04 maio 2016

Laerte de calçola, João Ubaldo Ribeiro de fardão e calçolão

Sei muito bem cuidar de minha saúde. Por isso mesmo, como de habitude, vou à quitanda do japonês que fica ali na esquina comprar produtos sem nefandos agrotóxicos. Enquanto vou selecionando uma rúcula daqui, uma acelga de lá, um espinafre acolá, noto que há algo de estranho naquela senhora que também separa hortaliças ao meu lado com um chamativo tailleur vermelho. Não sou lá um cara muito perspicaz, sou até meio nefelibata, algo selenita, mas arrisco uma olhadela de soslaio e percebo que ela tem um buço muito, muito espesso. Reparando bem, ela tem mesmo é um vasto bigode e, na verdade, ela não é uma senhora, é um senhor. Trata-se do cartunista Laerte, conhecido crossdresser fazendo suas comprinhas como qualquer vivente. O bigode e a barba não são costumeiros, deve ter saído apressado e não teve tempo de se barbear. Não me apraz posar de reacionário e conservador, mas admito em rápido solilóquio que aquele visual é algo pouco hortodoxo para meus padrões comportamentais. Verdade seja dita, nunca me perguntei como os escritores, pintores e desenhistas que tanto admiro produzem os trabalhos pelos quais tenho confessada admiração. Se usando fraques, se nus em pelo, se só de bermudas e sem camisa como diversas revistas já mostraram o aclamado escritor e -para meu gáudio, meu ex-redator-chefe na Tribuna da Bahia- João Ubaldo Ribeiro. Isto em verdade nunca me importou porque na verdade não é importante, mesmo. O fundamental, óbvio está, é o trabalho em si. Se Laerte prefere criar seus desenhos usando saia, saiote, anáguas, calçolas ou quaisquer outros trajes femininos pouco importa, vale o belo trabalho que ele produz. A propósito,  já que falei do sempre lembrado João Ubaldo, convenhamos que ele, com sua acentuada calva, bigodão e óculos fundo-de-garrafa, está longe de ser um modelo de beleza, destarte não é lá muito estimulante imaginar-se o autor de Sargento Getúlio desfilando todo lânguido por Copacabana e adjacências exibindo seu indebastável plexo em pouco discreto decote, nem com suas pernas cabeludíssimas à mostra, ostentando saltitante um tomara-que-caia ou um vestido de bolero-lero-lero-lero. Ainda por cima deixando à mostra uma parte de sua calçola de babados como é hábito das moçoilas nestes tempos hodiernos. Também não é lá muito salutar imaginar meu nobre amigo Paulo Caruso, o grande cartunista - grande no talento bem como no tamanho - desfilando por aí com seus mais de 2 metros de altura cobertos por um pegnoir tomado emprestado de Dona Julia, sua consorte. Ou deparar-me com o ilustrador Gonzalo Cárcamo, com sua barba hirsuta, vestindo negra negligée em tudo destoando de sua touca Hecha en Chile. Muito menos o lendário cartunista parauara Biratan navegando por igarapés com uma insinuante meia-calça transparente. Sendo eu um livre-pensador, não me pejo de dizer que rezo fervorosamente para que tais amigos não resolvam aderir à nova moda poupando-me de tais visões na vida de minhas retinas tão fatigadas. Ah, também estou estudando um novo horário para continuar a fazer minhas salutares comprinhas na quitanda do japonês sem voltar a me deparar com aquela mui, mui estranha senhora.
(Publicado originalmente em 16/03/12)