17 março 2017

Gordurinha e sua arte, Tio Sam, a Bahia e o bebop no nosso samba. / Uns caras que eu amo 9

Gordurinha, cantor, compositor, humorista e radialista baiano, foi nome de sucesso em todo o Brasil na chamada Época de Ouro do Rádio. Difícil, quase impossível, é alguém da atual geração, tão bem servida de imagens oriundas de TVs, das câmeras fotográficas digitais ou dos múltiplos artefatos eletrônicos que a qualquer momento do dia filmam, gravam, registram imagens, divulgando-as, compartilhando-as instantaneamente, acreditar que existiu um tempo em que eram os ouvidos, e não os olhos, os condutores da arte e de toda e qualquer informação. Acontece, smartphonísticos mancebos e tabletísticas moçoilas, que as coisas já foram assim. Era a Era, a Era do Rádio. Nela brilharam artistas fantásticos, entre eles o baiano Gordurinha, de tantos grandes hits populares, a exemplo de Baiano burro nasce morto, composição solo sua, cantada em todo esse mulato inzoneiro. Sua gravação de Mambo da Cantareira, de Barbosa e Eloíde, fez enorme sucesso, sendo regravado em tempos recentes pelo cantante Fagner. Uma composição sua, Oróra analfabeta, em parceria com Nascimento Gomes, é sucesso até hoje, descrevendo encantos e desencantos de Oróra, uma dona boa lá de Cascadura que é uma boa criatura, mas que escreve gato com J e escreve saudade com C e que, ainda por cima, afirma adorar uma feijoada compreta. De Gordurinha é também a bela e tocante Súplica cearense, feita em parceria com Nelinho, a divertida Caixa alta em Paris, a sensível Vendedor de caranguejo. Mas o maior êxito popular de Gordurinha, certamente é sua composição, Chiclete com banana. letra e música suas, ainda que oficialmente conste o nome de Almira, como sua parceira, o que de fato não aconteceu. O que aconteceu, de verdade, foi que a música foi eternizado pela voz de Jackson do Pandeiro, Senhor do ritmo, Mestre da ginga e dono de uma maneira gostosa e pessoal de interpretar canções. Uma sacada perfeita de Gordurinha para definir o universo da nossa massificação cultural via United States, que sempre nos assolou. Á época, o sucesso da música foi enorme e ela segue sendo uma referência até os dias atuais, no que muito ajudou sua regravação por Gilberto Gil em 1972 no disco Expresso 2222. O título da música foi usado para batizar a famosa banda de axé music e a revista em quadrinhos do cartunista Angeli. Sua letra é uma declaração de amor à música do Brasil, uma afirmação de carinho e apreço a tudo que temos de bom em nossa alma brasileira, de resistência cultural diante da imposição das coisas made in USA, notadamente o constante domínio exercido pelas gravadoras e ritmos norte-americanos sobre a nossa música, no caso, vinda de um ritmo chamado bebop. De forma clara e gostosamente bem-humorada, Gordurinha informa à industria musical ianque que antes, bem antes, de nos aculturarem, eles precisariam conhecer mais profundamente, entender, respeitar e mesmo assimilar a música do Brasil, mandando-lhes um ritmado e irreverente recado: "Eu só boto bebop no meu samba, quando o Tio Sam pegar no tamborim. Quando ele pegar no pandeiro e no zabumba e entender que o samba não é rumba"..."E, concluindo, desafiador: "Eu quero ver o Tio Sam de frigideira numa batucada brasileira."    
 (20/11/16)