07 fevereiro 2017

Bill Watterson, Calvin and Hobbes / Uns cara que eu amo 5

 
Entre meus quadrinhos preferidos está Calvin and Hobbes, aqui no Brasil conhecidos como Calvin e Haroldo. Bill Watterson não é apenas um estupendo desenhista, é um argumentista de raro talento que criou um universo mais que maravilhoso onde um menino, Calvin, e seu companheiro constante, Haroldo, um tigre de pelúcia que ganha vida quando ambos estão a sós sem a inconveniente interferência de adultos. Estes, por sua vez, transformam-se, na prolífica imaginação de Calvin, em dinossauros ou em monstros estranhos de outros universos, sempre prontos a atrapalhar a vida do inteligente menino. E inteligência é o que mais se vê nas tiras de Watterson, presentes nos diálogos mais criativos das HQs desde que foram inventadas. As situações que ambos vivem, mesclando realidade e fantasia para discutir problemas do homem atual, ultrapassam os limites da mesmice, das fórmulas fáceis, das mensagens convencionais com tipos estereotipados que os americanos tanto adoram. Tão fora do convencional é Bill Watterson que um dia, gozando de notável popularidade e do mais irrestrito respeito, para surpresa geral deixou de produzir desenhos com o menino e seu tigre. Talvez tenha se cansado, talvez fazer as tiras não lhe trouxesse mais alegrias, talvez - quem sabe - achando que poderia repetir-se, tenha resolvido parar depois de 10 anos onde chegou a produzir mais de 3100 tiras da dupla de personagens. Retirou-se do cenário artístico e não pensou como qualquer criador, americano ou não, de explorar comercialmente seus personagens, o que o tornaria um multimilionário, fazendo lembrar o genial desenhista do underground Robert Crumb que se lixava para o mercado de licenciamento para o qual dava sonoras negativas e explícitas bananas. Caramba!, gente assim sempre me causa uma profunda admiração e um enorme e insopitável sentimento de inveja pela firmeza de caráter, pela forte personalidade com que mostram que estão acima da mesmice geral, pela maneira independente de pensar e de recusar-se a ser apenas mais um na manada, mais um na interminável multidão dos medíocres que povoam uma grande extensão neste vasto orbe.
(Publicado originalmente em 10 de novembro de 2013)