06 fevereiro 2017

Affonso Manta, um poeta maior da Bahia

A mais inquestionável das verdades, preclaro e perfulgente leitor, é que nascer  aqui, nesta afroterra chamada Bahia, é nascer poeta. Eu próprio - confesso prenhe de justificável orgulho - com notável frequência sinto em mim o borbulhar do gênio e aí, a torto e a direito, dou minhas cacetadas poéticas cujo refinado e sutil lirismo fariam babar o gauche Drummond, o criativo e multifacetado Fernando Pessoa, o esverdeante Lorca, o pasargástico e alcalóidico Bandeira e tantos inspirados vates mais. Se uso pseudônimo quando isto ocorre, não é por vergonha e sim  pelo mais subido e nobre sentimento de invejável modéstia. Então, gentes finas, quando lhe pedirem para citar nomes de vates baianos, não fiquem restritos ao magistral Castro Alves e seus condores abolicionistas ou a Gregório Boca do Inferno de Mattos e suas impudicas freirinhas. Mostre quão vasto é seu cabedal de conhecimentos, cite e declame esta deliciosa poesia que aqui posto em que Affonso Manta, talentoso bardo soteropolitano, se autodefine de irreverente maneira. O poeta Manta se foi deste mundo em 2003, mas sua poesia criativa, deliciosa e com um capitoso aroma de juventude permanece entre nós, viva, muito bem viva. Leia e comprove.

Lá vai Affonso Manta
Com estrelas na testa de rapaz,
Com uma sede enorme na garganta,
Lá vai, lá vai, lá vai Affonso Manta
Pela rua lilás.
Coroa de alumínio sobre o crânio,
Lapelas enfeitadas de gerânios
E flechas no carcás.
Manto florido de madapolão,
Bengala marchetada de latão,
Desfila o marechal,
O rei da extravagância, o sem maldade,
O campeão de originalidade,
O peregrino astral.
(02/03/14)