25 setembro 2016

Bill Watterson, Calvin and Hobbes / Uns cara que eu amo 5

 
Entre meus quadrinhos preferidos está Calvin and Hobbes, aqui no Brasil conhecidos como Calvin e Haroldo. Bill Watterson não é apenas um estupendo desenhista, é um argumentista de raro talento que criou um universo mais que maravilhoso onde um menino, Calvin, e seu companheiro constante, Haroldo, um tigre de pelúcia que ganha vida quando ambos estão a sós sem a inconveniente interferência de adultos. Estes, por sua vez, transformam-se, na prolífica imaginação de Calvin, em dinossauros ou em monstros estranhos de outros universos, sempre prontos a atrapalhar a vida do inteligente menino. E inteligência é o que mais se vê nas tiras de Watterson, presentes nos diálogos mais criativos das HQs desde que foram inventadas. As situações que ambos vivem, mesclando realidade e fantasia para discutir problemas do homem atual, ultrapassam os limites da mesmice, das fórmulas fáceis, das mensagens convencionais com tipos estereotipados que os americanos tanto adoram. Tão fora do convencional é Bill Watterson que um dia, gozando de notável popularidade e do mais irrestrito respeito, para surpresa geral deixou de produzir desenhos com o menino e seu tigre. Talvez tenha se cansado, talvez fazer as tiras não lhe trouxesse mais alegrias, talvez - quem sabe - achando que poderia repetir-se, tenha resolvido parar depois de 10 anos onde chegou a produzir mais de 3100 tiras da dupla de personagens. Retirou-se do cenário artístico e não pensou como qualquer criador, americano ou não, de explorar comercialmente seus personagens, o que o tornaria um multimilionário, fazendo lembrar o genial desenhista do underground Robert Crumb que se lixava para o mercado de licenciamento para o qual dava sonoras negativas e explícitas bananas. Caramba!, gente assim sempre me causa uma profunda admiração e um enorme e insopitável sentimento de inveja pela firmeza de caráter, pela forte personalidade com que mostram que estão acima da mesmice geral, pela maneira independente de pensar e de recusar-se a ser apenas mais um na manada, mais um na interminável multidão dos medíocres que povoam uma grande extensão neste vasto orbe.
(Publicado originalmente em 10 de novembro de 2013)

Flavio Colin / Uns caras que eu amo 1

Era eu ainda um pequerrucho, tinha lá uns bem vividos 7 anos quando os primeiros desenhos do maravilhoso Flavio Colin saltaram impactantes em minhas mãos. Impressionado, boquiaberto, falei pra mim mesmo: "Puta que o pariu! Os desenhos deste cara são do caralho!" Quer dizer, falar isto não falei, vez que eu nada mais era que um petiz de alma pia e imaculada. Palavrões que tais não cabiam numa ânima tão cândida. Além do que, os revolucionários anos setentas ainda não haviam chegado, instaurando de vez o nu artístico nos palcos e nas telonas e muito menos palavrões de calibres diversos na boca do povão deste patropi abençoá por Dê, quanto mais na de um singelo e pudico infante de calças curtas. O que importa é que aqueles desenhos fundiram minha cuquinha de menino com olhos abertos para o cinema e para os quadrinhos. E o traço de Colin, que caminhava pela mesma senda de Frank Robbins, Chester Gould e Milton Caniff, renovava e enriquecia o estilo e em mim despertaram uma paixão que carrego pela vida toda, babando ao ver ou rever os desenhos do Mestre dos Mestres. Flavio, sempre fantástico, usava tão somente lápis, pena e pincel. Bastava isto para o cara ser genial. Ah, e um mar de nanquim em que ele navegou essa sua genialidade em preto e branco. Tudo que ele desenhava nos transmitia o quanto ele era diferenciado, evidenciava sua alta criatividade, sua determinação, personalidade, ousadia e um vigor que jamais voltei a encontrar nas montanhas de quadrinhos made in Brasil que li. Flavio Colin, eternamente fenomenal. Saudades, muitas saudades.            (Publicado originalmente em 11/06/13)

22 setembro 2016

Feminista incondicional / Frases de Béu Machado 07

Inteiramente a favor das conquistas femininas. Principalmente se eu for uma delas.

Boca e bocado / Frases de Béu Machado 06

Pior que falar de boca cheia
é ficar calado com a boca vazia.

Espelho, espelho meu / Frases de Béu Machado 05

Se eu tivesse medo de cara feia 
nunca chegava na frente do espelho.

Rapidez e destemor / Frases de Béu Machado 04

Não me deixei paralisar pelo medo, 
fui a mil para baixo da cama!

Dívida dura de engolir / Frases de Béu Machado 03

Uma senhora com um colar de pérolas
pode estar endividada até o pescoço.

Sem atritos: a mulata é mesmo a tal! / Frases de Béu Machado 02

O melhor atrito racial 
foi o que deu origem à mulata.

Travesti frustrado / Frases de Béu Machado 01

Oh, ser humano! Entender-te, quem?
O travesti é frustrado porque tem.

21 setembro 2016

Béu Machado, um poeta e pensador que encantou a Bahia

Jornalista e colunista competente, poeta e compositor de versos cheios de originalidade, frasista criador de frases memoráveis. Béu Machado era um mistura de tudo isso concentrado em uma só criatura. Uma pessoa gentil, de coração enorme, de excelente índole, simples, cordato, pacato. Um atento observador de tipos populares, dos fatos cotidianos das gentes mais simples, dali vinham seus poemas mais inspirados, suas letras de músicas. Ao ler e ouvir frases e poemas de Béu, inevitavelmente converti-me em seu admirador. Convivendo com ele nas redações de jornais, de colegas nos tornamos amigos, com direito a longos e divertidos papos em barracas, biroscas, visgueiras e cacetes-armados da Boca do Rio, bairro em que éramos vizinhos, sendo os diálogos regados com talagadas de capitosas  fôias pôdi. Como colega de redação, testemunhei o quanto Béu era admirado e querido por todos, sendo enorme o seu prestígio junto à classe artística e aos demais jornalistas. Em sua coluna de Artes, democraticamente promoveu centenas de artistas, deu-lhes visibilidade e importância. Muitos desses artistas o tempo se encarregou de consagrar.  Mas Béu não era homem dado a autopromoções.  Tinha um enorme talento, sim, gostava de escrever, de criar, mas não se importava com a glória pessoal, com os holofotes da fama. Talvez isso explique o pouco material sobre ele encontrado na Internet, seus poemas e frases. No ano em que Béu Machado faleceu, amigos mais próximos se reuniram e, capitaneados pelo artista gráfico e plástico Washington Falcão, editaram um livro com as antológicas frases de Béu. A mim coube a missão de fazer as ilustrações, o que fiz com enorme carinho. Selecionei algumas das frases de Béu, por mim ilustradas, e vou postar neste espaço amarelinho algumas delas para que vocêzinhos, poética leitora, fiel leitor, possam desfrutar, saborear e se regalar com o talento desse grande e inesquecível poeta, que um dia se autorebatizou como Béu Machado de Xangô, e que, entre as poucas coisas que escreveu sobre si próprio, cravou essa: “Amo, apesar da amargura. Sorrio, apesar do dente podre.”

O Brasil no traço do maravilhoso Percy Lau


Aqui neste bloguito já postei um texto-exaltação em que me alonguei tecendo loas ao estupendo desenhista Percy Lau, uma das minhas maiores paixões pictóricas. Os desenhos acima mostram o porquê. Nascido no ano de 1903 em Arequipa, no Peru, Percy mudou-se para o Brasil em 1921, ou seja, ao 18 anos, certamente com a alma transbordante de sonhos, que em nosso país ele soube tornar realidade.  Aqui ele se naturalizou e com seu talento raro transformou-se um dos maiores brasileiros que esta terra encontrada por Cabral já teve a honra de conhecer. Sua obra marcou profunda e positivamente minha infância. E certamente marcou também a de milhões de brazucas que tiveram a felicidade de ver os deslumbrantes bicos-de-pena que Percy fazia para o IBGE e eram reproduzidos nos didáticos livros de Geografia adotados pelas escolas da Pátria. Bicos-de-pena de deixar qualquer um boquiaberto, feitos com o apoio de um belíssimo e preciso trabalho fotográfico, mostram aos brasileiros como era - e em muitos aspectos ainda é - o nosso Brasil do Oiapoque ao Chuí. Quem leu tais livros para aprender coisas sobre nossa Pátria, foi além disso pois viu a cara exata de nosso Brasil, um Brasil mostrado por inteiro por um artista de alma verdeamarelaazulebranca a quem devemos reverenciar eternamente, Percy Lau.
(Publicado originalmente em 06/12/14)

Percy Lau, o Brasil, o Peru, o IBGE


Meu primeiro alumbramento não foi nenhuma manuelbandeiriana moça nua banhando-se em inocente despudor. Foram o cinema e os desenhos. Mal largara a mamadeira eu já era fã ardoroso dos geniais Flavio Colin e Will Esner. Mas havia um cara cujos desenhos eu ficava horas olhando, embevecido. Um desenhista que nunca vi ser citado por qualquer dos grandes artista do traço. Seu nome, Percy Lau. E a quem se disponha a perguntar que personagem ele fazia, em que revista desenhava, vou avisando que os desenhos de Percy ,que tanto me encantavam, eram publicados em didáticos livros de Geografia adotados oficialmente nas escolas. Eram bicos-de-penas fantásticos que mostravam cenas, cotidiano, folclore e tipos do Brasil e desnudavam aos meus olhos infantes esta pátria, este povo. Vaqueiro do Marajó, Aguadeiro do São Francisco, As cachoeiras de Paulo Afonso, O gaúcho, Seringueiros, A caatinga, A floresta atlântica brasileira. Tudo feito com maestria e um evidente, incontestável e desmesurado amor por este país, que me causava espécie. Ainda mais quando descobri que Percy não era baiano, carioca, paulista, potiguar nem capixaba. Ou era tudo isso, vez que nascera em nuestro hermano Peru e adotara o Brasil como sua pátria onde era funcionário contratado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, sob incumbência do qual traçava com suas abençoadas mãos o retrato mais que perfeito deste povo, desta terra. Seguramente ele ia além do que lhe era exigido. Em cada hachura sua, em cada pontilhado mostrava e despertava amor pelo Brasil. Este mesmo Brasil do qual se diz sempre ser um país injusto e sem memória que tem uma dívida enorme para com Percy Lau. É mais que hora do IBGE valorizar o tesouro que tem e a própria excelência da Instituição que teve a competência de produzir um trabalho importante assim, chamando pessoas gabaritadas para executá-lo. É oportuno editar um livro que mostre a grandeza de Percy , parte fundamental deste projeto. Não falo de um livro como o que comprei em um sebo, Tipos e aspectos do Brasil, do próprio IBGE, com um pequeno parágrafo falando deste brasileiro nascido na urbe de Arequipa, e sim um que enfoque Lau e que mostre, além dos seus maravilhosos trabalhos, quem era o homem além do funcionário dedicado, um grande artista brasileiro, nascido casualmente em terras distantes, como tantos. Um álbum à altura do fantástico Percy Lau. E uma exposição significativa com seus magníficos desenhos, que seja itinerante e que possa mostrar às pessoas desse país sua Arte fantástica. Há pouco se deu o centenário de nascimento dele, é oportuno. E se no IBGE não tiver gente consciente e de competência para tal, que a Embaixada do Peru acorde e tome a si a responsabilidade, numa iniciativa que mostre que os peruanos produzem tesouros com admirável talento artístico. Ou qualquer boa editora, historiadores dedicados ou amantes da boa arte em geral. O importante é dar visibilidade ao talento de um soberbo artista e à sua produção tão intrinsecamente ligada às raízes populares brasileiras, feita com amor, paixão, zelo e carinho por este país verde, amarelo, azul e branco. Um homem iluminado, um anjo com uma pena na mão e um Brasil na cabeça. Um artista fantástico que nos ensinou a todos a enxergar, a conhecer, a entender e a amar mais e melhor este país.
(Publicado originalmente em 10/10/12)

13 setembro 2016

Pedro Almodóvar, Liberdade, Sexualidade, Democracia e o Avanço da direita no mundo.

Pedro Almodóvar, no traço cinematográfico do cartunista e também ator J. Bosco.
O reacionarismo, o racismo, a homofobia têm macróbia existência no Brasil. Às vezes ficam embuçados nas sombras, ali bem escondidinhos, esperando a hora de mostrar suas caratonhas. Outras vezes saem à luz, falam de forma estentórea. Quando se sentem fortes, engrossam ainda mais as vozes, gritam alto, hostilizam, agridem e fazem tudo para subjugar os que deles discordam. Não somos só carnaval, futebol, mulatas malemolentes, gingado e samba no pé. Ideias e atitudes retrógradas foram sempre uma constante entre nós, brasileiros, coisa que muitos não soem imaginar e por isso costumamos desfrutar perante o mundo do conceito de sermos um povo de constante alma solar, cordato, aberto ao diálogo e receptivo à ideias progressistas. Péro las cosas não são bem assim, há uma abissal distância entre essa boa conceituação da qual desfrutamos, e o que de fato mostramos ser na prática cotidiana. No entanto, não temos exclusividade no que se refere a lamentáveis comportamentos reacionários. Não só o Brasil vem sendo atingido por uma crescente onda de retrocessos, de reacionarismos, fascismo, nazismo, totalitarismo, de políticas excludentes que privilegiam apenas e tao somente os já muito privilegiados, de graves ameaças vindas dos extremistas de direita. O cineasta espanhol Pedro Almodóvar, que em seus filmes recheados de ideias libertárias sempre defendeu a mais ampla liberdade de expressão artística e popular, bem como liberdade sexual e a Democracia como sendo ainda o melhor dos caminhos, mostra uma enorme preocupação com esse crescimento da direita no mundo. No recente Festival de Cannes ele deu entrevista falando sobre o assunto. Aqui, alguns trechos da entrevista:

Repórter: Como o Sr. vê o crescimento dos partidos de direita na Europa?
Almodóvar: Estou aterrorizado com o avanço da direita. Não tenho filhos, mas, se tivesse, ficaria preocupado com o destino deles, por temer um destino atroz para o mundo.
Repórter: Nos Estados Unidos, o magnata Donald Trump conquistou um espaço inesperado na campanha presidencial.
Almodóvar: Não quero sequer pensar na possibilidade de Donald Trump chegar à Casa Branca, pelo retrocesso que ele representa. A situação é preocupante no mundo todo. Nunca imaginei que manifestações contra o casamento gay e contra o aborto pudessem arrastar tanta gente na França. Para nós, espanhóis, a decepção com a França é ainda maior.
Repórter: Por quê?
Almodóvar: Os franceses têm um problema gravíssimo para resolver. Na Espanha, não temos um índice de crescimento tão significativo da direita. E digo direita civilizada. Não a extrema-direita da França, onde a Frente Nacional (FN), de Marine Le Pen, promete representar um perigo real na eleição presidencial de 2017. O país sempre foi um modelo de sociedade laica, além de ter sacudido os valores antigos com a revolta de maio de 1968. É uma pena constatar que a França não é o país que eu pensava. Tenho a sorte por ter crescido rodeado de mulheres que me inspiraram com sua força e me ensinaram a não ter preconceitos.
Repórter: Seus filmes refletem o momento político pelo qual a Espanha passava. Se "A lei do desejo" e "Mulheres à beira de um ataque de nervos" retratavam a extravagância do país recém-saído da ditadura militar, o que "Julieta" diz da Espanha atual?
Almodóvar: O filme representa um país triste, solitário e carregado de dor. Jamais poderia ter filmado "Julieta" nos anos 1980 ou 1990. Os tempos mudaram e eu também mudei. Enquanto minhas primeiras personagens saíam para a rua, para aproveitar a vida, Julieta é reclusa, passando quase todo o tempo em casa. Comparado aos anos de euforia, hoje sou mais introspectivo. Conforme o tempo passa, ele também se encarrega de trazer a nossa cota de dor, da qual ninguém escapa. 
Pergunta: "Julieta" é o seu filme mais econômico no que diz respeito às emoções? Isso também é resultado da experiência adquirida? 
Almodóvar: Para chegar a esse nível de contenção, é preciso experiência. Não só experiência de vida, mas profissional. Por ser meu vigésimo filme, eu me sinto maduro como diretor. Reduzir os elementos é muito mais difícil do que parece. Precisei usar planos simples, em que os atores faziam poucos movimentos, apostando tudo o que tinha em uma cartada só. O cuidado foi muito mais minucioso, para garantir que a cena tivesse força dramática, ainda que ninguém pudesse chorar.
Repórter: Incomoda o fato de a crítica ter se surpreendido com a abordagem contida de "Julieta", como se ela soubesse mais que o Sr. como deve ser uma obra de Almodóvar?
Almodóvar: O peso de ser quem sou só existe quando termino o filme e não durante a roteirização ou filmagem. Tomo as decisões com liberdade, sem considerar o mercado ou o espectador. Os fantasmas só aparecem na sala de edição. É nessa fase que começo a ter medo. Há sempre uma comoção no lançamento de meus filmes, o que não é bom, por aumentar as expectativas. Preferiria que o público assistisse a meus filmes mais relaxadamente, para poder avaliá-lo apenas pelo que ele é. 
Repórter: O Sr. diria que compreende melhor a vida por fazer cinema?
Almodóvar: Entendo melhor a mim mesmo. Obviamente, os meus personagens vão muito além de mim, embora eu esteja em todos eles. Muitas vezes os meus filmes representam espécies de premonição, antecipando situações com as quais vou me deparar algum tempo depois. 
Repórter: Pode dar um exemplo?
Almodóvar: Antes de "Mulheres" eu não havia jogado um telefone na parede(risos). A culpa que Julieta carrega, por ter fracassado como mãe, também ecoou em mim. Achei que já tivesse superado a culpa pela criação católica que recebi, mas não cheguei lá ainda. Por mais que eu tenha uma abordagem laica, sem pensar em céu ou inferno, passei a pensar no que fiz de errado, com quem fiz e como poderia assumir a responsabilidade e remediar.

12 setembro 2016

Havia vida antes da Internet? (Lembrando Sylvio Lamenha, Ademar Gomes, Ariovaldo Matos, Alvinho Guimarães)

Dias destes numa postagem citei o grande cronista baiano Sylvio Lamenha. Cronista só, é pouco dizer. Sylvio era um homem de invejável cultura, dominava a arte de bem escrever, era grande e inspirado frasista e usava bordões criativos como "a poesia é o axial" e "resistir, quem há-de?" que as pessoas viviam repetindo. Cito, de memória, que ele foi repórter, cronista, compositor, professor, ator do cinema novo. Ah, e um imitador sem igual da maravilhosa Dalva de Oliveira, chamada em vida de A Rainha da voz. Para desespero de alguns amigos mais tradicionalistas e de modos mais discretos que temiam a língua viperina do povo, Lamenha soltava seus trinados a alto e bom som onde quer que chegasse, sem levar em conta o ambiente e quem lá estivesse, sem se importar com olhares reprovadores e reprocháveis ouvidos. Sylvio, de tantos aspectos e predicados, era um gay avant la lettre. Hoje fico desnorteado ao perceber que Lamenha é totalmente desconhecido das novas gerações. Ele, sempre tão brilhante, foi apagado do imaginário popular, delido dos arquivos da existência. Ocorre que os feitos de sua rica vivência não foram registradas na maior fonte de pesquisa do mundo atualmente, a Internet, já que à época ela ainda engatinhava, não sendo ainda o que é hoje, uma fonte de fundamental importância, praticamente indispensável e por vezes única para grande parte das pessoas. Não está na Net, não existiu, não existe, não existirá. Isto, ressalte-se, não se resume a Sylvio Lamenha, é fenômeno que ocorre com muita gente que viveu antes da informática tornar-se gênero de primeira necessidade. Pessoas de grande importância e vida tão intensamente vivida em todos os aspectos foi relegada a este verdadeiro limbo cultural, simplesmente por serem da era pré-Internet. Procuro fotos e textos sobre Sylvio na Web e quase nada encontro. Bem como procuro em vão coisas sobre Alvinho Guimarães, ator e diretor teatral de grande importância e atuação na cena baiana, citado de forma reverente em várias páginas do livro Verdade Tropical, por seu autor, ninguém menos que Caetano Veloso. Procuro sem sucesso coisas sobre Ariovaldo Matos, jornalista e escritor talentoso, a quem não conheci em vida, apesar do considerável número de amigos em comum. O mesmo se dá em relação ao também jornalista e escritor Ademar Gomes, meu grande e estimado amigo, de quem ilustrei muitos livros e que se foi deste mundo levando parte de minha alegria. Hoje releio livros que ele escreveu e isto me traz de volta a inventividade, o humor e o talento deste amigo que escrevia coisas inusitadas, tiradas do seu convívio com um monte de gente aqui deste afroterrão chamado Soterópolis. Não é justo que ele e tantos seres criativos sigam exilados nesta autêntica Zona Fantasma. Mas a vida nem sempre é justa, sabemos. Para modestamente tentar lhes trazer um pouco de visibilidade, aqui neste meu singelo bloguito vou postar alguns escritos de Ademar Gomes onde ele fala de si próprio enquanto fala dos seus confrades ilustres, como Sylvio Lamenha e Ariovaldo Matos . Eles merecem, gentes do bem que foram, seres criativos, profícuos e atuantes em suas vidas vividas intensamente, que é como se deve viver.
(Publicado originalmente em 13 / 04 / 14)

Paulo Coelho: depois do duro Caminho de Santiago, finalmente La vie en rose


Deambulava eu pelas ruas de Paris em álacre matinada quando eis que me deparo com meu confrade Paulo Coelho. O leporídeo escriba atravessa a rua em minha direção, aproxima-se e me estreita num fraternal e brasileiríssimo amplexo. Pede-me notícias do greenyellowblueandwhite torrão. Digo ao meu caro amigo que aqui na terra estão jogando futebol, tem muito samba, muito choro e rock' n roll, mas que depois de tanto tempo de verde-oliva y otras cositas más,  a coisa aqui está preta, e é muita pirueta pra cavar o ganha-pão. O mago, afável como de habitude, despede-se de mim, volta seus tacões para Montmatre e retoma seu caminho (de Santiago) em inabalável tranquilidade. E eu descubro que não há nada mais maravilhoso que ser brasileiro. Desde, é claro, que você more no lugar certo. Numa requintada mansão no sul da França ou num deslumbrante palacete na Suiça, por exemplo, e não numa mansarda na invasão da Baixa da Égua ou do Vale da Muriçoca. Desde, também, que sua conta bancária esteja abarrotada com miríades e miríades de Euros que lhe permitam fazer matinais gargarejos diários com Romanée-Conti - santo remédio! - pelo simples fato de você ter mais de 100 milhões de livros vendidos no planeta, cifra que faria o finado afinado e refinado Michael Jackson ficar preto de inveja. Santé, xará!
(Public. orig. 27/08/13)

Leonardo Da Vinci non era gay, era espadone e matadore

 Línguas recheadas da mais nefária cicuta lançam aos quatro ventos que o proverbial sorriso que Mona Lisa Gioconda exibia era resultado das habilidades libidinais do pintor Leonardo que aproveitaria a ausência do giocondíssimo marido para comer a tentadora maçã que a sua sensual e bem fornida modelo lhe ofertava radiante. E para que não se diga que fofoca é coisa da patuleia brasileira, àquela época já circulavam entre os filhos do Lácio fortes buchichos de que o homem vindo da cidadezinha de Vinci não era muito chegado a cheirar, alisar, lamber, mordiscar e muito menos ainda comer a referida fruta. E que em verdade a preferência frugal de Leo era bem outra, constando que ele apreciava mesmo era cair de boca em olorosos bagos de apetitosos efebos cultivados na Grécia. Dizem, mas não há registro fotográfico, cinematográfico nem televisivo algum que ateste tal ignomínia. Tampouco não há nenhum vídeo circulando pelo YouTube que comprove o que tais línguas viperinas insidiosamente afirmam. Além de pintor, desenhista, engenheiro, músico, anatomista, cientista, inventor e o escambau - enfim, um autêntico multimídia avant la lettre - Leonardo era caricaturista, o que o torna um meu colega e em nome do bom, velho e salutar corporativismo, vou logo dizendo que esta queimação é produto de torpe invídia. A munheca do toscano, que firme empunhava sua paleta, jamais titubeou e ele não era pintor de sair por aí segurando indevidamente em pincéis alheios. Vilezas e calúnias quejandas não podem prosperar entre os dignos. Forza Leo! Forza Azurra! Forza Italia!
(Public. orig. 29/08/13)

Histórias em Quadrinhos no Brasil, seus inimigos ferrenhos e seus incansáveis defensores.

´1. Prof. Álvaro de Moya 2. Prof. Moacy Cirne 3. Profª.Sonia Bibe Luyten
Consideradas erroneamente uma forma de expressão nefasta que deveria ser extinta por desviar crianças e jovens dos bons caminhos e ainda por cima atrofiar os cérebros dos leitores transformando-os em marginais irrecuperáveis, as histórias em quadrinhos sofreram implacável perseguição nos EUA. Infelizmente para nós brasileiros, essa onda moralista norte-americana que se iniciou no período da Segunda Guerra, não se restringiu aos States, vindo também a inundar em cheio o Brasil já que em nosso país o reacionarismo sempre se fez presente, não sendo um privilégio dos tempos atuais. Por aqui uma absurda campanha difamatória contra os quadrinhos aconteceu de forma oficial nos anos quarentas, notadamente pelo político Carlos Lacerda. Nessa época foi distribuída entre a população uma famosa cartilha  afirmando que os quadrinhos deveriam ser execrados porque eram inimigos mortais da literatura tradicional,  além de um tenebroso caminho que conduziria  jovens incautos ao banditismo, uma apavorante escola do crime. Tamanhos disparates fizeram com que respeitados escritores e intelectuais mais equilibrados se pronunciassem contra o absurdo equívoco existente em tal campanha. Professores universitários dentro de suas atividades curriculares foram formando uma resistência contra a difamação orquestrada esclarecendo que os quadrinhos eram, na verdade, uma forma de expressão forte, direta, bela, vigorosa, inovadora. Que essa forma de expressão deveria ser acolhida sem reservas, estudada a fundo, compreendida e divulgada no âmbito acadêmico, como sendo um exemplo positivo da comunicação de massa. Que os quadrinhos não deveriam ser vistos como um inimigo a ser combatido e sim como um poderoso aliado dos docentes na sua árdua tarefa de ensinar, facilitando nas aulas ministradas a compreensão e a assimilação dos ensinamentos. Esses bravos professores, para desconstruir a rede de mentiras sobre os quadrinhos e mostrar o valor que eles continham, usaram de oratória em salas de aulas, fizeram palestras, promoveram debates, escreveram livros e artigos em revistas de prestígio, organizaram mostras e exposições, inclusive a I Exposição Internacional de Quadrinhos, em 1950. Nas universidades eram fortes as resistências, veladas ou explícitas, por parte de muitos que insistiam em não querer enxergar os quadrinhos como uma nova e formidável forma de expressão. Entretanto, tais resistências foram sendo superadas aos poucos até que a força dos quadrinhos se impôs e hoje, além do seu enorme sucesso popular, garantiu oficialmente lugar nas salas das mais respeitadas faculdades e um justo e merecido espaço no pódio científico. A saga das histórias em quadrinhos e sua luta épica para se firmar entre nós como um salutar meio de expressão está em livros diversos escrito pelos bravos e pioneiros professores que nunca foram munidos de visão de raios-x qual a de certo superherói, e ainda assim enxergaram muito além do que outros enxergaram. Um dos bons livros sobre o assunto chama-se Os pioneiros no Estudo de Quadrinhos no Brasil, organizado por Waldomiro Vergueiro, Paulo Ramos e Nobu Chinen, uma edição da Editora Criativo, do ano 2013. Nesse livro estão os depoimentos de professores que foram pioneiros dos estudos das HQs,  pela mudança de conceito e mesmo pela redenção do bom nome dos quadrinhos, entre eles: Álvaro de Moya, Antonio Luiz Cagnin, José Marques de Melo, Moacy Cirne, Sonia Bibe Luyten e Waldomiro Vergueiro. Pow!, bang!, sniff! e kisses, kisses!, kisses! procês, amáveis e idolatráveis leitores. 
(Publicado originalmente em 28/10/2015)

Trocadilhos do Batman / Humor de graça


Saudade de Clarice Lispector

"Eu vou sentir tanta saudade de mim quando morrer." Me digam como é possível uma criatura nascer na distante Ucrânia, em rara e delicada metamorforse tornar-se tão brasileira e em nossa/dela língua escrever coisas com tamanho profundidade, delicadeza e beleza. Fiquei fã da moça desde então e com lápis, nanquim, ecoline e um molho de photoshop fiz este retrato dela em meio à frase que me impressionou e que me fez amar a bela e misteriosa escritora brasileira.
(Publicado originalmente em 06/04/13)

França Teixeira, Fan Teixeira, Dadá de Corisco, Cangaço

Nos anos 70 me encantou uma entrevista feita com Dadá, viúva do afamado cangaceiro Corisco, tendo sido ela própria uma participante do cangaço integrando o bando do legendário Capitão Virgulino Ferreira, o Lampião. Quem entrevistava Dadá era França Teixeira, célebre radialista, bom de tv, grande comunicador, emérito criador de um estilo carregado de irreverência jamais igualado em rádio. França é o pai da apresentadora Fan Teixeira, que herdou o talento paterno e apresenta com brilhantismo o ótimo programa Balaio de Gato, da TVE. Ouvindo a entrevista, fiquei inebriado pela rica e peculiar oratória da sertaneja revelando passagens que ela vivera ao lado do bando liderado por Lampião. A certa altura da sua fala, Dadá relata que a arma que Maria Bonita, a célebre companheira de Lampião, usava na cintura era praticamente um adereço, não a usando a bela Maria para alvejar as volantes que sem tréguas, sertão afora perseguiam os cangaceiros atirando para matar. Dadá vai além e afirma que ela própria, sim, é que empunhava quando necessário se fazia, sua arma contra os macacos, que é como os cangaceiros chamavam os soldados da volante. Deixando transparecer um vívido interesse, o rosto de França se torna ainda mais rubicundo quando lhe pergunta: "Então você, Dadá, chegava a atirar nos soldados da volante?" Ela, sem pestanejar: "Sim, quando preciso, atirei." França, interessadíssimo, insiste: " Desses nos quais você atirou, algum morreu?" E Dadá, com um sorriso mais enigmático que o de Monalisa: "Que eu visse, não!"
(Publicado originalmente em 19 de julho de 2013)

Sogra do Rei das Selvas / / Humor de graça


Humor de graça / Pecadinhos normais que qualquer garota faz






10 setembro 2016

Silicone à prestação pra ter aquele peitão! / Sexo de graça

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Gonçalo Júnior e as panelinhas, um mal dos Quadrinhos

Sou fã de Gonçalo Júnior, um cara sério, jornalista competente que entende tudo de Histórias em Quadrinhos e do seu universo, autor consagrado de diversos livros com tal temática. Li este texto escrito por ele e achei por bem reproduzir aqui neste bloguito, devidamente não autorizado, para que leitores conscientes das HQs, desenhistas e demais profissionais da área e todos os interessados no tema possam ler.
O tabu das panelinhas, um mal dos Quadrinhos.
Por Gonçalo Junior

 Você faz parte de alguma panelinha dos Quadrinhos? Ou melhor, acredita que existam panelinhas no meio de quem faz, publica ou estuda Quadrinhos no Brasil? Quando pensei em escrever sobre esse tema, imaginei a primeira reação da parte de quem pararia para ler estas linhas: isso não existe, é exagero, não é bem assim, etc. Na verdade, há panelinhas do bem e do mal, digamos assim. Quase sempre, são grupos de amigos que lutam por objetivos comuns.
Como em qualquer atividade profissional humana, porém, existem as panelinhas nefastas, aquelas que atropelam valores éticos e morais em nome do se dar bem a qualquer custo para seus acampados membros. Ou pelo simples prazer de destruir o próximo. Quem é jornalista sabe bem que muitas vezes o comando das redações é revezado por participantes de poderosas panelas que tomam conta de jornais e revistas. É a turma que está sempre por cima porque um ajuda o outro, acolhe o outro. Se não há vagas, demita-se alguém. Talento? Isso é um mero detalhe, cara-pálida. Em 15 anos de profissão, posso falar com tranqüilidade sobre onde as boas relações levam certos jornalistas. Mas interessa aqui o segmento de gibis. Nesse mercado, talvez o assunto venha embrulhado em desfaçatez, de boicote, de intrigas e fofocas. Canso de ouvir comentários destrutivos sobre alguém que não se deu bem em algum projeto. É como uma vitória pessoal do “Eu não disse? Eu não avisei?”.
A panelinha é uma instituição no mundo dos Quadrinhos Brasileiros e não nasceu ontem. Faz tempo. Num evento que fui recentemente, ouvi uma piada de um amigo que procurava justificar o deserto que havia na platéia: “Era possível juntar numa ante-sala de uma cafeteria de São Paulo os artistas que faziam Quadrinhos no país. Mas não se recomendava fazer o mesmo com os editores, pois eles se matariam e dificilmente um sairia de lá vivo”. Injustiça com os editores, claro. Entre artistas, comerciantes e colecionadores, não é diferente esse tipo de hostilidade que, muitas vezes, tem a ver com panelinhas. Quadrinhos no Brasil são como torcida de futebol. Se um caiu para a segunda divisão, os outros querem vê-lo na terceira. Ou mesmo extinto. Se bem que, entre amigos, os torcedores apenas tiram um saudável sarro. Com os Quadrinhos é diferente. Como diria Raul Seixas, é muita estrela para pouca constelação em alguns casos. É muito ego para pouco espaço. Não me refiro apenas a determinados editores. Falo do "pessoal" de Quadrinhos de modo geral. Quero dizer: como aves de rapina, alguns ficam sobre a cerca de arame na torcida para que o outro literalmente se dane.
Os boicotes são o que há de mais sintomático nisso. É preciso boicotar o evento do outro para que ele aprenda a lição e não faça mais isso. Não me esqueço do dia em que circulou a informação de que uma editora de um amigo havia acabado. Foi uma festa geral, como se todos os outros estivessem acima do bem e do mal. É lamentável notar que momentos ideais para encontros de confraternização e troca de contatos, de aproximação, fiquem sempre vazios. Costumo dividir a "humanidade" e, conseqüentemente, a turma dos Quadrinhos, em três categorias: os que fazem, os que não fazem e os que só fazem falar. O grupo intermediário é a galera do bem, os leitores, os consumidores de gibis, os fãs. Enfim, a ala que realmente me interessa e em quem sempre penso quando escrevo um livro. O terceiro reúne os chamados espíritos de porco, fofoqueiros, intrigueiros, paranóicos, psicóticos. São criaturas que agem pela internet, criam personagens fictícios para ofender, destratar, difamar. Muitas vezes, alguns me colocam em saia justa. Não é fácil trafegar em todos esses meios, uma vez que exige certo tato, certo zelo para não ferir vaidades.
Um problema causado pelas panelinhas é que seus participantes perdem o senso crítico. Em sua visão do mundo, não interessa o que é melhor, mas se foi feito por alguém que tem afinidade com o seu grupo. Ninguém me tira isso da cabeça. Só assim consigo compreender porque eleições como as do HQ Mix causem tanta polêmica, uma vez que confio na idoneidade de Jal e Gualberto, seus organizadores, quanto ao processo de seleção. A rede de amigos tem uma força decisiva nos resultados desse e de outros prêmios. O que não quer dizer que se trata sempre de panelinhas. Mas, dentre os votantes, um número razoável faz parte delas e fecham os olhos para quem está competindo. Não interessa o que os outros fazem. E ponto final. É óbvio, portanto, que o sistema de votação se torna frágil porque fica vulnerável à força de interesses mesquinhos, das torcidas uniformizadas da Panela Futebol Clube. Não se indica ou não se vota numa obra de um editor ou autor "inimigo". Não importa o seu valor, repito.
Não é fácil entrar numa panelinha. Você precisa provar lealdade, que é alguém realmente confiável, sincero, que traga a cabeça de um rival numa bandeja. Quer um exemplo pessoal? Lancei quatro livros num determinado lugar e não me lembro de ter tido o prazer de contar com a presença de um único editor "concorrente" – que foram amigavelmente convidados. A não ser Eloyr Pacheco e Wagner Augusto. Sem querer ofender, isso parece coisa de gangue de rua. Ninguém pinta no pedaço do outro. Patético. Aonde quero chegar? Nos malefícios que todo esse joguinho rasteiro do boicote traz para o mercado de Quadrinhos. Conheço pessoas que dizem de boca cheia: não compro os livros de tal editora. E daí, meu irmão? Não sabe o que está perdendo. O buraco é mais embaixo. Ao invés de arregimentar leitores detonando o concorrente ou a editora que compete com a panelinha que faz parte, acredito que o caminho seja discutir saídas a médio e longo-prazos, pois vejo uma bolha se formar no horizonte.
Essa mesquinharia vai matar o mercado. Não acredito que o número de compradores regulares de gibis tenha aumentado. Pelo contrário. Vejo um sacrifício imposto a um universo reduzido de consumidores, com alto poder aquisitivo, por editores que não competem de forma saudável. Por outro lado, falta a preocupação de que daqui a dez ou quinze anos esse público se renove. A molecada adolescente que lê gibis está sendo desprezada. E tenho dito: adulto não descobre os Quadrinhos, o gosto vem da infância e da adolescência. Ou discutimos esses temas e procuramos revitalizar o mercado, a começar pelo o fim dos boicotes – e mostramos força no setor – ou nos entrincheiramos dentro de uma panelinha, a olhar pela borda e a torcer para que o mundo lá fora se dane."
(Public. origin. 20/09/14)

05 setembro 2016

Meu ídolo é um tremendo fascista.

Ter um fascista como ídolo não é de bom alvitre nem algo que se possa assumir de público com a mesma naturalidade com que alguém se assume torcedor desse ou daquele time de futebol. Fascismo e nazismo são molas propulsoras de dolorosas e inaceitáveis injustiças sociais, ódios esmagadores os mais diversos, discriminações e perseguições as mais desumanas, racismo, graves e irreparáveis violências ao próximo. Mas aqui abro meu corazón de melón, de melón, melón, melón, corazón, para mencionar algo que pode chocar a você, caroável e humanista leitor que não compactua com tais abjeções que tanto degradam a raça humana. Acontece que assumidamente tenho como ídolo um fascista dos piores. Um cara desprezível, sem um pingo de moral ou sentimento de lealdade dentro de sua alma suja, um verme racista, um aproveitador e chantagista, um ser abjeto recheado de egoísmo que para atingir seus propósitos mais mesquinhos é capaz de explorar da forma mais infame o próprio pai que padece com as graves sequelas de um derrame. Um homofóbico, um porco machista de extrema direita que usa as mulheres como meros objetos sem lhes dar o devido respeito e valor. Um anti-comunista ferrenho, um admirador confesso do Generalíssimo Franco, um mentiroso sórdido e contumaz que só pensa em tirar vantagens das pessoas desavisadas que com ele se iludem, capaz de roubar quem quer que seja, se tiver oportunidade para isso. Sua história de vida é recheada de fatos e atitudes escabrosos. Era policial e usava seu cargo para oprimir e achacar pessoas a quem devia proteger, sendo por isso expulso da corporação. Seus erros e crimes foram tantos que acabou indo parar atrás das grades, o que só serviu para piorar o que já não era bom nesse fascista de meu agrado. Gordo, careca, bigodinho, um constante riso de escárnio na boca de onde pende um palito que usou em recente refeição filada de alguém. Uma camisa amarfanhada sob o paletó seboso, nele é puro charme e elegância. Refiro-me a José Luiz Torrente Torrente Gálvan, ou simplesmente Torrente – El brazo tonto de la Ley, um guarda-costas ocasional e falso agente policial, personagem de cinco deliciosas comédias do cinema espanhol. Seu criador é Santiago Segura, um ator de grande versatilidade que engordou 20 quilos para viver o personagem, como um dia já o fizera Robert De Niro. Além de ser o grande ator que é, Segura cria hilários personagens e escreve seus criativos argumentos. Como diretor sabe escolher muito bem os atores para trabalhar em suas películas, artistas de grande talento como os almodovarianos Chus Lampreave e Javier Cámera, entre outros notáveis. Há riquíssimas participações de personalidades admiradas em seus filmes, o que demonstra seu carisma e o bom conceito de que desfruta. Santiago Segura também é produtor de filmes, é compositor, já apresentou programas de TV, trabalhou como dublador, já criou argumentos para histórias em quadrinhos, editou fanzines, cursou Belas Artes e também é desenhista habilidoso além de criador de admiráveis personagens. Dentre esses personagens que cria para o mundo das grandes comédias cinematográficas feitas com um humor de primeira linha, em lugar de relevo e de grande importância está José Luis Torrente, seja ele um crápula incorrigível ou quem sabe um mero produto do meio e das circunstâncias que o tornaram o fascista grotesco que é. Para horror dos que se pretendem mais sensatos, a vida costuma imitar a arte e infelizmente é crescente o número de pessoas do mundo real que estão exibindo um comportamento que em tudo se assemelha ao personagem da ficção e isso não tem um pingo de graça, pra dizer o mínimo. José Luís Torrente Gálvan é o único fascista a contar com minha admiração. Quem não conhece os filmes com o personagem não sabem o que estão perdendo. Vivam Torrente e Santiago Segura!

04 setembro 2016

Montaigne, Chico Buarque e o Amor que não pede explicações.

O que faz nascer uma amizade imorredoura, o que move uma paixão desmedidamente extraordinária dentro de nossos humanos corações? O que nos leva a gostamos tão intensamente de uma pessoa, por vezes tão diversa de nós? Ou a nos apaixonarmos perdidamente por alguém e mantermos com esse alguém um relacionamento que, no dizer do Poetinha, enquanto dura infinito é. Amigos, parentes, conhecidos e desconhecidos, veem essa relação vivida com olhos de quem assiste a algo em que a lógica se volatiliza e se lhes escapa, algo improvável, indefinível, pleno de estranheza, difícil de ser decodificado, entendido, assimilado. Para desvendar esse mistério, buscando um satisfatório entendimento disso, Chico Buarque - compositor, cantor, dramaturgo e escritor - foi buscar a melhor definição nos ensaios de Michel de Montaigne, o célebre escritor, humanista e filósofo da França, sempre a França. Chico conta em um vídeo que, por ser insistentemente questionado sobre o porquê de sua mais que imensa e eterna amizade por outro humanista e filósofo francês, Étienne de La Boétie, cuja morte precoce o levou a escrever o ensaio “Da amizade”, Montaigne disse apenas que gostava dele e ponto. Quinze anos mais tarde, revendo o que escrevera, o escritor acrescentou que gostava do grande amigo “porque era ele”. Outros quinze anos depois fez mais um acréscimo à frase, completando-a definitivamente: “porque era ele, porque era eu”. Chico entendeu como simples porem perfeita a definição dada por Montaigne. Achando que ela também era perfeita para definir a paixão, o amor que sentimos por outro alguém, dela se valeu para compor uma música feita para a trilha sonora do filme brasileiro A máquina, do diretor João Falcão. A essência do que definiu Montaigne está no nome da música: “Porque era ela, porque era eu”. Maravilhoso, formidável Montaigne. Maravilhoso, formidável Chico Buarque.

02 setembro 2016

Bola de Nieve / Uns caras que eu amo 7

Ignacio Jacinto Villa Fernández. Se você sair por aí perguntando quem conhece esse grande pianista, cantor e compositor cubano, certamente ouvirá sonoras negativas. Mas se a pergunta for “você conhece Bola de Nieve?”, sempre haverá os mais atentos que dirão conhecer. Bola de Nieve era o apodo dado a Ignacio Jacinto. Com ele acabou virando uma lenda de uma música de alta qualidade produzida em Cuba, que findou por apaixonar gente de todo esse planeta azulzinho. Caetano Veloso gravou canções desse grande artista cubano que sua mãe, Dona Canô, cantava para ele em sua infância, e volta e meia se refere a ele elogiosamente. Pedro Almodóvar, cujos filmes primam também pelas belíssimas trilhas sonoras, incluiu a voz única de Bola de Nieve em pelo menos duas de suas películas de sucesso. Tempos houve em que as canções cubanas reinavam entre os amantes da música mundo afora. Orquestras, bandas, cantores, cantoras, percussionistas, pianistas e instrumentistas diversos interpretavam mambos, rumbas, salsas, chachachás, boleros e outras maravilhas sonoras. Bola de Nieve tornou-se um mito cantando divinamente e, além do Espanhol, cantava em Português, Francês, Inglês, Italiano e até em Catalão. Seus dotes eram muitos e com eles encantava plateias mundo afora. Cantava bonito e interpretava com alma as suas canções nesses idiomas diversos, tocava piano de forma linda e bem pessoal, conversava com o púbico com empatia. E compunha canções que adentraram a História da música popular cubana e se perpetuaram. Mister se faz dizer que Bola de Nieve teve que lutar duramente contra obstáculos difíceis em sua trajetória artística, como o racismo e a homofobia. Mas sua genialidade visível na sua maneira pessoal, apaixonada e única e até teatral, de tocar o piano e interpretar canções, acabou por prevalecer e músicas que compôs ou que interpretou se perpetuaram gritando bem alto o seu talento difícil de ser igualado. No seu repertório há uma vasta quantidade de tesouros, entre tantos, para nosso orgulho pátrio, está a canção Faixa de Cetim, do mineirocarioca Ary Barroso. Dos inúmeros sucessos de Bola de Nieve vale citar canções como La Flor de la canela, Ay amor, Drume negrita, No me comprendes, Ne me quitte pas, La vie en Rose, Dejame recordar, Vete de mi, Ay Mama Inés. Fácil, muito fácil amar a Arte maior de Bola de Nieve.

31 agosto 2016

O caricaturista Jim Hopkins, Barack e Michelle, Democracia, EUA, Brasil.

Fui buscar entre os trabalhos do grande Jim Hopkins, de New York, essa bela caricatura do casal Obama, Michelle e seu esposo-Presidente, Barack. Um presidente norte-americano negro era algo impensável há bem pouco tempo atrás. Como era algo improvável uma mulher ser presidente do Brasil. Bom, malgrado todo tipo de racismo entranhado no american way of life, os americanos se portaram de forma altamente respeitosa à Democracia, valorizando-a, Barack Obama foi guindado ao poder e nele se manteve mesmo desagradando muitos setores, certamente. No Brasil, lamentavelmente, faltou sentimento democrático e sobraram misoginia e interesses inconfessáveis. Quer dizer, não tão inconfessáveis assim, mas por uma questão de pudor e de boa educação é um assunto que não deve ser mencionado se houver inocentes criancinhas na sala. O fato é que  assim sendo, a Presidenta Dilma está sendo arrancada de seu cargo de uma forma cujas consequências não são nada promissoras e animadoras para grande parte da população brasileira. Deixando de lado tão cavernoso assunto e voltando ao talentoso Jim Hopkins e suas criativas caricaturas, publico também uma do sempre versátil Jack Black e da blond Meryl Streep, ambos atores com vasta filmografia e grande número de admiradores planeta afora.
*****O link para visitar a página da Pinterest com as caricaturas de Jim Hopkins é este: https://br.pinterest.com/pin/15129348726615466/