Em algum momento dessa aventura humana na Terra aqui nesse mundo, mundo, vasto mundo, todo e qualquer vivente já sentiu n'alma a sensação de haver ficado fora de moda. Menos ela. Ela nunca. Não sentiu, não sente, não haverá de sentir. Jamais ultrapassada, cafona, demodée, suas mãos são feitas de seda,
sua epiderme é do mais macio tecido que alguém já pôde tocar. Esse planeta
azulzinho é todo ele uma passarela infindável por onde ela, segura, desfila seu
garbo, sua classe. Jamais perde a linha. Sem pedantismo ou arrogância, sem alfinetar ninguém, desencanada, sua simplicidade
é modal. Em matéria de sedução, nunca é mini, é sempre maxi ao máximo. Usa évasée, sem ser evasiva. Sua blusa suscita expectativas maliciosas: tomara que caia, tomara que caia! Quando sai à rua com seu vestido grená ela
mexe com o juízo do homem que vai desenhar. Jesus me defenda! Ai de mim que bem sei - ah,
e como sei! – o que há debaixo daquele seu vestido de bolero-lero-lero,
valei-me, meu Senhor do Bonfim! Pouco ou nada posso dizer de suas rendas, mas assevero que onde quer que esteja esbanja estilo. Bem mais que estilosa,
é uma estilista. E das mais recomendáveis. Ao seu toque, uma singela tesoura
vira tesouro. Mal ela chega ao seu atelier, os manequins da vitrine ficam
indóceis, se alvoroçam e não há quem os contenha. Afinal, ela é uma linda e rara rosa, feita de negro veludo, viçosa e cobiçada. Quanto a mim, sou só um prosaico cravo que já enfeitou algumas
lapelas em efemérides festivas. Malgré
tout, ornamos. Um dia, deu-lhe na telha e cobriu-me a mim com seus
delicados atavios e do meu tecido bruto fez um terno. Meu coração se tornou uma
festa, daquelas elegantes às quais se vai de fraque, luvas, cartola, black-tie. Convidei-a para entrar, não por mera etiqueta mas por sincera vontade. Limitou-se
a sorrir e com seus dedos delicados, sem um dedal protetor, valendo-se de
agulhas e carretéis, sem medir consequências costurou minh’alma à sua, ponto
por ponto, atando-me com suas linhas. Desde então desconfio que me tornei uma das peças integrantes de suas muitas coleções, talvez outono/inverno, quiçá primavera/verão. Sei que não é pouco. Partindo dela, vale muitíssimo. É como abiscoitar o prêmio Agulha de Ouro da Alta Costura em Milão.
