05 fevereiro 2017

Loredano, caricaturista / Uns caras que eu amo 4


A maior fera que já vi fazer caricaturas neste planeta é o Loredano. E olhe que há gente muito boa caricaturando mundo afora. Tive eu - Deus é bom - a grande fortuna de havê-lo conhecido durante uma exposição da Fiocruz, no Rio de Janeiro, há bem uns 20 anos. Bebericamos, batemos um papo agradabilíssimo em mesa de bar entre outros desenhantes. E me prestou ele uma prestimosa e assaz luxuosa assessoria para que eu pudesse contar ao grupo de cartunistas uma piada sobre lusitanos, com o devido respeito, de maneira politicamente correta, sendo eu um cara respeitador das soberanias nacionais. Pelo fato de Cassio Loredano haver morado em Portugal, o acento português que reproduzia em suas falas era escorreito, mil vezes melhor que o meu sotaque canastrão. Vai daí que, com a caveira cheia dos mais diversos e capitosos licores, eu ia contando a piada e nos momentos em que nela havia a fala de um lusitano, imediatamente eu repassava ao Loredano a incumbência de repeti-la em voz alta aos demais, com o seu impecável sotaque luso, coisa de fazer babar quaisquer Camões, Pessoas ou Saramagos. Nós e todo o grupo ríamos às escâncaras, não pela piada em si, mas pelo nosso canhestro mise-en-scène, reforçado pelo fato da piada ser contada a quatro mãos. Ou duas vozes, sei lá. Além de ser o gênio da caricatura que é, Cássio Loredano é um gentleman, um cara bem humorado, de bem com a vida, cordato e, nem preciso dizer, inteligentíssimo. Sempre admirei nele seu traço elegante e sua maneira única e original de distorcer, quando o quer, as faces, os corpos de seus modelos e fazer com seu traço mágico uma cirurgia desconstrutiva tal que algumas vezes o nariz vai parar acima dos olhos - como no caso dos escritores Saramago e Nelson Rodrigues aí em cima - sem que se perca a impressionante fidelidade ao rosto, à personalidade do modelo. Hoje em dia há uma certa tendência das revistas e jornais de só utilizarem vistosos desenhos super coloridos, executados em computadores nos mais hodiernos programas. Há quase uma ditadura. Mas Loredano - assim como o genial ilustrador Flavio Colin - usando na maioria das vezes apenas nanquim preto, prova que a verdadeira genialidade está acima de modismos e tendências na ordem do dia. Suas caricaturas são um deleite, um colírio, um bálsamo para olhos e almas. Pela Europa, onde ele já passou e publicou, há um monte de seguidores seus. Lá, como cá, quem sabe o que é bom fica fã incondicional das  caricaturas exatas de Loredano que, dentre tantos caricaturistas maravilhosos espalhados por este imenso orbe, é aquele que mais me impressionou desde sempre. Axé, Loredano!
(Publicado originalmente em 20/08/13)