Uma das mais antológicas e memoráveis postagens das redes sociais é essa frase em negrito logo aí abaixo que, apesar de lapidar como poucas, passou despercebida para muita gente desatenta desse auriverde torrão de um povo profissional em desatenções, mormente as de ordem política e social. Surgiu como um incontível desabafo que traduz de forma simples e direta o instante em que os mais execráveis extremistas bozolóides saíram das sombrias catacumbas em que se ocultavam há um espaço de tempo. Por não se sentirem seguros, evitavam dar bandeira, mantinham-se ocultos, camuflados, até o momento que uma súbita sensação de segurança total se apossou de suas deploráveis mentes ao constatarem que a partir de certo momento da História desse Brasil-sil-sil finalmente tinham um líder que os representava em suas malsãs determinações. Então eles, muitos empunhando armas fumegantes, afloraram com estrondoso alarde ao mundo dos seres civilizados, equilibrados. Num chocante atropelo, sequestraram para si as cores pátrias e, trajando camisa da CBF, invadiram as ruas em manadas berrando serem eles formidáveis patriotas, quando em verdade sempre fizeram de tudo para destruir quaisquer traços de progresso, realizações, empatia e humanismo dessa Nação tropical, almejando com sua fúria transformar a maior democracia de toda a América Latina em nova sangrenta ditadura comandada por um traste abjeto, de conduta nazifascista, retrógrado, misógino, homofóbico, xenofóbico, aporofóbico, racista, entreguista, lesa-pátria, de propósitos catastróficos, esgares constantes e permanente riso alvar. O autor da definitiva frase abaixo reproduzida, postada no X em 9 de julho de 2019, é um jornalista chamado Fabio Pannunzio. Mais que um questionamento, a dita frase é uma afirmação que encerra indignada surpresa ao constatar o incalculável número dos mais asquerosos dejetos humanos que deixaram seus mais fétidos esgotos no raiar da destrutiva era bozolóide, ganharam incompreensível e ameaçador protagonismo com direito a câmeras, microfones, perfis de redes, podcasts, horários ditos nobres. Como qualquer praga, propagaram-se rápido e hoje - com jeitão de "daqui não saio, daqui ninguém me tira" - ocupam, intimidantes, ambientes comerciais, domésticos, escolares, eclesiásticos, trioeletrizantes carnavais e o escambau, até mesmo OABzísticas gentes e entidades, bem como suspeitíssimos consultórios de psiquiatria e psicologia (não como pacientes, mas - acreditem - como profissionais que indicam ortodoxias religiosas a título de soluções terapêuticas (!). São catervas inteiras que, assolantes, empinantes, escoiceantes, insistem em atormentar nossos demócráticos e solares dias.
28 fevereiro 2026
Nana Caymmi, a canção de Lô Borges, Milton Bituca e Márcio Borges, a ditadura militar
No ano de 1979 Nana Caymmi pediu a Márcio Borges que fizesse uma letra para a melodia de Clube da Esquina n°2 que, até então, era uma música só instrumental. Depois de consultar os autores da melodia - seu irmão Lô Borges e Milton Nascimento - Márcio escreveu os célebres versos dessa canção e entregou para a filha de Seu Dorival e de Dona Stella Maris. A cantora recebeu a letra, leu, adorou e a gravou de boas. Nana foi casada com Gilberto Gil, na companhia do qual estava quando vista e fotografada em passeata pelas liberdades democráticas suprimidas por uma ditadura militar de extrema direita que sempre teve ódio figadal às Artes e aos artistas, no atacado e no varejo. Por certo se sobre ela se desencadeasse a violenta repressão costumeira, no meio de tantos gases lacrimogênios a moça Caymmi ficaria calma, calma, calma, calma. Tempos depois, sabe-se lá o porquê, essa irmã de Dori e Danilo, artista talentosa, de aclamados dotes canoros, descambaria para uma lamentável adesão ao que há de mais abjeto política e socialmente no Brasil, a mais olaviana extrema direita que nutre carradas de ódio mortal pela classe artística, classe que ela, seus irmãos, sua mãe, Stella Maris e seu pai, o lendário Dorival Caymmi, sempre integraram com amor, dedicação e elevada competência. Felizmente, para gáudio da história da música brasileira, nos anos 70s Nana Caymmi pensava diferente e teve a suprema sabedoria de nos brindar a todos com uma maravilhosa gravação de Clube da Esquina n°2 interpretando divinamente e registrando para a posteridade essa emblemática canção que nos ensina a não temer ímpios tiranos, asquerosos e crudelíssimos ditadores e suas desumanas repressões, um verdadeiro hino libertário. Grato, Nana.
24 fevereiro 2026
Cau Gomez, mineirim e baianim / Pintando o Set 8
(260511)
22 fevereiro 2026
Mulher de Peixes no Horóscopo de Vinicius de Moraes
Mulher de Peixe...peixe é
Em águas paradas não dá pé
Porque desliza como a enguia
Sempre que entra numa fria.
Na superfície é sinhazinha
E festiva como a sardinha
Mas quando fisga um namorado
Ele está frito, escabechado.
É uma mulher tão envolvente
Que na questão do Paraíso
Há quem suspeite seriamente
Que ela era a mulher e a serpente.
Seu Id: aparentar juízo
Seu ego: a omissão, o orgulho
Sua pedra astral: a ametista
Seu bem: nunca ser bagulho
Sua cor: o amarelo brilhante
Seu fim: dar sempre na vista.
(211013)
(211013)
21 fevereiro 2026
Pra não dizer que não falei de bebê reborn
Uma palavra-chave da auriverde sociedade hodierna: pretensos. Pretensos pastores. Pretensos padres. Pretensos pais de pretensos bebês. Pretensa deputada (casada com pretenso ex-juiz) que propõe leis a favor dos pretensos pais de pretensos bebês. Pretensos políticos justos (veríssimos) que só são defensores dos muito privilegiados. Pretensos doentes que alegam males orgânicos raros e mui convenientes e que, sob tais alegações, se internam em UTI-Realyte Show, ou que correm, céleres, 100m rasos com revólver engatilhado atrás de cidadão preto e depois se declaram portadores de pretensas síndromes que são apenas pretensos motivos para pedir (e obter) farto PIX do gado pretensamente patriota.
12 fevereiro 2026
Apaches do Tororó, Buck Jones e todos blocos de índios do carnaval da Bahia
Nos anos 70s, quando ainda não era o abastado dono e editor deste blog, habitando eu na Selva de Pedra de Sampa, eis que resolvi me autorrepatriar para a Bahia depois de naquela algo remota época haver provado, embevecido, a magia incomparável do carnaval de rua desta Soteropéia Desvairada. Digo e redigo, há aqui nessa afrocity um povo cuja alegria ultrapassa todas as divisas comportamentais instituídas, que é festeiro, que adorar rir, dançar e amar como nenhum outro, sendo que o carnaval de rua sempre foi sua delirante apoteose. Ah, mister se faz ressalvar-se que tempos houve em que esse carnaval era verdadeiramente popular e não um produto que ávidos empresários atualmente vendem embalado em abadás que, a julgar pelo preço cobrado, devem ser confeccionados em fio do mais puro ouro. E muita coisa mudou desde que certo dia os políticos incubidos de administrarem esta afrourbe viram no carnaval e nas festas de largo a possibilidade de lucros fantásticos. Destarte, deram início a um processo de desarborizar bairros inteirinhos pra limpar as vias onde hoje soem trafegar sem impedimentos, os trios elétricos fazedores de formidáveis fortunas para uns, com suas bandas, seus saltitantes cortejos. Pari passu, trataram de estabelecer novas regras na organização do carnaval e das festas de largo, o que alterou profundamente as coisas. Barracas perderam todo o charme da vária e rica criatividade popular, foram oficialmente padronizadas, a diversidade foi sendo esvaziada e entrou em cena uma intragável exclusividade para o fabricante de cerveja que mais pagasse, usurpando dos foliões o democrático e, até então, inviolável direito de escolher a marca de cerva de sua preferência a ser ingerida durante a festividade.
Mister se faz dizer que naquela libertária década de 70 o hoje predominantemente noturno carnaval de rua da Bahia tinha seu início ainda pelas manhãs no mais das vezes ensolaradas, e o melhor da festa se concentrava na Praça Castro Alves com o sol rompendo ao meio-dia, como diz o caetanístico frevo Atrás do Trio Elétrico. Ali se misturavam gentes famosas e os anônimos, vendedores, foliões, héteros, gays, brancos, negros, mulatos e gringos, sob sol ou sob chuva, suor, cerveja e muita Maria Joana sob o olhar cúmplice do condoreiro Poeta da Abolição ali esculturado e era bem dali, da mão do poeta, que o sol se levantava e a lua se deitava na côncava praça. Esse carnaval baiano e essa Praça Castro Alves fizeram por onde merecer e foram eternizados, celebrizados, perpetuados em emblemática canção de Caetano Veloso em que, parafraseando o grande vate abolicionista, o mano de Beta Beta Bethânia retratou os costumes populares da época dizendo que "a praça é do povo como o céu é do avião". Ouvi e achando pertinente o dito, tratei de descolar espaço cativo na renomada ágora.
Mister se faz dizer que naquela libertária década de 70 o hoje predominantemente noturno carnaval de rua da Bahia tinha seu início ainda pelas manhãs no mais das vezes ensolaradas, e o melhor da festa se concentrava na Praça Castro Alves com o sol rompendo ao meio-dia, como diz o caetanístico frevo Atrás do Trio Elétrico. Ali se misturavam gentes famosas e os anônimos, vendedores, foliões, héteros, gays, brancos, negros, mulatos e gringos, sob sol ou sob chuva, suor, cerveja e muita Maria Joana sob o olhar cúmplice do condoreiro Poeta da Abolição ali esculturado e era bem dali, da mão do poeta, que o sol se levantava e a lua se deitava na côncava praça. Esse carnaval baiano e essa Praça Castro Alves fizeram por onde merecer e foram eternizados, celebrizados, perpetuados em emblemática canção de Caetano Veloso em que, parafraseando o grande vate abolicionista, o mano de Beta Beta Bethânia retratou os costumes populares da época dizendo que "a praça é do povo como o céu é do avião". Ouvi e achando pertinente o dito, tratei de descolar espaço cativo na renomada ágora.
E vai daí que, em um belíssimo dia desses anos 70s, lá estou eu na Praça Castro Alves onde, aboletado em elevado, disputado e privilegiado cantinho à guisa de camarote, espero a passagem de trios e blocos. Eis que alguém brada: "Évem os Apaches do Tororó!" Será que ouvi direito? Ouvi e fico sabendo que o Apaches é o primeiro bloco que surgiu no carnaval da Bahia com a nobre intenção de merecidamente homenagear o povo indígena. Frise-se que por um desses insondáveis mistérios dessa afrocity Soterópolis, os blocos índios nunca foram de homenagear Pataxós, Tupis, Bororós, Guaranis, Xavantes, Macuxis, Tapuias ou quaisquer outras tribos indígenas da Bahia ou da circunvizinhança e, sim, os índios norte-americanos tais como Apaches, Comanches e Sioux que aqui só davam as caras nas telas de cinema e das TVs. Ou seja, em matéria de cacique, sempre estiveram mais para Touro Sentado que para Juruna. Percebo, quando se aproximam, que portam os adereços indígenas que Hollywood nos mostra: mocassins, penas, elegantes cocares, indefectíveis machados, rostos com característica pintura. Com uma substancial diferença: os pele-vermelhas que vejo são em verdade todos de cor negra retinta, o que deixaria em pé a vasta e fulva cabeleira do genocida general Custer. Isto também deve explicar os cliques incessantes das máquinas fotográficas dos gringos à minha volta. Antes que algum solícito antropólogo me esclareça as ideias, um novo arauto anuncia: "Évem Buck Jones!" Pronto. Este eu conheço, é da mesma grei de antigos astros do faroeste hollywoodiano feito Tom Mix, Gene Autry, John Mac Brown, Tex Ritter, Monte Hale, Ken Maynard, Rocky Lane e Roy Rogers. É cowboy genuíno e certamente a porrada vai comer no centro com a indiada azeviche. Qual o quê! O Buck Jones em questão me explicam que é o nome do cantor da Banda Mel cujo trio se avizinha. Mas como nessa afrocity o inusitado é corriqueiro, fico na minha, imaginando que a qualquer momento alguém vai bradar: "Évem John Wayne!" E ao invés do Duke, quem de fato advirá no cenário da praça montado em empinante corcel não será nenhum tipo ariano de zoim azu, mas um macunaímico Grande Otelo ou um glauberrochistíco Mário Gusmão. E as hostilidades de praxe mostradas nas telas darão lugar a confraternizantes abraços entre Apaches, Comanches, Sioux, Pataxós, Gês, negros, brancos, mulatos, cafusos, mamelucos, teutos, sinos, lusos, anglo-saxões e quem mais vier, pois nesta terra, malgrado um desprezível magote de canalhas, é infindável nossa capacidade de amar e inexaurível é nossa alegria de viver.
(020210)
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Vale a pena Verdi e Nova
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