03 dezembro 2016

Frank Menezes: bofetada com luva de pelica


Quando exponho no Soho, NY, recebo um soberbo tratamento VIP, sendo reverenciado qual autêntico semideus pelo fervilhante e glamuroso universo artístico da Big Apple. Os mais consagrados popstars acorrem para oscular-me as santificadas mãos que pintam e caricaturam como guiadas por anjos - segundo words, words, words publicadas pelo New York Times. Até celebridades como o velho Al Hirschfeld - já falecido - comparecem para me prestigiar. E um providencial tapete vermelho sói antecipar meus passos. Mas - proh pudor!, proh pudor! - quando retorno a esta afro-baiana terra movido por indestrutíveis grilhões sentimentalísticos sou tratado como um reles mortal sujeito a pegar buzus apinhados de viventes com os mais hediondos odores e encarar uma sinuosa e interminável fila no Bradesco da Pituba. Em nela estando, anônimo qual apenas mais um do vulgo, perpasso meus gázeos olhos pelos desconhecidos companheiros de enfileirado infortúnio. Eis que avisto Frank Menezes, o maravilhoso ator, a quem vi a primeira vez atuando em A Bofetada, dirigida pelo meu chegado, Fernando, o Guerreiro, e depois em mini-séries globais, no filme Tieta e em peças outras. Fiquei fã incondicional. Frank, um tremendo artista que ali na fila nada mais era que um cidadão comum pagando suas contas. Luto contra um inesperado impulso tietagenístico que me empurra em sua direção. Ao vê-lo conversando descontraído, solícito e simpático com pessoas na fila crio coragem, aproximo-me, coloco no rosto meu melhor sorriso e declaro: "Sou um seu grande admirador e acompanho todos os seus trabalhos, Jefferson." Valei-me, meu São Freud! Minha mente levemente sequelada por algumas cannabis sativas fumadas no fulgor de minha juventude em anos de flower and power me prega peças até hoje e não me custa nada trocar um nome de provável origem anglo-saxônica por outro e lá vou eu pagando símio por aí. Meu alarme antigafe dispara e tento corrigir a mancada rápido qual um Usain Bolt: "Opa, Jefferson, não... Franklin. Mil perdões, Franklin!" Ele, fleumático e condescendente me diz: "Legal...mas não sou Jefferson nem Franklin. Meu nome é Frank." Isto tudo sorrindo, sem demonstrar indignação ou rancor. Mais uma para meu vasto cabedal de gafes. Vexado, volto lesto e presto ao meu lugar na fila onde permaneço hirto e silente. E resolvo que está mais do que hora de euzinho passar uma nova temporada na Grande Maçã entre meus very crazy fãs americanos até que a vergonha se esvaneça. E tomo uma decisão: continuarei assistindo as peças deste grande ator que tanto admiro. Mas só irei aos teatros de óculos escuros, envergando chapéu de aba larga e uma capa com a gola levantada qual um Humprhey Bogart . E sem nenhuma Ingrid Bergman ao lado para não testemunhar minhas paquidérmicas gafes e dizer "Say it again, Set." 
(101012)

Mulher de Sagitário no Horóscopo de Vinicius de Moraes

As mulheres sagitarianas
São abnegadas e bacanas
Mas não lhe venham com grossuras
Nem injustiças ou censuras
Porque ela custa mas se esquenta
E pode ser muito violenta.
Aí, o homem que se cuide...
-Também, quem gosta de censura!
(121114)

30 novembro 2016

Roberto Ferri, pintor italiano: um pouquinho mais de sua arte instigante.

Em postagem anterior brindei você, meu cordialíssimo e sapientíssimo leitor, com uns belíssimos trabalhos de um pintor italiano ainda jovem mas extremamente habilidoso no manejo dos pincéis e tintas que segue uma linha clássica de pintura. O nome do ragazzo é Roberto Ferri, um cara veramente meraviglioso. A galera que acompanha este troppo piccolo blog curtiu muito os instigantes trabalhos do itálico pintante. Adesso volto a carga com mais uma dose do talento do signore Ferri para degustação geral da nação. Links até o trabalho de Ferri: http://www.robertoferri.net/ e http://robertoferripittore.blogspot.com/ . Auguri.
(121214)

29 novembro 2016

Roberto Ferri, fabuloso artista plástico da Itália na atualidade.

Da Vinci, Michelangelo, Giotto, Rafael, Caravaggio, Veronese, Ticiano, Modigliani. A Itália sempre brindou o mundo com pintores magníficos e com deslumbrantes escolas de pintura ao longo da História da humanidade. Uma bela tradição que se mantém até os dias atuais, basta ver as pinturas feitas pelo talentosíssimo italiano Roberto Ferri, artista que maneja com maestria pincéis e tintas, mostrando ter a habilidade natural dos grandes, dos maravilhosos Mestres da pintura italiana. Sim, a Itália é pátria dos diversos gênios da pintura acima citados e pelo jeito esta história de DNA faz toda a diferença, pois fácil é concluirmos que Ferri traz no sangue um talento atávico vindo de um dos seus compatriotas, Mestres reverenciados em todo o planeta. Para você que gosta de arte feita com talento vale a pena visitar o site e o blog de Roberto: http://www.robertoferri.net/
e http://robertoferripittore.blogspot.com/  
(101014)

Ademar Gomes, jornalista e escritor: um Machado de Assis com muita pimenta

Ser amigo de Ademar Gomes nem sempre era tarefa fácil. Suas alternâncias de humor, suas explosões de indignação e de raiva, seus esgares na face exangue, seus olhos faiscantes surgindo por trás da fumaça de seus puros requeriam paciência digna de monge budista. Em se tratando de inter-relações pessoais Ademar não era exatamente uma grata unanimidade. Professor Bandeira - seu apelido e alter ego - tinha curtíssimo pavio e não primava pelo uso de eufemismos e antífrases quando queria dizer aos outros o que deles pensava. Assim sendo, angariou ao longo da vida um considerável número de desafetos que, à socapa, apodavam-no picareta. Nada mais injusto. Bandeira era um bravo batalhador que sobrevivia com seus escritos. Dos anúncios de seu jornal, o JC, e dos seus livros, ganhava lícita e dignamente o croissant de cada dia e jamais se envolvia em cambalachos, maracutaias, fraudes ou falcatruas que pudessem prejudicar quem quer que fosse. Sua história pessoal daria um rico roteiro cinematográfico. Sendo de baixa extração, tornou-se - qual um Machado de Assis redivivo - um homem de invejável cultura. Boa parte a devia ao escritor Ariovaldo Matos, com quem muito conviveu, e ao respeitado cronista Sylvio "Resistir Quem Há-De" Lamenha, professor e intelectual, uma espécie de mentor de Ademar. Professor Bandeira - ou ainda Zé do Grilo, outro alter ego seu - tinha verve rara e quando as coisas para ele navegavam em mar de almirante, era agradavelmente gárrulo e todos em volta ficavam embevecidos com sua rara dialética e sua retórica entremeada de inspiradas boutades. Conhecia em detalhes a vida, a trajetória de cada político, de cada empresário, de cada figura desta terra. Sabia-lhes o lícito e o ilícito, os golpes perpetrados, as insídias, os adultérios, as tramoias. Um dia meu filho se aproxima de mim com um jornal aberto na página dos obituários, nela o nome do amigo tão fraterno. Abraçamo-nos em pranto convulso. Nutríamos por Ademar um imenso afeto que descobri maior quando ele se foi desta vida. Hoje, sua ausência traz uma constante e indefinível sensação de vazio, uma dor que lancina, análoga a que sinto pela perda precoce de irmãos meus em Sampa. E fica a certeza de que quando alguém que amamos se vai, uma parte da gente segue junto e nunca mais somos completos. Poderia dizer a este tão amado amigo "descanse em paz, Ademar". Mas esta não é a frase correta para ser usada com Professor Bandeira que, agorinha mesmo, Romeo Y Julieta no bico, inexoravelmente está promovendo formidáveis esporros entre as nuvens do céu, questionando São Pedro, enquadrando anjos, arcanjos e querubins, exigindo falar com o Criador em pessoa para reclamar da música, do serviço celestial, do desafinado coral de anjinhos. E o Paraíso nunca mais será o mesmo. Bote pra F, querido irmão! 
(23/11/10)

27 novembro 2016

Raul Seixas e Marcelo Nova: rock na veia e porrada na cara!


Hoje é dia de rock na Concha Acústica do Teatro Castro Alves neste verão de 88. Tá rebocado, meu compadre, tem rock do bom na veia e é em dose dupla: Raul Seixas e Marcelo Nova. Não sou roqueiro de carteirinha mais sei o que é bom. Ao show seguramente maravilhoso que Gal fará no palco principal do TCA logo mais, prefiro o rock que rolará na Concha. E vou a caráter, blusão de couro, jeans e brilhantina no cabelo que é para entrar no clima. Raul está com a saúde abalada pelos excessos cometidos, teme-se o pior. Marceleza surge em cena qual um anjo de blue jeans, organiza shows com o amigo, viagens e até um disco, A Panela do Diabo. Motiva o Maluco Beleza que se revigora. Agora ambos estão se revezando no palco, desfilando suas canções que todos os roqueiros sabem de cor e cantam juntos com os ídolos. Empolgado com o entusiasmo da plateia Raul emenda uma música após a outra e o concerto se prolonga para deleite do público apaixonado. De repente, atrás de Raul percebo uma coreografia que não faz evidentemente parte do show. Marcelo Nova, enfurecido, está descendo o braço com vontade na cara de um cabeludo. Quando parte do público percebe, começa um coro de "bota pra fudê!" que é a senha pro eterno líder do Camisa de Vênus encher com renovadas muquetas a fuça do sujeito. Um último gancho de direita o arremessa ao poscênio de onde, nocauteado, não retorna. Nova vem para o lado de Raul, empunha o microfone e brada: "Este aqui ao meu lado é o maior artista de rock deste país! Nenhum canalha irá desrespeitá-lo em minha presença. Ele é o maior de todos, ele é Raul!" A platéia enlouquece e renova, ainda mais alto, o grito de "bota pra fudê!" Fico sabendo depois que o cabeludo surrado seria um produtor musical que queria encerrar na marra o show dos roqueiros alegando razões de pauta, horário, conflito de entrada e saída com o público do show de Gal e sei lá mais o quê. Aprendeu da forma mais dura a lição do Professor Marceleza: o respeito aos ídolos autênticos está acima de razões mais comezinhas. Poucos meses depois, o coração debilitado do homem da Sociedade Alternativa cantou e dançou seu derradeiro rock neste mundo. Sabendo que tem tanta estrela por aí, pra alguma delas lá se foi Raul numa carona com o moço do disco voador. Mas naquela noite de verão, ali na Concha Acústica, as duas maiores estrelas do rock nacional brilharam tanto e tão intensamente que os afortunados que lá foram jamais poderão delir de suas mentes e de seus corações essas lembranças. Marcelo Nova jogou duro, botou pra fuder como manda o figurino roqueiro. E Raul... bem, Raul foi Raul. E não era preciso nada além disso. Titirrane, Raulzito. Titirrane!
(10/10/12)

Irmã Dulce e a Bahia de Todos os Santos e Orixás.


Boa parte do tempo sou um agnóstico convicto ou um inveterado livre-pensador. Em outras sou um católico apostólico baiano, o que significa ter um pé em Roma - com sua infindável galeria de santos - e outro na África, com seus prestimosos orixás. Aqui nessa afro-terra que habito, múltipla em todos os sentidos, o ecumenismo é um caminho natural que devemos civilizadamente trilhar em nome da paz e da mais fraternal das convivências. Há que se tratar todos com igual carinho e atenção, e não seguir a senda maldita e o horror dos ortodoxos e fundamentalistas de todos os matizes. Preces fervorosas para o Homem de Nazaré, para Nossas Senhoras e oferendas cheias de fé para Oxuns, Yansãs e Yemanjás. Fiz essa caricatura do maior ícone do catolicismo soteropolitano, Irmã Dulce, que tratava com desmesurada bondade pessoas pobres, doentes, desamparadas, sem ter mais a quem recorrer, seres humanos já desesperançados que a procuravam em busca de ajuda e a quem ela acolhia sem se importar se eram católicos, evangélicos, de religião afro, judeus, se eram héteros ou homossexuais, negros ou brancos, nordestinos ou não. Eram seres humanos carentes de amparo e isto era o que mais importava para que ela os acolhesse com suas próprias mãos, praticando o verdadeiro amor que Cristo sempre pregou e que muitos arrogantes que se dizem líderes religiosos jamais aprenderam e praticaram, utilizando o cristianismo e o nome divino para espalhar mentiras e enganar os crédulos, deles tirando dinheiros. Irmã Dulce, em sua forma física se foi mas seu exemplo de verdadeiro amor ao próximo ficou. E hoje certamente ela está lá no céu ajudando muitíssimo seu chefe, que ela não é mulher de ficar acomodada num canto. Odô yá, Irmã!
(11/11/13)

O cartunista Simanca, Fidel Castro, Cuba e Bahia


 É do bravo comandante Fidel Castro o olhar nostálgico que perlustra o mar caribenho nesta tépida noite de estio em que intenso plenilúnio ilumina toda esta Baía dos Porcos. Doces reminiscências povoam a mente de El Comandante certamente evocando pelejas vitoriosas contra esbirros enviados pelos porcos imperialistas ianques em pretérito não muito distante aqui neste mesmo cenário. Aboletado sobre uma pedra, Castro abre uma caixa de madeira onde guarda um tesouro: seus puros cubanos. Retira um, acende e saboreia cada baforada demonstrando um inebriante prazer. Neste momento entra em cena um outro personagem, o jovem cartunista cubano Osmani Simanca, ainda um novel, que por ali vai passando. O dibujante saúda Fidel e solicita dele um dos charutos para poder desfrutar também daquele prazeiroso momento. Com chispas nos olhos e mão no gatilho o guerrilheiro vocifera: "Que puerra es esta, pendejo?! Querendo hacer socialismo moreno con mis puritos?! Sarta fuera, bundón!!" O jovem Simanca, assustado, balbucia em solilóquio: "Hay que adolescer, péro sin perder mi gostosura!" Aí, para preservar sua vida que ainda adolescia, tratou de ir saindo de fininho praguejando em voz baixa contra todos os socialistas insulares e seu barbudo líder. Temeroso de uma retaliación nel paredón, tratou de se picar da ilha embarcando em uma lancha que fazia a linha Havana - Isla de Itaparica. De lá pegou um ferry-boat para Soterópolis. Aqui chegando, tratou de invadir a redação do jornal A Tarde armado de lápis, pena e pincel, preconizando que chegara o momento de se fazer uma revolução gráfica. Passou-se já um bom tempo e ainda assim Simanca deixa evidente em suas charges feitas para o periódico baiano que não perdoou Castro até hoje hoje pelo episódio ocorrido entre ambos naquela noite na Baía dos Porcos. Não quer nem saber se Fidel, por ordens médicas, já não fuma mais seus puros e, já provecto, passou o poder em Cuba para o hermano, Raúl. Isso nada animou Simanca a retornar para a isla que é dele tanto quanto de Célia Cruz, Bola de Nieve, La Lupe, Perez Prado e do Buena Vista Social Club. Vivendo na Bahia todo este tempo, abaianou-se de tal forma que já não quer mais saber de beber mojito en La Bodeguita, prefere entornar umas caipirinhas no Mercado das Sete Portas. E já não dança salsas nem rumbas, só quer saber mesmo é de quebrar em sambões. Tornou-se mestre de capoeira, não perde um Ba-Vi e já está providenciando mudar seu nome para Osmani Caymmi Amado Rocha Ubaldo Veloso Gil Simanca.
  Para ver mais trabalhos de Simanca, clique no link: http://simancablog.blogspot.com/  
(24/10/13)

26 novembro 2016

Bola de Nieve, um artista maior de Cuba / Uns caras que eu amo 7

Ignacio Jacinto Villa Fernández. Se você sair por aí perguntando quem conhece esse grande pianista, cantor e compositor cubano, certamente ouvirá sonoras negativas. Mas se a pergunta for “você conhece Bola de Nieve?”, sempre haverá os mais atentos que dirão conhecer. Bola de Nieve era o apodo dado a Ignacio Jacinto. Com ele acabou virando uma lenda de uma música de alta qualidade produzida em Cuba, que findou por apaixonar gente de todo esse planeta azulzinho. Caetano Veloso gravou canções desse grande artista cubano que sua mãe, Dona Canô, cantava para ele em sua infância, e volta e meia se refere a ele elogiosamente. Pedro Almodóvar, cujos filmes primam também pelas belíssimas trilhas sonoras, incluiu a voz única de Bola de Nieve em pelo menos duas de suas películas de sucesso, La ley del deseo (Déjame recordar) e La flor de mi secreto (Ay amor). Tempos houve em que as canções cubanas reinavam soberanas entre os amantes da música mundo afora. Orquestras, bandas, cantores, cantoras, percussionistas, pianistas e instrumentistas diversos interpretavam mambos, rumbas, salsas, chachachás, boleros e outras maravilhas sonoras. Bola de Nieve tornou-se um mito cantando divinamente e, além do Espanhol, cantava em Português, Francês, Inglês, Italiano e até em Catalão. Seus dotes eram muitos e com eles encantava plateias mundo afora. Cantava bonito e interpretava com alma as suas canções nesses idiomas diversos, tocava piano de forma linda e bem pessoal, conversava com o púbico com empatia. E compunha canções que adentraram a História da música popular cubana e se perpetuaram. Mister se faz dizer que Bola de Nieve teve que lutar duramente contra obstáculos difíceis em sua trajetória artística, como o racismo e a homofobia. Mas sua genialidade visível na sua maneira pessoal, apaixonada e única e até teatral, de tocar o piano e interpretar canções, acabou por prevalecer e músicas que compôs ou que interpretou se perpetuaram gritando bem alto o seu talento difícil de ser igualado. No seu repertório há uma vasta quantidade de tesouros, entre tantos, para nosso orgulho pátrio, está a canção Faixa de Cetim, do carioquíssimo mineiro Ary Barroso. Dos inúmeros sucessos de Bola de Nieve vale citar canções como La Flor de la canela, Ay amor, Drume negrita, No me comprendes, Ne me quitte pas, La vie en Rose, Dejame recordar, Vete de mi, Ay Mama Inés. Fácil, muito fácil amar a Arte maior de Bola de Nieve.
(020916)

J.L.Torrente, um fascista, é meu grande ídolo. .

Ter um fascista como ídolo não é de bom alvitre nem algo que se possa assumir de público com a mesma naturalidade com que alguém se assume torcedor desse ou daquele time de futebol. Fascismo e nazismo são molas propulsoras de dolorosas e inaceitáveis injustiças sociais, ódios esmagadores os mais diversos, discriminações e perseguições as mais desumanas, racismo, graves e irreparáveis violências ao próximo. Mas aqui abro meu corazón de melón, de melón, melón, melón, corazón, para mencionar algo que pode chocar a você, caroável e humanista leitor que não compactua com tais abjeções que tanto degradam a raça humana. Acontece que assumidamente tenho como ídolo um fascista dos piores. Um cara desprezível, sem um pingo de moral ou sentimento de lealdade dentro de sua alma suja, um verme racista, um aproveitador e chantagista, um ser abjeto recheado de egoísmo que para atingir seus propósitos mais mesquinhos é capaz de explorar da forma mais infame o próprio pai que padece com as graves sequelas de um derrame. Um homofóbico, um porco machista de extrema direita que usa as mulheres como meros objetos sem lhes dar o devido respeito e valor. Um anti-comunista ferrenho, um admirador confesso do Generalíssimo Franco, um mentiroso sórdido e contumaz que só pensa em tirar vantagens das pessoas desavisadas que com ele se iludem, capaz de roubar quem quer que seja, se tiver oportunidade para isso. Sua história de vida é recheada de fatos e atitudes escabrosos. Era policial e usava seu cargo para oprimir e achacar pessoas a quem devia proteger, sendo por isso expulso da corporação. Seus erros e crimes foram tantos que acabou indo parar atrás das grades, o que só serviu para piorar o que já não era bom nesse fascista de meu agrado. Gordo, careca, bigodinho, um constante riso de escárnio na boca de onde pende um palito que usou em recente refeição filada de alguém. Uma camisa amarfanhada sob o paletó seboso, nele é puro charme e elegância. Refiro-me a José Luiz Torrente Torrente Gálvan, ou simplesmente Torrente – El brazo tonto de la Ley, um guarda-costas ocasional e falso agente policial, personagem de cinco deliciosas comédias do cinema espanhol. Seu criador é Santiago Segura, um ator de grande versatilidade que engordou 20 quilos para viver o personagem, como um dia já o fizera Robert De Niro. Além de ser o grande ator que é, com uma rica e extensa filmografia, Segura cria hilários personagens e escreve seus criativos argumentos. Como diretor sempre soube escolher muito bem os atores para trabalhar em suas películas, artistas de grande talento como os célebres almodovarianos Chus Lampreave e Javier Cámera, entre outros notáveis. Há riquíssimas participações de personalidades admiradas em seus filmes, o que demonstra seu carisma e o bom conceito de que desfruta. Santiago Segura também é produtor de filmes, é compositor, já apresentou programas de TV, trabalhou como dublador, já criou argumentos para histórias em quadrinhos, editou fanzines, cursou Belas Artes e também é desenhista habilidoso além de criador de admiráveis personagens. Dentre esses personagens que cria para o mundo das grandes comédias cinematográficas feitas com um humor de primeira linha, em lugar de relevo e de grande importância está José Luis Torrente, seja ele um crápula incorrigível ou quem sabe um mero produto do meio e das circunstâncias que o tornaram o fascista grotesco que é. Para horror dos que se pretendem mais sensatos, a vida costuma imitar a arte e infelizmente é crescente o número de pessoas do mundo real que estão exibindo um comportamento que em tudo se assemelha ao personagem da ficção e isso não tem um pingo de graça, pra dizer o mínimo. José Luís Torrente Gálvan é o único fascista a contar com minha admiração. Quem não conhece os filmes com o personagem não sabem o que estão perdendo. Viva a Espanha! Vivam Torrente e Santiago Segura!
(050916)

Facebook e vingança / Humor de Graça

(011015)

25 novembro 2016

Paulo Paiva, Mestre Shaolindo / Pintando o Set 6

Talento e competência são virtudes que nunca faltaram ao Paulo Paiva em sua longa trajetória no universo editorial dos quadrinhos e dos cartuns onde sempre foi respeitado qual um sábio Mestre Shaolin por todos nós, seus gafanhotíssimos discípulos. But nobody is perfect - como diria Bill Shakespeare - e Paiva não deixa de ter seu lote de pecadilhos. Por exemplo, morando há tanto tempo em Sampa insiste em não ser torcedor do glorioso e retumbante Corinthians, o Campeão dos Campeões eternamente dentro dos nossos corações. Imperdoável. Mas a coisa não para por aí, tem mais, tem mais: Pepê foi sempre um temido criador de abomináveis trocadilhos infames, um martírio para meus refinados pavilhões auriculares de scholar, pessoa com elevada sapiência e dotado de raro refinamento cultural. O mundo deu giros e giros, o tempo passou para todos e muitos que eram aloprados adolescentes amadureceram e hoje são circunspectos senhores. Paiva, no entanto, parece insistir em se perpetuar na adolescência vez que esse sujeito não honra suas cãs, insistindo em ser um cara muitíssimo abusado e forgado o que me deixa assaz indignado. Volta e meia esse sacripanta faz uns desenhos e contando com a cumplicidade de Suely Hiromi Furukawa - um mix de esposa, enfermeira e comparsa - me envia pela Net umas caricaturas da minha intocabilíssima pessoa, coisa que bastante incomoda meu justificadamente inflado ego e que muito me exaspera. Qualé, Pepê? Perdeu a noção do perigo, cara?! Você e Suely em um pretérito dia passaram a lua-de-mel aqui nessa afro-terra chamada Bahia e sua pessoa sabe bem que os legendários Mestres Bimba e Pastinha me ensinaram in persona as artes e as astúcias da capoeira, que sob minha aparência dócil e meu jeito humanitário e pacifista oculta-se um beligerante capoeirista cordão branco, inclemente para com desafetos e desavisados que atravessam meu nobilíssimo caminho. Se liga, meu rei!
PS: Fiéis e preclaros leitores, errar é o Mano (Menezes) e eu errei gravemente. Pepê pode ter todos os defeitos contidos no cardápio da raça humana, mas o imperdoável deslize de não ser corintiano, ele não tem. Pepê é, sim, e com todo orgulho, um fiel torcedor do Todo Poderoso Timão e, portanto, um Bi-Campeão do Mundo tanto quanto o sou. Contrito, peço perdão ao Pepê por tão grave crime de lesa-majestade-torcedor que cometi de forma infame e assaz abjeta devido à minha infalível memória que ultimamente anda falhando muitíssimo. Meus mais humildes pedidos de perdão ao nobre, ao magistral, ao perfulgente Mestre cartunístico e quadrinhístico.
(20/03/13)

Bacanal bem vibrante / Sexo de graça

(221012)

Sexo sem vibração / Sexo de Graça

(050414)

22 novembro 2016

Um Puto fascista em Portugal a serviço do Capitão Falcão e de Salazar.

Capitão Falcão é um militar treinado marcialmente para salvaguardar a ditadura em Portugal e, por extensão, proteger o ditador Antonio de Oliveira Salazar, criador do Estado Novo. Falcão ama tanto o despótico Salazar que em dado momento o oficial toma nos braços o déspota e com sofreguidão beija-lhe longamente a boca fascista em um ardoroso ósculo que denota a desmesurada paixão entre ambos. A cena é de uma comédia do cinema português em filme de 2015 dirigido em pelo cineasta luso João Leitão, que também é responsável pelo argumento e pelo roteiro, esse em parceria com Núria Leon Bernardo. Falcão faz uma linha de herói que muito tem a ver com o Batman e ainda mais com o Capitão América, patriótico combatente ianque que devasta os inimigos de seu país. A ideia inicial era fazer de Capitão Falcão uma série para a TV de Portugal. O projeto não avançou. O argumento foi reescrito e adaptado para o cinema, virou filme, alcançou bom público nas salas de exibições lusitanas, e acabou conseguindo ser exibido no formato minissérie nas telinhas pela RTP. Já li reportagens de alguns cineastas espanhóis reclamando da vida, da dureza que se tornou fazer cinema na Espanha. Não falariam isso à toa, mas a verdade é que, em termos de produção, o cinema espanhol tem dado um show nas películas que produz, o que não acontece com Capitão Falcão, de produção bem modesta, comparada às hispânicas e tantas mais. Ainda assim, o filme de Leitão surpreende positivamente com o elenco dando bem o seu recado. Capitão Falcão, o herói fascista, inimigo ferrenho de comunistas, esquerdistas de correntes as mais diversas e liberais em geral, é interpretado por Gonçalo Waddington enquanto José Pinto interpreta o ditador Salazar. O argumento e o clima do filme em alguns momentos fazem lembrar, ainda que de forma distante, o clima do humorístico brasileiro feito pelo grupo Casseta & Planeta e a TV Pirata. Com menos escracho, bem mais contido, mas com gags e detalhes de muita hilaridade. Curiosamente, Falcão batizou seu fiel ajudante de Puto Perdiz, o que para nós, do Brasil, soa hilário por si só, pelas diferenças no uso do Português, nossa língua comum, nem sempre tão comum assim. Aqui a palavra puto é pouco usada em sua forma masculina, e com sentido diverso do uso comum em Portugal. Na terra de Fernando Pessoa, os meninos ainda bem pequeninos são chamados de miúdos, enquanto os meninos maiorzinhos, já adentrando a adolescência, são chamados de putos, a exemplo da Itália, em que é comum chamar-se os meninos de puttos, designação oriunda do batismo daquelas esculturas ornamentais de anjinhos alados de capelas e igrejas, os puttos, putti, puttinos. No Brasil sabemos que impera um autêntico monopólio na exibição de filmes oriundos do cinema made in USA, e por aqui um filme português como Capitão Falcão praticamente não tem chances de ser exibido nos cinemas regulares. Cônscios disso, cinéfilos brasileiros juramentados não se cansam de tecer loas à internet por proporcionar o milagre de podermos assistir via online a filmes não encontradiços nas nossas salas de projeções, como essa comédia que mostra que os portugueses, além de serem bons de fado e de literatura, são também bons de humor e de cinema, o que se percebe através das imagens que mostram um Portugal dominado pelo Estado Novo e sob atenta vigília do Capitão Falcão e de seu amado Puto.

Riachão, o samba da Bahia na primeira pessoa do singular

O samba feito na Bahia tem cara, corpo, jeito, elegância, doce malícia, muita ginga e sabedoria ancestral. Tudo isto concentrado numa só figura, aliás, uma figuraça, um menino chamado Riachão, nascido em 14 de novembro de 1921, que completou há uma semana 95 aninhos de existência, bem vividos em rodas de samba nas noites da Bahia. Com muito samba, naturalmente, principalmente os de autoria do próprio Riachão, compositor considerado um inspirado cronista do cotidiano pelas suas letras que reproduzem a realidade com um viés bem popular. Esse seu estilo pessoal de compor mereceu gravações de personalidades como Jackson do Pandeiro, Caetano Veloso e Gilberto Gil e de muita gente boa mais. Um dia, a cantora Cássia Eller, encantada com o balanço, a ginga, a malemolência, a criatividade e a contagiante alegria de Riachão, gravou sua composição "Vai morar com o diabo", em que ele relata suas agruras por viver ao lado de uma mulher que não quer nada com o batente e ainda exige luxo. A exemplo do que acontecera com a gravação de Caetano de Cada macaco no seu galho, a deliciosa versão de Cássia Eller para a música de Riachão deu intensa visibilidade a um dos sucessos deste sambista baiano tão amado que sempre desfilou pela vida com seu charme singular, sua alegria retumbante, seu brilho intenso. Riachão, o samba na primeira pessoa, o próprio povo da Bahia com toalha e muitas contas coloridas no pescoço, chaveiro pendurado na calça, anéis nos longos dedos negros, boné na cabeça, bigodinho estiloso, e com um riso gostoso nos exibindo sua galhardia e seu passos harmoniosos de sambista maior pelas ladeiras da afrobaianidade nagô. Riachão, rei do samba na terra em que o samba nasceu, como atestava o carioquíssimo poeta e compositor Vinicius de Moraes. Axé, Riachão, meu rei!

20 novembro 2016

Gordurinha, sua arte, a Bahia e o bebop no nosso samba / Uns caras que eu amo 9

Gordurinha, cantor, compositor, humorista e radialista baiano, foi nome de sucesso em todo o Brasil na chamada Época de Ouro do Rádio. Difícil, quase impossível, é alguém da atual geração, tão bem servida de imagens oriundas de TVs, das câmeras fotográficas digitais ou dos múltiplos artefatos eletrônicos que a qualquer momento do dia filmam, gravam, registram imagens, divulgando-as, compartilhando-as instantaneamente, acreditar que existiu um tempo em que eram os ouvidos, e não os olhos, os condutores da arte e de toda e qualquer informação. Acontece, smartphonísticos mancebos e tabletísticas moçoilas, que as coisas já foram assim. Era a Era, a Era do Rádio. Nela brilharam artistas fantásticos, entre eles o baiano Gordurinha, de tantos grandes hits populares, a exemplo de Baiano burro nasce morto, composição solo sua, cantada em todo esse mulato inzoneiro. Sua gravação de Mambo da Cantareira, de Barbosa e Eloíde, fez enorme sucesso, sendo regravado em tempos recentes pelo cantante Fagner. Uma composição sua, Oróra analfabeta, em parceria com Nascimento Gomes, é sucesso até hoje, descrevendo encantos e desencantos de Oróra, uma dona boa lá de Cascadura que é uma boa criatura, mas que escreve gato com J e escreve saudade com C e que, ainda por cima, afirma adorar uma feijoada compreta. De Gordurinha é também a bela e tocante Súplica cearense, feita em parceria com Nelinho, a divertida Caixa alta em Paris, a sensível Vendedor de caranguejo. Mas o maior êxito popular de Gordurinha, certamente é sua composição, Chiclete com banana, sucesso que foi eternizado na voz de Jackson do Pandeiro, Senhor do ritmo, Mestre da ginga e dono de uma maneira gostosa e pessoal de interpretar canções. O sucesso da música foi enorme e ela segue sendo uma referência até os dias atuais, no que muito ajudou sua regravação por Gilberto Gil em 1972 no disco Expresso 2222. O título da música foi usado para batizar a famosa banda de axé music e a revista em quadrinhos do cartunista Angeli. Sua letra é uma declaração de amor à música do Brasil, uma afirmação de carinho e apreço a tudo que temos de bom em nossa alma brasileira, de resistência diante do constante domínio exercido pelas gravadoras e ritmos norte-americanos sobre a nossa música, no caso, vinda de um ritmo chamado bebop. De forma gostosamente divertida, Gordurinha informa aos músicos ianques que antes, bem antes, de nos influenciarem, eles precisariam conhecer mais profundamente, entender, respeitar e mesmo assimilar a música do Brasil, mandando-lhes um irreverente recado: Eu só boto bebop no meu samba, quando o Tio Sam pegar no tamborim. Quando ele pegar no pandeiro e no zabumba e entender que o samba não é rumba. Eu quero ver o Tio Sam de frigideira numa batucada brasileira.        

18 novembro 2016

Manezinho Araújo, o Rei da Embolada / Uns caras que eu amo 8

"Imbolá, vô imbolá, eu quero ver rebola bola, você diz que dá na bola, na bola você não dá." Tais palavras são de uma composição de Zeca Baleiro e você que gosta do trabalho do cara, certamente já o ouviu cantar essa melodia de ritmo e letra instigantes. Trata-se de uma embolada, gênero musical que se ouvia muito do final dos anos trintas até os anos cinquentas e que, em certa medida, é um ancestral do rap. Você, leitor dotado de seletíssimo ouvido e de acendrado gosto musical, sabe bem que Baleiro prima pela mistura de ritmos, pelas composições originais e ecléticas, que podem misturar batidas pop com diversas ritmos regionais do nordeste brasileiro, entre otras cositas. Mas não é o sempre magistral Zeca Baleiro o motivo maior dessa postagem, ele aqui é apenas o fio condutor para falar do Rei da Embolada, título que pertence ao genial Manezinho Araújo, compositor, cantor e pintor nascido em Pernambuco em 1910. Manezinho iniciou sua carreira profissional após um inusitado encontro com Carmen Miranda ocorrido em um navio, no tempo em que ele servia a Marinha do Brasil. Durante a viagem, estimulado pelos colegas marinheiros, Manezinho cantou suas emboladas para a Pequena Notável. Ela adorou, seu empresário e sua comitiva, idem, idem. Disso veio o convite para ir ao Rio de Janeiro buscar a sorte nas rádios para nelas cantar profissionalmente, o que acabou acontecendo e Manezinho foi muito bem sucedido, sendo contratado por uma boa gravadora que com ele gravou diversos discos. Na embolada estão amalgamados o lúdico, a alegria, a malícia, a sátira ferina, uma boa pitada de molecagem popular, muita criatividade e, sobretudo, doses maciças de humor e da mais pura brasilidade. Uma das coisas positivas da internet é que ela vem sendo usada como importante registro da História e um meio de preservação da memória popular. Nela podem ser encontradas gravações memoráveis, históricas, para o deleite de quem não se limita a ouvir ouvir apenas e tão somente a onda musical do momento. Quem gosta do que é bom, há de gostar de ouvir os sucessos de Manezinho Araújo, Pra onde vai, valente?, O carreté do Coroné, Coitadinho do Manezinho, A metraia dos navá, Cuma é o nome dele? Dezessete e setecentos, e outros mais. Todos deliciosos e bem brasileiros. Viva Manezinho Araújo! E que ninguém bula com Mané do Arraiá!

Norman Rockwell / Uns caras que eu amo 3

Na Internet temos todos acesso a um incalculável número de belíssimas ilustrações digitais. Artistas realmente habilidosos produzem-nas com inegável competência e é sempre bom ver muitas delas porque são realmente magníficas, deliciosas. Mas uma ideia me ocorre sempre: Norman Rockwell era um artista fantástico que fazia tudo isso que fazem os grandes ilustradores de agora, mas fazia sem utilizar computador algum. Não usava nada além de prosaicos pincéis, tintas e telas. Para ele isto bastava para atingir a fama incontestável de gênio que a faz jus. Com uma vantagem sobre os atuais ilustradores e pintores: ele não se limitava a fazer reproduções perfeitas como muitos o fazem, ele ia muito, muito mais além, tendo uma capacidade de transmitir em minúcias, cenas do sonho americano, o tal american way of life, os anseios, alegrias, emoções de pequenos instantes da vida comum dos cidadãos aos quais dava uma dimensão sem precedentes. A paixão, o preconceito, as descobertas de infância e adolescência, a solidão, os temores, o amor materno e todos os demais amores, a ansiedade, a angústia, a maledicência, a solidariedade, o preconceito mais indizível, a comoção, as certezas, as esperanças. Tudo isto e muito mais traduzindo como ninguém o sentimento do americano médio, do pobre, do rico e da raça humana como um todo. Mostrava ele um olhar atento ao seu tempo, à vida como um todo. Sem jamais esquecer apaixonantes pitadas de humor e a mais refinada ironia. Fazer belos trabalhos gráficos muitos fazem e o computador em muito ajuda nisto. Mas ter o olhar atento e aguçado e ser tão talentoso quanto Norman Rockwell, bem... aí é outra história.
(040513)

16 novembro 2016

Jorge Amado, Zélia Gattai, Gustavo Tapioca e o imaginário popular.

Este lance de imaginário popular é curioso. Aqui no Brasil, quando ouvimos falar em D. Pedro I, nos lembramos de um belo e sorridente jovem, com nigérrimas suiças, feições e corpo capazes de suscitar vívido interesse feminino. Mas se falamos de seu filho, D. Pedro II, o que nos vem na mente é um senhor austero de longas e alvinitentes barbas, parecendo ser ele o progenitor e não o filho nesta história toda. É que fomos alimentados com as imagens que os livros fartamente nos oferecem. Quando ilustrei para Gustavo Tapioca seu belo livro de memórias, Meninos do Rio Vermelho, tive acesso a uma série de fotos pouco divulgadas pela imprensa mostrando Jorge Amado e sua amada Zélia. Muitas dessas fotos aliás, clicadas por ela própria, fotógrafa habilidosa. Fiquei pensando que com Jorge Amado acontece um lance parecido com o dos Pedros, pai e filho. Falamos no escritor e imediatamente nos vem à mente um octogenário de bigodes alvos, farta e branca cabeleira tremulando ao vento, camisas estampadas e boné. Então entre as ilustrações que fiz para o livro de Tapioca, resolvi fazer estas aí, aproveitando fotos que mostram Jorge e Zélia em momentos plenos de jovialidade, um casal feliz cujo amor recém se iniciara mas que é mais que visível em seus rostos sem as marcas do tempo. Destarte as pessoas poderão ter a alternativa de ver assim, belos, apaixonados e jovens Jorge Amado e Zélia Gattai que tanta coisa boa nos transmitiram com suas vidas e seus escritos. O e-mail para os interessados no livro é gustavo.tapioca@gmail.com .
(14/08/13)

15 novembro 2016

Cau Gomez, mineirim e baianim / Pintando o Set 8

Algumas pessoas são de fato muito espaçosas no trato para com minha virtuosíssima pessoa. Deve ser esse meu jeito lhano, cordato, cheio de bonomia, blandícia e veraz beatitude, inerentes a quem nasceu na cidade das romarias populares, ex-votos e milagres, Candeias, Bahia, como esse filho de Seu Setúbal e de Dona Celina. Para provar que o que digo não são apenas e tão somente meras words, words, words, vou logo contando que o hoje cultuado cartunista Cau Gomez era ainda um recém-chegado aqui nessa Soterópolis, capital da Bahia, e, mesmo assim, sem pedir licença, agindo com a maior sem-cerimônia, foi logo tascando em meu peito de remador esta carica que ele fez de mim. Ô, mineirim forgado! Com cara e alma de eterno menino, ao dar os seus primeiros passos aqui nessa afrocity, Cau Gomez tinha um olhar meio de esguelha, de mineirinho, a fala doce de mineirinho, o cabelo curtinho como o de um típico mineirinho pacato. Hoje, passados tantos anos vivendo na Bahia, Cau adotou um estiloso visual afro-baiano que lhe cai muitíssimo bem. E pelas ruas, vielas e ladeiras dessa Soterópolis, lá vai ele, malemolente como um genuíno baiano. Mas eu bem sei que por dentro o cara ainda continua mineiríssimo, que só ele. Por fora, um belo acarajé. Por dentro, puro pãozim de queijo, sô.
(26/05/11)

As querelas de um Brasil que não merece o Brasil, Elis, Aldir Blanc.

"Um operário eleito e, a seguir, reeleito através das urnas, de forma incontestável, e uma mulher na presidência depois de 120 anos de República. Nada mal para um povo que já elegeu uma pletora de sabichões, gente quase sempre a serviço dos mais abastados e poderosos desse país. Bem-vinda, Presidente. Oxalá -para todos nós- tudo possa correr bem em sua gestão e que uma mulher possa mostrar a todos que o sexo frágil não foge à luta, e que dondoca neste país é uma espécie em extinção."
(03/11/10)
A singela postagem acima, intitulada Presidente de batom, publiquei aqui neste bloguito no dia 03 de novembro de 2010, quando a moça Dilma ainda se preparava para assumir a Presidência do Brasil pela primeira vez. Bem sabemos que, de lá para cá muitas águas turvas e tormentosas passaram debaixo da ponte, o que muitíssimo sempre me faz lembrar a canção de Aldir Blanc e Maurício Tapajós, gravada em abril de 1978 por ninguém menos que a fabulosa e insuperável Elis Regina, com aquela sua voz tamanha proferindo cada palavra como se fosse uma sentença. Sempre me perguntava, e sigo me perguntando, como é possível um brasileiro desconhecer o país em que nasceu, sua História, sua gente, seus meandros, alternâncias, rumos corretos e descaminhos, acertos e desacertos do passado e do presente, seus horrores e injustiças, sua beleza e feiura, suas alegrias e dores, seu joio, seu trigo. Passados já tantos anos, as palavras contidas na letra da canção seguem desnudando verdades incômodas: "O Brasil não conhece o Brasil. O Brasil não merece o Brasil. O Brasil está matando o Brasil. Do Brasil, SOS ao Brasil."

12 novembro 2016

Todo baiano é um Dorival Caymmi.

A imagem que muita gente no Brasil guarda dos baianos é de um sujeito folgazão, deitado numa rede, morena do lado, voz de estentóreo timbre que entoa canções do mar, um oceano azulzinho pela frente, olhar de pura  indolência e corpo pleno de malemolência. O estereótipo é um, a realidade bem outra. O fato é que neuroses e fobias não são privilégios de paulistas, gaúchos e cariocas ou de qualquer outro cidadão deste imenso país, vez que nós, baianos, somos igualmente neuróticos como qualquer outro vivente normal. Ou anormal, veja você aí, atilado leitor. Acontece que eu sou baiano, acontece que ela não é, quer dizer, por aqui temos a fortuna de possuirmos nas paredes da nossa etnologia índio-afro-lusa, mui ricamente emoldurado, um retrato de Dorival Caymmi, cujo modus vivendi tão invejado por tantos e tantos muitíssimo ajuda a fazer as pessoas pensarem que nós, soteropolitanos e baianos em geral, somos uns seres humanos fora do catálogo, de bem com a vida 24 horas por dia, sete dias na semana, 365 dias por ano. Ou mais que isso. Por uma imagem que tantos compatriotas invejam, a Caymmi, a minha mais que completa admiração e justificada gratitude. Ah!, e esta caricatura aí em cima, pequena homenagem que faço a esse formidável Buda Nagô, que se fez eterno através de suas dulcíssimas composições.
(30/04/2014)

11 novembro 2016

Jorge Amado, GustavoTapioca, o Rio Vermelho e seus meninos.


Gustavo Tapioca é jornalista da melhor linhagem. De um tempo em que jornal que se prezasse tinha que comportar em suas fileiras jornalistas autênticos, o que significava ser um profissional com consciência social e política, brios, coragem e acima de tudo, saber escrever bem. Nada a ver com um magote de vaquinhas de presépio que se limitam a reproduzir os releases que recebem de fontes pouco fidedignas, ou os descompreendidos que tomaram de assaltos as redações para divulgar coisas que pouco ou nada têm a ver com a verdade dos fatos, servindo apenas para privilegiar os já mui privilegiados. E fazem tudo isso com uma naturalidade assombrosa, convictos de que todos assimilam tudo de errado que eles articulam e veiculam. Bem, infelizmente um grande contingente de pessoas engole mesmo as informações distorcidas que recebe dos jornais, sem maiores questionamentos. Outros, no entanto, têm o incômodo defeito brechtniano de saber pensar. Quanto ao domínio da escrita, é justamente por bem saber escrever que há uns dois anos Gustavo Tapioca lançou seu livro Meninos do Rio Vermelho, um memorial inspirado de quem foi, ainda infante, vizinho de Jorge Amado, personagem onipresente em suas memórias nas páginas desse livro que vale a pena você, leitor atilado, conferir para se deliciar com uma Bahia solar, apaixonante e tão cheia de agradáveis surpresas como o texto de Gustavo, que aliás me brindou com o honroso convite para fazer as ilustrações, convocação que aceitei com júbilo adolescente. Aproveitei para fazer uma homenagem a Floriano Teixeira, fabuloso ilustrador e artista plástico, também morador do Rio Vermelho. Estou certo de que o dia que este livro chegar em mãos certas, vira minissérie televisiva ou filme de sucesso. 
**** O link para o leitor que estiver interessado em adquirir um exemplar é: http:/gustavo.tapioca@gmail.com 
(30/07/09)

O maior dos poetas menores / Setubardo, frente e verso.

Quando, na antiga Grécia,
Peripatéticos mestres
Iniciavam seus pupilos na poesia,
Não podiam sequer desconfiar
Que num futuro solar,
Um belo dia,
Em Candeias, cidade da Bahia,
O Poeta dos Poetas surgiria.
Quando os parnasianos versejavam
Faziam versos exatos, passo a passo,
Utilizando esquadro e compasso,
Medindo com régua suas rimas
Sem saber o que no Olimpo, lá em cima,
Minerva, deusa da Sabedoria,
Ligada na internet já sabia
Que em Candeias, Bahia,
O poeta Setubardo adviria.
Já fui chegando de olho bem aberto
E um esculápio tirado a esperto
Me deu uma palmada, pura covardia,
Só para ver se eu choraria.
Vê-se que tal pulha não me conhecia,
Isto é certo
Pois pra espanto de quem estava perto,
Ao invés de chorar, declamei uma poesia.
A primeira mamadeira a gente nunca esquece
E quando ela veio
Com indesejável recheio,
Bradei à minha genitora frase ferina:
"Qualé, Dona Celina?! 
Eu só quero papa fina:
Na minha mamadeira, 
Quero Drummond, Pessoa e Bandeira,
Dispensa essa vitamina de banana,
Me traga Baudelaire e Quintana."
Assim foi que eu cresci,
Muitos versos digeri.
Mastiguei e degluti
Do desjejum ao jantar
E na merenda escolar.
O meu almoço, seu moço,
Era todo dia
A mais concreta poesia.
Em Candeias, me iluminei
Em Santo Amaro da Purificação, me purifiquei
Em Salvador, me salvei.
Hoje eu sou Setubovski,
Sou Quintanúbal,
Sou Setusto dos Anjos.
Minha lira eu tanjo
E nessa vida maluca
Refresco minha cuca
Fazendo versos na raça
Que recito na praça
De qualquer cidade.
Contra a mediocridade
Dessa gente de mente vazia,
Poesia, poesia, poesia e poesia!
(010108)

10 novembro 2016

Da Suécia, Odd Nerdrum e sua pintura de mistérios

A beleza pode ter diversas formas. Depois de postar os belos trabalhos do caricaturista israelense Hanoch Piven, de elevadíssimo astral, publico estes do ótimo Odd Nerdrum, um mais que talentoso artista plástico nascido na Suécia, mesma terra do futebolista Zlatan Ibrahimovic, uma fera dos gramados. Nerdrum, também é uma fera, mas no campo das artes e ele nos brinda com uma pintura belíssima, ainda que extremamente soturna, plena de indecifráveis mistérios, deixando entrever, através de sua intensa força pictórica, um mar de sensualidade e um clima de evidente melancolia. Uma rara e invulgar beleza encerram seus trabalhos de pintura, não há como negá-lo. E o que é belo, vale a pena mostrar. Ah, en passant, é curioso dizer que, há um tempo, Odd Nerdrum foi condenado à cadeia, onde por dois anos vê ou viu ou verá o sol nascer quadrado, mesmo que na Suécia dias ensolarados não sejam lá coisas tão comuns assim. Sua condenação foi decorrente do fato do artista não pagar impostos sobre vendas de seus quadros no período de 1998 a 2000, cuja soma, em tão curto período, perfaz algo em torno da bagatela de...2 milhões de euros! Uau, o cara não é fraco, não! E eu, que só sei que nada sei, nem sequer havia ouvido falar no sujeito até descobri-lo na Internet. Santo apedeuta alienado, Batman!
(09/11/13)

J. Jorge Amado e o grande esparro d' umbu


"Nunca vi umbu ser tão grande!"
Esparro frutífero encontrável no livro de João Jorge Amado, Lá ele ( o esparro na Bahia ), do qual já falei aqui neste blog em publicação anterior. Trata-se de uma trabalho dedicado de pesquisa da cultura oral do povo da Bahia. Isso resultou em uma coletânea de esparros. Um esparro é uma espécie de pegadinha oral, feita com frases espirituosas, todas ocultando em si o mais malicioso duplo sentido, fartamente encontrado na boca do povão baiano que adora rir das próprias brincadeiras que faz, como um esparro bem sacana. O livro é um grande saque de J. Jorge Amado, verdadeiro ovo de Colombo, e eu me diverti de montão ao fazer as ilustrações. Se você ainda não leu, já está mais do que na hora. Para ser o feliz possuidor de um exemplar clique no link e contate o pessoal da Editora Publit Soluções Editoriais: http://www.publit.com.br
(30/08/13)

Voto e devoto / Humor de Graça

(10/09/12)

08 novembro 2016

Mestre Paulo Paiva recebendo o Troféu Angelo Agostini

O mês de janeiro de 2014 foi um mês inesquecível para os amantes das histórias em quadrinhos nesse Brasil brasileiro, mulato inzoneiro. Eis que, entre os premiados do HQMIX no citado ano, estava Paulo Paiva, o Pepê, um cara muitíssimo amado pelos profissionais da área, por tudo que ele fez pelos quadrinhos brasileiros, bem como pelos muitos desenhistas, argumentistas e por todos que militam nessa campo de tantos obstáculos, de tantas pedras, monólitos e pedregulhos pelo caminho. Pepê, além de ser um cartunista talentoso, sempre exerceu um fantástico trabalho como editor da área de cartuns e quadrinhos e faz jus ao título de Mestre que recebeu junto com seu troféu. Postei, no referido janeiro, as fotos e o texto abaixo celebrando esse notável acontecimento. Como se trata do Mestre Paulo Paiva, posto agora de novo, para relembrarmos juntos o que não é para ser esquecido, atilado leitor.
Paulo Paiva, mais lindão que nunca, cheio de fidalguia e elegância, com um boné estiloso, recebendo seu cobiçado Troféu Angelo Agostini hoje à tarde no Memorial da América Latina, em uma evento onde imperou o melhor dos climas, como se vê nesses registros fotográficos. Na foto de baixo, o casal Pepê e Suely posa para a posteridade com a amiga, Dra. Paula Annunciato, neurocirurgiã integrante da equipe do magnífico Dr. Wilson Luiz Sanvito, que operou e salvaguardou a vida de nosso estimado Pepê. Um acontecimento para ficar gravado na memória. Coladinha, toda feliz e orgulhosa, Suely Furukawa, competente editora e redatora, além de ser um mix de esposa, enfermeira, terapeuta e dedicado anjo-da-guarda desse que é o mais novo Mestre do Quadrinho Nacional, Paulo Paiva. Parabéns duplamente ao casal. Um dia chego lá, Pepê!
(o1/02/14)

Biratan Porto, um caricaturista letrado.

Antes de ser amigo do cartunista paraense Biratan Porto, sou um seu admirador entusiasmado e confesso. Bira mata a pau no cartum, na charge, nos quadrinhos e nas caricaturas. E ainda se renova sempre. O livro com sua série de caricaturas feitas com as iniciais dos caricaturados famosos, é de deixar qualquer um de queixo caído. Olha só o "F", de Fidel, servindo de chapéu e perfil. O "C" é a barba hirsuta e já grisalha de el comandante. Este do Chê Guevara , então, está um primor de criatividade. Aquela tal simplicidade dos gênios, de que tanto falam. Sorvam estes aperitivos aê e depois vão lá no blog do Bira pra ver o que é um trabalho bem feito e ver se ainda dão sorte de poder comprar o livro, se ele já não esgotou. Olha o link, galera: http://biratancartoon.blogspot.com/
(071113)

Jim Hopkins e o fabuloso destino d'Amelie, de Jennifer Aniston e Salma Hayek.

 
1. Salma Hayek  2. Jennifer Aniston 3. Audrey Tautou
Curto muito o belíssimo trabalho de caricaturas e ilustrações do norte-americano Jim Hopkins, um cara talentoso, mas que ainda não é muito conhecido aqui no Brasil. Por enquanto, por enquanto. Jim tem trabalhos maravilhosos e diversificados, é um verdadeiro homem-dos-sete-instrumentos, um factotum das artes, e eu já postei vários desenhos dele aqui neste bloguito. Para esta postagem, estimado leitor, escolhi uns trabalhos em que ele usou como modelos um trio de belas garotas, sendo todas elas atrizes mui famosas, que Jim Hopkins caricaturou com sua habitual competência. Entre elas, a uvinha mexicana chamada Salma Hayek. Também fez a darling dos ianques, Jennifer Aniston, além da francesa Andrey Tautou que, entre outras coisas, fez a cativante e deliciosa Amélie Poulon, em Le fabuleux destin d'Amelie Poulon, inesquecível. Você gostará, estou certo, e aí poderá ver e curtir muito mais acessando um blog do Jim, através do link http://mugitup.blogspot.com/
(110914)

07 novembro 2016

Ary Barroso, Bahia, praias, povão, celebração da vida.

"Bahiiiia, terra da felicidaaaaaaaade...". Quem mora aqui neste afro-baiano torrão, para se mostrar grato com o que a natureza generosamente nos lega, cotidianamente deveria acordar cantando a plenos pulmões os versos do baianíssimo mineiro Ary Barroso. Principalmente pelas praias, o mar azulzinho e o céu de irisadas nuvens que temos por aqui e que sabemos tão bem aproveitar, não perdendo nenhuma oportunidade de nessas praias comparecermos para curtir os raios de sol, bronzeando-nos ainda mais do que a natureza já nos bronzeou, batendo um papo, bebendo umas cervejotas geladíssimas, água de coco tirado de algum coqueiro que dá coco, onde amarramos nossas redes nas noites claras de luar e em solares jornadas, também sorvendo capitosas caipiroskas de siriguela, kiwi, umbu-cajá ou qualquer boa fruta da estação, comendo afrodisíacas lambretas, que inspiram qualquer vivente a fazer ousadia, idem e ibidem saboreando caranguejos e peixes assados, acarajés, abarás e o que mais vier, mergulhando e admirando o mais matizado pôr do sol. Existem sujeitos e sujeitas de outros estados brasileiros mui equivocados, curtos de ideias, superficiais e assaz preconceituosos, que interpretam o habitual carpem diem baiano como sinal de ojeriza ao trabalho, quando em verdade é uma questão de sabedoria de quem também, como qualquer brasileiro, enfrenta sua árdua faina diária pela sobrevivência, mas que nos momentos propícios - e aí não importa o dia da semana, até mesmo na tão famigerada segunda-feira - sabe desfrutar do que a Mother Nature nos regala a nós outros com desprendida generosidade. Ilustro esta postagem com uma pintura que fiz, mostrando uma singela cena familiar à beira-mar, que é pra rimar e inveja causar a quem porventura olhar. Fotografei com minha Rolleiflex modelo acrílica sobre tela.
(25/04/14)

06 novembro 2016

Cartola e as rosas tagarelas

As rosas não falam?! Falam, falam, sim, ora, se falam! Algumas são até beeeem tagarelas. Às vezes puxam assunto e falam muitíssimo bem desse notável brasileiro que é o mestre Cartola. Preconizam elazinhas que ele é, e sempre foi, um compositor magnífico, que legou à música brasileira verdadeiras pérolas finas musicais, tesouros de altíssimo valor, ainda que ele fosse uma pessoa de origem humilde, de poucos estudos formais, morador do Morro da Mangueira, no Rio, reduto de gente simples e comum, mesmo sendo ele um artista incomum. Esta carica acima eu fiz um tempo atrás, como presente pro meu nobre e especial amigo Biratan Porto, gente da minha querência, que todos sabem bem que é um cartunista e caricaturista piramidal, de alto gabarito, e de quebra é ainda um músico habilidoso, um virtuose do bandolim, coisa que tive a fortuna de comprovar ao vivo e a cores em Belém do Pará, e não fosse isso o bastante, Bira é também um cartolamaníaco inveterado, contumaz e renitente, no que lhe dou inteira razão.
(Publicado originalmente em 28/11/14)

Carmen Miranda, the Lady with the Tutti-Frutti Hat / Umas minas que eu amo 1


 Nunca houve uma mulher como Gilda, dizem. Concordo que Gilda não era fraca, não, mas digo que nunca houve mesmo é uma mulher como Carmen Miranda. E quem a viu cantando, dançando, atuando jamais poderá delir da memória Carmen, a brazilian bombshell. Sua imagem que atraía todos os olhares qual um irresistível imã, foi mostrada em todo planeta pelo cinema dos states. Os americanos renderam-se aos seus irresistíveis encantos que tantos eram e quem a conhece jamais a esquece, seja na América do Norte, na Europa, em todo orbe. Mais de meio século já se passou desde suas deslumbrantes aparições nos tais filmes made in USA e volta e meia ela é citada em fitas atuais, sua música, sua imagem. Como em filmes de Woody Allen, que parece adorá-la, até mesmo em desenhos animados como de Tom e Jerry, Patolino, Pantera Cor-de-Rosa, Bob Esponja e uma lista interminável de cartoons. É bem verdade que os filmes hollywoodianos com Carmen tendiam para o estereótipo, brasileiritos com sombreros e maracas, ainda assim vale a pena ver a Pequena Notável em ação muito à vontade dividindo a cena com monstros lendários das telinhas e telonas americanas como Grouxo Marx e Jimmy Durante que deixavam transparecer o prazer de estar atuando ao lado dela. Carmen era imitada por estrelas americanas contemporâneas suas e isso vale como homenagem pois todas sabiam que Carmen era única e inimitável. Seu sucesso jamais encontrou similares pelo ineditismo, pelo raro poder criativo, pela força de sua presença em cena. Cantora e atriz que a todos hipnotizava quando no palco ou nas telas, como não se curvar diante de sua voz, sua interpretação, sua brejeirice, sua ginga, seu enorme talento natural para o burlesco, sua graça, seus gestos expressivos, seus figurinos que ela própria criava, seu domínio do palco e das plateias? Tudo em Carmen Miranda sempre foi original, inefável e inaudito. Com seus turbantes e balangandãs, quando The Lady of the Tutti-Frutti Hat pisava no set, não tinha pra mais ninguém, roubava a cena de qualquer grande estrela que com ela contracenasse. Tudo isso não se trata de forma nenhum de mero saudosismo, mas de justo e necessário reconhecimento. Enquanto na memória americana e europeia Carmen segue vivendo, aqui no Brasil, sua terra, tratam de esquecê-la depois de tentarem sepultá-la em vida como artista sob alegação de que teria incorrido no grave delito de voltar americanizada da terra de Tio Sam. Fácil é perceber-se que nestes tempos hodiernos a insaciável indústria musical e a mídia enriquecem seus patrões fabricando em série as maiores bandas de todos os tempos da última semana e uma pletora de astros que serão descartados para dar lugar a outros produtos similares, todos com seus sucessos estrondosos por um ano, um verão ou mesmo uma só música, todos feitos para serem consumidos por pessoas que se satisfazem com bem pouco. Acima, muito acima destes produtos descartáveis estão os verdadeiros astros e estrelas. E entre estas, a maior de todos os tempos, a única e verdadeiramente inesquecível, a estrela mais fulgurante de todas, Carmen Miranda.
(101013)