25 maio 2019

Roberto Ferri, pintor italiano: um pouquinho mais de sua arte instigante.

Em postagem anterior brindei você, meu cordialíssimo e sapientíssimo leitor, com uns belíssimos trabalhos de um pintor italiano ainda jovem mas extremamente habilidoso no manejo dos pincéis e tintas que segue uma linha clássica de pintura. O nome do ragazzo é Roberto Ferri, um cara veramente meraviglioso. A galera que acompanha este troppo piccolo blog curtiu muito os instigantes trabalhos do itálico pintante. Adesso volto a carga com mais uma dose do talento do signore Ferri para degustação geral da nação. Links até o trabalho de Ferri: http://www.robertoferri.net/ e http://robertoferripittore.blogspot.com/ . Auguri.
(121214)

Esta pena é de morte / Humor de Graça

Florbela Espanca, a Mensageira das Violetas

Quando músicos talentosos decidem-se por fazer uma parceria com poetas maiores, o resultado costuma ser agradável ao extremo. Como quando o cantor e compositor Fagner musicou um lindo poema da maravilhosa Florbela Espanca. A bela melodia por ele criada amalgamou-se com a bela poesia d'a Mensageira das Violetas tornando-se canção popular que milhões cantam pelo Brasil e, acredito, também em Portugal e alhures: "Minh'alma de sonhar-te anda perdida. Meus olhos andam cegos de te ver!" Uau! Florbela Espanca, alentejana, sempre me encantou pela sua poética delicada, ousada, forte, corajosa, inovadora, transgressora, rica, doce e fundamentalmente feminina. Estes predicados aê cabem todos na definição da própria Florbela que abria seu peito nu e libertava um vulcão de sensações e sentimentos que certamente caíam como uma bomba no conservadorismo lusitano do início do século passado. E Florbela, o lirismo e a coragem em pessoa, gritava a todos seu orgulho de ser mulher e de amar como tal. Da carne à alma. Dela, estes versos de deixar babando quem na alma traz a poesia:
O maior bem
Este querer-te bem sem me quereres,
Este sofrer por ti constantemente,
Andar atrás de ti sem tu me veres
Faria piedade a toda gente.
Mesmo a beijar-me a tua boca mente...
Quantos sangrentos beijos de mulheres
Pousa na minha a tua boca ardente,
E quanto engano nos seus vãos dizeres!...
Mas que me importa a mim que me não queiras,
Se esta pena, esta dor, estas canseiras,
Este mísero pungir, árduo e profundo
Do teu desamor, dos teus desdéns,
É, na vida, o mais alto dos meus bens?
É tudo quanto eu tenho neste mundo?
(28/01/14)

07 maio 2019

Ademar Gomes: o escritor, nos revela as normas sagradas que um dedicado Puxa-Saco deve seguir.

NÃO IMPORTA O QUE VOCÊ ESTEJA FAZENDO, NEM COM QUEM. UM CHAMADO DO CHEFE É COISA SAGRADA E UM PUXA-SACO CONSCIENTE TEM QUE LARGAR TUDO PARA ATENDER SEU IDOLATRADO SUPERIOR.
No hilário e revelador MANUAL DO PUXA-SACO, livro escrito por Ademar Gomes, vislumbramos que seu olhar de jornalista atento, presente em cada um dos seus textos, é um agradável apanágio que se nos apresenta amalgamado a um outro, seu humor feito de refinadas ironias. Através deles nos conscientizamos de que - digam o que queiram dizer os maledicentes de plantão - a vida de um Puxa-saco nem sempre é um mar de rosas, um lago de perfumadas gardênias, uma fonte de delicadas orquídeas, um oceano de alvissareiros lírios-da-paz A felicidade pessoal é algo que deve ser preservado, mas acima dela - e bem acima de tudo o mais - está a vontade do amado chefe. O chefe é uma sacrossanta instituição que garante as refeições diárias e o padrão de vida almejado por um Puxa-saco de valor e suas vontades devem ser atendidas incontinente, sem indevidos questionamentos, injustificáveis alegações e inaceitáveis excusas.
**********Quando recebi o texto original de MANUAL DO PUXA-SACO, esta basilar obra de Ademar "Professor Bandeira" Gomes, não pude me conter e li-o de um só fôlego, tão deliciosos eram os escritos de Ademar. Aí então, lesto e presto, esbocei todas as ilustrações usando grafite 2B sobre papel Opaline 180 g. Incontinente, arte-finalizei todos os desenhos com uma dócil canetinha de ponta porosa e indiquei o meio-tom em papel vegetal. Curti à beça o texto hilariante de Ademar e, qual um Narciso soteropolitano, curti também as ilustrações que fiz para ele.
(311218)

Os requisitos fundamentais para quem quer ser um competente Puxa-saco, segundo o escritor Ademar Gomes.

UM PUXA-SACO TEM QUE SER IMAGINATIVO E ENGRANDECER A PLANGENTE PERFORMANCE SEXUAL DE SEU SAGRADO CHEFE.
O criativo e hilariante texto contido no livro MANUAL DO PUXA-SACO, do escritor e jornalista Ademar Gomes, é de imprescindível leitura para os que nestes tempos bicudos almejam sofregamente assomar o pedestal da dignidade puxa-saquística e se regalar com os proventos daí advindos. Só mesmo um escritor com a sagacidade de Ademar para vislumbrar e nos explicar de forma clara e definitiva os imperscrutáveis meandros contidos no puxassaquismo pátrio. Um deles reza que o Puxa-saco digno tem que possuir o dom de engrandecer os feitos do amado chefe, por mais liliputianos que sejam o chefe e seus atos.
**********Quando recebi o texto original de MANUAL DO PUXA-SACO, esta basilar obra de Ademar "Professor Bandeira" Gomes, não pude me conter e li-o de um só fôlego, tão deliciosos eram os escritos de Ademar. Aí então, lesto e presto, esbocei todas as ilustrações usando grafite 2B sobre papel Opaline 180 g. Incontinente, arte-finalizei todos os desenhos com uma dócil canetinha de ponta porosa e indiquei o meio-tom em papel vegetal. Curti à beça o texto hilariante de Ademar e, qual um Narciso soteropolitano, curti também as ilustrações que fiz para ele.

(311218)

Pincel seco e falsa xilogravura em quatro ilustrações feitas por Setúbal.

UMA HISTÓRIA EM QUADRINHOS. Ilustração para um caderno cultural esboçada com grafite 2B, arte-finalizada com um pincel Winsor & Newton number 2 e nanquim Talens, procurando fazer um jogo visual com o branco do papel. Também usei um pincel já velhinho que, igual a um trabalhador brasileiro, não tem direito à aposentadoria. Nele, umas poucas gotas de nanquim para dar esse efeito de pincel seco, técnica que muito aprecio. Clicando sobre cada uma das ilustrações, proeminente leitor, você as verá ampliadas.
CONSULTANDO O AURÉLIO. Arte feita em fakexilo ou fêiquexilo, que é uma falsa xilogravura das mais legítimas. Embora o resultado final lembre de fato uma xilogravura, aquelas que são feitas em madeira esculpidas exaustivamente com goivas, a fakexilo - neologismo que uso para nominar essa técnica antiga - é um desenho feito em um papel de cor preta, preta, pretinha, sendo trabalhado comodamente com guache branco sobre um esboço a lápis. Os tons cinza foram colocados ao final no Photoshop apenas para fazer sobressair a figura que está em primeiro plano.
CAHIERS DU CINÉMA. Esboço feito com grafite B, arte-final com caneta nanquim, pincel 02 e nanquim Talens.
ADEMAR GOMES, UM SÁBIO. Uma das muitas caricaturas que fiz do escritor, jornalista e editor Ademar Gomes, aqui visto no centro da ilustração cercado por duas tabagísticas figuras da política baiana. Desenho feito com grafite B, arte-finalizado com caneta nanquim. Um pouco de Photoshop foi usado para fazer o fundo cinza na intenção de deixar mais soltos os intrépidos personagens.

03 maio 2019

Mirando Carmen Miranda

 
Os deuses das artes de século em século nos mandam pessoas cujo talento artístico está acima, muito acima dos demais. Carmen passou pelo mundo de há muito mas ninguém esquceu sua arte marcante, original e insuperável. Até hoje sua imagem e sua criatividade aparecem em filmes feitos nos mais diferentes países por admiradores incondicionais. Ela está em um filme do genial Woody Allen, na abertura de um dos filmes da série Pantera Cor de Rosa com o incomparável Peter Sellers, em um belo cartum da Betty Boop ou do Tom & Jerry, Bob Esponja ou em tantos mais . Taí, você fez tudo pra gente gostar de você, Pequena Notável. E com prazer milhões de pessoas tinham mesmo que lhe dar seus corações. Eu incluso. Por isto mesmo a todo instante estou traçando, desenhando, pintando sua figura carismática tão admirada por povos de todo o orbe numa homenagem modesta mas plena de sincera admiração. Tudo porque ai ai ai ai ai ailaiqueiú verimuche iú ar tu tu tu tu tu divaine.

Ariosvaldo Matos, um grande escritor ( Trechos da crônica Por quem os sinos dobram, de Ademar Gomes )

"Com a morte de Ariosvaldo Matos desapareceu não apenas um jornalista que honrou a classe pela competência e caráter e que teve destacada participação na história da imprensa baiana, mas também um escritor de grande futuro, cuja carreira foi interrompida em plena fase de criatividade. Com efeito, embora tivesse escrito alguns livros importantes - Os Dias do Medo e Corta-Braço, entre outros - a atividade literária de Ariosvaldo Matos estava apenas no início, já que só pouco antes de morrer começou a se dedicar exclusivamente à literatura. Perdi um mestre, e mais do que um mestre um amigo. Uma amizade fraternal de longos anos, imune a mal entendidos e apesar de trilharmos caminhos quase totalmente opostos, ele dedicado à cultura, à humanidade, eu à porralouquice do mundanismo, ensimesmado no brilho fugaz de meu pequeno mundo. Costumávamos almoçar juntos quase todos os dias. Sozinhos ou com amigos comuns. Foram mais de trinta anos de convivência, de aprendizado, lições inesquecíveis. Ari nunca foi de enrustir conhecimentos. Ao contrário: sentia prazer em transmitir o que aprendera - e sem ares professorais. Sua humildade às vezes incomodava. Não a humildade do hipócrita, do vencido, mas a humildade consciente. PhD em comunicação, Ariovaldo Matos era capaz de escrever sobre qualquer assunto e sempre com a mesma desenvoltura - com formalismo num editorial, e com poesia numa crônica feita em cima da perna para tapar o buraco de algum colaborador ausente.Ari era um homem de diálogo, sabia escutar. Uma virtude rara - hoje e sempre. Era um homem simples, sério. E só pode sê-lo quem é forte. Ele era um forte. Enfrentou algumas vicissitudes ao longo da vida e a todas superou com altivez, sem lamúrias. Jamais importunou os amigos com seus problemas existenciais. Nunca confundiu sua vida profissional com a pessoal. Durante minhas andanças pelo mundo, mantivemos assídua correspondência. Toda semana escrevíamos um ao outro. Suas cartas eram lições de vida, de amor, e muitas delas me encheram de força, de esperança, para enfrentar o desespero dos primeiros meses em terras estranhas.
Avesso a formalismos, nem no seu aniversário Ari gostava de manifestações piegas. Bons amigos, papos inteligentes, bastavam para fazê-lo feliz. Tudo muito simples, à sua imagem e semelhança.
É pena que, até hoje, nenhum órgão cultural tenha se interessado em publicar livros seus inéditos. Esta, sim, a homenagem que Ariosvaldo Matos merece. Nome de rua, não. Nome de rua, no Brasil, até pilantra tem..."
(Publicado originalmente em 07/06/14)

Humor de graça / Dedo-duro dedicado





Humor de graça - Deputados com elevada consciência


Humor de graça - Tem um maluco me olhando no espelho


Humor de graça / Seio muito bem



13 abril 2019

Woody Allen, o cartunista Laerte, o artista plástico Flávio de Carvalho e o mundo dos crossdressers.

Estilistas, costureiros, bordadeiras, correi. É chegada a hora de tesourar, costurar e alinhavar para uma nova vertente que surgiu forte no mundo da moda: o crossdresser. Não que isso seja de fato coisa nova, na verdade a coisa vem de longe. No cinema, entre outras películas, o tema foi abordado pelo cineasta Woody Allen ainda nos anos 70 em um filme intitulado "Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo e não tinha coragem de perguntar". Nele, um sisudo pai de família tem o incontrolável impulso de vestir-se às escondidas com as roupas da esposa, passando, assim trajado, horas a fio admirando-se no espelho. Aqui no Brasil, há já algum tempo, graças ao cartunista Laerte, o tema voltou à baila, já que este artista reivindicou para si - e conseguiu, com muita personalidade - o direito de se trajar em público com vestimentas até então consideradas de uso restrito ao mundo feminino. Curiosamente, vale lembrar que mulheres lutaram e ainda lutam muito para conseguir direitos que sempre lhes foram negados. Voto, cargos políticos, empregos, um mundo de coisa. Mas ao mesmo tempo sempre lhes foram franqueadas coisas que aos homens eram negadas, sempre puderam elas desfilar por ruas e ambientes com cabelos cor-de-rosa ou azuis ou verdes sem reações hostis dos varonis. Também nunca sofreram maiores constrangimentos ao usarem indumentárias tidas como sendo de uso exclusivo dos barbados, como calça comprida. Esta até que deu um pouco de trabalho para elas no início mas hoje é mais que normal. Comum é ver-se por aí belas evas envergando chapéus e ternos masculinos, com gravata e tudo. Mulheres acendendo puros em bares e até jogando sinuca sem jamais aparecer uma nega maluca dizendo que aquilo é uma aberração. Quanto aos homens, pobres homens. Tirando os escoceses e povos da Índia, homem com saia não tem vida fácil. Basta lembrar o grande alvoroço que causou o artista plástico Flávio de Carvalho em 1956 ao desfilar pelo Viaduto do Chá, em Sampa, seu Traje Tropical composto de saiote e mangas curtas, deixando estarrecida e indignada a patuleia da pauliceia. Uma multidão seguia atrás do performático artista, gritando agressivamente em seus ouvidos algo assim como: "Viaduto!" "Viaduto!" Sem colher de Chá. No fim das contas, pelo que eu li sobre personalidades brasileiras, quem estava certa mesmo era uma senhorita chamada Luz del Fuego, que não usava roupa masculina nem feminina, preferindo - a título de indumentária - usar sobre seu corpo desnudo apenas uma prosaica e confortável serpente viva. Uma autêntica snakedresser.
(15/03/13)

Deus e o tamanho do pingolim de Adão / Humor de graça

(04/03/2014)

11 abril 2019

Desenhos de Setúbal para trilogia de quadrinhos Em Terras Americanas

 
Antonio Cedraz, o aclamado Mestre baiano dos quadrinhos, emérito criador do personagem Xaxado, em uma dessas segundas-feiras de céu cinzento me telefonou e disse que o a Editora Cedraz tinha um projeto para fazer três histórias em quadrinhos aguardando o resultado de uma licitação da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. Falou que se o projeto fosse escolhido O Estúdio receberia recursos do Fundo de Cultura do Estado, que as chances de escolha eram grandes e, melhor ainda, que eu seria um dos participantes na feitura das HQs. Diante de tão alvissareira notícia o tom cinza do céu desvaneceu-se imediatamente para mim. Contou-me Cedraz que ele e Tom Figueiredo, escritor, argumentista e seu braço direito no Estúdio, haviam me escolhido para desenhar a trilogia batizada de Em Terras Americanas que seria realizada em uma linha diferente daquela dirigida para o público infantil habitualmente adotada pelo Estúdio Cedraz e que o tornou um desenhista admirado em todo o Brasil. O estilo a ser empregado seria aquele que costumeiramente se vê nas revistas de super-heróis em que os desenhistas mostram conhecimentos de anatomia e domínio de sombras e iluminação, movimentos, indumentárias, expressões fisionômicas. Passou-se um tempo e o melhor acabou acontecendo: o projeto do Estúdio Cedraz foi realmente selecionado. Agora restava apenas aguardar a chegada da verba oficial para podermos tocar o trabalho. Enquanto isso não acontecia tratei de intensificar meus treinos de desenho de anatomia, mergulhando em livros que tenho sobre o assunto, rabiscando em toneladas de papéis e procurando ver o que estava se publicando de novidade nos quadrinhos na linha pretendida, os conceitos mais em voga, os novos grafismos utilizados. Todo esforço e treino para aprender a desenhar corretamente a anatomia é pouco. Há que se empenhar muito, copiar dos livros adequados mãos, pés, pernas, olhos, narizes, bocas, fazer, refazer, treinar compulsivamente dias e dias buscando aprender tudo sobre cada músculo do corpo humano, movimentos, expressões fisionômicas. E há ainda as sombras, ângulos, enquadramentos diversos, entre otras cositas, detalhes que exigem uma dedicação e uma perseverança que existem somente nos que gostam muito de desenhar e pretendem melhorar o próprio desempenho. Por fim, Tom Figueiredo anunciou que havia chegado a hora de iniciarmos o trabalho que foi feito em uma equipe composta pelo próprio Tom, na qualidade de autor do argumento, do roteiro e até mesmo dos providenciais rafes, aqueles desenhos rápidos feitos para orientar os desenhistas de quadrinhos. De posse do material passado por Tom tratei de iniciar o trabalho de desenhar as mais de sessenta páginas que continham as três histórias de Em Terras Americanas e de suas respectivas capas, todas feitas em pranchas de papel em formato A3, como manda o figurino tradicional. Desenhar histórias em quadrinhos pode ser algo divertido e compensador, mas como já disse antes e repito agora, é também um trabalho árduo que exige uma boa dose de rigor, disciplina e uma dedicação exclusiva ou quase isso. Umas bronquinhas do Tom, também contam muito para a celeridade do processo. Vale dizer que o sempre presente trabalho da coordenação de produção foi fundamental também para que eu pudesse trabalhar com a necessária segurança e tranquilidade. Não sei dizer aqui o quanto demorei desenhando e artefefinalizando com nanquim a primeira das revistas, mas tão logo terminei passei incontinente para Vitor Souza, o colorista encarregado de enriquecer com suas cores as HQs, para que ele desse início à sua própria maratona colorindo sozinho as mais de sessenta páginas, uma equipe de um homem só. Enquanto Vitor coloria a primeira das revistas passei a desenhar e artefinalizar a segunda. E assim a coisa caminhou até que finalmente concluímos as três HQs para a alegria da equipe e para a felicidade geral desse povo varonil que com justificável júbilo oscula o auriverde pendão da minha terra que a brisa do Brasil beija e balança. Bom é saber que por terem sido publicadas com numerário advindo de verba oficial, as três revistas estão sendo vendidas por preço mais que acessível, sendo que a renda angariada será totalmente revertida em favor da ONG Centro Comunitário Batista Soteropolitano . Os amantes dos quadrinhos interessados podem adquirir por módicos R$12,00, todos os três exemplares de Em Terras Americanas ali na KATAPOW (Av. Octávio Mangabeira, Edifício Privilege, loja 7, Pituba) e na RV CULTURA E ARTE (Av. Cardeal da Silva, 158, Rio Vermelho), localizadas ambas nessa cidade de Salvador, Bahia, espaços especializados na venda do que há de melhor no universo dos quadrinhos (Um rápido e necessário PS: a loja KATAPOW já deixou de existir, mas a RV continua firme, para alegria dos quadrimaníacos). Os leitores que não moram em Salvador ou mesmo os que não têm tempo de passar em uma das lojas citadas, podem encomendar seus exemplares pela Internet enviando o pedido em e-mail para editora@estudiocedraz.com.br. Nesse caso o preço é R$18,00, com o frete incluso. Enquanto você não adquire seus exemplares, usando de minha proverbial generosidade, postei acima uma capa e duas páginas das HQs para permitir que você, leitor amado, possa aqui e agora prelibar alguns momentos de Em Terras Americanas. 

Humor de graça / A fé remove montanhas


Pirata da cara de pau / Humor de Graça

(05/12/13)

Falha na comunicação / Humor de Graça


05 abril 2019

Pedro Almodóvar, Liberdade, Sexualidade, Democracia e o Avanço da direita no mundo.

Pedro Almodóvar, no traço cinematográfico do cartunista e também ator J. Bosco.
O reacionarismo, o racismo, a homofobia têm macróbia existência no Brasil. Às vezes ficam embuçados nas sombras, ali bem escondidinhos, esperando a hora de mostrar suas caratonhas. Outras vezes saem à luz, falam de forma estentórea. Quando se sentem fortes, engrossam ainda mais as vozes, gritam alto, hostilizam, agridem e fazem tudo para subjugar os que deles discordam. Não somos só carnaval, futebol, mulatas malemolentes, gingado e samba no pé. Ideias e atitudes retrógradas foram sempre uma constante entre nós, brasileiros, coisa que muitos não soem imaginar e por isso costumamos desfrutar perante o mundo do conceito de sermos um povo de constante alma solar, cordato, aberto ao diálogo e receptivo à ideias progressistas. Péro las cosas não são bem assim, há uma abissal distância entre essa boa conceituação da qual desfrutamos, e o que de fato mostramos ser na prática cotidiana. No entanto, não temos exclusividade no que se refere a lamentáveis comportamentos reacionários. Não só o Brasil vem sendo atingido por uma crescente onda de retrocessos, de reacionarismos, fascismo, nazismo, totalitarismo, de políticas excludentes que privilegiam apenas e tao somente os já muito privilegiados, de graves ameaças vindas dos extremistas de direita. O cineasta espanhol Pedro Almodóvar, que em seus filmes recheados de ideias libertárias sempre defendeu a mais ampla liberdade de expressão artística e popular, bem como liberdade sexual e a Democracia como sendo ainda o melhor dos caminhos, mostra uma enorme preocupação com esse crescimento da direita no mundo. No recente Festival de Cannes ele deu entrevista falando sobre o assunto. Aqui, alguns trechos da entrevista:

Repórter: Como o Sr. vê o crescimento dos partidos de direita na Europa?
Almodóvar: Estou aterrorizado com o avanço da direita. Não tenho filhos, mas, se tivesse, ficaria preocupado com o destino deles, por temer um destino atroz para o mundo.
Repórter: Nos Estados Unidos, o magnata Donald Trump conquistou um espaço inesperado na campanha presidencial.
Almodóvar: Não quero sequer pensar na possibilidade de Donald Trump chegar à Casa Branca, pelo retrocesso que ele representa. A situação é preocupante no mundo todo. Nunca imaginei que manifestações contra o casamento gay e contra o aborto pudessem arrastar tanta gente na França. Para nós, espanhóis, a decepção com a França é ainda maior.
Repórter: Por quê?
Almodóvar: Os franceses têm um problema gravíssimo para resolver. Na Espanha, não temos um índice de crescimento tão significativo da direita. E digo direita civilizada. Não a extrema-direita da França, onde a Frente Nacional (FN), de Marine Le Pen, promete representar um perigo real na eleição presidencial de 2017. O país sempre foi um modelo de sociedade laica, além de ter sacudido os valores antigos com a revolta de maio de 1968. É uma pena constatar que a França não é o país que eu pensava. Tenho a sorte por ter crescido rodeado de mulheres que me inspiraram com sua força e me ensinaram a não ter preconceitos.
Repórter: Seus filmes refletem o momento político pelo qual a Espanha passava. Se "A lei do desejo" e "Mulheres à beira de um ataque de nervos" retratavam a extravagância do país recém-saído da ditadura militar, o que "Julieta" diz da Espanha atual?
Almodóvar: O filme representa um país triste, solitário e carregado de dor. Jamais poderia ter filmado "Julieta" nos anos 1980 ou 1990. Os tempos mudaram e eu também mudei. Enquanto minhas primeiras personagens saíam para a rua, para aproveitar a vida, Julieta é reclusa, passando quase todo o tempo em casa. Comparado aos anos de euforia, hoje sou mais introspectivo. Conforme o tempo passa, ele também se encarrega de trazer a nossa cota de dor, da qual ninguém escapa. 
Pergunta: "Julieta" é o seu filme mais econômico no que diz respeito às emoções? Isso também é resultado da experiência adquirida? 
Almodóvar: Para chegar a esse nível de contenção, é preciso experiência. Não só experiência de vida, mas profissional. Por ser meu vigésimo filme, eu me sinto maduro como diretor. Reduzir os elementos é muito mais difícil do que parece. Precisei usar planos simples, em que os atores faziam poucos movimentos, apostando tudo o que tinha em uma cartada só. O cuidado foi muito mais minucioso, para garantir que a cena tivesse força dramática, ainda que ninguém pudesse chorar.
Repórter: Incomoda o fato de a crítica ter se surpreendido com a abordagem contida de "Julieta", como se ela soubesse mais que o Sr. como deve ser uma obra de Almodóvar?
Almodóvar: O peso de ser quem sou só existe quando termino o filme e não durante a roteirização ou filmagem. Tomo as decisões com liberdade, sem considerar o mercado ou o espectador. Os fantasmas só aparecem na sala de edição. É nessa fase que começo a ter medo. Há sempre uma comoção no lançamento de meus filmes, o que não é bom, por aumentar as expectativas. Preferiria que o público assistisse a meus filmes mais relaxadamente, para poder avaliá-lo apenas pelo que ele é. 
Repórter: O Sr. diria que compreende melhor a vida por fazer cinema?
Almodóvar: Entendo melhor a mim mesmo. Obviamente, os meus personagens vão muito além de mim, embora eu esteja em todos eles. Muitas vezes os meus filmes representam espécies de premonição, antecipando situações com as quais vou me deparar algum tempo depois. 
Repórter: Pode dar um exemplo?
Almodóvar: Antes de "Mulheres" eu não havia jogado um telefone na parede(risos). A culpa que Julieta carrega, por ter fracassado como mãe, também ecoou em mim. Achei que já tivesse superado a culpa pela criação católica que recebi, mas não cheguei lá ainda. Por mais que eu tenha uma abordagem laica, sem pensar em céu ou inferno, passei a pensar no que fiz de errado, com quem fiz e como poderia assumir a responsabilidade e remediar.
(13/09/16)

Álex de la Iglesia, suas ótimas comédias e o melhor do cinema espanhol.

Sou dos que sentem um enorme prazer ao assistir um bom filme produzido pelo cinema espanhol. Um prazer já antigo, que sempre nos chegou, aqui no Brasil, através de cineastas como Luis Buñuel e seus filmes belos e questionadores, de Saura, e, em tempos mais recentes, de Fernando Trueba e Bigas Luna. Volta e meia, quando se faz necessário, o cinema da Espanha se recicla, ousando quando tudo parece ser acomodação e mesmice. Em 1991, um novo cineasta, Álex de la Iglesia, causou ótima impressão entre os espanhóis ao rodar um curta-metragem, Mirindas asesinas. Álex, valendo-se de curtos 12 minutos, brindou os cinéfilos com um humor contagiante, personagens hilários, um timing perfeito, mostrando quem ele era e a que veio. O público e a classe artística adoraram. Tão boa impressão ele causou que ninguém menos que o já consagrado cineasta Pedro Almodóvar decidiu financiar o primeiro longa-metragem de la Iglesia, através da vitoriosa produtora El Deseo, que Pedro divide com seu irmão, Agustín Almodóvar. Assim, com esse aval luxuoso e toda uma estrutura profissional à disposição, em 1993 foi rodada Acción mutante, uma divertida comédia, cheia de alternativas e inovações, bem escrita, interpretada e dirigida, que fugia aos filmes habituais, renovando a linguagem da comédia, propondo novos caminhos ao cinema da Espanha. Acción mutante, tendo sido um filme bem sucedido, propiciou a Álex a realização de novas e maravilhosas comédias, todas muito bem produzidas, as aberturas dos filmes graficamente bonitas, criativas e modernas sendo uma constante, efeitos especiais de primeira, um grande número de atores e figurantes sempre em cena, o que requer um diretor seguro e atento. Os argumentos, que fogem ao convencional, são sempre inteligentemente escritos por Iglesia, em grande parte assinados com o notável Jorge Guerricaechevarria, uma parceria de sucesso. Alicerçado por tanta excelência, o trabalho de direção de Álex de la Iglesia mostra ser feito com total competência e dinamismo, não permitindo ele que suas comédias tenham momentos de monotonia, nem resvalem para um humor barato, previsível. Álex sempre trabalha com excelentes comediantes, atores e atrizes versáteis, conseguindo que eles deem o melhor de si. Entre tantos notáveis estão Carmen Maura e Rossy de Palma, mundialmente consagradas pelas câmeras de Almodóvar, o superstar Javier Bardem, o sempre ótimo Santiago Segura, Álex Angulo, Sancho Gracia, Enrique Villén e a bela Carolina Bang, que tornou-se esposa do diretor. Uma comédia de Álex de la Iglesia é garantia de um humor de alto nível, gostosas risadas, muitas emoções e momentos de prazer. Aos espectadores, resta buscar em locadoras ou na internet, comédias como a cult El dia de la bestia (1995), Perdita Durango (1997), Balada triste de trompeta (2010), La chispa de la vida (2012), que é um misto de drama intenso e comédia, Las brujas de Zugarramurdi (2013) e Mi gran noche (2015). Os títulos em Português são traduções ao pé da letra. Essas películas citadas são todas deliciosas, mas há muitas outras mais, entre elas uma intitulada 800 balas (2002), que me agrada muitíssimo pela sua temática que mostra a luta pela sobrevivência de um grupo de ex-figurantes e dublês que se apresentam em uma cidade-fantasma, na verdade, um antigo set de filmagem de Almeria, na Espanha, local onde se rodaram, de fato, dezenas de filmes de faroeste, muitos estrelados por cultuados astros do cinema mundial, como Clint Eastwood. 
(15/01/17)

01 abril 2019

Literarte, uma livraria baiana muito bem humorada.

Amáveis e idolatráveis leitores, nem todo cartunista de colete é o Ziraldo. Este aí, no centro da foto, por exemplo, não o é, o que confirma a verdade contida na assertiva inicial. Para melhor informá-los, ele sou eu. Quer dizer, o cara de colete aí nesta foto é este mesmo que aqui, sentado diante de um prestimoso PC, vos mimoseia com estas mal digitadas linhas. O evento é o lançamento de um livro do cartunista e artista gráfico Nildão, na livraria Literarte, no ano de 1979. Nildão é o de barba, sentado à esquerda na foto, segurando uma caneta com a qual teceu dezenas de dedicatórias aos que adquiriram um dos seus formidáveis livros. O outro barbudinho, de perfil, com uma vistosa calças jeans, é o Lage, fera maior dos cartuns. Os demais são figuras insignes da cena cultural e social da Bahia naqueles dias que eram de anos dourados, ainda que pesasse uma atmosfera cor de chumbo sobre a Pátria-mãe que dormia, tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações. A foto retrata um dos grandes e divertidos eventos culturais ocorridos na Literarte, sendo a livraria justamente o mote precípuo desta postagem, vez que Nildão e Getúlio Soares, que foram os idealizadores e proprietários da Literarte em finais dos anos 70s, começo dos anos 80s, me transmitiram uma maravilha de notícia que agora reparto com vocês: ambos estão preparando um livro contando as maravilhas que a Literarte gerou e propiciou aos que são baianos, por nascimento ou vocação. Em verdade, a Literarte foi mais, muito mais que uma livraria, não se limitando a ser uma mera revendedora de livros e revistas para a comunidade. Para seus frequentadores sua existência foi fundamental, ela funcionava como um espaço de afirmação da vocação democrática de um povo sufocado por um regime ditatorial, um grito de liberdade, uma fonte de ideias e de propostas criativas, um reduto onde o mais elevado astral se instalou e a todos acolhia, artistas, intelectuais, estudantes, professores, profissionais liberais, cidadãos conscientes, de boa índole, interessados em cultura e informação. E fugindo dos spoilers, meninos e meninas, fiquemos por aqui, já que o livro está em fase de preparação, sendo pensado e feito com o maior dos carinhos por Nildão, Getúlio e gente que conhece tudo do mundo editorial,.que brindarão com agradabilíssimas surpresas aos que, assim como eu, têm saudade da Literarte e querem recordar momentos significativos e saber de todos os pormenores com riquezas de detalhes.  
(20/06/18)

27 março 2019

Flavio Colin / Uns caras que eu amo 1

Era eu ainda um pequerrucho, tinha lá uns bem vividos 7 anos quando os primeiros desenhos do maravilhoso Flavio Colin saltaram impactantes em minhas mãos. Impressionado, boquiaberto, falei pra mim mesmo: "Puta que o pariu! Os desenhos deste cara são do caralho!" Quer dizer, falar isto não falei, vez que eu nada mais era que um petiz de alma pia e imaculada e palavrões que tais não cabiam numa ânima tão cândida. Além do que, os revolucionários anos setentas ainda não haviam chegado, instaurando de vez o nu artístico nos palcos e nas telonas e muito menos palavrões de calibres diversos na boca do povão deste patropi abençoá por Dê, quanto mais na de um singelo e pudico infante de calças curtas. O que importa é que aqueles desenhos fundiram minha cuquinha de menino com olhos abertos para o cinema e para os quadrinhos. E o traço de Colin, que caminhava pela mesma senda de Frank Robbins, Chester Gould e Milton Caniff, renovava e enriquecia o estilo e em mim despertaram uma paixão que carrego pela vida toda, babando ao ver ou rever os desenhos do Mestre dos Mestres. Flavio, sempre fantástico, usava tão somente lápis, pena e pincel. Bastava isto para o cara ser genial. Ah, e um mar de nanquim em que ele navegou essa sua genialidade em preto e branco. Tudo que ele desenhava nos transmitia o quanto ele era diferenciado, evidenciava sua alta criatividade, sua determinação, personalidade, ousadia e um vigor que jamais voltei a encontrar nas montanhas de quadrinhos made in Brasil que li. Flavio Colin, eternamente fenomenal. Saudades, muitas saudades.           
(11/06/13)

Funk, Punk, Skunk / Humor de graça

(231113)

21 março 2019

Woody Allen, Mia Farrow e um retrato em branco e preto a maltratar o coração.

 Por toda esta semana, enquanto desenho uma HQ tenho me deliciado ouvindo a voz macia de Leila Pinheiro, interpretando maravilhosamente canções da dupla Aldir Blanc-Guinga, compositores da pesadíssima. Uma dessas canções, "Catavento e girassol", fala das diferenças abissais existentes na relação de um casal que se ama, apesar dos muitos pesares, uma incompatibilidade quase que total, o que, no entanto, não impede o amor entre ambos. Um dos trechos da letra diz: "eu tenho um jeito arredio e você é expansiva - o inseto e a flor. Um torce pra Mia Farrow, o outro é Woody Allen..." Uau!, Aldir Blanc é incomparável. Falando em Woody Allen, de há muito o magrelo é um dos meus grandes ídolos. Esta ilustração aí em cima foi publicada em jornal num artigo que falava sobre esse criativo cineasta, ator, comediante e escritor. Deixei as cores de lado, fiz a ilustração em branco e preto, como o retrato na letra daquela linda canção do Chico e do Tom. Para tal, usei lápis, caneta-nanquim e pincel com tinta-da-china, e aviso que isso não tem nada a ver com a amada de Woody, Soon-Yi, que aliás não é mesmo chinesa, é coreana de nascimento. E já que essa pendenga Farrow-Allen andou sendo revivida pela mídia recentemente e um bocado de gente está nessa de queimar o filme do ilustre filmador sem nenhum direito à defesa, além de promover seu linchamento moral em pública ágara, seu empalamento sumário, para em seguida sapatear em cima do ataúde condutor de seu corpo franzino. Então aproveitando o ensejo, quero registrar que eu também torço mesmo é para o Woody Allen, igualzinho ao personagem da maravilhosa letra do maravilhoso Aldir Blanc.
(05/07/15)

10 março 2019

Sting: eis que um deus visita o cacique Raoni, distribui carinho e fala de Sir Elton John

 
Quando acontecem noites dos mais radiantes plenilúnios, os nativos do Xingu se reunem em torno de aconchegante lume para ouvir dos lábios dos seus macróbios e sapientes pajés miríades de misteriosas lendas e histórias plenas de magia e encantamento. Uma das mais belas versa que, em ensolarada manhã, um deus da música vindo de muito, muito longe, visitou um dia a tribo. Trazia ele em seu alforje um instrumento musical dantes nunca visto. O nome dessa deidade era Sting. Esse ser superior, de alvinitente tez, trouxe consigo para o Cacique Raoni e toda sua tribo uma canastra repleta de espelhos, colares, contas e miçangas que ele, com semblante sereno e feliz, passou a ofertar aos radiantes silvícolas. Em dado momento, ao abaixar-se para pegar mais bugigangas, o popstar e nume supremo deixou escapar sonoro flato. Sonoro, porém inodoro, como sói ser o flato de um correto súdito britânico. O indefectível ruído não passou despercebido aos atentos ouvidos de um guerreiro espadaúdo, alto e assaz musculoso que aproximou-se e olhando fixamente com seus amendoados e coruscantes zoinhos, sussurrou a Sting: "Índio não quer colar. Índio quer apito!" Inabalável, como bom súdito da Rainha, o camaleônico roqueiro, incontestavelmente espada e matador, redarguiu: "Mister Indian, este negócio de dar apito é com outro inglês, Mr. Elton John, que está vindo logo aí atrás em outra expedição!"
(20/05/14)

07 março 2019

Se eu tivesse as coisas que não tenho... / Setubardo

Se tivesse um reino, eu reinava
se eu fosse alado, voava
se tivesse uma nave, navegava
se tivesse passaporte, embarcava
se tivesse certeza, argumentava
se perdesse a fleuma, praguejava
se eu fosse um rio, transbordava
se tivesse um paraquedas, me lançava
se passasse BBB, Faustão, Huck e Gentilli, eu desligava
se Bolsonaro discursasse, eu vomitava  
se ganhasse um CD de duplas sertanejas, eu quebrava
se tivesse avistado as Torres Gêmeas, será que eu detonava?
se quisesse mentir, eu jurava
se tivesse unzinho, eu fumava
se ficasse neurastênico, mandava tudo às favas
se caísse moribundo, delirava
se tivesse umas moedas, na lotérica eu apostava
se fosse corrupto, me locupletava
se tivesse medo, eu gelava
se dançasse forró agarradinho, eu fungava
se rolasse um clima, transava
se pintasse um baby, eu acalentava
se tivesse você, teria o que mais sonhava.
(12/01/10)

04 março 2019

Na Bahia, carnaval é todo santo dia.

          
                         O Olodum e sua percussão: beleza e ritmo no carnaval da Bahia.                                    Na Bahia o carnaval não está sujeito a datas constantes em calendários, nem acontece em dias e horários pré-determinados. Ele é parte integrante da alma de cada vivente dessa afro-urbe, está em cada rua, em cada praça, é cotidiano, convive com a luta pela sobrevivência. Mas por questionáveis questões, há um calendário que diz que o carnaval acontece em dias previamente determinados. E esses dias já chegaram e já é carnaval em Soterópolis, gente. Acorda pra ver. É carnaval, é carnaval, chegou a hora das pessoas tirarem suas máscaras sociais e colocarem máscaras festivas e se integrarem na multidão de brincantes. Brincar o carnaval nas ruas da Bahia é puro delírio. A festa é um painel colorido, belo e efervescente, cheio de personagens maravilhosos, coisa nada trivial no cardápio dos bípedes implumes e falantes que compõem a velha raça humana e ela, a meio agogôs, instrumentos de sopro, tamborins, atabaques, pandeiros e toda sorte de instrumentais percussivos, dá um chute nos problemas oriundos da mencionada luta pela sobrevivência e vai à praça expulsar do peito angústias, dores, estresses, todos os seus fantasmas internos e gritar sua alegria neste encontro hedonista, com direito a beijos nada colombinos, desejos mais que legítimos, novos amores ou mesmo, quem sabe, reviver amores antigos, fortes, inesquecíveis. Aos fascistas e neonazistas em geral, às gentes que comungam de sentimentos racistas, aconselho que não venham, já que no carnaval e no cotidiano da Bahia, o que há de mais belo é a cor negra nas peles das pessoas. Peles azeviches em profusão, geralmente mesclando-se sensualmente com peles brancas, amarelas, vermelhas e todo o catálogo epidérmico que rola neste orbe. Por tudo isso, essa democrática festividade de rua é mesmo um belo motivo para se pintar uma tela como esta que ilustra esta carnavalesca postagem em que busquei com tintas acrílicas caprichar no colorido de cores vivas, quentes, redondas. Se ao invés de sair por aí beijando e sendo beijado por gentes que você nunca viu e que provavelmente nunca mais verá e preferiu esperar passar a folia em um seguro e aconchegante retiro espiritual, bom pra você. Se resolveu ser um brincante, com direito a tudo de bom e surpreendente que a festa pode oferecer, idem, idem, idem. Axé!