09 maio 2015

Timbalada, Ninha e El Marrón


O cantor Ninha há já um bom tempo deixou a Timbalada. Mas sempre que faço uma pintura em tela - como esta aê - mostrando este tão formidável grupo criado pelo não menos formidável Carlito Marrón, não deixo de colocar uma alegre e rotunda figura ao microfone para lembrar o magistral e - ao menos para mim - eterno timbaleiro, dono de uma voz poderosa que soube mostrar ao mundo que a Timbalada revitaliza. Sem Ninha, o grupo da Timbalada segue sua trilha de músicas e alegrias lançando novos e bons cantores, sempre se reciclando graças à mente inventiva de El Marrón, que também atende pelo nome de Carlinhos Brown. E o próprio Ninha, vida que segue, continua cantando cada vez mais bonito, levando a todos esta vocação musical inegável e toda alegria interior do povo negro da Bahia que se dissemina e a todos contamina. Um brungundum bragadá pra Timbalada, pro Carlito Marrón e procê, Ninha.

Antonio Conselheiro, Nordeste, estilo, experimento, Arte Gráfica

Há desenhistas que arrancam as próprias melenas, às vezes raras,  em busca de um estilo pessoal que seja passível de reconhecimento como se dá com sua escrita, cujo modo de delinear as letras as pessoas identificam de pronto. Não foi este o caminho que busquei na minha senda de ilustrador, vez que adoro mudar sempre que possível e o mais que puder, tentar novos rumos, novas linguagens, novas técnicas, buscando fugir da mesmice, dos maneirismos. Fazer a mesma coisa em nome de um estilo pode para mim se tornar algo previsível e mesmo cansativo, desestimulante. Sinto-me mais estimulado mudando sempre que possível - geminiano sou - em eterno desafio, tentando surpreender positivamente o público leitor e até mesmo a mim próprio. Nestes retratos de Antonio Conselheiro intentei buscar duas alternativas diversas. Em uma almejei criar um impacto dando um close em suas feições fortes de sertanejo que atingido por graves e injustas perseguições que findaram por tirar-lhe a vida e utilizei sobre papel ofício uma experimental bisnaga de tinta negra, destas para parede. Foi uma meleira total mas o resultado final me agradou. Na outra, mais clean usando tinta acrílica, fui em busca de um clima semelhante mas almejando situar o personagem no seu hábitat, recortado por um céu digno de um glauberrochístico filme. Um pincel na mão e uma ideia na cabeça.
(Publicado originalmente em 15/11/14)

Baianos são bons de futebol e na Bahia o baba na praia é sagrado

Ah, Bahia, Bahia, gentilíssima mater de filhos negros de todas as cores e nuanças, em minha língua suavemente desliza teu dulcíssimo nome quando o pronuncio com inefável emoção que se renova infinitamente. Em seus mares de águas translúcidas Yemanjá, eterna rainha, fez sua morada. Diáfanas nuvens ornamentam seus céus que se tingem com os mais delicados matizes nesta rododáctila aurora que nem o próprio Homero jamais contemplou similar. Ah, Homero, Homero, pobre Homero, sempre às voltas com Odisseias e Ilíadas, nunca dispondo de tempo para si próprio, aqui jamais aportou seja em gozo de férias ou de merecidas licenças não tendo destarte a fortuna de descobrir o quão deslumbrante é este afrobaiano torrão. Para você, odisséico vate, e para quem interessar possa, mostro aqui um pouco dos tipos, usos e costumes das gentes baianas da qual faço parte. Para tal, fiz e posto aqui esta tomada geral de um baba, que é como nós baianos chamamos o que no restante do país chamam de pelada, sendo que pelada para nós é outra coisa bem diferente, sendo também muito apreciada e consumida com notável gula pelos viventes dessa afrourbe. Para pintar, utilizei tinta acrílica sobre tela, vez que nem tudo é PC, HD ou sei lá mais o quê.
(Publicado originalmente em 24/04/14)

01 maio 2015

Humor de graça / Branca de Neve queimadinha


H. Lima, artista plástico ou Lima Limão vai à luta.

Sem providenciais mecenas para ampará-los nesse mundo hodierno, os artistas plásticos que não alcançam as boas galerias - bem raras nesta urbe - sempre tiveram que partir para um renhido embate pela sobrevivência indo buscar possíveis compradores aonde eles estivessem. E nestes anos 70 lá estou eu com meu amigo Lima, que assinava seus trabalhos artísticos como H.Lima e era também conhecido popularmente como Lima Limão ou ainda como Macarrão 38, devido ao fato de em sua quase anoréxica magreza lembrar o famoso produto alimentício, uma massa das mais fininhas. Lima, gravador e pintor, marcha estoicamente, subindo e descendo inacabáveis escadas de prédios da Cidade Baixa tentando vender dois entalhes que recém fizera. Eu, seu fiel e prestativo acólito nesta empreitada dificultosa ajudo a carregar as peças. Lima, como já narrei em postagem anterior, conseguia dois pedaços de compensados, entalhava-os, coloria-os e saía em campo para o corpo-a-corpo necessário à subsistência. Com o dinheiro auferido, comprava novo material para preparar mais dois e repetir a façanha sem assim jamais conseguir acumular em sua casa e ateliê uma produção de seu trabalho, mínima que fosse. Nada disso tirava o constante bom humor baiano de Lima. Certo dia visitamos o escritório de um profissional liberal que em mais de uma oportunidade já comprara obras de meu amigo. Após olhar sem entusiasmo os trabalhos, o sujeito diz : "Você bem sabe que gosto de sua arte. Mas estes trabalhos seus não me agradaram. Façamos o seguinte: no próximo final de semana  passo em seu ateliê e com calma olho todos os outros trabalhos que você tiver lá, escolho um que eu gostar e compro. Certo?" Ao ver o semblante de desalento de Lima, o homem inquire, desconfiado: "Você tem outros trabalhos em casa, não tem?" E Lima, a imagem da humildade personificada: "Quem sou eu, doutor, para ter um quadro meu?! Isto é pro senhor que pode!"
(Publicado originalmente em 06 de novembro de 2010)

É com certeza Maluco Beleza. Igualzinho ao Raul Seixas.

Do Oiapoque à PQP, neste Brasil varonil do Gugu e do Clodovil a galera grita: "Toca Raul!" Mesmo com todos os terríveis obstáculos jabaculísticos dos dias atuais, as rádios atendem pois a pressão popular é grande. Quanto a mim, não preciso que gritem:" Pinta Raul!!" . Na maior velô, vou logo me munindo de pincéis, tintas, telas, Photoshop e mandando ver em honra do nosso sempre amado maluco beleza. É Raulzito na veia.Tá rebocado, meu compadre!

Ernest Hemingway, Cuba , literatura, mojitos e daiquiris

Ainda adolescente e estudante da EPA, em Sampa, recebi incubência de fazer um trabalho sobre o livro "O velho e o mar", de Ernest Hemingway. Dirigi-me à biblioteca municipal com intenção de ler apenas trechos do livro para ter idéia do que fazer. Iniciei a leitura da saga do velho Santiago, pescador cubano tomado pela má sorte e à medida que lia fui sendo envolvido pela instigante narrativa do autor e me interessando a cada página para ver o destino que Santiago e seu enorme peixe de cinco metros teriam. Mesmo com os olhos já rubificados eu não conseguia parar a leitura que me puxava para o interior do livro e me colocava no barco junto ao desditado insular em meio a tubarões e procelas. Meus outros compromissos do dia se quedaram esquecidos e li o livro inteiro, de um só fôlego. Aprendi muito com a parábola do homem em luta titânica na busca pela sobrevivência ainda que em condições desiguais. E me tornei grande admirador de Hemingway. Tendo eu um daiquiri na mão direita e um mojito na esquerda, ergo dois brindes ao velho Papa Hemingway, mesmo estando distante de sua La Bodeguita e do seu La Floridita, tão assiduamente frequentados pelo escritor de quem fiz este retrato com lápis dermatográfico branco sobre papel fabriano preto.