05 janeiro 2018

Maiakóvski, Fernando Pessoa, Caetano Veloso e Edu. Pequeninos equívocos sobre grandes poetas.

Foi por saber que erra e erra muito, que desde os tempos de Aristóteles o homem criou para si o axioma “errar é humano.” Isso parece dar a ele, na verdade a todos nós, seres humanos, certa “licença poética” para incorrer em erronias e equívocos, uma, duas, algumas vezes. Dá-se que muitos abusam da sua salvaguarda para cometerem sucessivos e incontáveis erros, erros à mancheia, que faz o povo pasmar. Dos errinhos pequenininhos, quase imperceptíveis, aos mais grosseiros e paquidérmicos. Uma vaga imensa deles, um tsunami, deslizes de todos os calibres, pesos e medidas, em todos os tipos de assuntos, a começar pelos mais prosaicos. Até mesmo equívocos que versam sobre a Cultura, o que torna tudo mais estranho, pois é de se acreditar que se uma pessoa resolve transitar pelos terrenos culturais, presumível é que essa dita pessoa haja se preparado para emitir opiniões consistentes, embasadas, procedentes, verdadeiramente cultas, como se pretendem. Na prática, isso é diferente, por vezes, muito, muito. Por exemplo, uma considerável parcela dos leitores brasileiros sabe muitíssimo bem que o poema No caminho com Maiakóvski foi escrito pelo poeta vanguardista russo Vladimir Vladimirovich Maiakóvski. Orgulham-se de saber disso. Jactam-se por sabê-lo. Mas... não, o poema não foi escrito pelo grande poeta russo, é da autoria de um poeta brasileiro chamado Eduardo. E não me perguntem como é que alguém, conhecido pelos amigos mais próximos como Edu, tenha podido escrever em 1964, em plena era de chumbo, um poema tão denso, tão forte, tão belo. Digno de um Maiakóvski. Pois Edu, Eduardo Alves da Costa, fez isso. E as pessoas, ainda hoje, mesmo sendo alertadas sobre o equívoco, mesmo sendo esclarecidas sobre quem é o verdadeiro autor do poema, insistem em dizer que ele é de Maiakóvski. Deliberadamente, persistem no erro. Errar pode ser desumano. Ainda no terreno da poesia, as pessoas insistem em atribuir ao maravilhoso Fernando Pessoa a criação da célebre frase “Navegar é preciso”. E não param por aí, de quebra, dão a Pessoa uma luxuosa parceria com o compositor baiano Caetano Veloso, na música Os argonautas, um fado belíssimo, pungente, capitoso, que é um deslumbre escutá-lo, muito especialmente na voz de certas cantoras lusitanas que o interpretam com o coração de fadista, coisa de arrepiar. Além da melodia envolvente, também a bela e um tanto enigmática letra da inebriante canção é de Caetano Veloso, não é do bardo português. Mas não faltam os que repitam por aí e até postem na internet, que a dita letra da música é uma poesia da autoria de Pessoa musicada por Caetano. Quem se der ao trabalho de pesquisar atentamente os muitos poemas de Pessoa, escritos sob qualquer um dos seus muitos pseudônimos, não encontrará versos falando em “o automóvel brilhante, o trilho solto, o barulho do meu dente em sua veia” ou “noite no teu tão bonito sorriso solto, perdido”. As pessoas erram por uma questão de superficialidade, erram por que não se importam em errar, grandes porras, phoda-se. Fernando Pessoa deixa claríssimo na abertura de seu poema, que a frase “navegar é preciso, viver não é preciso”, cuja primeira parte usou para dar título ao belo poema, não é algo criado por ele, vindo ela da boca de antiquíssimas gentes do mar, coisas dos tempos do grande império romano que, segundo textos do impoluto Plutarco, teria sido dita em vez primeira pelo general Pompeu (106-48 a.C.), dirigindo-se a sua tripulação, aos seus soldados, os quais se mostravam excessivamente prudentes e cautelosos - para não dizer trêmulos e acovardados  – diante de um mar nigérrimo e proceloso, instigando-os a embarcar.  Como único argumento, Pompeu proferiu a frase que se celebrizou, chegando aos ouvidos de Fernando Pessoa que, parafraseando-o, disse que “viver não  é  necessário , o que é necessário é criar”. Maravilhoso! Todo artista e todo criador deveriam tomar isso como inspiração. Caetano Veloso, usou como refrão de Os argonautas a frase que Pessoa não concebeu mas que tanto amou que dela se valeu para nominar um seu poema famoso e para filosofar sobre sua irrefreável necessidade de criação. A expressão “Navegar é preciso” bem que pode ter sido o lema que norteou todas as intrépidas conquistas portuguesas na Era das Grandes Navegações. A frase, segundo dizem, estaria escrita no pórtico da lendária Escola de Sagres, fundada pelo infante Dom Henrique, no século XV, mais precisamente em 1460, bem antes do nascimento de Pessoa, que nela teria achado inspiração para o poema que escreveu. Mas estamos falando da raça humana e seus enganos, e aí temos que lembrar que não faltam os que, convictos, afirmem que a Escola de Sagres nunca tenha existido de fato, senão na imaginação das pessoas, que tudo não passa de uma lenda. Quanto ao poema de Pessoa, segue abaixo uma reprodução para que não pairem dúvidas sobre o que nela diz o venerável vate luso. Embora já saibamos bem que isso não fará cessar novos e contínuos erros e enganos, pois o homem outorgou a si próprio o direito de errar quantas vezes queira.
Navegar é Preciso
(Fernando Pessoa)
Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:    
"Navegar é preciso; viver não é preciso".                    
Quero para mim o espírito desta frase,           
transformada a forma para a casar como eu sou:          
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.         
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.    
Só quero torná-la grande,                                           
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.                                              
Só quero torná-la de toda a humanidade;                            
ainda que para isso tenha de a perder como minha.                  
Cada vez mais assim penso.                                        
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue  o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade.                                      
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.