05 fevereiro 2017

As Histórias em Quadrinhos e seus implacáveis inimigos

É inegável que a linguagem das histórias em quadrinhos é envolvente e extremamente comunicativa. Tão impactante é que a grande maioria das pessoas que leem uma HQ pela primeira vez costuma se apaixonar de cara por essa forma de expressão, seduzida pelo seu aspecto visual cheio de alternativas, pelo texto que se alia aos desenhos instigantes, pela criatividade que geralmente os personagens contém, bem como pela forma dinâmica de narrar que aguça a curiosidade dos leitores a cada página lida, assemelhando-se à narrativa do cinema. Essa paixão, que ocorre literalmente à primeira vista, costuma ser duradoura na vida dos que se iniciaram na leitura das histórias em quadrinhos. Mas nem tudo são flores no universo da chamada Nona Arte. Em meados do século passado, quando os quadrinhos começaram a ser publicados em larga escala nos Estados Unidos, logo começaram a alcançar uma grande parcela de leitores e um abrangente espaço no panorama cultural. Tudo corria bem até surgirem ferrenhos opositores da nova linguagem que nela enxergavam uma arma maligna e poderosa capaz de destruir corações, mentes e o próprio país. Um dos mais lamentáveis  ataques aos quadrinhos nos EUA partiu do psiquiatra Frederic Wertham, que em 1954 escreveu e publicou o  livro "A Sedução dos Inocentes", em que atacava impiedosamente os quadrinhos, neles só vendo enormes malefícios. Além dele, um grande número de políticos arrivistas, de religiosos, setores mais conservadores da sociedade ianque  e grupos reacionários colocavam as pessoas em pânico propagando que a sociedade estaria seriamente ameaçada por inimigos tenebrosos, infiltrados silenciosamente em diversas atividades da vida cotidiana dos ianques, prontos a destruir o país e seus inocentes cidadãos. O setor cultural foi uma grande vítima dessa absurda e estapafúrdia mentalidade paranoica. Livros, filmes, peças de teatro, artes plásticas foram atingidos de forma impiedosa pelos ditames de grupos retrógrados sob o pretexto de defender o país e sua coletividade, a moral e os bons costumes, de um ataque maligno que só eles enxergavam com suas mentes equivocadas. Tendo criado o clima de medo e apreensão, os reacionários empreenderam uma pretensa cruzada em nome da moralidade e dos bons costumes, fazendo linchamentos morais e cometendo toda sorte de injustiças contra artistas e escritores, censurando peças de teatro, filmes, fotografias, livros e tudo que eles entendessem como sendo antiamericano.  Perseguição ainda mais devastadora sofreram os quadrinhos, já que contra eles os detratores não se limitavam ao absurdo de impor uma sufocante censura, queriam erradicá-los sumariamente da face da Terra, numa trama maligna idêntica aos planos maquiavélicos dos mais sórdidos supervilões das HQs.
Felizmente para os mais racionais, se essa mentalidade retrógrada influenciou uma parcela menos informada da população, também provocou forte indignação entre pessoas de reconhecido valor nas áreas culturais, bem como de respeitados intelectuais, gente com visão mais equilibrada e vanguardista que se insurgiram contra tanto reacionarismo e possibilitaram aos quadrinhos a possibilidade de existir como o notável meio de comunicação que é. Ruim para os reacionários de plantão, ótimo para os apaixonados pelos quadrinhos. 
(28/10/15)