"O hábito não faz o monge.", diz o velho provérbio. Não é o que pensa o cartunista Laerte, aquele mesmo que causou espécie quando há algum tempo resolveu escancarar seu closet, assumindo de público que adorava se vestir com femininas vestes e que, gostassem ou não as pessoas, era assim que ele passaria a transitar por ruas e ágoras a partir daquele seu dia D. Machões se indignaram, maledicentes murmuraram, maliciosos maliciaram, moderados ponderaram e houve até quem resolvesse aderir, como meu amigo, o cartunista Valtério que entanto ressalvou que assim só se trajaria no recesso de seu sagrado lar, pois seus amigos lá de Ruy Barbosa não iriam entender tal crossdessing adesão. Agora volta à baila o nome de Laerte nas manchetes vez que o moço anda dizendo que o fato de se vestir com roupas femininas lhe franqueia o direito a usar o toilette em cuja porta sói ser pendurada a plaquinha "Elas", seja em bares, shoppings, cinemas ou quaisquer outros espaços públicos.Os mesmos espaços, amável leitor, em que sua imaculada mãezinha frequenta quando premida por inadiáveis necessidades miccionais. Muitos dos que concordam que Laerte tem direito a usar as calçolas e anáguas que quiser discordam frontalmente desta nova reivindicação do travestido cartunista. Milhões de mulheres deste país se revotaram com a pretensão do cartunista e afirmam que o W.C. feminino é um inviolável santuário onde a mulherada fica à vontade para retocar a maquiagem, fofocar à vontade e decidir quem é que vai ficar com o ruivo de bigode ou com o moreno de barba com o qual saíram. Abrimos espaço aqui neste blog para publicar uma epístola que nos foi enviada pela egrégia Presidenta do Grupo MIJAR ( Mulheres Importunadas por Jebas de Afeminados Radicais ), a honorável Sra. Eva Gina dos Prazeres, em que, falando em nome de todo sexo frágil, se diz indignada e enumera razões para o impedimento das pretensões do Sr. Laerte que, segundo ela, não podem prosperar em nome dos direitos inalienáveis de todas as mulheres. Entre outras coisas, diz a missiva: "1. Há que se levar em conta que mesmo vestindo-se de mulher o Sr. Laerte continua sendo um homem e que, assim sendo, traz em si todos os hábitos horrorosos inerentes aos machus latinus como o de não levantar a tampa da privada quando vai urinar. 2. Há também que se considerar que as fotos do Sr. Laerte mostram que ele atualmente está parecendo um mix da Ana Girafa com o Beiçola, quando este recebe o espírito da mãe na Grande Família e passa a se trajar com as velhas roupas da falecida genitora. Ou seja, sua estética poderia assombrar mulheres que dessem de cara com tal criatura no interior do toilette levando-as a faniquitos de consequências imprevisíveis 3. Mulheres só vão ao banheiro quando em dupla, é uma das verdades incontestáveis deste mundo de tantas inverdades, pois o W.C. feminino, como já foi dito, é o espaço onde a mulherada escapa para falar de coisas singulares do universo feminino. Ali soaria estranhíssimo ouvir alguém falar do último espermatograma que fez ou do seu mais recente exame de próstata. 3.O Sr. Laerte, que se assume como bissexual, não vê nisso um impedimento para frequentar os banheiros femininos alegando que lésbicas tem livre acesso aos mencionados banheiros. Acontece que lésbicas anatomicamente são impossibilitadas de ter ereções repentinas e incontroláveis, o mesmo não se podendo dizer do Sr. Laerte. Numa situação constrangedora destas, pudicas velhinhas poderiam sofrer uma síncope fatal." São estas as ponderações da digníssima Presidenta do grupo MIJAR que aqui reproduzo por ter tido ao longo de minha vida um elevado apreço pela Sra. Eva Gina, a quem muitíssimo devo. Quanto ao caso em si, caros leitores, eu lavo minhas mãos. No banheiro masculino, é claro.
este rio é minha rua
14 horas atrás

Sei muito bem cuidar de minha saúde. Por isso mesmo vou como de habitude à quitanda do japonês que fica ali na esquina comprar produtos sem nefandos agrotóxicos. Enquanto vou selecionando uma rúcula daqui, uma acelga de lá, um espinafre aculá, noto que há algo de estranho naquela senhora que também separa hortaliças ao meu lado. Não sou lá um cara muito perspicaz, sou até meio nefelibata, algo selenita, mas olho melhor e percebo que ela tem vastos bigodes e hirsuta barba. E que na verdade ela não é uma senhora, trata-se do cartunista Laerte, conhecido crossdresser fazendo suas comprinhas como qualquer vivente. Não me apraz posar de reacionário e conservador, mas admito em rápido solilóquio que aquilo é algo pouco hortodoxo para meus padrões comportamentais. Verdade seja dita, nunca me perguntei como os escritores, pintores e desenhistas que tanto admiro produzem os trabalhos pelos quais tenho confessada admiração. Se usando fraques, se nus em pelo, se só de bermudas e sem camisa como diversas revistas já mostraram o aclamado escritor - e meu ex-redator-chefe na Tribuna da Bahia - João Ubaldo Ribeiro. Isto em verdade nunca me importou porque na verdade não é importante, mesmo. O fundamental, óbvio está, é o trabalho em si. Se Laerte prefere criar seus desenhos usando saia, saiote, anáguas, calçolas ou quaisquer outros trajes femininos pouco importa, vale o belo trabalho que ele produz. Mas já que falei do sempre lembrado João Ubaldo, convenhamos que ele, com sua acentuada calva, bigodão e óculos fundo-de-garrafa, está longe de ser um modelo de beleza, destarte não é lá muito estimulante imaginar-se o autor de Sargento Getúlio desfilando todo lânguido por Copacabana e adjacências exibindo seu indebastável plexo em pouco discreto decote, nem com suas pernas cabeludíssimas à mostra, ostentando saltitante um tomara-que-caia ou um vestido de bolero-lero-lero-lero. Ainda por cima deixando à mostra uma parte de sua calçola de babados como é hábito das moçoilas nestes tempos hodiernos. Também não é lá muito salutar imaginar meu nobre amigo Paulo Caruso, o grande cartunista - grande no talento bem como no tamanho - desfilando por aí com seus mais de 2 metros de altura cobertos por um pegnoir tomado emprestado de Dona Julia, sua consorte. Ou deparar-me com o ilustrador Gonzalo Cárcamo, com sua barba preta sempre bem aparada, vestindo negra negligée em tudo destoando de sua touca Hecha en Chile. Muito menos o lendário cartunista parauara Biratan navegando por igarapés com uma insinuante meia-calça transparente. Sendo eu um livre-pensador, não me pejo de dizer que rezo fervorosamente para que tais amigos não resolvam aderir à nova moda poupando-me de tais visões na vida de minhas retinas tão fatigadas. Ah, também estou estudando um novo horário para continuar a fazer minhas salutares comprinhas na quitanda do japonês sem voltar a me deparar com aquela mui, mui estranha senhora.

James Joyce, apesar de ter nascido na fria Irlanda, ficou conhecido mundialmente por haver escrito Ulysses, biografia do brasileiríssimo deputado Ulysses Diretas Já Guimarães, democrático político deste país tropical abençoado por Zeus, e tão amado por todos nosotros quase sempre follados e mal pagos. Enquanto escrevia sua obra, Joyce fixou residência no Brasil, mais exatamente na Bahia escolhendo o bairro do Bonfim cuja famosa colina significamente lembrava a ele a topografia irlandesa. De família abastada e fervorosamente católica, o escritor sentia falta das tradições de sua terra natal, notadamente a popular lavagem das escadarias de Dublin. Para suprir tal falta, amealhou um batalhão de baianas devidamente paramentadas de brancas vestes, colares e demais balangandãs, estando todas munidas de vassouras e quartinhas com água, com elas lavou as escadas da igreja de seu bairro soteropolitano. Os baianos, sempre hedonistas e chegados numa boa muvuca, gostaram do que viram e se juntaram incontinenti à patuscada com seus intrumentos musicais. Pronto. A lavagem das escadas de Dublin davam destarte origem à hoje tradicionalíssima Lavagem das Escadarias do Bonfim, festa que nestes tempos hodiernos arrasta multidões de fiéis e infiéis do mundo inteiro para esta afrocity Soterópolis incrustada nesta afroterra de dendês e morenas frajolas e gentes bonitas de todas as etnias chamada Bahia. Thanks, thanks so much, Jojó!


































