22 novembro 2016

Riachão, o samba da Bahia na primeira pessoa do singular

O samba feito na Bahia tem cara, corpo, jeito, elegância, doce malícia, muita ginga e sabedoria ancestral. Tudo isto concentrado numa só figura, aliás, uma figuraça, um menino chamado Riachão, nascido em 14 de novembro de 1921, que completou há uma semana 95 aninhos de existência, bem vividos em rodas de samba nas noites da Bahia. Com muito samba, naturalmente, principalmente os de autoria do próprio Riachão, compositor considerado um inspirado cronista do cotidiano pelas suas letras que reproduzem a realidade com um viés bem popular. Esse seu estilo pessoal de compor mereceu gravações de personalidades como Jackson do Pandeiro, Caetano Veloso e Gilberto Gil e de muita gente boa mais. Um dia, a cantora Cássia Eller, encantada com o balanço, a ginga, a malemolência, a criatividade e a contagiante alegria de Riachão, gravou sua composição "Vai morar com o diabo", em que ele relata suas agruras por viver ao lado de uma mulher que não quer nada com o batente e ainda exige luxo. A exemplo do que acontecera com a gravação de Caetano de Cada macaco no seu galho, a deliciosa versão de Cássia Eller para a música de Riachão deu intensa visibilidade a um dos sucessos deste sambista baiano tão amado que sempre desfilou pela vida com seu charme singular, sua alegria retumbante, seu brilho intenso. Riachão, o samba na primeira pessoa, o próprio povo da Bahia com toalha e muitas contas coloridas no pescoço, chaveiro pendurado na calça, anéis nos longos dedos negros, boné na cabeça, bigodinho estiloso, e com um riso gostoso nos exibindo sua galhardia e seu passos harmoniosos de sambista maior pelas ladeiras da afrobaianidade nagô. Riachão, rei do samba na terra em que o samba nasceu, como atestava o carioquíssimo poeta e compositor Vinicius de Moraes. Axé, Riachão, meu rei!