12 setembro 2016

Havia vida antes da Internet? (Lembrando Sylvio Lamenha, Ademar Gomes, Ariovaldo Matos, Alvinho Guimarães)

Dias destes numa postagem citei o grande cronista baiano Sylvio Lamenha. Cronista só, é pouco dizer. Sylvio era um homem de invejável cultura, dominava a arte de bem escrever, era grande e inspirado frasista e usava bordões criativos como "a poesia é o axial" e "resistir, quem há-de?", que as pessoas viviam repetindo. Cito, de memória, que ele foi repórter, cronista, compositor, professor, ator do cinema novo. Ah, e um imitador sem igual da maravilhosa Dalva de Oliveira, chamada em vida de A Rainha da voz. Para desespero de alguns amigos mais tradicionalistas e de modos mais discretos que temiam a língua viperina do povo, Lamenha soltava seus trinados a alto e bom som onde quer que chegasse, sem levar em conta o ambiente e quem lá estivesse, sem se importar com olhares reprovadores e reprocháveis ouvidos. Sylvio, de tantos aspectos e predicados, era um gay avant la lettre. Hoje fico desnorteado ao perceber que Lamenha é totalmente desconhecido das novas gerações. Ele, sempre tão brilhante, foi apagado do imaginário popular, delido dos arquivos da existência. Ocorre que os feitos de sua rica vivência não foram registradas na maior fonte de pesquisa do mundo atualmente, a Internet, já que à época ela ainda engatinhava, não sendo ainda o que é hoje, uma fonte de fundamental importância, praticamente indispensável e por vezes única para grande parte das pessoas. Não está na Net, não existiu, não existe, não existirá. Isto, ressalte-se, não se resume a Sylvio Lamenha, é fenômeno que ocorre com muita gente que viveu antes da informática tornar-se gênero de primeira necessidade. Pessoas de grande importância e vida tão intensamente vivida em todos os aspectos foi relegada a este verdadeiro limbo cultural, simplesmente por serem da era pré-Internet. Procuro fotos e textos sobre Sylvio na Web e quase nada encontro. Bem como procuro em vão coisas sobre Alvinho Guimarães, ator e diretor teatral de grande importância e atuação na cena baiana, citado de forma reverente em várias páginas do livro Verdade Tropical, por seu autor, ninguém menos que Caetano Veloso. Procuro sem sucesso coisas sobre Ariovaldo Matos, jornalista e escritor talentoso, a quem não conheci em vida, apesar do considerável número de amigos em comum. O mesmo se dá em relação ao também jornalista e escritor Ademar Gomes, meu grande e estimado amigo, de quem ilustrei muitos livros e que se foi deste mundo levando parte de minha alegria. Hoje releio livros que ele escreveu e isto me traz de volta a inventividade, o humor e o talento deste amigo que escrevia coisas inusitadas, tiradas do seu convívio com um monte de gente aqui deste afro-terrão chamado Soterópolis. Não é justo que ele e tantos seres criativos sigam exilados nesta autêntica Zona Fantasma. Mas a vida nem sempre é justa, sabemos. Para modestamente tentar lhes trazer um mínimo de visibilidade, aqui neste meu singelo bloguito vou postar alguns escritos de Ademar Gomes onde ele fala de si próprio enquanto fala dos seus confrades ilustres, como Sylvio Lamenha e Ariovaldo Matos . Eles merecem, gentes do bem que foram, seres criativos, profícuos e atuantes em suas vidas vividas intensamente, que é como se deve viver.
(13 / 04 / 14)