28 novembro 2014

Eros uma vez uma moça e um amor

Com minha inadvertida aquiescência essa moça um dia adentra meu viver trazendo consigo generosas braçadas de olentes flores que deposita em cada cômodo de minha quase misantrópica ânima  tornando fúlgida e álacre cada jornada e mais felizes e iluminados meus passos pelo mundo.
Um dia essa mesmíssima moça, com gestos impacientes e determinados, arrebata de mim seus ramalhetes, suas corbelhas, seus buquês e os leva para perfumar almas outras. Não vai discreta como veio, antes dá uma aula de como deletar alguém da vida afetiva, toma dos meus pincéis e rabisca palavras de ordem e frases beligerantes na parede dantes imaculada de meu quarto, rasga em tiras meus lençóis de pura seda, despedaça meus cristais da Bavária, quebra toda minha porcelana chinesa, retalha em pedaços miúdos meus mais amados álbuns de HQs, bate a porta atrás de si e desaparece pelas esquinas e quebradas do mundo.
De tempos em tempos, sabe-se lá por quais insondáveis razões, como se nada houvesse acontecido, volta à cena enviando-me um inesperado e indecifrável e-mail, consegue com suas artes o meu telefone e com sua voz suave me diz coisas das quais inutilmente tento traduzir as intenções.  A meio uma tempestade de emoções, um vendaval de sentimentos conflitantes, intento fugir mas é inútil  já que ela tem incrível capacidade de prever meus passos, me cercar os caminhos.  Até que um dia, sem esperar que eu concorde, minhas mãos saltam insidiosas pelo teclado e escrevem os segredos mais guardados, os desejos mais ocultos, as carências mais inconfessáveis e sem minha devida permissão enviam para ela. Como jamais lhe adivinho as ações não posso dizer que fico pasmo diante de sua atitude quando essa moça nada responde. E não retruca, não discorda, não concorda, não aplaude, não tripudia, não contesta, não esboça um esgar em sua face enquanto me mostra jocosamente a língua, não sai pelas ladeiras do Pelô em gritos ensandecidos demonstrando alegria ou raiva. Mas seu silêncio é um brado eloquente que diuturno reverbera em todo meu ser.