29 setembro 2016

Paulo Caruso, tenor da caricatura/ Pintando o Set 4


É só Paulo Caruso chegar para a monotonia e a tristeza saírem de fininho. É imensa fortuna ser seu amigo posto que Paulo é uma festa. Sua catadura de paulistano taciturno oculta um ser humano amabilíssimo de riso aberto e franco e um fino causeur que sabe falar e ouvir na hora certa. Se as coisas estão paradas, toca um instrumento e solta a voz alegrando o ambiente. Eis que um dia perdido no tempo, num bar em Recife, enquanto traçávamos uns conhaques Paulo fez esta carica minha. Eram os anos 80 e o cartum e a caricatura ainda não haviam me dado fama e fortuna. Em verdade não deram até hoje. Mas Manoel de Barros e Cora Coralina, gente da mais elevada estirpe, também tiveram dissabores que tais antes do devido reconhecimento. Olhando esta caricatura, notam os mais argutos que meu charme másculo e minha beleza apolínea só fizeram aumentar em muito com o tempo que passou. Pelo menos uns 20 quilos.
(Publicado originalmente em 27/04/12)

Mark Ulriksen, norte-americano, e seu belo trabalho de ilustrações, pinturas e caricaturas



 

Comprei uma The New Yorker só porque, ao folheá-la em uma banca de revistas,  vira uns desenhos que muito me agradaram de um artista chamado Mark Ulriksen. Pelo nome achei que o cara devia ser europeu, talvez sueco. Mas na Net vejo que ele é americano e trabalha tendo como base a bela São Francisco, na Califórnia. Mark não é dado a grandes experimentalismo e inovações, sendo até um tanto ortodoxo, fazendo uso apenas de pincéis e tinta acrílica como material de trabalho. O que importa é que o resultado é de grande beleza e deixa transparecer uma pessoa que sabe pensar de forma diferenciada e construir uma arte cujo resultado agrada aos olhos tendo uma qualidade inegavelmente maravilhosa. Não é à toa que a The New Yorker o exibe em todas as suas edições ocupando grandes espaços dessa mundialmente consagrada revista. Acima, nas imagens que colhi, Michael Jackson, cães (algo recorrente nas ilustrações feitas por Mark) e Hank Williams ao lado de Patsy Cline, a cantora folk que tem a melhor interpretação que eu já ouvi de Crazy, canção-ícone dos acometidos de dor de cotovelo crônica. Awesome, Mark! O link para o site é: http://www.markulriksen.com
(Publicado originalmente em 22/02/14)

25 setembro 2016

Flavio Colin / Uns caras que eu amo 1

Era eu ainda um pequerrucho, tinha lá uns bem vividos 7 anos quando os primeiros desenhos do maravilhoso Flavio Colin saltaram impactantes em minhas mãos. Impressionado, boquiaberto, falei pra mim mesmo: "Puta que o pariu! Os desenhos deste cara são do caralho!" Quer dizer, falar isto não falei, vez que eu nada mais era que um petiz de alma pia e imaculada e palavrões que tais não cabiam numa ânima tão cândida. Além do que, os revolucionários anos setentas ainda não haviam chegado, instaurando de vez o nu artístico nos palcos e nas telonas e muito menos palavrões de calibres diversos na boca do povão deste patropi abençoá por Dê, quanto mais na de um singelo e pudico infante de calças curtas. O que importa é que aqueles desenhos fundiram minha cuquinha de menino com olhos abertos para o cinema e para os quadrinhos. E o traço de Colin, que caminhava pela mesma senda de Frank Robbins, Chester Gould e Milton Caniff, renovava e enriquecia o estilo e em mim despertaram uma paixão que carrego pela vida toda, babando ao ver ou rever os desenhos do Mestre dos Mestres. Flavio, sempre fantástico, usava tão somente lápis, pena e pincel. Bastava isto para o cara ser genial. Ah, e um mar de nanquim em que ele navegou essa sua genialidade em preto e branco. Tudo que ele desenhava nos transmitia o quanto ele era diferenciado, evidenciava sua alta criatividade, sua determinação, personalidade, ousadia e um vigor que jamais voltei a encontrar nas montanhas de quadrinhos made in Brasil que li. Flavio Colin, eternamente fenomenal. Saudades, muitas saudades.            (Publicado originalmente em 11/06/13)

21 setembro 2016

Béu Machado, um poeta e pensador que encantou a Bahia

Jornalista e colunista competente, poeta e compositor de versos cheios de originalidade, frasista criador de frases memoráveis. Béu Machado era um mistura de tudo isso concentrado em uma só criatura. Uma pessoa gentil, de coração enorme, de excelente índole, simples, cordato, pacato. Um atento observador de tipos populares, dos fatos cotidianos das gentes mais simples, dali vinham seus poemas mais inspirados, suas letras de músicas. Ao ler e ouvir frases e poemas de Béu, inevitavelmente converti-me em seu admirador. Convivendo com ele nas redações de jornais, de colegas nos tornamos amigos, com direito a longos e divertidos papos em barracas, biroscas, visgueiras e cacetes-armados da Boca do Rio, bairro em que éramos vizinhos, sendo os diálogos regados com talagadas de capitosas  fôias pôdi. Como colega de redação, testemunhei o quanto Béu era admirado e querido por todos, sendo enorme o seu prestígio junto à classe artística e aos demais jornalistas. Em sua coluna de Artes, democraticamente promoveu centenas de artistas, deu-lhes visibilidade e importância. Muitos desses artistas o tempo se encarregou de consagrar.  Mas Béu não era homem dado a autopromoções.  Tinha um enorme talento, sim, gostava de escrever, de criar, mas não se importava com a glória pessoal, com os holofotes da fama. Talvez isso explique o pouco material sobre ele encontrado na Internet, seus poemas e frases. No ano em que Béu Machado faleceu, amigos mais próximos se reuniram e, capitaneados pelo artista gráfico e plástico Washington Falcão, editaram um livro com as antológicas frases de Béu. A mim coube a missão de fazer as ilustrações, o que fiz com enorme carinho. Selecionei algumas das frases de Béu, por mim ilustradas, e vou postar neste espaço amarelinho algumas delas para que vocêzinhos, poética leitora, fiel leitor, possam desfrutar, saborear e se regalar com o talento desse grande e inesquecível poeta, que um dia se autorebatizou como Béu Machado de Xangô, e que, entre as poucas coisas que escreveu sobre si próprio, cravou essa: “Amo, apesar da amargura. Sorrio, apesar do dente podre.”

12 setembro 2016

Havia vida antes da Internet? (Lembrando Sylvio Lamenha, Ademar Gomes, Ariovaldo Matos, Alvinho Guimarães)

Dias destes numa postagem citei o grande cronista baiano Sylvio Lamenha. Cronista só, é pouco dizer. Sylvio era um homem de invejável cultura, dominava a arte de bem escrever, era grande e inspirado frasista e usava bordões criativos como "a poesia é o axial" e "resistir, quem há-de?", que as pessoas viviam repetindo. Cito, de memória, que ele foi repórter, cronista, compositor, professor, ator do cinema novo. Ah, e um imitador sem igual da maravilhosa Dalva de Oliveira, chamada em vida de A Rainha da voz. Para desespero de alguns amigos mais tradicionalistas e de modos mais discretos que temiam a língua viperina do povo, Lamenha soltava seus trinados a alto e bom som onde quer que chegasse, sem levar em conta o ambiente e quem lá estivesse, sem se importar com olhares reprovadores e reprocháveis ouvidos. Sylvio, de tantos aspectos e predicados, era um gay avant la lettre. Hoje fico desnorteado ao perceber que Lamenha é totalmente desconhecido das novas gerações. Ele, sempre tão brilhante, foi apagado do imaginário popular, delido dos arquivos da existência. Ocorre que os feitos de sua rica vivência não foram registradas na maior fonte de pesquisa do mundo atualmente, a Internet, já que à época ela ainda engatinhava, não sendo ainda o que é hoje, uma fonte de fundamental importância, praticamente indispensável e por vezes única para grande parte das pessoas. Não está na Net, não existiu, não existe, não existirá. Isto, ressalte-se, não se resume a Sylvio Lamenha, é fenômeno que ocorre com muita gente que viveu antes da informática tornar-se gênero de primeira necessidade. Pessoas de grande importância e vida tão intensamente vivida em todos os aspectos foi relegada a este verdadeiro limbo cultural, simplesmente por serem da era pré-Internet. Procuro fotos e textos sobre Sylvio na Web e quase nada encontro. Bem como procuro em vão coisas sobre Alvinho Guimarães, ator e diretor teatral de grande importância e atuação na cena baiana, citado de forma reverente em várias páginas do livro Verdade Tropical, por seu autor, ninguém menos que Caetano Veloso. Procuro sem sucesso coisas sobre Ariovaldo Matos, jornalista e escritor talentoso, a quem não conheci em vida, apesar do considerável número de amigos em comum. O mesmo se dá em relação ao também jornalista e escritor Ademar Gomes, meu grande e estimado amigo, de quem ilustrei muitos livros e que se foi deste mundo levando parte de minha alegria. Hoje releio livros que ele escreveu e isto me traz de volta a inventividade, o humor e o talento deste amigo que escrevia coisas inusitadas, tiradas do seu convívio com um monte de gente aqui deste afro-terrão chamado Soterópolis. Não é justo que ele e tantos seres criativos sigam exilados nesta autêntica Zona Fantasma. Mas a vida nem sempre é justa, sabemos. Para modestamente tentar lhes trazer um mínimo de visibilidade, aqui neste meu singelo bloguito vou postar alguns escritos de Ademar Gomes onde ele fala de si próprio enquanto fala dos seus confrades ilustres, como Sylvio Lamenha e Ariovaldo Matos . Eles merecem, gentes do bem que foram, seres criativos, profícuos e atuantes em suas vidas vividas intensamente, que é como se deve viver.
(13 / 04 / 14)

Histórias em Quadrinhos no Brasil, seus inimigos ferrenhos e seus incansáveis defensores.

´1. Prof. Álvaro de Moya 2. Prof. Moacy Cirne 3. Profª.Sonia Bibe Luyten
Consideradas erroneamente uma forma de expressão nefasta que deveria ser extinta por desviar crianças e jovens dos bons caminhos e ainda por cima atrofiar os cérebros dos leitores transformando-os em marginais irrecuperáveis, as histórias em quadrinhos sofreram implacável perseguição nos EUA. Infelizmente para nós brasileiros, essa onda moralista norte-americana que se iniciou no período da Segunda Guerra, não se restringiu aos States, vindo também a inundar em cheio o Brasil já que em nosso país o reacionarismo sempre se fez presente, não sendo um privilégio dos tempos atuais. Por aqui uma absurda campanha difamatória contra os quadrinhos aconteceu de forma oficial nos anos quarentas, notadamente pelo político Carlos Lacerda. Nessa época foi distribuída entre a população uma famosa cartilha  afirmando que os quadrinhos deveriam ser execrados porque eram inimigos mortais da literatura tradicional,  além de um tenebroso caminho que conduziria  jovens incautos ao banditismo, uma apavorante escola do crime. Tamanhos disparates fizeram com que respeitados escritores e intelectuais mais equilibrados se pronunciassem contra o absurdo equívoco existente em tal campanha. Professores universitários dentro de suas atividades curriculares foram formando uma resistência contra a difamação orquestrada esclarecendo que os quadrinhos eram, na verdade, uma forma de expressão forte, direta, bela, vigorosa, inovadora. Que essa forma de expressão deveria ser acolhida sem reservas, estudada a fundo, compreendida e divulgada no âmbito acadêmico, como sendo um exemplo positivo da comunicação de massa. Que os quadrinhos não deveriam ser vistos como um inimigo a ser combatido e sim como um poderoso aliado dos docentes na sua árdua tarefa de ensinar, facilitando nas aulas ministradas a compreensão e a assimilação dos ensinamentos. Esses bravos professores, para desconstruir a rede de mentiras sobre os quadrinhos e mostrar o valor que eles continham, usaram de oratória em salas de aulas, fizeram palestras, promoveram debates, escreveram livros e artigos em revistas de prestígio, organizaram mostras e exposições, inclusive a I Exposição Internacional de Quadrinhos, em 1950. Nas universidades eram fortes as resistências, veladas ou explícitas, por parte de muitos que insistiam em não querer enxergar os quadrinhos como uma nova e formidável forma de expressão. Entretanto, tais resistências foram sendo superadas aos poucos até que a força dos quadrinhos se impôs e hoje, além do seu enorme sucesso popular, garantiu oficialmente lugar nas salas das mais respeitadas faculdades e um justo e merecido espaço no pódio científico. A saga das histórias em quadrinhos e sua luta épica para se firmar entre nós como um salutar meio de expressão está em livros diversos escrito pelos bravos e pioneiros professores que nunca foram munidos de visão de raios-x qual a de certo superherói, e ainda assim enxergaram muito além do que outros enxergaram. Um dos bons livros sobre o assunto chama-se Os pioneiros no Estudo de Quadrinhos no Brasil, organizado por Waldomiro Vergueiro, Paulo Ramos e Nobu Chinen, uma edição da Editora Criativo, do ano 2013. Nesse livro estão os depoimentos de professores que foram pioneiros dos estudos das HQs,  pela mudança de conceito e mesmo pela redenção do bom nome dos quadrinhos, entre eles: Álvaro de Moya, Antonio Luiz Cagnin, José Marques de Melo, Moacy Cirne, Sonia Bibe Luyten e Waldomiro Vergueiro. Pow!, bang!, sniff! e kisses, kisses!, kisses! procês, amáveis e idolatráveis leitores. 
(Publicado originalmente em 28/10/2015)

Trocadilhos do Batman / Humor de graça


Saudade de Clarice Lispector

"Eu vou sentir tanta saudade de mim quando morrer." Me digam como é possível uma criatura nascer na distante Ucrânia, em rara e delicada metamorforse tornar-se tão brasileira e em nossa/dela língua escrever coisas com tamanho profundidade, delicadeza e beleza. Fiquei fã da moça desde então e com lápis, nanquim, ecoline e um molho de photoshop fiz este retrato dela em meio à frase que me impressionou e que me fez amar a bela e misteriosa escritora brasileira.
(Publicado originalmente em 06/04/13)

França Teixeira, Fan Teixeira, Dadá de Corisco, Cangaço

Nos anos 70 me encantou uma entrevista feita com Dadá, viúva do afamado cangaceiro Corisco, tendo sido ela própria uma participante do cangaço integrando o bando do legendário Capitão Virgulino Ferreira, o Lampião. Quem entrevistava Dadá era França Teixeira, célebre radialista, bom de tv, grande comunicador, emérito criador de um estilo carregado de irreverência jamais igualado em rádio. França é o pai da apresentadora Fan Teixeira, que herdou o talento paterno e apresenta com brilhantismo o ótimo programa Balaio de Gato, da TVE. Ouvindo a entrevista, fiquei inebriado pela rica e peculiar oratória da sertaneja revelando passagens que ela vivera ao lado do bando liderado por Lampião. A certa altura da sua fala, Dadá relata que a arma que Maria Bonita, a célebre companheira de Lampião, usava na cintura era praticamente um adereço, não a usando a bela Maria para alvejar as volantes que sem tréguas, sertão afora perseguiam os cangaceiros atirando para matar. Dadá vai além e afirma que ela própria, sim, é que empunhava quando necessário se fazia, sua arma contra os macacos, que é como os cangaceiros chamavam os soldados da volante. Deixando transparecer um vívido interesse, o rosto de França se torna ainda mais rubicundo quando lhe pergunta: "Então você, Dadá, chegava a atirar nos soldados da volante?" Ela, sem pestanejar: "Sim, quando preciso, atirei." França, interessadíssimo, insiste: " Desses nos quais você atirou, algum morreu?" E Dadá, com um sorriso mais enigmático que o de Monalisa: "Que eu visse, não!"
(Publicado originalmente em 19 de julho de 2013)

Sogra do Rei das Selvas / / Humor de graça


Humor de graça / Pecadinhos normais que qualquer garota faz






10 setembro 2016

Silicone à prestação pra ter aquele peitão! / Sexo de graça

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Gonçalo Júnior e as panelinhas, um mal dos Quadrinhos

Sou fã de Gonçalo Júnior, um cara sério, jornalista competente que entende tudo de Histórias em Quadrinhos e do seu universo, autor consagrado de diversos livros com tal temática. Li este texto escrito por ele e achei por bem reproduzir aqui neste bloguito, devidamente não autorizado, para que leitores conscientes das HQs, desenhistas e demais profissionais da área e todos os interessados no tema possam ler.
O tabu das panelinhas, um mal dos Quadrinhos.
Por Gonçalo Junior

 Você faz parte de alguma panelinha dos Quadrinhos? Ou melhor, acredita que existam panelinhas no meio de quem faz, publica ou estuda Quadrinhos no Brasil? Quando pensei em escrever sobre esse tema, imaginei a primeira reação da parte de quem pararia para ler estas linhas: isso não existe, é exagero, não é bem assim, etc. Na verdade, há panelinhas do bem e do mal, digamos assim. Quase sempre, são grupos de amigos que lutam por objetivos comuns.
Como em qualquer atividade profissional humana, porém, existem as panelinhas nefastas, aquelas que atropelam valores éticos e morais em nome do se dar bem a qualquer custo para seus acampados membros. Ou pelo simples prazer de destruir o próximo. Quem é jornalista sabe bem que muitas vezes o comando das redações é revezado por participantes de poderosas panelas que tomam conta de jornais e revistas. É a turma que está sempre por cima porque um ajuda o outro, acolhe o outro. Se não há vagas, demita-se alguém. Talento? Isso é um mero detalhe, cara-pálida. Em 15 anos de profissão, posso falar com tranqüilidade sobre onde as boas relações levam certos jornalistas. Mas interessa aqui o segmento de gibis. Nesse mercado, talvez o assunto venha embrulhado em desfaçatez, de boicote, de intrigas e fofocas. Canso de ouvir comentários destrutivos sobre alguém que não se deu bem em algum projeto. É como uma vitória pessoal do “Eu não disse? Eu não avisei?”.
A panelinha é uma instituição no mundo dos Quadrinhos Brasileiros e não nasceu ontem. Faz tempo. Num evento que fui recentemente, ouvi uma piada de um amigo que procurava justificar o deserto que havia na platéia: “Era possível juntar numa ante-sala de uma cafeteria de São Paulo os artistas que faziam Quadrinhos no país. Mas não se recomendava fazer o mesmo com os editores, pois eles se matariam e dificilmente um sairia de lá vivo”. Injustiça com os editores, claro. Entre artistas, comerciantes e colecionadores, não é diferente esse tipo de hostilidade que, muitas vezes, tem a ver com panelinhas. Quadrinhos no Brasil são como torcida de futebol. Se um caiu para a segunda divisão, os outros querem vê-lo na terceira. Ou mesmo extinto. Se bem que, entre amigos, os torcedores apenas tiram um saudável sarro. Com os Quadrinhos é diferente. Como diria Raul Seixas, é muita estrela para pouca constelação em alguns casos. É muito ego para pouco espaço. Não me refiro apenas a determinados editores. Falo do "pessoal" de Quadrinhos de modo geral. Quero dizer: como aves de rapina, alguns ficam sobre a cerca de arame na torcida para que o outro literalmente se dane.
Os boicotes são o que há de mais sintomático nisso. É preciso boicotar o evento do outro para que ele aprenda a lição e não faça mais isso. Não me esqueço do dia em que circulou a informação de que uma editora de um amigo havia acabado. Foi uma festa geral, como se todos os outros estivessem acima do bem e do mal. É lamentável notar que momentos ideais para encontros de confraternização e troca de contatos, de aproximação, fiquem sempre vazios. Costumo dividir a "humanidade" e, conseqüentemente, a turma dos Quadrinhos, em três categorias: os que fazem, os que não fazem e os que só fazem falar. O grupo intermediário é a galera do bem, os leitores, os consumidores de gibis, os fãs. Enfim, a ala que realmente me interessa e em quem sempre penso quando escrevo um livro. O terceiro reúne os chamados espíritos de porco, fofoqueiros, intrigueiros, paranóicos, psicóticos. São criaturas que agem pela internet, criam personagens fictícios para ofender, destratar, difamar. Muitas vezes, alguns me colocam em saia justa. Não é fácil trafegar em todos esses meios, uma vez que exige certo tato, certo zelo para não ferir vaidades.
Um problema causado pelas panelinhas é que seus participantes perdem o senso crítico. Em sua visão do mundo, não interessa o que é melhor, mas se foi feito por alguém que tem afinidade com o seu grupo. Ninguém me tira isso da cabeça. Só assim consigo compreender porque eleições como as do HQ Mix causem tanta polêmica, uma vez que confio na idoneidade de Jal e Gualberto, seus organizadores, quanto ao processo de seleção. A rede de amigos tem uma força decisiva nos resultados desse e de outros prêmios. O que não quer dizer que se trata sempre de panelinhas. Mas, dentre os votantes, um número razoável faz parte delas e fecham os olhos para quem está competindo. Não interessa o que os outros fazem. E ponto final. É óbvio, portanto, que o sistema de votação se torna frágil porque fica vulnerável à força de interesses mesquinhos, das torcidas uniformizadas da Panela Futebol Clube. Não se indica ou não se vota numa obra de um editor ou autor "inimigo". Não importa o seu valor, repito.
Não é fácil entrar numa panelinha. Você precisa provar lealdade, que é alguém realmente confiável, sincero, que traga a cabeça de um rival numa bandeja. Quer um exemplo pessoal? Lancei quatro livros num determinado lugar e não me lembro de ter tido o prazer de contar com a presença de um único editor "concorrente" – que foram amigavelmente convidados. A não ser Eloyr Pacheco e Wagner Augusto. Sem querer ofender, isso parece coisa de gangue de rua. Ninguém pinta no pedaço do outro. Patético. Aonde quero chegar? Nos malefícios que todo esse joguinho rasteiro do boicote traz para o mercado de Quadrinhos. Conheço pessoas que dizem de boca cheia: não compro os livros de tal editora. E daí, meu irmão? Não sabe o que está perdendo. O buraco é mais embaixo. Ao invés de arregimentar leitores detonando o concorrente ou a editora que compete com a panelinha que faz parte, acredito que o caminho seja discutir saídas a médio e longo-prazos, pois vejo uma bolha se formar no horizonte.
Essa mesquinharia vai matar o mercado. Não acredito que o número de compradores regulares de gibis tenha aumentado. Pelo contrário. Vejo um sacrifício imposto a um universo reduzido de consumidores, com alto poder aquisitivo, por editores que não competem de forma saudável. Por outro lado, falta a preocupação de que daqui a dez ou quinze anos esse público se renove. A molecada adolescente que lê gibis está sendo desprezada. E tenho dito: adulto não descobre os Quadrinhos, o gosto vem da infância e da adolescência. Ou discutimos esses temas e procuramos revitalizar o mercado, a começar pelo o fim dos boicotes – e mostramos força no setor – ou nos entrincheiramos dentro de uma panelinha, a olhar pela borda e a torcer para que o mundo lá fora se dane."
(Public. origin. 20/09/14)