27 março 2017

O cartunista Biratan, o escultor Valtério e Setúbal na Ilha do Fogo .

Quando morei em Juazeiro, na Bahia, muito frequentei a Ilha do Fogo, fluvial ínsula situada bem no meio do largo Rio São Francisco, sobre a qual foi construído a quilométrica ponte Presidente Dutra. Lugar mais que aprazível, lá ia eu tentar meus tímidos mergulhos, tomar cerveja, comer surubim e ficar jiboiando nas areias claras sob o sol. Ali ciceroneei diversos amigos que lá iam me visitar e conhecer a cidade onde nasceram João Gilberto e Ivete Sangalo. Por diversas vezes recebi uma admirável dupla, o premiadíssimo cartunista paraense Biratan Porto, com seu bigode à la Nietzsche, e o perfulgente escultor baiano Valtério Sales, dileto filho de Ruy Barbosa -  refiro-me, é claro, à cidade, não ao famoso Águia de Haia em pessoa. Na Ilha do Fogo, em meio aos frequentadores habituais, gente do povo,  nos abancávamos os três em uma barraca improvisada e assim protegidos do causticante sol da região bebíamos alguns magotes de gélidas cervejotas e deitávamos falação sobre tudo e tantos. Ali, naquele espaço popular,  plenos da mais certíssima certeza, discutíamos os rumos desta nação auriverde, execrávamos seus corruptos, articulávamos maneiras de com nossas artes salvar de trágicos destinos o explorado e sacrificado povo brasileiro. Para nossa sempre renovada surpresa, sem prévio aviso, Valtério Sales livrava-se de sua bermuda jeans e, trajando uma sunguinha rosa-shocking de lycra, vistosa e despudoradamente sumária - porém preservando e mesmo esbanjando a mais viril das virilidades - nos mostrava ser um autêntico Johnny Weismuller redivivo.  Com vigorosas braçadas, ele cruzava a todo instante as fortíssimas correntezas do São Francisco com elegância e raro destemor. Intimorato e radiante, Valtério mergulhava na Ilha do Fogo e ia dar lá em Petrolina. Sem descansar, célere mergulhava em Petrolina e vinha dar novamente na Ilha do Fogo. Num átimo mergulhava de uma pedra qualquer da Ilha e ia dar lá em Juazeiro. Isto se repetia até o raiar do sol, ele mergulhando em um lugar para ir dar em outro, fazendo com seus mergulhos a alegria da garotada do lugar. O nobre Biratan Porto é testemunha de que o infatigável Valtério hoje morre de tristeza por saber que militares pernambucanos, talvez em comemoração aos 50 anos do golpe militar de 64, resolveram de forma reprochável proibir o acesso de moradores e civis em geral à Ilha do Fogo e destarte nosso amado escultor e cartunista, absurdamente, está impedido de exibir seu físico de Adonis, sua sunguinha rosa-shocking de lycra, sua arte aquática e sua invejável forma física na Ilha do Fogo. Lamentável, lamentável.
(Publicado originalmente em 06/04/14)

25 março 2017

Na hora do Sexo, os chineses comem de pauzinho? / U Sexu nu mundo 6

Em desentendimentos conjugais, o marido chinês perde toda sua proverbial paciência chinesa com sua cara-metade e a ofende chamando-a de dragão. Acontece que na China esse negócio de dragão é coisa séria e aí rola a maior Kung Fu zão, digo, confusão. Vai daí que a digníssima fica indignadíssima e parte pra quebrar a metade da cara que pertence ao seu cara-metade. E vá ser violenta assim lá na China, pois ela, sem precisar recorrer a nenhum manual de kung fu, quebra mesmo a cara do sujeito com muita porrada e na casa Imperador, digo, impera a dor. A dor é tamanha que o pobre china faz horrendas caretas e pula gritando "Aikidô, aikidô, aikidô".Quem acha que chinês e brasileiro não têm nada em comum, não sabem que, igual a qualquer brasileiro do povão, o chinês adora um bom pagode. Vá lá que é pagode chinês, mas é pagode. Aliás, lá o Zeca Pagodinho é um grande ídolo. O problema para os brasileiros na China é a comunicação, que é bem difícil. Você pede ao cozinheiro do hotel para ele mandar uma pizza, mas ele Mandarim, digo, manda rim e você, para não passar fome, acaba comendo. Falando em comer, os homens chineses adoram comer brotinhos. É broto de feijão, broto de bambu e por aí vai. Ele só não come mesmo é a própria mulher, tudo porque ela já não é mais nenhum brotinho.
(281210)

20 março 2017

Cafezinho na Bahia: a pausa que aquece ainda mais nossos calorosos corações.

 
Quem pensa que pelo fato de vivermos numa ensolarada urbe nós, soteropolitanos, não somos chegados a uma rubiácea quentinha, em muito se engana. Apreciamos, apreciamos e muito, seja dia, seja noite, brasileiros somos. Só que ao invés de sorvermos o cafezinho nosso de cada dia em balcões de bares ou padarias apinhadas de gentes, como sói acontecer em São Paulo e no Rio de Janeiro, preferimos fazê-lo ao ar livre aproveitando uma boa brisa vinda do mar do Atlântico que fica logo ali na esquina. Nós não vamos ao cafezinho - que aqui chamamos carinhosamente de menorzinho, sendo que o sem leite é singelamente batizado de pretinho. Aonde quer que estivermos, ele é que chega até nós em simpaticíssimos carrinhos de café, coisa da criatividade do proletariado soteropolitano que bolou e que fabrica os tais carrinhos. E lá se vão pelas ruas, ladeiras, altos, baixos, alamedas, vielas e becos de Soterópolis os carrinhos empurrados pelos seus orgulhosos donos, e é aquele desfile de matar de inveja os imponentes carros alegóricos das escolas de samba de Sampa e do Rio, sendo cada carrinho de café personalizado pelo orgulhoso proprietário, cada carrinho com suas características próprias segundo o gosto estético do envaidecido dono que o vai enfeitando dia a dia e aí fica um mais bonito que o outro - alguns até são dotados de som em altura moderada - e neles se vendem ainda cigarros para os incorrigíveis e assaz inveterados tabagistas e também se mercam os tradicionais queimados, que é como nós baianos simpáticos e cheios de malemolência, batizamos o que no sul chamam de balas. Balas para nós são só aquelas que malfeitores, sicários e policiais, fartamente e a qualquer hora,  despejam pelos espaços urbanos, cada um do seu lado e nós, cidadãos comuns, no meio tentando se esconder e apelando a um dos muitos santos que nomeados para prestar serviços entre nós. Mas enquanto essa galera do mal não vem nos apoquentar, ficamos ali na boa, olhando o mar, curtindo uma brisa que nos mitiga a alma e o melhor dos cafezinhos. Para melhor dar uma ideia do que dito foi, não perdi tempo e fotografei esta cena genuinamente soteropolitana com minha Rolleyflex de tinta acrílica, depois usei um tostão de Photoshop
(25/04/14)

Fernando Ikoma: quadrinista, argumentista, artista plástico dos muito bons.









No universo por vezes sombrio das HQs brasileiras, Fernando Ikoma foi sempre estrela das mais perfulgentes. Desde o início de sua rica trajetória Ikoma revelou possuir um talento raro e uma criatividade que o permitia transitar por temáticas mais que revisitadas por miríades de artistas sem cair nas insidiosas armadilhas dos estereótipos, das mesmices, das soluções fáceis. Seus personagens bem construídos viviam situações que suscitavam a curiosidade dos leitores. Personagens sempre envolvidos em tramas que tinham o dom de prender a atenção dos incontáveis fãs, entre os quais estava eu, admirador de primeira hora de suas criações, Fikom, Sibelle, a espiã de Vênus, A turma da Cova, Zé Experimentadinha, Paquera, Maria Esperançosa. Ufa! Haja criatividade para um único cérebro. Mas aqui neste Brasil de Gugu e Clodovil nem sempre ter talento é garantia de sucesso. Tanto mais num mercado inóspito como o dos quadrinhos. E o criador de Fikom e Cia, mesmo tendo tanto a mostrar e a produzir viu-se obrigado a mudar o rumo de sua vida profissional. Com sua verve criativa Fernando Ikoma poderia ser escritor, roteirista de TV ou Cinema, homem de Marketing e o escambau. Preferiu trilhar o belo caminho das Belas Artes e hoje usa seu talento para criar bem elaboradas pinturas em telas que o tornaram um artista plástico consagrado recebendo o merecido reconhecimento e o respeito de todos. Grande, grande Fernando Ikoma!
 Para ver trabalhos deste Mestre, vai aqui o link: http://blogdoikoma.blogspot.com/
(10/04/14)

Jô Oliveira, artista gráfico cercado de grana alta / Pintando o Set


Dos desenhadores e grafistas brasileiros, meu amigo Jô Oliveira é quem mais viveu a vida cercado de grana, mas muita grana mesmo, e bote grana nisso. Botou? Bote mais. É que um dia Jô pegou seu matulão e deixou seu amado Pernambuco buscando dias melhores em Brasília, vindo a tornar-se um confiável funcionário da Casa da Moeda. Quer dizer, confiável mas ainda assim sujeito a rigorosas revistas diárias na entrada e na saída da dita Casa, que lá todo cuidado é pouco e não dão mole nem a um sujeito idôneo como o Jô.  Lá é criado e impresso - se minha amnésica memória não falha - toooodo o dinheiro deste país dito emergente. Milhões, bilhões, trilhões, caralhaisquilhões. Jô é - ao menos era - um daqueles caras responsáveis por fazer os belos desenhos, arabescos e filigranas cheias de cores e suas nuanças que estampam as cédulas às quais por vezes o povão  costumava lhes emprestar o nome de acordo com o valor ou cor característica. "Quanto custa isto?" "Um barão" ,"Um Cabral", "Uma abobrinha". E quando perdiam o tal valor, que tristeza, que depressivo. É  como canta o bardo cearense Falcão em um de seus clássicos: "Eu sinto na pele o desgosto / De Anísio Teixeira / Cunhado feito um abestado / Em uma cédula de mil...". E voltando ao Jô Oliveira, um dia, em Recife, com seu traço bonito fez esta minha régia fina estampa que usei para ilustrar esta postagem ditada pela saudade de tão nobre amigo. Nobilárquico Jô, nem todo o dinheiro que já o cercou aí na Casa da Moeda serviria para pagar tudo que seu talento artístico já produziu. Abração procê, cabra bão!
(22/04/14)

Para o gajo Fernando Pessoa uma acrílica que canta em cores.

 "Qualquer música. Ah, qualquer, logo que me tire da alma esta incerteza que quer qualquer impossível calma." Lindos esses versos de Fernando Pessoa, gajo muito giro, poeta mais que inspirado que no início do século passado escrevia essas coisas que até nos dias atuais seguimos lendo pra lá, muito pra lá de embevecidos. Inspirado pelos versos do bardo lusitano, pintei essa tela usando tinta acrílica sobre tela. E quando a pintei, caro Pessoa, fique certo que em minh'alma não vagava incerteza alguma.
(22/04/14)

17 março 2017

Gordurinha e sua arte, Tio Sam, a Bahia e o bebop no nosso samba. / Uns caras que eu amo 9

Gordurinha, cantor, compositor, humorista e radialista baiano, foi nome de sucesso em todo o Brasil na chamada Época de Ouro do Rádio. Difícil, quase impossível, é alguém da atual geração, tão bem servida de imagens oriundas de TVs, das câmeras fotográficas digitais ou dos múltiplos artefatos eletrônicos que a qualquer momento do dia filmam, gravam, registram imagens, divulgando-as, compartilhando-as instantaneamente, acreditar que existiu um tempo em que eram os ouvidos, e não os olhos, os condutores da arte e de toda e qualquer informação. Acontece, smartphonísticos mancebos e tabletísticas moçoilas, que as coisas já foram assim. Era a Era, a Era do Rádio. Nela brilharam artistas fantásticos, entre eles o baiano Gordurinha, de tantos grandes hits populares, a exemplo de Baiano burro nasce morto, composição solo sua, cantada em todo esse mulato inzoneiro. Sua gravação de Mambo da Cantareira, de Barbosa e Eloíde, fez enorme sucesso, sendo regravado em tempos recentes pelo cantante Fagner. Uma composição sua, Oróra analfabeta, em parceria com Nascimento Gomes, é sucesso até hoje, descrevendo encantos e desencantos de Oróra, uma dona boa lá de Cascadura que é uma boa criatura, mas que escreve gato com J e escreve saudade com C e que, ainda por cima, afirma adorar uma feijoada compreta. De Gordurinha é também a bela e tocante Súplica cearense, feita em parceria com Nelinho, a divertida Caixa alta em Paris, a sensível Vendedor de caranguejo. Mas o maior êxito popular de Gordurinha, certamente é sua composição, Chiclete com banana. letra e música suas, ainda que oficialmente conste o nome de Almira, como sua parceira, o que de fato não aconteceu. O que aconteceu, de verdade, foi que a música foi eternizado pela voz de Jackson do Pandeiro, Senhor do ritmo, Mestre da ginga e dono de uma maneira gostosa e pessoal de interpretar canções. Uma sacada perfeita de Gordurinha para definir o universo da nossa massificação cultural via United States, que sempre nos assolou. Á época, o sucesso da música foi enorme e ela segue sendo uma referência até os dias atuais, no que muito ajudou sua regravação por Gilberto Gil em 1972 no disco Expresso 2222. O título da música foi usado para batizar a famosa banda de axé music e a revista em quadrinhos do cartunista Angeli. Sua letra é uma declaração de amor à música do Brasil, uma afirmação de carinho e apreço a tudo que temos de bom em nossa alma brasileira, de resistência cultural diante da imposição das coisas made in USA, notadamente o constante domínio exercido pelas gravadoras e ritmos norte-americanos sobre a nossa música, no caso, vinda de um ritmo chamado bebop. De forma clara e gostosamente bem-humorada, Gordurinha informa à industria musical ianque que antes, bem antes, de nos aculturarem, eles precisariam conhecer mais profundamente, entender, respeitar e mesmo assimilar a música do Brasil, mandando-lhes um ritmado e irreverente recado: "Eu só boto bebop no meu samba, quando o Tio Sam pegar no tamborim. Quando ele pegar no pandeiro e no zabumba e entender que o samba não é rumba"..."E, concluindo, desafiador: "Eu quero ver o Tio Sam de frigideira numa batucada brasileira."    
 (20/11/16)  

12 março 2017

Damion Dunn, caricaturista e ilustrador da Califórnia.

 


 1.Jimi Hendrix 2.Samuel L. Jackson 3. Mya 4. She-Hulk
Volta e meia descubro coisas muito legais navegando pelos mares da internet, já que navegar é preciso. Entre outros grandes achados, descobri o blog deste maravilhoso artista de Los Angeles, Califórnia, chamado Damion Dunn, ainda desconhecido aqui nesse nosso país tropical abençoá por Dê e boni por naturê, ma que belê! Mas olhem só, amigos, que belo trabalho. Great stuff, Damion. So amazing, boy! 
Eis aqui um link para o blog do Damion:
http://damion009.blogspot.com/
(29/11/13)

Will Esner e The Spirit / Uns cara que eu amo 2

Dos meus alumbramentos na minha tenra infância ressoa forte uma HQ carregada do mais negro nanquim mostrando uma casa em região de inóspita floresta. Um ventilador de teto. Um homem com um jornal na mão que mata as moscas que insistem em pousar em sua mesa, em sua roupa e pele. Sua epiderme transpira por todos os poros enquanto o homem fuma seu cachimbo em cena vista de cima. Puro cinema, esta HQ. Tais imagens, instigantes, colaram-se nas minhas retinas, na minha memória. Cresci e só mais tarde descobri seu autor: Will Esner. O grande, o magistral, uma fonte inesgotável de criatividade, tanto no texto quanto nas ideias sempre renovadas. Will Esner. No Brasil ele se sentia muito à vontade por comprovar que aqui possuía uma legião incontável de incondicionais fãs de seu cinematográfico estilo. Entre eles, ói eu, embevecido, torcendo pelo Spirit, com sua máscara e um sorriso no canto da boca, sempre rodeado de belíssimas vilãs como a nada angelical Satã.
(30/10/2013)

11 março 2017

Camelôs da fé e suas igrejas que lhes dão fortunas e poder

Usando o nome de Deus como irresistível publicidade e o de Jesus Cristo como infalível garoto-propaganda, valendo-se de suas inegáveis capacidades de comunicação de massa e de persuasão, de seus poderes de oratória, vendem a fé como camelôs vendem produtos suspeitos numa esquina. Usando o forte poder da mídia televisiva e radiofônica, determinados sacripantas, ditos líderes espirituais, terrivelmente canalhas e anti-cristãos, cheios de uma enorme lábia e de um arsenal de más intenções, valendo-se de discursos inflamados, cheio de conceitos anacrônicos, equivocados, distorcidos, carregados de preconceitos que mal dissimulam um inconsequente e perigoso ódio aos que não caem nas insidiosas armadilhas que suas línguas bifurcadas armam para os incautos, conseguem encher as burras com fábulas de dinheiro que vêm, em sua maior parte, das classes mais pobres, carentes em todos os sentidos, da classe média e até de atletas, dos remediados aos milionários. Todos entregam de mão beijada a grana que dá a boa parte desses tais "líderes espirituais" o privilégio de morar em suntuosos palácios que em nada lembram os lares da maioria dos seus seguidores e bem diferente do que pregava o santo rabi. Eis o crime perfeito. Tão perfeito que nem considerado crime o é. E ai de quem tentar dizer o contrário aos fanatizados cordeiros que lhes entregam o que têm e o que não têm. Hoje, como bem se vê na internet, os próprios canastrões midiáticos oferecem farto material que evidenciam suas mutretas espantosas. Usando em tudo e por tudo o nome de Deus, sem cerimônias nem medo de punição. Há os que induzem os incautos a darem dinheiro que porventura ainda tenham, até mesmo estando desempregados. Outros choram copiosas lágrimas de crocodilo como que implorando doações aos ingênuos que se comovem. E por aí vai. É tudo explicitamente explícito pois eles se sentem intocáveis, inatingíveis. Há os que, sorrindo cinicamente, desafiam a quem queira desmascará-los e fazem ameaças acintosas dizendo ter um exército de advogados a sua disposição para processar os que se atreverem. Há os muitos que estão ligados com o mais execrável lixo político e há suspeita de que lavem dinheiro vindo de falcatruas dessas máfias políticas. E quando algum desses ditos líderes é apanhado em alguma de suas armações, há aqueles que dizem que o fiel não deve cumprir o seu papel de cidadão decente denunciando o inegável crime e o ladrão, que deve apenas mudar de igreja e não denunciar nada, tornando-se cúmplice do salafrário. Vivemos um mundo de disputas brutais em que os métodos utilizados por muitos são abomináveis. Pessoas buscam nas igrejas a esperança, a fé, razão para viver. Conheço líderes espirituais autênticos, seríssimos, gente que honra e dignifica o que fazem. Sou amigo pessoal de um pastor evangélico, pessoa consciente, que ajuda enormemente sua comunidade. Muitas pessoas veem nas igrejas uma uma boia de salvação e se agarram fortemente a ela. É aí que entram em cena os aproveitadores usando o santo nome para conseguir o que querem para si. Os muito crédulos, carentes e desinformados acreditam e depositam nessa corja suas esperanças e, é claro, seu escasso dinheirinho ganho tão duramente. Deus proteja essa pobre gente crédula - e a todos nós - dessa corja.
(07/12/2015)

Sexo de graça - Sadomasoquismo familiar em flagrante

(07/05/13)

O cartunista Valtério e suas fantásticas criaturas


Afirmam as crenças católicas que tão logo criou o mundo, Deus resolveu criar o homem para nele habitar. E assim o fez, esculpindo-o em uma porção de barro. Fácil é deduzir que além de fazer surgir o primeiro ser da espécie, o Onipotente criou também a ainda inédita atividade de esculpir. Ou seja, avant la lettre, Deus foi um escultor, o que o torna assim um ilustríssimo colega de meu nobre amigo Valtério Salles que também esculpe em barro criativas figuras humanas e todo um mundo de coisas belas. Uma vez em uma revista de circulação nacional li uma entrevista com Millôr Fernandes. O guru do Meyer se deixou fotografar em sua própria residência e fez questão de posar em sua sala de estar ao lado de uma caricatura sua esculpida em barro. Detalhe: a peça tão apreciada pelo gênio da raça era um trabalho de Valtério. Essa incontestável habilidade de Valtério de esculpir em barro não preencheu de todo seu vasto impulso criativo.  Vai daí que ele retomou o desenho, ponto de partida de sua caminhada artística surgido ainda na sua infância vivida em Ruy Barbosa, no interior da Bahia.  Nos anos setentas, morando no Rio de Janeiro, tomou aulas no Senac com o cartunista Guidacci, afamado por exercer bem o ofício. Aos pouquinhos foi se aperfeiçoando, publicou em revistas e jornais, entre eles no emblemático O Pasquim. Sabendo que só a prática habitual e a perseverança poderiam melhorar seu desenho, há já um bom número de anos Valtério muniu-se de bloco de desenho e lápis e saiu desenhando um mundaréu de gentes pelas praias e barzinhos da Bahia. Pessoas ditas comuns e desconhecidas, o que não expressa bem a veracidade dos fatos. Na verdade, cada uma delas é mais notável que a outra em sua forma de ser, sendo também todas muito conhecidas por todos nos ambientes que frequentam. Assim sendo, Valtério caricaturou ao vivo banhistas, habitués de barracas, ávidos bebedores de cervejas e destilados, comensais de caranguejos e lambretas, vendedores de coco, picolé, queijo coalho, meninos, jovens, adultos, provectos senhores, homens e mulheres. O resultado disso foi que seu traço foi ganhando maturidade, ficando solto e se tornando cada vez mais bonito e seguro, diferenciando-se das suas influências e tornando-se mais próprio a cada trabalho feito. Então, deu-se que Valtério achou que era chegado o momento de publicar em livro o resultado de seus périplos praianos e o fez em um livro batizado de Criaturas. Nele, o autor junta seus modelos populares e mostra ainda um lote de seus amigos afamados, constando entre eles, escritor, jornalista, poeta, músico, artista gráfico, cineasta. Todos desenhados com o mesmo carinho, eternizados pelo belo e solto traço que Valtério conquistou nessas suas andanças pelos recantos baianos enriquecendo ainda mais seu cabedal artístico. De quebra ele republica hilários cartuns e caricaturas já antes publicados em jornais e revistas da imprensa brasileira. Como alguém que gosta muito de desenhos, foi com grande prazer que folheei cada uma das páginas de Criaturas, deliciando-me com os desenhos valterianos que certamente farão também a delícia de todos os leitores que amam a boa arte.
***Para adquirir seu exemplar, contatos pelo e-mail valterio.sales@terra.com.br     
(Publicado originalmente em 01/08/2015)






08 março 2017

João Ubaldo Ribeiro há anos já previa o golpe, por conhecer de sobra o Brasil.

"Desde que me entendo, ouço falar em reformas e as únicas que lembro ter visto efetivamente realizadas são as ortográficas. Talvez eu esteja sendo injusto e tenha presenciado a realização e implantação de alguma reforma não ortográfica. Mas não aquelas que antigamente eram chamadas de “reformas de base” e consideradas essenciais para o desenvolvimento ou até a sobrevivência do País. Reforma agrária, reforma tributária, reforma judicial, reforma administrativa, reforma educacional e por aí se desfiam as benditas reformas, um longuíssimo rosário, impossível de recitar de cor. Ao mencionar-se sua necessidade ou urgência, todos assentem com ares graves – sim, sim, naturalmente, as reformas.
Contudo, passar da anuência à ação é aparentemente impossível. Reforma é uma coisa na qual se fala, mas não se faz. É excelente para comícios e entrevistas, mas não para agir. De vez em quando, um governante diz que fez uma reforma. Se não me engano, o ex-presidente Lula anunciou que fez uma ou duas reformas. Não lembro quais e provavelmente nem ele, são coisas do passado e ninguém viu reforma nenhuma mesmo.
Tenho uma teoria simples a respeito desse assunto. Todas as reformas, de todos os tipos, iriam prejudicar os que ganham com a manutenção do que está aí. Como o País, de cabo a rabo, em todos os níveis, em todas as classes e categorias, é essencialmente corrupto, a corrupção não deixa. Não existe setor da administração pública, novamente em todos os níveis e dimensões, que não seja território de uma ou diversas máfias, algumas das quais institucionalizadas e quase todas alimentadas por uma burocracia pervertida e feita para ensejar propinas, vender influência e fazer proliferar os despachantes e seus equivalentes mais graduados, os chamados consultores – entre estes últimos constando o hoje injustamente esquecido filho de d. Erenice. ( N.R - JUR refere-se a Israel Guerra, filho da ex-Ministra-Chefe da Casa Civil
)Diante da realidade de que há quadrilhas em ação em todos os poderes, tanto de fora para dentro quanto de dentro para fora, não se vai acreditar que os beneficiários de determinado estado de coisas abdicarão de suas vantagens pelos belos olhos de quem quer que seja. Ouso mesmo dizer que, em muitas das áreas mafiosas, quem for fundo demais na investigação e na reforma corre o risco de morrer. São muitas as histórias de assassinatos realizados a mando de algum esquema de corrupção, pelo Brasil afora. Não escapa área nenhuma, a começar, simbolicamente, pelas próprias polícias.
E não escapa, naturalmente, o Congresso Nacional,
onde, segundo as más línguas (observem meu uso copioso do adjetivo “alegado”, ou quem vai preso sou eu) há alegados ladrões, alegados estelionatários, alegados salafrários e outros alegados, em tamanha fartura que desafia a contagem. Agora o Congresso está entregue à tarefa de realizar a reforma política, todo mundo fingindo que acredita que algo que prejudique os interesses imediatos dos congressistas será aprovado. E que o nosso sistema eleitoral está sendo aperfeiçoado.
Aperfeiçoado para eles. O que eles pretendem chega a parecer brincadeira, mas, infelizmente, não é. Querem, como se sabe, instituir o que já chamam afetuosamente de “listão”. O eleitor não votará mais em um candidato, mas na lista elaborada pelo partido, na ordem estabelecida pelo partido. Atualmente, com a lista aberta, pelo menos o eleitor escolhe uma pessoa e essa pessoa, se bem votada, fatalmente se elege. Mas não vai haver mais esse direito. De agora em diante, com a lista fechada, o eleitor escolhe o partido com que se identifica e lhe entrega a escolha dos nomes que serão eleitos.
Só pode ser deboche. Que significa um partido político no Brasil, senão a conglomeração temporária de interesses que raramente são os da nação, mas de grupos, categorias ou indivíduos? Até os programas partidários não passam de florilégios de frases vagas e altissonantes, tais como o combate à desigualdade e a injustiça social, os projetos de inclusão, o desenvolvimento sustentável, a preservação do meio ambiente e outras generalidades, quem ouve um, ouve outro e, se o nome do partido fosse apagado, não haveria quem o distinguisse. Apareceu até um partido que se declara não ser de esquerda, nem de direita, nem de centro. Talvez seja o mais honesto deles todos, por mostrar que reconhece a realidade política brasileira. Aqui nenhum partido quer dizer nada mesmo e podiam usar todos a mesma sigla: PPPPP, Partido Pela Predação do Patrimônio Público, porque tudo o que seus membros aqui almejam é abocanhar a parte deles.
Agora vêm com essa novidade da lista fechada. Se já não nos é permitido dar palpite no uso do nosso dinheiro, daqui a pouco nos tirarão o direito de escolher nossos governantes. Ou seja, seremos mandados pelas organizações oligárquicas e caciquistas dos partidos. Seremos uma “democracia” governada por conluios e manobras escusas. Ou por 171, como queiram."

( Trechos de artigo de João Ubaldo Ribeiro,
 (01 novembro 2011 )

Finitude / Setubardo, o maior dos poetas menores

Essa moça tece a teia
Que minh'alma inerme enleia.
Me esquivo dela qual o diabo da cruz
E quando me creio seguro,
Olha ela aí, meu Jesus!
C'est fini a calmaria.
Tornados, borrascas, procelas,
Tufões, ciclones, querelas,
Psique em desarmonia.
( 01/08/10)

07 março 2017

Jogador de futebol, um semideus / Arte que se reparte 3

Pintura em tela, tamanho 80x60 cm, que hoje faz parte da pinacotéquia do Seu Creysson, do Cassetia i Planetia, quer dizer, que atualmente integra a pinacoteca do graaaaande Claudio Manoel, do grupo Casseta e Planeta, segundo me informou o respeitável dono da galeria de Arte em que esse quadro foi vendido.
***Para você, pictórico leitor, que almeja ser artista plástico ou simplesmente gosta de ficar muito bem a par de detalhes e filigranas, saiba que para pintar essa futebolística tela fiz o esboço com lápis B e, para criar uma textura, usei massa acrílica colocada com espátulas. Na bola fiz uma colagem com um tecido para dar um relevo e um toque dadaísta, seja lá o que isso for. Já na pintura propriamente dita, usei um pequeno arsenal de pincéis de variados tamanhos e formas e uns tubos e potes da sempre boa tinta acrílica. 
(18/02/15)

06 março 2017

Fernando Trueba, Bebo Valdés, Carlinhos Brown e o Milagre do Candeal.

Carlinhos Brown, Bebo Valdés e Fernando Trueba, em 2004.
Belle Époque (Sedução, no Brasil) foi o primeiro filme dirigido por Fernando Trueba que assisti. Gostei muito e não era para menos. O argumento é envolvente, a fotografia bela, a direção primorosa. O elenco, maravilhoso, traz Ariadna Gil, Penélope Cruz, Jorge Sanz, Maribel Verdú, Fernando Fernán Gómez, Chus Lampreave. Por essas virtudes, em 1993 o filme recebeu prêmios importantes no mundo do cinema, como o Goya de melhor diretor e melhor argumento e o Oscar de melhor filme de língua não Inglesa e outros mais. Por haver gostado desse diretor, volta e meia assisto algo que ele dirige ou produz. Assim, assisti O milagre do Candeal (El milagro de Candeal), documentário de Trueba, rodado em 2004. Numa narrativa gostosa e cheia de nuanças, o documentário mostra, entre outras coisas, o trabalho social desenvolvido por Carlinhos Brown no hoje famoso bairro de Salvador, Bahia. Enriquece o documentário a participação do maravilhoso pianista cubano Bebo Valdés, que visita o Candeal, bem como a do cantor e músico Mateus Aleluia. Ao lado de Brown, Mateus faz as vezes de anfitrião a Bebo Valdés, diálogos em Espanhol e Português, em que o tema é o projeto social do Candeal, a música, as influências e intercâmbios musicais, as religiões de matriz afro, a ancestralidade comum, e também a chamada enorme influência africana presente no cotidiano da Bahia e em Cuba. Cenas de moradores do Candeal e voluntáiros trabalhando em álacre mutirão para erguer praça e construção são entremeadas de depoimentos desses populares, parte importante do projeto, erguendo com as próprias mãos a parte física e material do Milagre. Enriquece o documentário a presença de Marisa Monte, cantando ao lado de Brown. Mateus Aleluia também canta e toca, da mesma forma que Gilberto Gil e Caetano Veloso. Esses dois últimos, aparecem em entrevistas descontraídas. Caetano mostra um Espanhol escorreito, ao conversar com Bebo Valdés. Isso faz lembrar que, no documentário, quando as pessoas falam em Português, aparecem legendas em Espanhol. Tais legendas são dispensadas nas falas de Gil e Caetano, pelo Espanhol escorreito que falam. O burlesco, ainda que involuntário, fica por conta de Carlinhos Brown que, para se comunicar com Bebo, ataca de um Portunhol divertido e muito enrolado, por vezes uma verdadeira algaravia. O hilariante nisso é que em tal caso, as legendas aparecem e são providenciais até para os espectadores brasileiros. Grande Brown!    
****Coloco aqui um link para o documentário, mas como há coisas de internet que são o tempo todo mutáveis, quem quiser ver o documentário, que o faça logo. 

04 março 2017

José Luiz Torrente: um fascista contra homossexuais e a serviço dos cidadãos de bem da Espanha e do Mundo.

Quem quiser saber quem é e do que é capaz José Luiz Torrente Galván, ex-agente policial, um fascista, franquista, xenófobico, misógino, homofóbico e racista, entre outros lamentáveis pendores, basta ver esse vídeo assaz significativo postado abaixo. Nele, Torrente dá mostra de como ser uma pessoa inconveniente, agindo com total falta de princípios morais, bom-senso, ética e etiqueta. Como isso fosse pouco, Torrente, esse fantástico anti-herói - magistralmente interpretado no cinema pelo ator espanhol Santiago Segura - dá uma demonstração definitiva de como não se deve portar um agente de segurança a bordo de um avião cheio de passageiros e também de tudo que não deve ser feito quando populares estão em situação de gravíssimo perigo. Perto do poder de destruição de Torrente, Átila, o Huno, era um escoteiro inofensivo, tímido e mui bem comportadinho. Quem gosta de boas comédias e ainda não conhece o personagem e muito menos já assistiu um dos seus cinco filmes dirigidas por Segura, que trate de procurar em locadoras ou na internet. Humor inteligente, riso seguro, diversão garantida.

J.L.Torrente, racista, misógino e fascista, é meu grande ídolo. .

Ter um fascista como ídolo não é de bom alvitre nem algo que se possa assumir de público com a mesma naturalidade com que alguém se assume torcedor desse ou daquele time de futebol. Fascismo e nazismo são molas propulsoras de dolorosas e inaceitáveis injustiças sociais, ódios esmagadores os mais diversos, discriminações e perseguições as mais desumanas, racismo, graves e irreparáveis violências ao próximo. Mas aqui abro meu corazón de melón, de melón, melón, melón, corazón, para mencionar algo que pode chocar a você, caroável e humanista leitor que não compactua com tais abjeções que tanto degradam a raça humana. Acontece que assumidamente tenho como ídolo um fascista dos piores. Um cara desprezível, sem um pingo de moral ou sentimento de lealdade dentro de sua alma suja, um verme racista, um aproveitador e chantagista, um ser abjeto recheado de egoísmo que para atingir seus propósitos mais mesquinhos é capaz de explorar da forma mais infame o próprio pai que padece com as graves sequelas de um derrame. Um homofóbico, um porco machista de extrema direita que usa as mulheres como meros objetos sem lhes dar o devido respeito e valor. Um anti-comunista ferrenho, um admirador confesso do Generalíssimo Franco, um mentiroso sórdido e contumaz que só pensa em tirar vantagens das pessoas desavisadas que com ele se iludem, capaz de roubar quem quer que seja, se tiver oportunidade para isso. Sua história de vida é recheada de fatos e atitudes escabrosos. Era policial e usava seu cargo para oprimir e achacar pessoas a quem devia proteger, sendo por isso expulso da corporação. Seus erros e crimes foram tantos que acabou indo parar atrás das grades, o que só serviu para piorar o que já não era bom nesse fascista de meu agrado. Gordo, careca, bigodinho, um constante riso de escárnio na boca de onde pende um palito que usou em recente refeição filada de alguém. Uma camisa amarfanhada sob o paletó seboso, nele é puro charme e elegância. Refiro-me a José Luiz Torrente Gálvan, ou simplesmente Torrente – El brazo tonto de la Ley, um guarda-costas ocasional e falso agente policial, personagem de cinco deliciosas comédias do cinema espanhol. Seu criador é Santiago Segura, um ator de grande versatilidade que engordou 20 quilos para viver o personagem, como um dia já o fizera Robert De Niro. Além de ser o grande ator que é, com uma rica e extensa filmografia, Segura cria hilários personagens e escreve seus criativos argumentos. Como diretor sempre soube escolher muito bem os atores para trabalhar em suas películas, artistas de grande talento como os célebres almodovarianos Chus Lampreave e Javier Cámera, entre outros notáveis. Há riquíssimas participações de personalidades admiradas em seus filmes, o que demonstra seu carisma e o bom conceito de que desfruta. Santiago Segura também é produtor de filmes, é compositor, já apresentou programas de TV, trabalhou como dublador, já criou argumentos para histórias em quadrinhos, editou fanzines, cursou Belas Artes e também é desenhista habilidoso além de criador de admiráveis personagens. Dentre esses personagens que cria para o mundo das grandes comédias cinematográficas feitas com um humor de primeira linha, em lugar de relevo e de grande importância está José Luis Torrente, seja ele um crápula incorrigível ou quem sabe um mero produto do meio e das circunstâncias que o tornaram o fascista grotesco que é. Para horror dos que se pretendem mais sensatos, a vida costuma imitar a arte e infelizmente é crescente o número de pessoas do mundo real que estão exibindo um comportamento que em tudo se assemelha ao personagem da ficção e isso não tem um pingo de graça, pra dizer o mínimo. José Luís Torrente Gálvan é o único fascista a contar com minha admiração. Quem não conhece os filmes com o personagem não sabe o que está perdendo. Viva a Espanha! Vivam Torrente e Santiago Segura!
(050916)

Cartola e as rosas tagarelas

As rosas não falam?! Falam, falam, sim, ora, se falam! Algumas são até beeeem tagarelas. Às vezes puxam assunto e falam muitíssimo bem desse notável brasileiro que é o mestre Cartola. Preconizam elazinhas que ele é, e sempre foi, um compositor magnífico, que legou à música brasileira verdadeiras pérolas finas musicais, tesouros de altíssimo valor, ainda que ele fosse uma pessoa de origem humilde, de poucos estudos formais, morador do Morro da Mangueira, no Rio, reduto de gente simples e comum, mesmo sendo ele um artista incomum. Esta carica acima eu fiz um tempo atrás, como presente pro meu nobre e especial amigo Biratan Porto, gente da minha querência, que todos sabem bem que é um cartunista e caricaturista piramidal, de alto gabarito, e de quebra é ainda um músico habilidoso, um virtuose do bandolim, coisa que tive a fortuna de comprovar ao vivo e a cores em Belém do Pará, e não fosse isso o bastante, Bira é também um cartolamaníaco inveterado, contumaz e renitente, no que lhe dou inteira razão.
(28/11/14)

Um Puto fascista em Portugal a serviço do Capitão Falcão e de Salazar.

Capitão Falcão é um militar treinado marcialmente para salvaguardar a ditadura em Portugal e, por extensão, proteger o ditador Antonio de Oliveira Salazar, criador do Estado Novo. Falcão ama tanto o despótico Salazar que em dado momento o oficial toma nos braços o déspota e com sofreguidão beija-lhe longamente a boca fascista em um ardoroso ósculo que denota a desmesurada paixão entre ambos. A cena é de uma comédia do cinema português em filme de 2015 dirigido em pelo cineasta luso João Leitão, que também é responsável pelo argumento e pelo roteiro, esse em parceria com Núria Leon Bernardo. Falcão, com sua máscara preta, faz uma linha de herói que muito tem a ver com o Batman e ainda mais com o Capitão América, patriótico combatente ianque que devasta os inimigos de seu país. A ideia inicial era fazer de Capitão Falcão uma série para a TV de Portugal. O projeto não avançou. O argumento foi reescrito e adaptado para o cinema, virou filme, alcançou bom público nas salas de exibições lusitanas, e acabou conseguindo ser exibido no formato minissérie nas telinhas pela RTP. Já li reportagens de alguns cineastas espanhóis reclamando da vida, da dureza que se tornou fazer cinema na Espanha. Não falariam isso à toa, mas a verdade é que, em termos de produção, o cinema espanhol tem dado um show nas películas que produz, o que não acontece com Capitão Falcão, de produção bem modesta, comparada às hispânicas e tantas mais. Ainda assim, o filme de Leitão surpreende positivamente com o elenco dando bem o seu recado. Capitão Falcão, o herói fascista, inimigo ferrenho de comunistas, esquerdistas de correntes as mais diversas e liberais em geral, é interpretado por Gonçalo Waddington enquanto José Pinto interpreta o ditador Salazar. O argumento e o clima do filme em alguns momentos fazem lembrar, ainda que de forma distante, o clima do humorístico brasileiro feito pelo grupo Casseta & Planeta e a TV Pirata. Com menos escracho, bem mais contido, mas com gags e detalhes de muita hilaridade. Curiosamente, Falcão batizou seu fiel ajudante de Puto Perdiz, o que para nós, do Brasil, soa hilário por si só, pelas diferenças no uso do Português, nossa língua comum, nem sempre tão comum assim. Aqui a palavra puto é pouco usada em sua forma masculina, e com sentido diverso do uso comum em Portugal. Na terra de Fernando Pessoa, os meninos ainda bem pequeninos são chamados de miúdos, enquanto os meninos maiorzinhos, já adentrando a adolescência, são chamados de putos, a exemplo da Itália, em que é comum chamar-se os meninos de puttos, designação oriunda do batismo daquelas esculturas ornamentais de anjinhos alados de capelas e igrejas, os puttos, putti, puttinos. No Brasil sabemos que impera um autêntico monopólio na exibição de filmes oriundos do cinema made in USA, e por aqui um filme português como Capitão Falcão praticamente não tem chances de ser exibido nos cinemas regulares. Cônscios disso, cinéfilos brasileiros juramentados não se cansam de tecer loas à internet por proporcionar o milagre de podermos assistir via online a filmes não encontradiços nas nossas salas de projeções, como essa comédia que mostra que os portugueses, além de serem bons de fado e de literatura, são também bons de humor e de cinema, o que se percebe através das imagens que mostram um Portugal dominado pelo Estado Novo e sob atenta vigília do Capitão Falcão e de seu amado Puto.
(22/11/16)

01 março 2017

A visão da imprensa na época de Antonio Conselheiro e a mídia atual.


Eu e o sertão, esse sertão tão dentro de mim, eu tão urbano. Aprendi a gostar deste tema graças aos filmes de Lima Barreto e Glauber Rocha, aos magistrais desenhos de Flavio Colin e de Percy Lau. Esta ilustração em bico-de-pena fiz para um livro já publicado que mostra como a imprensa da época via e retratava Antonio Conselheiro, tratando-o como um antimonarquista perigoso, um insidioso fanático e ardiloso, um sanguinário ensandecido e cruel que punha em perigo a estabilidade política e social do Brasil. Deu no que deu: um banho de sangue para Hitler e Stalin nenhum botar defeito, ligado para sempre à História do Brasil. Tanto ódio, tanta ira, tanto preconceito, visão distorcida e malsã, tão desmedida incitação à violência e a perseguições aniquiladoras insertadas pelos ricos e influentes donos da mídia, culminaram numa gigantesca e cruel tragédia que fizeram do beato um mártir eterno e deixou na história de nosso país essa mácula indelével, vergonhosamente abjeta. Fica o exemplo para que, nos dias atuais, procuremos todos avaliar melhor as posições da mídia, quais os reais interesses por trás do que veiculam, das campanhas por vezes implacáveis que movem, que ocultam inconfessáveis intentos e lamentavelmente findam por nos induzir a equívocos irreparáveis e armadilhas abissais. 

Flavio Colin, o Mestre dos Mestres das HQs, comentando os desenhos de Setúbal (euzinho, mesmo).

Indômito e estoico, o coração do explorador o leva a penetrar destemidamente na imperscrutável selva que no emaranhado de seu interior oculta mortais armadilhas. Na jângal de nigérrima escuridão e insondáveis mistérios, penetra ele, sem hesitações. Esse explorador sou eu, leitores. Essa selva, o espaço desorganizado de um quarto de meu larestúdio, em que se amontoam livros, revistas, discos de vinil, papéis com bosquejos, debuxos, rafes, layouts, rabiscos e estudos, lápis, canetas nanquim, pincéis, tintas a óleo e acrílicas, um poster do Odair José, uma figurinha carimbada do Flávio Minuano com a camisa do Corinthians e incontáveis recuerdos de Ypacaraí. Toda sorte de objetos de formas, tipos e procedências se acumulam nessa selva em que os intrépidos irmãos Villas-Bôas não ousariam adentrar, temerosos. Tais atitudes inconsequentes de minha parte por vezes são altamente compensadoras. Muita vez meu peito experimenta a alegria de um velho arqueólogo que, após décadas de intensa procura, finalmente descobre milenares tesouros de um faraó. Isso se dá quando encontro algo que, estando perdido no meu caos doméstico, ressurge em minha frente, materializa-se em minhas mãos. Como essa carta que um dia, no anno Domini 1998, enviou-me o inimitável, o inigualável, o incomparável Flavio Colin, meu ídolo desde que, ainda um guri, comecei a ler histórias em quadrinhos. Não conheci Colin pessoalmente, só grahambellmente, em longas conversas, principalmente sobre quadrinhos. Enviei a ele livros e revistas com desenhos meus e de amigos aqui da Bahia. Nos papos, Colin mostrava-se um homem culto e politizado. Sendo cortês, não deixou de escrever-me e o fez de forma alongada, falando de coisas que denotavam seu pensamento de profissional e, indo além, de forma espontânea teceu comentários sobre meus desenhos. Nada de teclados, notebooks, e-mails, o que Colin escreveu sobre meu trabalho foi escrito pelo mesmo punho que desenhava aquelas maravilhas todas que fizeram feliz minha existência de voraz devorador de gibis, álbuns, revistas de quadrinhos. Suas palavras foram e são para mim uma grande motivação. Considero que meus desenhos são meras garatujas diante da arte maior de Colin, mas ele, vendo meus desenhos, gostou e se motivou a me escrever, inflando meu peito do mais lídimo e justificável orgulho. Determinam as regras do mais elevado e ético comportamento humano que uma pessoa assim laureada, porte-se com modéstia, de forma contida, reservada, sem ostentação. Pois faço saber que nesse caso mando uma banana para a modéstia e outra para sua irmã caçula, a discrição. Uma honra dessas não se acha por aí, aos montes, dando sopa pelas ruas, becos, ladeiras, vielas, veredas, ágoras, alamedas e bulevares, e não serei eu quem irá encobrir com os tecidos da falsa modéstia o irrefreável orgulho que sinto pelas palavras do Mestre Flavio Colin:
"Caro Setúbal:...
...Gostei e admirei especialmente "ABC da Guerra do Absurdo". Sem bajulações e sem salamaleques, considero suas ilustrações belíssimas. Um trabalho realmente primoroso. Vou guardá-lo com todo o carinho. Espero que você alcance êxito, não só profissional e financeiramente, para que possa expor todo o seu potencial artístico e viver do seu talento com a segurança e a dignidade que bem merece. aguardo novos trabalhos seus. Abração do Flavio Colin."

25 fevereiro 2017

Carnaval na Bahia, artistas, música e tinta acrílica.


Já é carnaval, cidade, acorda pra ver! Curtir a folia, brincar o carnaval nas ruas da Bahia é puro delírio. A festa é um painel colorido, belo e efervescente, cheio de personagens maravilhosos. A velha raça humana se esquece dos problemas e vai à praça gritar sua alegria neste encontro hedonista, com direito a beijos nada colombinos, desejos mais que legítimos e novos amores eternos que durarão até a quarta-feira. Bom, ninguém aqui nesse bloguito  é tão alienado que não saiba que na elaboração da festa há grandes manipulações oficiais e interesses empresariais que atropelam a honestidade e o bom senso. Mas fiquemos, por ora, no aspecto lúdico,  na alegria e na loucura a que todos se permitem, pois é por motivos tais que o carnaval da Bahia é mesmo uma bela temática para se pintar, caprichando no colorido de cores vivas, quentes, redondas ou seja lá que outro nome lhes deem. Ditas tais palavras, agora vou correndo pro Pelô, senão o Caó come as mulheres todas que estiverem por lá e não sobra nada pra ninguém e isso inclui minha pessoa. Caó é phoda,  quando vê murundum não considera amigo nenhum! Axé, galera!! Fui!

De Israel, um pouquinho mais do fantástico Hanoch Piven





E como o que é bom deve ser visto sempre, vão aqui mais estas caricas divertidíssimas da lavra do caricaturista israelense Hanoch Piven, um cara que brinca com colagens e que de forma assaz original consegue fazer estas maravilhas contidas nestas postagem mostrando o genial Woody Allen, que um dia dirigiu um filme chamado "Bananas", e mais Bob Dylan, Keit Richards, com sua língua sempre viperina, Iggy Pop e até o nosso brasileiríssimo ídolo Ronaldinho Gaúcho, quando arrasava pelo Barcelona. Vão ao site do cara que lá tem muito mais procês:
 http://www.pivenworld.com
(Publicado originalmente em 29/11/2013)

Versos para um anjo bêbado // Setubardo

 Um anjo bêbado/Que eu nunca vira mais gordo/Me viu num bar da cidade/E na maior intimidade/Botou a mão em meu ombro/ - Que assombro! - /E me pediu um cigarro/ - Bizarro! - /Resolvi colaborar/De malandragem eu manjo/Impossível adivinhar/Quando se pode precisar/Da ajuda de um anjo/Dei um cigarro, dei dois/E fui-me embora, depois/Enquanto ele cantava, nada teen:/"When the saints go marching in..."/Lá no estacionamento/Um novo aborrecimento/Algum pilantra abusado/Levou meu carro rebocado/Mas por sorte encontrei/Pégasus, o cavalo alado/Saltei no dorso do corcel/E falei: "Toca pro céu!"/Ao sair do perímetro/Ele mudou o taxímetro/Botando bandeira dois/É isso aí, minha gente/Já não se fazem alados como antigamente./Na Via Láctea bebi leite-de-cabra/Que não dá ressaca braba/E só pra rebater/Virei uma cachaça crua/Tropecei em Orion/Esbarrei na Nova Lua./Em Alfa de Centauro/Já me sentia um lixo/Meio homem, meio bicho/Sem querer quebrei um copo/Mas saltei e salvei o pires/Pulei sobre um arco-íris/Escorreguei para a Terra/Caí no meio de uma guerra/Um soldado invocado/Me apontou seu fuzil/Foi um puta que o pariu!/Pra tentar me safar toquei um banjo/Foi quando ressurgiu aquele anjo/A quem o cigarro eu dera/Anjos não são pura quimera/Me levou voando a mais de cem/"Ao infinito e além!!"/Logo estava me apresentando/Sua família cativante/Pela irmã do anjo eu pirei/Os quatro pneus arriei/Fiquei doidão, pedi logo pra casar/Hoje moro num Paraíso, ao léu/Vivo com ela no Sétimo Céu/Ando nas nuvens com seus carinhos/Minha mulher é mais que um anjo/Nossa prole, três anjinhos.
(16/03/08)

20 fevereiro 2017

Apaches do Tororó, Buck Jones e todos blocos de índios do carnaval da Bahia

Nos anos 70 morava eu em Sampa quando resolvi me autorrepatriar para a Bahia depois de naquela época haver provado embevecido a magia incomparável do carnaval de rua desta Soteropéia Desvairada. Digo e redigo, há aqui nessa afrocity um povo cuja alegria ultrapassa todas as divisas, que é festeiro e que adorar rir, dançar e amar como nenhum outro, sendo que o carnaval de rua sempre foi sua delirante apoteose. Ah, tempos houve em que este carnaval era verdadeiramente popular e não um produto que ávidos empresários vendem embalado em abadás que, a julgar pelo preço cobrado, devem ser confeccionados em fio do mais puro ouro. A folia nas ruas se iniciava ainda pelas manhãs sempre ensolaradas e o melhor da festa se concentrava na Praça Castro Alves. O carnaval baiano e a Castro Alves foram tornados famosos numa contagiante canção de Caetano Veloso em que, parafraseando o grande vate abolicionista, retratava os costumes populares da época dizendo ele que "a praça é do povo como o céu é do avião". Ouvi e achando pertinente o dito, tratei de descolar espaço cativo na renomada ágora. E um belo dia lá dos anos 70, lá estou eu na Praça Castro Alves onde, aboletado em privilegiado cantinho à guisa de camarote, espero a passagem de trios e blocos. Eis que alguém brada: "Évem os Apaches do Tororó!" Será que ouvi direito? Ouvi e fico sabendo que o Apaches é o primeiro bloco que surgiu no carnaval da Bahia com a nobre intenção de merecidamente homenagear o povo indígena. Frise-se que por um desses insondáveis mistérios dessa afrocity Soterópolis, os blocos índios nunca foram de homenagear Pataxós, Tupis, Bororós, Guaranis, Xavantes ou qualquer outra tribo indígena da Bahia ou da circunvizinhança e sim os índios norte-americanos tais como Apaches, Comanches e Sioux que aqui só davam as caras nas telas de cinema e das TVs. Ou seja, em matéria de cacique, sempre estiveram mais para Touro Sentado que para Juruna. Percebo, quando se aproximam, que portam os adereços indígenas que Hollywood nos mostra: mocassins, penas, elegantes cocares, indefectíveis machados, rostos com alguma pintura. Com uma substancial diferença: os pele-vermelhas que vejo são em verdade todos de cor negra retinta, o que deixaria em pé a vasta e fulva cabeleira do General Custer. Isto também deve explicar os cliques incessantes das máquinas fotográficas dos gringos à minha volta. Antes que algum solícito antropólogo me esclareça as ideias, um novo arauto anuncia: "Évem Buck Jones!" Pronto. Este eu conheço, é colega de Tom Mix, Gene Autry, John Mac Brown, Tex Ritter, Monte Hale, Ken Maynard, Rocky Lane e Roy Rogers. É cowboy genuíno e certamente a porrada vai comer no centro com a indiada azeviche. Qual o quê. O Buck Jones em questão me explicam que é o nome do cantor da Banda Mel cujo trio se avizinha. Mas como nessa afrocity o inusitado é corriqueiro, fico na minha imaginando que a qualquer momento alguém vai bradar: "Évem John Wayne!" E ao invés do Duke, quem de fato advirá no cenário da praça montado em empinante corcel não será nenhum tipo ariano de zoim azu, mas um macunaímico Grande Otelo ou um glauberrochistíco Mário Gusmão. E as hostilidades de praxe mostradas nas telas darão lugar a confraternizantes abraços entre Apaches, Comanches, Sioux, Pataxós, Gês, negros, brancos, mulatos, cafusos, mamelucos, teutos, sinos, lusos, anglo-saxões e quem mais vier, pois nesta terra, malgrado um indesejável magote de canalhas, é infindável nossa capacidade de amar e inexaurível é nossa alegria de viver.
(02/02/2010)

19 fevereiro 2017

Curtindo o Sketch Book de Paulo Paiva: cartuns, tiras, quadrinhos e humor do melhor!

Do fundo do meu coração corintiano desejo que você, dedicado leitor, tenha amigos tão generosos quanto os tenho em diversos pontos dessa terra em que um dia tropeçou, distraído, o moço Pedro Cabral. Sabendo que gosto de filmes, DVDs, quadrinhos e cartuns, livros e revistas, esses sempre mui amistosos amigos me enviam mimos, como esse que nesse momento tenho em minhas privilegiadas mãos, o Sketch Book do cartunista Paulo Paiva, o popularíssimo Pepê. A Coleção Sketch Book é uma belezura que a Editora Criativo colocou no mercado para brindar aos leitores amantes de cartuns, quadrinhos, ilustrações e mais um monte sem fim de tesouros gráficos, como esse esplêndido exemplar com os trabalhos do indômito Paulo Paiva. Como um bom apaixonado por desenhos de quadrinhos e cartuns, tenho enorme prazer de ver cada etapa da faina criadora dos desenhistas e esse Sketch Book traz uma bela coletânea dos trabalhos de Pepê. Rafes, esboços, layouts, artes-finais, estudos a lápis de personagens ou de tiras e HQs, desenhos com canetas de tinta nanquim ou de pontas porosas, cartuns, caricaturas, histórias em quadrinhos, tiras, ilustrações e até páginas com argumento e seus respectivos desenhos rafeados feitos para o personagem Penadinho, de Maurício de Souza. O traço de Paiva é pra lá de soltíssimo, feito com uma falsa displicência, tem por vezes um aspecto graficamente “sujo”, descuidado, como algo feito às pressas, a toque de caixa, mas que na verdade fica perfeitamente integrado ao humor paiviniano, tão gostosamente peculiar. Sejam nos desenhos, acompanhados ou não de um texto, de um trocadilho sacana, o resultado é invariável: uma fartura de gostosas gargalhadas, uma marca registrada de Paiva. Um dia, ainda adolescente, Pepê trabalhou fazendo argumentos para o hoje lendário Maurício de Souza. Depois foi para a Editora Abril escrever histórias de Zé Carioca e de um monte de personagens de Walt Disney, que eram feitas dentro das dependências da editora, dos quais eu era um inveterado consumidor. Um dia Paiva uniu-se a amigos, fundou sua própria editora e passou a publicar trabalhos de um monte de artistas que almejavam um veículo onde pudessem publicar seus desenhos, além dos próprios trabalhos paivinianos, é claro. Escrevendo, desenhando, editando quadrinhos, tiras e cartuns, assim foi Pepê levando a vida. Uma trajetória brilhante de tanto anos, tinha mesmo que merecer o tributo que a Editora Criativo presta a Paulo Paiva, na forma de um belo exemplar dessa notável coleção de sketchbooks. Coleção cujo elogiável projeto e direção editorial é de Carlos Rodrigues. Marcial Balbás faz um belo trabalho na direção de arte, sendo que a logo da série é fruto da competência gráfica de Eduardo Nojiri. A incumbência de produzir os sketchbooks ficou a cargo do desenhista e editor Franco da Rosa, sempre um guerreiro na sua batalha pelos quadrinhos. E como sem dinheiro não se produz quadrinhos, nem cartuns, nem nada, a direção financeira está a cargo da incansável e eficiente Esilene Lopes de Lima. Um belo texto de Franco da Rosa na quarta capa traça em rápidas pinceladas um retrato de Paulo Paiva em um texto elucidativo e feito com evidente carinho ao sempre cultuado cartunista. 
****Os interessados em adquirir exemplares do Sketch Book de Paiva e de outros artistas, como Mozart Couto, Mike Deodato, Ataíde Braz, Walmir Amaral, Messias de Mello, Júlio Shimamoto e tantos mais (Êi, Franco, senti muitíssimo a falta do grande Mestre Flávio Colin.), pode acessar o site da Editora Criativo: http://www.EDITORACRIATIVO.com.br   

18 fevereiro 2017

Aprenda o maravilhoso idioma do Futebol.

O mundo do futebol utiliza em sua comunicação um palavreado próprio que os não iniciados soem desconhecer completamente. Na passada Copa de 2014, de triste memória para nosotros, o futebol da Alemanha nos ensinou uma dura lição através da impiedosa e vexatória goleada de 7x1 que os germânicos nos impingiram dentro de nossa própria casa, de nossos próprios domínios, se é que a gente ainda domina alguma coisa atualmente. Mas quem disse que aprendemos a lição e nos tornamos mais humildes, mais realistas? Quem disse que perdemos a pose de nos autointitularmos "os insuperáveis reis do futebol mundial"? É claro que sabemos bem que nosso futebol não é o que já foi, de sobra, um dia. Que não somos mais sequer uma sombra do que foi aquela geração maravilhosa que encantou o planeta com Pelé e Garrincha, mas fingimos que somos, repetimos despudoradamente que somos, mesmo sabendo que não somos. Tudo isso porque, malgrado a humilhação que agora teremos que carregar em nossas costas vida afora, o amor pelo esporte mais popular nesse orbe azulzinho insiste em seguir vivendo em nossos corações, e nesse país tropical abençoá por Dê e roubá por um mon de fi da pu, não é justo que nenhum vivente follado y mal pago fique por fora de assunto tão relevante quanto o idioma falado nos bastidores desse esporte que foi um dia importado da terra de Bill Shakespeare e que aqui se tornou tão brasileiro. Sendo assim e assim sendo foi que a quase dinâmica e atuante equipe esportiva que atua neste bloguito, resolveu criar um providencial Dicionário de Futebolês para deixar você por dentro de um Maracanã de palavras e expressões futebolísticas contidas no jargão corrente do dito esporte brutão, quer dizer, esporte bretão.

                                         1. Cruzamentos
 Quando estão afinzonas de um jogador, as assaz determinadas Marias-Chuteiras costumam usar e abusar dos cruzamentos para que seu alvo - e não estou falando de tom de pele - perceba que está sendo convidado para adentrar o gramado lá delas, que por sinal está sempre em excelentes condições para a prática de um match de muito mais que 90 minutos, com direito a intermináveis prorrogações.

2.Invadindo a pequena área
 Em tempos pretéritos que longe vão, as donzelas militantes e juramentadas, mesmo subindo pelas paredes e morrendo de vontade de dar, por questões da moral vigente não podiam deixar que a rapaziada do Bráz - ou de qualquer parte -  invadisse suas grandes áreas. Suas pequenas áreas, então, nem pensar. Hoje, com a revolução sexual, está valendo tudo e se o jogador não vai à linha de fundo da parceira um monte de vezes fica mal falado porque atualmente no campo do sexo está valendo tudo e mais um pouco.



 3. Gol de bico
  Recurso muito utilizado no futebol feminino, embora aparente ser um tanto dolorido.

4. Impedimento
  Em certos dias do mês a namorada do jogador costuma exibir um cartão vermelho-sangue para ele, uma coisa verdadeiramente menstruosa, digo, monstruosa. Assim, impedido de penetrar a zona do agrião da sua amada e desejada, o craque sai de campo de cabeças baixas.

                    5.Entrando com bola e tudo
Maria-Chuteira que se preza adora quando o craque malhadão mostra seu gingado e parte com tudo pra cima dela com toda sua maledurência, indo fundo e adentrando a meta com bolas e tudo. Aí é aquele delírio, galera!

6. Elemento surpresa vindo de trás
Nunca é demais dizer que o elemento surpresa é decisivo e muitas vezes é preciso uma virada de jogo para satisfazer as gatinhas que estão cada dia mais fogosas, mais exigentes e mais sem barreiras. 

7. Triangulação
 Tem mulher de jogador que acha que um pouco, dois é bom e três é bom pra ca-ra-lho!! Toda véspera de jogo o marido boleiro vai para a concentração por ordem do técnico linha-dura do time e lá fica com um monte de barbudos, deixando em casa a excelentíssima. E bote excelentíssima nisto! Já ela, sempre fogosa e insaciável, aproveita para se concentrar em sua alcova com o sempre prestativo Ricardão que chega cheio de amor pra dar,  faz um rápido aquecimento secando rapidinho todo o scotch do ausente marido atleta, e depois de  mostrar seu invejável alongamento que sempre deixa a moçoila babando, vai adentrando no maior pique o gramado da ansiosa beldade e dando aquele show de bolas para o êxtase da gata.

8. Tabelinha
 Jogadores de futebol juram o tempo todo que tem o maior respeito e amor pela camisa do seu time. Já pela famosa e popular camisinha costumam deixar claro que não sentem o mínimo respeito nem amor algum, demonstrando total desprezo pelos preservativos. De sua parte a Maria-Chuteira diz que não usa pílula porque não se dá bem com químicas e prefere usar o método da tabelinha, mais natural e saudável. Aí, num retumbante dia a tabelinha falha e a sarada barriguinha da moça, moldada em academias, começa a crescer, crescer. O resto é aquela velha história: depois de nove meses um advogado com a cara do Sérgio Mallandro - Ié Ié! - aparece na porta da luxuosa-porém-kitsch mansão do jogador com um risinho irônico nos lábios, exibindo um teste de DNA numa das  mãos e trazendo na outra uma ordem judicial  mostrando que o boleiro vai ter, pelo resto de sua vida, de morrer todo mês com uma milionária pensão à Maria-Chuteira.
(130514)