22 Fevereiro 2012

O dia triste em que comi Hebe Camargo.

Pindorama, pequena e aprazível cidade do interior de São Paulo. Era lá que aos 10 anos de idade eu vivia uma vidinha pacata ao lado dos meus pais e irmãos. Meu pai se afastara do emprego para um longo e necessário tratamento de sua debilitada saúde e passava os dias em casa procurando ocupar seu tempo com leituras e escritos. E volta e meia inventava uma nova ocupação. A mais recente era um pequeno galinheiro que ele houvera por bem colocar no fundo do nosso amplo quintal de casa interiorana. Passei a ajudá-lo no trato com as penosas que me atraíram desde a chegada. Trazia-lhes milho, água, ração, remédios. Tão apegado a elas fiquei que decidi dar-lhes nomes da forma com que se faz aos animais de estimação. Como elas cantassem bonito, batizei cada uma com nomes de cantoras famosas à época, Ângela Maria, Dalva de Oliveira, Lolita Rodrigues, numa sincera homenagem nascida de minha mente sem malícias de inocente infante. Minha predileta entre as preferidas era uma carijó bem maior que todas as outras e que tinha porte de rainha ao caminhar no terreiro. Dei-lhe o nome de Hebe Camargo, artista mais que admirada. Hebe agitava suas asas brilhantes e cacarejava de afinadíssima forma. Uma gracinha. Eis que um dia anunciou-se pelos corredores da casa a vinda de um irmão de meu pai, tio Dario, que morava em Bauru e vinha nos visitar aproveitando o feriadão gerado pelo carnaval que se aproximava. Na véspera da chegada de meu tio, mamãe anunciou que ia matar umas galinhas para um lauto almoço de boas-vindas ao ilustre visitante. Meu coração disparou. "A Lolita, não! A Hebe, não, mamãe!" . Todos riram da minha aflição. Mas o que eu temia aconteceu e minhas preferidas terminaram seus cacarejantes dias em grandes panelas a meio de uma infinidade de cebolas, alho, cebolinha picada e congêneres. Lacrimoso, inconsolável, jurei a mim mesmo não tocar nos pratos feitos com minhas amigas. Chegado o momento do ágape o aroma dos guisados e assados invadiu minhas narinas de petiz, enfeitiçando-me. Minha mãe tinha mãos divinas ao cozinhar. Em uma travessa percebi aquelas coxas maiores e mais atraentes que as outras. Eram de Hebe, eu sabia. Com gestos mecânicos puxei a travessa e servi-me generosamente do peito e das coxas. Quase em transe, dispensei os talheres e sem ligar para o preclaro visitante, enfiei meus dedos naquele peito macio e cheiroso e o levei à boca ansiosa. Ah!, prazer dos prazeres! Meus olhos então se fixaram nas coxas de Hebe. Coxas belas, roliças, de maravilhosa cor dourada e capitoso olor. Caí de boca de forma descontrolada. E novamente minha língua passeou naquelas carnes divinas. Simplesmente delirante. O apetite saciado me trouxe de volta à realidade. Caí em mim e incontinenti percebi a grave traição em que eu incorrera com aquela descontrolada e quase antropofágica conduta. Saí da mesa correndo para que não pudessem notar minhas copiosas lágrimas. Era emoção demais para meus verdes 10 anos de vida. Em um só dia conheci os inesquecíveis prazeres da carne, vindos das coxas macias, do peito aveludado de Hebe. E, desolado, descobri que sou um fraco nas minhas convicções e que oscarwildeanamente resisto a tudo, tudo. Menos a uma tentação.

2 comentários:

  1. só hoje consegui uma pausa pra ler vc aqui.. Gargalhei, me emocionei. Adorei!

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  2. Suely, suas visitas a este blog muito me honram. Sei das suas múltiplas ocupações que lhe ocupam grande parte do tempo. E mesmo assim sendo, volta e meia você me brinda com sua augusta presença virtual. E ainda me faz um elogio desses, sendo você pessoa que domina como ninguém o ofício de bem escrever. Ganhei o dia, Su. Valeu.

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