27 outubro 2016

O dia triste em que comi Alcione, a marrom

 
Pindorama, além de ser o nome indígena desta Terra Brasilis, é também o nome de uma pequena e aprazível cidade da hinterlândia paulista. Era lá que, ainda um niño de Jesus, eu vivia uma vidinha pacata ao lado dos meus amáveis genitores e irmãos. Meu pai se afastara do emprego para um longo e necessário tratamento de sua debilitada saúde e passava os dias em casa procurando ocupar seu tempo com leituras e escritos. E volta e meia inventava uma nova ocupação. A mais recente era um pequeno galinheiro que ele houvera por bem colocar no fundo do nosso amplo quintal de casa interiorana. Passei a ajudá-lo no trato com as penosas que me atraíram desde a chegada. Trazia-lhes milho, água, ração, remédios. Tão apegado a elas fiquei que decidi dar-lhes nomes da forma com que se faz aos animais de estimação. Como elas cantassem bonito, batizei cada uma com nomes de cantoras de minha preferência, Wanderléa, Vanusa, Martinha, numa sincera homenagem nascida de minha mente sem malícias de inocente infante. Minha predileta entre as preferidas era uma bem mais rechonchuda que todas as outras e que tinha porte de rainha ao caminhar no terreiro. Por ter sua plumagem num lindo tom marrom e por seu canto poderoso, dei-lhe o nome de Alcione. Seu reino, poleiro e terreiro. Ali ela agitava suas asas marrons, tão brilhantes e cacarejava de afinadíssima forma. Uma belezura. Eis que um dia anunciou-se pelos corredores da casa a vinda de um irmão de meu pai, tio Dario, que morava em Bauru e vinha nos visitar aproveitando o feriadão gerado pelo carnaval que se aproximava. Na véspera da chegada de meu tio, mamãe anunciou que ia matar umas galinhas para um lauto almoço de boas-vindas ao ilustre visitante. Meu coração disparou. "A Alcione, não! A Alcione, não, mamãe!" . Todos riram da minha aflição. Mas o que eu temia aconteceu e minhas preferidas terminaram seus cacarejantes dias em grandes panelas a meio de uma infinidade de cebolas, alho, cebolinha picada e congêneres. Lacrimoso, inconsolável, jurei a mim mesmo não tocar nos pratos feitos com minhas amigas. Chegado o momento do ágape o aroma dos guisados e assados invadiu minhas narinas de petiz, enfeitiçando-me. Minha mãe tinha mãos divinas ao cozinhar. Em uma travessa percebi aquelas coxas maiores e mais atraentes que as outras. Eram de Alcione, eu sabia. Com gestos mecânicos puxei a travessa e servi-me generosamente do peito e das coxas. Quase em transe, dispensei os talheres e sem ligar para o preclaro visitante, enfiei meus dedos naquele peito macio e cheiroso e o levei à boca ansiosa. Ah!, prazer dos prazeres! Meus olhos então se fixaram nas coxas de Alcione. Coxas belas, roliças, de maravilhosa cor dourada e capitoso olor. Caí de boca de forma descontrolada. E novamente minha língua passeou naquelas carnes divinas. Simplesmente delirante. O apetite saciado me trouxe de volta à realidade. Caí em mim e incontinenti percebi a grave traição em que eu incorrera com aquela descontrolada e quase antropofágica conduta. Saí da mesa correndo para que não pudessem notar minhas copiosas lágrimas. Era emoção demais para meus verdes anos de vida. Em um só dia conheci os inesquecíveis prazeres da carne, vindos das coxas macias, do peito aveludado de Alcione, a marrom. Desolado descobri que sou um fraco nas minhas convicções e que oscarwildeanamente resisto a tudo, tudo. Menos a uma tentação.
(230514)