20 outubro 2009

A Bahia, o ICBA, a Alemanha e nós, soteropolitanos.


O cinema americano sempre usou de seu glamour para alimentar nas pessoas ódios raciais, visões estereotipadas e preconceitos contra povos que seus financiadores julgavam serem impecilho contra a sanha imperialista de seu país. Não é por acaso que ao ouvirmos o nome Alemanha nos venha à mente qual uma idéia fixa, o nazismo que tanto repudiamos. Como se cada cidadão teuto fosse um execrável nazista em potencial. Aqui na Bahia, ao contrário, as pessoas - ao menos as mais informadas - têm para com a Alemanha um sentimento de gratidão eterna. Nada a ver com o belo futebol de Franz Beckenbauer e outros craques tedescos. Tudo devido a um germânico de nome Roland Schaffner que nos anos 70 dirigiu o ICBA, Instituto Cultural Brasil-Alemanha, uma entidade oficial alemã que não se limitou a nos revelar o melhor da admirável cultura da terra de Goethe e de um interminável lote de brilhantes filósofos e artistas. Foi muito além disso, irmanando-se com as gentes da Bahia em um tempo, página infeliz da nossa história, passagem desbotada na memória de nossas novas gerações em que um magote de eqüinos engalanados em verde-oliva tomaram o poder e nos desgovernaram por duas tristes décadas. Com seus coturnos pisavam nossos plexos, jugulares e pomos-de-Adão, sufocando-nos e tirando-nos a voz. Foi então que Schaffner, usando de altruísmo, de senso democrático e de muita coragem abriu e deixou abertas as portas do ICBA para abrigar os baianos mais conscientes que queriam escapar do jugo dos imbecis em gandolas sequiosos de nos impor o que deviámos ver, ler, falar e até pensar. Seus braços truculentos não alcançavam a entidade oficial alemã, seus coturnos sujos de sangue não podiam ali pisar. Invadir o ICBA seria invadir a própria Alemanha. Então ali, naquele autêntico oásis democrático, podíamos ver exposições e também expor sem as amarras da censura em voga no país. Podíamos desenhar, pintar, ver peças teatrais, atuar nelas, ler. E o fazíamos. Líamos, conversávamos, sonhávamos, ríamos, vivíamos. Os ares libertários do ICBA eram os que queríamos respirar nas ágoras de nossa urbe. Hoje, amainada a tempestade da quartelada nefasta, nos ficou um país de visíveis castas onde a desigualdade é gritante. Uns poucos nadam em dinheiro e vivem nababescamente e para eles o paraíso é aqui. Um contigente de sofredores têm que lutar arduamente para sobreviver. E há um outro contigente que só faz aumentar, um número assustador de gentes que transitam na maior indigência, mostrando a quem queira ver que o país que nos legaram os ditadores é uma fábrica de desassistidos, de desqualificados, de marginalizados sem chances. Entre eles aquele guri franzino de sete, oito anos que dentro de poucos dias, com a mente entorpecida pela cola ou pelo crack, meterá uma bala no meio dos cornos do transeunte que retorna de sua faina com uns poucos cruzeiros no bolso. E rezemos, rezemos muito para que este transeunte não seja um de nós. Temos tudo para sermos desesperançados mas não somos. Gente como Roland Schaffner nos mostra que há um modo correto e justo de se agir com os semelhantes. Que ética pode ser mais que uma palavra nas páginas iniciais do Aurélio. Que democracia não deve significar a opressão de muitos por uns poucos. Que para as trevas sufocantes que nos querem impingir a todo instante e de todas as formas, devemos nos unir e, como o seu famoso conterrâneo, von Goethe, clamar em altos brados "Luz!Luz!Deixem entrar a luz!"

19 outubro 2009

Nildão, cartunista, artista gráfico e grafiteiro: trivialidades sobre um cara nada trivial

Um sujeito vestido formalmente, uma cadeira, uma mesinha, uma sinuosa fila de enfadadas pessoas à espera de uma dedicatória. Isto é o que se pode prever no lançamento do livro de qualquer autor. Qualquer? Não quando este autor se chama Nildão, um cara que usando de sua alta criatividade e sua proverbial joie de vivre transforma um evento invariavelmente maçante em um acontecimento prazeroso, um ponto de encontro de gente descontraída e de bem com a vida, cheio de festividade, lúdico, divertido, dançante e memorável. Assim soem ser os lançamentos dos livros deste artista do grafismo, do cartum e da própria vida . E ele tinha que escolher o Humor como forma de manifestação, vez que os pais mostraram serem criativos e bem humorados quando na pia batismal - sem consultá-lo - o nomearam Josanildo. Os amiguinhos não disseram nada, mas pelo não, pelo sim, acharam por bem chamá-lo apenas de Nildão, que é como ele ficou conhecido até hoje em Jacobina, Soterópolis, Sampa e em Paris sendo que semelhante alcunha no aumentativo certamente pode levar qualquer um a induzir de maneira equivocada que seu portador não pode jamais ser um artista e sim um troglodítico beque central de alguma altaneira esquadra do popular esporte bretão que só deixa a grande área para matar a jogada, eufemismo que os frenéticos e irrefreáveis cronistas esportivos usam para descrever aquele lance em que os chamados zagueirões derrubam algum desavisado adversário com um impiedoso e fatídico chute nos quibas e / ou adjacências. Qual o quê, minhas gentes. Nildão é figura mais que leve tanto fisicamente quanto no seu modo de ser. E sabemos que a grande área em que ele transita é bem outra e que engloba além dos ditos cartuns e grafismos um lote de coisas que requeiram o uso de uma cuca competente e saudável como a dele. Nildão grafita. Nildão anima ( nunca desanima ). Nildão logotipeia. Nildão cria frases. Nildão faz Hai-Kai. Nildão agita mas não cai. Foi por eu tentar transitar nas mesmas áreas que o acabei conhecendo há mais de 30 anos e nos tornamos amigos desde então. E além de amigos, nos tornamos cúmplices em parcerias diversas. O ex-Josanildo é pródigo em qualidades positivas sendo talvez a mais forte delas sua incrível postura altamente racional diante das coisas o que costuma livrá-lo das armadilhas dos estereótipos e dos preconceitos de todas as ordens. Improvisações descabidas, amadorismos inócuos, escolhas precipitadas ou calcadas em passionalidades vãs não compõem seu estilo profissional que sempre primou pelo aperfeiçoamento do seu próprio saber. Para tanto muito se informou e entre outras coisas leu muito e de tudo. Sua seriedade profissional não o impediu de ser a pessoa amável que é, carismático, agradável, agregador, detentor de um sorriso sincero e franco, de um bom-humor contagiante, astral elevadíssimo, solícito, um monstro para fazer amigos, tendo sempre para eles um abraço afetuoso e acolhedor sem nunca ter almejado nenhum cargo público. Não me limitei a comprovar de perto estas virtudes Nildônicas pois embora sejamos tão distintos um do outro, de há muito percebi que algumas atitudes e posturas que adoto com a maior propriedade têm muito do que assimilei deste tão querido amigo que sabe viver a vida com sabedoria de guru qual um Mr. Natural do Robert Crumb em versão baiana, sempre aboletado entre nuvens em seu Nirvana na cobertura do Edifício Pedrão, ali na Rua Carijós, no Rio Vermelho. Josanildo, pra você meus mais respeitosos e fraternais amplexos e ósculos, bró!
(Publicado originalmente em 19 de outubro de 2009)