05 outubro 2016

Florbela Espanca, a Mensageira das Violetas

Quando músicos talentosos decidem-se por fazer uma parceria com poetas maiores, o resultado costuma ser agradável ao extremo. Como quando o cantor e compositor Fagner musicou um lindo poema da maravilhosa Florbela Espanca. A bela melodia por ele criada amalgamou-se com a bela poesia d'a Mensageira das Violetas tornando-se canção popular que milhões cantam pelo Brasil e - espero - também em Portugal e alhures: "Minh'alma de sonhar-te anda perdida. Meus olhos andam cegos de te ver!" Uau! Florbela Espanca, alentejana, sempre me encantou pela sua poética delicada, ousada, forte, corajosa, inovadora, transgressora, rica, doce e fundamentalmente feminina. Estes predicados aê cabem todos na definição da própria Florbela que abria seu peito nu e libertava um vulcão de sensações e sentimentos que certamente caíam como uma bomba no conservadorismo lusitano do início do século passado. E Florbela, o lirismo e a coragem em pessoa, gritava a todos seu orgulho de ser mulher e de amar como tal. Da carne à alma. Dela, estes versos de deixar babando quem na alma traz a poesia:
O maior bem
Este querer-te bem sem me quereres,
Este sofrer por ti constantemente,
Andar atrás de ti sem tu me veres
Faria piedade a toda gente.
Mesmo a beijar-me a tua boca mente...
Quantos sangrentos beijos de mulheres
Pousa na minha a tua boca ardente,
E quanto engano nos seus vãos dizeres!...
Mas que me importa a mim que me não queiras,
Se esta pena, esta dor, estas canseiras,
Este mísero pungir, árduo e profundo
Do teu desamor, dos teus desdéns,
É, na vida, o mais alto dos meus bens?
É tudo quanto eu tenho neste mundo?
280114