15 fevereiro 2017

La belle de jour no Rio de Janeiro / Arte que se reparte 2

Quando vou ilustrar o texto de algum profissional da escrita, busco ler seus escritos com o devido respeito e a mais absoluta atenção para poder interpretar bem e saber qual é o terreno em que devo caminhar. Tenho sempre em mente a intenção de me tornar um parceiro do escriba e não seu concorrente na busca pela admiração dos leitores. Sempre almejo criar uma ilustração que desperte nesses leitores o interesse pela leitura do texto, fazer com que fiquem curiosos com o que ele lhes revela, o que nele motivou aquele desenho. Nada de fazer uma ilustração que seja muito bonita graficamente mas que fuja ao espírito do que ali está descrito por palavras. Também acho de primordial importância não cair na armadilha de fazer um desenho que revele antecipadamente o conteúdo dos escritos, tirando a surpresa, o interesse dos amáveis e sapientes leitores, equívoco em que alguns desenhistas por vezes incorrem. Também vale dizer que se no dito texto a ser ilustrado há elementos de malícia ou conteúdo político, sensualidade, suspense, humor ou outros que tais, intento fazer com que esses elementos se incorporem ao desenho que vou produzir, seja através da composição, das linhas, dos enquadramentos, das expressões ou da postura dos personagens colocados em cena. Isto é um pouquinho dos "bastidores" de um desenho que muita gente sequer imagina existir, crentes que um desenhante já tem tudo preparadinho dentro de sua mui privilegiada cuca, como se fosse o conteúdo de um pendrive, bastando que esse artista gráfico empunhe um lápis ou caneta, e aí esse seu pendrive interiorcomo em um passe de mágica, faz todo o trabalho surgir prontinho, prontinho no branco virginal do papel. 
***A ilustração acima foi feita para o texto La belle de jour no Rio de Janeiro, do livro A ÚLTIMA COPA EM PARIS, de autoria do escritor Ademar Gomes. Usei papel Opaline 180 gramas, grafite B, canetas nanquim descartáveis e umas somíticas gotinhas de Photoshop.
(190215)