16 novembro 2015

Ela tem estilo

Em algum momento da vida todos nesse mundo, mundo, vasto mundo sentem a sensação de haver ficado fora de moda. Ela nunca. Nem pensar. Jamais ultrapassada, cafona, demodée, suas mãos são feitas de seda, sua epiderme é do mais macio tecido que alguém já pôde tocar. Esse planeta azulzinho é todo ele uma passarela infindável por onde ela, segura, desfila seu garbo, sua classe. Jamais perde a linha. Sem pedantismo ou arrogância, desencanada, sua simplicidade é modal. Em matéria de sedução, nunca é mini, é sempre maxi ao máximo. Usa évasée, sem ser evasiva. Sua blusa suscita expectativas maliciosas: tomara que caia, tomara que caia! Quando sai à rua com seu vestido grená ela mexe com o juízo do homem que vai desenhar. Jesus me defenda! Ai de mim que sei bem - ah, e como sei! – o que há debaixo daquele seu vestido de bolero-lero-lero, valei-me, meu Senhor do Bonfim! Pouco ou nada posso dizer de suas rendas, mas assevero que onde quer que esteja esbanja estilo. Bem mais que estilosa, é uma estilista. E das mais recomendáveis. Ao seu toque, uma singela tesoura vira tesouro. Mal ela chega ao seu atelier, os manequins da vitrine ficam indóceis, se alvoroçam e não há quem os contenha.  Afinal, ela é uma linda e rara rosa, feita de negro veludo, viçosa e cobiçada. Quanto a mim, sou só um prosaico cravo que já enfeitou algumas lapelas em efemérides festivas. Malgré tout, ornamos. Um dia, deu-lhe na telha e cobriu-me a mim com seus delicados atavios e do meu linho bruto fez um terno. Meu coração se tornou uma festa, daquelas elegantes às quais se vai de fraque, luvas, cartola, black-tie. Convidei-a para entrar, não por mera etiqueta mas por sincera vontade. Limitou-se a sorrir e com seus dedos delicados, sem um dedal protetor, valendo-se de agulhas e carretéis, sem medir consequências costurou minh’alma à sua, ponto por ponto, atando-me com suas linhas. Desde então desconfio que me tornei uma das peças integrantes de suas muitas coleções, talvez outono/inverno, quiçá primavera/verão. Sei que não é pouco. Partindo dela, vale muitíssimo. É como abiscoitar o prêmio Agulha de Ouro da Alta Costura em Milão.