26 junho 2018

Amor instável, sujeito a chuvas e trovoadas, brisas e vendavais.

Com minha inadvertida aquiescência essa moça um dia adentra meu viver trazendo consigo generosas braçadas de olentes flores que deposita em cada cômodo de minha quase misantrópica ânima  tornando fúlgida e álacre cada jornada e mais felizes e iluminados meus passos pelo mundo. 
Inesperadamente, em dessemelhante dia, essa mesmíssima moça, com gestos impacientes e determinados, arrebata de mim seus ramalhetes, suas corbelhas, seus buquês e os leva para perfumar almas outras. Não se vai com a mesma delicadeza com que veio, antes dá uma aula de como, com marcial determinação, é possível deletar alguém da sua vida afetiva. Sem titubear, toma dos meus pincéis e tintas, rabisca palavras de ordem e belicosas frases na parede dantes imaculada de meu quarto, rasga em tiras meus lençóis de pura seda, despedaça meus cristais da Bavária, quebra toda minha porcelana chinesa, retalha em pedaços miúdos minhas estampas Eucalol, meu pôster do Lennie Dale e os meus mais amados álbuns de HQs. Estrepitante, bate a porta atrás de si, esgueira-se pelas esquinas e quebradas deste mundo, mundo, vasto mundo, e desaparece de minha vida de forma definitiva. 
Definitiva, eu disse? Diante dos estragos causados pelo seu cataclismo pessoal nada diverso disto se poderia supor. Pois eis que,  passado um tempo não tão largo assim, sabe-se lá por quais insondáveis razões, como se nada do que sucedeu houvesse de fato acontecido, essa moça reaparece em cena, enviando-me um inesperado e intrigante e-mail o qual,  por mais que eu tente, não logro decifrar. Em seguida, não satisfeita, ela consegue com suas artes o número de meu telefone e com  voz doce, timbre suave, me diz coisas das quais inutilmente tento traduzir as intenções. A meio uma tempestade de emoções, um vendaval de sentimentos conflitantes, intento fugir, mas é inútil já que ela tem incrível capacidade de antever meus passos, me cercar os caminhos.  Até que um dia as minhas mãos - que a mim deveriam mostrar fidelidade - sem esperarem que eu com elas concorde, saltam insidiosas e deslizando  pelo teclado do meu PC escrevem os meus segredos mais guardados, os desejos mais ocultos, as carências mais inconfessáveis e, sem minha devida permissão, enviam para essa moça. Como dela jamais adivinho as ações, não posso dizer que fico pasmo diante de sua atitude quando essa mesma senhorita que voltou a me procurar, nada comenta sobre as inconfidências que minhas mãos insidiosamente lhe escreveram, queda-se silente, faz a egípcia. E não retruca, não aplaude, não discorda, não concorda, não tripudia, não contesta, não esboça um esgar jocoso em sua face me mostrando a língua,  não me exibe o dedo da mão no obsceno gesto, não sai pelas ruas, ladeiras, praças, vielas, veredas, alamedas e bulevares emitindo gritos ensandecidos, demonstrando alvoroçada alegria ou estridente raiva. Seu silêncio é um brado eloquente que diuturno reverbera em todo meu ser.
(28/11/2014)