24 novembro 2022

Marasmo Carlos e a Velha Jovem Guarda

Quando adolescente vivi de maneira intensa o movimento de música de iê-iê-iê batizado de Jovem Guarda que tinha como principais estrelas os cantantes e compositantes Roberto Carlos e Erasmo Carlos. À época eu era fã incondicional de ambos e prossegui em alta fidelidade incluindo-os na trilha sonora of my life. Há já um considerável tempo criei e ilustrei para uma revista de humor este levemente roqueiro e algo escrachado "Quem é quem na Velha Jovem Guarda". Republico here and now como singela homenagem ao mui amado Erasmo Esteves, o Erasmo Carlos, o meu, o seu, o nosso eterno Tremendão.

Roberto Calos, cognominado o Rei do iê-iê-iê, sempre dizia que Marasmo era mais que seu braço direito, era seu umbigo. E assim o apresentava em seus programas e shows: "Com vocês, o meu umbigo...Marasmo Carlos!!" Sendo amigo de fé, irmão e camarada do Rei RC, Marasmo sempre foi um cara muito boa praça e, no entanto, vivia posando de
bad boy pois, como diz Leila Diniz, homem tem que ser durão. Convicto disso, ele fazia tudo para manter a sua fama de mau e quando numa Festa de Arromba via uma Gatinha Manhosa, dizia logo: "Pode vir quente que eu estou fervendo!" Apesar de afirmar em uma composição já ter fumado um cigarro e meio esperando uma gata que não veio, Marasmo sempre disse que é preciso saber viver e por isso mesmo era um antitabagista ferrenho, contumaz e renitente e quando alguém tenta acender um nefando tubo nicotífero ao seu lado ele trata de mostrar um aviso que diz "É proibido fumar". Mesmo não tendo ganho durante sua carreira fortuna tão grande como a de RC, Marasmo não ficou sentado à beira do caminho com os braços cruzados e conseguiu amealhar uma boa poupança o que o ajuda muito nos dias de hoje pois, atualmente com 99 anos, o cantante e compositante foi acometido pelo Mal de Parkinson e passa o dia com incontroláveis e incessantes tremedeiras, ganhando por isso o apelido de O Tremendão.
(10/05/14)

17 novembro 2022

Retrato fiel de um verme minúsculo que contaminou uma Nação gigante..

O adeus de um homem minúsculo

Já era hora de dar um basta, de lembrarmos que o homem pequeno é pequeno demais para um país tão grande

Renato Essenfelder

»O homem minúsculo, o homúnculo, apagou as luzes do palácio e foi dormir. Depois de tanto bradar, gritar e babar, depois de ameaçar e conspirar à luz do dia, incessantemente, calou-se. Recolheu-se à insignificância que o espera. Amém.

Como os livros de história no futuro irão se referir a esse homem tão pequeno? Terá alguma importância, o seu nome, ou irão se interessar apenas pelo surto coletivo que se apossou de milhões de brasileiros, por meia década ao menos, e que resultou na eleição de um ninguém, um nada, um palhaço macabro? Um fantasma descarnado, insepulto e obcecado pela morte, sua especialidade, no qual milhões projetaram suas próprias fantasias autoritárias. Como? Por quê?

Quantos afinal projetaram naquele corpo sem vida, naquela vida sem alma, a virilidade perdida, as certezas corroídas, o desejo e a inveja da criança egoísta que brinca de motinho enquanto o mundo acaba em fome e doença. As pessoas morrem, ele debocha: e daí? Nada interrompe seu gozo sem fim.

Os livros de história no futuro talvez falem de um homem minúsculo que emergiu dos porões sujos do Congresso Nacional, já em avançado estado de decomposição moral e física, para canalizar todo o ressentimento de uma nação. Esse vórtice de maldade, cercado por gente ainda menor, ainda mais ridícula e ignorante orbitando ao redor de sua sombra.

Homens minúsculos, a história demonstra, podem projetar sombras imensas. Mas passam, os homens e suas sombras.

Ele tentou, com todas as minúsculas forças, tentou eternizar sua sombra horrível. Mas decrépito, fraco, bronco e insignificante, não conseguiu manter-se no poder. Porque destruir é uma coisa, mas construir é outra, muito mais difícil, muito mais complexa. O homem pequeno veio e apequenou o país inteiro, apequenou o Estado e as suas instituições, apequenou o povo, os amigos, as famílias. Destruiu, passou bois e boiadas, sufocou, boicotou, conspirou, enquanto ocupavamo-nos de sobreviver.

Mas então, enfim consciente da sua pequenez, emudeceu no canto do palácio vazio, vítima da própria insignificância.

Depois de destruir e destruir e destruir, descobriu-se incapaz, impotente, brocha. Um fantasma de brochidão e fraqueza, incapaz de fecundar o que quer que seja – planos, corpos, natureza. Homens pequenos não constroem coisa alguma.  

Já era hora de dar um basta, já era hora de lembrarmos a nós mesmos que o homem pequeno é pequeno demais para um país tão grande.

A um mané golpista: perdeu, Mané! Não amola!


 

 

14 novembro 2022

Flor-de-Lis, Cravo-de-Defunto e outras flores do jardim bolsonarista..


 

Valtério Sales, escultor e cartunista dos bão, louvado em prosa e verso

Valtério Sales é um cartunista aqui da Bahia que já andou por um tempo lá pelas bandas do Rio. É um cara muito bom quando faz caricaturas em papel. E é um arraso nas esculturas em barro, invariavelmente feitas com toques de muito bom humor. Ele é meio avesso à computadores e muito por isso mesmo ainda não tem um site para que vocês possam apreciar os maravilhosos trabalhos que ele esculpe. 
Ôpa! Êpa! Parem as máquinas! Escrevi esse preâmbulo todo aí, mas eis que acaba de chegar na redação desse bloguito uma carta que nos eleva o espírito e preenche de júbilo nossas almas. A dita missiva nos dá conta de que, buscando correr atrás do tempo informático perdido, Valtério Sales retou-se e resolveu adentrar de vez o universo cibernético. O cultuado escultor já tem até um perfil no Facebook em que mostra sua fina estampa e a arte que executa com seu enorme talento. Tomara que, entusiasmado com essa sua infoexperiência, o artista providencie um site ou blog para tornar ainda mais visível o seu trabalho e maior o nosso deleite. Nunca é demais relembrar que Valtério, o grande escultor, cartunista e humorista, é nascido em Ruy Barbosa, Bahia, onde atendia pelo cognome de Vartim de Sinésio, só saindo um dia da pequena urbe para brilhar na Oropa, França e adjacências. Para celebrar seu benfazejo ingresso nas redes sociais, a equipe desse bloguito convocou Setubardo, o sempre mui inspirado poeta, nosso contumaz colaborador, e o vate nos enviou um poema que, radiantes, publicamos: 
Valtério no caminho das artes
Evém Valtério.
Quem o diz no climatério?
Mal não lhe causa
a andropausa.
Vem gaio e gala
com sua bengala.
Caminha seu caminho,
rebolandinho.
Torpes maliciam
seu rebolar 
quase sutil.
Não é frescura,
posto que viril.
É só da perna
leve atrofio.
(16/07/13)

11 novembro 2022

Aos racionais: Marcia Tíburi e o êxtase que manipula as massas, a extrema direita e a perda da vergonha.

  Nesse Brazil-zil-zil a estupidez encontrou terreno fértil e tem por adubo os cérebros de uma extensa boiada de gado bípede da espécie mitoso. Como descemos tanto e de forma tão abissal às profundezas da ignorância humana? Márcia Tiburi, filósofa, escritora, professora e artista plástica, na contramão da estupidez geral que assombra essa Nação, lança generosas doses de luz sobre o assunto para explicá-lo em minúncias aos que não caem nas armadilhas da insidiosa comunicação que dá aos incautos uma "verdade"bem diversa dos fatos.

"Desde a vitória da frente democrática, encabeçada por Lula, eleito presidente pela terceira vez, o Brasil vive uma onda de ataques à democracia que copia o script pós-derrota de Trump. A assessoria de marqueteiros como Steve Bannon deixa clara a ação publicitária, patrocinada por empresários, alguns que têm por princípio, não pagar impostos. Por trás dessa atitude, está a falta de senso de cidadania necessário à democracia.

Um dado interessante a considerar é que, mesmo que toda essa encenação, para a qual são convocadas pessoas autoritárias, conservadoras e muitas com problemas emocionais sérios, mesmo que isso não esteja levando a nada, os publicitários americanos ganham muito dinheiro com a promoção da extrema direita. 

Eles têm vendido sua expertise para partidos e grupos extremistas do mundo todo com a função de colocá-los na moda. Os que gostam de reflexões estéticas se perguntam: como fazer algo cafona voltar à moda? Ora, manipulando as massas e, para isso, apelando ao sistema de crenças intimamente ligado ao gozo de alguém. Em sentido psicanalítico o gozo é a profunda satisfação com aquilo no que se acredita. Pode ser na democracia, pode ser no autoritarismo. Pode ser numa mentira. O que importa é o êxtase. Os publicitários sabem manipular o gozo das massas adulando-as e fornecendo o êxtase. Líderes religiosos fazem o mesmo. Religião e política produzem o êxtase necessário à publicidade. 

O ridículo político que elegeu tantos em 2018, inclusive Bolsonaro, volta agora. Mesmo derrotadas, as pessoas se entregam ao ridículo e grotesco coletivo, tomadas de um gozo profundo, o gozo do êxtase. Elas se entregam sem questionamento, entram em delírio. Rezar para um muro do quartel, assim como outras atitudes desesperadas, provoca risos. Mas foi esse mesmo jogo cênico que desencadeou o código fascista entre 2016 e 2018. 

Que as pessoas tenham perdido a vergonha é um sinal de perda de relação com a verdade. A mesma vergonha que se perde no carnaval permitindo a catarse e a entrega, ocorre nessas manifestações, mas perdendo de vista que aqui não é uma brincadeira. A manipulação das massas vai continuar enquanto a subjetividade livre continuar."

01 novembro 2022

Carla Zambellicosa.




 

A arte de Setúbal no Bota Ponta Podcast direto de Times Square, New York city.


Fidedignos e veneráveis amigos, desde logo vou aqui incorporando o muitíssimo bem amado Odorico Paraguaçu para transmitir aos fãs de meu labor artístico que é com a alma lavada e enxaguada na fonte do mais lídimo e justificável orgulho pátrio que nesse glorioso e histórico instante compartilho com meus abnegados fãs dos quatro cantos desse mundo tão plano quanto uma bola de futebol bem cheinha este maravilhoso vídeo do BOTA PONTA Podcast diretamente de Times Squares, New York City. As pessoas da equipe do BOTA PONTA, todos extremamente competentes, dedicados e desmesuradamente generosos, como soem ser, falaram de meu trabalho de desenhos, pinturas e textos com raro e extremado carinho. O mesmo posso dizer das palavras tão gentis e afetuosas que reservaram para falar da pessoa desse quase modesto artista, corintiano purple, um filho de Candeias, urbe dessa afrobaiana terra chamada Bahia. Gostei tanto da homenagem que euzinho, entusiasticamente, resolvi comemorar sorvendo em gulosos haustos uma loura gelada celebrando tão marcante feito numa festa imodesta como esta pra homenagear aquele que empresta sua testa e olhos e mãos para criar desenhos, textos e pinturas. Obrigado aos responsáveis pelo BOTA PONTA Podcast por me afagar o ego e proporcionar este sentimento de intensa e radiante alegria que, felicíssimo, aqui compartilho com meus amigos e admiradores de meus trabalhos. Axé, amantes do futebol e das Artes! Axé, BOTA PONTA Podcast!  

27 outubro 2022

Ôniyllini e Adolf Udeu Obrazil


 

Eeíções 2022 em SP, milícias e o que está em jogo.


 

Eleições do dia 03/11: uma pesquisa fundamental para ajudar os ainda indecisos

Essa bem formulada pesquisa está circulando pelas redes sociais e ajuda em muito eleitores indecisos.  Não há como nos esquecermos que a Folha de SP, um ícone da grande imprensa, já postou que escolhas políticas entre esses lados extremamente diferençados, totalmente distintos, são "escolhas difíceis." É... são extremamente difíceis, e é preciso pensar muiiiiito, imprensa das Zelites e senhores jornalistas cooptados. Ora, por que vocês não vão pra pauta que os pariu, seus vermes?

"1 - Você concorda com o fim da correção dos salários?

( ) Sim 22

( ) Não 13

2 - Você concorda com a extinção do FGTS?

( ) Sim 22

( ) Não 13

3 - Você concorda a redução dos salários dos aposentados?

( ) Sim 22

( ) Não 13

4 - Você concorda com o fim do direito a férias para os trabalhadores?

( ) Sim 22

( ) Não 13

5 - Você aceita dar parte do seu salário para o Presidente comprar imóveis em dinheiro vivo (rachadinhas)?

( ) Sim 22

( ) Não 13

6- Você concorda com o sigilo de 100 anos para que ninguém tenha informações sobre a corrupção do governo?

( ) Sim 22

( ) Não 13

7- Você concorda com desvio de dinheiro da educação para comprar barras de ouro para pastores amigos?

( ) Sim 22

( ) Não 13

8- Você acha certo pagar 400 milhões de dólares para policiais amigos que intermedeiam a compra de vacinas?

( ) Sim 22

( ) Não 13

9- Você acha certo atrapalhar as investigações de crimes cometidos pelos filhos do presidente?

( ) Sim 22

( ) Não 13

10 Você acha certo promover o garimpo ilegal em terras indígenas e colocar fogo nas florestas destruindo a Amazônia?

( ) Sim 22

( ) Não 13

11 - Você acha normal ter 33 milhões de brasileiros passando fome todos os dias?

( ) Sim 22

( ) Não 13

12 - Você concorda com a prisão de pessoas que se manifestam com o presidente?

( ) Sim 22

( ) Não 13

14 - Você acha justo retirar dinheiro da merenda escolar para dar aos amigos do Centrão fazerem farra?

( ) Sim 22

( ) Não 13

15- Você aceita o fascismo e o fim da democracia?

( ) Sim 22

( ) Não 13

16- Você acha correto pintar um clima entre um homem de mais de 60 anos e uma adolescente de 13 ou 14 anos?

( ) Sim 22

( ) Não 13

17- Você acha correto ameaçar uma mulher de estupro e chamá-la de vagabunda?

( ) Sim 22

( ) Não 13

18- Você aceita participar de um ritual de canibalismo?

( ) Sim 22

( ) Não 13

Chegou a hora de decidir de que lado você está."

23 outubro 2022

FINITUDE/ Setubardo

Essa moça tece a teia
Que minh'alma inerme enleia.
Dela fugir procuro 
Qual o diabo da cruz
E quando me creio seguro...
Olha ela aí, meu Jesus!
C'est fini a calmaria.
Tornados, borrascas, procelas,
Tufões, ciclones, querelas,
Psique em desarmonia.
( 010810)

18 outubro 2022

O cantor Gerônimo, a escritora Aninha Franco, eu e um dos milhões de gaiatos da Bahia


A cada passo um gaiato nato que nos atormenta o dia-a-dia e eis aqui a cidade da Bahia. Meu caro Boca do Inferno, se nações outras deste vasto mundo necessitassem desesperadamente de gaiatos e a Bahia tivesse permissão para exportar tipos que tais, daqui eles sairiam às toneladas acondicionados em infindáveis contêineres, e teríamos um PIB tão elevado que ricos seríamos todos neste afrobaiano torrão. Ser gaiato é qualidade inerente à grande maioria dos baianos. E um sujeito sério como eu não tem vida fácil nesta terra. Por exemplo, quando vou ao Pelô, gosto de almoçar no Restaurante Axêgo. E o sacripanta que é dono do local - cujo nome aqui não declinarei para não dar ousadia - ao me ver chegar me recebe invariavelmente de duas formas. Se estou com meus longos cabelos presos em rabo-de-cavalo, com um largo sorriso grita para mim lá detrás do balcão: "Gerônimo! Seja bem-vindo!", fingindo se equivocar. Depois complementa, com aquele sorrisinho sacana, que eu e o cantante de "Agradecer e abraçar" somos um o focinho do outro, esculpidos e encarnados ou cuspidos e escarrados, como preferirem. Menas verdade, diria nosso amado Presidente Lula. Tenho em casa um espelho que está comigo há muitos lustros - lustros na idade, no espelho nem tanto assim. Esse espelho é de minha inteira confiança, nunca falta com a verdade, por isto mesmo sempre enche minha bola e me afirma que estou a cada dia mais parecido com o Brad Pitt, com o Alain Delon de 30 anos atrás. Já Jerônimo, muito me pesa dizer que seu único e indiscutível atributo de beleza está na pena que costuma usar no alto do cocoruto a título de adereço. Então, prefiro dar um voto de confiança na sinceridade do meu espelho que tem relevantes serviços prestados a este vivente que vos escreve estas mal digitadas linhas. Ah, a segunda forma: se chego ao Axêgo com meus cabelos soltos, as melenas levemente onduladas livres ao vento qual um indômito silvícola alencariano de olhos garços, o tal proprietário me saúda gritando: "Aninha Franco! Que bom lhe ver!" Aninha se alguém ainda não sabe, é dramaturga e escritora entre outros pendores que ostenta. Admiro seu intelecto, mas ser sósia dela não é exatamente o que almejei para mim na vida. Entretanto uma coisa já constatei: quando - segundo o gaiato em questão - "estou" Jerônimo não consigo a façanha de ter mulheres me olhando com os zoim compridos cheios de quebranto, promessas e desejos inconfessáveis. No entanto quando "estou" Aninha Franco, costumo abiscoitar para meu harém algumas núbias curvilíneas e gringas com sardas, queimadinhas de sol e cheias de love to give, sendo que já recebi inúmeros torpedos de morenas frajolas nativas, que mulher baiana quando está a fim de alguém não é de muitos pudores, formalidades e etiquetas. Por via das dúvidas, agora ando sempre de cabelos soltos Pelô afora. E mesmo quando o supracitado sacripanta ao me ver passar sob seu balcão grita para mim: "Aninha Fraaaanco!", respiro fundo, sigo em frente o meu caminho com a tranquilidade de quem está numa boa e nem tchum pra ele. Mais importante é meu harém.
(060414)

16 outubro 2022

Fernando Pessoa, Caetano Veloso, a poesia, a necessidade de navegar

"Navigare necesse est, vivere non necesse", disse-o, embarcando em sua galera, sem demonstrar um mínimo temor diante de assaz proceloso mar, o intimorato general romano Pompeu, segundo escritos de Plutarco, que não era homem de articular falácias biográficas. "Navegar é preciso, viver não é preciso". Grande Pompeu! 
Tempos depois ninguém menos que o bardo Fernando Pessoa usaria a frase de Plutarco como título de um poema seu e, com propriedade, a citaria em seus fernandopessoanianos versos dando-lhe um charmosíssimo acento português, que é como a conhecemos no Brasil, tendo sido até perpetuada por Caetano Veloso em um belíssimo fado de inebriante melodia, sendo a canção ricamente embalada por plangentes guitarras portuguesas, tendo o divino e maravilhoso compositor brasileiro escrito para seu fado uma letra belíssima, instigante, que muitas cantoras portuguesas bem sabem interpretar. Certamente por desta forma a conhecermos, pletoras de gentes acreditam ser a autoria da frase fruto da mente do genial poeta lusitano. Em verdade, Fernando Pessoa apenas usou o dito de Pompeu para criar uma feliz paráfrase: "viver não é necessário, o que é necessário é criar". Quanto à necessidade de navegar, sou - qual Pompeu - um destemido e arrojado e nauta mas, copiosamente precavido, me limito a singrar mares menos procelosos - os virtuais - como se os de Netuno fossem pois, como dizem, o seguro morreu decano. Ou para melhor dizer, “insurance mortuus est veteranus”, já que qualquer citação fica mais credível se pronunciada em latim. Mesmo que em um latim apócrifo, canhestramente redigido por um escriba estulto consultando um providencial Google Translator.
****A cantora lusitana Gisela João cantando lindamente o fado "Os Argonautas", letra e melodia do compositor baiano Caetano Veloso.
(310512)

08 outubro 2022

07 outubro 2022

O nacionalismo cristão reacionário, a extrema direita, o fascismo

"Não são as pesquisas que erram, mas sim os analistas que falham em reconhecer as complexidades de um Brasil imerso no nacionalismo cristão.

 NÃO ADIANTA MAIS discutir os evangélicos nessa eleição. Não é mais sobre eles que devemos nos debruçar – é sobre a consolidação do nacionalismo cristão reacionário, que emergiu como ideologia política da extrema direita global, descolada do fascismo tradicional. É nesse movimento que o Brasil está.

Também não há erro nas pesquisas eleitorais. É óbvio que houve um fosso entre o que se projetou e o que se viu na apuração. Mas elas captaram o momento e, uma vez que apenas a porcentagem de votos de Jair Bolsonaro divergiu muito do esperado, a chave para a compreensão dessa diferença está no que permitiu mover a intenção de voto a seu favor.

É saber o que não foi visto. Talvez tenha havido menos equívocos nas pesquisas do que erros na leitura e interpretação do contexto político. Jornalistas, analistas e comentaristas se apegaram a uma forma possivelmente arcaica de interpretação das sondagens. Se prenderam a variáveis tradicionais que cruzavam com os dados e pronto. Uma leitura que, ao que tudo indica, não funciona mais diante de cenários tão complexos quanto o atual.

Mesmo a categoria “evangélicos”, hoje tão em voga, custou a ser uma “variável” levada a sério e, quando passou a ser, suas atitudes e anseios eram resumidos basicamente à “pauta moral”, à “ausência do estado” e à “influência das lideranças evangélicas midiáticas”. No máximo, admitia-se: “evangélicos não são um grupo monolítico”.

Enquanto isso, a extrema direita no Brasil ascendeu sem ser citada, debatida em rede nacional ou sequer entrevistada. Sem profundidade – não por incompetência, mas pela limitação imposta por um tema complexo do qual se sabia pouco ou nada –, os analistas se ativeram ao trivial. As análises olhavam (e ainda olham) em grande parte para o agora, para momentos estanques, que não encontram conexão com um processo que permaneceu em movimento.

A vitória de Bolsonaro em 2018 inseriu o Brasil institucionalmente em uma articulação global de extrema direita “amenizada”, com foco na família e nos valores cristãos conservadores, inspirado no nacionalismo cristão dos Estados Unidos como ideologia política. Esse movimento que voltou a florescer por lá avança no Brasil ainda camuflado de um conservadorismo “evangélico” ou “católico”, que teria como única preocupação a moralização da sociedade. Não havia jornalistas e analistas para discernir as dissimulações da extrema direita e dar nome aos bois.

 Portanto, há anos que a questão já não é sobre os evangélicos. É sobre como o país adentrou um movimento global. Sobre como Eduardo Bolsonaro costurou relações com a extrema direita dos EUA, com muitos políticos e figuras abertamente identificados com supremacistas brancos, participando dos principais eventos que, lá, são divulgados como conservadores mas, na prática, reúnem várias referências e ideólogos das chamadas far-right  e alt-right. Também é sobre como recuperaram o Israel reacionário, idealizado como “nação escolhida”, servindo de referência para uma ideologia que justificasse o Brasil autoritário e moralista, “abençoado por Deus”.

É como o governo Bolsonaro se juntou ao círculo de Viktor Orban, primeiro-ministro da Hungria, que se tornou uma espécie de “guru” e transformou o país no principal referencial de governo de extrema direita no mundo, ostentando um nacionalismo cristão, autoritário, mas muito bem dissimulado em sua política de valorização da família, da identidade nacional e dos “valores ocidentais”.

O ministério conduzido por Damares Alves foi profundamente influenciado pelo programa de Katalin Novák, ex-ministra da Família húngara e hoje presidente do país. As relações e parcerias ideológicas feitas por Damares e Ernesto Araújo não foram monitoradas o suficiente para darem a devida noção do que estavam construindo no Brasil em termos de fundamentalismo transnacional.

Quase nada disso recebeu a devida atenção ou foi alvo de análises abrangentes. Peguemos como exemplo a participação de Damares na 3ª Cúpula da Demografia de Budapeste, capital da Hungria, em 2019. Sob a máscara da discussão do “valor da família”, o Brasil se fez representar numa convenção internacional em que, na prática, se discutia restrições à imigração e um país de povo “puro”.

Vale-tudo não pode ser ignorado

Esse protagonismo nas relações internacionais ultraconservadoras não aconteceria sem um ambiente de acolhimento às ideologias reacionárias no país. A extrema direita estava navegando desde 2018 a fortes ventos na política brasileira. Em nenhum lugar do mundo um grupo nesse nível de reacionarismo fascista entraria com tanta facilidade no Senado em uma única eleição.

O “espírito” foi soprado antes – e há lavajatismo e antipetismo aqui. Com “espírito”, eu me refiro ao pano de fundo do contexto no qual chegamos, que quase nunca é evocado por analistas e comentaristas. A “nova geração” de jovens de direita que surgia e se articulava ainda durante o primeiro mandato de Lula, reivindicando o neoliberalismo e, ainda, um ultraliberalismo para a política econômica brasileira foi o movimento incipiente desta reação.

Obviamente, nada se resumia à economia, mas à insatisfação de um plano de governo que abria os “espaços privilegiados” do país  para as classes populares. Este ressentimento esperou, concentrado, até que o escândalo do mensalão e a adesão à operação Lava Jato por grande parte da classe média brasileira desse nova tração à hostilidade que se transformou em antipetismo.

O salto de Bolsonaro entre as pesquisas e o 1º turno não será explicado olhando com desconfiança para os evangélicos.

Assim, o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, com direito a votação de parlamentar homenageando torturador da ditadura militar, abriu de vez o caminho para a radicalização de extrema direita, que se considerava contrária à “velha política”. Uma extrema direita ultraliberal que encontrou uma extrema direita religiosa, dando o caldo para o movimento que nos colocou no meio do lamaceiro.

Mas grande parte da imprensa – aquela preocupada com a democracia, claro – preferiu publicar os “insights” de seus comentaristas do que se aprofundar nas complexidades que envolviam essa transição, com a nova gramática que a extrema direita e o nacionalismo cristão traziam.

Assim, “extrema direita”, “nacionalismo cristão”, “reacionarismo”, “alt-right”, “fundamentalismo transnacional” e “algoritmos” nunca entraram na análise, com raríssimas exceções e nunca no mainstream midiático. Restrito a poucos especialistas, esse mapeamento e sua divulgação e exposição no espaço público faria uma diferença considerável no diagnóstico do momento atual.

No Brasil, mostrou-se muito ineficaz e pouco assertivo olhar pesquisas e analisar política sem que esses novos marcos fossem considerados. Provavelmente, a mobilização de votos e o convencimento dos eleitores estavam atravessados por eles também. A capacidade de reação do bolsonarismo para fazer Bolsonaro dar um salto significativo desde a última pesquisa do Datafolha, que o colocava com 36% no primeiro turno, não será explicada nem buscando erros nas sondagens, nem olhando com desconfiança para os evangélicos. A habilidade de mobilização e articulação da extrema direita (principalmente por criar uma situação de vale-tudo) não pode ser ignorada.

Os esforços de organizações e fundações de fortalecimento da democracia que investiram financeiramente em iniciativas evangélicas progressistas foram louváveis. Mas o que elas podem fazer sem referencial teórico, formação, mapeamento, cruzamento de dados? Nada. Bolhas. “Conversar com os evangélicos” não surtirá efeito agora.

Obviamente, o segmento evangélico é numeroso e relevante. É evidente que ele deve receber atenção e ser ouvido (e procurado). Mas é um erro ver nesse grupo a parte da sociedade que deve ser “convencida” de que Bolsonaro representa a extrema direita e está afundando o país em uma ideologia política reacionária perigosa.

Tem que se conversar com e para a sociedade e desarmar esse arcabouço ideológico, desfazer a captura do sentido da vida pela extrema direita. Enquanto ideologia, o nacionalismo cristão nem de longe está circunscrito aos evangélicos. Não é religião. É política, a pior delas."                                                                                                        Esta importantíssima análise é da autoria de Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, ativista, pastor auxiliar na Comunidade Batista em São Gonçalo, autor de "Ocupar, Resistir, Subverter" (2016) e "Teologia Negra: O sopro antirracista do Espírito" (2019); mestrando em teologia no Union Theological Seminary (Columbia University) em NY.                                https://theintercept.com/2022/10/07/conversar-com-os-evangelicos-nao-surtira-efeito-agora/

06 outubro 2022

De um lado, os aiatolás neopentecostais e seus milhões de fanatizados. Do outro, a voraz extrema direita. No Brasil o buraco é muito, muito mais em baixo do que se pensa.

“Bolsonaro tem aliados neofascistas radicais organizados na Europa, diz eurodeputada."                                                                                                                                   Ana Miranda destaca articulação global da extrema direita e laços entre presidente brasileiro e o partido espanhol Vox                                                                              Jair Bolsonaro (PL) não está sozinho em sua cruzada reacionária. O presidente brasileiro tem uma "agenda comum" e aliança com o Vox, partido espanhol que é negacionista da emergência climática, antivacina e anti-imigrante. A avaliação é de Ana Miranda, deputada do Parlamento Europeu pelo Bloco Nacionalista Galego, da Espanha."Eles têm aliados no Parlamento Europeu, que é a extrema direita, e nomeadamente o partido Vox, que é amigo do Bolsonaro e são absolutamente neofascistas. Por que? Porque o neofacista hoje está organizado, compenetrado, coordenado e, sobretudo, tem uma agenda comum de relações internacionais e de apoio mútuo. Isso é preocupante", diz Miranda ao Brasil de Fato. "São antifeministas, são machistas, e eles têm umas políticas muita parecidas."Com 52 deputados, entre 349 possíveis, o Vox é o terceiro maior partido do Congresso da Espanha. A legenda de extrema direita faz oposição à coalizão que governa o país com o presidente Pedro Sánchez, formada pelo Partido Socialista Operário Espanhol e o Podemos.O presidente do Vox e deputado Santiago Abascal enviou um vídeo de apoio a Bolsonaro, compartilhado pelo presidente na véspera do primeiro turno. O registro teve mais de 340 mil visualizações no Twitter e Abascal afirma na mensagem que Bolsonaro é a "opção dos patriotas".Outras lideranças extremistas de direita também enviaram mensagens de apoio para Bolsonaro, como o ex-presidente dos EUA Donald Trump e o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán.Abascal já esteve no Brasil e se reuniu com o presidente em dezembro de 2021, no mesmo mês em que participou do Congresso Brasil Profundo, do Instituto Conservador-Liberal, criado pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Em 2020, a liderança do Vox fez uma live com Eduardo Bolsonaro em que defendeu a teoria da conspiração do "marxismo cultural".Reportagem do El País descobriu que o Vox usou recursos públicos para financiar um documentário contra o Foro de São Paulo, apesar de defender uma diminuição do gasto público. Por meio da Fundación Disenso, diversos convidados, incluindo Eduardo Bolsonaro, atacam a esquerda e o ex-presidente Lula (PT).                                https://operamundi.uol.com.br/politica-e-economia/76986/bolsonaro-tem-aliados-organizados-e-neofascistas-na-europa-diz-eurodeputada

30 setembro 2022

Bota Ponta Podcast: Coach Lyu e Wilson Egídio, craques no Futebol e nas Artes, diretos de New York talking about Paulo Setíbal

Blogueiros renomados têm milhões de seguidores que avidamente sorvem cada palavra que escrevem, seja a verdade mais verdadeira ou a bullshit mais bullshit, veem e compartilham os vídeos postados. Este bloguito aqui é bem mais modesto mas ainda assim atinge um qualitativo número de amigos que da mesma forma que eu amam sobejamente o Futebol e as Artes em geral, sobretudo as plásticas e as gráficas. Meu amor por Futebol e Artes vem desde minha infância e sempre me levou a me identificar com quem traz em si essas mesmas paixões, que é o que sói acontecer com a maior parte dos amigos mais chegados com quem tenho costumeiros longos papos, como é o caso do meu amigo de décadas, Wilson Egídio, ex-jogador de futebol, atual coach nos EUA, um grande admirador das Artes Plásticas, motivo que nos aproximou. Através de Wilson fiz um novo velho amigo, o Coach Lyu. Cito ambos bem a propósito vez que estão apresentando pelo Youtube um podcast de altíssima qualidade chamado Bota Ponta Podcast. Sem terem grandes patrocínios ou uma produção milionária conseguem realizar o podcast com um indiscutível e elevado bom gosto e amor ao futebol, falando do tema com seriedade, propriedade, com profundo conhecimento de causa, honestidade profissional, coerência e um astral elevadíssimo que transmitem através do grande carisma que a dupla possui. Como se não bastasse tanto, eles vão além do futebol reservando parte do podcast para, entre outras cositas, falar e mostrar maravilhosos trabalhos feitos por artistas da pintura e do desenho. Para meu gáudio, para dilatar ainda mais meu já inflado ego, eis que eles dedicaram um dos vídeos para mostrar e comentar, com generosas palavras, o trabalho que tenho realizado como artista plástico, ilustrador, cartunista, desenhista de história em quadrinhos, caricaturista e mesmo os claudicantes mas insistentes passos que procuro dar no artesanato da escrita. Transitar, ainda que assaz modestamente, por tantas artes me permite fazer uma analogia com certos jogadores de futebol batizados de coringas, assim chamados por trazerem em si polivalência, por se amoldarem, se adaptarem sem maiores esforços para jogarem com alto rendimento em mais de uma posição dentro de um time de futebol. Se inquirido, Wilson Egídio responderia na lata que o mais emblemático dos coringas foi um admirável jogador chamado Lima, integrante do time do Santos da era Pelé. Excetuando o chamado arco ou meta, Lima jogava e matava a pau em todas as posições. Sempre tive profunda admiração por esse craque e, ainda que inconscientemente, devo ter parte de meu modus operandis na carreira artística inspirada em Lima. E vamos ao vídeo, galera. Acompanhem o Bota Ponta Podcast, comprovem o excelente trabalho Lyu-Wil, deem like, inscrevam-se e se deliciem a valer.

Bota Ponta Podcast em react a vídeo com Luxemburgo e Vampeta, equívocos no futebol brasileiro e um Zagalo inovador.

Nove entre dez "jênios" da nossa "jenial" crônica de esportes nas mesas redondas e resenhas desportivas das TVs falam de boca cheia que Vanderlei Luxemburgo é um técnico ultrapassado e querem sepultar sua vitoriosa carreira. Quiçá aquele seu visual pretensamente europeu de terno e gravata contribuísse para dar a Luxa um ar old fashion e ele, que se coça todo cada vez que ouve a palavra "ultrapassado", resolveu mudar seu look, ao menos nesse programa em que houve por bem aposentar a velha fatiota que cedeu lugar a um belo casaco em cores da moda que o deixaram positivamente jovial. O Bota Ponta Podcast produziu um react às falas e conceitos de Vanderlei em que comentam que a realidade não é bem esta, que Vanderlei não desaprendeu e, a bem da verdade, formulou ideias com muita lógica, bastante atualizadas e sensatas que merecem ser ouvidas, analisadas e mesmo assimiladas. O Profexô tem lá seus escorregões em sua trajetória, mas é inegável que sabe mesmo muito de futebol e, ao contrário do que alardeiam os PHDs das resenhas de TV, ele segue vivo, com muito a oferecer. Confiram no vídeo do Bota Ponta e digam o que pensam. Ah, não esqueçam de dar like e de se inscrever no canal.

 

25 setembro 2022

Mulher de Libra no Horóscopo de Vinicius de Moraes

A mulher de Libra
Não tem muita fibra
Mas vibra
Quer ver uma libriana contente?
Dê-lhe um presente.
Quando o marido a trai
A mulher de Libra
balança mas não cai.
Se você a paparica
Ela fica.
Com librium ou sem librium
Salve, venusiana
Que guarda o equilíbrio
Na corda mais fina.
(121013)

22 setembro 2022

Mulher de Virgem no Horóscopo de Vinicius de Moraes

Se Florence Nightgale era Virgem
Não sei...mas o mal é de origem.
A mulher de Virgem aceita a amante
Isto é: desde que não a suplante.
Sexo de consumo, pães-de-minuto
Nada disso lhe há de faltar
O condomínio é absoluto
A Virgem é mulher do lar.
Opala, safira, turquesa
São suas pedras astrais
Na cuca, muita esperteza
Na existência, muita paz.

18 setembro 2022