25 Fevereiro 2012

Laerte, este banheiro é pequeno demais para nós todas

"O hábito não faz o monge.", diz o velho provérbio. Não é o que pensa o cartunista Laerte, aquele mesmo que causou espécie quando há algum tempo resolveu escancarar seu closet,  assumindo de público que adorava se vestir com femininas vestes e que, gostassem ou não as pessoas, era assim que ele passaria a transitar por ruas e ágoras a partir daquele seu dia D. Machões se indignaram, maledicentes murmuraram, maliciosos maliciaram,  moderados ponderaram e houve até quem resolvesse aderir, como meu amigo, o cartunista Valtério que entanto ressalvou que assim só se trajaria no recesso de seu sagrado lar, pois seus amigos lá de Ruy Barbosa não iriam entender tal  crossdessing adesão. Agora volta à baila o nome de Laerte nas manchetes vez que o moço anda dizendo que o fato de se vestir com roupas femininas lhe franqueia o direito a usar o toilette em cuja porta sói ser pendurada a plaquinha "Elas", seja em bares, shoppings, cinemas ou quaisquer outros espaços públicos.Os mesmos espaços, amável leitor, em  que sua imaculada mãezinha frequenta quando premida por inadiáveis necessidades miccionais. Muitos dos que concordam que Laerte tem direito a usar as calçolas e anáguas que quiser discordam frontalmente desta nova reivindicação do travestido cartunista. Milhões de mulheres deste país se revotaram com a pretensão do cartunista e afirmam que o W.C. feminino é um inviolável santuário onde a mulherada fica à vontade para retocar a maquiagem, fofocar à vontade e decidir quem é que vai ficar com o ruivo de bigode ou com o moreno de barba com o qual saíram. Abrimos espaço aqui neste blog para publicar uma epístola que nos foi enviada pela egrégia Presidenta do Grupo  MIJAR ( Mulheres Importunadas por Jebas de Afeminados Radicais ), a honorável Sra. Eva Gina dos Prazeres, em que, falando em nome de todo sexo frágil, se diz indignada e enumera razões para o impedimento das pretensões do Sr. Laerte que, segundo ela, não podem prosperar em nome dos direitos inalienáveis de todas as mulheres. Entre outras coisas, diz a missiva:  "1. Há que se levar em conta que mesmo vestindo-se de mulher o Sr. Laerte continua sendo um homem e que, assim sendo, traz em si todos os hábitos horrorosos inerentes aos machus latinus como o de não levantar a tampa da privada quando vai urinar.  2. Há também que se considerar que as fotos do Sr. Laerte mostram que ele atualmente está parecendo um mix da Ana Girafa com o Beiçola, quando este recebe o espírito da mãe na Grande Família e passa a se trajar com as velhas roupas da falecida genitora. Ou seja, sua estética poderia assombrar mulheres que dessem de cara com tal criatura no interior do toilette levando-as a faniquitos de consequências imprevisíveis 3. Mulheres só vão ao banheiro quando em dupla, é uma das verdades incontestáveis deste mundo de tantas inverdades, pois o W.C. feminino, como já foi dito, é o espaço onde a mulherada escapa para falar de coisas singulares do universo feminino. Ali soaria estranhíssimo ouvir alguém falar do último espermatograma que fez ou do seu mais recente exame de próstata. 3.O Sr. Laerte, que se assume como bissexual, não vê nisso um impedimento para frequentar os banheiros femininos alegando que lésbicas tem livre acesso aos mencionados banheiros. Acontece que lésbicas anatomicamente são impossibilitadas de ter ereções repentinas e incontroláveis, o mesmo não se podendo dizer do Sr. Laerte. Numa situação constrangedora destas,  pudicas velhinhas poderiam sofrer uma síncope fatal."  São estas as ponderações da digníssima Presidenta do grupo MIJAR  que aqui reproduzo por ter tido ao longo de minha vida um elevado apreço pela Sra. Eva Gina, a quem muitíssimo devo. Quanto ao caso em si, caros leitores, eu lavo minhas mãos. No banheiro masculino, é claro.

22 Fevereiro 2012

Laerte de calçola, João Ubaldo Ribeiro de fardão e calçolão

Sei muito bem cuidar de minha saúde. Por isso mesmo vou como de habitude à quitanda do japonês que fica ali na esquina comprar produtos sem nefandos agrotóxicos. Enquanto vou selecionando uma rúcula daqui, uma acelga de lá, um espinafre aculá, noto que há algo de estranho naquela senhora que também separa hortaliças ao meu lado. Não sou lá um cara muito perspicaz, sou até meio nefelibata, algo selenita, mas olho melhor e percebo que ela tem vastos bigodes e hirsuta barba. E que na verdade ela não é uma senhora, trata-se do cartunista Laerte, conhecido crossdresser fazendo suas comprinhas como qualquer vivente. Não me apraz posar de reacionário e conservador, mas admito em rápido solilóquio que aquilo é algo pouco hortodoxo para meus padrões comportamentais. Verdade seja dita, nunca me perguntei como os escritores, pintores e desenhistas que tanto admiro produzem os trabalhos pelos quais tenho confessada admiração. Se usando fraques, se nus em pelo, se só de bermudas e sem camisa como diversas revistas já mostraram o aclamado escritor - e meu ex-redator-chefe na Tribuna da Bahia - João Ubaldo Ribeiro. Isto em verdade nunca me importou porque na verdade não é importante, mesmo. O fundamental, óbvio está, é o trabalho em si. Se Laerte prefere criar seus desenhos usando saia, saiote, anáguas, calçolas ou quaisquer outros trajes femininos pouco importa, vale o belo trabalho que ele produz. Mas já que falei do sempre lembrado João Ubaldo, convenhamos que ele, com sua acentuada calva, bigodão e óculos fundo-de-garrafa, está longe de ser um modelo de beleza, destarte não é lá muito estimulante imaginar-se o autor de Sargento Getúlio desfilando todo lânguido por Copacabana e adjacências exibindo seu indebastável plexo em pouco discreto decote, nem com suas pernas cabeludíssimas à mostra, ostentando saltitante um tomara-que-caia ou um vestido de bolero-lero-lero-lero. Ainda por cima deixando à mostra uma parte de sua calçola de babados como é hábito das moçoilas nestes tempos hodiernos. Também não é lá muito salutar imaginar meu nobre amigo Paulo Caruso, o grande cartunista - grande no talento bem como no tamanho - desfilando por aí com seus mais de 2 metros de altura cobertos por um pegnoir tomado emprestado de Dona Julia, sua consorte. Ou deparar-me com o ilustrador Gonzalo Cárcamo, com sua barba preta sempre bem aparada, vestindo negra negligée em tudo destoando de sua touca Hecha en Chile. Muito menos o lendário cartunista parauara Biratan navegando por igarapés com uma insinuante meia-calça transparente. Sendo eu um livre-pensador, não me pejo de dizer que rezo fervorosamente para que tais amigos não resolvam aderir à nova moda poupando-me de tais visões na vida de minhas retinas tão fatigadas. Ah, também estou estudando um novo horário para continuar a fazer minhas salutares comprinhas na quitanda do japonês sem voltar a me deparar com aquela mui, mui estranha senhora.

Em pleno carnaval comi Hebe Camargo e depois chorei muito

Pindorama, pequena e aprazível cidade do interior de São Paulo. Era lá que aos 10 anos de idade eu vivia uma vidinha pacata ao lado dos meus pais e irmãos. Meu pai se afastara do emprego para um longo e necessário tratamento de sua debilitada saúde e passava os dias em casa procurando ocupar seu tempo com leituras e escritos. E volta e meia inventava uma nova ocupação. A mais recente era um pequeno galinheiro que ele houvera por bem colocar no fundo do nosso amplo quintal de casa interiorana. Passei a ajudá-lo no trato com as penosas que me atraíram desde a chegada. Trazia-lhes milho, água, ração, remédios. Tão apegado a elas fiquei que decidi dar-lhes nomes da forma com que se faz aos animais de estimação. Como elas cantassem bonito, batizei cada uma com nomes de cantoras famosas à época, Ângela Maria, Dalva de Oliveira, Lolita Rodrigues, numa sincera homenagem nascida de minha mente sem malícias de inocente infante. Minha predileta entre as preferidas era uma carijó bem maior que todas as outras e que tinha porte de rainha ao caminhar no terreiro. Dei-lhe o nome de Hebe Camargo, artista mais que admirada. Hebe agitava suas asas brilhantes e cacarejava de afinadíssima forma. Uma gracinha. Eis que um dia anunciou-se pelos corredores da casa a vinda de um irmão de meu pai, tio Dario, que morava em Bauru e vinha nos visitar aproveitando o feriadão gerado pelo carnaval que se aproximava. Na véspera da chegada de meu tio, mamãe anunciou que ia matar umas galinhas para um lauto almoço de boas-vindas ao ilustre visitante. Meu coração disparou. "A Lolita, não! A Hebe, não, mamãe!" . Todos riram da minha aflição. Mas o que eu temia aconteceu e minhas preferidas terminaram seus cacarejantes dias em grandes panelas a meio de uma infinidade de cebolas, alho, cebolinha picada e congêneres. Lacrimoso, inconsolável, jurei a mim mesmo não tocar nos pratos feitos com minhas amigas. Chegado o momento do ágape o aroma dos guisados e assados invadiu minhas narinas de petiz, enfeitiçando-me. Minha mãe tinha mãos divinas ao cozinhar. Em uma travessa percebi aquelas coxas maiores e mais atraentes que as outras. Eram de Hebe, eu sabia. Com gestos mecânicos puxei a travessa e servi-me generosamente do peito e das coxas. Quase em transe, dispensei os talheres e sem ligar para o preclaro visitante, enfiei meus dedos naquele peito macio e cheiroso e o levei à boca ansiosa. Ah!, prazer dos prazeres! Meus olhos então se fixaram nas coxas de Hebe. Coxas belas, roliças, de maravilhosa cor dourada e capitoso olor. Caí de boca de forma descontrolada. E novamente minha língua passeou naquelas carnes divinas. Simplesmente delirante. O apetite saciado me trouxe de volta à realidade. Caí em mim e incontinenti percebi a grave traição em que eu incorrera com aquela descontrolada e quase antropofágica conduta. Saí da mesa correndo para que não pudessem notar minhas copiosas lágrimas. Era emoção demais para meus verdes 10 anos de vida. Em um só dia conheci os inesquecíveis prazeres da carne, vindos das coxas macias, do peito aveludado de Hebe. E, desolado, descobri que sou um fraco nas minhas convicções e que oscarwildeanamente resisto a tudo, tudo. Menos a uma tentação.

16 Fevereiro 2012

Ronald Searle: ele só sabia desenhar

Ronald Searle sempre foi admirado, cultuado pelo seu talento raro. Tinha um traço pessoal, limpo, expressivo. E um humor refinadíssimo. Aos 91 anos foi-se deste mundo deixando órfãos um monte de fãs do cartum e de cartunistas talentosos de quem, aliás,  sempre foi ídolo. Devemos agradecer aos deuses das artes que ele, sempre profícuo em seu fazer artístico, pudesse ter tido o privilégio de viver uma vida tão extensa podendo produzir miríades de trabalhos maravilhosos para a delícia de nós, viventes. Vale a pena dar uma clicadinha neste link da Revista Piauí e conferir uma matéria sobre Searle que um dia falando de si mesmo disse que só sabia desenhar. É.  Assim como Pelé só sabia jogar bola.  http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-65/despedida-ronald-searle-1920-2011/eu-so-sei-desenhar

09 Fevereiro 2012

08 Fevereiro 2012

James Joyce, quem diria, já morou na Bahia

James Joyce, apesar de ter nascido na fria Irlanda, ficou conhecido mundialmente por haver escrito Ulysses, biografia do brasileiríssimo deputado Ulysses Diretas Já Guimarães, democrático político deste país tropical abençoado por Zeus, e tão amado por todos nosotros quase sempre follados e mal pagos. Enquanto escrevia sua obra, Joyce fixou residência no Brasil, mais exatamente na Bahia escolhendo o bairro do Bonfim cuja famosa colina significamente lembrava a ele a topografia irlandesa. De família abastada e fervorosamente católica, o escritor sentia falta das tradições de sua terra natal, notadamente a popular lavagem das escadarias de Dublin. Para suprir tal falta, amealhou um batalhão de baianas devidamente paramentadas de brancas vestes, colares e demais balangandãs, estando todas munidas de vassouras e quartinhas com água, com elas lavou as escadas da igreja de seu bairro soteropolitano. Os baianos, sempre hedonistas e chegados numa boa muvuca, gostaram do que viram e se juntaram incontinenti à patuscada com seus intrumentos musicais. Pronto. A lavagem das escadas de Dublin davam destarte origem à hoje tradicionalíssima Lavagem das Escadarias do Bonfim, festa que nestes tempos hodiernos arrasta multidões de fiéis e infiéis do mundo inteiro para esta afrocity Soterópolis incrustada nesta afroterra de dendês e morenas frajolas e gentes bonitas de todas as etnias chamada Bahia. Thanks, thanks so much, Jojó!

07 Fevereiro 2012

19 Janeiro 2012

Exposição de Cartuns do Nildão, 2012

Se você mora aqui nesta afrocity capital da Bahia conhecida como Salvador ou Soterópolis, ou mesmo se não mora mas está de passagem por algum nobre motivo incluindo o de desfrutar dos mais variados prazeres que o verão baiano proporciona aos que visitam esta afrourbe na dita estação, é bom ter em mente que uma generosa parcela destes soteroprazeres está em uma inadiável ida na próxima terça feira à Caixa Cultural de Salvador, ali na Carlos Gomes, 57, logradouro que aliás faz parte do roteiro dos trios elétricos durante o carnaval e que fica bem pertinho da Praça Castro Alves outro conhecido point do carná desta Soterópolis. É que na referida terça feira, dia 24 de janeiro de 2012, às 19 horas, ali na Caixa Cultural estará acontecendo a abertura da exposição de um dos maiores cartunistas deste país, o premiadíssimo Nildão. Os cartuns de Nildão tem beleza plástica envolvente, são feitos com raro acuro técnico e, acima de tudo, sem serem elitistas, primam pelo humor inteligente com o qual você, pessoinha antenada e de mente privilegiada, certamente se identificará. Pra que não perca este imperdível evento, vai aqui uma cópia do cartaz desta mostra que ficará aberta à visitação pública na Caixa Cultural de 25 de janeiro a 04 de março deste 2012, podendo ser visitada sempre de terça a domingo das 9 da matina às 18 horas. Eu estarei lá na abertura onde, sem medo de errar, estará a moçada mais esperta desta cidade que, além de um carnaval apaixonante e cantores talentosos, tem artistas gráficos maravilhosos qual Nildão.

12 Janeiro 2012

09 Janeiro 2012

08 Janeiro 2012

16 Dezembro 2011

Um desenho de Paulo Paiva com direito a mensagem

Paulo Paiva, meu cartunista de estimação está produzindo desenhos a todo vapor neste final de ano de 2011. O mais recente é este aí de cima que me envia Suely onde ela própria aparece ao lado de PP e da Paulinha, filha deles, vestida com sua vistosa farda de moça-da-lei. Uma família bem bonita e bem brasileira que pretendo crer que há de bem representar todas as outras deste patropi abençoá po Dê e boni po naturê, como diz e canta o velho e sempre bom Babulina. Assim pensando, ilustro desta forma esta postagem. Como Paiva é um cara de astral elevadíssimo e a temática do desenho trata de votos de um Natal feliz e um Ano Novo massa, sendo exatamente o que eu desejo para todos os amigos que lêem este meu bloguito, vou logo grilando, usurpando o desenho de PP, me apossando semcerimoniosamente, pegando carona no ótimo astral deste meu nobre amigo e editor e postando aqui para que todos que visitem este espaço possam ler, receberem bons fluidos e se sentirem em estado de graça.

15 Dezembro 2011

Paulo Paiva, HQs, Maciota, Neymar

Um dos personagens mais legais do sempre inspirado Paulo Paiva é o craque Maciota, que deve ter lá algum parentesco com o também craque Coalhada, do Chico Anysio.  Sempre me deliciei lendo as HQs com o Maciota saídas da cuca de PP. A revista com este personagem deixou de sair há tempos mas o personagem ficou gravado na memória dos fãs. Aproveitando uma bela maré criativa e a temática futebol, que está mais que nunca na ordem do dia com o Santos no Japão disputando o Mundial Interclubes, PP retou-se, muniu-se de seus apetrechos cartunísticos e mandou este desenho com o sempre admirado Maciota, aqui travestido de Neymarciota para delírio de seus milhares de fãs, eu incluso. Sacudindo uma bandeira e aboletado na geral do estádio, aplaudo entusiasmado vendo este eterno craque Maciota desfilar seus fiascos futebolísticos, quer dizer, sua classe de craque de la pelota. Agora, craque, cracaço mesmo é o PP. No humor e no traço. Axé. PP!

14 Dezembro 2011

Sexo com Arte: Leonardo Da Vinci, spadone e mattadore, segundo Monalisa

Línguas recheadas da mais nefária cicuta lançam aos quatro ventos que o sorriso que Mona Lisa exibia era resultado das habilidades libidinais do pintor Leonardo que aproveitaria a ausência do Giocondíssimo marido para comer a maçã que a sua sensual e bem fornida modelo, Lisa Gioconda, lhe ofertava radiante. E para que não se diga que fofoca é coisa da patuléia brasileira, àquela época já circulava entre os filhos do Lácio fortes buxixos de que o homem vindo da cidadezinha de Vinci não era muito chegado a cheirar, alisar, lamber, mordiscar e muito menos comer a referida fruta. E que a preferência frugal de Leo era outra , que ele apreciava mesmo era cair de boca em olorosos bagos de vistosos efebos cultivados na Grécia. Dizem, mas não há registro fotográfico, nem cinematográfico algum que ateste isto. Tampouco não há nenhum vídeo circulando pelo YouTube que comprove o que tais línguas viperinas insidiosamente afirmam. Além de pintor, desenhista, engenheiro, músico, anatomista, cientista, inventor e o escambau - enfim, um autêntico multimídia avant la lettre - Leonardo era caricaturista, o que o torna um meu colega e em nome do bom, velho e salutar corporativismo, vou logo dizendo que esta queimação é produto de torpe invídia . A munheca do toscano, que firme empunhava sua paleta, jamais titubeou e ele não era pintor de sair por aí segurando indevidamente em pincéis alheios. Vilezas e calúnias quejandas não podem prosperar entre os dignos. Forza Leo! Forza Azurra! Forza Italia!

09 Dezembro 2011

Doutor Sócrates segundo Paulo Paiva: os craques vão para o paraíso

Suely Furukawa, editora, redatora, colorista e um monte de predicados mais, gente finíssima e pessoa de minha querência, volta e meia me envia uns desenhos feito pelo legendário cartunista Paulo Paiva, seu digníssimo consorte, que dia a dia se recupera de um AVC que em vão tentou deter seu humor de primeira linha e seu traço formidável de cartunista. Esta semana o Brasil se abalou e se comoveu com a morte de um dos seus maiores cidadãos, o ex-jogador de futebol conhecido como Doutor Sócrates. Sempre atento, PP fez este cartum aí de cima em que no céu São Pedro recebe o craque alvinegro e sem perder tempo vai logo lhe dizendo: "Chegou mesmo na hora! Estamos perdendo de 2 x 0 para o inferno!"  Dr. Sócrates Brasileiro, ou simplesmente Magrão, foi um dos meus maiores ídolos de uma vida inteira. Craques mui habilidosos muitos times já tiveram em suas hostes, mas um craque da vida como o Magrão - que me desculpem os não corintianos - só mesmo no Corinthians ele acharia espaço para dar a aula de democracia, de ética, de retidão de caráter, de lucidez política e social que, com coragem e atitude, deu ao planeta inteiro. PP não é corintiano como eu,  é palmeirense ( nobody is perfect ), mas no cartum é tão craque quanto o foi o Doutor. Este cartum dele é um gol de calcanhar que Sócrates assinaria comovido.

Humor de graça / Dedo-duro convicto

08 Dezembro 2011

Sexo com poesia: Reflexo do tesão no espelho do banheiro / Setubardo 3

Acordo tarde, bem tarde,
Com uma ressaca ingrata
Depois de uma noite daquelas
O ar puro quase me mata
Quando abro as janelas.
Meu espelho indeciso
Nem sabe o que me revela
Esta cara, este siso...
Serei eu ou será ela?
Vomito as tripas no vaso
Gemendo, sentindo dor
O que nós temos, um caso?
É paixão, engano, amor?
Ela mal fala comigo
É volúpia, sofreguidão
Me toma qual objeto
Seu escravo predileto
Em pé, na cama, no chão.
Esta musa obtusa
Esta górgone Medusa
Traz letal ninfomania
Nos trejeitos de vadia.
Tem roupas de meretriz
Tem cara de perdição
Pra cada transa, um bis
O seu sexo, vulcão
Mas - ai de mim! - sou feliz
Quando me diz:
"Vem, tesão!"

27 Novembro 2011

Fernando Pessoa, Plutarco, Caetano Veloso, Pompeu e a necessidade de navegar

"Navigare necesse est, vivere non necesse", disse-o, embarcando em sua galera, sem demonstrar um mínimo temor diante de assaz proceloso mar, o intimorato general romano Pompeu, segundo escritos de Plutarco, que não era homem de articular falácias biográficas. Tempos depois o bardo Fernando Pessoa, com propriedade, citaria a frase dando-lhe um charmosíssimo acento português que é como a conhecemos no Brasil, tendo sido até embalada numa canção por mui bela melodia de Caetano Veloso. Certamente por desta forma a conhecermos, pletoras de gentes por aqui acreditam ser a autoria da frase fruto da mente do genial poeta lusitano. Em verdade ele apenas usou o dito de Pompeu para criar uma feliz paráfrase, " viver não é necessário, o que é necessário é criar." Quanto a necessidade de navegar, sou - qual Pompeu - um destemido, arrojado e intimorato nauta mas, copiosamente precavido, me limito a viajar singrando mares menos procelosos - os virtuais - como se os de Netuno fossem pois, como dizem, o seguro morreu decano. Ou para melhor dizer, “insurance mortuus veteranus”, já que qualquer citação fica mais credível se pronunciada em latim. Mesmo que em um latim apócrifo, canhestramente escrito por um estulto consultando um providencial Google Translator.

Damion Dunn, caricaturista e ilustrador

Damion by Damion / Samuel L. Jackson / Jimi Hendrix / Mya / SheHulk





























































Volta e meia descubro coisas muito legais navegando pela Net, como o blog deste maravilhoso artista de Los Angeles, Califórnia, chamado Damion Dunn, ainda desconhecido aqui nestas plagas. Mas olhem só que belo trabalho. Great stuff, Damion. So amazing, boy!*********O link para o blog é http://damion009.blogspot.com/

25 Novembro 2011

Paulo Coelho: depois do Caminho de Santiago, la vie en rose


Deambulava eu pelas ruas de Paris em álacre matinada quando deparo-me com meu confrade Paulo Coelho. O leporídeo escriba atravessa a rua em minha direção, aproxima-se e me estreita num fraternal e brasileiríssimo amplexo. Pede-me notícias do greenyellowblueandwhite torrão. Digo-lhe que aqui na terra estão jogando futebol, tem muito samba, muito choro e rock' n roll, mas que depois de tanto verde-oliva a coisa aqui está preta. O mago, afável como de habitude, despede-se de mim, volta seus tacões para Montmatre e retoma seu caminho ( de São Tiago ) em inabalável tranquilidade. E eu descubro que não há nada mais maravilhoso que ser brasileiro. Desde, é claro, que você more no lugar certo. Numa requintada mansão no sul da França ou num deslumbrante palacete na Suiça, por exemplo, e não numa mansarda na invasão da Baixa da Égua. Desde, também, que sua conta bancária esteja abarrotada com miríades e miríades de Euros que lhe permitam fazer matinais gargarejos diários com Romanée-Conti - santo remédio - pelo simples fato de você ter mais de 100 milhões de livros vendidos no planeta, cifra que faria o finado afinado e refinado Michael Jackson ficar preto de inveja. Santé, xará!

12 Novembro 2011

Irmã Dulce, a Bahia, os orixás

Boa parte do tempo sou um agnóstico convicto ou um inveterado livre-pensador. Em outras sou um católico apostólico baiano, o que significa ter um pé em Roma - com sua infindável galeria de santos - e outro na África, com seus prestimosos orixás. Nesta afroterra, múltipla em todos os sentidos, o ecumenismo é um caminho natural que devemos civilizadamente trilhar em nome da paz e da mais fraternal das convivências. Há que se tratar todos com igual carinho e atenção, e não seguir a senda maldita e o horror dos ortodoxos e fundamentalistas de todas os matizes. Preces fervorosas para Nossas Senhoras e oferendas cheias de fé para Oxuns, Yansãs e Yemanjás. Fiz essa caricatura do maior ícone do catolicismo soteropolitano -  Irmã Dulce -  que tratava com desmesurada bondade pessoas pobres, doentes, desamparadas, sem ter mais a quem recorrer, seres humanos já desesperançados que a procuravam em busca de ajuda e a quem ela acolhia sem se importar se eram católicos, evangélicos, de religião afro, judeus, se eram héteros ou homossexuais, negros ou brancos, nordestinos ou não. Eram seres humanos carentes de amparo e isto era o que mais importava para que ela os acolhesse com suas próprias mãos, praticando o amor que Cristo sempre pregou e que muitos arrogantes que se dizem líderes religiosos jamais aprenderam e praticaram. Irmã Dulce, em sua forma física se foi mas seu exemplo de verdadeiro amor ao próximo ficou. E hoje certamente ela está lá no céu ajudando muitíssimo seu chefe, que ela não é mulher de ficar acomodada num canto. Odô yá, Irmã!

Humor de graça / Salva-vidas atento

07 Novembro 2011

06 Novembro 2011

O homem perfeito para todas as mulheres / Poesias do Setubardo 4

Um dia competentes cientistas
Resolveram criar o homem perfeito
Forte, bonito, bom de leito,
Charmoso, grande papo, inteligente,
Físico de deus grego, sagaz, valente.
Então, em um liquificador gigante
Juntaram uma galera importante:
Adonis, Hércules, Apolo,
Julio Cesar, Colombo, Cabral, Marco Polo,
Bolívar, Chê Guevara, Fidel, Napoleão.
Apertaram da máquina um botão
Deixaram misturar com paciência
Acrescentando logo na seqüência
Kirk Douglas e John Wayne, lá de Hollywood,
Gene Kelly, Fred Astaire e o bom Woody,
Poetas de muitos bons ofícios:
Maiakovski, Baudelaire e Vinícius,
Shakespeare, Neruda, Borges, Bandeira,
Augusto dos Anjos e os Campos, de concreta brincadeira,
Lennon, Paul, George e Ringo Starr
E o Jagger, que sempre deixa sangrar,
Bill Gates, Michael Jackson e Mr. Bean,
Jackson do Pandeiro e Tom Jobim.
Juntaram Caetano, Gil , João Gilberto,
Raul Seixas, Erasmo e Roberto
E para completar,
Um toque de arrepiar:
Antonio Banderas, Elvis Presley, Brad Pitt
Mistura chocante, pura dinamite.
E quando ficou pronto, o resultado que deu
Não foi surpresa...foi EU!!!

Humor de graça / Encontro com o vampiro


27 Outubro 2011

O japonês Yoshihara, o cartunista Biratan, o Boto Tucuxi

Rezam lendas indígenas do misterioso e exótico Pará, que quando é noite de intenso plenilúnio, o cartunista parauara Biratan sói converter-se no Boto Tucuxi e assim travestido de Boto sai por aí Botando geral, atendendo as súplicas de lúbricas moçoilas as quais, depois de devidamente Botadas, ficam com uma expressão de intensa satisfação que, para desespero de pais conservadores, não há quem retire de seus rostos como se pode ver nesta fotografia que comprova que este papo todo é mais que mera lenda papaxibé ou simples crendice popular. Tomei emprestada esta foto em pauta do blog do honorável nipônico Noboru Yoshihara. Para ver outras fotos tão incríveis e mais desenhos e caricaturas dele, vá ao seu blog:                                     http://muyukobo.blogspot.com/ . E sempre vale a pena visitar o blog do Biratan que, tirando estes problemas de Botânica, é um cara porreta: http://biratancartoon.blogspot.com/ . Só espero que quando Bira vier aqui nesta Soterópolis não ouse Botar pra quebrar se engraçando com  meu harém composto de princesas núbias, de loiras oxigenadas e das morenas mais frajolas da Bahia.

Sexo com poesia / Amor chocante



Você é uma figura tão chocante
Que na hora do amasso
Uso luvas de borracha
( Sua voltagem não é nada baixa!)
Você é uma mina tão brilhante
Que só olho pra você
Usando meus óculos Ray-Ban
(Minha luz eu sou seu fã!)
Você é uma gata tão fogosa
Que pra namorar você
Uso roupa de amianto
(É fogo este seu encanto!)
Você é uma coisinha tão massa
Que se como muito você
Minha nutricionista se queixa
(Ai, que prazer me dá comer seu sushi, minha gueixa!)

18 Outubro 2011

Sexu pelo mundo 1 / Os portugueses na Pessoa do Camões ou Fornicar é preciso

 Em Portugal o rigoroso inverno muitas vezes impede que a mulher portuguesa faça o devido asseio pessoal, inclusive o íntimo. Nestes casos de sua lusa genitália desprende-se um forte e inevitável odor de bacalhau o que, em verdade, não é privilégio das lusitanas, podendo isto acontecer com qualquer mulher de qualquer parte do mundo que passar um longo período sem lavar o objeto de desejo dos machos da espécie desde o Éden. Se para nós brasileiros o tal odor se configura em fator brochante e pouco convidativo, para os bravos rapazes lusitanos isto até instiga o apetite sexual pois sabido é o quanto os portugueses adoram comer um bom bacalhau, ora pois, pois. Em verdade, o maior problema lá nas terras de Camões e de Pessoa é que grande parte das mulheres tem buços tão compridos que são verdadeiros bigodes e os bigodes das Marias costumam ser maiores que os bigodes dos Manuéis e Joaquins. Como é muito difícil habituar-se a tal coisa, os gajos portugueses vivem tomando enormes sustos todas as manhãs, ó pá! Nos livros, compêndios e almanaques deste planeta não é creditada aos portugueses nenhuma das grandes invenções em prol da Humanidade tais como o automóvel, o telefone, a televisão, o laser e as calcinhas comestíveis. Tremenda injustiça e falta de reconhecimento para com os gajos lusos já que eles são os responsáveis por uma das mais espetaculares invenções para a raça humana: a mulata brasileira. Ôba, ôba! Graças à libido dos homens portugueses,  incontrolável diante das abundâncias carnais das negras amas e mucamas no tempo da colonização, é que surgiu esta nova raça superior, a das mulatas sestrosas. Se por um lado a mulata é gostosa, por outro é mais gostosa ainda. Por séculos os lusitanos em suas naus surrupiaram para a corte d'Além Mar quase todo o ouro do Brasil. Para nossa sorte, como as naus saíam das costas brasileiras sobrecarregadas com precioso metal, os portugas foram obrigados tristemente  a abrir mão das preciosas mulatas,  deixando-as todas aqui sem imaginar que desta forma nós, brazucas, é que ficaríamos no lucro. A atual crise econômica em Portugal é prova inconsteste disto vez que todo ouro que nos tomaram já se acabou por lá, foi pras cucuias.  Em compensação aqui no Brasil temos uma fartura em mulatas maravilhosas que com suas exuberâncias, reentrâncias e abundâncias valem mais que todo ouro do mundo!

10 Outubro 2011

Valtério, de Ruy Barbosa: artista dos bão, louvado em prosa e verso

Valtério é um cartunista aqui da Bahia que já andou lá pelas bandas do Rio. É um cara bom quando faz caricaturas em papel. E é um arraso nas esculturas em barro, geralmente feitas com toques de muito bom humor. Ele é meio avesso à computadores e muito por isso mesmo ainda não tem um site para que vocês possam apreciar os maravilhosos trabalhos que ele esculpe. Torcemos para que providencie um para nosso deleite. Setubardo, sempre mui inspirado poeta e nosso colaborador, enviou para a redação deste blog um poema saudando o nobre escultor que nasceu na pequena Ruy Barbosa - onde atendia pelo cognome de Vartim de Sinésio - e de lá saiu um dia para brilhar na Oropa, França e Bahia.
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Valtério no caminho das artes 
Evém Valtério
Quem o diz no climatério?
Vem gaio e gala
Com sua bengala
Vem caminhando o seu caminho
Rebolandinho
Torpes maliciam
Seu rebolar
Quase sutil
Não é frescura
Posto que viril
É só da perna
Leve atrofi0.

07 Outubro 2011

Bahia, Brasil: a dita dura ditadura que perdura


Houve uma Bahia que comportava toda a felicidade que o ser humano pode alcançar nesta existência. Jorge Amado, nosso bardo maior, ao som do violão de Caymmi, cantou aos quatro cantos do mundo esta ventura. E pessoas vinham de terras distantes para aqui encontrar cada uma sua estrela-guia. Mas chegaram os anos de chumbo, a era das trevas que se diziam luz. Vinte longuíssimos anos depois de uma ditadura militar truculenta e sufocante nos costados restou-nos um país com um profundo e grave apartheid social e com ele os guetos, a miséria inaudita, a violência que nos atinge a todos, a constatação flagrante da impunidade, a insegurança geral. Aqui, nesta terra Bahia, houve resistência a tão terríveis algozes e pessoas que deram suas vidas lutando contra eles. Gente que já antecipava as mazelas que viriam e a grave situação de injustiça que cá vinha se instalando. Mas houve também por aqui magotes de sórdidos, venais e arrivistas travestidos de políticos que ajudaram a canalha retrógrada a nos trazer a sombra, a dor, o medo. E muito do ruim há em nossa volta. Não obstante, há no âmago do povo desta terra, Boa Terra, algo inescrutável que nos faz seguir em frente com a fronte erguida e um sorriso nos lábios. E ainda que tão dessemelhante de nosso antigo estado, Gregório, a Bahia ri e dança e ama e passeia e vive a vida com intensidade mostrando que nossa vocação mais genuína e legítima é a felicidade. Tento captar um pouco disto quando caminho pelas praias, ruas, becos, vielas e ladeiras de Soterópolis -que é o outro nome desta cidade de Salvador- e colocar em telas plenas de cores, o que me faz tão feliz quanto escrever e fazer caricaturas.

05 Outubro 2011

Quem é quem na Velha Jovem Guarda 4 / Vã Musa, a confusa

Quando se diz que este é um país sem memória, todos olham imediatamente para a cantante Vã Musa. Sendo uma das mais conhecidas musas da Velha Jovem Guarda, quando se apresenta Vã Musa costuma esquecer os  títulos e as letras das canções de seu repertório que canta há décadas, incluindo-se aí os refrões mais manjados. Agora em solenes solenidades deu até para esquecer a letra do nosso glorioso Hino Nacional Brasileiro. Sobre este esquecimento, a cantante redargue prenha de razão: " Se os mais famosos jogadores da seleção brasileira de futebol podem, eu também posso!"  Vã Musa costuma ainda esquecer-se invariavelmente da sua própria idade, não havendo meios dela lembrar-se em que ano nasceu, em que década,  nem em que século. Em compensação, na hora de receber seu sagrado cachê, toda sua amnésia parece dissolver-se e ela proclama entusiasmada: " Hei de receber centavo por centavo ou não me chamo...ou não me chamo...Ihhhhh! Como é mesmo que eu meu nome?!"  

Aquarela, sketchbook e família em pose solene

No meu sketchbook, um monte de desenhos que jamais publiquei. São só estudos, divagações gráficas que podem servir de base para novos trabalhos de desenho ou pintura. Entre tais estudos, este aí, feito em aquarela bem manchada. Manchas à mancheia, como diria o vate. A temática surgiu inspirada em uma velha foto no meu álbum de família.

03 Outubro 2011

Ademar Gomes, um Machado de Assis com muita pimenta baiana

Ser amigo de Ademar Gomes nem sempre era tarefa fácil. Suas alternâncias de humor, suas explosões de indignação e de raiva, seus esgares na face exangue, seus olhos faiscantes surgindo por trás da fumaça de seus puros requeriam paciência digna de monge budista. Em se tratando de interrelações pessoais Ademar não era exatamente uma grata unanimidade. Professor Bandeira - seu apelido e alter ego - tinha curtíssimo pavio e não primava pelo uso de eufemismos e antífrases quando queria dizer aos outros o que deles pensava. Assim sendo, angariou ao longo da vida um considerável número de desafetos que, à socapa, apodavam-no picareta. Nada mais injusto. Bandeira era um bravo batalhador que sobrevivia com seus escritos. Dos anúncios de seu jornal, o JC, e dos seus livros ganhava lícita e dignamente o croissant de cada dia e jamais se envolvia em cambalachos, maracutaias, fraudes ou falcatruas que pudessem prejudicar quem quer que fosse. Sua história pessoal daria um rico roteiro cinematográfico. Sendo de baixa extração, tornou-se - qual um Machado de Assis redivivo - um homem de invejável cultura. Boa parte a devia ao respeitado cronista Sylvio "Resistir Quem Há-De" Lamenha, professor e intelectual, uma espécie de mentor. Bandeira - ou ainda Zé do Grilo, outro alter ego seu - tinha verve rara e quando as coisas para ele navegavam em mar de almirante, era agradavelmente gárrulo e todos em volta ficavam embevecidos com sua rara dialética e sua retórica entremeada de inspiradas boutades. Conhecia em detalhes a vida, a trajetória de cada político, de cada empresário, de cada figura desta terra. Sabia-lhes o lícito e o ilícito, os golpes perpetrados, as insídias, os adultérios, as tramóias. Um dia meu filho se aproxima de mim com um jornal aberto na página dos obituários, nela o nome do amigo tão fraterno. Abraçamo-nos em pranto convulso. Nutríamos por Ademar um imenso afeto que descobri maior quando ele se foi desta vida. Hoje, sua ausência traz uma constante e indefinível sensação de vazio, uma dor que lancina, análoga a que sinto pela perda precoce de irmãos meus em Sampa. E fica a certeza de que quando alguém que amamos se vai, uma parte da gente segue junto e nunca mais somos completos. Poderia dizer a este tão amado amigo "descanse em paz, Ademar". Mas esta não é a frase correta para ser usada com Bandeira que, agora mesmo, Romeo Y Julieta no bico, está fazendo formidáveis esporros entre as nuvens do céu, questionando São Pedro, enquadrando anjos, arcanjos e querubins, exigindo falar com o Criador em pessoa para reclamar da música, do serviço. E o Paraíso nunca mais será o mesmo. Bote pra F, querido irmão!
 

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