis - ou Salvador - neste estado da Bahia, Brasil, há uma porção de gente talentosa e que tem trabalho respeitado no mundo todo. É o caso do formidabilíssimo cartunista Lage - que tanta saudade nos inspira - e de Nildão, também cartunista e não menos formidável, jamais acomodado, sempre criando e inovando. E é também o caso de muitos outros mais, como el dibujantecubaiano Simanca, o caricaturista Gentil, o escultor Valtério e, é claro, claríssimo é, o multimídia Cau Gomez de quem sou amigo desde o primeiro dia em que ele chegou aqui na Bahia, vindo de sua Minas Gerais. Sem a camisa xadrez nem o chapéu de palha dos estereótipos, mas bem mineirinho no jeito, no riso, na fala doce. Deste Cau Gomez, hoje cultuado em todo o Brasil graças ao seu fantástico trabalho, mostro aqui e agora algumas de suas artes que dão uma ideia de sua competência: Hugo Chávez, Glauber Rocha, Che Guevara e Jacques-Yves Cousteau. Nem precisava que eu os nominasse, mas já o fiz , sou um cara de excessivos excessos. São trabalhos desenhados e publicados há já alguns anos. De lá pra cá, o cara já fez muitas coisas novas, já expôs, já publicou aqui e no exterior, e já foi premiado um montão de vezes em várias partes deste orbe azulzinho. Vocês poderão ver mais da arte de Cau Gomez pesquisando na internet seu farto material lá postado. Um dos caminhos é acessar seu blog. E como o serviço aqui neste infoespaço é VIP, meus brodinhos, eis o link: http://caugomez.blogspot.com
Um dia na porta de um cinema vi o cartaz de um filme com o grande ator Mario Gusmão de quem eu ficara fã ao ver sua fina estampa e sua bela interpretação em O dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, onde ele - lança em riste - a mando do lendário cineasta Glauber Rocha investia sobre o personagem de Jofre Soares. No dito cartaz, em garrafais letras, escrito estavam esclarecedores dizeres anunciativos, a título de convocação dos passantes e cinéfilos em geral. "Hoje: O anjo negro, de José Umberto Dias". Entrei. Uma sequência extasiante do filme mostrava o Estádio da Fonte Nova em dia de um retumbante jogo futebolístico das duas grandes potências soteropolitanas do esporte bretão, EC Bahia e EC Vitória, o clássico BA-VI, uma ruidosa e fulgurante explosão de cores e de alarido popular. Inesquecível. Um outro dia fui conversar com o cineasta Guido Araújo que produzia sua nova Jornada de Cinema. Coincidentemente o diretor do filme que tanto me empolgara, Zé Umberto, chegou no mesmo momento que eu com igual escopo de falar com Guido. Conversamos, nos apresentamos e ficamos amigos. Ali mesmo ele me chamou para fazer o story board de um filme seu. E depois para ilustrar seu livro Dadá, falando sobre a musa do cangaço. Baseado neste fez um curta de muito sucesso, Dadá, a musa do cangaço. A antiga cangaceira, então costureira e amada mãe e avó, morava num bairro periférico, era muito amiga de Zé Umberto e fui a ela apresentado. Foi com indisfarçável emoção que apertei a calejada mão sertaneja daquela que fora companheira de Corisco. Embora as pesoas pensem que nas ilustrações do livro que usei a trabalhosa técnica de xilogravura para as ilustrações, não lancei mão de afiadas goivas nem madeira. O que fiz foi apenas empunhar o costumeiro lápis B e usar guache branco sobre papel preto. Publico aqui esta ilustração em preto e branco para variar um pouquinho dos trabalhos cheios de cor que costumo mostrar. E também para lembrar de Dadá e de nosso amigo em comum, Zé Umberto, gente pra lá de boa que fala ao coração das pessoas através das lentes, áudios e dos celulóides. Saudações sertanejísticas, Dadá de Corisco. E saudações cinéfilas pra você, Zé Umberto, gente boa que é - como dizemos na Bahia - meu amado amigo-irmão. (080510)
No imaginário popular, todas as mulheres da Espanha trazem em suas veias o mais puro sangre caliente e por isso mesmo são consideradas verdadeiros furacões sexuais e só piensam naquilo. E se não estão piensando naquilo é porque estão hacendo aquilo. Puro exagero, as espanholas também gostam muito de Artes e dos artistas maiores. Um desses, é o graaaande Picasso que sempre andou de boca em boca entre as mulheres. Se você acha que a seleção de futebol da pátria de Cervantes faz jus ao epíteto de "Fúria Espanhola", não imagina que este título pertence mesmo é às mujeres da Espanha que com seu furor uterino jamais concediam um segundo de descanso ao afamado pintor catalão, enquanto vivo ele foi. Agarravam o Picasso em qualquer lugar, de todo jeito e de com força e não queriam mais largar. E o Picasso tinha que ser muito, muito duro para conseguir dar suas famosas e milionárias pinceladas que qualquer umadisputaria - e bota disputaria nisto - já que levavam à loucura as guapas espanholas que noite e dia assediavam o bravo Picasso. Inúmeras vezes, já sufocado, o catalão apelava pro baixo calão. Apesar de ser um artista de vanguarda, Picasso adorava uma boa retaguarda, e ficava logo todo excitadão quando via um belo Cubismo exposto à sua frente. Segundo outro famoso espanhol, Pedro Almodóvar, diante de Picasso ficavam as Mujeres al borde de un ataque de nervios. Muitas delas, com a Carne Trémula, em um estonteante Laberinto de Pasiones. Descontroladas, mostrando LaMala Educación e escancarando sua Julieta, para ele, Entre Tinieblas, sussurravam: "Mira acá La flor de mi secreto!" e, lúbricas, insinuantes e concupiscentes imploravam: "Hable con ella!". Usando Tacones Lejanos, fêmeas sadomasoquistas histericamente lhe imploravam: "Átame!!", sem Volver atrás e sem demonstrar o mínimo respeito à La Ley del Deseo. Desse modo, como era de se esperar, o pintante catalão foi definhando e acabou morrendo na couve-flor da idade. Muita gente hoje em dia critica Pablo Picasso por ele ter sido um incondicional adepto das corridas de toros, prática que aos poucos vem sendo banida da vida dos espanhóis nestes atuais tempos politicamente corretos. Mas em verdade as plazas de toros eram para ele apenas um porto seguro, um providencial refúgio salvador para onde ele corria na tentativa de encontrar um necessário repouso, já que ali era o único lugar em que as mulheres deixavam o Picasso em paz, pois na arena só tinham olhos para admirar a afamada espada do graaaande Dominguin. Apesar da proibição atual, a verdade é que os bravos espanhóis estão muito acostumados com touros e touradas e por isto mesmo acham este lance de chifres uma coisa muito normal. E é aí, señoras y señores, que entra em cena El Ricardon que, sem vacilar, vai penetrando na arena e emotras cositas más, passando a mão nas castanholas de la chica que emite gemidos e se contorce toda. Evocando o sempre pranteadoeeternamentegraaaandePicasso, a guapa mocetona entonces, suspirando fundo e revirando os olhinhos, entusiasmada grita: "Olé!!" (12/01/10)
Dos meus alumbramentos na minha tenra infância ressoa forte uma HQ carregada do mais negro nanquim mostrando uma casa rudimentar em região de inóspito palude. Um ventilador de teto. Um homem com um jornal na mão que mata as moscas que insistem em pousar em sua mesa, em sua roupa e pele. Ele traz na boca um fumegante cachimbo e sua epiderme transpira por todos os poros enquanto se movimenta, impaciente, em ação mostrada do ponto de vista do alto da casa. Puro cinema em cada cena desenhada no papel. Tais imagens, instigantes, impactantes, colaram-se de forma perene na vida de minhas retinas ainda não fatigadas, na minha memória de infante. Cresci e só mais tarde descobri seu autor: Will Esner. O grande, o magistral, um manancial de criatividade extasiante, jorrando fartamente para o deleite de seus felizardos leitores, tanto no texto quanto nas ideias sempre renovadas. Will Esner. No Brasil ele se sentia muito à vontade por comprovar que aqui possuía uma legião incontável de incondicionais fãs de seu cinematográfico estilo. Entre eles, ói eu, embevecido, torcendo pelo Spirit, com sua máscara e um sorriso no canto da boca, sempre rodeado de belíssimas e voluptuosas vilãs como a nada angelical Satã.
Corria o ano de 1976 e Santo
Amaro da Purificação vivia dias de um regozijo sem precedentes em sua história.
Tudo porque Dona Canô, líder natural da comunidade e quitueira de invulgares
dotes e assaz justificado prestígio, decidira que seus mui deliciosos acepipes,
dantes restritos às privilegiadas papilas gustativas de seus familiares e uns
poucos agregados, iriam ser postos à venda para todo o povo santoamarense. Tudo
movido pelo nobre objetivo de angariar fundos para viabilizar a festa anual ao
santo padroeiro da simpática urbe. Sendo a venerável matriarca dos Vellosos,
Dona Canô contou com a consuetudinária participação de todos da família. Mesmo
os mais novos como o ainda glabro Caêzinho e sua mana Beta, Beta, Bethâninha,
ambos de prendas canoras aclamadas nas tertúlias do clã. A dupla chamou seus
amiguinhos Gilzinho e Galzinha que incontinentemente aceitaram o convite.
Unindo talento artístico com tino comercial o quarteto criou - e apresentava na
praça - um show de canto e dança de fazer Michael Jackson babar de inveja. Tudo
para ajudar na vendagem feita por nobres motivos. E com tal fim bolaram um
jingle em que preconizavam ainda mais as virtudes e a já reconhecida suprema
qualidade dos doces canônianos, os quais batizaram de Doces Bárbaros, usando um
neologismo da época. Sucesso total! Multidões acorriam à praça e as vendas
aconteciam aos borbotões. Com a renda arrecadada a igreja fez a mais linda
festa ao santo padroeiro que como reconhecimento retribuiu aos habitantes com
mais que farta distribuição de graças. Uma delas foi fazer com que entre o
público admirador dos meninos estivesse, de passagem por Santo Amaro, um
influente empresário do ramo musical que viu logo que em futuro mui breve eles
se tornariam grandes estrelas da MPB. E não pestanejou: contratou, célere, toda
a trupe que levou para Sampa. Lá montou o show Doces Bárbaros, aquele
mesmíssimo criado pelos precoces infantes para vender as canônianas delícias em
modesta ágora santamarense. O sucesso foi estrondoso como previsto e hoje os
Doces Bárbaros são conhecidos e reverenciados em todo o planeta graças,
sobretudo, às habilidades culinárias e ao axé de Dona Canô, a mui amada e inspiradora matriarca.
Algumas efemérides
em nossas existências são de extrema grandeza e imensurável importância para nós
outros. Esquecer qualquer uma delas é incorrer em imperdoáveis heresias. A
cada ano nos empenhamos em comemorar com crescente alegria certas datas que temos na conta de muito, muito especiais. Você tem as suas, eu tenho as minhas, fulanos, beltranos e sicranos têm as deles. Por exemplo, por exemplo,
neste mês de maio de 2019 meu estimado e mais que idolatrado amigo Reinhard
Lackinger, um baiano da gema oriundo das terras de Romy Shchneider - ou dizendo melhor, de Sissi, a Imperatriz - está completando 50 anos de vivência cotidiana neste país varonil chamado Brasil-sil-sil. Não, você não leu errado, atilado leitor, não é preciso correr para um oftalmologista. Meio século faz que este cara sorridente, muito boa-praça, aportou por aqui apaixonando-se à primeira vista por esta
balbúrdia e por sua cônjuge - eu disse cônjuge - a amável Maria Alice, e aqui se quedou para a felicidade geral de seus amigos brasileiros,
notadamente os desta Soterópolis, capital da Bahia. Entre tais amigos, confidencio que me incluo com o mais lídimo orgulho. Para quem não o sabe, é de Reinhard o cantinho
mais aconchegante de nossa afrourbe, o Bistrô PortoSol, local onde é possível
saborearmos as mais capitosas delícias da cozinha austro-húngara, e de quebra
desfrutarmos do melhor chopp do mundo. Ao amigo leitor alerto desde já que, ainda que isto possa soar aos seus céticos pavilhões auditivos como uma publicidade radiofônica, trata-se da mais verdadeira das verdades.
Saiba você, autarquia, que quando faço o
inventário da minha fortuna pessoal constato que pouquíssimo, um quase nada, possuo de bens
materiais. Em contrapartida tenho como inestimável tesouro a amizade de alguns
dos seres mais maravilhosos que já pisaram no solo deste orbe índigo blue.Tá rebocado e piripicado, que Reinhard, hábil taverneiro e inspirado escritor, está neste seleto rol de amigos, sendo ele um cara de grande inteligência, vasta cultura, de aguçada visão social e política, um humanista da melhor estirpe, um progressista que não
aceita retrocessos de nenhuma ordem ou espécie, um cara generoso, desprendido,
solidário. A lista de elogios é bem mais extensa e eu, por receio de ser acometido por uma LER, abdico de ficar teclando outros adjetivos qualificativos e encerro por aqui dizendo que Reinhard, taverneiro hábil e inspirado escritor, é um dos melhores papos desta Bahia de tantos papos bons, coisa que podemos constatar em qualquer
momento, em qualquer cenário agradável, notadamente entre um gole e outro de um
chopp mui bem tirado, em uma das mesas que ficam sob o aconchego do seu, do nosso Bistrô PortoSol,
no Porto da Barra. Para dizer ao estimado amigo Reinhard o quanto o considero
um cara porreta, fiz esta caricatura dele com guache branco sob papel preto,
uma espécie de xilogravura apócrifa, técnica que ele já disse muito apreciar. Aí eis que me empolguei e resolvi fazer uma versão colorida do mesmo desenho para incluir nesta mesma postagem em que faço esta louvação, louvação, louvação de quem deve ser louvado. Parabéns por este
meio século já cumprido e que venha mais um século inteiro de convivência. Um
abraço deste seu amigo de longa data, um sujeito que o tem em altíssima conta,
nobilárquico Reinhard. É isto aí, meu Rei!
Revisitar temas amplamente explorados por profusões de
profissionais exige do artista que ele lance um olhar novo sobre o assunto
abordado. Nildão tem de sobra essa virtude, quer quando faz cartuns, quer
quando transita pelo designer gráfico criando cartazes, capas de discos,
logomarcas e um mundo de coisas. Nildão é o cara! Seu notável o potencial
criativo vai muito além da inquestionável sensação de ineditismo mesmo quando
trata de conhecidas temáticas. Seu leque de qualidades é amplo e resulta em um
trabalho de rara excelência que vem angariando uma cada vez maior legião de
admiradores incondicionais. Essa criatividade de Nildão o leva a transitar com
propriedade por imagens e palavras e o resultado produzido deve ser saboreado
pelos leitores com o prazer com que se saboreia um vinho de qualidade ou a mais
deliciosa das iguarias. Um humor da mais alta qualidade é presença constante em
seus trabalhos, sendo por vezes sutil, exigindo um olhar mais atento ao que
está sendo mostrado, ou sendo cortante como o fio da mais afiada das navalhas
quando lança seu olhar atento sobre as questões políticas e sociais. Por vezes
seus desenhos e criações gráficas chegam a parecer despretensiosas brincadeiras com jeito bem
moleque feitas para contemplar os leitores com as mais gostosas gargalhadas.
Eclético, sempre diversificado, por vezes gosta de fazer deliciosos jogos de
palavras, usa trocadilhos nada infames, e é mestre em lançar ao público
questionamentos e provocações da forma mais criativa que se possa imaginar. Sem
cair na perigosa armadilha do acomodamento e dos maneirismos em que tantos
artistas naufragam, Nildão é um criador de múltiplos talentos sempre em
sucessivo processo de renovação, reinventando-se constantemente dentro do seu
labor artístico. Profícuo, desde o início dos oitentas Nildão vem lançando a
cada ano um novo livro com suas criações e é maravilhoso poder comprovar seu
expressivo salto de qualidade no terreno do grafismo, o domínio que ele
adquiriu no trato das cores e da linguagem gráfica como um todo. As soluções
gráficas que apresenta comprovam seu amplo conhecimento dessa linguagem, muitas
vezes se percebe que por trás de uma aparente simplicidade existe uma
sofisticação própria de quem domina o assunto, há um refinamento ainda maior do
seu humor e das suas ideias. A magnífica
evolução de seu trabalho como designer gráfico e o atual estágio de alta
qualidade que esse alcançou indubitavelmente coloca Nildão no patamar dos
melhores artistas gráficos da atualidade no Brasil. Se você ainda não leu os
livros dele nem visitou o site, aqui vai um link para você se deliciar com o
site do artista: http://www.nildao.com.br (Publicado originalmente em 22/09/15)
Além de nos mimosear a todos com obras literárias de grande inspiração, José Cândido de Carvalho, cidadão atento, mente lúcida, de quebra nos alertava em 1970 para os crimes perpetrados contra a natureza em nome do progresso. Falar em defesa da ecologia e do ecossistema hoje é uma praxe de muitos neste planeta com tantos crimes ecológicos e superaquecimento, ainda que os culpados pelos graves problemas contra o planeta se sintam livres para continuar em suas práticas nefárias. José Cândido, inteligente, antenado, consciente, premonitório, antevendo que tudo redundaria nos graves problemas do mundo de hoje, já alertava contra o que estava por vir e assim escreveu e publicou isto 40 anos atrás : " E agora, não tendo mais o que inventar, inventaram a tal da poluição, que é doença própria de máquinas e parafusos. Que mata os verdes da terra e e o azul do céu. Esse tempo não foi feito para mim. Um dia não vai haver mais azul, não vai haver mais pássaros e rosas. Vão trocar o sabiá pelo computador. Estou certo que esse monstro, feito de mil astúcias e mil ferrinhos, não leva em consideração o canto do galo nem o brotar das madrugadas. Um mundo assim, primo, não está mais por conta de Deus. Já está agindo por contra própria. " (25/09/2014)
Carlinhos Brown, Bebo Valdés e Fernando Trueba, em 2004.
BelleÉpoque (Sedução, aqui no Brasil) foi o primeiro filme dirigido
por Fernando Trueba que assisti. Gostei muito e não era para menos. O argumento é envolvente, a fotografia bela, a direção primorosa. O elenco, maravilhoso, pra dizer o mínimo, traz Ariadna Gil, Penélope Cruz, Jorge Sanz, Maribel Verdú,
Fernando Fernán Gómez, Chus Lampreave. Por essas virtudes, em 1993 o filme
recebeu prêmios importantes no mundo do cinema, como o Goya de melhor diretor e
melhor argumento e o Oscar de melhor filme de língua não Inglesa e outros mais.
Por haver gostado desse diretor, volta e meia assisto algo que ele dirige ou
produz. Vi e muito curti um deslumbrante desenho animado que Trueba dirigiu em 2010, em parceria com Javier Mariscal, uma animação chamada Chico y Rita, com trama ambientada numa Cuba pré-Fidel, com bela trilha sonora de Bebo Valdéz. Assim, quis logo assistir O milagre do Candeal (El
milagro de Candeal), documentário de Trueba, rodado em 2004. Numa narrativa
gostosa e cheia de nuanças, o documentário mostra, entre outras coisas, o
trabalho social desenvolvido por Carlinhos Brown no hoje famoso bairro de Salvador,
Bahia. Enriquece o documentário a participação do legendário pianista cubano Bebo Valdés, que
visita o Candeal, bem como a do cantor e músico Mateus Aleluia, aquele de Os Tincoãs. Ao lado de
Brown, Mateus faz as vezes de anfitrião para Bebo Valdés. Os diálogos são em
Espanhol e Português neste belo documentário em que o tema centralizador é o projeto social do Candeal, a música, as
influências e intercâmbios musicais, as religiões de matriz afro, a ancestralidade comum, e também a enorme influência africana presente no cotidiano da Bahia e em Cuba. Cenas de moradores do
Candeal e de voluntários trabalhando em álacre mutirão para erguer praça e construção são
entremeadas de depoimentos desses populares, parte importante do projeto,
erguendo com as próprias mãos a parte física e material do Milagre. Enriquece o
documentário a presença de Marisa Monte, cantando ao lado de Brown. Mateus
Aleluia também canta e toca, da mesma forma que Gilberto Gil e Caetano Veloso.
Esses dois últimos, aparecem em entrevistas descontraídas. Caetano mostra um
Espanhol escorreito, ao conversar com Bebo Valdés. Isso faz lembrar que, no
documentário, quando as pessoas falam em Português, aparecem legendas em Espanhol para que os falantes dessa língua possam melhor entender os diálogos.
Tais legendas são dispensadas nas falas de Gil e Caetano, pelo Espanhol fluente com que ambos falam. O burlesco, ainda que involuntário, fica por conta de Carlinhos
Brown que, para se comunicar com Bebo, ataca de um pretenso Espanhol, na verdade um Portunhol, que soa divertido e muito enrolado, por vezes uma
verdadeira algaravia e o hilariante nisso é que nas falas de Brown, pretensamente ditas na língua de Cervantes, os produtores espanhóis não dispensaram o uso das legendas, que aparecem e são providenciais até mesmo para os espectadores brasileiros. Grande Carlito Marron!
****Coloco aqui um link para o
documentário, mas como há coisas de internet que são o tempo todo mutáveis, quem
quiser ver o documentário, que o faça logo.