14 julho 2016

Flavio Colin, desenhista de quadrinhos. Um cara muito, muito especial

Um dia um anjo torto me colocou o dedo na testa e me disse: "Vai Setúbal, ser desenhista de quadrinhos na vida." Pensei então: "Caraca!, estou acima dos outros. Um anjo, um emissário do Onipotente, me tocou a testa e me fez um cara especial!" Lesto e presto saí por aí empolgadíssimo, rabiscando tudo o que via pela frente, feliz por poder fazer coisas que outros não sabiam fazer e estas gentes vinham e me circundavam com olhos embevecidos a cada traço que eu traçava para maior gáudio do meu já mui inflado ego. Até que um dia me caíram às mãos revistas com os desenhos de Flavio Colin. Meus olhos saltaram em órbita, meus joelhos tremeram, meu coração disparou um som de percussão. Que traço maravilhoso, que segurança, que criatividade! Um sentimento difícil de traduzir em palavras tomava conta de mim a cada nova conferida naquelas maravilhas em preto e branco, sensação que se mostrou perene. Desde seus primeiros trabalhos Colin mostrava desenhar quadrinhos como um Mestre legítimo, anos luz a frente de tantos.
Atônito, um tanto frustrado, meio jururu, voltei ao anjo e lhe disse: "Pô, bró! Eu queria que meus desenhos fossem assim, tão maravilhosos como os deste cara!" Sem se abalar, o anjo, com certo enfado no olhar e ares de esse-cara-já-tá-querendo-demais, redarguiu pouco angelicamente: "Nada posso fazer, meu caro. Mesmo entre os especiais há aqueles que são, digamos... bem mais especiais que os outros. E o Flavio Colin, amizade, é um cara muuuito especial!"
(Publicado originalmente em 12/04/2014)