29 junho 2020
10 junho 2020
.Jorge Amado, Floriano Teixeira, Setúbal.
Em postagens anteriores falei do Floriano Teixeira, artista maravilhoso e ser humano iluminado, cara do bem, divertido, bom papo, de caráter sem jaça. Bateu uma fortecíssima saudade e fui ao meu baú cheio de recuerdos de Ypacaraí com o precípuo escopo de fuçar no intuito de conseguir alguma foto que eu tivesse tirado ao lado de Floriano. No meio da grande bagunça que é esse meu larestúdio, em um cantinho ermo do relicário imenso deste amor achei estas fotografias aí em cima, ambas tiradas quando Floriano Teixeira e Jorge Amado vieram me abraçar durante uma exposição de caricaturas que fiz no Shopping Iguatemi, nesta Soterópolis. Glória das glórias! Dois gigantes das Artes brasileiras que, apesar do endeusamento geral mundo afora, mantinham-se sempre como pessoas de notável simplicidade, companheirismo, sinceridade e solidariedade a toda prova, diferente, bem diferente de um magote de cabotinos desapetrechados de lídimo talento que pululam em toda parte e com os quais topamos a todo instante, contrariando em muito nossas vontades. E nem é bom citar o imenso tsunami de mediocridades gerais e malevolências patológicas com as quais turbas doentias insistem em atormentar nossos presentes dias.
Saudades de Jorge, saudades de Flori, seres humanos extraordinários, a bonomia, a excelência de conduta e a beleza d'alma personificadas, que fazem uma imensurável falta a mim, a todo o povo baiano, ao planeta e à espécie humana. Sorte nossa que, ultrapassando o mero aspecto físico, de forma perene, através de seus trabalhos fantásticos e imorredouros eles permanecem entre nós, iluminados que sempre foram e que seguirão sendo pela eternidade.
(180303)
06 junho 2020
Sylvio Lamenha, amado cronista que tanta falta nos faz, em texto do escritor Ademar Gomes.
Prometi postar neste bloguito alguns textos do jornalista e escritor Ademar Gomes falando de gente de sua estima, seus companheiros mais próximos e estimados, grandes e inesquecíveis amigos. Um deles, um dos caras mais cultos que a Bahia já pode desfrutar da honraria de ter como um dos filhos amados, é o maravilhoso Sylvio Lamenha, uma espécie de tutor intelectual de Ademar, que só chamava Sylvio de Tia Dalva, pelo fato de Lamenha ser amigo pessoal da maravilhosa cantora Dalva de Oliveira, sabendo imitar seu belíssimo canto à perfeição. Pelo tom pesaroso identificável no texto de Ademar, nos apercebemos de sua grande tristeza, da dor pungente, advinda da perda de Sylvio que se foi desta vida deixando seus amigos e admiradores em imenso desconsolo, como bem se pode ver nas palavras de Ademar em homenagem ao cronista e amigo querido.
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"E agora, Tia Dalva, quem me socorrerá nas derrapagens semânticas? Quem me libertará das armadilhas da crase, evitando que eu fique à deriva em meus audaciosos mergulhos nos mares da literatura? Quem - sem chute, sem porretismo - me ensinará a história ( e estórias ) da música popular brasileira? Quem, com simplicidade, sem complicações, me fará viajar no mundo da semiótica? Quem, com sua genialidade, para trocar figurinhas sobre passagens dos chamados clássicos do cinema? E agora, Tia Dalva, quem - cheio de remorsos - me acordará de madrugada para um mea culpa patético sobre eventuais grosserias à Bia, sua devotada mãe, a demonstrar a simbiose entre o gênio e a criança? Quem garantirá agora às inúmeras toupeiras que aspiram chegar à universidade a certeza da aprovação no vestibular, com seus infalíveis ensinamentos? Quem, wildeanamente, terá a audácia de agitar o modorrento dia-a-dia da cidade de muros baixos, onde as igrejinhas - embora reconhecendo-lhe o talento - tanto o reprimiram? Quem, après toi, será capaz de desfilar com bengala renascentista, anéis, colares e pulseiras incrustadas de esmeralda em tributo aos olhos verdes de Maureen O'Hara, sua deusa irlandesa? Quem, depois de sua morte, alegrará os almoços dos amigos com suas boutades, suas estórias irreverentes sobre guerras de espada e perfumarias? Quem espargirá cultura sobre a cabeça dos ignorantes, mas sem a chatice dos que se querem excessivamente brilhantes? Quem guiará meus passos nos sebos da vida? Quem me decodificará a linguagem das artes plásticas, poupando-me do constrangimento de confundir primitivismo, impressionismo, cubismo e outros ismos? Quem, com tanto saber, me explicará Diana, Artemis, Júpiter, me libertando da ignorância mitológica? Quem me enfiará na renitente cabeça que mutatis mutandis nada tem a ver com mulato malandro?
Quem evitará que eu confunda vocativo com ablativo ou nominativo com dativo? Quem, com sua cultura, terá coragem e talento para imitar os falsetes da Dalva de Oliveira, tornando gay e festivo os ambientes formais? E agora, Tia Dalva, sem poesia e sem irisadas opalas gráficas, resistir, quem há-de?"(281213)
04 junho 2020
Baianos são bons de futebol e na Bahia o baba na praia é sagrado
Ah, Bahia, Bahia, gentilíssima mater de filhos negros de todas as cores e nuanças, em minha língua suavemente desliza teu dulcíssimo nome quando o pronuncio com sempiterna emoção que se vai renovando infinitamente. Em seus mares de águas translúcidas, Yemanjá - eterna rainha - fez sua morada. Diáfanas nuvens ornamentam seus céus que se tingem com os mais delicados matizes nesta rododáctila aurora que nem o próprio Homero jamais contemplou similar. Ah, Homero, Homero, pobre Homero, sempre às voltas com Odisseias e Ilíadas, nunca dispondo de tempo para si próprio, na Bahia jamais aportou, seja em gozo de férias ou de merecidas licenças remuneradas, não tendo destarte a fortuna de descobrir o quão deslumbrante é este afro-baiano torrão. Para você, odisseico vate, e para quem interessar possa, mostro aqui um pouquinho dos tipos, usos e costumes das gentes baianas, das quais faço jubilosa parte. Para tal fiz e posto, aqui e agora, ao vivo e a cores, esta tomada geral de um baba, que é assim mesmo, no masculino: jogar um baba, pegar o baba . É o modo como nós baianos chamamos aquela recreação futebolística que no restante do país chamam de pelada, esclarecendo que pelada, para nós, é outra coisa bem diferente, sendo também muitíssimo apreciada e consumida com notável gula pelos viventes dessa afrourbe nominada Soterópolis. Para pintar, utilizei tinta acrílica sobre tela, vez que nem tudo é PC, HD ou sei lá mais o quê.
(24/04/14)
(24/04/14)
James Joyce, quem diria, também morou na Bahia

James Joyce, apesar de ter nascido na fria Irlanda, ficou conhecido mundialmente por haver escrito Ulysses, biografia do brasileiríssimo deputado Ulysses Diretas Já Guimarães, democrático político deste assaz ensolarado país tropical abençoado por Zeus, boni por naturê e tão amado por todos nosotros, quase sempre follados e mal pagos. Enquanto escrevia sua obra-prima, Joyce fixou residência no Brasil, mais exatamente em Salvador, na Bahia, escolhendo o bairro do Bonfim, cuja famosa colina de forma significativa lembrava a ele a topografia irlandesa. De família abastada e fervorosamente católica, o escritor sentia falta das tradições de sua terra natal, notadamente a popular lavagem das escadarias de Dublin. Para suprir tal falta, amealhou um batalhão de baianas devidamente paramentadas de brancas vestes, colares e indefectíveis balangandãs e, estando todas munidas de vassouras e quartinhas com água, com elas lavou as escadas da igreja de seu bairro soteropolitano. Os baianos, sempre hedonistas e chegados numa boa muvuca, gostaram do que viram e se juntaram incontinenti à patuscada com seus instrumentos musicais. Pronto. A lavagem das escadas de Dublin davam destarte origem à hoje tradicionalíssima Lavagem das Escadarias do Bonfim, festa que nestes tempos hodiernos arrasta multidões de fiéis e infiéis do mundo inteiro para esta afrocity Soterópolis, que a todos acolhe na sagrada colina incrustada nesta afro-terra de dendês e morenas frajolas e gentes bonitas de todas as etnias, chamada Bahia. Thanks, thanks so much, Jojó!
(10/10/13)
01 junho 2020
Batatinha, Maria Bethânia e o circo proibido para tantos e tantos.
Só um compositor de talento muitíssimo vasto, dotado de imensa, de rara criatividade, poderia falar de desigualdades sociais sem resvalar no panfletário, sem patinar no pieguismo gratuito. Pois o sambista BATATINHA, batucando em sua caixinha de fósforo sempre muito bem afinada, sem se deixar enredar por raivas ou rancores, sem incorrer em qualquer espécie de alegado vitimismo, de uma forma serena, com a simplicidade dos que sabem das coisas, entre as muitas maravilhosas que fez como compositor, compôs esta canção de bela melodia e letra concisa e exata. Canção que, sem perder a poesia, fala de exclusão social, desigualdade, dos que vivem à margem da vida, escanteados, obrigados a apenas assistirem os mais privilegiados, apenas eles, desfrutarem das coisas boas da existência, enquanto a um mundaréu de gente vê-se obrigado a se resignar à mera condição de espectadores, colocados à margem, mantidos do lado de fora do grande circo que é a vida, apenas "escutando a gargalhada" dos que nadam de braçada em mares de privilégios. Essa canção inegavelmente cabe em qualquer lista das grandes canções feitas neste nosso país visceralmente musical, de tantos compositores, músicos e cantores maravilhosos. Por conta dela e do talento de Batatinha, aqui posto esta carica do grande compositor popular que fiz para uma gazeta usando bico de pena, trapo embebido em nanquim e uns respingos de guache branco. De quebra, adiciono um vídeo em que ninguém menos que a cultuadíssima filha de Dona Canô, Maria Bethânia Vianna Telles Veloso, empresta sua voz tamanha à bela, sugestiva e cativante composição do saudoso pai do meu amigo Lucas Batatinha.







