15 janeiro 2017

Álex de la Iglesia, suas ótimas comédias e o melhor do cinema espanhol.

Sou dos que sentem um enorme prazer ao assistir um bom filme produzido pelo cinema espanhol. Um prazer já antigo, que sempre nos chegou, aqui no Brasil, através de cineastas como Luis Buñuel e seus filmes belos e questionadores, de Saura, e, em tempos mais recentes, de Fernando Trueba e Bigas Luna. Volta e meia, quando se faz necessário, o cinema da Espanha se recicla, ousando quando tudo parece ser acomodação e mesmice. Em 1991, um novo cineasta, Álex de la Iglesia, causou ótima impressão entre os espanhóis ao rodar um curta-metragem, Mirindas asesinas. Álex, valendo-se de curtos 12 minutos, brindou os cinéfilos com um humor contagiante, personagens hilários, um timing perfeito, mostrando quem ele era e a que veio. O público e a classe artística adoraram. Tão boa impressão ele causou que ninguém menos que o já consagrado cineasta Pedro Almodóvar decidiu financiar o primeiro longa-metragem de la Iglesia, através da vitoriosa produtora El Deseo, que Pedro divide com seu irmão, Agustín Almodóvar. Assim, com esse aval luxuoso e toda uma estrutura profissional à disposição, em 1993 foi rodada Acción mutante, uma divertida comédia, cheia de alternativas e inovações, bem escrita, interpretada e dirigida, que fugia aos filmes habituais, renovando a linguagem da comédia, propondo novos caminhos ao cinema da Espanha. Acción mutante, tendo sido um filme bem sucedido, propiciou a Álex a realização de novas e maravilhosas comédias, todas muito bem produzidas, as aberturas dos filmes graficamente bonitas, criativas e modernas sendo uma constante, efeitos especiais de primeira, um grande número de atores e figurantes sempre em cena, o que requer um diretor seguro e atento. Os argumentos, que fogem ao convencional, são sempre inteligentemente escritos por Iglesia, em grande parte assinados com o notável Jorge Guerricaechevarria, uma parceria de sucesso. Alicerçado por tanta excelência, o trabalho de direção de Álex de la Iglesia mostra ser feito com total competência e dinamismo, não permitindo ele que suas comédias tenham momentos de monotonia, nem resvalem para um humor barato, previsível. Álex sempre trabalha com excelentes comediantes, atores e atrizes versáteis, conseguindo que eles deem o melhor de si. Entre tantos notáveis estão Carmen Maura e Rossy de Palma, mundialmente consagradas pelas câmeras de Almodóvar, o superstar Javier Bardem, o sempre ótimo Santiago Segura, Alex Angulo, Sancho Gracia, Enrique Villén e a bela Carolina Bang, que tornou-se esposa do diretor. Uma comédia de Álex de la Iglesia é garantia de um humor de alto nível, gostosas risadas, muitas emoções e momentos de prazer. Aos espectadores, resta buscar em locadoras ou na internet, comédias como a cult El dia de la bestia (1995), Perdita Durango (1997), Balada triste de trompeta (2010), La chispa de la vida (2012), que é um misto de drama intenso e comédia, Las brujas de Zugarramurdi (2013) e Mi gran noche (2015). Os títulos em Português são traduções ao pé da letra. Essas películas citadas são todas deliciosas, mas há muitas outras mais, entre elas uma intitulada 800 balas (2002), que me agrada muitíssimo pela sua temática que mostra a luta pela sobrevivência de um grupo de ex-figurantes e dublês que se apresentam em uma cidade-fantasma, na verdade, um antigo set de filmagem de Almeria, na Espanha, local onde se rodaram, de fato, dezenas de filmes de faroeste, muitos estrelados por cultuados astros do cinema mundial, como Clint Eastwood. 

11 janeiro 2017

Lage, cartunista e caricaturista maior, tinha lá seus pecadilhos / Pintando o Set 5

O cidadão soteropolitano Hélio Roberto Lage era um formidável arquiteto, merecidamente graduado e de muita competência. Poderia levar uma vida digna com essa sua edificante profissão. Ao invés disso, preferiu seguir os conselhos de algum anjo torto, desses que vivem na sombra, e foi ser cartunista na vida. Um cartunista maior. Munido de seu talento gráfico, elevada consciência política, presença de espírito e invejável sagacidade, lá ia Lage para a redação do jornal em que trabalhava e traçava charges impactantes, cartuns demolidores, caricaturas que desnudavam os políticos mais infames. Podia parar por aí, bem que podia. Mas quem disse que ele parava? Pois é chegada a hora da verdade e a verdade tem que ser dita: Lage não conduzia a nova profissão com a devida seriedade e sempre foi um cartunista metido a engraçadinho. Ao invés de se portar de forma séria, como sói acontecer aos profissionais que têm consciência do dever de ofício, tinha ele o reprochável hábito de viver fazendo piadinhas em seu ambiente de trabalho e mesmo fora dele. E ainda as desenhava, como agravante. É abalado e profundamente traumatizado que aqui deponho que, de forma recorrente e impiedosa, fui vítima dessas suas gracinhas sem graça das quais todos achavam a maior graça, menos eu, a inerme vítima desses motejos gráficos. Desde 1981, ano em que muitos dos leitores desse bloguito sequer haviam nascido, guardo comigo, cheio de mágoa e ressentimento, essa caricatura que ora posto, da lavra de um sujeito que se dizia meu amigo mas que retratava-me de maneira injustificavelmente sórdida, impiedosamente abjeta. Desconfio que ele era movido pela mais infame das invejas, pois sabendo-me um cara de físico apolíneo, um Adônis, um invariável escopo da concupiscência feminina, Lage traçou de mim esta caricatura em que ele subverte tudo, colocando meu avantajado peito de remador no lugar da minha barriga tanquinho, delineada em incansáveis e espartanas malhações. Ó, deuses do Olimpo cartunístico, daí do vosso sacrossanto empíreo enviai-me forças para seguir em frente e suportar tantos e tão desmesurados infortúnios movidos pela mais abjetas zelotipias e as mais hediondas invídias.
(14/07/12)

10 janeiro 2017

Wanderley Caridoso, o Bom rapaz, e a Velha Jovem Guarda

Desde que era ainda um bebê, Wanderley Caridoso já demonstrava toda sua formidável bondade, e sempre dividia sua mamadeira com outros pequerruchos, entre um gugu-dadá e outro. Ele era mesmo uma boa alma, um sujeito generoso para com todos, jamais desmerecendo o sobrenome que tinha. Tão bom ele sempre foi que acabou por isso ganhando o apelido de O Bom rapaz. Vai daí, todos os anjinhos do céu se uniram e fizeram com que ele se tornasse um cantor famoso, bem sucedido e cheio de dindim em sua conta bancária. Quando o sucesso na carreira e a grana chegaram ao fim, WC tinha que fazer alguma coisa. E fez, e fez: colocou à venda o único bem material que lhe sobrara, uma pilha daqueles velhos e enormes discos de vinil chamados longplays ou LPs, todos eles com seus antigos hits que ficaram encalhados. Ninguém desconfiava, mas o desespero do Bom rapaz era tanto que ele tinha o abominável propósito de comprar uma pistola automática e com ela dar cabo da sua própria vida. Para dar um toque melodramático de filme de Almodóvar, o infausto gesto se daria sob o som de um dos seus encalhados  e empoeirados discos tocando na velha vitrola: "Parece que eu sabia que hoje era o dia de tudo terminar...". Felizmente para o bom WC, ninguém aguentava mais ouvir aquelas suas cantilenas e ele não conseguiu a notável façanha de vender um único dos seus encalhados e bem empoeirados discos sequer, deixando de amealhar algum tutu para consumar seu nefasto propósito de comprar a arma como pretendia, o que o forçou a desistir do seu lamentável intento macabro. Foi então que a sorte voltou a sorrir para Wanderley, que acabou fazendo um enorme sucesso com Doce de Coco. Não, não se trata da açucarada canção, mas sim da açucarada, famosa e sempre apreciada cocadinha da Bahia, uma iguaria da melhor qualidade que Caridoso, valendo-se de uma receita que uma sua namorada baiana lhe passara, começou a produzir e a comercializar, logrando dar a volta por cima, voltando ao topo das paradas de sucesso, já não mais como cantante,mas como um mui bem sucedido empresário do ramo alimentício.
(100512)

09 janeiro 2017

A cantora Vã Musa, a confusa, e a Velha Jovem Guarda

Quando se diz que este é um país sem memória, todos os olhares se voltam imediatamente para a cantante Vã Musa. Sendo uma das mais conhecidas princesas da Velha Jovem Guarda, em suas recentes apresentações como cantora Vã Musa costuma esquecer os títulos e as letras das canções de seu repertório que canta há décadas, incluindo-se aí os refrões mais manjados e os hits mais chicletes do pedaço. Comprovando ter uma amnésia de elefante, em solenes solenidades Vã Musa deu até para esquecer a letra do mui glorioso Hino Nacional Brasileiro, coisa de fazer Manuel e Joaquim, autores de nosso hino pátrio, se revirarem em suas patrióticas tumbas. Sobre esse esquecimento específico, a nada mnemônica cantante redargui, prenhíssima de razão: "Se os mais famosos jogadores da seleção brasileira de futebol podem, eu também posso!". Quando se trata de esquecimentos, Vã Musa é bastante eclética e democrática, costumando esquecer-se invariavelmente da sua própria idade, não havendo meios dela lembrar-se em que ano nasceu, em que década, nem mesmo em que século se deu tal efeméride. Em compensação, na hora de receber seu sagrado cachê, toda sua elefântica amnésia parece dissolver-se rapidinho e ela proclama, cheia de entusiasmo: "Hei de receber centavo por centavo ou não me chamo...ou não me chamo...Ihhhhh! Como é mesmo que eu meu nome?!!"  
( 12/1213)

07 janeiro 2017

Marasmo Carlos e a Velha Jovem Guarda

Roberto Calos, cognominado o Rei do Iê Iê Iê, sempre dizia que Marasmo era mais que seu braço direito, era seu umbigo. E assim o apresentava em seus programas e shows: "Com vocês, o meu umbigo...Marasmo Carlos!!" Sendo amigo de fé, irmão e camarada do Rei RC, Marasmo sempre foi um cara muito boa praça e, no entanto, vivia posando de bad boy pois, como diz Leila Diniz, homem tem que ser durão. Convicto disso, ele fazia tudo para manter a sua fama de mau e quando numa Festa de Arromba via uma Gatinha Manhosa, dizia logo: "Pode vir quente que eu estou fervendo!" Apesar de afirmar em uma composição já ter fumado um cigarro e meio esperando uma gata que não veio, Marasmo sempre foi um antitabagista ferrenho, contumaz e renitente e quando alguém tenta acender um nefando tubo nicotífero ao seu lado ele trata de mostrar um aviso que diz "É proibido fumar". Mesmo não tendo ganho durante sua carreira fortuna tão grande como a de RC, Marasmo não ficou sentado à beira do caminho com os braços cruzados e conseguiu amealhar uma boa poupança o que o ajuda muito nos dias de hoje pois, atualmente com 94 anos, o cantante e compositante foi acometido pelo Mal de Parkinson e passa o dia com incontroláveis e incessantes tremedeiras, ganhando por isso o apelido de Tremendão.
(10/05/14)

Wanderleya Ternorinha, Wanderley Luxemburgo e a Velha Jovem Guarda

Além de ser renomada cantora, Wanderleya é irmã de Wanderley, o Luxemburgo, famoso técnico de futebol do Brasil que foi deportado da Espanha por insistir em massacrar impiedosamente a Língua Espanhola durante suas entrevistas. Quando o time do seu amado mano está perdendo, Wandeca costuma invadir os gramados gritando a plenos pulmões para o árbitro: "Por favor, pare agora! Senhor Juiz, pare agora! Senhor Juiz este impedimento será pra mim todo meu tormento!" Precursora do uso de indumentária masculina por belas mulheres, a moça tanto usou vistosos ternos que acabou ganhando o apelido de Ternorinha. Seu irmão, o dono dos referidos ternos, é que nunca gostou muito da elegância arrojada da mana e vai daí que, mesmo sendo muito unidos, a fraternal dupla mantém um acordo: ela não desfila mais pelas ruas, ágoras, veredas, alamedas e avenidas com os ternos do seu irmão. Em contrapartida, Wanderley Luxemburgo não pode sair por aí vestindo as microssaias da irmã das coxas grossas, mesmo que morra de vontade de fazer isso.
(10/10/13)

Elis Regina, insuperável / Umas minas que eu amo 4.

Somos um país musical. Essencialmente, fundamentalmente, visceralmente, extraordinariamente musical. Entre nossos tesouros pátrios, temos cantoras maravilhosas que arrasam ao cantar e interpretar qualquer tipo de música. Que maravilha, que musical deleite é ouvir o canto de Gal Costa, de Rita Lee, de Clara Nunes, de Cássia Eller, de Daúde, de Adriana Calcanhotto, de Clementina de Jesus, de Astrud Gilberto, de Dona Ivone Lara, de Carmen Miranda, de Elba Ramalho, de...ah, são tantas e tantas e tantas! Para mim, entre elas, brilha a estrela mais cintilante: Elis Regina. Elis, a Pimentinha. Inesquecível, incomparável, insuperável. Elis tinha uma voz e uma força interpretativa que supera os limites do que já é muito, muito bom. Tudo quanto ela cantou ou gravou, segue tendo uma força maior e dói saber que se foi dessa vida e não se ouvirá suas possíveis interpretações para canções que amamos, gravadas por outras notáveis cantoras. Ouço uma delas interpretando uma música, gosto do resultado, mas sempre me pego em solilóquio, dizendo que extraordinário seria escutar Elis Regina interpretando aquela canção, de uma forma que só ela saberia interpretar com toda a força que lhe ia na alma de quem nasceu para cantar, com o coração pulsando forte, saindo do peito, extraindo da canção tudo que ela continha em seus mais recônditos dizeres, de um modo que ninguém jamais a igualou, deslizando por sua garganta abençoada, chegando a nós, preciosa e exata, através de sua voz, de sua força interior. Dói muito tal sentimento de perda. Elis tinha um timing que foge ao comum, extraía da canção tudo que ela tinha para dar em termos de emoção, fosse de dor, melancolia, alegria, esperança, amor não correspondido, amor vitorioso, redentor. O músico César Camargo Mariano, que acompanhava Elis, diz que ela não era só uma cantora e grande intérprete - o que não é pouco - que ela ia muito além disso. César a tinha na conta de um músico, em pé de igualdade com os que a acompanhavam e isso gerava uma total empatia e cumplicidade que facilitava as coisas, era fundamental nos ensaios, nas gravações e apresentações. Elis correu o mundo, esteve em várias cidades do planeta e causou admiração por todos os recantos que passou, graças à sua grandeza musical. Mas não quis fincar raízes na Europa ou nos Estados Unidos. Afirmava ser uma cantora genuinamente brasileira, com largos e indissociáveis vínculos com nossa cultura. Aqui se quedou, em ambiente muita vez adverso para ela e  para o Brasil que ela desejava, lutou com seu talento, sua índole e sua bravura pessoal, e seguiu carreira renovando-se a cada dia, agigantando-se, chegando a um patamar em que poucas no mundo da música chegarão. Tinha a sabedoria de adivinhar o formidável, o magistral em compositores ainda neófitos, novatos em que ela vislumbrava talento em potencial, e lançou ao estrelato vários deles em gravações antológicas. Dava às canções uma força que fazia boquiabertos os próprios autores das composições, fossem eles os ainda iniciantes Gilberto Gil, Zé Rodrix, Belchior ou mesmo Aldir Blanc e João Bosco ou, certamente, o Maestro Soberano, Tom Jobim, com quem Elis fez um dia um antológico dueto, interpretando Águas de Março. Elis se foi, e é uma imensurável perda para o mundo da música, mas é confortante poder ver e ouvir em vídeos postados na internet, a voz feminina mais maravilhosa que o Brasil já produziu.

30 dezembro 2016

Ano Novo, Brasil, trevas e claridade.

Onde anda Dona Esperança, alguém sabe, alguém viu? Eis que o ano de 2016 vai se encerrando e abrindo caminho para seu sucessor, 2017. A menos que um decreto ou mais uma das manobras espúrias do congresso nacional ou do senado altere a ordem natural das coisas, o que não é de se duvidar dado tantos e tantos descalabros que já vimos acontecer nesse ano tão aziago, tão infausto para nossa democracia e para nossas vidas pessoais, para o país, ano esse que ora vai terminando. Se permitirem, repito, se permitirem, pois podem decidir estender um pouco mais esses dias tão recheados de desmedidos absurdos e ignomínias inomináveis, justamente para que eles sigam acontecendo, enchendo de júbilo uma minoria para a qual a coisa é boa assim dessa maneira, não se importando se a grande maioria sofre duros revezes que vão enchendo os dias vindouros de temores, incertezas, maus presságios, que só os absolutamente alienados não conseguem vislumbrar. Um ano em que Dona Esperança levou um trompaço, caiu de mau jeito e está custando a se levantar. Amados e idolatrados leitores, já que esse negócio de começar um Ano Novo com sentimentos negativos, desesperança e falta de horizontes não é nem um pinguinho bom, nós próprios, com nossas atitudes e iniciativas, temos que nos ajudar e ajudar Dona Esperança a se reerguer e seguir caminhando ao nosso lado em 2017. Para essa tarefa contamos com o auxílio luxuoso dos versos e da melodia de Juízo Final, metafísica composição de Élcio Soares e Nelson Cavaquinho, ouro puro, verdadeiro tesouro em que reluz a frase "o amor será eterno novamente". Eterno...novamente?! Uau! Pois, para nosso gáudio, Clara Nunes, com toda sua intensa claridade, um dia gravou tal tesouro. Ao ouvir essa música, esse canto, não há Dona Esperança que não se recomponha. 

27 dezembro 2016

Paulo Paiva, Suely Furukawa, vida, mistérios e os mais sinceros votos de um Feliz Ano Novo!

Imenso e indecifrável é o mistério que cerca nossas humanas existências. Por culpa da Dona Cegonha e seu longo bico, ou pela existência do tal conceito de continuação da espécie ou, quem sabe, por sermos mera e simplesmente parte integrante do chamado reino animal, estando portanto sujeitos a atitudes em que a racionalidade é posta de lado e o instinto prevalece, ou quiçá seja mesmo por obra de um Grande Arquiteto, um Supremo Criador, sei lá, o fato é que a gente, sem saber como e nem porquê, é colocado nesse mundo grande e desprovido de porteira, sem panos a cobrir nossas vergonhas e aqui chegando somos recebidos com um doloroso tapa no bumbum dado por um sacripanta embuçado atrás de uma máscara branca. E neste planeta estando, vem a vida, o fado, le destin, the fate, a sina, o destino e a todo instante nos convida a dançar, seja uma lúdica cantiga de roda, um saltitante samba de breque, um instigante rock'n roll, um delirante axé, um sensualíssimo tango e mesmo a indesejável Marcha Fúnebre, valha-me Deus!, Alá nos proteja!, Maomé, Jeová, Buda, Jah, Olorum e Tupã olhem por nós e nos cubram com protetora égide! Não é preciso ser um Nietzsche, um Schopenhauer para tirar da existência tais ilações. À medida que vamos vivendo vamos recebendo nossos quinhões de pequenas ou grandes dores, perdas e frustrações e de inesperadas e inexplicáveis alegrias que nosso peito por vezes parece não saber comportar. Incontáveis vezes a vida nos dói, mas somos a velha raça humana e sendo assim e assim sendo, Esperança é nosso sobrenome. Escrevo essas prosaicas divagações movido pelo fato de que acabo de receber uma mensagem pelo Facebook que me pegou de surpresa, me alegrou e me trouxe intensa emoção. Quem a escreveu foi meu amigo de longa data, o cartunista Paulo Paiva, marido de Suely Hiromi Furukawa, editora, colorista, redatora, enfermeira, amiga, esposa, mãe, avó. Pelos mistérios que nossas existências encerram, Paulo Paiva sofreu há alguns anos um severo AVC. Mas mistérios outros determinaram que Paulo não morreria nos privando de sua agradável presença, de sua alegria, seu humor, de sua privilegiada criatividade. E o apoio da esposa, Suely, da filha Paulinha e agora também de Eric, seu amado neto, ainda um bebê, são fundamentais para Paiva driblar as dificuldades inerentes ao AVC. Confesso que fiquei com os olhos marejados ao ler e reler a mensagem que contém um desenho saído da cuca e das mãos do Paiva que mostra uma criança representando o Ano Novo a nos desejar com um largo sorriso, pleno do mais lídimo sentimento de esperança e de fé, um grande, um muito bom ano novo para todos. Foi fácil decidir que mais uma vez vou me valer do contagiante e elevadíssimo astral de Paulo Paiva e de Suely para estender e desejar a todos os que curtem e acompanham este meu bloguito um graaaaande, um redentor, um felicíssimo, um benfazejo e profícuo Ano Novo. Um 2017 bom demais para todos nós, galera!!
(Publicado originalmente no dia 30/12/14)

José Luis Torrente, um símbolo incontestável da masculinidade contra o homossexualismo.

Dentre os infindáveis estereótipos que estamos habituados a ver em cenas de filmes norte-americanos está aquele em que dois policiais com a missão de patrulhar as ruas da cidade estão no interior de sua viatura, curtindo aquela calmaria que costuma anteceder os grandes conflitos, conversando amenidades e saboreando com volúpia enormes e deliciosos donuts, que são uma espécie de rosquinha ianque com variados recheios e coberturas transbordantes de caldas com muito açúcar. Na ótima série de comédias do cinema espanhol em que o ator Santiago Segura interpreta o anti-herói José Luis Torrente, um agente policial franquista, racista, machista e fascista, xenofóbico e homofóbico, essa famosa cena é um tanto diferente. Enquanto está com um outro policial dentro de um carro, apatrullando la ciudad ou montando campana em alguma investigação, sob o pretexto de relaxar das tensões da vigília e passar o tempo que monotonamente se arrasta, Torrente propõe ao colega que ambos se masturbem de forma mútua. Os já iniciados nessa práxis topam na hora e partem logo para a punhetística parceria, certamente por acharem isso muito mais interessante que ficar se lambuzando com os tais donuts. Já os policiais novéis nessa prática de onanismo em dupla, relutam diante da proposta, alegando que isso não é coisa que fique bem entre dois sujeitos héteros, mas acabam cedendo diante de um argumento definitivo de Torrente que afirma que tudo é feito observando o respeito às mais ortodoxas normas do machismo. Enquanto cada um manipula freneticamente la polla alheia, ou seja, o membro, a piroca, a verga do outro, percebendo que seu parceiro deixa escapar longo e sonoro gemido de prazer, Torrente, resfolegante, em bom espanhol o adverte: ”Sin mariconadas! Sin mariconadas!”.

Merchandising Divina / Frases do Barão de Itararé 4

"A estrela de Belém foi o 
primeiro anúncio luminoso." (Barão de Itararé)

Mulher de Capricórnio no Horóscopo de Vinicius de Moraes


A capricorniana é capricornial
Como a cabra de João Cabral.
Eu amo a mulher de Capricórnio
Porque ela nunca lhe põe os próprios.
A caprina é tão ciumenta
Que até os ciúmes ela inventa.
Mulher fiel está aí: é cabra
Só que com muito abracadabra.
Suas flores: a papoula e o cânhamo
De onde vem o ópio e a maconha
Ela é uma curtição medonha
Por isto nos capricorniamos.
(211013)

26 dezembro 2016

Alejandro Iñárritu, Amores perros e um Cinema feito por quem sabe fazer Cinema.

Há toneladas de filmes na história do cinema que nada de importante dizem ou propõem, feitos por diretores que nada têm a dizer ou a propor. São meros produtos comerciais feitos com o objetivo de gerar lucros econômicos, fabricados para atender a uma grande faixa de público não muito exigente, que acorre às salas de projeção buscando um filme feito para proporcionar momentos de relax, construídos com uma narrativa nem um pouquinho complicada, repleta de lugares comuns, cheias de momentos déjà vu, de moral e desfecho previsíveis, atores bonitos e carismáticos, alguns efeitos especiais para enfeitar o bolo e ainda por cima dublado, que esse negócio de ler legendas e olhar imagens é coisa intolerável. Quem achar que são uma boa pedida que os assista e sejam felizes. Quanto a esse filho de meu pai, essa semana procurei na internet, achei e revi Amores perros (no Brasil, Amores brutos), com o áudio original, um filme do qual gosto muito, pois, felizmente, há diretores e filmes que não compactuam com a mediocridade geral que assola o grande écran, diretores como o mexicano Alejandro González Iñárritu. Amores perros é, surpreendentemente, sua estreia em longa-metragens. O filme é um soco no estômago que tira o fôlego do espectador, tão emocionante é, tão bem escrito é, tão bem dirigido, interpretado e montado é. Um elenco afinadíssimo que dá um show de garra e talento, em que se sobressai a figura de Gael Garcia Bernal que, com a visibilidade adquirida a partir dessa película, foi guindado à condição de astro internacional, filmando com Pedro Almodóvar e com nosso Walter Moreira Salles, entre outros. Ousado, emocionante, iconoclasta, criativo, surpreendente, Amores perros é feito de narrações e sub-narrações, histórias e personagens de mundos diferentes que acabam se cruzando pelo imponderável da vida. Fortes emoções são reservados ao espectador que não consegue adivinhar como será a próxima cena nem as soluções dos conflitos expostos, em meio ao amor, à paixão, à violência urbana, tudo alinhavado por Iñárritu de uma forma em que os perros do título são fatores determinantes na deflagração de conflitos em que imperam emoções incomuns que tomam conta do espectador. Para os que apostam em filmes comerciais medíocres para angariar lucros, é bom dizer que Amores perros é uma das grandes bilheterias do cinema, o quinto em toda a história do cine mexicano. E o filme não precisou se valer da mediocridade, do lugar-comum e de velhas fórmulas para seu êxito comercial.

Ademar Gomes, jornalista e escritor: um Machado de Assis com muita pimenta

 Ser amigo de Ademar Gomes nem sempre era tarefa fácil. Suas alternâncias de humor, suas explosões de indignação e de raiva, seus esgares na face exangue, seus olhos faiscantes surgindo por trás da fumaça de seus puros requeriam paciência digna de monge budista. Em se tratando de inter-relações pessoais Ademar não era exatamente uma grata unanimidade. Professor Bandeira - seu apelido e alter ego - tinha curtíssimo pavio e não primava pelo uso de eufemismos e antífrases quando queria dizer aos outros o que deles pensava. Assim sendo, angariou ao longo da vida um considerável número de desafetos que, à socapa, apodavam-no picareta. Nada mais injusto. Bandeira era um bravo batalhador que sobrevivia com seus escritos. Dos anúncios de seu jornal, o JC, e dos seus livros, ganhava lícita e dignamente o croissant de cada dia e jamais se envolvia em cambalachos, maracutaias, fraudes ou falcatruas que pudessem prejudicar quem quer que fosse. Sua história pessoal daria um rico roteiro cinematográfico. Sendo de baixa extração, tornou-se - qual um Machado de Assis redivivo - um homem de invejável cultura. Boa parte a devia ao escritor Ariovaldo Matos, com quem muito conviveu, e ao respeitado cronista Sylvio "Resistir Quem Há-De" Lamenha, professor e intelectual, uma espécie de mentor de Ademar. Professor Bandeira - ou ainda Zé do Grilo, outro alter ego seu - tinha verve rara e quando as coisas para ele navegavam em mar de almirante, era agradavelmente gárrulo e todos em volta ficavam embevecidos com sua rara dialética e sua retórica entremeada de inspiradas boutades. Conhecia em detalhes a vida, a trajetória de cada político, de cada empresário, de cada figura desta terra. Sabia-lhes o lícito e o ilícito, os golpes perpetrados, as insídias, os adultérios, as tramoias. Um dia meu filho se aproxima de mim com um jornal aberto na página dos obituários, nela o nome do amigo tão fraterno. Abraçamo-nos em pranto convulso. Nutríamos por Ademar um imenso afeto que descobri maior quando ele se foi desta vida. Hoje, sua ausência traz uma constante e indefinível sensação de vazio, uma dor que lancina, análoga a que sinto pela perda precoce de irmãos meus em Sampa. E fica a certeza de que quando alguém que amamos se vai, uma parte da gente segue junto e nunca mais somos completos. Poderia dizer a este tão amado amigo "descanse em paz, Ademar". Mas esta não é a frase correta para ser usada com Professor Bandeira que, agorinha mesmo, Romeo Y Julieta no bico, inexoravelmente está promovendo formidáveis esporros entre as nuvens do céu, questionando São Pedro, enquadrando anjos, arcanjos e querubins, exigindo falar com o Criador em pessoa para reclamar da música, do serviço celestial, do desafinado coral de anjinhos. E o Paraíso nunca mais será o mesmo. Bote pra F, querido irmão!
(23/11/10)

25 dezembro 2016

Irmã Dulce e a Bahia de Todos os Santos e Orixás.


Boa parte do tempo sou um agnóstico convicto ou um inveterado livre-pensador. Em outras sou um católico apostólico baiano, o que significa ter um pé em Roma - com sua infindável galeria de santos - e outro na África, com seus prestimosos orixás. Aqui nessa afro-terra que habito, múltipla em todos os sentidos, o ecumenismo é um caminho natural que os que se pretendem justos devem civilizadamente trilhar em nome da paz e da mais fraternal das convivências. Há que se respeitar as escolhas pessoais no tocante à fé e tratar todas elas com igual carinho e humano respeito, e não seguir a senda maldita e o horror dos ortodoxos e fundamentalistas de todos os matizes. Preces fervorosas para o Homem de Nazaré, para Nossas Senhoras e oferendas cheias de fé para Oxuns, Yansãs e Yemanjás. Fiz essa caricatura do maior ícone do catolicismo soteropolitano, Irmã Dulce, que tratava com desmesurada bondade pessoas pobres, doentes, desamparadas, sem ter mais a quem recorrer, seres humanos já desesperançados que a procuravam em busca de ajuda e a quem ela acolhia sem se importar se eram católicos, evangélicos, de religião afro, judeus, se eram héteros ou homossexuais, negros ou brancos, nordestinos ou não. Eram seres humanos carentes de amparo e isto era o que mais importava para que ela os acolhesse com suas próprias mãos, praticando o verdadeiro amor que Cristo sempre pregou e que muitos arrogantes que se dizem líderes religiosos jamais aprenderam e praticaram, utilizando o cristianismo e o nome divino para espalhar mentiras, manipular mentes e enganar os crédulos, deles tirando dinheiros, acumulando fortunas pessoais e levando despudoradamente uma vida de luxo e ostentação, bem diferentes de Jesus Cristo que nada tinha de fausto e de pompa. Jesus, em sua simplicidade, trajava apenas uma túnica inconsútil para levar o que realmente importava: o amor, o respeito ao próximo e a palavra de Deus. Assim como Irmã Dulce, que usava tão somente um hábito surrado para amparar os desvalidos. Dulce, dulcíssima. Em sua forma física Irmã Dulce se foi, mas seu exemplo de verdadeiro amor ao próximo ficou, segue entre nós. E hoje certamente ela está lá no céu ajudando muitíssimo seu chefe, que ela não é mulher de ficar acomodada num canto. Odô yá, Irmã!
(11/11/13)

24 dezembro 2016

Portal Multimídia do IRDEB: Arte e artistas da Bahia.

Não é de hoje que o IRDEB, Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia, presta mui relevantes serviços à cultura da Bahia. Para aproveitar os elásticos poderes de comunicação da internet e dar maior visibilidade aos artistas, literatos, dramaturgos, fotógrafos, eventos sociais e políticos, festas populares e otras cositas buenas dessa afro-terra, há já algum tempo o Instituto criou o Portal do IRDEB em que o interessado encontra um mundo de coisas relativas ao expressivo caldeirão cultural da Bahia, toneladas de ótimos vídeos, projetos especiais, radionovelas, jornalismo, poesia, filmes e o escambau. Você, leitor fenomenal, de vasto cabedal cultural etcétera e tal, não pode passar batido. Acesse o link e dê uma boa e atenta olhada o quanto antes, agora mesmo, se possível. Vale dizer que ao entrar no Portal, uma das muitas opções a seu dispor é clicar em Galeria de Imagens. Lá você encontrará uma seleção de conhecidos artistas da Bahia, todos com trabalhos bem diversificados, incluindo fotografias, esculturas, artes gráficas e plásticas e um mundaréu de coisas mui belas. Entre esses artistas você encontrará o cartunista Lage e seus cartuns e desenhos maravilhosos, o sempre criativo Robério Cordeiro e o formidável Guache Marques, que é um mix de artista plástico e galã de novelas mexicanas, sempre arrancando suspiros de lúbricas e concupiscentes moçoilas. Ah, antes que me esqueça, usando da maior falsa modéstia, quero lembrar que nessa lista de artistas também está Paulo Setúbal, o popular eu mesmo, exibindo uma série de trabalhos de minha lavra como ilustrador, pintor, retratista e caricaturista. Tá pensando o quê?! Não sou fraco não, véio!
******O link para o Portal é http://www.irdeb.ba.gov.br 

23 dezembro 2016

Mortinha, o Queijinho de Minas, e a Velha Jovem Guarda


Vinda da terra do heróico Tiradentes, a cantante Mortinha era carinhosamente epitetada de O queijinho de Minas. Este cognome a um só tempo singelo e carinhoso, fazia menção às origens mineiras da guapa moçoila e rendeu uma grande polêmica, tudo porque sabido era que Mortinha, O queijinho de Minas, costumava pisar nos palcos para cantar usando generosas minissaias que, se não chegavam a deixar à mostra o triângulo mineiro dela, ao menos revelavam um mui bem torneado e invejável par de coxas, sendo que era dessa capitosa forma que ela se apresentava no programa "É uma brasa, mora!", do qual o Rei da Jovem Guarda, Roberto Calos, era o apresentador nas jovens tarde de domingo. E a alardeada polêmica teria surgido do fato de que RC nunca escondeu de ninguém - e até propagava aos quatro ventos - que adorava degustar com avidez todos os tipos de laticínios imagináveis oriundos de Minas Gerais, regalando-se com tais delícias e ainda lambendo os seus reais beiços cantantes.
(100512)

22 dezembro 2016

Um desenho de Paulo Paiva com direito a Happy New Year

Paulo Paiva, meu cartunista de estimação, como é do seu consuetudinário proceder, produz assaz criativos desenhos a todo vapor nos finais de ano. Guardo um deles com especial carinho, que é este aí em cima postado, que me enviou minha chapinha Suely Hiromi Furukawa em que ela própria aparece ao lado de PP e da amada filha deles, Paulinha, vestida com sua vistosa farda de moça-da-lei. Você vê na ilustração um dos gatos da família, mas não vê o Eric, filho de Paulinha, neto de Suely e Paulo Paiva, porque essa postagem é um remake de uma que aqui postei há alguns anos, quando Eric ainda não havia chegado para alegrar um pouco mais esse planeta azulzinho. Sucede que de tanto gostar desta mensagem enviado pela família Paiva-Furukawa, costumo repetir a postagem em natalinas épocas. Também pudera, o desenho de Pepê mostra sua família, que é uma família bem bonita e bem brasileira, que pretendo crer que há de bem simbolizar e adequadamente representar todas as outras deste patropi abençoá po Dê e boni po naturê, como diz e canta o velho e sempre bom Babulina. Paulo Paiva é um cara de astral elevadíssimo e a temática do desenho trata de sinceros votos de um Natal feliz e um Ano Novo massa, que é exatamente o que eu desejo aos amigos e aos meus fiéis e caríssimos leitores que leem este meu bloguito, e é justamente por isso que vou reincidentemente grilando, usurpando o desenho, me apossando mui semcerimoniosamente, remakando uma vez mais, pegando carona no ótimo astral dessa família de meu nobre amigo e editor e aqui postando para que todos que visitem este espaço possam ler e receber bons fluidos e se sentirem em estado de graça.
(Publicado originalmente em 20/12/13)

19 dezembro 2016

Woody Allen, Mia Farrow e um retrato em branco e preto a maltratar o coração.

 Por toda esta semana, enquanto desenho uma HQ tenho me deliciado ouvindo a voz macia de Leila Pinheiro, interpretando maravilhosamente canções da dupla Aldir Blanc-Guinga, compositores da pesadíssima. Uma dessas canções, "Catavento e girassol", fala das diferenças abissais existentes na relação de um casal que se ama, apesar dos muitos pesares, uma incompatibilidade quase que total que, no entanto, não impede o amor de ambos. Um dos trechos da letra diz: "eu tenho um jeito arredio e você é expansiva - o inseto e a flor. Um torce pra Mia Farrow, o outro é Woody Allen..." Uau!, Aldir Blanc é incomparável. Falando em Woody Allen, de há muito o magrelo é um dos meus grandes ídolos. Esta ilustração aí em cima foi publicada em jornal num artigo que falava sobre esse criativo cineasta, ator, comediante e escritor. Deixei as cores de lado, fiz a ilustração em branco e preto, como o retrato na letra daquela linda canção do Chico e do Tom. Para tal, usei lápis, caneta-nanquim e pincel com tinta-da-china, e aviso que isso não tem nada a ver com a amada de Woody, Soon-Yi, que aliás não é mesmo chinesa, é coreana de nascimento. E já que essa pendenga Farrow-Allen andou sendo revivida pela mídia recentemente, aproveito para dizer que eu também torço mesmo é para o Woody Allen, igualzinho ao personagem da maravilhosa letra do maravilhoso Aldir Blanc.
(05/07/15)

El gran Vázquez: um fantástico cartunista da Espanha e o filme sobre sua vida e criações.

 El gran Vázquez é nome de um filme de 2010 do cineasta espanhol Óscar Aibar. A película se baseia na vida - por sinal, bastantíssimo atribulada - de um dibujante de historietas, ou mais exatamente um historietista cómico español, ou seja, um retumbante e altaneiro desenhista de histórias em quadrinhos da Espanha, cujo nome era Manoel Vázquez Gallego. Segundo consta, Vázquez nasceu em Madrid em 24 de janeiro de 1930, sendo filho de pai espanhol e de mãe brasileira, vá vendo você como são as coisas nesse planeta azulzinho que habitamos. Essas atribulações da sua vida eram motivadas em parte por suas muitas dificuldades econômicas que faziam com que o bravo dibujante contraísse dívidas e mais dívidas e constantemente tivesse um monte de cobradores em seus calcanhares e ele tinha que ser mais escorregadio que sabão para escapar dos insistentes sujeitos. Vázquez não era viciado em drogas ou em qualquer tipo de jogo de azar, suas dívidas vinham do fato dele não se conformar com as limitações impostas pelos seus parcos ganhos como desenhista e, malgrado isso, insistir em levar uma vida com nível que ia além do que seus somíticos proventos lhe permitiam. Diretores da Editorial Bruguera tratavam de complicar ainda mais as coisas tirando-lhe todo e qualquer direito sobre os personagens que ele criava, agindo impiedosamente de uma forma injusta e antiética: ou ele assinava a cessão dos direitos ou não recebia nenhum vintém pelos desenhos feitos. Seus personagens, a exemplo de La famillia Cebolleta, Las hermanas Gilda e Anacleto, agente secreto, eram adorados pelos leitores, mas com os direitos autorais nas mãos dos patrões, pouco lhe rendiam. Nada recebia por eles além do valor pouco expressivo pago pelas páginas com as histórias que criava e desenhava. Tal situação abusiva era imposta também a seus colegas de prancheta na Bruguera, entre eles desenhistas que se tornaram famosos como Peñarroya e o hoje consagrado Francisco Ibañez, criador de Mortadelo y Filemon, no Brasil batizados de Mortadelo e Salaminho. Vázquez tinha um ótimo traço, era um artista talentoso que, de forma criativa, muitas vezes se inspirava em suas vivências cotidianas e colocava a si próprio como personagem de suas historietas, revivendo suas agruras e suas alegrias, como uma autêntica catarse em nanquim. Vázquez criava também toda sorte de subterfúgios para driblar a política injusta imposta por seus editores, não as aceitava passivamente como os demais. Enquanto isso, tinha sempre que usar de muita sagacidade para fugir do indesejável séquito de cobradores que o perseguiam a qualquer hora do dia. Seus problemas com o dinheiro e com os editores terminaram por levá-lo à cadeia sob a acusação feita pela Bruguera dele receber indevidamente valores monetários valendo-se de fraude, com direito a falsificações de assinatura pelo dibujante. De certa forma, isso seria um troco à exploração e vilania dos seus patrões, o que nos faz pensar em Vázquez como uma espécie de Robin Hood que tirava dos ricos para dar ao pobre, no caso ele mesmo. Para complicar um pouquinho mais as coisas, a vida amorosa de Vázquez também não era exatamente um mar de rosas. Gostava de mulheres, tendo vivido com sete delas em regime, digamos, de união estável. Através desses relacionamentos colocou no mundo onze filhos, onze boquitas para alimentar com leche, paellas e tortillas. Acusado de bigamia, Vázquez voltou a passar um período na cadeia. Óscar Aibar, antes de se dedicar integralmente ao cinema, trabalhou como guionista de historietas, ou seja, argumentista de quadrinhos, na revista Makoki. Nessa condição conheceu e conviveu com Manolo Vázquez e dele ouviu detalhes de sua vida pessoal que muitíssimo impressionaram o cineasta, surgindo daí a decisão de um dia levar ao écran um filme sobre o historietista famoso e seu modo diferenciado de viver nesse mundo. Quando chegou a ocasião de realizar a película, para interpretar Vázquez, Aibar chamou o ator Santiago Segura, fantástico como sempre. O roteiro é muito bem escrito, todo o elenco está bem, o diretor é habilidoso aos mostrar, de forma contida, as sequências com tom humorístico ou dramático. Não sei se as locadoras de vídeos têm em seus acervos El gran Vázquez. Na verdade, nem sei mesmo se ainda existem locadoras. Em todo caso, sempre é possível achar-se uma cópia do filme na internet. Para quem, a exemplo de mim, ama historietas, dibujos, dibujantes e cinema vale muitíssimo a pena.

18 dezembro 2016

As Histórias em Quadrinhos, o diabo contra o Brasil

Tempos houve em que as Histórias em Quadrinhos aqui neste Patropi eram consideradas coisas do demo, do canhoto ou seja lá que nome dêem ao anjo dissidente das hordes celestiais. Você, amável e atilado leitor, que no conforto do seu sacrossanto lar gosta de ler bem editados álbuns de luxo de HQ que hoje circulam em toda parte com pompa e circustância, ficará um tanto cético diante de tal afirmação, mas ela é a pura expressão da verdade, por mais absurda que lhe possa parecer. Em meados de 1930 o empresário Adolfo Aizen, através do Suplemento Juvenil, lançou as HQs aqui no Brasil. Quer dizer, esta é a versão corrente, embora haja os que afirmem que antes dele já havia pubicações pioneiras de quadrinhos por aqui. O fato é que Aizen lançou com grande repercussão, em larga escala, de maneira maciça e por isso é considerado o grande marco dos quadrinhos no Brasil. Entre os leitores e os quadrinhos houve uma paixão instantânea e fulminante que se fortaleceu à medida em que o tempo foi passando. Mas gente que se crê dona da verdade e se autoentitula defensora legítima da moral e dos bons costumes não é uma sandice dos tempos atuais, sempre existiu. Infiltradas nos órgãos oficiais, nos gabinetes acabaram por desenvolver verdadeiras campanhas onde a tônica era o mais improcedente preconceito e buscaram fazer uma lavagem cerebral por atacado afirmando que as revistas de HQs, os conhecidos Gibis, eram um inimigo natural dos livros didáticos, um adversário maléfico, um feroz antagonista das consagradas obras dos bons escritores, que destarte eram um inimigo do próprio Brasil e do povo brasileiro e um monte de sandices congêneres. Difícil de acreditar em algo assim, não é? Pois coisas até piores que isso foram ditas, escritas, impressas e circularam entre nós. Afirmavam, em cartazes e por outros meios, que a criança que lia quadrinhos inexoravelmente haveria de se tornar um malfeitor que empunharia armas contra as pessoas ditas normais. Valei-me meu São Stanislaw! Esta autêntica Idade das Trevas das comunicações graças aos céus parece ter chegado ao fim e hoje os quadrinhos circulam nos mais salutares ambientes com as devidas alvíssaras e são comercializados em versões bem cuidadas, até luxuosas, em livrarias conceituadas, sendo largamente empregados em campanhas governamentais, seja na área de saúde ou outra qualquer, onde se faça necessária uma forma de comunicação rápida e de alcance de todas as camadas. E, glória das glórias, hoje são utilizados amiúde em parcerias com os livros didáticos que assim levam ao povo, com o auxílio luxuoso das HQs, o doce sabor do Saber. Os quadrinhistas brasileiros, comovidos, agradecem, não é mesmo Bira Dantas e Cedraz?
(publicado originalmente em 21 de março de 2014)

Sérgio Rês, o Moço do Coração de Pastel, e a Velha Jovem Guarda

Todos sabemos que hoje em dia Sérgio Rês é um consagrado cantor mas que é também um criador de gado e um dos mais abastados fazendeiros deste país. No entanto, no começo de sua carreira bovino-musical teve que comer o pastel que o diabo amassou. Ou melhor, teve que se virar vendendo pastel nas feiras livres para ganhar algum tutu. Até que Rês levava uma certa vantagem pois sendo muito alto sobressaía-se na multidão com seu tabuleiro na cabeça e isto auxiliava no sucesso da vendagem. O imaginativo cantante ainda por cima criou um jingle para seu produto que dizia "Se você pensa que meu coração é um pastel, não vá mordendo, pois não é!" Um cliente seu, que era dono de uma gravadora, gostou do que ouviu e contratou Sérgio Reis para seu cast. O resultado foi o que todos já sabemos: o sucesso chegou trazendo muito dinheiro, o cara virou dono de muito gado e político cheio da grana. Gosta muitíssimo da política e de seus rebanhos e tanto gosta que, como político, parece não enxergar muita diferença entre gado e gente. Atualmente Sérgio Reis ainda gosta de saborear um bom pastel. Desde, que fique bem claro, que o recheio esteja à altura de seu atual status, o que significa que o dito recheio tem que ser de lagosta, faisão ou caviar Beluga de ovas advindas das gélidas águas do Volga ou mesmo as do Esturjão Siberiano do Lago Baukar, trazidas do distante Tutuquistão do Norte.
(100512)

Quem é quem na Velha Jovem Guarda

Recordar é viver, já dizia Lázaro que, depois de ter estado morto, bem morto, duro, teso e esticadão voltou à vida, levantou e andou por artes e ordens expressas de um nazareno conhecido por JC, um cara quase tão famoso quanto os Beatles e que não brincava em serviço quando o papo era fazer milagres. Então recordemos, pois. Deixe que sua memória o leve de volta aos cultuados anos 60s, década em que surgiu um movimento musical e comportamental batizado de Jovem Guarda. Se você ainda não havia nascido naquela época, não tem problema. É só você recordar-se do que já viu em algum especial televisivo sobre aqueles tempos de tanto glamour em que jovens e talentosos cantores surgiram cheios de inovações para ocupar o lugar dos cantantes medalhões na cena brasileira. E nunca mais saíram dela, tornando-se os medalhões da vez e vai daí que também tiveram que ceder os holofotes aos novos talentos e sumiram dos palcos e TVs. Como estarão eles agora? - indagará sua atilada pessoa. Pois saiba que, aproveitando as ondas de revival, eles continuam muito bem tocando suas guitarras, cantando e rebolando. Quer dizer, rebolando nem tanto pois nem sempre as dores articulares características na idade atual permitem. Mister se faz este singelo e saudosístico preâmbulo para anunciar que as postagens porvindouras justificarão o título e mostrarão... Quem é quem na Velha Jovem Guarda.
(100512)

11 dezembro 2016

A verdadeira origem dos Doces Bárbaros

Corria o ano de 1976 e Santo Amaro da Purificação vivia dias de um regozijo sem precedentes em sua história. Tudo porque Dona Canô, líder natural da comunidade e quitueira de invulgares dotes e assaz justificado prestígio, decidira que seus mui deliciosos acepipes, dantes restritos às privilegiadas papilas gustativas de seus familiares e uns poucos agregados, iriam ser postos à venda para todo o povo santoamarense. Tudo movido pelo nobre objetivo de angariar fundos para viabilizar a festa anual ao santo padroeiro da simpática urbe. Sendo a venerável matriarca dos Vellosos, Dona Canô contou com a consuetudinária participação de todos da família. Mesmo os mais novos como o ainda glabro Caêzinho e sua mana Beta, Beta, Bethâninha, ambos de prendas canoras aclamadas nas tertúlias do clã. A dupla chamou seus amiguinhos Gilzinho e Galzinha que incontinentemente aceitaram o convite. Unindo talento artístico com tino comercial o quarteto criou - e apresentava na praça - um show de canto e dança de fazer Michael Jackson babar de inveja. Tudo para ajudar na vendagem feita por nobres motivos. E com tal fim bolaram um jingle em que preconizavam ainda mais as virtudes e a já reconhecida suprema qualidade dos doces canônianos, os quais batizaram de Doces Bárbaros, usando um neologismo da época. Sucesso total! Multidões acorriam à praça e as vendas aconteciam aos borbotões. Com a renda arrecadada a igreja fez a mais linda festa ao santo padroeiro que como reconhecimento retribuiu aos habitantes com mais que farta distribuição de graças. Uma delas foi fazer com que entre o público admirador dos meninos estivesse, de passagem por Santo Amaro, um influente empresário do ramo musical que viu logo que em futuro mui breve eles se tornariam grandes estrelas da MPB. E não pestanejou: contratou, célere, toda a trupe que levou para Sampa. Lá montou o show Doces Bárbaros, aquele mesmíssimo criado pelos precoces infantes para vender as canônianas delícias em modesta ágora santamarense. O sucesso foi estrondoso como previsto e hoje os Doces Bárbaros são conhecidos e reverenciados em todo o planeta graças, sobretudo, às habilidades culinárias e ao axé de Dona Canô, a mui amada matriarca.
(10/08/13)

07 dezembro 2016

Frank Menezes: bofetada com luva de pelica


Quando exponho no Soho, NY, recebo um soberbo tratamento VIP, sendo reverenciado qual autêntico semideus pelo fervilhante e glamuroso universo artístico da Big Apple. Os mais consagrados popstars acorrem para oscular-me as santificadas mãos que pintam e caricaturam como guiadas por anjos - segundo words, words, words publicadas pelo New York Times. Até celebridades como o velho Al Hirschfeld - já falecido - comparecem para me prestigiar. E um providencial tapete vermelho sói antecipar meus passos. Mas - proh pudor!, proh pudor! - quando retorno a esta afro-baiana terra movido por indestrutíveis grilhões sentimentalísticos sou tratado como um reles mortal sujeito a pegar buzus apinhados de viventes com os mais hediondos odores e encarar uma sinuosa e interminável fila no Bradesco da Pituba. Em nela estando, anônimo qual apenas mais um do vulgo, perpasso meus gázeos olhos pelos desconhecidos companheiros de enfileirado infortúnio. Eis que avisto Frank Menezes, o maravilhoso ator, a quem vi a primeira vez atuando em A Bofetada, dirigida pelo meu chegado, Fernando, o Guerreiro, e depois em mini-séries globais, no filme Tieta e em peças outras. Fiquei fã incondicional. Frank, um tremendo artista que ali na fila nada mais era que um cidadão comum pagando suas contas. Luto contra um inesperado impulso tietagenístico que me empurra em sua direção. Ao vê-lo conversando descontraído, solícito e simpático com pessoas na fila crio coragem, aproximo-me, coloco no rosto meu melhor sorriso e declaro: "Sou um seu grande admirador e acompanho todos os seus trabalhos, Jefferson." Valei-me, meu São Freud! Minha mente levemente sequelada por algumas cannabis sativas fumadas no fulgor de minha juventude em anos de flower and power me prega peças até hoje e não me custa nada trocar um nome de provável origem anglo-saxônica por outro e lá vou eu pagando símio por aí. Meu alarme antigafe dispara e tento corrigir a mancada rápido qual um Usain Bolt: "Opa, Jefferson, não... Franklin. Mil perdões, Franklin!" Ele, fleumático e condescendente me diz: "Legal...mas não sou Jefferson nem Franklin. Meu nome é Frank." Isto tudo sorrindo, sem demonstrar indignação ou rancor. Mais uma para meu vasto cabedal de gafes. Vexado, volto lesto e presto ao meu lugar na fila onde permaneço hirto e silente. E resolvo que está mais do que hora de euzinho passar uma nova temporada na Grande Maçã entre meus very crazy fãs norte-americanos até que a vergonha se esvaneça. E tomo uma decisão: continuarei assistindo as peças deste grande ator que tanto admiro. Mas só irei aos teatros de óculos escuros, envergando chapéu de aba larga e uma capa com a gola levantada qual um Humprhey Bogart . E sem nenhuma Ingrid Bergman ao lado para não testemunhar minhas paquidérmicas gafes e dizer "Say it again, Set." 
(101012)

05 dezembro 2016

Juazeiro, Petrolina e Ilha do Fogo: lá 1964 ainda não acabou

Redigo: a Ilha do Fogo é  um patrimônio legítimo e indissociável do povo, do amável e ordeiro povo brasileiro que habita as vizinhas cidades de Juazeiro, Bahia, e Petrolina, Pernambuco. Bem entre estas urbes, situa-se essa bucólica ínsula fluvial, dividindo ao meio naquele trecho, o histórico e lendário Rio São Francisco. Por quase meio século pescadores e habitantes da região transitaram por suas areias. Eis que então militares pernambucanos botaram enormes e cobiçosos olhos sobre a ilha e decidiram usurpá-las, arrancando das mãos dos pacíficos moradores sob o descabido pretexto de que ali é ponto estratégico, vital para a segurança desse país varonil de Gugu e Clodovil. Pois tais militares, conhecedores da questionável máxima que por aqui impera de que "decisão judicial não se discute, se cumpre", foram a um juiz simpático aos castrenses. Longe vai o tempo em que os brasileiros enxergavam um juiz como um monumento da idoneidade e da imparcialidade, um oceano da integridade moral. Os próprios juízes, fazendo o que muitos, de forma escancaradamente absurda, vêm fazendo, trataram de eliminar em nós outros quaisquer resquícios de crença e de confiabilidade. Sendo assim e assim sendo, procurado pelos militares, o tal juiz foi mostrando logo que sua toga era verde que te quero verde...oliva, foi tratando, célere, de dar parecer legal às pretensões dos militares e autorizando a posse e ocupação da Ilha do Fogo pelos fardados. Tudo feito sem uma prévia consulta popular, sem que as comunidades pudessem ter voz e vez para se manifestar democraticamente, bem ao estilo dos anos de chumbo. Nenhum plebiscito, nenhum referendo popular. Puro arbítrio travestido de legalidade. Um ato bem ao feitio dos negros tempos do nada saudoso regime militar que, iniciado em 1964, golpeou nossa gente por mais de 20 anos e que saudosistas do fascismo insistem em trazer de volta. Lamentável, lamentável. O Rio São Francisco é extenso. A caatinga é vasta. Nas terras do sem fim sanfranciscanas é de notório conhecimento que gentes inescrupulosas mantém plantações de  maconha que geram toneladas da erva-do-capeta que abastecem o mercado das drogas. Por ali, sim, seria de grande utilidade instalação de um batalhão de militares bem armados e preparados. Mas todos sabemos que além de traficantes, jagunços e pistoleiros armados, por ali há cobras, onças, mosquitos e sabe-se lá mais o quê. Ao contrário de todo este inferno, a Ilha do Fogo é lugar mais que aprazível, fica perto da casa dos militares, das suas amadas famílias, de shoppings, do aeroporto e dos bons restaurantes que servem a melhor carne de bode deste orbe. Por tudo isso, certamente a finada apresentadora Hebe Camargo diria que os militares pernambucanos envolvidos nesta questão são uma gracinha. Mas da Ilha do Fogo não arredam de jeito nenhum mesmo diante da justíssima pressão popular. Diante dela estão falando em conceder à população o acesso à Ilha do Fogo nos domingos e feriados, como uma reles espórtula. Quanto ao povo...ora, o povo que vá reclamar ao Papa. Menos mal que o atual Sumo Pontífice sempre mostrou não gostar de injustiças praticadas contra as camadas mais populares e, por providencial coincidência, ele também se chama Chico, um xará do Rio São Francisco, o Velho Chico.
(200913)

04 dezembro 2016

José Cândido de Carvalho, Coronel Ponciano, altercações e contendas

"Ponciano de Azeredo Furtado, coronel de patente, de que tenho orgulho e faço alarde". Esta é a auto-apresentação de um dos mais apaixonantes personagens da literatura que tive o imenso prazer de conhecer. Saído da mente iluminada de José Cândido de Carvalho para as páginas de seu magistral romance "O coronel e o lobisomem", este maravilhoso Coronel Ponciano cativa, envolve, diverte, elucida, deslumbra e nunca mais se evade da memória de quem teve a ventura de ler o livro do brilhante escritor. Tão maravilhado sou pelo personagem que de quando em vez rabisco o papel tentando captar em um desenho - perdão, Poty, perdão! - o dito Ponciano na esperança, quem sabe, de que ele ganhe vida e que eu possa vê-lo in persona entrar em luta renhida contra onças gigantescas e vorazes, cobras de alta peçonha e de desmedida metragem, lobisomens sequiosos de carne humana e até contra o próprio diabo, o cão, o satanás, o coisa ruim. Sou mais o coronel!
(17/10/2014)

01 dezembro 2016

Gonzalo Cárcamo, um caricaturista mais que ingrato / Pintando o Set 2

Até onde vai a sordidez humana? A que níveis rasteiros e mesquinhos podemos descer? Quão baixo, torpe e vil pode chegar a ser o homem, senhoras e senhores? Vocês são testemunhas do meu proverbial esforço para neste blog louvar as pretensas virtudes do caricaturista e do homem Gonzalo Cárcamo. Cordato, ilustrei a postagem com uma caricatura assaz singela e melíflua do referido cidadão. Coisa que qualquer genitora haveria de guardar orgulhosa em seu mais íntimo relicário. E ele me pagou com igual moeda? Nada disso! Avaliem esta caricatura da minha magnânima e irreprochável pessoa em que o supracitado Cárcamo desrespeita minha condição de caricaturista espada e matador e zomba da minha proverbial virilidade. Só uma mente malévola poderia conceber semelhante opróbrio, algo tão repulsivamente ignóbil. É, caríssimos leitores, assim caminha a humanidade. Vejam, meus caros confrades Paulo Caruso, Biratan Porto, Loredano e JBosco, o que tenho de suportar de forma estóica para não pegar em armas. Ah!, bons tempos aqueles retaliativos em que vigoravam as ações do CCC (Comando dos Caricaturistas Caricaturados).
(10/05/2012)

Mulher de Sagitário no Horóscopo de Vinicius de Moraes

As mulheres sagitarianas
São abnegadas e bacanas
Mas não lhe venham com grossuras
Nem injustiças ou censuras
Porque ela custa mas se esquenta
E pode ser muito violenta.
Aí, o homem que se cuide...
-Também, quem gosta de censura!
(121114)

Fernando Pessoa, Caetano Veloso, Plutarco, Pompeu e a necessidade de navegar

"Navigare necesse est, vivere non necesse", disse-o, embarcando em sua galera, sem demonstrar um mínimo temor diante de assaz proceloso mar, o intimorato general romano Pompeu, segundo escritos de Plutarco, que não era homem de articular falácias biográficas. "Navegar é preciso, viver não é preciso". Grande Pompeu! Tempos depois ninguém menos que o bardo Fernando Pessoa usaria a frase de Plutarco como título de um poema seu e, com propriedade, a citaria em seus fernandopessoanianos versos dando-lhe um charmosíssimo acento português que é como a conhecemos no Brasil, tendo sido até embalada numa canção por mui bela melodia de Caetano Veloso. Certamente por desta forma a conhecermos, pletoras de gentes por aqui acreditam ser a autoria da frase fruto da mente do genial poeta lusitano. Em verdade ele apenas usou o dito de Pompeu para criar uma feliz paráfrase: "viver não é necessário, o que é necessário é criar". Quanto à necessidade de navegar, sou - qual Pompeu - um destemido, arrojado e intimorato nauta mas, copiosamente precavido, me limito a singrar mares menos procelosos - os virtuais - como se os de Netuno fossem pois, como dizem, o seguro morreu decano. Ou para melhor dizer, “insurance mortuus est veteranus”, já que qualquer citação fica mais credível se pronunciada em latim. Mesmo que em um latim apócrifo, canhestramente redigido por um escriba estulto consultando um providencial Google Translator.
(31/05/2013)

30 novembro 2016

Roberto Ferri, pintor italiano: um pouquinho mais de sua arte instigante.

Em postagem anterior brindei você, meu cordialíssimo e sapientíssimo leitor, com uns belíssimos trabalhos de um pintor italiano ainda jovem mas extremamente habilidoso no manejo dos pincéis e tintas que segue uma linha clássica de pintura. O nome do ragazzo é Roberto Ferri, um cara veramente meraviglioso. A galera que acompanha este troppo piccolo blog curtiu muito os instigantes trabalhos do itálico pintante. Adesso volto a carga com mais uma dose do talento do signore Ferri para degustação geral da nação. Links até o trabalho de Ferri: http://www.robertoferri.net/ e http://robertoferripittore.blogspot.com/ . Auguri.
(121214)

29 novembro 2016

Roberto Ferri, fabuloso artista plástico da Itália na atualidade.

Da Vinci, Michelangelo, Giotto, Rafael, Caravaggio, Veronese, Ticiano, Modigliani. A Itália sempre brindou o mundo com pintores magníficos e com deslumbrantes escolas de pintura ao longo da História da humanidade. Uma bela tradição que se mantém até os dias atuais, basta ver as pinturas feitas pelo talentosíssimo italiano Roberto Ferri, artista que maneja com maestria pincéis e tintas, mostrando ter a habilidade natural dos grandes, dos maravilhosos Mestres da pintura italiana. Sim, a Itália é pátria dos diversos gênios da pintura acima citados e pelo jeito esta história de DNA faz toda a diferença, pois fácil é concluirmos que Ferri traz no sangue um talento atávico vindo de um dos seus compatriotas, Mestres reverenciados em todo o planeta. Para você que gosta de arte feita com talento vale a pena visitar o site e o blog de Roberto: http://www.robertoferri.net/
e http://robertoferripittore.blogspot.com/  
(101014)

27 novembro 2016

Raul Seixas e Marcelo Nova: rock na veia e porrada na cara!


Hoje é dia de rock na Concha Acústica do Teatro Castro Alves neste verão de 88. Tá rebocado, meu compadre, tem rock do bom na veia e é em dose dupla: Raul Seixas e Marcelo Nova. Não sou roqueiro de carteirinha mais sei o que é bom. Ao show seguramente maravilhoso que Gal fará no palco principal do TCA logo mais, prefiro o rock que rolará na Concha. E vou a caráter, blusão de couro, jeans e brilhantina no cabelo que é para entrar no clima. Raul está com a saúde abalada pelos excessos cometidos, teme-se o pior. Marceleza surge em cena qual um anjo de blue jeans, organiza shows com o amigo, viagens e até um disco, A Panela do Diabo. Motiva o Maluco Beleza que se revigora. Agora ambos estão se revezando no palco, desfilando suas canções que todos os roqueiros sabem de cor e cantam juntos com os ídolos. Empolgado com o entusiasmo da plateia Raul emenda uma música após a outra e o concerto se prolonga para deleite do público apaixonado. De repente, atrás de Raul percebo uma coreografia que não faz evidentemente parte do show. Marcelo Nova, enfurecido, está descendo o braço com vontade na cara de um cabeludo. Quando parte do público percebe, começa um coro de "bota pra fudê!" que é a senha pro eterno líder do Camisa de Vênus encher com renovadas muquetas a fuça do sujeito. Um último gancho de direita o arremessa ao poscênio de onde, nocauteado, não retorna. Nova vem para o lado de Raul, empunha o microfone e brada: "Este aqui ao meu lado é o maior artista de rock deste país! Nenhum canalha irá desrespeitá-lo em minha presença. Ele é o maior de todos, ele é Raul!" A platéia enlouquece e renova, ainda mais alto, o grito de "bota pra fudê!" Fico sabendo depois que o cabeludo surrado seria um produtor musical que queria encerrar na marra o show dos roqueiros alegando razões de pauta, horário, conflito de entrada e saída com o público do show de Gal e sei lá mais o quê. Aprendeu da forma mais dura a lição do Professor Marceleza: o respeito aos ídolos autênticos está acima de razões mais comezinhas. Poucos meses depois, o coração debilitado do homem da Sociedade Alternativa cantou e dançou seu derradeiro rock neste mundo. Sabendo que tem tanta estrela por aí, pra alguma delas lá se foi Raul numa carona com o moço do disco voador. Mas naquela noite de verão, ali na Concha Acústica, as duas maiores estrelas do rock nacional brilharam tanto e tão intensamente que os afortunados que lá foram jamais poderão delir de suas mentes e de seus corações essas lembranças. Marcelo Nova jogou duro, botou pra fudê como manda o figurino roqueiro. E Raul... bem, Raul foi Raul. E não era preciso nada além disso. Titirrane, Raulzito. Titirrane!
(10/10/12)