06 julho 2016

Ariosvaldo Matos, um grande escritor ( Trechos da crônica Por quem os sinos dobram, de Ademar Gomes )

"Com a morte de Ariosvaldo Matos desapareceu não apenas um jornalista que honrou a classe pela competência e caráter e que teve destacada participação na história da imprensa baiana, mas também um escritor de grande futuro, cuja carreira foi interrompida em plena fase de criatividade. Com efeito, embora tivesse escrito alguns livros importantes - Os Dias do Medo e Corta-Braço, entre outros - a atividade literária de Ariosvaldo Matos estava apenas no início, já que só pouco antes de morrer começou a se dedicar exclusivamente à literatura. Perdi um mestre, e mais do que um mestre um amigo. Uma amizade fraternal de longos anos, imune a mal entendidos e apesar de trilharmos caminhos quase totalmente opostos, ele dedicado à cultura, à humanidade, eu à porralouquice do mundanismo, ensimesmado no brilho fugaz de meu pequeno mundo. Costumávamos almoçar juntos quase todos os dias. Sozinhos ou com amigos comuns. Foram mais de trinta anos de convivência, de aprendizado, lições inesquecíveis. Ari nunca foi de enrustir conhecimentos. Ao contrário: sentia prazer em transmitir o que aprendera - e sem ares professorais. Sua humildade às vezes incomodava. Não a humildade do hipócrita, do vencido, mas a humildade consciente. PhD em comunicação, Ariovaldo Matos era capaz de escrever sobre qualquer assunto e sempre com a mesma desenvoltura - com formalismo num editorial, e com poesia numa crônica feita em cima da perna para tapar o buraco de algum colaborador ausente.Ari era um homem de diálogo, sabia escutar. Uma virtude rara - hoje e sempre. Era um homem simples, sério. E só pode sê-lo quem é forte. Ele era um forte. Enfrentou algumas vicissitudes ao longo da vida e a todas superou com altivez, sem lamúrias. Jamais importunou os amigos com seus problemas existenciais. Nunca confundiu sua vida profissional com a pessoal. Durante minhas andanças pelo mundo, mantivemos assídua correspondência. Toda semana escrevíamos um ao outro. Suas cartas eram lições de vida, de amor, e muitas delas me encheram de força, de esperança, para enfrentar o desespero dos primeiros meses em terras estranhas.
Avesso a formalismos, nem no seu aniversário Ari gostava de manifestações piegas. Bons amigos, papos inteligentes, bastavam para fazê-lo feliz. Tudo muito simples, à sua imagem e semelhança.
É pena que, até hoje, nenhum órgão cultural tenha se interessado em publicar livros seus inéditos. Esta, sim, a homenagem que Ariosvaldo Matos merece. Nome de rua, não. Nome de rua, no Brasil, até pilantra tem..."
(Publicado originalmente em 07/06/14)