Tempos houve em que as Histórias em Quadrinhos aqui neste Patropi eram consideradas coisas do demo, do canhoto ou seja lá que nome dêem ao anjo dissidente das hordes celestiais. Você, amável e atilado leitor, que no conforto do seu sacrossanto lar gosta de ler bem editados álbuns de luxo de HQ que hoje circulam em toda parte com pompa e circustância, ficará um tanto cético diante de tal afirmação, mas ela é a pura expressão da verdade, por mais absurda que lhe possa parecer. Em meados de 1930 o empresário Adolfo Aizen, através do Suplemento Juvenil, lançou as HQs aqui no Brasil. Quer dizer, esta é a versão corrente, embora haja os que afirmem que antes dele já havia pubicações pioneiras de quadrinhos por aqui. O fato é que Aizen lançou com grande repercussão, em larga escala, de maneira maciça e por isso é considerado o grande marco dos quadrinhos no Brasil. Entre os leitores e os quadrinhos houve uma paixão instantânea e fulminante que se fortaleceu à medida em que o tempo foi passando. Não percamos de vista que nesse nosso país varonil de céu de anil somos forçados a conviver com um magote de gentes de mentalidade retrógrada, reacionários, autoritários e violentos que têm em comum o repugnante hábito de tentar impor aos demais a sua forma distorcida de enxergar o mundo por seus critérios malévolos como o que enxergava nas HQs a presença maligna do demo, o coisa ruim, o capiroto, o diabo. E não estamos falando do simpático personagem, o diabinho chamado Brasinha, o Hot Stuff, the Little Devil, que circulou no nosso patropi em gibis nos anos 60s e era aceito entre nós sem temores de despropositadas caça às bruxas, quando o número dos ditos cristãos fanatizados e iracundos ainda não parecia algo a ser temido, embora Brizola, que sempre teve uma aguçada visão da política, já fizesse alertas das catástrofes que a fé manipulada por charlatães inevitalmente traria ao Brasil. Hoje os mais atentos se dão conta das terríveis consequências que a fusão em curso das igrejas neopentecostais com a extrema nos ameaça a todos com sérias atrocidades. Premonitório Briza! Sim, toda essas hostes compostas por seres assombrosamente reacionários que depois da era bozolóide passou a circular livremente em espaços públicos sob nomes incorretos como "patriotas" ou mesmo "conservadores", um eufemismo indevido adotado para os que, de fato, são retrógrados, uma súcia antiga que não deixava em paz a cultura, a educação, as artes. Uma gente que se crê dona da verdade e se autoentitula defensora legítima da moral e dos bons costumes não é uma sandice dos tempos atuais, como pensam muitos, tal escória sempre existiu. Infiltradas nos órgãos oficiais, nos gabinetes acabaram por desenvolver verdadeiras campanhas onde a tônica era o mais improcedente preconceito e buscaram fazer uma lavagem cerebral por atacado afirmando que as revistas de HQs, os conhecidos Gibis, eram um inimigo natural dos livros didáticos, um adversário maléfico, um feroz antagonista das consagradas obras dos bons escritores, que destarte eram um inimigo do próprio Brasil e do povo brasileiro e um monte de sandices congêneres. Com todos essas acusações absurdas visando estigmatizar as linguagem dos quadrinhos, todo esse reacionarismo explícito, você ficará atônito ao descobrir que hoje existe, entre profissionais das HQs certos grupos de desenhistas e argumentistas que estão interligados abertamente à extrema direita e sua abominável política que odeia a Educação, a Cultura e as artes em geral, incluindo as histórias em quadrinhos, campo onde atuam profissioanalmente? Difícil de acreditar em algo assim, não é? Só as cabeças insanas deles para buscar razões que consideram plausíveis para justificar tão inaceitável aburdo. Quanto ao tempo das cruzadas abertas contra os quadrinho, absurdos inomináveis já foram ditos, escritos, foram impressos e circularam entre nós. Afirmavam, em cartazes e por outros meios, que a criança que lia quadrinhos inexoravelmente haveria de se tornar um malfeitor que empunharia armas contra as pessoas ditas normais. Valei-me meu São Stanislaw!
Essa autêntica Idade das Trevas das comunicações graças aos céus parece ter chegado ao fim e hoje os quadrinhos circulam nos mais salutares ambientes com as devidas alvíssaras e são comercializados em versões bem cuidadas, até luxuosas, em livrarias conceituadas, sendo largamente empregados em campanhas governamentais, seja na área de saúde ou outra qualquer, onde se faça necessária uma forma de comunicação rápida e de alcance de todas as camadas. E, glória das glórias, hoje são utilizados amiúde em parcerias com os livros didáticos que assim levam ao povo, com o auxílio luxuoso das HQs, o doce sabor do Saber. Os quadrinistas brasileiros conscientes e dignos sempre lutaram pelo reconhecimento das HQs como forma legítima de comunicação e arte maior. Eternos batalhadores em prol do reconhecimento de seus trabalhos, vão sendo a cada dia mais valorizados. Muito justo, justíssimo. Merecido, merecidíssimo.
(210314)

