28 dezembro 2013

Ao mestre, com carinho ( texto de Ademar Gomes após a morte de Sylvio Lamenha )


"E agora, Tia Dalva, quem me socorrerá nas derrapagens semânticas? Quem me libertará das armadilhas da crase, evitando que eu fique à deriva em meus audaciosos mergulhos nos mares da literatura? Quem - sem chute, sem porretismo - me ensinará a história ( e estórias ) da música popular brasileira? Quem, com simplicidade, sem complicações, me fará viajar no mundo da semiótica? Quem, com sua genialidade, para trocar figurinhas sobre passagens dos chamados clássicos do cinema? E agora, Tia Dalva, quem - cheio de remorsos - me acordará de madrugada para um mea culpa patético sobre eventuais grosserias à Bia, sua devotada mãe, a demonstrar a simbiose entre o gênio e a criança? Quem garantirá agora às inúmeras toupeiras que aspiram chegar à universidade a certeza da aprovação no vestibular, com seus infalíveis ensinamentos? Quem, wildeanamente, terá a audácia de agitar o modorrento dia-a-dia da cidade de muros baixos, onde as igrejinhas - embora reconhecendo-lhe o talento - tanto o reprimiram? Quem, après toi, será capaz de desfilar com bengala renascentista, anéis, colares e pulseiras incrustadas de esmeralda em tributo aos olhos verdes de Maureen O'Hara, sua deusa irlandesa? Quem, depois de sua morte, alegrará os almoços dos amigos com suas boutades, suas estórias irreverentes sobre guerras de espada e perfumarias? Quem espargirá cultura sobre a cabeça dos ignorantes, mas sem a chatice dos que se querem excessivamente brilhantes? Quem guiará meus passos nos sebos da vida? Quem me decodificará a linguagem das artes plásticas, poupando-me do constrangimento de confundir primitivismo, impressionismo, cubismo e outros ismos? Quem, com tanto saber, me explicará Diana, Artemis, Júpiter, me libertando da ignorância mitológica? Quem me enfiará na renitente cabeça que mutatis mutandis nada tem a ver com mulato malandro?
Quem evitará que eu confunda vocativo com ablativo ou nominativo com dativo? Quem, com sua cultura, terá coragem e talento para imitar os falsetes da Dalva de Oliveira, tornando gay e festivo os ambientes formais? E agora, Tia Dalva, sem poesia  e sem irisadas opalas gráficas, resistir, quem há-de?"

10 dezembro 2013

La polla en verso, Espanha, erotismo e Hilda Hilst fescenina


Da Espanha, a belíssima Espanha, de Pedro Almodóvar e de tanta gente boa, descubro o blog http://lapollaenverso.blogspot.com/ de una chica que se assina apenas d.b e que no perfil se define como uma "periodista, con total autonomia e independencia de los regímenes literarios". De lá extraio estes almodovarianamente singelos e cândidos versinhos que a notável poeta Hilda Hilst, em um dos seus deliciosos momentos fesceninos, certamente assinaria prenhe do mais lídimo orgulho:

Religiosamente tuya
Méteme un dedo por el culo
átame a la silla fuertemente
cómeme la boca y rompe aguas sobre ella
porque hoy es el dia del Corpus Christi
y tú eres el cáliz con el que me alimento.

(Publicado originalmente em 10 de dezembro de 2013)